Santuário escrita por Mallagueta Pepper


Capítulo 16
Trabalhando com D. Morte Parte II


Notas iniciais do capítulo

O trabalho da D. Morte também tem seus momentos tristes...




A noite tinha caído quando Nina retornou ao Santuário. Mais máquinas tinham chegado e ela se sentia muito desanimada. Era só questão de tempo até aquele lugar ser todo destruído e não havia nada que pudesse ser feito.


Tália a recebeu, mostrando a mesma tristeza assim como as outras ninfas. Destruir os equipamentos e assustar os empregados só ia adiar o inevitável. Mais cedo ou mais tarde aqueles humanos acabariam vencendo.


– Nina, eu estou com medo. O que vai ser de nós se esse lugar for destruído?

– Eu não sei... realmente não sei...


Ela abaixou a cabeça e Tália viu que sua amiga também estava triste por causa do anjo. Aquilo também devia ser muito triste, amar uma pessoa e não poder viver esse sentimento.


As duas se banharam no lago e foram se recolher mais cedo. Não havia ali clima para festa e música. E Nina sabia que Ângelo também não iria visitá-la naquela noite, já que ele estava tentando se manter distante para evitar quaisquer tentações.


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Há quanto tempo ele não usava toga? Aquele tipo de roupa tinha saído de moda há séculos e nenhum anjo se vestia daquela forma. Eles tinham adotado o vestuário humano de cada época e já se acostumaram assim. Ângelo acompanhava D. Morte sentindo-se meio ridículo com aquela roupa que mais parecia uma fantasia de carnaval. Ainda bem que ela não tinha lhe pedido para levar uma harpa.


E por que aquele trabalho exigia que ele usasse aquele tipo de roupa? D. Morte não tinha dado muitas explicações, apenas mandou que ele se vestisse como um anjo tradicional.


– É aqui. Vamos que está quase na hora e eu não gosto de me atrasar.

– Por quê? Não é bom dar mais um tempo de vida para a pessoa?

– Nem sempre. Em alguns casos, isso só prolonga o sofrimento e não acrescenta nada.


Ele ficou mudo depois dessa resposta e continuou a acompanhando em silêncio. Eles entraram em um hospital, deixando-o um pouco ansioso com o que viria a acontecer. Estava claro que D. Morte pretendia levar um dos pacientes.


Os dois caminharam pelos corredores até ficarem diante da porta de um dos quartos. Antes de entrarem, D. Morte mudou sua aparência bem diante dos olhos dele, assumindo a forma de uma mulher com cabelos pretos presos num discreto rabo de cavalo. As roupas continuaram iguais, somente mudando a forma do seu rosto.


– Uai! Eu não sabia que você podia fazer isso!

– Em casos especiais, eu mudo minha aparência para fazer com que a passagem da pessoa seja o mais leve possível.

– E esse caso é especial?

– Muito. Foi por isso que eu te trouxe também. Melhor falar de uma vez. Dentro desse quarto está uma criança de dez anos que...

– Ô, peraí! Você tá falando que vai levar uma criança de dez anos???

– Sim.

– Mas é só uma criança!

– Uma criança que está com câncer em fase terminal.


A garganta dele apertou.


– Agora você entende por que atrasar minha visita só iria aumentar o sofrimento dessa criança.


O rosto dela também estava muito triste. Embora gostasse do seu trabalho, alguns casos tinham o poder de partir seu coração. A morte de crianças era um desses. D. Morte não costumava ser muito gentil com os clientes, especialmente os fujões. Mas em se tratando de crianças, ela era mais branda e procurava fazer tudo de forma a não deixá-las traumatizadas.


– E onde eu entro nisso?

– Ele adora anjos e sempre foi seu desejo ver um de verdade. Eu poderia assumir a forma de um anjo, mas não ia ficar muito bom. Anjos não têm asas negras e eu queria trazer um que fosse autêntico.

– Entendo... então vamos entrar?

– Claro!


Dentro do quarto havia um menino muito franzinho estirado na cama. Ele tinha perdido todo seu cabelo, estava ligado a alguns aparelhos que monitoravam seus sinais vitais e sua pele estava branca como cera. Ali perto estavam seus pais, que acompanhavam seu estado entre a esperança e a desolação. Ângelo teve que se segurar muito para não chorar. Afinal, anjos não choravam.


As paredes estavam enfeitadas com pôsteres e quadros de anjos e ele viu que aquele garoto devia estar ali há muito tempo, tanto que o quarto já tinha sido decorado especialmente para ele.


Quando os dois chegaram perto do menino, ele abriu os olhos e deu um largo sorriso ao ver Ângelo perto da sua cama.


– Estou vendo um anjo! Olha, mãe!


A mulher obviamente não tinha visto nada e logo pensou que o garoto estivesse vendo alucinações.


– Melhor eu chamar o medico. – o marido falou. – Não demoro.


Ângelo curvou-se um pouco para falar com o menino.


– Qual é o seu nome?

– Marcio. Eu tenho dez anos.

– Você sempre gostou de anjos?

– Sempre. Será que algum dia eu vou virar um?


“Se ele soubesse como a vida de um anjo é limitada, jamais pediria uma coisa dessas.” Ele pensou sem demonstrar para o garoto o que sentia. Aos olhos do menino, ele era um anjo clássico de olhos azuis e cabelos encaracolados que usava uma toga bem branca, tinha asas com penas macias e uma aureola sobre a cabeça.


– Suas asas são tão bonitas... eu posso tocar?

– Claro! – ele abriu uma das asas para que o garoto pudesse alisar suas penas. A mãe do menino assustou-se ao ver o filho com o braço estendido como se estivesse apalpando alguma coisa no ar.

– Marcinho, você não pode fazer força!

– Estou pegando na asa do anjo, mãe! Ele é igualzinho os que eu vi nos livros de historia!


A mulher começou a ficar preocupada com aquilo. E se não fossem alucinações? E se fosse mesmo o anjo da morte que estava ali para buscar seu filho? Ela torcia as mãos nervosamente, esperando que o médico chegasse logo. Não demorou muito e seu marido voltou com o médico, que pediu aos pais que saíssem do quarto.


– Será que é boa idéia? Eles não vão poder se despedir do filho...

– Melhor assim, Ângelo. A dor e tristeza deles poderiam atrapalhar. Bem, está na hora.


Ela começou a atuar no corpo do garoto usando sua foice, rompendo as ligações do espírito com o seu corpo bem lentamente. Aos olhos do médico, o estado do menino começou a piorar, fazendo com que ele chamasse a enfermeira, que veio trazendo outros enfermeiros que levavam remédios, balões de oxigênio e injeções.


O quarto ficou movimentado de repente, para desespero dos pais que esperavam do lado de fora. Outros médicos também tentavam ajudar aplicando injeções e monitorando os sinais vitais da criança, que estava aos poucos perdendo a consciência.


D. Morte não gostava muito quando aquilo acontecia, pois temia que a movimentação deixasse o garoto agitado e aquilo sempre dificultava o desenlace. Para sua sorte, Ângelo estava perto da criança segurando sua mão, o que contribuía para deixar o menino mais calmo.


– Seu anjo, por que os médicos estão em volta de mim?

– Está tudo bem, não precisa ter medo. Eu vou ficar bem aqui, certo?

– Você vai me levar pro céu?


Ele apertou os lábios com força e depois respondeu.


– Sim.

– E eu vou virar anjo?

– Quem sabe?

– Tomara que eu vire anjo, assim vou poder cuidar dos meus pais. Eles vão ficar tão tristes!

– É porque te amam.

– Aposto que ficariam felizes se soubessem que eu virei um anjo!


Seu corpo tremeu um pouco, lutando ferozmente para conter as lágrimas. Aquele garoto era muito forte, já que ele conseguia manter a serenidade mesmo diante da morte. Talvez nem a própria Mônica fosse tão forte assim.


– Eu estou ficando com muito sono...

– Então durma, vai te fazer bem.

– Não vai embora não, tá? Eu não quero ficar sozinho.

– É claro que eu não vou embora, pode ficar tranqüilo!


Com mais alguns movimentos da sua foice, D. Morte rompeu as últimas ligações que uniam o espírito do menino ao seu corpo. Com toda delicadeza possível, ela retirou o espírito dele do seu corpo e o pegou no colo, deixando que a criança pousasse a cabeça em seu ombro. Seu trabalho ali estava terminado.


– Podemos ir agora, Ângelo. Terminamos por aqui.

– Claro.


Levando a foice em uma mão e o garoto com o outro braço, ela atravessou as paredes sendo seguida por Ângelo. No corredor, eles viram o medico dando as notícias aos pais dele e viram total desespero por parte dos dois. Era de partir o coração e ele virou-se para a frente a fim de não acabar chorando.


– Por que lamenta, Ângelo? A morte não é o fim, é apenas uma passagem. Somente o corpo desse menino morreu. A essência dele permanece viva.

– Ele era tão jovem!

– Cada um tem o tempo certo para cumprir na terra e ele cumpriu o tempo dele. Agora é hora dele descansar. Daqui a um tempo, ele retornará com um corpo novo em folha.

– E os pais dele? Acabei ficando com pena...

– As pessoas sofrem porque não conhecem a morte. É por isso que sou tão temida e odiada, porque as pessoas acham que eu sou o fim de tudo sendo que sou apenas o término de uma fase e o início de outra.


Apesar de ela mostrar serenidade, Ângelo não pode deixar de notar que algumas lágrimas caiam dos olhos dela. Mesmo voltando à forma normal, ela ainda chorava.


– Ainda assim você chora...

– Porque nem sempre é fácil. Era um bom menino e se eu pudesse, lhe daria mais tempo de vida. Mesmo sabendo que ele ficara bem e um dia irá voltar com outro corpo, sei que cada vida é única e valiosa. E também tenho pena dos pais dele. Geralmente eu tenho mais pena dos que ficam do que daqueles que se vão.

– Se é assim, eu não entendo por que a senhora deixou aquele velho maluco viver e levou o menino.


Ela deu um sorriso e explicou com toda paciência.


– Todos têm seu tempo de vida, mas eu não tinha explicado que esse tempo de vida pode ser diminuído por causa de abusos da própria pessoa. Você sabe... vícios, pensamentos ruins, má alimentação...

– Sei.

– Então. Com todos esses fatores, o tempo de vida da pessoa se reduz a não ser que ela tome consciência e mude. A vontade de viver também tem influência nisso. Quando a pessoa perde a paixão pela vida, seu tempo também diminui.

– E o que aconteceu com aquele homem?

– Quando me viu e percebeu que a vida dele podia acabar ali mesmo, ele mudou e sua vontade de viver voltou redobrada. Com isso, ele poderá viver um pouco mais do tempo que lhe resta.

– E se o tempo dele tivesse acabado mesmo?

– Aí aquela espadinha mixuruca não teria me assustado. Que mal ele poderia nos fazer? Somos imortais, lembra?


Quando eles saíram do hospital, havia um homem com roupas claras esperando por eles e D. Morte lhe entregou o garoto, que ele segurou nos braços de maneira paternal e foi embora indo em direção a luz.


– Pronto. Nosso trabalho aqui está acabado. – ela falou enxugando as lágrimas. – Só não entendo como você conseguiu segurar as lágrimas até agora!

– Porque eu sou um anjo e anjos não derramam lágrimas.

– Quem disse isso? – ela perguntou incrédula. – Quem disse que anjos não choram?


Daquela vez foi Ângelo quem se assustou. Será que ela ignorava tanto assim a natureza dos anjos?



Notas finais do capítulo

Uma pequena explicação: nessa história: http://www.monica.com.br/comics/hora/welcome.htm D. Morte adota uma aparência humana, mostrando que é capaz de mudar de forma. Por isso adicionei esse detalhe ao capítulo.



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