Hello There 2 escrita por Weirno


Capítulo 20
S02EP18 - The Escape Artist


Notas iniciais do capítulo

A Artista Fujona

Tomando medidas drásticas, Sam se vê mais exposta ao perigo do que antes. Emily, numa chamada ao hospital, se encontra no mesmo destino da artista.



O pincel de madeira, com suas cerdas molhadas em tinta azul, traçava uma linha curvilínea pela tela branca, posicionada em cima de um suporte de madeira. A mão rígida de quem o portava tinha cuidado em não deixar a tinta escapar nem por um centímetro do design original, no caso o desenho feito a lápis antes que Sam tivesse começado a tintura. Ela tinha a face relaxada, apesar de tudo. Estava cansada por dentro, mas quem a visse facilmente a descreveria como uma mulher calma, serena. Winters sempre achou estranho como expressões faciais diziam muito sobre a pessoa, ao mesmo tempo que não faziam esse trabalho direito.

Os olhos verdes dela não ousavam escapar da linha azulada deixada no pano, talvez por medo de encarar o exterior da galeria de artes pela vitrine à frente, ou talvez apenas por pura concentração. Era difícil dizer. De qualquer forma, ela estava imersa em seu mundo da arte da mesma forma que estava imersa pelas sombras do interior do lugar. A única iluminação vinha do suporte de luz, uma espécie de abajur, pendurado em cima da tela, iluminando para baixo, na direção do quadro em andamento, e também acertando-a em fortes flashes brancos no rosto. Ao redor, o restante da galeria estava escuro, a não ser pela luz dos postes na calçada à frente.

Em certo momento, Samantha não conseguiu deixar de virar a cabeça alguns centímetros para o lado, encarando a placa de vidro e, consequentemente, a rua vazia do outro lado dela. Por sorte, o vento frio não era capaz de passar por baixo da porta fechada, mas era capaz de ser ouvido batendo na vidraça, com tanta força que parecia que, a qualquer segundo, a coisa toda fosse quebrar e deixá-la exposta ao frio da noite. A cena em si causava nela um arrepio medonho pela espinha, um calafrio que gelava seu coração, um medo do incerto e do perigo de estar ali. Por poucos segundos, Sam até chegou a pensar que estava arrependida de estar tão sozinha e exposta ao perigo.

Engoliu em seco e voltou a atenção para a tela, ainda segurando o pincel na mão trêmula, sentada num banco alto dali, dizendo para si mesma que não voltaria a olhar para aquela direção. Que Deus me proteja, disse para si mesma, voltando a pintar.

 

1

 

Emily seguia pela rua escura, sendo iluminada em intervalos de cinco segundos por uma nova onda de luz vinda dos postes colocados de forma intercalada na calçada. Aquela área da cidade era extremamente ameaçadora para ela, tão escura e tão deserta quanto qualquer outra, o que era estranho por ser praticamente no centro de Oakfield. Colocou as mãos nos bolsos do casaco para se aquecer, tremendo de frio. Os cabelos eram constantemente atingidos pelo vento.

O motivo de estar ali era por ter sido chamada, momentos antes, para ir ao hospital de Oakfield, onde Molly estava internada em estado grave após ter sido mais uma das vítimas do Carrasco. A situação em si já era alarmante, mas o fato de Merriman continuar viva era o bastante para Hayes se sentir mais aliviada. Aliás, sentia-se culpada por ter duvidado da garota dias antes, quando a acusou verbalmente de ter atacado Megan no supermercado. De certa forma, essa era uma das piores situações que poderia ocorrer durante o massacre, quando você ficava certo o bastante de que tal indivíduo era o assassino, mas depois – quase como se o próprio mascarado tivesse ouvido – essa pessoa era brutalmente assassinada ou atacada, provando o contrário e deixando para aqueles que duvidaram de sua inocência nada mais do que o forte peso na consciência.

Após receber a ligação de um dos médicos do hospital, provavelmente o responsável pelos cuidados de Molly, Emily sentiu-se ainda mais chateada consigo mesma, pois, pelo jeito, Merriman havia dado o número de Hayes como o número de emergências. Em outras palavras, era para a sobrevivente que teriam de ligar caso alguma situação inesperada acontecesse, como uma piora no estado da morena ou, até mesmo, sua morte. Mas pelo que sabia, isso estava longe de acontecer. Molly parecia bem, como lhe foi avisado ao telefone, o sangramento foi contido dias antes e agora ela só precisaria ficar algum tempo em repouso no lugar até que os ferimentos tivessem sido cicatrizados e curados, para então ser colocada de volta ao mundo real – dessa vez com metade de seu braço faltando, e um toco redondo e repleto de suturas no lugar dele.

Um braço dilacerado por um moedor de carne… Hayes mal podia imaginar o que poderia ter acontecido se os policiais não tivessem chegado. Em que estado o corpo de Molly seria encontrado. Tirou o pensamento da cabeça com uma piscada forte, suspirando fundo o ar da noite e deixando que uma fumaça branca saísse de sua boca no ato. A conversa com o médico em si seria algo sobre alguns medicamentos que deveriam ser comprados com antecedência para o tratamento de Merriman fora do hospital, e que por serem de tarja preta, necessitariam de uma receita médica e uma assinatura do responsável por Molly, no caso Emily.

O motivo de estar sem carro era simples: Jordana e Archie estavam no hospital com Molly, esperando por sua chegada. Eles não sabiam que, repentinamente, o médico de Merriman iria pedir pela presença de Emily, então não se importaram em deixar ela sem o carro, sozinha com Ellen na casa. Quando foi chamada, saiu com tanta pressa que esqueceu de pedir para que um dos amigos fosse buscá-la, e agora estando perto demais do local não via necessidade em ligar para eles.

Continuou seguindo pela calçada, seus sapatos tocando o chão e fazendo um som seco que ecoava por toda a extensão da rua vazia e escura. Tentava chegar ao seu destino o mais rápido possível.

 

2

 

Um barulho ressoou do lado de fora, alto o bastante para que Sam pudesse ouvir do lado de dentro. Dessa forma, ela levantou os olhos mais uma vez, encarando o exterior com mais intensidade e pavor do que antes. O som foi seco e rápido, como uma batida contra a madeira ou passos no asfalto. Não sabia ao certo e duvidou que fosse chegar a ter essa resposta, mas, mesmo assim, se levantou do banco, indo até a vitrine.

Ao que se aproximava do vidro, a loira podia sentir os pelos da nuca se arrepiando, os olhos aguados tremendo sob a visão horripilante da rua escura e vazia, parecendo tão tomada pelo terror da cidade que cada banco, cada hidrante e cada prédio parecia estar consumido pelas almas das pessoas mortas. Uma cidade-fantasma, poderia se dizer. No entanto, não foi o pensamento das almas vagando pela noite que tomou os pensamentos de Winters, e sim o de que o perigo provavelmente estaria do lado de fora, esperando que ela saísse ou chegasse em uma posição de presa para atacar.

Mais perto, quase com o rosto colado na vitrine, Sam tinha uma visão bem mais ampla do exterior, chegando a poder ver o final de ambos os lados da rua, que terminavam em uma névoa branca e espessa, com sombras tão grandes que chegavam a ocultar o restante do caminho. Era incrível a forma como ninguém tomava as ruas, mesmo que fosse de se esperar. O medo de ser o próximo tomava o corpo de cada cidadão, todos temiam se tornar a próxima vítima do Carrasco. Tolos, pensava a loira quando esse pensamento surgia, todos seguros dentro de suas casas e mundinhos perfeitos, enquanto nós estamos aqui, lutando pela vida. E ainda têm a arrogância de achar quem correm algum tipo de perigo.

Chegou a tocar o vidro frio com a ponta dos dedos, observando cada canto do lugar, até que deu dois passos para trás, recuando com a simples ideia de que estava arrependida. Não queria mais morrer.

Virou-se, dando as costas para a vidraça. Tentava dizer para si mesma que não havia nada de errado, que ficaria bem e que não corria perigo. Forçava tanto essa ideia em sua cabeça que chegou a fazer o que normalmente faria antes de fechar a galeria, como se estivesse em um dia normal. Por isso, deu a volta no balcão e pegou o saco de lixo posicionado ali momentos antes, com o intuito de, mais tarde, colocá-lo para fora. Se houvesse alguém a observando pelo lado de fora, talvez vê-la sem nenhum tipo de nervosismo ou medo faria com que perdesse o interesse.

Com o saco de lixo nas mãos, passando reto pelo suporte de tela com seu quadro semipronto em cima, indo na direção da porta traseira do estabelecimento. Abriu-a com facilidade, indo para o outro lado e deixando a porta aberta atrás de si, ao que estendeu um dos braços e acendeu a luz pelo interruptor. Ali era uma espécie de estoque. Tintas, pincéis, telas, suportes, lâmpadas, papéis, impressoras e computadores velhos, e todo outro tipo de item estava ali, seja para serem usados depois ou por já terem sido usados o bastante. Era um cômodo nem tão grande assim e quadrado, que chegava a ficar completamente iluminado pela luz branca no teto por conta disso. Mais ao fundo, uma segunda porta estava posicionada, e foi para ela que Sam se dirigiu, pulando as coisas jogadas no chão.

O saco de lixo em sua mão pesava, estava cheio de todo tipo de lixo, que foi acumulado durante a semana inteira e mais um pouco. Aquela foi a primeira vez, desde a morte de Lincoln, que Samantha havia posto os pés na galeria. Seu luto foi tão grande que nem mesmo isso foi capaz de fazer durante todo aquele período de tempo. Percebeu, horas atrás, então, que transformar seus lamentos em quadros para vender e ganhar dinheiro era a melhor coisa a se fazer.

Girou a maçaneta redonda e abriu a porta para o lado de fora, sentindo o cheiro de neblina, lixo e fumaça vindo dali, ao mesmo tempo que uma forte lufada de vento frio atingiu seu corpo quente. Tinha deixado a blusa em cima do balcão da frente. Agora, esse era só mais um de seus arrependimentos.

Antes de sair, olhou de um lado para o outro, ainda segurando a maçaneta como uma forma de poder fechar a porta caso alguma ameaça surgisse. Era um dos becos que cruzaram toda aquela área de Oakfield, praticamente cortando a parte de trás de todos os estabelecimentos dali. À direita, ele seguia por alguns metros, até alcançar a rua. À esquerda, o beco se estendia mais um pouco, chegando a um cruzamento que o interligava com mais outras passagens estreitas e fedidas. A parede da galeria de Sam era só mais uma entre todas as outras. No chão, papéis de jornal e garrafas se espalhavam, assim como algumas latas e outros tipos de embalagens. Dos canos nas paredes, uma fumaça branca era expelida, tornando a visão da artista ainda mais embaçada do que já estava.

Engoliu em seco, e então saiu para o lado de fora, deixando a porta aberta. Winters foi na direção da caçamba de lixo logo à frente de onde tinha saído, a mais próxima. O ar da noite parecia tóxico, tanto que a vontade de tossir era constante. Também era gelado, e além de fazer seu corpo congelar, cada inspirada tornava-se mais difícil.

Ao chegar na caçamba esverdeada e coberta de algum tipo de gosma negra, a loira ousou de seu senso de higiene para segurar numa das alças de ferro, trazendo a tampa pesada para cima, fazendo-a ranger a cada centímetro percorrido, as marcas de ferrugem sendo transformadas em farelos alaranjados e se desfazendo ao atingir o chão. Os cabelos presos em um coque no alto da cabeça de Sam por um lápis começava a cair de volta nos ombros, os fios loiros e claros grudando na testa com o suor do nervosismo. Não deixava de ter o coração batendo forte no peito, também.

A mulher ergueu o saco de lixo até que ele atingisse a altura da abertura da caçamba de lixo, que exalava um horrível fedor quando aberta. Atrás de si, sem que pudesse notar, a figura do Carrasco surgia pelo canto do beco que levava à rua, de forma tão repentina que parecia que ele já estava esperando que aquele lado do prédio estivesse com uma passagem aberta. De costas a ele, Sam ao menos notou a presença, nem escutou os passos silenciosos contra o concreto do chão. Diferente disso, ela apenas depositou o saco de lixo ali dentro, indiferente ao fato de que o mascarado passava meticulosamente para o lado de dentro da galeria, sendo imerso pelas paredes.

Sam abaixou a tampa, voltando para dentro. Com grande alívio, ela fechou a porta e passou a tranca com voracidade, trancando ela mesma e o inesperado companheiro do lado de dentro. Estava próxima de sair dali. Seja com vida, ou não.

 

3

 

Emily ainda não tinha parado de andar. Se não estivesse enganada, estava a menos de cinco quadras do hospital, passando exatamente pelo centro de Oakfield naquele momento. Tinha passos apressados, as pernas mais pareciam vultos claros enquanto iam para frente e para trás freneticamente. Os cabelos tampavam a lateral de seu rosto gelado e pálido. Os olhos não desgrudavam da calçada à frente, levemente arrependida de ter se arriscado a ir sozinha e a pé.

Teve a caminhada bruscamente pausada por uma vibração vinda do bolso de seu casaco. Freou os pés agitados e alcançou o celular, deixando que os cabelos fossem levados para trás pela força do vento. Debloqueou a tela e teve o espanto de dar de cara com uma imagem enviada por um número desconhecido.

Naquele instante, Hayes abriu os lábios em espanto, temendo que o envio fosse uma foto de si mesma andando sozinha pela rua, tirada de um ângulo do qual ela jamais descobriria a origem. E foi com o coração na boca que a imagem carregou completamente. De primeira vista, ela não entendeu muito bem do que se tratava, mas em questão de segundos reconheceu o corpo esguio e alto, com brilhantes fios de cabelos loiros no alto da cabeça, parado diante da vitrine de um lugar que ela conhecia bem, parecendo perdido nos pensamentos, sem ao menos se tocar de que um indesejado companheiro estava logo atrás de si.

— Sam… – sussurrou para si mesma, tão baixo que nem ela foi capaz de ouvir. O ar frio uivava ao seu redor.

Levada por um desespero, ergueu a cabeça, dando uma última olhada ao redor de forma quase automática. Em seguida, virou na primeira curva que encontrou, correndo sobre seus sapatos. Emily Hayes percebia que teria coisas mais importantes a fazer naquela noite.

 

4

 

De forma não muito diferente à fotografia enviada a sobrevivente, Sam estava de frente a vidraça da galeria, mais uma vez observando o exterior de forma catatônica. Estava prestes a sair, e aquela olhada de muitos segundos era feita pelo simples objetivo de se certificar de que não havia ninguém do lado de fora. O seu erro foi não ter percebido que o perigo não estava daquele lado do vidro, e sim no interior do estabelecimento. Mais especificamente, aprontando-se a sair completamente pela porta traseira, logo atrás dela.

Winters não soube dizer exatamente o que aconteceu consigo naquele instante, mas uma terrível sensação aflorou em sua pele, arrepiando os pelos claros da nuca. Um peso invisível foi colocado sobre seus ombros e, levada por um impulso repentino, virou-se a tempo de encarar o Carrasco a alguns passos de distância, um dos braços tão levantados que quase alcançava o teto. O que mais assustava, no entanto, era a grande faca de sobrevivência carregada por ele, apontando diretamente para Samantha no instante em que ela abriu a boca e deu o seu primeiro grito da noite.

Espantada e carregada de tensão, a loira esquivou-se para a esquerda no instante em que a faca desceu, desviando antes que fosse atingida – provavelmente mortalmente – na altura do peito. A lâmina continuou descendo onde antes ela estava, enquanto Sam agarrou a quina do balcão ao lado, notando como o assassino parecia tão confuso quanto ela.

Como poderia ele ter entrado no lugar sem que percebesse? Qual teria sido a sua falha naquela noite? Diversas perguntas rondavam a cabeça dela, mas a mais forte, que martelava seu cérebro e seu coração, era a seguinte: por que diabos decidiu ficar sozinha?!

— SOCORRO! – gritou em plenos pulmões, já sentindo a garganta arder. Não lembrava-se de já ter gritado com tanta intensidade em sua vida. – Por favor, alguém me ajuda!

Jogou o corpo para frente, ainda um pouco abaixada pelo desvio, e suas pernas começaram a trabalhar. Winters corria na direção da porta dos fundos, a mais próxima e mais acessível. Mas não foi capaz de fugir por mais do que cinco passos, pois sentiu um forte puxão no couro cabeludo e a cabeça foi lançada para trás pelo impulso. Gritou de dor, sentindo o crânio queimar. A mão do assassino agarrou os cabelos loiros de Sam com tamanha violência que o torso da mulher começou a se entortar para trás, a coluna sendo brutalmente envergada numa letra C. Já conseguia encarar a parede atrás de si, de tanto que foi puxada para trás.

— Me solta! – berrou, esbaforida. – Me solta! Solta!

Suas mãos quentes e firmes açoitavam as luvas do mascarado numa tentativa falha de se ver livre. Sam acertava-o onde quer que fosse, tentando, acima de tudo, se ver livre das mãos dele. Por sorte, esse pedido pareceu ter sido atendido, pois segundos depois de ter sido agarrada, seu corpo foi jogado para frente num impulso proporcionado por si mesma, assim que o Carrasco largou-a.

Antes que a visão da artista pudesse se estabilizar, ela sentiu um toque em seu ombro, virando-a forçadamente. Sem poder relutar, virou o corpo e ficou diante do mascarado, encarando-o nos olhos escuros e inexpressíveis. Por alguns segundos, pensou ter reconhecido quem era.

De qualquer forma, teve tais pensamentos interrompidos enquanto tentava identificar o agressor. Em questão de segundos, o punho do maníaco surgiu diante de seus olhos em um ato tão rápido que quase foi imperceptível. Quando se deu por si, Samantha estava rodopiando, sentindo uma forte pressão no nariz numa dor nunca antes sentida, pulsante e voraz. Dando as costas ao assassino, a loira desestabilizou as pernas, tonta, e caiu de bruços no chão, os braços esticados para frente do corpo involuntariamente. A cabeça chegou a atingir o piso por um momento, mas foi tão rápido que ela nem sentiu ou pensou que poderia afetar-lhe.

Abriu a boca para soltar um grito escruciante. E que trabalho bem-feito foi esse, capaz de vibrar todas as paredes da galeria em um ato desesperado de misericórdia. Levantou a cabeça, sentindo pela primeira vez a consistência grossa e quente que escorria pela boca, entrando pelos lábios e fazendo-a sentir o gosto amargo e metálico de sangue. O dito cujo sujava Winters por inteira na região da face, tendo sido espalhado no encontro da cara dela com o solo. Saía do nariz provavelmente fraturado ou, pelo menos, muito danificado pelo soco do Carrasco.

— Para com isso! – gritou, a voz já rouca e algumas lágrimas agrupando-se nos olhos. – Eu não quero morrer! Não faz isso, por favor! Socorro!

Gritos e mais gritos saíam de sua garganta quando sentiu uma mão agarrar seu tornozelo, ainda estendida no chão, e puxar-lhe mais para perto do assassino.

 

5

 

Mesmo a uma quadra de distância, Emily já podia escutar o que seriam gritos esclarecedores de puro terror. Um pedido de ajuda – ou pela vida – que muito provavelmente não estavam sendo atendidos.

Ela em si já estava tão desesperada quanto Sam – o que, sim, já havia identificado os gritos como pertencentes a ela –, correndo pela calçada como se fosse sua própria vida estivesse em risco. Os cabelos negros de Hayes ainda esvoaçavam atrás da nuca quando ela virou numa esquina, tendo a clara visão da Galeria de Artes de Samantha Winters do outro lado da rua, assim como da estranha movimentação agitada que o jogo de luz e sombra lhe exibia.

Atravessou a rua sem nem observar se haviam carros prontos para atropelá-la, e em menos de cinco segundos estava em frente a galeria. Os braços da sobrevivente bateram no vidro impulsivamente, fazendo a grande placa transparente vibrar sobre o toque de seus punhos fechados. Encarou o interior com o medo nos olhos. Os gritos de Sam ainda preenchiam seus ouvidos. E do lado de dentro, Emily foi capaz de presenciar o momento em que a loira foi levantada do chão, agarrada pela cintura. Os pés de Winters saíram do piso por alguns segundos, debatendo-se incansavelmente. Os braços dela tentavam tirar os braços do mascarado de seu corpo, enquanto o mesmo dava um abraço de urso na altura da barriga dela.

Segundos depois, Sam estava de volta no chão, em pé, agarrada por trás. Ela lutava como uma besta para se soltar, mesmo que não obtivesse êxito.

— Sam! – gritou Hayes, batendo no vidro. – Sam! Estou aqui!

Olhou ao redor, vendo como a rua estava vazia, sem sinal de qualquer presença. Sam também não parecia ter escutado seu chamado. Se tivesse, talvez houvesse pensado que se tratava de algo da sua cabeça, ocupada demais consigo mesma para olhar para trás e ver Emily escancarada na vitrine da galeria.

Em meio às jogadas violentas do corpo, Samantha teve a sorte grande de acertar o mascarado com uma cotovelada na face, finalmente fazendo-o soltar-lhe. Ela mesma caiu para frente, erguendo-se rapidamente depois. O psicopata, por outro lado, foi jogado para trás, obviamente totalmente despreparado para o golpe. O corpo dele bateu no balcão e caiu ao lado dele, do lado oposto à vidraça onde Hayes ainda observava a cena.

— Sam, aqui! – berrou de novo, pensando que dessa vez poderia ser ouvida.

Sam olhou de um lado para o outro, ofegante, até que encarou a sobrevivente. Emily percebeu como uma espessa camada de sangue cobria-lhe o rosto. O assassino continuava caído, estirado pelo chão, quando a loira se aproximou agilmente de Hayes, batendo com as próprias mãos fracas contra o vidro, lágrimas nos olhos.

— Emily, me ajuda! – implorou ela do outro lado, a voz abafada. – Por favor! Você tem que me ajudar! Por favor…

Repentinamente, Winters mudou o curso de suas ações e correu para a porta de entrada do estabelecimento. Puxou a maçaneta e a porta de vidro apenas balançou e estralou, não abrindo. Continuava trancada, como ela havia deixado. A chave, longe demais para ser alcançada a tempo. Naquele instante, a artista nunca tinha se arrependido tanto. Percebeu que a morte não era uma coisa muito agradável, principalmente quando vinha em forma de dor e desespero. Pensou que, em vez de se reencontrar com Lincoln, deveria fazer a morte dele ter algum significado maior. Lutaria não por si mesma, mas por ele.

Emily a acompanhou até a porta, encontrando o mesmo destino, antes esperançosa. Encarou a amiga do outro lado, aflita.

— Não tem saída! – disse Sam, tão aflita quanto. Algumas lágrimas já caíam dos olhos e deixavam marcas mais claras de sangue nas bochechas vermelhas. Os cabelos loiros estavam desgrenhados, o coque já tinha sido desfeito, e agora as madeixas loiras caíam ao redor do rosto.

Hayes estudou a cena por alguns segundos, dizendo:

— Eu vou encontrar alguma coisa!

Enquanto a morena iniciava sua busca por algo capaz de tirar a loira dali, Sam virava-se na direção do mascarado, percebendo que teria de ganhar algum tempo. Olhou ao redor, presa entre quatro paredes, e avançou na direção dos quadros expostos ao seu lado. O assassino já tinha se levantado, buscando por sua faca no chão. Winters agarrou o molde do quadro – para seu azar, era um dos seus favoritos, e que por sinal também era o mais próximo – e tirou-o da parede. Não era tão grande assim, e leve. Virou-se a tempo de ver o mascarado seguindo até si, correndo. Ergueu os braços e acertou-o com um golpe forte no alto da cabeça antes de ser atingida pela arma, estilhaçando o vidro que protegia a pintura.

Cacos caíam ao redor, escorrendo por seus braços em pinicadas contínuas. O psicopata parecia ter sofrido um delay, desorientado. Obviamente, o golpe de nada adiantou, além de lhe dar mais tempo de vida, fazendo o mascarado apenas perder o foco por alguns poucos segundos.

Hayes tinha dado alguns passos para longe da galeria, finalmente encontrando algo que poderia ajudar. Com o tempo e com suas experiências quase mortais, uma coisa da qual havia aprendido era a de nunca hesitar em suas ações. Se tiver que quebrar, quebre. Se tiver que pular, pule. Se tiver que golpear, golpeie. É melhor que faça isso antes do agressor ter sua chance, e garantir um nível de sobrevivência maior.

Era pensando nisso que ela agarrou a boca de uma lata de lixo posicionada ao lado de um dos postes da rua. Era possível ouvir alguns cachorros latindo ao fundo, mesmo que nenhuma pessoa surgisse para ajudar. Uma coisa de se esperar, de fato. Ninguém iria ver o que estava acontecendo no meio da noite, enquanto uma pessoa desconhecida gritava por ajuda, principalmente na situação atual de Oakfield, onde qualquer caminhada pela rua poderia significar o fim de sua vida. O máximo que fariam era chamar pela polícia, o que já devia estar sendo providenciado.

A lata era de metal, mas muito menos pesada do que Emily imaginou que seria. Por sorte, não tinha lixo nenhum no interior. Provavelmente um caminhão de lixo havia passado naquela noite e recolhido-o todo, e desde que ninguém tomava as ruas, era explicado a falta do resíduo. O objeto se curvou para o lado com seu puxão. Como era redondo, foi um pouco difícil de se arrastar até a galeria, desde que ele continuava a rolar para os lados. No entanto, Hayes foi capaz de guiar a lata até a frente da grande vidraça, onde deu mais uma olhada para dentro.

Sam levantou o quadro em suas mãos, agora desprovido de uma proteção de vidro, e colocou-o em cima da cabeça, diante do rosto, num instinto de proteção assim que o Carrasco voltou a se movimentar. O sobretudo do maníaco movimentou-se drasticamente quando ele ergueu um dos braços e levou a faca para frente, sendo surpreendido pela aparição repentina de uma estrutura esbranquiçada e sólida. Incapaz de frear a passagem da faca, a lâmina da arma se enterrou na tela do quadro, parando ao atingir o cabo. Winters levantou os olhos, bloqueada por uma sombra quadrada, apenas para ver a lâmina prateada e pontiaguda a centímetros de seu rosto. A coisa pareceu brilhar para ela num nada convidativo “olá!”.

— Sai! – gritou em direção a ele, dando mais um grito de desespero.

Com o coração na boca, arrancando de si uma força ainda desconhecida, Emily impulsionou os braços e enrijeceu os músculos ao tirar a lata de lixo do chão. A superfície fina e pontuda onde colocava os dedos machucava as articulações, mas ela não se importou, ficando vermelha com o esforço. Mesmo que a lata não fosse tão pesada em se arrastar, levantá-la do chão era uma história diferente. Tão diferente que a morena pensou que não seria capaz de estourar a placa de vidro a tempo de salvar Sam.

No entanto, nem por isso desistiu. Usou tudo de si para tirar o objeto metálico do concreto da calçada, o bastante para chegar no nível da vidraça. Ergueu-o do chão com tamanha força que pensou, por alguns segundos, que faria xixi nas calças. Tentou desviar o pensamento para outra coisa, dessa vez jogando os braços para trás. Estava de lado, a galeria à sua direita. A lata de lixo foi para a esquerda e sumiu do seu campo de visão por alguns segundos, apenas para surgir na velocidade da luz no instante seguinte, atingindo a vitrine da galeria de artes com força.

O vidro não se partiu, provavelmente era extremamente resistente, talvez até mesmo feito para tais situações, para evitar roubos noturnos ou ataques. A placa translúcida vibrou tanto que, ao olhar de Hayes, pareceu que o lado de dentro todo estava submerso na água, balançando junto dela. Voltou a lata ao chão, um barulho alto de metal ressoando. Teria de tentar de novo.

Winters ainda tinha o quadro em cima do rosto quando a lâmina da faca foi puxada para trás, desaparecendo dali e deixando para trás um singelo corte na tela, logo na face de uma antiga mulher vitoriana, pintada semanas antes por Sam. A loira voltou o objeto para baixo, na altura do peito, pensando que poderia se proteger de novo com ele em um golpe bem calculado. Ao fundo, foi capaz de escutar um som alto. Bang! Não desviou a atenção do mascarado diante de si, mas soube no momento em que escutou que se tratava da vitrine da loja sendo atingida. Emily estava tentando entrar.

Sem poder raciocinar direito, a artista foi atingida por um forte chute no estômago, perdida em devaneios. Seu corpo alto e esguio foi lançado para trás, o ar sendo perdido em um aperto forte na barriga, onde parecia que todos os seus órgãos estavam sendo esmagados pelas mãos do diabo. Abriu a boca em uma exclamação de dor, gemendo. As costas bateram com força na parede, fazendo vibrar os outros quadros ao lado. Os cabelos claros estavam grudados na testa. O quadro voou de sua mão, aterrissando no chão no exato momento em que o assassino voltou a pôr o pé no piso, encarando-a com profundidade.

Emily jogou a lata de lixo mais uma vez contra o vidro, grunhindo com o esforço. Estava desesperada, sem que o pensamento de que não conseguiria salvá-la a tempo saísse de sua cabeça. No segundo atrito do metal, uma rachadura grande se formou no local atingido. O coração de Hayes pareceu bater mais forte naquele instante, ansiosa. Finalmente estava obtendo êxito.

Cegada pelo sangue no rosto, Sam escorregou para o chão, uma mão pousada na barriga. A outra tateou o chão, encontrando um afiado caco de vidro deixado pela moldura do quadro quebrado. Olhou para cima, encarando o assassino. Dessa vez, trazia um ar vitorioso nos olhos. Sem esperar, forçou as pernas a se levantarem, ficando em pé na frente dele mais uma vez. Segurando com intensidade o caco de vidro, sentia a extremidade cortante rasgando-lhe a pele. Uma linha de sangue escorreu pelas dobras da mão e pingou no chão.

Quando o assassino voltou a se aproximar, a faca em riste ao lado do corpo, Sam golpeou na horizontal, na altura do peito dele. Se tivesse acertado, conseguiria uma bela perfuração nas costelas, provavelmente fatal. O caco era grande, poderia ter perfurado um dos pulmões. Para seu azar, não foi isso o que aconteceu, e o maníaco ligeiramente desviou do golpe, recuando um passo. Gritando de ódio, sangue pingando do nariz, Sam avançou mais uma vez, dando um passo para frente. O estilhaço pontiagudo tornou na direção do mascarado, mas ele novamente desviou.

Estava pronta para dar o terceiro golpe quando a mão do Carrasco veio em sua direção na forma de um soco violento na bochecha esquerda. A queimação e a dor a atingiu com intensidade. Winters não foi capaz de se manter em pé e caiu para o lado, atordoada.

No terceiro golpe da lata de lixo contra a vitrine, a coisa toda se estilhaçou em uma chuva brilhante de cacos de vidro, que desceu ao chão tão rápido quanto se espalharam para o lado de dentro e de fora. Seria bonito, se não fosse trágico. Hayes recuou o bastante para não se cortar com algum caco alheio que caísse em si, não sendo abalada por nenhum miúdo estilhaço no cabelo.

Encarou a passagem aberta, impressionada, hesitando antes de fazer algum movimento. Largou a lata de lixo, que saiu rolando pela calçada até cair na rua, onde parou, encostada no meio-fio. Emily pensou no que faria, sem de fato ter uma resposta para isso. Não havia pensado nisso antes de quebrar a vidraça e agora estava em dúvida se entrava e se arriscava em salvar Sam, ou se deixava que ela tentasse a sorte em passar para fora sozinha.

Para sua sorte, a loira foi na segunda linha de raciocínio, não esperando Emily para se ver livre daquele pesadelo. Deitada no chão, ela e o Carrasco olhavam para a abertura na parede, com alguns pedaços ainda presos no batente, o pedaço de concreto batendo na altura da cintura. Os dois pareciam estagnados, igualmente impressionados. Sam usou esse momento de distração para chutar a canela do assassino com força. O pé atingido saiu do chão com o chute, deslizando para o lado. Desequilibrado, o mascarado caiu para trás, ironicamente logo ao seu lado. Por alguns segundos, os dois ficaram olhando um nos olhos do outro.

— Sam, vem! – escutou Hayes gritar do outro lado.

Sem hesitar, Samantha se levantou do chão e começou a correr para lá. Atrás de si, o mascarado agitou-se rápido o bastante para agarrar seu tornozelo. Estalou os olhos em desespero, encarando Emily do outro lado da passagem. As duas tinham o mesmo ar de desesperança na face ao perceberem que a artista tinha sido pega, no único momento em que poderia se salvar.

Não se mexeram, não disseram nada. Ambas ficaram em silêncio ao que o mundo pareceu ficar em câmera lenta. A perna esticada de Sam chacoalhava na tentativa de se soltar do aperto do vilão. Hayes não sabia o que fazer, parada do lado de fora. Chorosa, Winters esticou um dos braços, encarando Emily com olhos de misericórdia tão profundos que foi impossível para a sobrevivente se manter parada e não tentar, pelo menos, ajudar a loira a sair viva da situação.

E foi quando o assassino segurou firmemente na faca, pronto para apunhalar Sam em algum lugar do corpo, que a morena avançou para frente, passando uma das pernas para o lado de dentro. Foi esperta em não entrar por inteiro. Se não fosse capaz de salvar Winters, pelo menos poderia escapar dali rapidamente. Dessa forma, ficou com metade do corpo para dentro e metade para fora, esticando o torso para o lado de dentro enquanto seu braço estendido tentava alcançar o da loira, igualmente esticado. Estavam separadas por menos de cinco centímetros, os dedos agitando-se no anseio do toque um do outro.

—Emily… – suplicou Sam, a voz fraca e esgotada. Ela mesma sabia que não sairia livre da situação. A palavra saiu como um pedido de “diga a todos que eu vou ficar bem”, e não como um de ajuda. Era como se ela aceitasse seu destino, tentando passar confiança para que Hayes saísse dali com vida e conseguisse acabar com tudo aquilo.

No entanto, no último instante, a sobrevivente se jogou mais um pouco para frente e as duas mãos se entrelaçaram. Sam foi puxada com tudo, desequilibrando-se e, ao mesmo tempo, livrando-se da mão do assassino. A faca nem chegou a ir para frente. Dessa vez, ele percebeu que não conseguiria acertar e nem tentou.

Emily agarrou Samantha pelos braços e a puxou junto de si para o lado de fora, passando a perna para fora. A artista ainda estava do lado de dentro quando a morena chegou no exterior. Hayes nem deu chance para ela passar para lá por conta própria, não hesitando em puxar o corpo de Winters ao seu encontro. Os pés ainda moles de Sam não lutaram contra, enquanto o corpo dela deslizava sobre o batente e caía do outro lado. A própria sobrevivente ficou surpresa pelo peso sobre si e seus próprios pés ficaram moles. As duas acabaram caindo no asfalto, com a loira sobre sua salvadora.

Esbaforidas e respirando fortemente, nem pareceram se importar por estarem tão juntas daquele jeito, uma sobre a outra. Emily encarava o céu estrelado, Sam encarava o asfalto. Suas respirações ofegantes trabalhavam em conjunto. Se a situação não fosse tão trágica e perigosa, poderiam cair no riso por estarem vivas. Provavelmente o assassino já havia fugido, como sempre fazia. Mas isso não importava no momento. Estavam felizes por estarem ambas vivas, e capturar o mascarado seria um trabalho para depois.

— Muito obrigada, Emily… – escutou a loira dizer, ofegante, mal conseguindo pronunciar direito. – Eu te devo a minha vida… Obrigada…

Não respondeu, cansada demais para isso.

Hayes estava para se levantar e tirar Winters de cima de si gentilmente, quando uma sombra cobriu a luz de seus olhos. Assustada, ela encarou o que poderia ser o feitor disso, e estalou os olhos no mesmo momento. Estava totalmente enganada em pensar que o Carrasco havia fugido, pois ele continuava ali com mais sangue nos olhos do que antes, em pé sobre o batente da vidraça quebrada. A própria sobrevivente havia se esquecido dos cacos de vidro pela calçada, e as pinicadas nas costas ao menos tinham sido notadas. Daquele ângulo horizontal deitada, apenas com a cabeça levantada, Emily percebia como a luz do poste exatamente acima de sua cabeça era obscurecida pela figura do assassino, transformando-o em uma escura e arrepiante silhueta.

— Não! – gritou, percebendo que ele iria pular sobre as duas e, provavelmente, apunhalar Sam nas costas, desde que as mesmas estavam completamente expostas para ele.

A sobrevivente sentiu o leve tremor que o corpo da loira sofreu ao ouvir seu grito. Havia se assustado. E antes que pudesse se virar para ver o que tanto espantava Hayes, sentiu o corpo ser brutalmente empurrado para o lado. Emily havia usado de seus braços doloridos para lançar Winters para a direita. O corpo da loira rolou involuntariamente algumas vezes antes de parar, a alguns passos ao longe. A morena fez o mesmo, mas foi porque quis, rolando para a esquerda por alguns instantes. Dessa forma, mesmo que separadas uma da outra, impediu que o mascarado atingisse-as, e quando ele pulou do batente foi capaz de atingir nada mais que a calçada de concreto.

Os joelhos dele chegaram a se dobrar por uns segundos, despreparados. Emily se levantou no mesmo instante em que parou de ir para o lado, ficando em pé, encarando o psicopata. Sam, por outro lado, ao perceber a presença do assassino, usou dos antebraços e das pernas para se arrastar para longe agilmente. Os cabelos pulavam nos ombros enquanto a face rígida e assustada da artista exalavam o temor de ser morta, indo cada vez mais para trás, até atingir a parede da galeria, sendo cortada nas mãos pelos cacos de vidro que tomavam a calçada como flocos de neve no inverno. Ao menos se importou com isso, mesmo que sentisse as palmas das mãos arderem.

Os sapatos de Emily esmagavam fragmentos transparentes no asfalto. Ela preparava-se para lutar, com um impulso desconhecido e perigoso de que não deveria fugir. Teria de lutar. Não salvou Sam por acaso. Para ela, era como um sinal de que conseguiria derrotar o Carrasco se tivesse força de vontade o bastante.

Esperou que ele se levantasse, não dizendo nada. Tinhas as mãos na horizontal na frente do peito como uma lutadora no octógono, preparada para se proteger de algum golpe. Não precisou desviar os olhos para saber que Samantha estava apavorada em algum lugar próximo, como a respiração ofegante sobressaindo a sua deixava claro. Isso ficou ainda mais claro quando ouviu a voz da loira gritar:

— Emily, a gente tem que sair daqui! – Hayes não respondeu, séria, esperando o assassino se virar para si. – Por favor, vamos! – O pedido tornou-se engasgando quando o choro a cobriu.

Finalmente, o Carrasco virou-se para Emily. Ele estava imponente, como sempre. A faca estava alongada ao lado do corpo, o peito estufado. Os olhos sombrios por baixo da máscara pareciam encarar sua alma. Um tremor atravessou o corpo da garota. Engoliu em seco, pronta. Parecia inacreditável que estivessem um de frente para o outro, e por alguns segundos, por algum motivo completamente estranho e nenhum pouco normal ou bom, Emily não sentiu raiva do mascarado. Obviamente, um fiozinho de ódio queimava em seu peito, mas encarando-o ali, os dois pareciam ligados por um laço invisível, conectados para sempre. Ele pertencia a ela, e ela pertencia a ele.

Esse momento de apreciação cessou com uma avançada repentina do assassino. Hayes achou impressionante que ele não hesitou em tentar matá-la, sem cerimônia, apenas rápido assim, indo para cima dela com a faca pronta para acertá-la no ponto letal mais próximo. De qualquer forma, Emily estava preparada o suficiente para levantar a perna direita ao alto. O choque lhe percorreu as veias quando foi capaz de acertar a monstruosidade assassina no meio da cara. A articulação da perna doeu ao feito, mas no fim valeu a pena, desde que o maníaco caiu estirado sobre todos os estilhaços de vidro de forma dolorosa. Ele não se moveu, estático com os braços jogados ao lado do corpo. Pela máscara, era possível ver que os olhos estavam fechados. Nocaute.

Sam surgiu de repente na sua frente, sua aproximação estranhamente não sendo percebida por Hayes, mesmo que a loira estivesse bem na sua cara esse tempo todo. As mãos dela seguraram Emily pelos ombros e, segundos depois, os dois braços da artista envolviam-na em um abraço.

— Obrigada… – dizia a loira. – Muito obrigada, Emily… Eu não sei como posso te agradecer… Obrigada… Obrigada… – O choro dela era de felicidade. A morena sentia o sangue já seco no rosto da amiga grudando em seu pescoço e sujando seu cabelo.

— Tá tudo bem, Sam – disse, o mais gentil possível. Tentava não ser grossa com a mulher que acabou de quase morrer, presenciou sua quase morte, mas o fato era que Emily estava apressada com a ideia de tirar a máscara do Carrasco desacordado no chão à sua frente. Os dedos formigavam ao pensamento de arrancar aquela coisa e descobrir a identidade por baixo da máscara.

— Vamos sair daqui antes que ele acorde – Sam disse, exausta, soltando-se de Hayes e olhando para o mascarado.

— Ainda não.

— Como?

— Eu quero saber quem é. – A expressão da morena deixava claro o anseio dela em se aproximar do corpo estirado ali. A de Sam, no entanto, não era a mesma.

— Não, Emily, não… Pelo amor de Deus, vamos sair daqui antes que ele acorde… – suplicava a artista. – A gente chama a polícia, mas vamos sair antes… Por favor… – Segurou no pulso de Hayes, dando alguns passos na direção contrária do mascarado, tentando puxá-la junto.

— Sam, não. Eu tenho que ver. É nossa única chance. Isso tudo pode acabar aqui. Alguém provavelmente já chamou a polícia, eles devem estar a caminho – avisou.

— Não existem casas aqui no centro, só comércios! Se tiver alguém por perto, provavelmente é algum bêbado ou um mendigo! – Os olhos dela ficavam aguados numa expressão de medo. – Por favor, vamos, Emily.

Hayes certificou-se de que o assassino continuava nocauteado no chão antes de se aproximar da amiga, segurando-a de forma reconfortante pelos ombros. Sam pareceu ficar realmente mais calma.

— Olha, Sam – começou Emily. – A gente pode descobrir quem tá matando todo mundo. Quem matou Lincoln. – Os olhos da loira brilharam. Parecia que ela não tinha pensado por esse lado antes. – E fazer essa pessoa pagar pelo que fez.

Winters pensou por alguns segundos, a boca levemente aberta. Então, disse:

— Seja rápida.

Emily engoliu em seco. Teria de fazer sozinha, Sam não se arriscaria a se aproximar do assassino. No entanto, quando estava pronta para se virar, escutou Samantha expelir um suspiro de susto, encarando um ponto além de sua cabeça. Hayes virou a tempo de ver o assassino, completamente renovado, em pé diante de si.

Virou-se de supetão, não esperando para correr para longe. Sentiu a mão da artista agarrar a sua, mas quando começou a correr já era tarde demais. Teve o vislumbre de Sam olhando para trás e parando por alguns segundos para observá-la, indecisa no que fazer: deixaria a mulher que acabou de salvá-la nas mãos do assassino, ou continuaria correndo e salvaria a própria pele?

— Emily! – gritou Winters, enquanto Hayes sentia seu cabelo sendo agarrado, também sendo esse o motivo de ter sido separada da outra, um forte puxão de cabelo. Os olhos de Samantha expressavam o terror. Estava tão assustada pelo futuro de Emily quando a própria Emily.

— Corre! – gritou de volta, perdendo as esperanças da própria vida, sem escapatória. – Por favor, Sam! Se salva!

Alguns segundos de hesitação depois, onde a loira ainda encarou o assassino por alguns segundos, quase como se pedindo permissão para correr – senhor Carrasco, posso ficar livre da lâmina da sua faca por essa noite? –, em seguida virou-se com o coração apertado e continuou correndo até desaparecer pelas sombras.

Emily, por outro lado, não teve a mesma sorte. Sentia-se presa ao corpo do assassino, até que lutou contra ele e conseguiu se soltar, ficando de frente a figura. Numa última encarada, os braços do maníaco a empurraram para trás com tudo. Hayes sentiu a forte pressão contra seus ombros e cambaleou para trás. Em certo momento, um tornozelo ficou na frente do outro e ela acabou se desequilibrando por completo. O mundo se inclinou e ela caiu com um baque violento para trás, onde um impetuoso encontro entre sua cabeça e o concreto foi o responsável por levar de vez toda a sua consciência.



Notas finais do capítulo

Esse é mais um dos capítulos dos quais eu me empolguei demais na hora de escrever e que acabou ficando maior do que o esperado. Obviamente, existiriam mais cenas após o ataque à Sam, mas por razões de eu ter me empolgado demais (hehe) a perseguição ficou maior que o esperado e acabou ocupando um capítulo inteiro. No entanto, gostei do resultado e isso acabou rendendo um capítulo a mais (que será o próximo, com as cenas que não couberam nesse).
Mas enfim, voltando à história... O que acham do futuro da Emily? Será que ela será morta, sequestrada ou simplesmente deixada ali? E a Sam, quais seus sentimentos em relação a ela? Odeiam-na por ser burra e ter ficado sozinha, ou gostaram da força de vontade de sair viva dela? Entendem o que ela está passando? Me digam suas opiniões, se gostaram da luta, e se já têm alguma suspeita! Ficarei imensamente feliz de saber. Até mais!



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