Ps: Dont Write escrita por KILL JOYS


Capítulo 7
The Mortician's Daughter




PS: Don't Write

Chapter Seven: The Mortician's Daughter

E num repente, a festa pareceu muito mais incômoda do que normalmente.

As pessoas me empurravam no balançar do som alto, e eu não conseguia me manter firme, apesar de estar de pé. Em minha frente, tinha um conjunto de mais ou menos seis pessoas, sentadas em uma mesa, desfrutando de um prazer vicioso no qual eu preferia não lembrar a existência. E dentre as pessoas que respiravam daquele pó branco, Sasuke estava no meio.

Naquele momento, meu coração se distribuiu em quinhentos sentimentos difenrentes, e eu não consegui diferenciar ou definir todos eles.

Primeiro, eu me senti prepotente. Depois, acho que um pouco surpresa. Mas eu não poderia esperar muita coisa, certo? Digo, céus, conheci Sasuke em uma boate. Eu vi em sua cara a perversão se formar nos sorrisos e nas brincadeiras, vi seus olhos me esconderem segredos. Eu sabia que poderia, e deveria me preparar para deparar com aquele tipo de situação.

Senti-me irrelevante, também. Eu não conheço Sasuke. Eu não era sua amiga de muitos dias, eu não era nada seu. Nós nos conhecíamos por apenas catorze dias.

Meus olhos encheram d’água, e eu me senti afogar. Eu não deveria ser nada para Sasuke, eu não sou nada, eu não deveria sentir nada, então por que, por que raios aqueles catorze dias foram suficientes para me fazer sentir mal em relação a isso?

Por que eu quero tanto acolher Sasuke em meus braços e acordá-lo, para ele não ter e ver que não precisa fazer mais aquilo?

Virei-me de costas. Meu cérebro mandava comandos rápidos, e minhas pernas saíram devagar.

“Sakura” Eu ouvi meu nome, e reconheci aquela voz. A voz grave que eu conhecia muito bem, para quem tinha menos de um mês de convivência. Virei meu corpo e fui empurrada mais um pouco. “Você veio, então.”

“Vim.” Eu disse, mas não sei se ele havia escutado. E ele riu. Riu uma risada triste, abandonada, e eu soube, naquele momento, que eu nunca mais iria querer ouvir aquela risada novamente.

“Achei que não gostasse desse tipo de lugar” Comentou, balançando o corpo entrando na música. Preferi não escutar qual era para não ter que gravá-la na memória, e sofrer comigo mesma ao ouvir por entre memórias desorganizadas.

“E não gosto, por isso estou indo embora” Disse sorrindo um pouco, caminhando para a porta. Ele deu ombros, e virou para trás. Procurei Ino quase que imediatamente.

Porque no fundo, eu sabia que não era problema meu Sasuke usar seja lá o que. A vida não era a minha, afinal. Não eram os meus neurônios que estavam se contorcendo até serem destruídos, não era eu quem estava tentando encontrar um método de felicidade prático. Não era minha vida, e eu não tinha nada a ver com isso.

Eu sabia daquilo tudo, mas o que me incomodava, não era o fato de Sasuke tê-lo feito – o que eu acho que não seja a primeira vez. E sim o fato de que eu estava me importando com ele. Eu estava me importando com Sasuke e céus, a sensação era de que eu estava perdendo-o.

Mas eu não posso perder o que eu nunca tive.

E já quase na porta, ouvi a música aumentar. Olhei para a multidão, e vi Sasuke subir na mesa para dançar. Minhas lembranças do dia da boate se misturaram ao som do presente, e eu não sabia dizer qual era a diferença naqueles olhos escuros. Talvez, eles estivessem mais tristes.

Dentre a música e a dança, eu conseguia ver os olhares indiscretos para Sasuke. Pareciam querer comê-lo, e eu me odiei naquele instante por ter reparado nisso.

“Ino, eu vou para casa” Falei alto, e minha boca estava seca. Ela sorriu, talvez, achasse que estava tudo bem.

E por que não estava?

Olhei para trás mais uma vez, e Sasuke havia saído de cima da mesa, mãos dadas com alguma garota. Céus, isso não tinha nada a ver comigo.

Isso não era de meu interesse, mais ainda assim eu estava indo em passos rápidos até o quarto onde ele entrou, e eu estava torcendo para que a porta não estivesse trancada.

“Sasuke!” Chamei ao abrir a porta bruscamente. O quarto estava escuro, e minha respiração descompassada. “Sasuke, pelos deuses, saia daí, você está ...”

“O que você pensa que está fazendo?” Ouvi a voz feminina falar. O que eu pensava estar fazendo? Deixando-me levar por uma vontade minha da qual eu nem sabia da existência.

“Sasuke, vem, anda” Eu disse mais uma vez, puxando-o pela mão, saindo do recinto escuro.

Ainda de mãos entrelaçadas, andamos – eu o puxei – até a varanda, longe de muitas pessoas. Suspirei ao escorar na grade enferrujada.

“Me desculpe” Pedi. Sasuke, que já não parecia estar tanto no efeito da droga, escorou-se do meu lado. “Você estava ébrio e eu pensei que poderia fazer algo que não quisesse realmente, apesar de que eu sei que não tenho nada a ver com isso e...”

“Obrigado” Ele agradeceu. Seus olhos já não estavam tão avermelhados, e ele parecia mais normal. Mais lúcido. E eu agradeci por isso.

Ficamos em silêncio, creio que por uns bons vinte minutos. Sasuke abaixou a cabeça, e reclamou estar com dor. Concluí que fosse algum efeito da droga. Ele suspirou. Levantou o rosto mais pálido que o normal, e me olhou nos olhos.

“Já disse como amo a cor verde dos seus olhos?” Ele perguntou, e eu não pude evitar olhar também para o escuro de suas orbes. “Eles me lembram o outono. Eu amo o outono.”

Não respondi. Ficamos um tempo ali, um olhando para a cara triste do outro. Não falamos nada, e não nos perguntamos nada. E pela primeira vez, aquele silêncio não estava me incomodando. Por que eu sabia que ele, assim como eu, estava pensando o que raios estava acontecendo com a gente.

“Obrigado” Ele repetiu. “Tem um tempo que ninguém se importa comigo desse jeito”

“Eu não -”

“Sério, obrigado. Eu... Não sei como agradecer. Eu ia mesmo fazer uma grande bobagem.” Sorriu. E diferente de várias vezes, aquele não foi um sorriso triste, ou um sorriso costurado em meio de diversas segundas intenções. Não era um sorriso galanteador, não era um sorriso falso, não era um sorriso debochado. Era um sorriso tão verdadeiro, tão intenso e aberto, que eu não pude me conter, sorrindo também. Era um sorriso apaixonante, e eu me senti apaixonada.

Eu me senti apaixonada, do mesmo jeito que eu estava me sentindo todos os dias nas últimas catorze vinte e quatro horas.

“Eu nunca fiz isso” Ele disse voltando a olhar a noite.

“O quê?” Perguntei, distraída.

“Eu nunca inalei essas coisas antes” Ele disse, abaixando a cabeça.

“Você não me deve nada, Sasuke” Eu disse com pesar, apesar de ser a verdade.

“Eu sei, é que...”

A frase morreu. Eu olhei sua estrutura cansada apoiada na grade, e passei a mão em seus cabelos lisos.

“Sabe, aquele dia você me levou para ver sua mãe. Acho que hoje é um bom dia para eu te levar em um lugar especial também.” Engoli seco. Eu iria fazer aquilo, e levar Sasuke para um lugar que nem mesmo Naruto sabia que eu presenciava.

Ele sorriu novamente, e eu dei passos curtos, esperando que ele me seguisse pela saída. E naquele momento, eu me lembrei de que eu realmente era mais velha que Sasuke, e estava parecendo como sua irmã mais velha, lhe tirando de uma festa desarrumada.

Ino me viu de longe, e deu um aceno sorridente. Talvez ela soubesse para onde eu estava indo.

Fomos até meu carro, estacionado não muito longe dali. Sasuke estava logo atrás de mim, e pelos seus passos, pude perceber que ele estava mais leve.

E eu, que sou tão certa em relação a mim mesma e emoções, não sei explicar o que estava sentindo no momento. Era um preenchemento tão grande, como se abraçassem meu peito e acolhessem meu coração de palha.

Acho que, depois que conheci Sasuke, foi como se eu fosse um grande espantalho esquecido em um milharal seco, e tivesse de repente tomado vida.

Mas acontece que eu nunca deixei de ser um espantalho.

Eu nunca deixei nada para ficar com Sasuke, e no fundo, eu não sei se deixaria.

Foram 20 minutos de carro, percebi que já era madrugada – já era domingo, já tinham quinze dias. Uma música tocava baixinho no rádio que eu não distingui qual, mas Sasuke parecia cantarolar baixo sua letra. O céu estava escuro, e as estrelas ralas. Logo chegamos onde eu queria.

Estacionei, e saímos do carro quase apressados.

O grande portão torto, o cadeado solto.

“Um cemitério?” Ele perguntou, meio surpreso. Olhou-me de lado, confuso. Eu sorri acanhada.

Aquele cemitério havia sido descoberto por mim há muitos anos atrás, quando minha avó havia morrido. Porque quando ela foi enterrada na grama tão verde e brilhante do cemitério de nosso bairro, eu me senti mal. Com apenas 12 anos, eu me senti mal por estar fazendo aquilo. Enterrar o corpo de minha avó, minha amiga e conselheira de brincadeiras em um campo florido, como se esperasse que algum dia, ela fosse voltar e me agradecer por ter dormido cheirando a flores.

Mas ela não iria voltar, e não iria me agradecer.

E foi caminhando pela cidade, que descobri aquele cemitério tão vivo. Eu me encontrava naquele lugar, naquela ausência de cores. Eu encontrava a morte ali, e eu consegui compreender a ida da vovó por trás daquelas grades tortas e cinzentas. Eu só consegui me contentar, e conviver, por estar tão próxima da infelicidade da vida, como eu estava naquele lugar.

O cemitério menos inusitado da cidade, e a meu ver, o mais bonito. Por que ele mostrava que a vida era só mais uma história triste para chegarmos a um final incolor. E eu abri o cadeado solto, e empurrei as grades frias. Os orvalhos caíram com o movimento, e eu me senti diferente.

Visitar aquele lugar era sempre remoer meus sentimentos irreversíveis e sem continuação. Era como reclamar de algo que nunca iria mudar só por que eu não poderia fazê-lo mudar, por não querer mudar. Normalmente eu iria sentar do lado das pequenas cruzes, e me deleitar com um pouco de álcool.

Mas era diferente. Eu me senti diferente, por que estava com Sasuke.

“Bem vindo ao meu lugar preferido da cidade” Eu disse rindo, e sentei em cima de um túmulo mal colocado mais para o meio. Ele sentou ao meu lado, quase que indiferente.

“Acho que eu não me enganei quando pensei que você era diferente” Ele disse divertido, cruzando as pernas. Eu ri, sabia que ele não iria compreender, eu não conseguia compreender. Eu apenas gostava de estar lá – no silêncio, na solidão, no conforto de almas sem carne.

“Me achou diferente quando me viu?” Perguntei curiosa.

“Tá escrito na sua cara” Ele riu, me empurrando de leve. “Mas é por você ser diferente, que meus sentimentos por você são igualmente diferentes”

Olhei para seus olhos. Óh, aqueles malditos olhos. Tão escuros, mas ainda assim claros o suficiente para me fazer delirar ali, como todas as vezes.

“Sentimentos diferentes?” Perguntei de novo.

“Seria clichê se eu dissesse que não tenho medo de tentar com você, apesar de eu realmente não ter.” Ele disse olhando para o céu, e eu olhei para o mesmo também. Não tinham muitas estrelas, e o céu estava quase fechado de nuvens, e o inverno bateu nas grades do cemitério. “Acho que, com você eu não tenho medo de esperar, sabe? Eu não tenho medo de esperar você largar seu marido para me dar aquele beijo que você está me devendo.”

“Mas eu não estou te devendo um beijo” Minha frase saiu tremida, e sumiu no final.

E antes de qualquer hipótese, Sasuke colou de leve seus lábios nos meus, e eu pude contar quatro segundos no contato.

“Agora está” E sorriu.

“Sasuke!” Exclamei. Ele riu divertido, e eu não pude manter a face nervosa. “Você tem noção do que -”

Não terminei a frase, e Sasuke virou-se para o lado, com a mão na cabeça – achei que fosse vomitar.

“Tá tudo bem?” Perguntei rápida. Coloquei a mão em seu pulso direito para contar os batimentos do coração por 10 segundos, e medi sua temperatura pelas costas da mão. Ele estava um pouco mais frio que normal. Imaginei se não seriam os efeitos da droga e do álcool exageradamente consumido.

“Tá, tá tudo bem, foi só uma leve tontura.” Ele disse, se reconstituindo. Seu sorriso montou-se fraco.

E esquecendo-me do beijo, da tontura, do pó branco na mesa, das palavras conflituosas de Sasuke, conversamos sobre vários, e de novo, banais assuntos. Não me lembro de qual foi a última coisa sobre a qual conversamos, e não me lembro de como dormi – apesar de lembrar que senti um perfume condensar em meus sonhos, e de ser acolhida por um par de braços confortáveis.