Hello There 2 escrita por Lucas André


Capítulo 10
S02EP10 – Shadow Play


Notas iniciais do capítulo

Brincadeira das Sombras

Lincoln deve inspecionar uma casa vandalizada da imobiliária onde trabalha, enquanto Emily e Jordana compartilham um plano e Max tenta tirar respostas de Megan.

Capítulo revisado e atualizado.



HELLO THERE 2

CAPÍTULO 10 – BRINCADEIRA DAS SOMBRAS

 

18/03/2018

 

O clima começava a esfriar em Oakfield. O céu, carregado de nuvens escuras e acinzentadas, deixava claro que, cedo ou tarde, uma tempestade viria. Algumas pessoas até pareciam se preparar para isso, carregando nas bolsas e mãos guarda-chuvas, que poderiam ser vistos por quem passasse perto. Algumas árvores tinham as folhas levadas pelo vento, que aumentava de segundo em segundo. A tenebrosidade da velha Oakfield, lembrada por Jordana e Emily, se mostrava presente mais uma vez. A chegada delas castigou a todos.

De uma forma ou de outra, o interior da galeria de arte estava aquecido e confortável, de modo que Sam não pretendia sair de lá tão cedo. Apenas de ver o lado de fora, percebendo o caos causado pela temperatura baixa, já fazia com que a moça tivesse certeza disso. Estava bem confortável dentro de seu suéter marrom, além de tudo.

À frente, Lincoln parecia igualmente agasalhado, embora a forma como ele puxava a gola da blusa com força e abanava o tórax deixasse claro que estava prestes a arrancar as vestes, devido ao clima quente do interior do lugar.

Após o encontro com Olivia, os dois retornaram para o estabelecimento e trocaram algumas palavras sobre o estranho comportamento da asiática. Em suma, chegaram a conclusão de que não foi uma escolha sensata sair da cidade. Pela capacidade do maníaco de Oakfield, seria questão de alguns dias até ela ser encontrada e, então, tirada do jogo de vez. Isso assustava a loira, que havia presenciado toda a cena grosseira no meio da rua, como se se sentisse incapaz de mudar o destino de Olivia e, dessa forma, como se fosse responsável se algo acontecesse com ela, em partes.

Contudo, não deixava que essa ideia pesasse sobre sua mente. Culpada ou não, Sam havia feito a sua parte e Olivia tinha idade o bastante para tomar suas próprias decisões e arcar com as consequências de seus atos.

Samantha estava sentada do lado de trás do balcão, na cadeira giratória, de frente para o computador. O equipamento de nova geração exibia em sua tela de alta resolução a linha do tempo do Facebook. Normalmente, Sam organizava seus afazeres de duas formas: quando estava na galeria, estaria disposta a fazer novos projetos e gerenciar o lugar com a ajuda do noivo, enquanto, quando não estivesse, teria tempo o bastante para fazer o que quisesse e relaxar. No entanto, por motivos desconhecidos, a artista parecia estar sofrendo de um bloqueio criativo. Os quadros espalhados pelas paredes ao redor e guardados na salinha dos fundos pareciam estar preenchidos de todas as suas ideias até então. Não conseguia pensar em mais nada em que se inspirar. Talvez fosse a situação da cidade e a pressão sobre si, ligada ao estresse das mortes.

Dessa forma, a loira não se importava muito, naquele dia, em bisbilhotar as publicações de arte na rede social, observando-as com a face estampando o tédio. O dia nada corrido estava acabando com ela.

Do outro lado do balcão, Lincoln parecia bem diferente de si. Apoiado com os cotovelos sobre o plástico, sua face estava rígida e concentrada nas folhas de papel à frente. Os dedos do rapaz careca passavam de folha em folha, deixando que seus olhos articulassem a informação contida nelas, sendo esse o único som presente no ambiente, o de folhas.

Ao olhar para ele, Sam tentava ler suas expressões. Não havia, nem por um segundo, questionado o rapaz sobre a situação da cidade ou perguntado a ele suas opiniões, e achava que dessa forma era realmente melhor. Talvez manter-se longe de tudo aquilo fosse uma garantia de que não teriam futuras complicações. Lincoln, por sua vez, sentia-se extremamente alheio a tudo. Sempre foi uma pessoa que gostava de saber o que estava acontecendo, ou que se afunda até o pescoço na situação apenas para tirar suas próprias conclusões sobre ela, não gostando de ser deixado de lado em nada.

Contudo, naquela situação em específico, não tinha certeza se queria aprofundar-se. Lincoln sabia que assassinatos seguidos um do outro era uma coisa muito séria, e se havia mesmo um assassino mascarado perseguindo um grupo de pessoas pela cidade, ele tinha uma única certeza: não queria se envolver e correr o risco de se tornar uma dessas pessoas, ou até mesmo de colocar Sam em perigo. E desde que morte era um assunto bem pesado para se tratar em sua família, levando em conta a morte de seu irmão, era melhor que se mantivesse longe dele para não sofrer novos ataques de pânico.

Numa troca de olhares repentina, o casal riu junto, abobados, com a loira levemente envergonhada por ter sido percebida encarando-o. Por conta disso, tentou aliviar a situação.

— Quais seus planos para hoje? — perguntou ela.

Lincoln levantou a cabeça, e tornou-a para os papéis ao perceber que a mulher não olhava mais para si. Encarando as folhas, bufou.

— Estou esperando a ligação do Malcolm — respondeu. — Ele vai me atualizar sobre aquela casa que estão construindo, para saber se já está pronta para venda ou qual o tempo estimado até que fique pronta.

— É aquela do condomínio? — questionou, curiosa.

— É. Talvez nem esteja pronta… — Balançou a cabeça de um lado para o outro, franzindo o cenho ao continuar: — Com o feriado da semana passada, a maioria dos funcionários foi viajar e, até agora, ninguém apareceu para se apresentar para o trabalho. Ou seja, a casa está intocada a uma semana.

A loira ergueu as sobrancelhas, impressionada, percebendo que seria um trabalho e tanto para o noivo.

— Nem você?

— Não… Malcolm ficou responsável disso, mas disse que a esposa passou muito mal e não teve tempo de ir ver como a casa está. Vou ter que cobrir ele hoje. Só estou esperando a ligação dele.

— Por que?

— Precisamos da permissão para entrar no condomínio agora. Com toda essa situação de Oakfield, os seguranças não estão deixando quase ninguém de fora entrar. Precisa ter autorização. — Os dois se olharam, tensos. — Ele vai ligar para lá e dizer que estou indo, aí eu vou poder entrar.

— Ah, sim.

Corretor de imóveis, Lincoln era dividido entre os serviços da galeria e os serviços da corretora. No entanto, ele gostava disso. Não ficava bem ao saber que Sam cuidava de tudo sozinha na galeria, e era realmente gratificante para ele poder ajudá-la, ao mesmo tempo que adorava apresentar casas para estranhos e fazer eles comprarem-nas com suas promoções e boas impressões causadas. Era um homem muito bom de papo e agradável com todos, mesmo que levasse uma face séria na maior parte das vezes, o que causava impressões precipitadas em qualquer um que o visse. Era até divertido, por um lado, mostrar quem realmente era atrás da expressão fechada.

— E você, meu amor? O que vai fazer hoje? — perguntou à loira, que virou-se para ele com um sorriso no rosto, apreciando a forma como foi chamada.

— Vou ficar aqui o dia inteiro, provavelmente, tentando encontrar alguma coisa para fazer. Talvez Heidi da floricultura passe mais tarde também, e preciso pagar a conta de luz.

— Já tinha até me esquecido. — Ele riu. — Que bom que tenho você na minha vida.

Sam deu risada da frase, enquanto Lincoln a acompanhou.

— Também te amo, querido — disse ela, sarcástica, mesmo que fosse verdade.

Nesse momento, o toque de um celular chegou aos ouvidos dos dois. Olhando ao redor, se perguntando se era o seu, Sam procurava por seu próprio aparelho celular. No entanto, parou na metade do ato ao ver que Lincoln se aprumava do outro lado do balcão. Um de seus braços tocou o bolso de trás, de onde puxou o celular de uma única vez. O aparelho vibrava em sua mão enquanto ele lia o nome do remetente.

A loira viu quando ele atendeu a chamada.

— Oi, Malcolm? — disse Lincoln ao atender.

Dando passos aleatórios, como sempre fazia ao falar ao telefone, o moreno se afastava do balcão, começando a fazer sua caminhada pelo estabelecimento.

— Oi, sou eu — respondeu uma voz masculina do outro lado da linha. — Está tudo pronto lá no condomínio. Eu falei com os seguranças de lá e eles autorizaram sua entrada.

— Que ótimo, estarei indo até lá mais tarde.

Ao fundo, Sam olhava para o noivo de forma ansiosa, esperando pela notícia, tendo o rapaz de costas para si ainda dando passos curtos pelo chão. Volta e meia, encarava a aliança presa em seu dedo, dando um sorrisinho de leve.

— Mas, Lincoln, tenho más notícias — tornou Malcolm.

— O que foi? — Ficou levemente alarmado.

— A casa foi vandalizada por alguns adolescentes, ao que parece.

O negro bufou, parando a caminhada, e fazendo Samantha ficar curiosa.

— Como assim? Quando isso aconteceu? — Não estava desesperado, mas sim, furioso. Já era a terceira vez que algo como aquilo acontecia em alguma casa que estava sobre sua responsabilidade, e em nenhuma dessas vezes o culpado foi encontrado e levado para ser julgado. Normalmente, uma multa era paga. Lincoln, por sua vez, queria logo que os responsáveis fossem se ferrar. Não aguentava mais essas situações.

— Não dá para saber com certeza — respondeu Malcolm. — Os funcionários e moradores do condomínio dizem ter visto a casa toda suja com ovos, papel higiênico e coisas assim, sabe? Disseram que a situação poderia ser resolvida antes, com mais chances de sucesso, mas como a casa fica um pouco afastada de tudo… eles só foram saber agora.

— E não ligaram antes para avisar?

— Não. A placa com o nome da corretora foi derrubada e sumiu, então não sabiam para quem ligar ou coisa assim.

— Não tinham um livro de registros para saber essas informações?

— Parece que só o superior tem e, pelo jeito, ele não ligou para isso.

— Merda…

— Uma merda mesmo. — Foi possível ouvir uma longa suspirada do outro lado. — Olha, Lincoln, me desculpa por não poder ir lá resolver a situação. Katie está bem ruim mesmo. Sinto muito por isso, não posso ir.

— Não, Malcolm, está tudo bem, sério. Fique com sua esposa, ela é mais importante do que isso. Eu resolvo tudo e tento pegar os culpados. Não precisa se preocupar.

— Obrigado, amigo. Me atualize sobre o que aconteceu depois.

— Pode deixar. Até mais.

— Até.

Tirou o telefone do ouvido, o cenho franzido, o ódio estampado no rosto, ao mesmo tempo em que sentia o cansaço de ter que resolver a situação por conta própria. Foi verdadeiro ao dizer que não havia problema em resolvê-la sozinho, mas também não podia negar que era difícil fazê-lo.

Bloqueou a tela e guardou o aparelho celular no bolso da calça enquanto se virava para Sam. Ela ainda o encarava na mesma posição, sentada na cadeira giratória, esperando pelas novidades da ligação com a expressão curiosa.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ela, preocupada, ao perceber a cara do rapaz.

— Lembra da casa que eu vou ver hoje? — respondeu com uma pergunta retórica, colocando a mão na cintura. — Ela foi vandalizada por algum desocupado.

— Vandalizada? — A moça pareceu ficar igualmente raivosa, percebendo a responsabilidade que o noivo teria de ter a partir daquele momento.

— Pois é… Vou ir para lá agora mesmo. Quanto mais cedo resolver isso, melhor.

Ele foi na direção do balcão, passando para o lado de dentro e ficando ao lado da noiva. A loira suspirou profundamente, observando enquanto ele procurava pelas chaves do carro. Acabou encontrando-a do lado do bloco de notas, agarrando-a de uma vez e fazendo-a tilintar sob seus dedos agitados. Percebendo o estresse abatido sobre ele, perguntou:

— Quer companhia?

O moreno virou-se para ela, respondendo de forma educada:

— Não precisa. Pode ficar aqui e fazer as suas tarefas. — Inclinou-se para cima dela e depositou um beijo no topo de sua cabeça enquanto segurava-a na altura das orelhas. — Te vejo mais tarde, tudo bem?

— Ok… — respondeu, sorrindo. De fato, era melhor que ficasse na galeria. Depois que tiveram a ideia de abri-la em um Domingo sim, e um Domingo não, o movimento aumentou consideravelmente, mesmo que naquele momento estivesse vazia.

No momento seguinte, o corretor de imóveis foi em direção a porta, por onde saiu. De repente, uma garoa começou a cair, deixando claro que os céus, logo, logo, estariam tão raivosos quanto a fúria do Carrasco.

 

 

Aproveitando o momento de afastamento, Jordana desceu as escadas o mais rápido que conseguiu. Desde a mudança de Ellen, que de repente não saiu mais da casa, alegando que estava assustada demais para ficar sozinha, a albina teve sua desconfiança aumentada significantemente sobre a psicóloga.

Ellen era como uma sombra, sempre estando por perto. Naquele momento, no entanto, ela havia subido para tomar um banho da tarde durante seu horário de almoço, e seria quando a albina poderia ter um momento a sós com Emily. Não havian obtido tempo para conversar sobre o assunto, desde que a sombra de Ellen sempre estava atrás de si, mas sabia que era algo que deveria ser discutido logo, antes que as coisas piorassem.

Diminuiu o passo nos últimos degraus, para que sua euforia não fosse percebida pela moça no andar de cima. Quando chegou nos dois últimos, o alto som de água caindo surgiu, abafada por diversas camadas de madeira, junto de um rangido forte, que era a pressão do pressurizador do chuveiro. Ellen havia entrado no banho.

Tornou a andar mais rápido, constatando que Emily estaria na cozinha. E foi exatamente onde encontrou-a, ao virar na primeira porta à direita do corredor, adentrando na sala de jantar, unida com a cozinha, e vendo a silhueta da amiga no balcão, comendo uma torrada para matar sua fome depois de não ter almoçado.

Jordana suspirou profundamente, aproximando-se dela. A morena tornou o olhar para a albina ao reparar na presença esguia que surgia pela esquerda, sorrindo de lado e cumprimentando:

— Bom dia.

— Bom dia — respondeu educadamente.

Ao chegar no cômodo, disfarçou ao dar a volta no balcão, aproveitando o momento para dar uma boa olhada na sala de estar, visível do ângulo onde estava, se certificando de que Archie não estava em casa. De fato, ele não estava. O rapaz poderia ainda estar dormindo no andar de cima, como poderia ter acordado mais cedo e saído. Não sabia. Mas de uma forma ou de outra, estava sozinha com a sobrevivente, e aquilo já era o bastante.

Contudo, Emily percebeu quando Jordana olhou para a sala, desconfiada.

— Algum problema? — perguntou, dando uma abocanhada na torrada. Farelos caíram em sua calça, mas ela não se importou. Estava curiosa pelo comportamento da amiga.

— Sim, na verdade — respondeu, sincera, aproximando-se mais da morena. Emily não recuou, apenas esperou que Jordana estivesse mais próxima. — Precisamos conversar.

— Pode falar — disse, indiferente.

— Não, Emily… Precisamos conversar sobre um assunto sério.

— Certo… — Pareceu nervosa. — Sobre o quê?

Antes de responder, a albina se certificou mais uma vez de que o som do chuveiro continuava alto o bastante para abafar o som de suas vozes. Em seguida, disse de forma firme:

— Sobre Ellen.

Emily não hesitou em responder:

— É um assunto que eu também quero conversar sobre, mas…

— Mas ela não sai da nossa cola — terminou a frase da amiga, impressionando a mesma ao constatar que pensavam a mesma coisa. — Não é? — Emily concordou com a cabeça. Jordana olhou ao redor. — Você confia nela, Em?

— Não tenho tanta certeza assim. E você?

Jordana fez uma expressão de quem faz uma pergunta óbvia, dizendo:

— Nenhum pouco. — Estava explícito em sua voz quase sussurrada e em suas expressões enrijecidas a forma como mantinha-se nervosa, sem saber o que fazer. — Nós já fomos enganadas uma vez. Ellen pode muito bem ter aceitado o tal acordo do assassino e feito um teatrinho para entrar na nossa casa e ficar próxima da gente, para fazer o que quer que o maníaco tiver proposto.

— Isso foi exatamente o que pensei… — Agora, foi a morena que olhou desconfiada ao redor, largando a torrada sobre a bancada. Aproximou-se mais um pouco da amiga, sussurrando: — Pensei até mesmo que ela pode ser a responsável por matar todas essas pessoas.

— Tipo… não um peão sendo usado por ele, mas sim, o próprio Carrasco?

— Sim.

— Eu não tinha pensado nisso… — Jordana pareceu assustada, percebendo que tal fato também poderia ser uma opção a ser pensada. — Mas… se pensou isso… por que deixou que ela passasse a morar aqui? O que pretende?

Emily suspirou profundamente, mordendo a parte interior dos lábios como forma de expressar seu nervosismo. Parecia arriscado para ela envolver a albina em seus planos.

— Emily, eu passei por muita coisa e neguei muita coisa… — disse Jordana, de repente. — Eu disse para mim mesma que iria me afastar da situação, mas eu quero ajudar. Pode falar, não se preocupe.

— Tudo bem. — Deu uma pausa, articulando as palavras. — Se a Ellen tiver mesmo aceitado aquele acordo, ou se ela for mesmo o assassino, então, além de ela estar deixando a gente em perigo com sua presença, nós também podemos ser uma ameaça para ela.

— Como assim?

— Digo, se ela estiver envolvida, então nós estamos mais próximas do que nunca de pegar o desgraçado que está fazendo todas essas coisas. Ela é uma peça valiosa para as investigações. — Olhou ao redor. — A gente tem que ficar de olho nela, inspecionando-a. Ela pode cometer um deslize ou soltar alguma informação que seja suficiente para a gente ficar em vantagem nesse jogo doentio.

— Então, com ela aqui, estaremos próximas de descobrir a identidade do assassino, porque ela está trabalhando com ele, ou até mesmo é ele.

— Exatamente. Mas todo esse plano vai ter que acontecer com o decorrer do tempo. Temos que ficar de olho nela dia e noite, nunca deixar ela sair de vista.

— Certo… — Jordana desviou o olhar, pensativo. — É um plano arriscado, mas eu vou ajudar, Emily. Pode contar comigo.

— Fico feliz, Jor.

Elas sorriram uma para a outra, até que o silêncio tomou a casa. O chuveiro foi desligado no timming perfeito, quando o assunto foi encerrado.

— O que pretende fazer nesse meio tempo, então? — Jordana questionou.

A sobrevivente encarou-a com um olhar penetrante, sorrindo de lado, e disse:

— Na verdade, acho que também tenho um plano para isso.

 

 

Parado de frente ao grande prédio de advocacia de Oakfield, Max esperava que a moça saísse pelas portas duplas do térreo. O grande edifício tinha, no mínimo, sete andares, com todas as paredes pintadas num tom beje fraco, mesmo que grande parte delas, principalmente na parte de baixo, estivesse consumida por sujeira e cascas de tinta.

Um largo estacionamento o antecedia, tomando um grande espaço da parte da frente do prédio. O lugar era cercado dos quatro lados por uma grade acinzentada, que era feita por hastes de metal posicionadas lado a lado, criando-se um corredor nas laterais. Na frente, um enorme portão tomava forma, onde, ao lado, a guarita do segurança comandava sua abertura. De dia, o edifício ficava sempre aberto, mas era à noite que precisava-se de autorização para entrar.

O motivo de estar ali era o que estava lhe tomando grande parte do sono durante os últimos dias. Havia se afastado de Owen definitivamente. O amigo tentou contato por mensagem e até mesmo algumas investidas após terem discutido na biblioteca, das quais foi atingido por um grande vácuo, e Max se manteve firme às suas palavras. Não estaria disposto a continuar ao lado do amigo desde que toda a estranha história estivesse esclarecida. E por um lado, era estranho não estar sempre com ele. Andar sozinho pela cidade causava estranhamento tanto para Max, quanto para os pedestres que habitualmente os viam juntos. Contudo, tentava não pensar nisso e, pelo fato de Owen não estar disposto à lhe contar a história, tentaria tirar suas próprias conclusões com quem sabia do assunto.

Não podia negar que ficava um pouco intimidado na presença de Megan, mas era sua única escolha. Ainda não havia se decidido se contataria Owen depois de descobrir o segredo, mas sabia que quebraria a cara do amigo se o mesmo fosse algo fútil e desnecessário para ser a razão de todo aquele drama. Por outro lado, estava assustado de descobrir algo muito horrível e sério, e, se assim fosse, não sabia se estava preparado. Se redimir com Owen, nesse caso, era sua primeira opção, ao entender o que ele passava.

O tempo foi passando e o tédio se instalando em Max. Encostado sobre um dos poucos carros do estacionamento, ele olhava fixamente para as portas duplas de vidro, prestando atenção no movimento do interior, que não era muito grande tanto por estar no horário de almoço, quanto pelas sombras criadas pela luz do sol, que o impediam de ver algo lá dentro.

De minuto em minuto, pegava o celular, dava uma checada no horário e explorava as redes sociais para passar o tempo. Ele sabia que uma hora ou outra a advogada sairia de lá, pois, como já dito, estava no horário de almoço dos funcionários, 14:00. O casaco que usava era muito bom em seu trabalho de fazer o garoto sustentar o frio que fazia no dia.

Então, duas figuras saíram das portas, e Max logo reconheceu-as: Megan e Peter. A mulher mantinha a expressão séria, vestindo o que normalmente era vista usando, um sobretudo grande e pesado. Os cabelos lisos batiam com força por conta do vento, e ela tinha um pouco de sorte por conta deles serem tão curtos, frequentemente colocando-os atrás das orelhas e tirando os poucos fios que restavam na boca.

Embaixo de um dos braços, Megan carregava uma bolsa, de onde puxou as chaves do carro segundos depois de remexer freneticamente em seu interior. Carregou-as na mão fechada com a expressão resiliente, olhando pelo estacionamento na busca por seu carro. Ao lado, Peter estava como sempre, vestindo um terno social e com os cabelos melecados de gel penteados uniformemente para a direita, segurando uma pasta.

No meio do caminho, Megan teve um estalo. Parou repentinamente, freando a caminhada, e consequentemente obrigando Peter a fazer o mesmo. Ele a encarou, curioso.

— Esqueci o meu celular lá dentro — disse ela, expressando leve raiva. — Merda.

— Eu pego, não se preocupe — respondeu o moreno. Momentos depois, ele deu meia volta e voltou com passos rápidos para dentro do prédio, deixando a moça sozinha.

Essa foi a deixa que Max usou para se aproximar. Ao ver o rapaz entrando de volta no prédio e a forma como Megan tornou a andar na direção de um dos carros, desprendeu-se do que estava encostado e caminhou na direção dela. Não correu, para não chamar a atenção de nenhum segurança que pensasse que ele estaria indo até lá para assaltá-la, e nem caminhou devagar, para não perder a chance de falar com ela e, dessa forma, que a advogada entrasse no carro e fosse embora. Assim, manteve os passos em uma constante velocidade, nem tão rápida e nem tão lenta. Aos poucos, cruzava o amplo estacionamento, indo na direção da morena.

Quando estava a poucos metros dela, Megan pôde perceber a presença com o canto dos olhos, e virou o rosto na direção do adolescente. Tornou-se diretamente para ele, parando enquanto Max se aproximava.

— Oi — disse ele, um pouco sem graça, sem saber como iniciar a conversa. — Sou Max Langdon, você me viu ontem e…

— Eu sei quem você é — interrompeu ela, fazendo o garoto parar na metade da frase. — O que quer? Estou nos poucos minutos diários que são me dados para me retirar desse prédio de cobras. — Apontou para o edifício à esquerda com a cabeça.

Suspirou profundamente, olhando ao redor antes de dizer:

— Eu quero saber qual é o caso de Owen e Linda. O que aconteceu entre eles?

Foi possível perceber o sorriso diabólico que se formou no rosto de Megan enquanto ela esticava os lábios para um canto. Entretida, percebendo que o assunto era algo do qual ela gostava bastante de discutir, questionou:

— Por que quer saber sobre isso?

— Owen é o meu melhor amigo — respondeu, um pouco decepcionado com o que dizia. —, e não importa o quanto eu pergunte, ele não me diz o que aconteceu.

— Talvez ele faça isso por um motivo, não acha?

— Eu não me importo. Só quero saber.

Megan olhou ao redor, ainda carregando o meio sorriso no rosto.

— Eu acho estranho — disse ela.

— O quê? — Max estranhou.

— O fato de você querer saber tanto assim o que aconteceu.

O garoto balançou a cabeça.

— Ele é meu amigo. Eu tenho esse direito.

— Está querendo essa informação para infernizar a vida deles? — tornou ela, ácida.

Max franziu o cenho, desentendido.

— Como assim?

— É você que está matando todas essas pessoas, não é? Quer essa informação para mais um dos seus joguinhos? — Megan mantinha um sorriso no rosto.

O garoto sentiu uma estranha pressão no corpo com a acusação. Abriu os lábios e balançou a cabeça em negação, impressionado com as palavras da mulher. De boca aberta, ele tentava articular alguma coisa para responder, mas nada saía. Por outro lado, tentava entender o motivo dela ter dito tal atrocidade, mesmo que nada viesse em sua mente.

Um segundo depois, sentiu a raiva queimar no peito e a face corar pelo sentimento.

— É melhor você tomar mais cuidado com as coisas que fala — disse Max, rígido. Megan fez uma expressão de deboche, evidenciando que não se sentiu nada ofendida com aquilo e que não levava as palavras dele a sério.

— E se eu não tomar? — perguntou ela, não dando tempo para ele responder, enquanto abaixava a voz. — Por acaso vai me matar se eu não fizer isso? Como vai fazer? Vai arrancar a minha cabeça e serrar meus braços? Ou prefere uma coisa mais rápida, um corte liso na garganta? Hein?

A moça não tinha um motivo em específico para dizer aquelas coisas, apenas mantinha sua promessa feita com Linda, mesmo que da pior forma possível, fugindo do assunto. Gostava de atazanar adolescentes, e ver o choque na face de Max fazia com que ela percebesse estar conseguindo o que procurava. Com sorte, ele sairia de lá em pouco tempo.

— Vai se foder — respondeu o jovem, balançando a cabeça, ofendido com as acusações. — Não dá para fazer porra nenhuma com você, Megan… Você é uma vadia.

Deu as costas à mulher e começou a caminhar na direção da saída, até o portão aberto. Atrás de si, Megan ainda sorria maliciosamente, satisfeita.

Ainda com Max se afastando, ela gritou em resposta à sua última frase:

— Só estou tomando cuidado! Não se pode confiar em ninguém nos dias de hoje! — Teve certeza de que ele havia escutado quando o menino aumentou o passo, caminhando de forma mais rápida e mais forte para longe de si. — E informação tornou a ser uma coisa muito valiosa, Sr. Langdon… — sussurrou para si mesma, sorrindo de lado.

Megan soltou uma última risada e virou-se para o carro, procurando pela chave correta. Ao mesmo tempo, Peter surgiu ao lado, tornando a atenção da advogada para o garoto que se afastava, parecendo raivoso.

— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, estendendo-lhe o celular esquecido.

— Ah, nada além do usual — respondeu a morena, pegando o aparelho e guardando-o no bolso sem muito alarde.

— É o mesmo garoto de ontem, não é? O que ele queria?

Encarando-o, a moça respondeu:

— Não se preocupe, Peter. Eu sei me cuidar.

— Ele parece irritado — tornou o estagiário.

— É o que eu faço com as pessoas. Já viu alguém sair feliz depois de conversar comigo? — Inclinou a cabeça, sorrindo.

Peter riu da frase, corando por um instante. Adoraria responder: “eu fico feliz conversando com você”, mas se conteve. Megan não precisaria saber daquilo e, claramente, não levaria a lugar nenhum.

— Bom, se você diz… — ele falou, dando a volta no carro e indo para a direção da porta do outro lado, enquanto Megan destrancava o veículo.

— Ai, ai… Esses jovens ainda vão me levar à loucura… — disse ela, mais para si mesma, enquanto abria a porta e entrava.

 

 

Descendo do carro, Lincoln pegou sua bolsa lateral no banco do passageiro, logo antes de bater a porta e pisar na calçada. Guardou o celular no bolso traseiro após checar a hora, e começou a caminhar na direção do portão do condomínio. Haviam dois, eram grandes, desses que se abrem para dentro mecanicamente, com o nome do lugar esculpido em ferro, um para entrada e outro para saída. Uma guarita beje estava logo à frente, onde era possível ver, pela janelinha à direita, a silhueta de um segurança.

Havia resolvido ir andando até a casa vandalizada, mesmo que ela ficasse um tanto afastada e longe, pois dessa forma obteria tempo para dar uma olhada nas outras casas que estavam sendo construídas por sua corretora e atualizar os colegas de trabalho sobre elas.

Tinha em mente, quando chegasse na residência, dar uma boa explorada pelo lugar. Normalmente, mendigos ou encrenqueiros usavam as casas em mal estado para se abrigar, e desde que a mesma estava toda suja, seria uma deixa para essas pessoas entrarem e se alojarem no interior. A falta de supervisão sobre ela e a distância em relação às outras casas também era um fator que ajudava a sustentar essa hipótese, mesmo que se tratasse de um condomínio — o que não dizia muito, pois qualquer um poderia pular os muros ao redor.

O lugar era calmo. Um grande paredão de pedras sobrepostas cercava o condomínio, perdendo-se no horizonte. Algumas árvores estavam colocadas dos lados, no exterior, e uma espécie de entrada foi feita antecedendo os portões, com a guarita do segurança ficando entre eles, rodeada por uma fileira de flores e, na frente dela, uma fonte cuspindo água.

Lincoln passou a bolsa por cima da cabeça e pendurou-a no ombro, segurando-a na altura da cintura pela alça superior, e foi quando uma estranha movimentação aconteceu à direita. O rapaz virou o rosto, mas não havia nada ali, apenas as árvores e o quintal das casas, algo a se estranhar e o motivo de dá-lo um susto. Voltou a atenção para frente, então. Não deu muita bola, mas jurou ter visto algo.

Sobressaltado pelo estranho movimento, ele foi surpreendido mais uma vez quando uma mão pousou em seu ombro. Calmo do jeito que era, virou-se lentamente, apenas para se deparar com uma Jordana sorridente. Estranhou a presença da garota, mas sorriu em direção a ela, feliz pela presença após tanto tempo sem se verem, mas ainda estressado o bastante pelo vandalismo para que não estivesse em um de seus melhores humores.

— Jordana, oi — saudou-a. — Quanto tempo.

— Nem me fale, Lincoln. Como vai?

— Estou bem, e você?

— É… — Ela expressou com o rosto que não estava tão bem, mas disse mesmo assim: — Na medida do possível.

Ele fechou a cara, lembrando-se da situação de Jordana e Emily. Até onde sabia, elas tinham despertado a ira do assassino da cidade, e eram os alvos principais dele, como todos diziam. Por algum motivo, sentiu-se ameaçado na presença da garota, mas nada fez.

— As coisas estão bem feias em Oakfield — comentou o negro.

Jordana percebeu como ele estava agitado, olhando para o portão do condomínio de cinco em cinco segundos. Constatou que Lincoln estava querendo ir para o lado de dentro, provavelmente com pressa para fazer algo do trabalho, como a bolsa em seu ombro alertava. De uma forma ou de outra, não o deixaria ir antes de fazer o que tinha ido fazer.

— Pois é… É horrível passar por tudo isso de novo. — A tristeza em sua voz foi genuína, mesmo que o assunto tivesse sido tocado de forma proposital por ela. — Como você se sente em relação a tudo isso? A todas essas mortes? — perguntou, da forma mais inocente que conseguiu. — Digo, depois de eu ter criado essa chacina, o mínimo que posso fazer é saber como as pessoas estão lidando com isso…

— Bem… — Lincoln olhou ao redor, pensando no que dizer. — Não posso dizer que estou devastado, porque nenhuma das pessoas assassinadas eram realmente próximas de mim. — Deu uma pausa, encarando a face ansiosa de Jordana. — Logan era um conhecido da Sam, mas… eu nunca cheguei a falar com o rapaz, nem com nenhum dos outros mortos.

— Entendo… — A menina viu a forma como ele bufou. Percebeu que Lincoln estava sendo gentil com ela apenas para não transparecer a falta de educação, mesmo que fosse contra sua vontade. — Acha difícil manter empatia pelos mortos?

Lincoln a encarou, desentendido. A expressão dele, além de tudo, era de quem não estava mais aguentando todas as perguntas, pois havia percebido que a albina tinha segundas intenções com a conversa. Então, balançou a cabeça de um lado para o outro, sério, e soltou uma risada. Jordana começou a ficar um pouco arrependida, percebendo que ele estava zangado com a enrolação.

— O que você quer, Jordana? — perguntou o homem, deixando claro uma certa falta de interesse. — Já deu para sacar que você não veio falar comigo simplesmente por falar. — Olhou ao redor, percebendo o carro da garota parado do outro lado da rua, a alguns metros. Estranhou isso, mas nada disse. — Por que está aqui?

A sobrevivente ficou um pouco perplexa. Havia sido descoberta. Estalou os olhos e tentou contornar a situação, dizendo:

— Sinto muito, não é nada…

— Até mais — disse ele, seco, dando as costas.

A albina encarou-o parada na calçada enquanto o rapaz se distanciava, indo na direção da guarita do segurança. Ela, sorrateiramente, esperou que sua passagem fosse concedida para o interior e que Lincoln desaparecesse pelo portão quando o mesmo se abriu para dentro. O portão de ferro voltou a se fechar.

Jordana olhou para o lado, reparando quando a estranha figura voltou a se mover de trás de uma das árvores à direita. A mesma figura que Lincoln havia visto momento antes, mas que não deu muita bola, na verdade era Emily, que saiu lentamente dali, indo na direção de Jordana. A sombra da árvore tampou-lhe a face por alguns segundos, mas logo sua expressão desapontada foi exibida.

A albina caminhou na direção dela, até que ficaram frente a frente.

— Da próxima vez, tenta dar mais na cara o que quer — disse Hayes, sarcástica, contanto à forma como a albina havia interrogado o moço, deixando explícito suas segundas intenções.

— Me desculpa, eu não cursei Teatro — respondeu, rindo de lado.

— Eu sei…

— Não consegui nada, que droga — contou, insatisfeita consigo mesma. — Talvez a gente deva tentar quando ele estiver mais calmo.

A morena voltou a atenção para a amiga, curiosa.

— Mais calmo? — perguntou.

— Acho que ele veio fazer alguma coisa importante aqui — esclareceu. Emily concordou com a cabeça, compreendendo. Jordana virou-se para ela, dizendo: — Olha, Em, eu sei o que eu disse mais cedo, mas não acho uma boa ideia sair interrogando todo mundo.

— Dessa forma é mais fácil. A gente vai se precaver assim. — Deu uma pausa. — Vamos saber quem realmente é confiável, e quem não é.

— Por tudo o que passamos, sabemos mais do que ninguém que o desgraçado sabe fingir inocência quando pode. Deveriam ter dado um Oscar para a Julia e para o Connor! Engaram todo mundo direitinho.

— É, mas fizeram isso porque, naquela época, quase nenhum de nós acreditava que o assassino poderia ser realmente um conhecido. Ninguém saiu questionando ninguém.

Jordana pareceu perceber que aquilo era verdade.

— Tem razão — respondeu a albina. — O assassino, com certeza, já deve estar presente nas nossas vidas. E isso é uma merda, fica sempre mais difícil.

— Talvez… Pelo lado emocional, com certeza… mas para investigar e descobrir a identidade, fica dez vezes mais fácil. — Elas se encararam, sérias.

— Acho que é arriscado, mesmo assim.

— Você não precisa achar nada, porque realmente é… — Emily balançou a cabeça. — Mas já que estamos em perigo 24hrs por dia… não vai piorar em nada se tentarmos descobrir alguma coisa por conta própria.

— Pois é… Vamos sair daqui, o Lincoln não deu em nada.

As duas começaram a caminhar na direção contrária ao condomínio, saindo do quintal da casa do total estranho. Na metade do caminho, enquanto se aproximavam do carro, Jordana riu de lado, comentando:

— Estou me sentindo o próprio assassino.

Percebendo a risada da amiga, Emily questionou, sorrindo:

— Por quê?

— Nós até seguimos o cara. — As duas riram juntas.

— Mas foi divertido, confessa.

Jordana riu mais alto, cedendo:

— É, você tem razão.

 

 

Após muitas casas vistas — sete, no mínimo — e linhas e mais linhas de anotações feitas, Lincoln parava, então, na frente da casa pela qual realmente fez a visita ao condomínio. Não achou que ela ficava tão afastada de tudo, como havia lhe sido informado, mas a maldita residência ficava a duas ruas de separação das casas que tinham habitantes. Antes dessas, apenas lotes vazios para vendas de terrenos com placas pendendo sobre a grama. Contudo, a vista da residência compensava a longitude, dando um panorama do restante do condomínio e de um pouco de Oakfield, por conta de ficar em cima de uma pequena colina. Ao lado, um lago cristalino tomava forma, brilhando sob a luz do fraco sol da tarde, encoberto por nuvens acinzentadas.

A casa era grande. Tinha dois andares e mais de oito cômodos. No entanto, o que poderia ser a bela vista de uma moradia de luxo, era apenas os restos de uma obra em processo de construção. As paredes eram em partes de vigas de madeira e em partes de concreto, sendo que a maior parte delas mantinha grandes buracos inacabados que exibiam o interior. Ao redor, materiais de construção se espalhavam pelo gramado, como máquinas de fazer cimento e empilhadeiras, todos cobertos por panos de plástico transparentes e foscos que protegiam-nos.

Além disso, a obra de um vândalo também se mostrava presente. Por conta dos dias que se passaram, os ovos estourados nas paredes haviam secado e se transformado em crostas amareladas, pincelando a casa. Tiras de papel higiênico estendiam-se pelo chão e entravam pelas janelas e portas, cobrindo a residência como um presente de aniversário.

Lincoln suspirou profundamente, dando passos decididos para frente. A porta de entrada não existia, era apenas um buraco quadrangular no meio de uma parede de madeira. Ele passou ao lado dos materiais de construção e da sujeira criada, pulando sobre cascas de ovo deixadas no caminho, aproximando-se da casa.

Ao finalmente chegar onde queria, deu uma boa olhada no interior, percebendo-o vazio. Tinha medo de encontrar algum indivíduo perigoso e armado morando ali, mas seu trabalho teria de ser feito, e por isso pisou com a sola dos pés na soleira inacabada, deixando que um eco alto retumbasse pelo interior da residência. Dessa forma, com o som se alastrando para todos os lados, ele se sentiu mais sozinho do que nunca.

Mais um passo para dentro. Olhou ao redor. O interior estaria vazio se não fosse pelas mesas de madeira, portadoras das ferramentas usadas para a construção. Chaves de fenda, serrotes, serras, martelos… Todos esses objetos estavam espalhados na superfície das mesas. Lincoln continuou entrando. Grande parte de sua visão era tampada pelas paredes de cortinas de plástico, que foram estendidas para todos os lados para proteger os materiais, presas ao teto por grampos. Elas eram foscas e descoloridas, deixando que apenas as sombras dos objetos do outro lado fossem vistas.

Com o braço, tirou uma das cortinas de sua frente, afastando-a o bastante para poder passar. O som da coisa se mexendo ressoou pelo ambiente silencioso. Com o tempo que estava na casa e com todo o barulho feito, constatou que, se tivesse algum morador indesejado ali, ele já teria aparecido, o que o deixou mais aliviado.

Lincoln passava pelas barreiras foscas, tomando caminho para dentro da construção, seguindo na direção da cozinha, onde achava que teria mais espaço para fazer o procedimento padrão de situações como aquela: denunciar o caso para a polícia e deixar que a mesma lidasse com o caso de pegar o responsável, enquanto anotava tudo o que havia acontecido e descoberto em um bloco de notas.

Ao chegar no cômodo, percebeu que ele não era tão diferente ou espaçoso. Mais cortinas o cercavam, de todos os lados. Ali, uma nova mesa tomava forma, sendo tampada por um dos plásticos. Uma camada espessa de poeira estava sobre o mesmo. Lincoln se aproximou, olhando ao redor. À frente de si, uma janela larga deixava que o ar frio do exterior entrasse na casa, arrepiando o rapaz e balançando as cortinas foscas.

Ele se aproximou da mesa e passou o dedo sobre a superfície, deixando que a poeira juntasse-se em seu dedo. Era possível ver que haviam coisas postas sobre ela. Olhando-a com desgosto, curioso, puxou o plástico que cobria os itens abaixo, exibindo-os para si.

Nesse mesmo instante, sob o silêncio sepulcral da residência, o celular do corretor tocou. Lincoln, um pouco sobressaltado pelo barulho repentino, tirou-o do bolso enquanto colocava sua bolsa na mesa, atendendo a ligação.

— Alô? — perguntou.

Hello there — disse a voz.

— Quem está falando?

Antes da resposta vir, atrás dele, ao fundo, sem que o rapaz pudesse notar, uma sombra negra passava sorrateiramente do lado de trás de um dos plásticos estendidos.

— É da galeria de artes de Samantha Winters? — questionou o estranho.

— Você ligou para o número errado, amigo — respondeu Lincoln, gentilmente. — Mas eu posso te passar o certo, se quiser. — Com a mão livre, explorava os equipamentos na mesa diante de si. Pegou um grande martelo, inspecionando-o centímetro por centímetro, e em seguida depositou-o de volta na mesa.

— Acho que posso resolver a situação com você.

— Estou no trabalho agora, na verdade. Você pode ligar para a minha espo–

— Não, acho que posso resolver a situação com você — cortou-o.

O negro franziu o cenho.

— Não estou podendo falar agora, como já disse.

— Mas você falou com a Jordana.

Lincoln parou, estático.

— Quem está falando? — perguntou.

— Deu um pouco de seu tempo para ela, então por que não pode dar para mim? — continuou o remetente oculto.

— Eu não estou com ela.

— E onde está, então?

— No trabalho, já disse. — Dançou com os olhos sobre a mesa, pegando uma serra circular com cuidado. Observou com atenção a lâmina giratória, arrepiando. — No meu escritório, no centro da cidade — mentiu, querendo encerrar a chamada.

— Achei que havia te visto conversar com a Jordana.

— Você sabe quem eu sou?

— Eu sei muito bem, Lincoln.

Estranhou a forma como seu nome foi dito, mas não disse nada. Era bem famoso na corretora de imóveis, e era de se esperar ser conhecido por um grande grupo de pessoas.

A serra circular continuava em sua mão, e no momento em que foi colocá-la de volta na mesa, pressionou, sem querer, o botão de ligar com o polegar. Levado por um susto estarrecedor no momento em que a coisa começou a girar e a vibrar em sua mão, soltando um barulho altíssimo por toda a residência, ele largou o objeto na mesa num sobressalto, fazendo a madeira toda tremer.

— Sabe, Lincoln, eu não acho que você esteja em um escritório — tornou a voz, irritada. — Eu acho que você está em alguma espécie de construção… Uma construção isolada de qualquer outra presença…

O rapaz sentiu um estranho arrepio tomar conta de seu corpo. Sentiu-se ameaçado, por algum motivo, levemente assustado. Olhou ao redor, desconfiado.

— Está me observando? — perguntou, a voz evidenciando sua desconfiança.

— Sim, eu estou… — o maníaco respondeu de forma arrastada.

Lincoln sentiu um nervosismo tomar conta de si, percebendo que não falava com algum comprador e sim com alguém altamente perigoso. Talvez, até mesmo, o assassino.

— Ficou assustado agora? — questionou a voz. — Garanto que os últimos momentos de seu irmão também foram assim: carregados de terror.

O negro sentiu uma onda de calor percorrer o corpo.

— Cale a boca.

— Toquei num assunto sensível? — debochou o mascarado.

— Como sabe disso? — Seus olhos, por algum motivo, encheram-se de lágrimas ao ter lembranças de seu falecido irmão.

— Julian… Esse era o nome dele, certo? O lado bom é que você vai reencontrá-lo no céu… ou no inferno.

— Quem é você, porra?! — perguntou, irritado e prestes a chorar, enquanto virava-se sobre os próprios calcanhares, apenas para parar no mesmo instante com o coração gelado e a alma petrificada.

Diante de si, a figura obscurecida passou novamente de um lado para o outro, do outro lado de uma cortina fosca e quase transparente, uma sombra negra e desfigurada que sumiu da mesma forma que apareceu, velozmente, perdendo-se atrás de uma das paredes do interior da casa.

Lincoln parou, engolindo em seco, e logo tomou uma decisão, tirando o celular com força da orelha e apertando o botão que deu um fim à chamada.

— Eu não vim aqui para morrer — disse para si mesmo, percebendo, com certa tensão, que talvez aquele fosse realmente o assassino de Oakfield.

Virou-se de uma vez, tratando de seguir na direção contrária à onde viu a figura passar. Para seu azar, não havia saída rápida de onde estava. De uma forma ou de outra, teria de passar pela construção inteira, praticamente, até encontrar uma saída. A mais próxima, no caso, era a da porta da frente.

Dessa forma, com o celular na mão, ele começou a correr para a direita, onde uma passagem formava-se, tampada por uma das cortinas. Os braços agitados logo tiraram a coisa de sua frente, apenas para dar de frente com mais uma… e mais uma… e mais uma… e mais uma fileira interminável delas, que tampavam o caminho e deixavam-no perdido.

Os dedos ágeis batiam com força nos pedaços pendentes de plástico, abrindo espaço para o careca passar. Lincoln tinha os pés batendo fortemente pelo chão de madeira, criando ecos altos que, de forma clara e precisa, evidenciavam sua posição. Mas ele, de fato, não se importava em tomar cuidado em despercebido pela outra presença, pensando que já estaria longe o bastante quando o desgraçado chegasse à sua posição atual.

Então, repentinamente, provando que sua hipótese estava errada, a figura surgiu em sua frente. Todo o ar foi tirado dos pulmões do corretor em um suspiro de terror ao que ele recuou instintivamente, batendo com as costas em mais um pano plástico e fazendo o celular cair de suas mãos no ato. Pensando que seria acertado pela sombra, a coisa apenas passou rapidamente e desapareceu, assim como antes, sumindo de vista.

Assustado, Lincoln olhou ao redor, procurando pela figura nas sombras, mas não tinha nada. O maldito fugira mais uma vez, deixando-o perdido e pensativo. De qualquer jeito, não tinha tempo para fazer perguntas, e tornou a correr, indo para outra direção. Aos poucos, entendia o plano do indivíduo, pois o mesmo estava fazendo-o retornar para sua posição anterior, levando-o de volta para a cozinha, sendo essa a única direção a ser seguida, basicamente o cercando para deixá-lo encurralado.

— Merda… — sussurrou para si mesmo ao notar isso.

Correu novamente, naquela mesma direção. Preferia ficar indo e voltando do que dar de frente com a figura. Lincoln, mais uma vez, estava naquela situação angustiante de tirar as cortinas de sua frente, temendo dar de encontro com o indivíduo novamente. Jamais seria capaz de saber o que lhe esperava do outro lado daqueles panos plásticos, o que aumentava sua ansiosidade e o medo de receber um golpe. Os pulmões já estavam se esforçando demais. Clamava por ar enquanto ofegava pelo esforço e o desespero.

No instante seguinte, teve o novo relance da figura quando a mesma surgiu em sua frente pela terceira vez, brotando do vazio e criando-se aquela extensa forma horripilante e escura do outro lado da cortina fosca.

— Não! — gritou no impulso do susto.

Dessa vez, no entanto, foi diferente, quando Lincoln sentiu a coisa encostar em si. Foi um toque rápido no choque dos corpos. Rodopiou para trás, dando as costas à presença, e não foi capaz de conter o próprio corpo ou frear os pés, e logo estava estirado no chão de madeira após sofrer o forte impacto da queda, vibrando-se por inteiro.

O corpo doeu por alguns segundos. Lincoln gemia com a dor, sem exatamente saber como havia parado no chão. Contudo, algo de estranho lhe ocorreu. Um dos pontos de seu corpo doía como nunca, uma dor lancinante e agoniante que comprometia-lhe os músculos da barriga. Virou-se para cima, estando de bruços, e não foi nenhuma surpresa quando viu que a figura havia sumido novamente. E apenas após ter essa certeza, desviou a atenção para baixo, na direção do próprio corpo, e com grande espanto notou a substância vermelha que molhava-lhe a blusa e aquecia a pele.

Era dali que a dor vinha, forte e aguda, na altura da barriga, onde um corte vertical formava-se do lado direito. O sangue caminhava para fora de si em constantes fluxos quentes, manchando o chão enquanto gemidos de agonia saíam do moreno.

— Filha da puta… — Suspiros altos e entrecortados saíam do rapaz ofegante.

Suas mãos trêmulas tocaram o local afetado, tentando impedir o sangue de continuar a sair. Era uma marca de facada, no exato lugar em que havia sentido ser tocado pela presença. Dessa forma, olhou para cima mais uma vez, retorcendo-se no chão, e notou como uma mancha vermelha viva formava-se em uma das cortinas à frente, de onde a figura havia surgido. Um furo em linha reta estava no centro da mancha, o exato lugar em que a faca tinha ultrapassado para acertá-lo.

Começou a se levantar. Teria de sair dali o quanto antes, percebendo que a situação era mais perigosa do que imaginava. Para Lincoln, estava sendo caçado. A certeza sobre o fato daquele ser realmente o Carrasco ainda não tinha vindo, mas ele sabia que estava correndo perigo. A dor da facada apenas aumentava a cada movimento, e aquilo deixava claro que suas chances de sair dali diminuíam.

Ficou de joelhos no chão, procurando por algum apoio, mas não encontrou nada. Dessa forma, agarrou uma das cortinas à esquerda com a mão ensanguentada. Ela balançou, mas impressionantemente não cedeu ao peso do corretor. Lincoln ficou de pé com grande esforço, gemendo de dor, temendo dar de encontro com o indivíduo mais uma vez. As pernas meio dobradas evidenciavam sua dificuldade em continuar em pé, o corpo retorcido para frente. Uma das mãos era usada para liberar o caminho de qualquer obstáculo, enquanto a outra ainda pressionava a facada na barriga, com o sangue saindo entre seus dedos e escorrendo pela calça.

Não foi capaz de dar nem dois passos, contudo. Mais uma vez, a sombra marcou presença, surgindo de trás do rapaz sem que ele visse. Dessa vez, no entanto, a cortina não foi usada para ocultar sua identidade, e o Carrasco surgiu em toda sua glória atrás de Lincoln. Ele, notando o barulho de passos atrás de si, virou-se num sobressalto, estalando os olhos. Deu de encontro ao mascarado quando o mesmo avançou sobre si sem pestanejar. De braços esticados, o assassino empurrou o corpo do rapaz para trás com violência, e o negro, fraco demais para reagir ou se proteger, foi lançado como um boneco.

Os pés tropeçaram um sobre o outro e o corretor novamente foi alvo da gravidade. Sentiu as diversas cortinas batendo em suas costas enquanto a estabilidade era perdida e o corpo era lançado com velocidade para trás. Conseguiu, ainda, dar três ou quatro passos na tentativa de continuar em pé, até que as costas bateram no chão e chegaram a deslizar por alguns centímetros, parando em seguida.

À frente, o Carrasco aproximava-se com passos largos e a faca ensanguentada ao lado do corpo, encarando sua vítima estirada no chão, remexendo-se de dor. Imponente, o assassino se aproximava de Lincoln, e vendo isso, o rapaz tentou se proteger com um chute na altura do calcanhar do perseguidor.

Um gemido desregular e quase não humano surgiu por baixo da máscara, enquanto a figura pendia para frente. No entanto, nenhum som de impacto foi ouvido, apenas um tilintar violento da faca caindo no chão, e ao olhar para o lado, Lincoln percebeu que o maníaco apoiava-se em uma das mesas do lugar. Dando uma nova inspecionada, percebeu que estavam de volta na cozinha, surpreendentemente.

Começou a tentar se levantar, erguendo o torso, mas o psicopata foi mais rápido. Num ágil movimento, o mascarado procurou por uma arma. Seus olhos bateram na mesa de ferramentas e as mãos enluvadas envolveram o suporte da serra circular ali posta, tão rápido que quase pareceu que as duas coisas foram feitas para ficar juntas.

Tornou a atenção para o moreno de torso erguido e, sem pensar, apenas tentando parar a fuga do mesmo, arremessou o item para baixo. Estando do lado do corpo, o movimento foi o necessário para fazê-lo parar, quando a lâmina redonda e exposta acoplou-se ao tórax de Lincoln. Ele gritou com força, sentindo a dor lancinante lhe atingindo no peito, o mesmo que queimava como nunca, uma linha de sangue escorrendo para fora do corte nem tão fundo assim. Aquilo foi o bastante para derrubá-lo de novo.

O mascarado se aproximou rapidamente, abaixando-se ao seu lado.

— Não… Por favor! Não faz isso! Não… — tentava o negro, clamando pela vida, vendo o assassino virar a cabeça para o lado, debochando de si.

No momento seguinte, a dor no peito aumentou. A facada na barriga ao menos importava mais, não tendo a mesma gravidade do que aconteceu a seguir. As mãos do assassino se agitaram sobre a serra no peito do moreno, uma delas agarrando o suporte para mãos e a outra mantendo o corpo dele no chão. Então, com um único movimento de polegar, com uma lágrima fútil escorrendo dos olhos de Lincoln, o equipamento foi ligado.

A lâmina afiada e redonda começou a girar com violência, afundando-se na carne do homem e fazendo o sangue ser espirrado para os lados, na mesma direção do giro. O mecanismo vibrava nas mãos do assassino, que com uma frieza enorme forçava-o para baixo, apertando-o ainda mais. Assim, o tórax de Lincoln era aberto, uma fenda grande e funda sendo criada no decorrer dos segundos. O líquido vermelho era de grande presença, escorrendo para os lados e manchando todo o espaço presente enquanto os gritos estridentes de Lincoln enchiam a casa, sendo quase abafados pelo som da serra em trabalho.

O corpo todo dele tremia, as pernas em agonia vibravam e os braços se debatiam. Já a cabeça ia de um lado para o outro, os olhos estalados percebendo que, de fato, não havia como fugir daquela situação. O sangue era espirrado em uma única direção por aquela ferramenta, lançado como se fosse faísca para trás, manchando uma única cortina, de onde escorria para baixo em uma linha reta e tortuosa, ao mesmo tempo que encharcava o disfarce do lunático abaixado ao lado.

A serra foi forçada mais ainda para baixo, e foi quando um estalo alto foi ouvido assim que o esterno do rapaz foi quebrado. A lâmina giratória ainda não parava, os gritos de Lincoln se intensificando segundo por segundo, a agonia em seu olhar. Camadas de carne eram violadas e partidas, ossos se quebrando. Mas a vida não parecia deixar o corpo do corretor, uma tortura do qual queria se ver livre logo.

Então, num último segundo de um suspiro longo e interminável, o Carrasco deslizou a serra para cima, tentando terminar o trabalho o mais rápido possível, de forma que a lâmina não só abriu mais caminho pelo peito de Lincoln, como também comprometeu a garganta do rapaz. Uma trilha vermelha de carne exposta formou-se, seguindo até o pescoço, quando o equipamento saiu do centro de seu tórax e atingiu a garganta. A lâmina abria a pele fina e todos os músculos, o líquido carmesim formando poças grandes ao redor do corpo mutilado e quase imóvel.

Vendo o mascarado sobre si, preso e incapaz de lutar, ele despedia-se da vida conhecida. Lembrou-se de Sam. Viu pelas pupilas quase dilatadas um último sorriso da amada noiva, declarando, ali, seu infinito amor pela loira. Que nós nos encontremos novamente, pensou.

Num último grito, mais um esforço foi feito por parte do mascarado, e foi quando a lâmina partiu a mandíbula do rapaz em duas, quase lançando os ossos para os lados, afundando-se em sua face brutalmente.

O grito de Lincoln parou, assim como o restante de seu corpo. Uma fenda vertical e extremamente profunda formava-se pela metade superior do corpo do rapaz, quase o dividindo ao meio, de onde o sangue tomava caminho em fluxos fortes. O pescoço resumia-se em uma massa vermelha e aberta, de onde todos os músculos e nervos eram vistos, assim como as veias estouradas pelo corte da lâmina. O rosto, por sua vez, deformado.

Ao ver a imobilidade da vítima, o Carrasco desligou a lâmina, e dessa maneira, devolveu à residência o angustiante silêncio que antes a cercava.



Notas finais do capítulo

Eu disse que a cena do Max e do Owen no capítulo seis seria importante, não disse? E aqui está ela, servindo de habitação para mais uma morte do segundo massacre de Oakfield. O que acharam da cena e do Lincoln ser o escolhido como a nova vítima? Acham que Max ter tido a ideia de vandalizar a casa já vinha com essa intenção? E Megan com seu estranho comportamento (em partes, é porque ela quer manter a promessa feita à Linda de que não contaria a ninguém, mas por que dessa forma?)? Como acham que Sam vai lidar com a situação? E Emily e Jordana com esse plano arriscado de interrogar todo mundo?
Deem suas opiniões sobre o capítulo e tudo o que estão achando da história até agora! Espero que estejam gostando do desenvolvimento dela! Até mais sz



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