O Inverno Sem Fim escrita por ThayLOliveira


Capítulo 8
You're The One




 

Uma semana havia se passado. Nesse tempo tinha feito sua última sessão na fisioterapia, e os últimos exames de rotina. Os resultados tinham saído no dia anterior e recebeu de Daniel Lynch sua certeza de que ganharia alta. Sua mãe fora a primeira a saber que iria sair do hospital em breve e ligou para Wattson pedindo uma carona para levar todas as suas coisas no dia seguinte. Estava animada, e naquele dia conseguiu não pensar no beijo de Charlie e na ligação de Phelipe. Finalmente iria poder sair, sentir a neve com suas mãos, iria reunir-se com seus amigos para jogar, festejar, beber. Natal não estava tão longe dali e mal podia esperar para planejar o que fazer.

Rias começara a guardar suas coisas nas três mochilas que sua mãe havia trazido. A primeira mochila foi inteiramente para guardar os livros, a segunda mochila outra ficou cheia de roupas e a terceira mochila fora para guardar outras coisas, como shampoo, condicionador, desodorante, perfume etc. Alguns livros ficaram fora da mochila, por falta de espaço. Mas iria daquele jeito, pediria ajuda de Wattson.

Soltou um longo e pesado suspiro ao pegar os três porta-retratos que antes estavam sobre o armário, quando acordou do coma, e que agora estavam dentro da gaveta. Ela havia colocado lá dentro após ter brigado com Phelipe. Uma mistura de sentimento nostálgico e de tristeza invadiu seu peito. Observou a primeira foto com calma, sem perceber, abriu um pequeno sorriso. Estava ela e todos os seus amigos reunidos. Lembrava-se bem daquele dia, daquele momento.

— O próximo jogador será... – Morgan olhou em seu celular. – Rias! – mostrou a tela do celular que estava aberto no aplicativo do jogo, e aparecia o nome de Rias em letras grandes.

— Ao que parece, dessa vez tem que ser desafio, Kath-gótica. – brincou Charlie.

— Tá, pode ser. – revirou os olhos, rindo. – Desafio.

— Você deve beijar a pessoa que estiver sentada à sua esquerda. – leu Morgan.

Phelipe estava sentado no lado esquerdo de Rias. Ela engoliu em seco. Todos ao redor tentavam segurar o riso. Sabiam que Rias tinha uma queda – beirando um precipício – por Phelipe.

— De boa. – deu de ombros, tentando esconder o nervosismo. Descruzou as pernas e levantou da cadeira, inclinou um pouco seu corpo, aproximou seu rosto do de Phelipe e beijou sua testa. – Moleza. – voltou para sua cadeira, soltando uma risada. – Tem outro mais difícil não?

— Mas... – Morgan tentou protestar.

— Ué, o desafio era beijar. Mas não especificou o beijo. Eu beijei a testa dele, foi um beijo de qualquer forma. – deu de ombros e riu.

— Ela tem razão. – Charlie arqueou uma sobrancelha. Todos começaram a rir.

— Gente, junta aí. Bora tirar uma foto! – pediu Wattson.

— É pra já, meu bom! – exclamou Phelipe.

Todos aproximaram as cadeiras que estavam sentados e a selfie foi feita. Todos bastante sorridentes. E Rias um pouco corada com a aproximação que teve com Phelipe naquele momento. 

Segurou o porta-retrato, e o guardou, tentando não rir. Olhou para o segundo e sentiu-se um pouco triste. Aquele fora um dos melhores e mais felizes dias que já tivera em sua vida.

— Parabéns pra você – todos cantavam em volta da Rias, que estava em frente ao seu bolo de aniversário de 15 anos. Rias estava sorrindo e batia palmas junto com os demais, porém se sentia deslocada, nunca soube lidar muito bem com tanta atenção. – nesta data querida, muitas felicidades e muitos de vida! Viva a Rias!

— Com quem será... – ouviu alguém começar. Ah, não... pensou.

— Com quem será que a Rias vai casar... – todos continuaram. – Vai depender se o...

— PHELIPE! – alguém atrás gritou. Sentiu seu rosto queimar de vez, teve vontade de se enterrar. Seus amigos começaram a zoar, e seus familiares queriam saber quem era Phelipe. Tentou ignorar as indagações e as risadas de seus amigos, sem muito sucesso.

— Vai querer! – terminaram de cantar a música.

— Deixa eu tirar uma foto de vocês antes de cortar o bolo? – pediu uma das tias de Rias.

— C-claro. – respondeu uma Rias totalmente envergonhada.

Passou seu braço esquerdo na cintura de sua mãe, e seu braço direito na cintura de seu pai. Seus pais a abraçaram de volta e ela sorriu. Seu rosto ainda queimava de vergonha, mas não se importava muito.

Guardou o porta-retrato quase gargalhando ao se lembrar da vergonha que sentira na hora. Cessou a risada ao pegar o terceiro e último. Não sentiu raiva e se surpreendeu com isso. Apenas sentiu tristeza, uma grande saudade e medo de que aquele momento não se repetisse novamente. Era uma foto sua com Phelipe.

— A gente podia viajar juntos por uns dias, né. – sugeriu Dahan. – Podíamos ficar numa casa perto da praia e perto de algum parque de diversões.

— Eu topo! – exclamou uma Rias animada. – Só não topo ir numa montanha russa.

— Ué, por que não? – perguntou Charlie.

— Medo de altura... – respondeu Rias soltando uma risada nervosa.

— Ah, dá em nada isso, Kath. – Morgan deu de ombros.

— Dá sim! Eu quase morri numa montanha russa uma vez. Eu estava com uma amiga e o carrinho parou no meio do caminho, na parte alta. – Rias falou forçando uma voz triste. Todos começaram a rir. Antes que alguém pudesse zoar a Rias, o sinal tocou anunciando o fim do intervalo. – Ei Phelipe. – ele virou para olha-la. – Me carrega nas suas costas? Tô com preguiça de andar. – perguntou enquanto subia no banco de madeira do colégio. Phelipe arqueou uma sobrancelha e começou a rir.

— Claro. – ficou de costas para ela, ainda rindo. – Sobe aí.

— Não entendi o motivo da risada. – fez uma careta emburrada e subiu nas costas dele.

— Ah, não! – exclamou Wattson em tom de zoação. – Esse momento precisa ser registrado! – pegou o celular em seu bolso e abriu o aplicativo da câmera. Rias revirou os olhos e soltou uma risada. Apoiou suas mãos nos ombros de Phelipe, tombou a cabeça para o lado esquerdo e sorriu. Phelipe segurou as pernas de Rias com mais firmeza e abriu um sorriso grande. – Pronto! – falou assim que a foto foi tirada e mostrou o polegar para o quase-casal, sorrindo.

Pegou o porta-retrato e passou os dedos sobre o vidro, que protegia a foto, com delicadeza. Sentia falta da amizade e da companhia dele. E a probabilidade de não ter mais momentos como aquele, era bastante grande. Soltou um suspiro pesado e guardou o porta-retrato na mochila.

Quando terminou de guardar todas as suas coisas, já era de noite. Wattson iria busca-la pela manhã. Decidiu ir tomar um banho e iria dormir logo em seguida. Precisaria estar descansada para organizar todos aqueles livros em seu quarto. Saiu do banho e dessa vez não tinha lavado seu cabelo. Deitou-se, pegou o livro, abriu na página que havia parado e perdeu-se naquele mundo até sentir sono e dormir.

 

 

Enquanto Rias ainda terminava de guardar suas coisas, na casa de Dahan, os amigos dela se reuniam para fazer algo que a animasse.

— É amanhã, gente. – falou Wattson. – Temos que fazer algo para comemorar a saída dela do hospital. Alguma sugestão?

— Vocês acham que ela vai gostar? – perguntou Dahan meio tristonho. – Quer dizer, ela nem planejava nos contar o dia que receberia alta!

— É claro que ela vai gostar. – Morgan falou. – Ela está precisando se divertir um pouco, afinal tem acontecido muitas coisas tensas com ela, desde que entrou em coma. – arqueou uma sobrancelha e lançou um olhar para Charlie.

— A gente podia fazer tipo uma festa surpresa. – sugeriu Charlie. – Como se fosse o aniversário dela, sabe?

— OBRIGADO, CHARLIE! – exclamou Wattson. – Vamos fazer isto.

— Ok, então. – Dahan deu de ombros.

— Pode ser na casa dela. – disse Morgan. – Enquanto você vai busca-la, nós ajeitamos as coisas lá na casa, junto com a mãe dela.

Dahan pegou seu celular e mandou uma mensagem à Phelipe informando sobre a festa, finalizou a mensagem dizendo que poderia ser a última chance dele conversar com ela. Bloqueou a tela sem esperar uma resposta e guardou o celular no bolso da calça, novamente.

— Perfeito! – exclamou Wattson totalmente animado. – Vamos fazer com que essa festa seja inesquecível.

E seria mesmo, de certa forma.

 

 

 

Na manhã seguinte, Rias acordara mais cedo que o previsto. Na verdade, quase não conseguiu dormir durante a noite, de tanta ansiedade. Decidiu tomar um banho e se arrumar logo. Esperaria Wattson chegar enquanto lia seu livro. Comeria algo em casa. Ao sair do banho, começou a se arrumar bem devagar. Não estava com tanta pressa. Vestiu uma blusa preta, que mostrava um de seus ombros e tinha escrito “Why so serious?” na parte da frente.. Uma calça jeans azul de cintura alta, com rasgos no joelho e calçou seu velho companheiro allstar, que já estava surrado de tanto usar. Fez uma maquiagem simples nos olhos, passando apenas um lápis de olho e uma máscara para realçar seus cílios. Guardou o restante de suas coisas na mochila, deixando fora apenas o livro que iria ler, seu celular, os outros livros que não couberam na mochila e o casaco que iria usar depois. Jogou-se na cama do hospital, abriu o livro e continuou a leitura. Sempre mexendo o pé ou batendo os dedos na borda do livro, ansiosa.

 

 

Phelipe sentia-se ansioso pela volta de Rias. Estava feliz por ela ter se recuperado a ponto de conseguir alta. Iria fazer um mês que não a via, tinha quase certeza de que ela havia recuperado o peso que fora perdido no tempo que ficou em coma. Soltou um longo suspiro e terminou de se arrumar. Já havia colocado sua calça jeans preta, estava terminando de calçar o allstar e só faltaria colocar uma blusa, pegar seu casaco e ir para casa de Rias. Quando recebera a mensagem de Dahan, falando sobre a festa, ficou feliz e triste. Não sabia se seria uma ideia, se seria certo ir até lá para conversar com ela. Poderia acabar estragando seu dia. Nunca iria ter certeza se não tentasse. E esse pensamento que o fez ter coragem de estar se arrumando para ir até lá. Vestiu sua camisa preta que tinha escrito “Shooting Star” na parte da frente, colocou o casaco por cima e saiu de casa. Olhou no relógio e ainda nem era 8 horas. Havia saído muito cedo. Deu de ombros, ajudaria a arrumar as coisas para a festa.

Desceu a Hayes St e parou bem em frente à casa Nº 21, respirou fundo e bateu na porta. Viu a mãe de Rias abrir a porta, e tentou sorrir.

— Oh, bom dia, Phelipe! – disse a mãe de Rias sorridente.

— Bom dia, senhora Galbraith. Espero não estar atrapalhando. – falou enquanto colocava as mãos dentro dos bolsos de seu casaco, sentindo o frio do inverno da Califórnia.

— Não, quê isso! – abriu a porta dando espaço para ele passar. – Entre, não fique aí fora nesse frio. – Phelipe entrou na casa.

— Dahan me falou que hoje a Rias sairia do hospital e viriam fazer uma festa pra ela. – tirou o casaco e pendurou em um dos ganchos que tinham casacos também.

— Sim, sim. Wattson e Dahan já chegaram, trazendo algumas coisas. Daqui a pouco Wattson vai buscar a Kath e vamos começar a arrumar. – puxou o braço de Phelipe. – Vamos começar logo. – sorriu. Phelipe sorriu de volta, um pouco desconfortável. Não sabia que já estavam chegando, ficou receoso de acabar brigando com Wattson. Quando Phelipe e a mãe de Rias entraram na cozinha, onde estavam começando a separar as coisas que tinham comprado, um clima tenso se estendeu no ar.

— O que ele tá fazendo aqui? – perguntou Wattson, um pouco sério.

— Ajudar na decoração da festa? – sorriu nervoso.

— Calma, Wattson. Eu que chamei ele aqui. Acho que já está na hora deles terem uma conversa. – justificou Dahan, dando de ombros.

Wattson sabia que Dahan tinha razão. Sabia o quanto Rias sentia falta de Phelipe. Eles realmente precisavam se encontrar e conversar. Só não queria que aquilo estragasse a festa.

— Com tanto que não acabe com a festa, tudo bem. – suspirou. – Melhor eu ir logo buscar a Rias. Até mais tarde. Qualquer coisa, me manda uma mensagem, Dahan. Posso tentar enrolar ela até tudo estar pronto. – sorriu.

— Certo, cara. Relaxa. – Dahan sorriu de volta.

Ouviram Wattson bater a porta da frente com força. Phelipe havia ficado um pouco desconfortável com aquela situação. E colocou na sua cabeça que estava ali apenas para conversar com Rias, e que não devia se abalar com a irritação dos amigos dela, que estavam tentando a proteger. Soltou um suspiro e começou a ajudar Dahan e a mãe de Rias com a decoração e a comida.

 

 

 

Depois de quase uma hora, Rias já tinha acabado de ler o livro. Estava bastante inquieta e ficou irritada consigo por ter levantado tão cedo. Pegou o celular e conectou o fone de ouvido. Tinha decidido ouvir alguma música. Passou o dedo na tela do celular e deu play na música. O início era baixo e logo a letra foi cantada, junto com a voz de Rias.

— The deconstruction has begun. – cantou. – Time for me to fall apart. And if you think that it was rough, I tell you nothing changes. Till you start to break it down. And break apart. I’ll break apart. The reconstruction will begin, only when there’s nothing left. But little pieces on the floor, that made of what I was. Before I had to break it down.

— Preparada para retornar pra sua casa? – perguntou Daniel Lynch ao entrar no quarto. Rias tirou um dos lados do fone de seu ouvido para ouvir seu médico falar.

— Claro. – abriu um sorriso. Levantou-se e deixou seu celular sobre a cama. Ficou em pé em frente a Daniel Lynch.

— Bom, aqui está o papel de sua alta e a cópia. – entregou a Rias duas folhas, sorrindo. – Estou muito feliz de ver você desse jeito, bem. E espero que continue assim. Não quero que volte para cá daquela forma. – sorriu enquanto estendia sua mão para um aperto. Rias estendeu sua mão também, apertando levemente a mão de Daniel Lynch e tentou sorrir.

Quando alguém sofre de depressão, ouvir coisas assim pode ser, de certa forma, torturante. Pois a pessoa se sente pressionada, a continuar a viver. E vem a antiga repetição: “Você tem que sair dessa, tem uma vida toda pela frente”. Rias não queria demonstrar fraqueza naquele momento, sabia que fora doloroso para sua mãe ver ela daquele modo. Se ela havia ficado incomodada com sua aparência por menos de um mês naquela situação, imagine sua mãe e seus amigos, que a viram daquele jeito por três meses? Decidira ficar melhor para não causar mais tanta preocupação. Se ela tentasse fazer algo – novamente –, o faria sozinha. Tentou abrir um sorriso maior para seu médico, agradeceu por todo o cuidado que ele teve com ela e despediu-se dele. Pouco tempo depois, Wattson entrou no quarto.

— E então? Tudo pronto? – perguntou animado.

— Quase. Alguns livros não couberam nas mochilas, então teremos que levá-los na mão. Algum problema? – abriu um sorriso nervoso.

— Não, sem problema. Acho que terei que fazer duas viagens para colocar tudo dentro do carro.

— O quê? Não! Vou te ajudar a levar tudo.

— Não, senhorita. Não irei permitir carregar tanto peso.

— Wattson. – arqueou a sobrancelha enquanto sorria. – Eu arrumei tudo isso aqui sozinha. Carregar uma mochila e alguns livros não vai me fazer mal. Nem tenho problema nos ossos para isso. – ouviu Wattson bufar.

— Tudo bem. Só uma mochila e alguns livros, o resto eu levo. – Rias começou a rir.

— Sim, senhor. – disse entre risos.

Rias colocou seu casaco, passou a mochila no braço esquerdo e carregou cinco livros nos braços, deixando seu celular no bolso de trás de sua calça. Wattson carregou as duas mochilas, cada uma em um dos braços, e tentou equilibrar, com dificuldade mais seis livros em uma mão. Andaram pelos corredores, Rias estando um pouco nervosa por passar em frente dos quartos de pessoas que podiam estar na situação que ela esteve há um mês atrás, ou até pior. Entraram no elevador e um suspiro saiu da boca de Rias.

— Pensei que a mamãe viria contigo. – falou enquanto mexia o pé esquerdo.

— Ah... – Wattson havia esquecido de arranjar uma desculpa para aquilo, logo, ficou nervoso. – Ela... Ficou preparando um almoço pra você. É, é isso. – Rias percebeu que ele tinha ficado nervoso por algum motivo. Arqueou uma sobrancelha.

— É? Hm.. sei. – soltou uma risada. – A gente podia marcar com o pessoal pra ir ao cinema, qualquer dia desses. Tem algum filme bom em cartaz?

— Nem sei dizer, tem um tempo que não vou ao cinema. Mas, é, seria uma ótima ideia. – sorriu.

A porta do elevador se abriu e saíram no estacionamento do hospital, que ficava no subterrâneo. Wattson saiu na frente, para conduzir o caminho até o carro dele. Guardaram tudo no porta-malas. Entraram no carro, colocaram o cinto e Wattson deu partida.

— Ansiosa para voltar pra sua casa?

— Você não sabe o quanto. – abriu um enorme sorriso. – Posso ligar o rádio?

— Claro, Kath. Fique à vontade. – respondeu sorrindo.

Rias inclinou seu corpo e ligou a rádio, reconhecendo a música que acabara de começar.

— Aaahhh, eu amo essa música! – disse animada.

— Quem não ama? – perguntou rindo.

— I’ts my life, it’s now or never – cantaram juntos. Wattson batia seus dedos no ritmo da música no volante e Rias batia suas mãos sobre sua coxa. – I ain’t gonna live forever, I just want to live while I’m alive. – Rias abriu a janela do carro, sem se importar com o frio do inverno, sentindo o vento gélido bater em seu cabelo. – My heart is like an open highway. Like Frankie said, I did it my way, I just wanna live while I’m alive. It’s my life. – cantou com a cabeça para fora da janela e Wattson riu da atitude da amiga. Rias riu junto. Estava feliz, e não conseguia esconder isso. Era como uma nostalgia, não sabia ao certo quando fora a última vez que se sentira daquela forma. Então iria apenas aproveitar o momento. Demoraria mais um pouco até chegar em sua casa então decidiram ouvir músicas nostálgicas e fazer coisas engraçadas. Pegou seu celular e conectou via bluetooth no visor do pequeno computador do carro e escolheu outra música.

— Essa você conhece. – falou enquanto arqueava uma sobrancelha e encarava Wattson. Ele olhou rapidamente para ela, confuso. A música começou e ele reconheceu na hora.

— Risin’ up, back on the street. Did my time, took my chances. – cantaram juntos. – Went the distance, now I’m back on my feet. Just a man and his will to survive. – Rias colocou seus pés sobre a tampa do porta-luvas, sem se importar com qualquer coisa. Levantou a cabeça e cantou. Só queria isso. Fora isso, apenas a companhia de um cigarro e um bom vinho. – So many times, it happens too fast. You change your passion for glory. Don’t lose your grip on the dreams of the past. You must fight just keep them alive.

— Aahh, quanto tempo eu não me sinto desta forma! – espreguiçou-se no banco do carro. – Havia esquecido como era se sentir assim e que era tão bom.

— Fico feliz em te ver assim, Kath. De verdade. – Wattson sabia dos pequenos problemas internos que ela tinha, e tentava sempre ser compreensível com ela e sempre protege-la das coisas. Perguntou-se mais uma vez se a presença de Phelipe não iria estragar o dia dela. Ela estava tão feliz, se sentiria culpado se ela ficasse chateada ou irritada ao vê-lo. Engoliu em seco com o pensamento, enquanto estacionava o carro em frente à casa Nº 21. Rias desceu do carro, fechou a porta e encarou a entrada de sua casa, soltando um suspiro. Afundou suas mãos nos bolsos de seu casaco, sentindo o intenso frio. Estremeceu ao sentir a brisa gélida tocar sua pele. Soltou o ar pela boca e sorriu ao ver uma pequena fumaça branca sair de lá. Wattson foi até a traseira do carro e abriu o porta-malas, começando a tirar as coisas de Rias. Enquanto ela foi até a porta de sua casa e apertou a campainha, para abrir a porta e facilitar o trabalho de Wattson. Pouco depois de ter tocado a campainha, sua mãe apareceu à porta.

— Filha! – sua mãe exclamou e abraçou com força. Rias a abraçou de volta, com a mesma força. Estava finalmente em casa. Sua mãe se afastou um pouco da porta, dando passagem para sua filha e para Wattson. Rias não percebeu que ele só havia pegado uma de suas mochilas. Ao entrar em casa, estranhou estar tudo escuro e silencioso.

— Porque tá tudo escuro assim, mãe? – perguntou enquanto tateava a parede, procurando o interruptor. Ao achar, ligou a luz da sala, sendo surpreendida pelo grito de seus amigos.

— SURPREEESAA! – todos saíram de seu “esconderijo”, pulando em cima de Rias, soltando gritos comemorativos, abraçando-a em seguida e ela acabou dando um passo para trás pelo ato dos amigos e pelo susto. Escondeu a boca com suas mãos. Estava emocionada, nunca havia ganhado uma festa surpresa em sua vida. Sentiu seu coração bater com uma velocidade que nunca sentira antes. Chegou a pensar que teria um infarto e morreria ali mesmo. Até que sentiu lágrimas descerem de seus olhos, de tanta felicidade que sentia. Aquilo chegava a agoniar um pouco, porque o sorriso que estava estampado em seu rosto não era o suficiente para demonstrar nem 30% do que sentia naquele momento.

— Ai, vocês querem me matar do coração, gente? – perguntou com a voz embargada.

— Matar, não. Só queremos te ver feliz. – Dahan respondeu, lançando uma piscadela Galbraith soltou uma risada com o ato do amigo.

Após ter falado com cada amigo seu que estava naquela sala, decidiu ir até o carro de Wattson, pegar suas mochilas e os livros, para deixar no seu quarto. Do jeito que as coisas estavam ali, certamente não demoraria para todos estarem alterados com o consumo de bebida alcóolica. Wattson ajudou a carregar as coisas até o topo da escada. Ele sabia que Phelipe estava aguardando Rias no quarto dela. Dahan o havia avisado por mensagem. Ele deu a desculpa de que iria ser o DJ e que não via problema dela carregar as coisas dali, afinal estava bastante perto. E torceu mentalmente para que Phelipe e Rias não se matassem dentro daquele cômodo. Rias agradeceu a ajuda do amigo e antes que esquecesse – e que ele ficasse bêbado –, agredeceu a carona também. Pegou a mochila mais leve, que era a que estava suas roupas, segurou na sua mão esquerda e com a direita, pegou três livros. Andou pelo corredor do segundo andar de sua casa, até parar em frente à porta de seu quarto, que estava entreaberta. Ao fundo, ouvia as batidas da caixa de som que estava demasiadamente alta. Naquela distância, não conseguiu identificar qual música era. Suspirou, com medo do que iria encontrar dentro do seu quarto. Não sabia se alguma mudança fora feita, se estava igual a última vez que estivera ali, ou se sua mãe fazia limpeza regularmente para tirar o mofo. A última era mais provável, do jeito que sua mãe era, rigorosa com a limpeza. Respirou fundo e abriu a porta, dando o primeiro passo para dentro, observando o cômodo. Estava tudo no lugar, só estava um pouco limpo. Provando sua última probabilidade, sua mãe havia limpado ali. Deixou os livros sobre a cômoda que estava perto da porta e deixou a mochila cair no chão quando o viu.

— Oi, Kath. – Phelipe falou com uma voz meio rouca. Rias abriu a boca algumas vezes, na tentativa de falar algo, mas não saía nada. Tinha certeza que não sentia mais raiva por ele. Mas era inevitável negar que ainda estava magoada. Não se sentia totalmente preparada para aquele momento. Se ele estava ali, no seu quarto, então isso queria dizer que todos sabiam que ele estava ali. Sentiu uma pontada de raiva quanto a isso, mas não podia fazer algo. No fundo, sabia que eles precisavam daquele encontro, daquela conversa. Respirou fundo e tentou falar algo mais uma vez.

— Oi. – foi tudo que saiu, e ainda num tom baixo.

— Acho que já está na hora de conversarmos. – tentou incentivar, para não deixar cair num silêncio torturante.

— É, pode ser. – falou dando de ombros, sentando-se em sua cama logo em seguida. Respirou fundo e sentiu o aroma do seu quarto, que era uma mistura da neve, com o perfume que ela sempre usava. Que não era tão doce e nem tão forte. Um de seus preferidos. Phelipe sentia o mesmo aroma, e ele amava. Uma enorme saudade e um sentimento nostálgico invadiu seu peito. Era algo impensável o tamanho da saudade que ele tinha dela.

Out of all the things you’ve ever done, this time I can’t hold back. [Fora de todas as coisas que você já fez, desta vez eu não posso segurar.]

— Quer começar por onde? – perguntou, sentando-se ao lado dela em seguida.

— Você me explicando como aconteceu aquilo, como você percebeu que eu gostava de ti, e como descobriu que gostava de mim. Que tal por aí? – perguntou em tom de ironia, enquanto encarava o chão. Ouviu Phelipe suspirar.

When a heart gets broke this many times, It’s easy to lose track. Taking all this pain, and you know I can’t regain the flame. [Quando um coração se quebrou todas essas vezes, é fácil perder o controle. Sentindo toda esta dor, e você sabe que eu não posso recuperar a chama.]

— Bem, eu percebi que gostava de ti, quando recebi a ligação de madrugada, avisando que você tinha sido encaminhada para o hospital, e a situação era grave. – lembrou. – Eu senti uma enorme tristeza, e ter a probabilidade de te perder era quase insuportável. Não me perdoaria se você tivesse morrido no início do atendimento. Quando o médico apareceu, para nos informar que você tinha sobrevivido, mas tinha entrado em coma, eu me senti aliviado e triste. E nesse momento eu percebi que o que eu sentia, ia bem mais além do que uma simples amizade. E prometi a mim mesmo que nunca mais iria sair do seu lado. Que não iria permitir que aquilo se repetisse com você. Mas acho que quebrei essa promessa duas vezes. – sorriu nervoso.

I can dream the mean time with you, so unreal. Maybe another lie left for me, is what you feel. Takin all this pain, and you know I can’t regain the flame. [Eu consigo imaginar a media de tempo com você, tão irreal. Talvez você tenha deixado outra mentira para mim, é o que você sente. Sentindo toda esta dor, e você sabe que eu não posso recuperar a chama.]

— Olha, jamais irei te culpar pelos dois surtos que eu tive. Qualquer pessoa pode sofrer por depressão. Aprendi a entender melhor isso com meu psicólogo e em alguns livros que passei a ler. - Suspirou e deixou Phelipe terminar de falar.

— Depois que você entrou em coma, Wattson me falou sobre o que você sentia. Lembrando do dia em que jogamos verdade ou desafio, que você beijou minha testa. – apontou para sua testa e soltou uma pequena risada. – Agora faz sentido aquele seu nervosismo na hora da foto. – deu de ombros. Rias apenas sorriu. – Então quando vi que era recíproco, prometi que um dia iria me declarar pra você. Essa eu consegui cumprir, pelo menos, né? – tentou sorrir. – Eu iria te contar sobre a Lexi, sobre aquele dia... mas não queria te contar enquanto você estivesse lá. Aquilo foi um erro. Foi um dia em que eu devia ter saído sozinho, ou apenas ter bebido sozinho em casa. – soltou um suspiro pesado. – Eu realmente sinto muito por isso.

— Não vou negar que ainda dói bastante aqui – apontou para seu coração. – quando lembro das fotos. Mas não sinto raiva, sabe? Apenas dói. Eu errei em não ter percebido o verdadeiro modo que a Lexi era. Quer dizer, olhe pra mim! – apontou para seu corpo, com as mãos. - Nem sou bonita. Não quando comparada a ela. Ela usa aquelas roupas que destacam bem seu corpo, sem medo. E eu aqui, usando blusas largas, e um allstar surrado. – suspirou. – Talvez por isso eu não sinta raiva. Por, no fundo, saber que as pessoas vão me deixar e ficar com outras. – disse triste.

— Já lhe disse muitas vezes, Kath. – segurou uma de suas mãos. – Você. Não. É. Feia. – disse pausadamente. – Tire essa ideia de sua cabeça. – Phelipe começou a brincar com uma pequena mecha do cabelo dela. – Só queria dizer, também, que não esqueci de ti nenhum dia sequer. Todos os dias, o dia todo, era basicamente só você na minha mente. Eu gosto muito de ti. Isso é tudo muito novo pra mim. Não estou sabendo lidar muito bem. – Rias tentou sorrir. Respirou fundo e pensou por um tempo.

Greater men have made it here only to turn back. So cut me loose if you want, or tighten up the slack. Takin all this pain, and you know we can’t regain the flame. [Grandes homens fizeram isso aqui, apenas para voltar atrás. Então, deixe-me solto se quiser, ou aperte o arreio. Sentindo toda esta dor, e você sabe que não podemos recuperar a chama.]

— Naquele dia, no telefone, quando eu disse que ainda gostava de ti, não era mentira. Mas eu realmente ainda não posso confiar totalmente. Em ninguém, basicamente. – fez uma pequena pausa. – Nós até podemos voltar a conversar, mas ainda não será como antes. – Phelipe assentiu, engolindo em seco. – Para chegar pelo menos perto do que era antes, precisamos começar essa amizade do zero. Sem forçar qualquer coisa. – Rias conseguiu respirar normalmente, novamente. Não sabia dizer em que momento havia prendido o ar. Talvez quando tivesse visto o Phelipe assim que entrou no quarto.

— Tudo bem. – abriu um pequeno sorriso.

— Se você não se importar, tenho mais coisas a trazer de volta para o quarto. – levantou-se da cama.

— Quer uma ajuda? – perguntou enquanto se levantava ao mesmo tempo que ela.

— Se não for muito peso para a mocinha. – brincou, arqueando uma sobrancelha. Phelipe riu. Ao sair do quarto, conseguiu reconhecer a música que estava tocando no andar de baixo. Nelly Furtado – Promiscuous. – Vamos logo levar isso pra lá, quero aproveita um pouco. – soltou uma piscadela para Phelipe. Não podia negar, sentia-se confortável com ele. Terminaram de levar as mochilas e os livros para dentro do quarto de Rias. Ela tirou seu allstar, quis ficar descalça, para se sentir mais confortável. Tirou seu casaco o jogou sobre a cama. Phelipe a observou e ficou aliviado ao ver que ela estava bem melhor, comparado a última vez que a vira. Sentiu-se um pouco triste ao ver as marcas em seu braço, pensou que ela teria feito algum tratamento para ameniza-las. Respirou fundo e sorriu para ela. A esperando na porta do quarto, para descerem e aproveitar a festa junto com seus amigos. Sorriram e desceram juntos o lance de escadas. Todos seus amigos suspiraram aliviados ao verem uma Rias ainda animada, e um Phelipe com o rosto intacto.

A conversa, afinal, fora boa. Resolveram-se e reataram a amizade. Ambos estavam felizes por terem se resolvido, sem brigas. Talvez voltassem a ter a mesma confiança de antes, talvez pudessem até começar um relacionamento sério. Mas acharam melhor começar aos poucos. Sem pressa. Afinal, Rias ainda estava viva, e iriam aproveitar isso da maneira certa.





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