Hello There 2 escrita por Weirno


Capítulo 5
S02EP05 - Village of the Damned


Notas iniciais do capítulo

A Cidade dos Amaldiçoados

Mais uma vez, Emily tenta convencer Jordana de que a história está se repetindo, e consegue dois surpreendentes aliados. O passado volta a tona para a sobrevivente, e em um reencontro inesperado, a voracidade do que está acontecendo se põe à mostra.




A vida de Emily já havia atingido o ápice. Decidida a fazer alguma coisa, não aceitaria “não” como resposta da albina. Agora, além de uma perseguição, uma ligação e três corpos, April Green havia sido assassinada a sangue frio. Não podia acreditar que a moça com a qual havia conversado alguns dias antes estava morta. Não ficou sabendo de nenhum detalhe a mais sobre a morte, e se não se enganava não haviam câmeras lá. Além disso, tinha certa certeza de que Jordana continuaria a negar a opção. De qualquer forma, agora tinha novas provas de que estava certa e, acredite se quiser, estava completamente decidida àquilo.

Cruzando o corredor ao lado das escadas, indo em direção à cozinha após ver Brammall entrar lá, Hayes escutava a conversa que se prosseguia na sala de estar, orquestrada por Archie e Molly, que haviam aparecido para o café da manhã. E as notícias eram boas, pois o Brammall masculino foi aceito por Emily e agora se tornou um morador da casa, dormindo no quarto de hóspedes e ajudando no aluguel e nas despesas da residência. Já era de se imaginar que, provavelmente, Molly também viveria indo até lá, sendo que era grande amiga de Archie. O que não era problema nem para Emily nem para Jordana, que realmente adoravam os dois.

Então, após ver que a albina havia se distanciado deles, tinha a sua chance de conversar com ela. Sabia que não poderia esperar até a saída da dupla, muito menos até que um momento reservado chegasse. Teria de ser agora, ou acabaria explodindo.

— Não venha me dizer que não tem nada de errado – disse, seca e direto ao ponto, parando de costas para a amiga, que colocava uma bandeja suja na pia.

Jordana se virou para ela, levemente assustada por não ter percebido sua presença antes. Arqueando as sobrancelhas, ela limpava as mãos num guardanapo.

— Do que você tá falando? – questionou, e, de fato, ela não sabia do que a outra falava. O papo derradeiro com os convidados na sala haviam tirado-a da terrível realidade que a cercava.

— April está morta – respondeu, decidida. Brammall fechou a cara, abaixando a cabeça. – Com ela, são quatro pessoas mortas em um período de quatro dias. Além de uma ligação e uma perseguição. – Emily deu uma pausa. – Lembra do que o Kai disse? Era um Carrasco que assassinou aquelas pessoas na lanchonete. Não vai ser novidade se descobrirem que também era um no caso da April.

— Emily, você está tirando conclusões precipitadas…

— Conclusões precipitadas?! – gesticulou com os braços, inconformada. – Jordana, você precisa volta para a realidade e aceitar que está acontecendo de novo. Eu… Eu sei que tudo o que aconteceu foi horrível, e que você não quer acreditar que pode acontecer de novo, que quer fugir disso… – Durante o sermão, a albina expressava um semblante triste, sabendo que tudo o que Hayes dizia era verdade. – E eu te entendo, o verdadeiro motivo de nós voltarmos para cá foi esse, não foi? Mas a vida é cruel, e nós precisamos aceitar.

Suspirando fundo, a amiga encarou-a, séria. Emily se preparou para a resposta.

— Tudo bem – disse, para a surpresa da sobrevivente. – Vamos dizer que está acontecendo de novo… Mas e aí? O que você quer fazer? Quer sair daqui? Podemos pegar aquele carro e dirigir para o mais longe possível, até que você queira parar. – No momento, a raiva transpareceu na voz de Brammall. – Ou não? Ou você quer ficar aqui e vivenciar tudo aquilo de novo? Eu não posso ter certeza de nada, mas acho que isso é a última coisa que você… Que nós duas, gostaríamos de fazer. Então até que algo mais drástico aconteça, até que nós nos tornemos envolvidas até o pescoço nessa história, não, eu não vou acreditar que está acontecendo de novo.

Hayes ficou séria, acabada, e respondeu:

— Você está assustada demais para acreditar, não está? – A morena percebia na amiga isso. As olheiras e o cansaço óbvio no semblante da outra deixavam claro que algo estava errado com ela, como se não dormisse direito ou estivesse pensando demais em certo assunto. – Eu também estou assustada… Meu Deus, como estou… Mas eu percebo que nós devemos fazer alguma coisa.

— Você quer ajudar essas pessoas, Emily? A gente não conhece ninguém aqui. – Os olhos da albina queimava em fúria.

— Nós podemos descobrir os alvos, igual da última vez.

— Certo, nós descobrimos os alvos e salvamos todos eles? Você, mais do que ninguém, sabe que não vai adiantar nada. Quando nós éramos mais jovens, não importava o que fizéssemos, nossos amigos continuaram morrendo.

— Mas somos adultas agora!

— Exatamente! – berrou de volta. Os gritos da discussão ecoavam por toda a casa, e o murmúrio de vozes na sala de estar havia cessado, evidenciando que Archie e Molly já haviam ouvido tudo e, provavelmente, ficaram desconfortáveis. – Somos adultas! Somos todos adultos aqui! E se dois adolescentes de merda conseguiram massacrar mais de uma dúzia de pessoas, o que você acha que vai acontecer se forem dois adultos dessa vez?! Estamos ferradas, Emily! Se isso está realmente acontecendo de novo, não há nada que possamos fazer além de tentarmos ficar vivas!

— Então vamos fazer isso, porra! Vamos caçar esse filha da puta antes que ele mate mais alguém!

— E como vamos fazer isso? Só com a sua intuição?! Porque, até agora, nós não fomos nem um pouco longe com ela!

Emily se silenciou. As mãos trêmulas ao lado do corpo demonstravam o nervosismo da sobrevivente em discutir daquela forma com Jordana. Ela não gostava nenhum pouco daquilo, mas, de qualquer forma, tinha que tentar mudar o pensamento da outra antes que fosse tarde demais.

— Olha, eu já estou de saco cheio desse assunto. Eu não quero me envolver em nada disso – disse, por fim, a albina. – E não ligo para o que você pensa estar certo ou não.

Brammall virou-se para a grande janela da cozinha, ficando de costas para Hayes. A outra, ainda parada na passagem entre a cozinha e a sala de jantar, apenas a encarou, tentando descobrir se falaria mais alguma coisa ou não. Uma parte de si dizia que deixar o assunto encerrado era melhor, mas outra evidenciava que aquilo deveria ser algo a ser discutido. Por fim, após alguns segundos pensando, quando a casa banhou-se em silêncio, decidiu que, se Jordana não queria ajudá-la, teria de começar a investigar por conta própria, ou, pelo menos, encontrar alguém que a ajudasse.

— Okey, você não vai me ajudar – disse, a voz baixa e calma dessa vez. – Acho que vou ter que fazer as coisas sozinhas.

As palavras cortaram o coração da albina, que olhava para baixo, sentindo o peso do olhar da amiga nas costas, enquanto escondia as lágrimas que escorriam de seus olhos. Chorava pois sabia que o que Emily falava era verdade, mas tinha medo de acreditar que realmente fosse verdade. Sua vida inteira havia desmoronado quando se viu sendo alvo de um serial killer no passado, e não sabia o que seria de si se a coisa voltasse a acontecer. Foram meses e meses de recuperação dos traumáticos eventos, muito trabalho árduo para voltar à normalidade e esquecer tudo. Para ela, naquele momento, foi como se tudo não passasse de um trabalho em vão.

No momento seguinte, conseguiu ouvir os passos leves de Hayes se afastando, deixando claro que ela havia saído dali, deixando-a sozinha.

 

1

 

A apenas um cômodo de distância, na sala, logo ao lado da cozinha, onde a acalorada discussão aconteceu, Molly mantinha-se cabisbaixa, séria. O que era algo estranho de se ver, sendo que Merriman estava sempre com um grande sorriso no rosto, tentando fazer o bom e o melhor para todos ao seu redor. Ao seu lado, deitado sobre seu colo, estava Buster, o cachorro adotado por Brammall no dia anterior. De olhos fechados, o canino dormia com a cabeça sobre uma almofada. Do outro lado, no outro sofá, Archie havia cruzado as pernas, olhando fixamente para o chão. Ambos estavam desconfortáveis, desde que suas falas foram comprometidas pela discussão que tomou conta da casa e, muito provavelmente, de todo o quarteirão. Não sabiam que Jordana e Emily poderiam brigar daquele jeito, sempre pareceram ser do tipo que se dão bem e resolvem as coisas a base de uma conversa calma, por meio de um entendimento de ambos os lados. Era até um pouco assustador, mas, contanto aos fatos que rondavam a vida das sobreviventes e o passado das duas, não era muito chocante que ambas estivessem com tal temperamento.

Calados, os dois não se olhavam, e tinham medo de dizer alguma coisa pois sabiam que suas vozes soariam como tiros na casa silenciosa, podendo acordar a ira das garotas mais uma vez. Molly, além de tudo, ponderava se iria embora naquele momento, mas sabia que não seria justo com o moço, que ficaria sozinho ali. A não ser, é claro, que fosse junto com ela, o que não seria um problema para nenhum dos dois. De qualquer forma, nenhum deles se moveu e, enquanto Merriman acariciava os pelos sedosos do animal sobre si, ambas as cabeças se levantaram quando uma movimentação se deu na porta de entrada da sala.

Séria e levemente entristecida, Emily entrou no cômodo, dirigindo-se imediatamente para o sofá mais próximo, onde Archie estava, e sentou-se de uma vez só, sob o olhar curioso dos jovens, que percebiam o nervosismo nela. Sem dar a mínima para eles, ela colocou a cabeça entre as mãos. A garota não queria ficar sozinha em seu quarto e, de certa forma inocente, queria ganhar os dois em sua busca pela verdade.

Os grandes amigos se encararam, alheios, sem saber o que fazer, ou se deviam fazer alguma coisa. Quando Archie devolveu-lhe o mesmo olhar de “não sei o que fazer” que ocupava sua própria expressão, Molly coçou a garganta, perguntando:

— Podemos ajudar em alguma coisa?

Como o imaginado, sua voz soou como se saísse de uma caixa de som no último volume, e ela engoliu em seco. Além de tudo, a morena tinha medo que Jordana, que provavelmente continuava na cozinha, achasse que estava ajudando Emily e, talvez, sentisse-se traída. Mas, ao contrário, Molly apenas odiava ver Hayes daquele jeito, e ia na busca implacável para ajudá-la. No entanto, diferente do que imaginou, a sobrevivente não respondeu, e continuou com as mãos no rosto, os cabelos tampando a parca visão que os convidados tinham de si.

A alguns centímetros de Emily, Archie a olhava com pena, o cenho franzido. Voltou seu olhar para Merriman. Se encararam mais uma vez, e logo a garota tornou a falar:

— Sabe… Até pode ser verdade o que você disse.

Brammall ficou curioso contanto ao que ela disse, mas não questionou. E então, para a surpresa dos dois, acompanhando o choque do moreno, Emily levantou a cabeça lentamente, os cabelos embaraçados pelo toque das mãos bagunçados ao redor do rosto. Ela encarou Molly com profundidade, não encontrando o motivo dela ter dito aquilo e pensando se havia dito somente para lhe ajudar no momento difícil.

— Fala sério? – perguntou Hayes, curiosa.

A morena ficou levemente indecisa se responderia “sim” ou “não”, sabendo das consequências e responsabilidade que sua resposta teria. Com um aperto no coração, levada pela impulsividade de seu bom coração, respondeu:

— Sim.

No mesmo instante, antes que Emily pudesse dizer alguma coisa, Archie comentou:

— É muito cedo para tomar qualquer conclusão, mas nós podemos ajudar você, se precisar. – Ficou claro em sua voz, e para Molly, que o conhecia haviam anos, que o moço estava apenas tentando salvá-la do papo após perceber que ela não estava indo tão bem quanto o esperado.

Emily virou-se para ele. Não esperava o entendimento dos dois, e ficou feliz que já havia encontrado dois aliados.

— A Jordana está com medo – continuou ele. – A gente não se vê muito, mas eu percebi pela voz dela. Está com medo e quer negar para si mesma que o que você diz seja verdade.

— Foi exatamente o que pensei – concluiu Hayes. – Mas… Vocês querem mesmo me ajudar?

— Eu e o pequeno Buster ficaremos lisonjeados! – expeliu Merriman sob o ambiente pesado, sorrindo alegremente. Para a sua infelicidade, a tentativa de animar os amigos foi em vão pois, enquanto chacoalhava as mãos sobre o cachorro, recebeu um olhar cortante da sobrevivente.

— Por favor, Molly, não faça piadas… – disse Emily, entristecida.

— Me desculpe.

Molly abaixou a cabeça e, tentando se reconciliar da melhor maneira, pensou em alguma coisa séria para dizer, uma coisa que ajudaria realmente.

— Bem – começou. –, se tem mesmo um novo assassino por aí, ele deve ter as suas vítimas.

— E já deve tê-las selecionado – terminou Archie.

— Eu concordo – disse Hayes. – É melhor vermos isso.

Aprumando-se no sofá, o garoto perguntou:

— É… Acha que você e a Jordana estão nessa lista?

Tentando ser o mais gentil possível, reconhecendo a questão idiota de tão óbvia, a morena sobrevivente respondeu:

— É claro. O assassino usava o mesmo traje de antes, falava do mesmo jeito… E me ligou.

Archie engoliu em seco, assustado. A situação, além de tudo, era horrível. A coisa toda era grande demais para ele, que nunca havia passado por algo como aquilo.

— Quem você acha que são as vítimas, então? – perguntou Molly, quase gaguejando.

— Talvez Sam, Lincoln, Logan e Tommy. Eles conheciam a April, não conheciam? – respondeu a morena. Merriman concordou com a cabeça. – Seguindo a lógica, eles também devem estar envolvidos. No passado, nós ligamos as vítimas às pessoas próximas a elas e acabamos estando certos contanto a quem eram os alvos.

— E eu e o Archie estamos incluídos? – A voz de Merriman já soava um pouco fraca, como se a garota esforçasse-se para fazê-la sair. Estava com medo da resposta.

O garoto também guardava de tal receio, sério, esperando Emily voltar a falar. Reconhecendo esse medo coletivo, não sabendo exatamente como dar a má notícia para os amigos, Hayes respondeu:

— É provável. – Os dois estremeceram. Querendo sair logo do assunto, mudou-o antes que um dos dois pudessem fazer mais perguntas das quais não era capaz de responder. Ou, até mesmo, antes que procurassem por um conforto e segurança que ela não poderia dar. – Quem mais vocês conhecem?

— Eu acabei de chegar – respondeu Brammall. – Não conheço ninguém além de vocês.

Em conjunto, Emily e Archie olharam para Molly, que morava a mais tempo em Oakfield. Ela sentiu-se pressionada sob o olhar dos dois, mas respondeu mesmo assim:

— Bem… A Linda e o Owen parecem ter alguma ligação, embora eu não sei qual seja.

— Quem são eles? – perguntou o menino, curioso. Emily, pelo contrário, já havia se encontrado com Linda e visto-a de longe, por morarem na mesma vizinhança. Já o garoto, não fazia ideia de quem se tratava.

— Linda é uma professora de Oakfield High, e o Owen é um estudante de lá. Eu não sei… Mas os rumores dizem que eles têm algum tipo de passado… Uma coisa ruim, sabe? Mas são só rumores.

— Certo – afirmou Archie, abaixando a cabeça.

— Alguém mais? – tornou Hayes.

Molly pensou.

— Você conheceu o Garrett, não conheceu? – perguntou.

— Sim, ele me tatuou. – Lembrou-se da tatuagem no braço.

— Então, ele e o Peter, que é um grande amigo dele, são bem conhecidos na cidade. Assim como a Megan, a chefe do Peter. Eles são como um trio. – Falava de maneira explicativa para que Brammall entendesse.

— Eu também conheci o Peter e a Megan. É possível, Molly.

A expressão na face de Emily continuava a demonstrar seu estresse contanto a situação. Aquilo era tão assustador para ela quanto para os outros dois, e ambos entendiam isso. Ficaram em silêncio. Merriman não conseguia se recordar de mais ninguém, e forçava a memória para isso.

De contramão, Brammall não tinha total certeza de que o que faziam era a coisa certa. Sempre foi alguém muito calmo e que gostava de fazer o melhor para si, e adentrar em uma possível chacina estava longe de seus planos. Queria se afastar o máximo possível, para ser franco, mas o fato de que sua prima possivelmente estaria envolvida fazia-o mudar de ideia. Jordana, mesmo que não tão próxima de si, era da família, e ele nunca se perdoaria por abandonar alguém da família se tivesse chance de ajudá-la. Além, é claro, de sua melhor amiga também seguir o mesmo caminho.

E Molly carregava do mesmo pensamento. Não queria participar daquilo, e se pudesse voltaria no tempo, para que não conhecesse as garotas, para que não tivesse a ideia de entregar-lhes aquela cesta de alimentos no dia da chegada de ambas. Poderia estar na sua, longe de qualquer confusão, não se arrepiando a cada vez que pensasse que estaria, muito provavelmente, sendo perseguida por um assassino mascarado. Também, além de tudo, que esse assassino mascarado tinha uma identidade, uma identidade que poderia, ou não, ser conhecida por ela.

Por fim, tínhamos Emily, ainda apreensiva com a situação, querendo fazer o melhor para si e tentando acabar com tudo aquilo da melhor forma possível, antes que as coisas tomassem proporções maiores. Não sabia se alguma outra pessoa havia recebido qualquer tipo de ligação e ameaça, e até que tivesse tais provas dos acontecimentos, tomaria a si mesma como a principal vítima, sendo a única que havia recebido uma ligação. Por isso, deveria se preocupar. Dessa vez, se preocupar com si mesma. Não gostava de pensar de tal maneira, mas agora, amadurecida, percebia que a principal vida a ser salva e protegida era a sua própria. Não estaria disposta a se arriscar e a salvar a todos como fez a sete anos atrás – e de certa forma seria mais fácil, pois não tinha muita ligação emocional com as possíveis novas vítimas, além de Archie, Jordana e Molly.

Ainda, continuava com um leve peso na consciência da discussão de minutos antes. Não conseguia brigar com a albina daquele jeito, desferir tais palavras, e se impressionou consigo mesma, na verdade. Talvez o estresse da situação a levaram a loucura, e talvez até enlouquecesse se a situação persistisse. Não seria surpresa alguma, para falar a verdade. Ela e Jordana nunca haviam falado uma com a outra de tal forma, a amizade sempre foi carregada de muito amor, afeto e companheirismo. As duas estavam sendo levadas ao limite.

Isso tudo, é claro, enquanto tinha de se importar com algo tão complicado quanto dinheiro. As despesas da casa e de sua vida no geral, mesmo que compartilhadas por mais duas pessoas, teriam de ser pagas em partes por ela. Com isso em mente, teria de procurar por algum emprego. Oakfield High era sua primeira opção, podendo lecionar lá, dando seguimento à carreira que estudou na faculdade.

Naquele momento, para desocupar a mente da situação e do assunto que abalou-os e também para ter um momento sozinha, levantou-se do sofá.

— Eu vou sair – disse, olhando para os dois. – Já volto. Vou entregar alguns currículos, tenho que ocupar minha cabeça com alguma coisa.

Nem Brammall nem Merriman questionaram. Ao menos queriam, na verdade. E calados e sérios, os dois viram quando Emily deu meia volta, passando direto pela passagem da cozinha, onde a sombra da albina já não mais se projetava no chão – ela possivelmente havia subido para o quarto sem que nenhum deles notasse –, e saindo pela porta da frente.

 

2

 

Já havia saído de casa, e ficava extremamente feliz de tê-lo feito. Procurava por uma chance de ficar sozinha, e aquela caiu como chuva diante de si. Mas de qualquer forma, não era seu objetivo. A saída foi realmente para aquilo que havia dito: entregaria currículos em qualquer lugar que pudesse encontrar vagas de emprego. Já havia deixado todos os documentos e papéis necessários no carro, e agora dirigia pelas ruas de Oakfield com calma. Sua primeira parada seria Oakfield High, onde tentaria arranjar uma entrevista de emprego, e em seguida seguiria para algum outro lugar, do qual não sabia onde era ainda. Preferia ter várias opções para aceitar uma e descartar as outras.

Havia pensado muito durante o caminho, e chegou a conclusão de que, sim, entrar no cenário do horror era melhor do que fingir que ele não existia. Tentaria descobrir mais sobre as pessoas citadas por Molly e se aproximar, se possível. Não persistiria em fazer Jordana concordar consigo, de certa forma começava a não dar a mínima para a amiga. Se ela não queria concordar, ótimo, só soubesse que Hayes não estaria ali quando o assassino arrancasse sua cabeça. Por outro lado, a sobrevivente sabia que tal ódio passaria dali algumas horas, mas, no momento, era no que conseguia pensar.

Quando chegou, percebeu que a escola não havia mudado muito. A mesma fachada antecedia o prédio de três andares, com o extenso estacionamento de estudantes ocupado de carros, motos e bicicletas. Dos lados, as árvores cercavam o colégio, e a cerca que um dia havia pulado para colocar o grande plano em ação era vista na lateral, circundando o campo de futebol americano. Nenhum aluno passeava por ali, desde que, provavelmente, estavam todos em horário de aula, mas algumas cabeças agitadas e corpos que corriam e andavam eram vistos pelas janelas com cortinas abertas.

Vagou com paciência entre as locomotivas, procurando uma vaga. Por sorte, encontrou uma próxima à porta de entrada, e saiu do carro logo em seguida. O ambiente lhe trazia vibes estranhas. Oakfield High lhe fazia lembrar de várias coisas, ruins e boas. De como andava com os amigos tão felizmente e como tudo desmoronou de um dia para o outro, quando a vida de Victoria Reed foi selada em sua própria mansão, e então o jogo se iniciou. Sentia que a mesma coisa estava acontecendo, que as vidas tiradas em Springwood Dinner, e o derradeiro destino da atriz, eram o início de algo muito mais drástico, e temia, ainda mais, que fosse o motivo de tudo mais uma vez.

Ajeitou a bolsa no ombro e seguiu a passos rápidos até as portas duplas de entrada, que eram antecedidas por um lance alto de escadas de mármore. O som de vozes se intensificava quanto mais perto chegava, e na metade do caminho, quando passou entre dois carros, o alto sinal tocou e dispersou-se no ar conforme prosseguia seu ardido canto pelo quarteirão inteiro. Ótimo, pensou, revirando os olhos, prevendo o mutirão de adolescentes que teria de enfrentar até chegar à sala da diretoria, que ficava, pelo menos antes, no fundo do prédio escolar.

E não foi diferente do que pensou, pois, no instante seguinte, mais vozes chegaram aos seus ouvidos. Elas berravam, falavam alto e demonstravam a euforia dos seres humanos no interior das paredes. Provavelmente as aulas do dia haviam acabado para eles. Passos pesados ecoavam do interior enquanto a morena seguia até a entrada. Olhando pelas janelas, vultos andavam de um lado para o outro, as salas de aula esvaziando conforme os estudantes saíam pelas portas. E então, quase conseguindo assustá-la, as portas de plástico eclodiram para dentro da escola quando um garoto puxou-a com força, liberando todos os jovens do interior, que voaram para fora, descendo as escadas, alguns com animação no rosto e outros de cara fechada.

Logo, se dispersaram, cada um seguindo para um lado e enchendo o estacionamento enquanto o sinal cessava, deixando apenas as vozes e gritos no ar. Emily seguiu confiante entre eles, sentindo braços baterem nos seus e temendo tropeçar nos pés agitados daqueles ao redor dela. Nenhum parecia perceber sua presença, no entanto, passando por si como se nem existisse, um mero fantasma na multidão. Apertou a bolsa com mais força, pensando, por curtos segundos, que algum deles poderia passar-lhe a mão e roubá-la. Mas, para sua sorte, as escadas já estavam diante de si.

A corrente de corpos na puberdade não parava, com mais pessoas descendo os degraus com agilidade, as mochilas nas costas subindo e descendo a cada passo. Subiu no primeiro e tomou cuidado para não ser levada para trás, retomando a pose e continuando no instante seguinte. Curvou o corpo para o lado para permitir uma passagem melhor, ombros alheios lhe acertando constantemente. O pesadelo acabou quando chegou na parte de cima e entrou. Lá, o movimento era menor, mas continuava. Os adolescentes ainda saíam das salas, mas o espaço era maior e, em consequência disso, a movimentação era mais liberta.

Tornou a andar, dessa vez mais rápido, tentando se ver livre do furdúncio, as cabeças se agitando de frente a sua visão. Olhava atenta para os lados, reparando na nova arquitetura interior do edifício. As paredes eram mais escuras, percebeu, quase acinzentadas, e os armários tornaram-se verdes, em vez de vermelhos. No topo, na quina das paredes, uma faixa branca de concreto seguia por toda a extensão delas. O piso mantinha formas diferentes, e o teto era da mesma cor das paredes. A única coisa que não havia mudado eram as portas das salas de aula, feitas de madeira e, algumas, com quadradinhos de vidro que permitiam a visão do interior para quem estivesse nos corredores.

E foi quando, observando atentamente o lugar em que estava, reparou, no interior de uma das portas abertas, enquanto ainda andava, a figura que obrigou-a a parar onde estava, no meio do movimento dos adolescentes, encarando estaticamente quem estava sentada em uma das carteiras.

Julia Moss nunca esteve tão bem. Estava como era antes do início do massacre, sem olheiras sob os olhos – falsas, por sinal –, os lábios hidratados e sem cascas e os cabelos em formato de cones grossos, belos dreads negros, presos em um rabo de cavalo na cabeça por um grande fio do próprio cabelo. Os braços brancos se mexiam freneticamente e entortavam-se enquanto as mãos agitavam-se sobre um objeto amarronzado em cima da mesa. Os óculos realçavam os olhos negros e grandes da nerd assassina, que observava atentamente o que quer que fosse aquela coisa que tanto centrava sua atenção. E com um movimento do ângulo do braço da garota dos dreads, Hayes pôde perceber se tratar da máscara de Carrasco.

No momento seguinte, estática no corredor, sem se mover para nada, a sobrevivente sentia os ombros alheios batendo em si. Algumas pessoas já percebiam a estranha desconhecida parada ali, com uma expressão de terror formando-se no rosto e os olhos estalando como nunca antes fizeram sob a horrenda visão de seu pior pesadelo. A luz da janela da classe dava à Moss uma terrível glória, refletindo-se nela como feixes de luz enquanto a mesma erguia os braços, colocando a máscara. Sem que percebesse, cegada pela forte luz do exterior, Emily demorou alguns segundos para conseguir localizar o foco, reparando, então, que a assassina a olhava com a coisa sobre a cabeça.

Seus pulmões se encheram de ar bruscamente em um suspiro de choque, medo e pânico. Hayes não havia percebido, mas tinha feito barulho o bastante no ato para chamar a atenção de algumas pessoas à sua volta. Contudo, os eventos da visão não pararam por aí. Uma tontura avassaladora lhe preencheu o corpo, a visão tornou-se turva, começando a piscar e a apagar, para em seguida retornar ao normal em um lance de luz. Ao fundo, a silhueta de Julia ainda era visível, mas dessa vez a luz solar saída da janela estava forte demais, de modo que a sobrevivente não conseguia ver nada além da figura enegrecida da assassina. De uma forma ou de outra, conseguia sentir o peso do olhar mortal dela, o peso das mortes de seus amigos nos ombros, a culpa.

Naquele momento, com os indícios de um desmaio, a morena se desesperou. O que estaria acontecendo? Julia Moss estava morta, ela mesma havia enterrado uma bala na cabeça da vadia. Então, por que a via ali? Estava ficando louca? Não conseguiu encontrar uma resposta, e o desespero aflorou-se em seu ser. Queria parar de ver aquilo, queria se distanciar da realidade antes que as coisas ficassem piores. Uma fina camada de lágrimas cobriu seus olhos estalados, a respiração ficou ofegante, o coração batendo como tiros de metralhadora dentro do peito. Os alunos ao redor começaram a perceber a cena da mulher doida no meio do corredor, mas seguiam a correnteza de corpos que iam para fora da escola, sem ninguém tomando a devida atitude para perguntar se estava bem ou prestar qualquer tipo de ajuda.

E o pesadelo dentro de Hayes continuava. Os sentidos pareceram ficar menores. A visão turva quase a cegava, ao mesmo tempo que todos os sons de vozes e passos passaram a ficar longes, como se o mundo houvesse ficado com o volume baixo. Parecia ter, realmente, se distanciado da realidade, e agora percebia que as coisas não eram melhores. Desordenada, prestes a cair em um choro profundo, começou a recuar da figura de Moss, que continuava parada lhe observando, um contorno negro em meio à claridade, seus pés serpenteado pelos azulejos do chão. Bateu no primeiro corpo antes de terminar o terceiro passo, e foi quando as pessoas começaram a parar e observar com mais atenção.

A estudante atingida, por sorte, era muito calma e realmente se preocupou com o que estava acontecendo com Emily, franzindo o cenho e pondo-se a colocar a mão no ombro da moça. Mas desistiu quando isso não surtiu efeito, e seguiu seu caminho, assustada, se distanciando. Aos poucos, novas pessoas surgiam ao seu redor, formando um círculo defeituoso repleto de rostos curiosos de adolescentes. Alguns até mesmo se prontificavam a pegar celulares e filmar a situação, outros riam da mulher louca, e Emily ao menos havia percebido que a sala de aula onde havia visto a psicopata já estava tampada por adolescentes.

Mas nada do que fizeram adiantou, ela continuou em pânico. No entanto, uma boa alma surgiu quando a cena começou a ficar preocupante. Do meio dos estudantes, uma única pessoa adulta apareceu, afastando os ombros dos jovens enquanto criava um caminho e pedia licença entre eles. Os cabelos loiros, lisos e que batiam um pouco abaixo dos ombros balançavam sobre sua camisa branca e fina, que estava com a barra para fora da calça jeans, estranhamente larga para o porte da mulher, que era bem pequeno. Seus olhos verdes dançavam curiosos pelo ambiente, a boca fina, lambida de um batom vermelho, rígida.

— Senhora, você está se sentindo bem? – perguntou a mulher, ficando após a rodinha, logo ao lado de Emily, colocando uma das mãos no ombro ofegante da sobrevivente e encarando-a de forma profunda, observando os olhos lacrimejantes da garota.

Então, tudo voltou ao normal. Hayes voltou a escutar como antes, a visão turva começou a cessar, transformando-se em uma fraca dor de cabeça e ficando levemente embaçada, como quando se tem enxaqueca ou náuseas. E, o mais importante, conseguindo enxergar entre os corpos espremidos dos alunos, percebeu que a sala de aula estava como sempre foi, sem nenhuma Julia Moss para lhe atormentar. Aliviou-se, mas junto desse alívio veio a vergonha, a humilhação, ao perceber a grande quantidade de pessoas ao seu redor, que lhe encaravam e apontavam celulares em sua direção. Sentiu o rosto queimar.

Demorou mais alguns segundos para sentir a mão em seu ombro, e foi quando olhou de volta para a loira. Com os pulmões voltando ao normal e as lágrimas deixando os olhos, questionou:

— O que?

Todos continuaram em silêncio, mas a mulher respondeu:

— Eu perguntei se você está se sentindo bem.

— Eu… É… – Tentava pensar em uma boa desculpa, mas nada lhe vinha a cabeça. – Eu pensei ter visto uma coisa, só isso… E tive um pouco de náusea. – Não mentiu, apenas encurtou os fatos.

A mulher, de aproximadamente quarenta e poucos anos, sorriu de lado e concordou com a cabeça. Em seguida, olhou ao redor, observando a multidão e tirando a mão do ombro de Emily. Estava séria, e a sobrevivente percebeu, ainda tentando conciliar o que havia acontecido consigo com a realidade, como todos os jovens obtinham certa inferioridade a ela.

— O que estão fazendo aqui ainda? Vamos, o sinal já bateu! Não há nada para ver aqui! – berrou em direção a eles, e no momento seguinte, todos obedeceram, começando a andar de volta para a saída, retomando o som de vozes.

Emily continuava parada quando a mulher voltou para si, dizendo:

— Me chamo Ellen Ferrer, trabalho como orientadora estudantil aqui em Oakfield High. Qual o seu nome?

— E-Emily… Emily Hayes. – A outra concordou com a cabeça e engoliu em seco.

— Tem alguma coisa que você queira me contar sem que todos ouçam?

— Não… Não tem… – respondeu de imediato. – Eu só tive uma tontura, mesmo. Não tem com o que se preocupar.

A sobrevivente tentava passar confiança em sua voz, mas era explícito para Ellen, uma orientadora nata no assunto, que ela mentia. Algo estava sendo deixado de fora no relato da morena, e Ferrer percebia. De uma forma ou de outra, o olhar na cara da loira era de compreensão. Ela sabia enganar os outros muito bem com as suas expressões faciais, passou a vida fazendo isso em seu trabalho fora da escola.

— Certo – respondeu Ellen, virando a atenção para sua bolsa no ombro. Sob o olhar curioso de Emily, Ferrer remexia com agressividade no interior do adereço, como se procurasse algo. Após alguns segundos, tirou de lá um pequeno cartão tão rapidamente que os escritos nele ficaram invisíveis para a morena, estendo-o em sua direção. – Se precisar de alguma coisa, se quiser conversar… É só entrar em contato, tudo bem?

Sem relutar, agarrou o pedaço de papel grosso de uma vez, não se importando muito com o que havia escrito nele, concordando com a cabeça sob o sorriso confortante de Ferrer. Em seguida, a loira deu meia volta, se infiltrando na multidão novamente, desaparecendo em questão de segundos no meio de todos os adolescentes, mesmo que usasse grandes saltos. Foi como areia sendo arrastada pelo vento, antes mesmo que Emily tivesse chances de questionar, dizer alguma coisa ou agradecer.

Abaixou o olhar para o que tinha nas mãos, ainda abalada pelo que havia acontecido segundos antes, sentindo a face queimar com a vergonha passada naqueles momentos. Na parte de cima, as palavras diziam “Clínica Psicológica”, e abaixo os nomes de seus respectivos doutores, ditados em ordem alfabética, junto do número telefônico do local. Entre eles estava o de Ellen Ferrer, que, pelo visto, era mais do que uma orientadora escolar. Era, também, uma psicóloga. Naquele momento, o último conselho da loira passou a fazer sentido para Hayes.

 

3

 

Sentados, lado a lado, num dos bancos da praça de Oakfield, Logan e Tommy conversavam animadamente. Mesmo que nenhum sorriso chegasse aos seus rotos, o assunto era cativante para ambos, sendo esse o último desfile da Victoria Secrets. Poucas pessoas passavam ao redor enquanto o casal se envolvia ainda mais no papo, estando ali desde que Bates havia saído para o horário de almoço da clínica veterinária.

O mais afeminado revirava os olhos a cada look não aprovado, e estalava-os quando dizia sobre os que havia gostado. Tommy servia, basicamente, para concordar e discordar com ele, e então ambos comentavam sobre.

— Mas, aí, aquela magrela peituda quase caiu do salto, acredita? – questionava Logan, olhando nos olhos vidrados do namorado.

— Chegou a cair? – tornou o outro, ansioso.

— Não. – Ele observou-o com pena, dizendo a palavra com ênfase.

— Aff – lamentou, abaixando a cabeça levemente. – Nunca acontece desgraça nesses desfiles. É a melhor parte. – Suspirou. – Cadê as modelos que não tem experiência? – Como se levado por um tapa na cabeça, Tommy levantou o rosto e olhou para o outro. – Falando em experiência… – Começou a frase, empolgado, colocando um largo sorriso no rosto, mas então levou uma cortada brusca do namorado, que levou sua atenção para um ponto atrás do loiro, estalando os olhos e sorrindo ao gritar:

— Ai, meu Deus! – Sua boca estava até aberta de tanto êxtase com quem havia visto ao fundo. – Não acredito!

Levado por uma curiosidade antecedida da raiva por não ter sido capaz de dizer o que queria, Howard virou a cabeça para o lado, tentando encontrar o que o outro tanto glorificava. E localizou a presença, sorrindo de imediato no mesmo momento, só que com menos empolgação que o moreno.

— Nossa, esse aí faz tempo que a gente não vê – comentou.

Andando em sua direção, estava Garrett, que sorriu animadamente para o casal, enquanto Logan debatia-se como uma lesma atingida por sal, dando até um pouco de vergonha para Tommy, que era mais recluso e tímido que ele. O tatuador se aproximou o mais rápido que conseguia enquanto se abaixava para cumprimentar Bates com um beijo no rosto, como já estava acostumado, e como já sabia que levaria uma advertência se não o fizesse. Em seguida, fez o mesmo com Howard.

— Garrett, gato, quanto tempo! – exclamou Logan, indo para o lado e dando espaço para que DeLucca se sentasse. Sem escolhas ou compromissos para fazer, ele assim o fez, sorrindo enquanto olhava para os dois, achando graça de tudo aquilo. – Por onde andava?

— Ah… Lugar nenhum. Estava aqui o tempo todo. – Não sabia se Logan estava sendo irônico com a pergunta ou não, mas optou por responder como se ele tivesse feito-a assim.

— Sério? Achamos que tinha viajado – disse Tommy, ajeitando-se ao lado do namorado, apoiando o braço direito no encosto de madeira do banco. – A gente não se vê… Ao o quê? Duas semanas? Três? – Estava impressionado com o longo tempo, encarando os outros com o cenho franzido.

— A tatuadora está bem lotada nesses últimos dias, e quando eu não estou lá, estou em casa, no meu tempo livre – respondeu, levantando confirmações sonoras dos outros dois, que concordaram.

Bates ficou em silêncio por alguns segundos, encarando o chão, e não conseguiu segurar sua língua, dizendo:

— Desculpa cortar o clima, mas eu não consigo parar de pensar em uma coisa. – Garrett e Tommy ficaram curiosos, prestando atenção na expressão séria dele. – Eu já disse pro Tommy, mas você é muito amigo meu, Garrett, e eu quero saber a opinião da maior quantidade de pessoas possíveis.

— Certo… – concordou DeLucca, temendo o que estava por vir.

— Então…

Foi então que o destino resolveu punir-lhe com o mesmo grau com que o veterinário havia usado por tanto tempo. Sempre cortando as frases de outras pessoas, dessa vez ele foi o alvo de tal coisa, quando uma voz feminina surgiu-lhes pela lateral:

— Iam marcar de beber e não iam me chamar? – O tom irônico era explícito.

Os três olharam para cima em conjunto, momentaneamente assustados com a frase, e encontraram Ellen, parada logo à frente, sorrindo para eles. Os homens sorriram para ela, retomando a animação de antes. A psicóloga se aproximou antes que eles respondessem e cumprimentou cada um com um beijo estralado no rosto.

— Ellen, quanto tempo, amiga! – disse Tommy, que, dentre os três, era o mais próximo a ela, mesmo que Logan e Garrett compartilhassem do mesmo grau de intimidade, só que um pouco menos intensificada.

— Ai, Tommy, que saudades. Que saudades de todos vocês, meninos. – Ela ainda sorria.

— Bom, nós não estávamos falando de beber – tornou Bates. – Mas você pode ouvir, sim, o que eu iria falar. Quanto mais opiniões sobre o assunto, melhor.

— Okey… – concordou Ferrer, desconfiada, ainda de pé de frente a eles, ajeitando a bolsa no ombro.

Logan se aprumou entre os outros dois garotos, praticamente cercado, com Garrett à sua direita, Tommy à sua esquerda e Ellen à sua frente. Retomando à seriedade, ele trouxe o mesmo sentimento aos seus amigos. Olhou com intensidade para todos, e em seguida disse:

— Vocês ficaram sabendo da morte da April? – Como em todas as vezes, citar o nome da atriz e o fatídico acontecimento deixavam-no recheado de remorso, fazendo-o lembrar de todas as ofensas que havia dirigido a ela, sempre dizendo o quão ruim e metida e outras coisas ela era.

Os três engoliram em seco. Todos haviam ficado sabendo, é claro. A notícia havia saído no jornal local da cidade, e foi justamente Howard quem fez a reportagem com todos as testemunhas e presentes na hora do crime, formando a notícia completa e estampando-a como primeira página naquela edição do meio de comunicação, sendo um dos jornalistas do editorial. Para ele, foi uma das piores coisas que havia feito, ao mesmo tempo que amou tudo aquilo pois avançou mais um passo em sua carreira. Ter seu nome em um artigo como aquele lhe garantiria o reconhecimento de grandes empresas sobre si.

— Tem como não ter ficado? – questionou Garrett, desconfortável.

— Foram quatro mortes, já – comentou Ellen, igualmente desconfortável, sentindo o peso do assunto nas costas. – E, desculpa falar, mas eu não consigo não ligar essas mortes com a chegada de Emily e Jordana à cidade.

Havia, sim, se encontrado com Hayes a minutos atrás, mas, mais uma vez, usou de sua grande audácia com expressões faciais para convencê-la de que não sabia quem era. Foi bom ter encontrado a garota cara a cara e não apenas em fotos ou redes sociais, e percebeu que ela passava por algum problema psicológico, talvez ligado ao seu passado e às mortes que estavam acontecendo.

Já os garotos, que igualmente haviam tido contato com as sobreviventes, abaixaram a cabeça, sem saber exatamente o que dizer. Ao perceber que o casal não tomaria a dianteira para não deixar a loira no vácuo, DeLucca disse:

— A Emily é bem legal, na verdade. Não vejo nenhum mal nela.

— Eu sei. Encontrei com ela hoje… – Ellen suspirou. – Está mentalmente instável. Talvez algum trauma do passado esteja mexendo com ela… Mas, de qualquer forma, não é isso que eu estou querendo dizer, Garrett. – Havia percebido como o tatuador pensou que, com seu comentário, estava querendo dizer que as sobreviventes fossem as autoras dos crimes. – E se tiver alguém atrás delas de novo?

Os olhares voltaram para si. A psicóloga sentia muita responsabilidade em dizer aquelas palavras, sendo exposta como uma espécie de vilã para os três, que obviamente já tiveram contato com as sobreviventes e haviam gostado delas, mas seu trabalho sempre foi de opinar quando pode e não se importar com o que pensam de si. Se tem algo a falar, apenas fale, e era o que ela estava fazendo ali.

— E se esse alguém estiver usando todas essas pessoas, todas essas mortes, para chegar até elas? Como um atalho para conseguir o que quer?

Tommy pensou e pensou, mas não chegou a nenhuma conclusão. Era incrível como Bates, um homem que estava sempre sem papas na língua e que não ficava quieto, não dizia uma palavra. Howard questionou:

— Como assim?

Ellen franziu o cenho, explicando:

— Vocês sabem do passado delas, não sabem? – Todos concordaram. – Sabem o que aconteceu? A razão de tudo? – Nenhum deles confirmou. – Então, foi mais ou menos a seis ou sete anos atrás. Houve todo aquele massacre dos estudantes, orquestrado por um garoto chamado Connor McGrath e uma garota chamada Julia Moss. Pelo testemunho dos sobreviventes, Julia Moss era como a cabeça da dupla, dando as ideias e fazendo os planos, e Connor McGrath era quem, na maior parte das vezes, botava esses planos em ação, por ser mais forte do que ela. Contudo, o que Julia queria era, na verdade, apenas Emily. Ou seja, ela matou um monte de gente para ver Emily Hayes sofrer pelo que havia feito com ela, enquanto todos esses mortos não tinham culpa alguma, e serviram de meras vítimas no plano doentio dela.

— Então o que você quer dizer é que outras pessoas estão morrendo para que o assassino chegue até as duas? – perguntou Garrett, entendendo o raciocínio da psicóloga. O assustador era que fazia sentido.

— Nenhum daqueles mortos fizeram alguma coisa para essa tal de Julia? – perguntou Logan, pela primeira vez abrindo a boca após o início do assunto.

— Não, não fizeram, Logan. E sim, Garrett, é isso o que estou querendo dizer. – Ferrer havia sido invadida por uma sensação de empoderamento, como se estivesse descobrindo algo extremamente grande e de imensa importância. – Nós estamos morrendo para que o assassino chegue até as duas, para que o assassino veja-as sofrer… Seja lá por qual motivo.

De imediato, Bates abriu a boca e, de cenho franzido, estranhando um fato do relato da loira, levemente assustado, perguntou com veemência:

— Por que usou a palavra “nós”?

Ferrer o encarou por alguns segundos, pensando no que responderia, e então, antes que pudesse tomar alguma atitude, sentiu uma vibração no bolso da calça. Olhou para baixo enquanto seus companheiros também levavam a visão ao barulho de vibração vindo de dentro de um dos bolsos de Ellen, que esticou o braço e tirou de lá seu celular. Encarando o visor, viu como “Número Desconhecido” aparecia escrito na tela.

— Só um segundo – pediu licença para os amigos, atendendo a chamada. – Alô?

Sentados no banco, os garotos conversavam entre si, comentando o que estavam discutindo sem a presença da loira, já que essa estava ocupada na ligação telefônica. Do outro lado da linha, a voz arrastada e de dar arrepios se mostrou presente, saudando Ferrer com um arrastado e rouco:

Hello there, Ellen.

Franziu o cenho, curiosa.

— Olá… Quem está falando?

Não se preocupe, logo, logo saberá.

— Como assim?

Levada por um estalo repentino, ela se lembrou de tudo o que havia estudado sobre o caso dos assassinatos de Oakfield. Entre os fatos encontrados, estava o de que o assassino usava um modificador de voz para se comunicar com suas vítimas. Poderia ser, certamente, um estranho qualquer que havia ligado errado, mas a forma como a voz se pronunciava evidenciava que o indivíduo ligou com a intenção de falar com ela.

Não querendo levantar a curiosidade dos homens, questionou:

— É você, não é?

Tommy foi o primeiro a levantar o rosto, seguido de Logan e, por fim, Garrett. Os três encararam Ellen, que continuava em sua tenebrosa conversa com o psicopata.

Mais um ponto para você, Ellen. Meus parabéns. – Uma pausa. – Você é bem esperta… Tenho que confessar que deve ser bem mais difícil lidar com adultos, comparados à adolescentes. São mais espertos, mais fortes, mais maduros, fazem escolhas mais convenientes…

— O que você quer? – disse com força, cortando-o.

Uma risada longa se deu na linha. Howard, Bates e DeLucca ainda a olhavam, tentando decifrar o que se passava no telefone pelas expressões da moça.

Apenas avisar que eu estou aqui, e que irei atrás de cada um de vocês.

Ela fechou os olhos, absorvendo as palavras. Não podia negar que estava assustada, aterrorizada. Sentia-se exposta, violada.

Só basta esperar – terminou a voz.

Com seu ultimato, o recado havia sido dado, e logo a chamada foi encerrada.



Notas finais do capítulo

Vish, as coisas tão feias, não? Agora, o nosso cast ficou composto por Emily, Jordana, Sam, Lincoln, Archie, Molly, Tommy, Logan, Kai, Zoe, Linda, Garrett, Peter, Megan, Owen, Max, Olivia e Ellen, sendo que April, Clary, Toby e Ally já estão mortos. O que acharam da ligação final? Pura vítima ou pura armação de Ferrer? Emily está beirando a loucura? O que acham que vai acontecer daqui em diante? Contem-me suas opiniões, ficarei mais do que feliz em saber! Até mais!



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