Cassis (Série Alestia I) escrita por Jane Viesseli


Capítulo 17
Cerimônia Fúnebre




Dois dias se passaram desde o falecimento do rei. Nicolas havia trabalhado duro para trazer as devidas honras ao finado governante e amigo, enquanto Cassis dedicava total atenção aos comunicados reais, numa tentativa de esquecer o incidente em seu quarto, no dia anterior.

Reinos foram anunciados e toda a nobreza foi convidada para a cerimônia que aconteceria na Cidadela Principal. O céu estava cinzento naquele dia e até mesmo a vegetação, que sempre parecera alegre e viva, parecia apática sob o prelúdio de um funeral. Soldados rodeavam a mesa de pedra para manter os espectadores afastados, enquanto os homens de menor patente depositavam lenha e feno ao redor e sobre a grande pedra.

Sim! O corpo do rei seria cremado. Nenhum pedaço de sua carne permaneceria naquela terra para que não fosse profanado ou desonrado, pois este era o funeral digno de um rei.

Naquela manhã, enquanto os últimos preparativos da cerimônia eram realizados, Sara se refugiou novamente na Sala das Lembranças, pois teria de acompanhar o cortejo fúnebre até a Cidadela e precisava estar preparada para este momento tão doloroso, pois, apesar dos acontecimentos perigosos com Cassis e de ela ter se abstraído de sua angústia por um instante, a realidade do falecimento de toda a sua família sempre retornaria para abatê-la.

Enquanto isso, no hall de entrada, Cassis conversava descontraidamente com Sir Thorkus, aguardando o início do rito.

― O que o acertou, Cassis? – pergunta Thorkus em determinado momento da conversa, depois de observá-lo o suficiente para notar que não tinha mais o semblante controlado de antes.

― Nada, por quê? – questiona desconfiado, analisando a si mesmo para manter a discrição de suas emoções e não parecer um humano bobo.

― Dois dias sucederam o infeliz acontecimento na família real e parece estar feliz, já saiu de seu luto?

― Enquanto Sara estiver em luto, eu também estarei – retruca o vampiro, mais sério do que o necessário para uma conversa que havia começado de forma tão descontraída.

― Então, por que me parece contente? Desde que aderimos à aliança com os reinos do sul e do norte, tenho visto os não-vivos escolhidos ficarem irados com seus cônjuges humanos, para dizer o mínimo, mas feliz é a primeira vez… O que sucedeu entre vocês?

― Nada demais. – Olha para os lados, tentando mostrar descaso com o assunto. O ancião não havia esboçado expressão alguma ao questioná-lo, entretanto, Cassis sentia-se nervoso e envergonhado. – Estamos somente nos dando bem… Eu… Ela… Quero dizer, as brigas estão diminuindo. Estamos bem.

― Melhor do que imaginava, pelo que observo. Repare em si mesmo, está perdendo as palavras e o controle de seu vitae novamente. – Estreita os olhos, arriscando um palpite. – Pare de corar dessa maneira ou acharei que está apaixonado.

Cassis arregala os olhos diante de tais palavras, já que nunca tinha pensado naquele assunto. É claro que ele via Sara como mulher, sempre tão linda, bem-arrumada, de bom caráter e naturalmente sedutora, mas nunca se imaginou apaixonado por ela. Refletindo melhor no contexto “Sara”, o vampiro finalmente se dá conta de que, desde que expôs sua antiga ferida para ela, Violeta estava sendo deixada para trás, afundando-se no profundo de sua mente como uma pedra dentro de um rio, retornando cada vez menos à sua memória.

Era estranho pensar que aquele sentimento de culpa não estava mais lá e que à imagem da camponesa de cabelos negros e olhos claros não voltava à sua mente com tanta frequência quanto antes, como se o seu antigo amor tivesse desaparecido. Cassis nunca mais sentiu o remorso de sua morte, nunca mais desejou voltar no tempo e mudar tudo. Sara não era uma feiticeira, porém, o fez sentir-se bem novamente, curando-o do que ele mesmo nunca conseguiu, deixando o seu passado ficar no passado, como uma espécie de magia. Será que aquilo queria dizer alguma coisa?

― Vamos, está na hora – alerta Thorkus ao ouvir os cornetos soarem na Cidadela, interrompendo o devaneio do filho e caminhando em direção aos portões de saída do castelo, rumo à cerimônia que seria articulada por um arquiduque de Alestia, o título mais alto do reino depois do principado de Sara.

Não havia pressa nos passos dos vampiros, pois não tinha necessidade de se adiantar para um acontecimento como aquele. A grande praça estava repleta de pessoas, a dor e as lágrimas dos alestianos pareciam se fundir com o ar de morte, transformando aquela reunião em algo realmente desgastante e desoladora.

O cortejo do rei não demora a chegar à Cidadela, rodeada de soldados e sendo seguida por uma única dama em luto. O corpo é depositado respeitosamente sobre a pira na mesa de pedra, coberto por um manto vermelho com o leão de Alestia bordado em fios dourados, e sobre seu peito foi depositada a coroa de ouro maciço, com enormes rubis em sua base, o símbolo de sua grandeza e vitória, que por tradição familiar não poderia ser repassada para ninguém, pois cada rei era digno de sua própria coroa.

Independente do nível social, todos os moradores de Alestia estavam presentes na cerimônia para que pudessem saber que Arthur, o Inabalável, morreu como um grande rei. Os portões da cidade permaneciam abertos a todos que quisessem ouvir as palavras do arquiduque, apesar de muitos ainda aguardarem uma manifestação por parte de Sara, que preferiu se manter calada durante toda a cerimônia.

Em dado momento, as tochas foram acessas pelos soldados e lançadas sobre a pira, ateando fogo sobre o feno e a madeira seca. As chamas se espalham com velocidade, incendiando toda a mesa enquanto Sara observava seu crepitar com atenção, notando que elas pareciam crescer e ficar mais fortes a cada segundo, como se tivessem pressa em apagar qualquer vestígio de seu pai daquele mundo.

Seu olhar estava concentrado nas brasas, que balançavam de um lado a outro numa dança funesta, e quando, por reflexo, atentou-se para além da fornalha, viu a silhueta do príncipe vampiro também a observá-la através do fogo. Naquele momento, ter seu olhar sustentado pelo não-vivo fez seu pequeno coração humano se apertar, como se ele pudesse enxergar dentro de sua alma e puxar para fora tudo aquilo que ela queria esconder, fazendo com que as lágrimas de sua despedida escorressem silenciosamente por seu rosto cálido.

O fogo crepita novamente, apagando a silhueta do vampiro por algum tempo, mas antes que qualquer pensamento pudesse surgir em sua mente, Sara sentiu dedos macios e quentes secando-lhe as lágrimas. Ao seu lado estava Cassis, que rodeara a pira tão rápido quanto um piscar de olhos, assustando a todos os humanos no caminho, somente para segurar sua mão e lhe dizer:

― Estarei aqui para você, sempre.

Sara acena positivamente com a cabeça, ainda mantendo o contato visual, mas preferindo não pronunciar palavra alguma, por medo de desabar emocionalmente na frente de todas àquelas pessoas. O casal permaneceu ali, de mãos unidas durante a maior parte da queima do corpo, esperando a partida de todos os grandes convidados. E quando eles finalmente decidiram partir, vieram às despedidas.

Cassis podia sentir, mesmo que os humanos não, a angústia de Sara estampada em cada palavra pronunciada, em cada sorriso forçado que esboçava diante das condolências e em cada aperto mais forte que ela dava em sua própria mão. Ela sofria, mas se despedia com delicadeza de cada convidado da alta nobreza. Por um segundo, o vampiro sentiu raiva daqueles que a faziam passar por isso, era tão difícil perceber que Sara preferia o silêncio? Que ela sentia-se engasgar todas as vezes que abria a boca e tentava conter as lágrimas ao mesmo tempo?

Diante de tanta nobreza, a menina de cabelos curtos e corpo magro aparece, a mesma criança que tão alegremente havia reverenciado Sara durante a visita à Cidadela. Pacientemente, a pequena donzela abre caminho entre os grandes nobres, trazendo em mãos um colar de contas e parando somente quando conseguiu ficar frente a frente com a princesa.

― Meus pêsames, senhora – diz a menina, executando com todo empenho uma reverência que vinha treinando há semanas.

Sara faz menção de lhe dizer algumas palavras, como vinha fazendo com todos os que vieram antes da garotinha, contudo, antes que pudesse articular qualquer palavra, a criança levantou o indicador e a interrompeu:

― Shiiiii! Não é preciso dizer nada, vossa alteza, eu a compreendo. A sua dor é a nossa dor – explica, apontando em direção a um grupo de alestianos para enfatizar o que “nós” realmente queria dizer. – Minha família diz que a senhora é uma mulher muito forte e eu também acredito nisso, permita-me presenteá-la com este colar que eu mesma fiz – pede, aproximando-se lentamente das mãos unidas do casal e enrolando-as com o cordão de contas. – Meu pai diz que as contas podem realizar desejos, aqui coloquei dez, para que os anseios de vossa alteza se realizem logo e a senhora possa voltar a sorrir.

A menina toma distância, orgulhosa de si mesma ao ver que conseguira colocar um pequeno sorriso no rosto de sua princesa. E tal fato não passou despercebido por Cassis, que achou a atitude da pequena donzela louvável e a considerou a única pessoa sensata dentre todos àqueles nobres adultos.

― Qual o seu nome, criança? – pergunta o vampiro, fazendo o corpo magro da humana estremecer ao som de sua voz.

― Dina, vossa alteza. Filha de Oliver, o artesão – responde rapidamente, não ousando fazer contato visual com o não-vivo.

― Obrigado pelo seu gesto, Dina. Garantirei que isso entre em nossos registros reais – agradece o príncipe, dobrando o tronco numa leve reverência, fazendo a menina repetir o gesto e se afastar apressadamente, sem de fato entender o que significava ter o seu nome nos anais do reino.

À distância, Thorkus despede-se do filho com um aceno de cabeça, preferindo não se envolver tão diretamente com sentimentos que já havia abandonado há séculos. Para os vampiros em geral, a morte humana não significava nada, era apenas um obstáculo que, com a ajuda certa, poderia ser ultrapassado rumo a não-vida. E se o rei não recebeu tal ajuda, isso poderia ser encarado como uma tremenda falta de sorte, nada além disso, nada com o que se lamentar.

O lorde se vai, e depois de algum tempo, quando o último visitante da nobreza finalmente parti, Sara pôde fechar os olhos e relaxar, sentindo cada centímetro de seus músculos protestarem por descanso. Seu corpo balançava de tempos em tempos, trocando a perna de apoio a fim de prolongar sua presença ali, porque não poderia retornar ao castelo antes de sua despedida final, e, até então, havia pessoas demais ali para ouvir suas palavras.

Sara move os lábios numa oração silenciosa e quando seus olhos se abrem, observando as chamas da pira pela última vez, sua voz se torna audível com sua despedida:

― Obrigada, por ter me dado a vida junto à minha mãe. De ti me despeço!

Um breve silêncio se instala. A princesa estava quase se perdendo em lembranças enquanto observava a dança das chamas sobre o corpo de seu pai, quando é puxada de volta à realidade pelas palavras do vampiro:

― Vossa majestade – começa ele, com sua voz grave –, obrigado por confiar a mim o seu grande tesouro, não o desapontarei. – Sara arregala os olhos em surpresa, sentindo as batidas de seu coração aumentarem quando ele a olhou, insinuando que era ela a quem se referia como “grande tesouro”. – De ti me despeço!

Cassis sente a mão humana se apertar ainda mais contra a sua e os pulmões da princesa se encherem de ar, como se tomasse coragem para proferir as palavras que já estavam na ponta de sua língua. Contudo, seja lá o que Sara pretendia dizer ou fazer, foi interrompida devido à aproximação de um soldado da guarda interna do castelo.

― Aguardamos suas ordens, senhor. – alerta com respeito.

― Limpem o local o quanto antes, quero as cinzas e os pertences de sua majestade dentro da tumba real até o amanhecer – orienta, destinando os restos do corpo real ao túmulo de sua família, onde poderia se juntar a sua mulher e filho.

O vampiro, de repente, percebe que havia perdido uma ótima oportunidade de beijá-la, ao aceitar a interrupção do oficial e voltar sua atenção inteiramente para ele, e que talvez aquela oportunidade não voltasse tão cedo. Apesar disso, ele sentia-se estranhamente satisfeito por poder retribuir a ela, a mesma força que ela havia lhe dado quando revelou sua história. E enquanto retornavam para o castelo, o príncipe teve o prazer de sentir a mão humana permanecer grudada à sua, durante todo o trajeto, como se ele fosse o único a ampará-la naquele momento.



Notas finais do capítulo

Espero que tenham gostado :D



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