FUE: A Frente Unida Extraordinária WSU escrita por Natália Alonso, WSUniverse


Capítulo 12
Capítulo 11 – Rede de encontros




 

 

 

Aliados

 

No vale central, nos vestíbulos do inferno, Mefistófeles encontra o corpo de Vlad. Quando nota que o antigo Drácula está com a espada atravessada na boca e com o corpo pendendo para parede, fica pensativo e suspira antes de pegar a espada.

— Ela vai ficar furiosa comigo quando souber. — Ele tira a arma do cadáver, que cai ao chão.

O demônio pega do bolso a pequena esfera brilhante de Metatron e encosta nos lábios do vampiro morto. Instantaneamente, ele abre os olhos assustado, tosse e se afasta do demônio se arrastando de costas no chão até a parede. Quando se dá conta de que está vivo, com os olhos arregalados, questiona o demônio.

— O que aconteceu? Eu tinha...

— Caído no poço, no vazio. Se quiser, posso te mandar de volta. — fala Mefisto em desdém.

Vlad olha sem entender muito bem.

— Por que me trouxe de volta?

— Adivinha.

O vampiro franze a testa.

— Pensei que eu era seu inimigo agora.

— Você sempre me foi fiel, Vlad. Eu sei que só estava com Astaroth por precisar se manter vivo, quer dizer, sua essência viva. Mas ele mesmo o mandaria para o poço depois de tudo terminado.

— Como você sabe disso?

Mefisto olha com desdém, se levanta devagar.

— O único verdadeiro aliado de Astaroth é Belzebu. Ele é o verdadeiro problema.

— E o que você quer? — fala Vlad, se recompondo.

— Você sempre comandou os vampiros em terra. Quando tudo estava em paz eu lhe tirei da penitência, te dei até um presente, lembra? — Vlad confirma com a cabeça, sorrindo. — E depois, você resolveu se aliar a Astaroth.

— Ele me ofereceu ser comandante da legião de vampiros no inferno.

— Ele poderia te oferecer o que quiser, mas as legiões sempre serão de Belzebu. Ele iria te matar e dar todos os guerreiros para aquele desdentado.

Vlad para pensativo, ele sabe que Astaroth não se abalou em ordenar que matassem Lilith, o que o impediria de matá-lo? Sente-se estúpido agora em perceber que fora manipulado pelo rei.

— E você, Mefisto. O que vai me oferecer?

— Você não me procurou para ser o primeiro vampiro apenas para vingar sua família morta. Você queria muito mais, queria poder.

O vampiro olha profundamente o demônio e concorda sorrindo.

— Imagine que eu posso lhe oferecer o meu círculo. O invés dos vampiros, você teria como legião todos os malditos. Seria um dos maiores comandantes do inferno.

— Por que me daria o seu círculo? Você é herdeiro dele, quer dizer, isso se Zagan não o tomar.

— Zagan é problema meu, cuidarei pessoalmente dele. Fora que eu nunca fiquei ansioso para governar o círculo.

— Achei que gostasse do poder.

— Eu adoro. — fala Mefisto se aproximando. — Mas também amo a minha liberdade, comandar o círculo me obrigaria a permanecer sempre lá. Eu não poderia subir em terra.

Vlad sorri discretamente.

— Em troca, o que devo fazer?

— Leve suas tropas para Astaroth, lá, tiraremos o regente.

O vampiro estende a mão em um acordo cordial com o demônio dos contratos. De certa forma, ele se sente confortável, sabe que sempre pôde contar com os acordos dele. É um demônio de palavra. Mefisto dá um aperto firme e puxa Vlad para perto, sussurrando em seu ouvido.

— Antes que vá, preciso te avisar de mais alguns detalhes...

 

 

 

*********

 

Metatron ainda está de braços erguidos no ar, seus olhos brancos brilham fortemente em seu rosto levemente tenso. Feixes de luz branca e cálida emanam a sua volta, caem como flocos de neve em todos ao redor. Os repórteres registrando tudo, os civis em pânico e perigo iminente, a torre em queda não se move, nem a água que sairia do encanamento contra o incêndio. As chamas vermelhas estão paralisadas, os carros, a cidade... tudo isso durará poucos segundos em terra, mas Mefisto pode caminhar com tranquilidade.

O demônio de pés descalços observa Lucy e Sara tentando conter a torre em queda. A zumbi, mesmo sem um braço, tem uma força considerável. O Aracnídeo estava prestes a sair com os repórteres pela janela de vidro, está ainda na beirada com o braço estendido para a teia presa do outro lado. O Leviatã cumpre o seu papel de monstro devorador de demônios e homens.

Mefisto admira por um instante a caótica cena, digna de uma pintura de Hieronymus Bosch e vai até Belzebu, paralisado tentando golpear pelas costas Baal, o tempo parara em momento oportuno.

— Você é mesmo um nojento, Bel. — fala Mefisto enquanto pega a esfera brilhante de Metatron e toca no rosto do comandante.

O demônio pisca os olhos, está consciente, mas não pode se mover ainda. Ele se irrita ao ver Mefisto a sua frente.

— Seu maldito desgraçado, Mefisto! Eu vou... por que não posso me mexer?

— Você é mesmo um idiota. Mas ainda pode ser útil. — Mefisto pausa a fala observando o corpo de Belzebu e Baal. — Você ia golpeá-lo nas costas?

O demônio de rosto pintado para combate e dentes quebrados franze a testa.

— O que você quer?

— Será que todos vêm me perguntando isso? — fala ele se sentando em cima de um cadáver demoníaco. — Enfim... está aliado a Astaroth por lealdade. Você é um dos poucos que ele não jogaria no poço do esquecimento depois de uma guerra dessas. É comandante do círculo da violência, o que é muito bom.

Belzebu ouve atentamente.

— Imagine, que você ganhasse algo realmente maior. Algo como mais um círculo, o quarto, da ganância.

— O seu? Está me oferecendo uma legião de negociantes? Se não servem para combate, não me interessam.

— Há os vampiros, essa é uma legião poderosa.

— Vlad é o general de vampiros.

Mefisto coça a nuca e balança o corpo.

— Ahhh! Não sei se sabe. Mas ele já está no poço a algum tempo. Lucy o fez engolir a espada, literalmente.

Belzebu sorri, seu rosto ferido e cheio de cicatrizes é horrendo quando irritado, e quando está feliz é ainda pior.

— Bem que Astaroth avisou que a vampira provavelmente o mataria.

— Interessante. Então vocês sabiam mesmo que isso aconteceria?

Belzebu ri, mas aos poucos se controla novamente.

— O que quer em troca?

— Pegue seus demônios medievais, e leve-os daqui. Caminhe com suas tropas em direção a Astaroth.

— Quer que eu o mate?

— Quero que renda Lúcifer. De Astaroth cuido eu.

O demônio sorri e assente com a cabeça, única parte que pode mover. Mefisto toca novamente com a esfera branca o liberando da paralisia de Metatron. Aos poucos, o exército de demônios desce pela fenda, Mefisto desce junto, mas toma outro caminho.

 

 

 

Ele vai até os jardins da Cidade de Ditis, a cidade da culpa possui um receptáculo deveras peculiar. Nos fundos, entre os pomares, há um campo verde e calmo. No alto do monte duas árvores habitam lado a lado, um canto pacífico e ermo para que elas permaneçam escondidas. Mefisto olha a árvore da Vida e a da Sabedoria, são as mesmas que estavam presentes no Éden, uma delas, a proibida que fora profanada por Eva.

Ele se agacha entre elas, na parte lodosa. Com as mãos pega uma porção de barro, com a taça, derrama as poucas gotas do sangue de Moloch, deposita uma pena negra no centro e molda o barro. Ele cantarola enquanto molda a argila, imagina em como o seu pai teria feito ele e seus irmãos. Pensa em quais passos ele precisa fazer.

 

 

 

*********

 

No Vale dos Ventos, o segundo círculo, é o local onde a luxúria é o pecado regente. Por essa razão, Súcubo tem andado muito aborrecida ultimamente. Mefisto chega em seu quarto finamente decorado, onde ela observava apreensiva de sua janela a guerra do lado de fora. Libertando da paralisia, ela se assusta com a chegada do demônio.

— Mefisto! O que está fazendo aqui?

— Calma, minha querida. Eu só vim lhe fazer uma visita.

— No meio dessa guerra? — Ela sorri sensual pendurando-se pelo pescoço do demônio e depositando um beijo em seu peito.

— Não esse tipo de visita. — fala se soltando da entidade sexual.

— Eu não vou mais lhe ajudar! Minha irmã pagou muito caro por ter ajudado seu grupo. — Irritada, ela se afasta e se vira de costas para o demônio.

— Mas eu que trouxe um presente.

— Agora? — Ela para pensativa e lembra da última vez que eles se encontraram. — A sua promessa. Por que quer cumprir isso agora?

— Você quer, ou não?

— Eu faria qualquer coisa... — fala ela se aproximando, segurando os braços de Mefisto. — Me diga o preço que farei.

— Antes de tudo, encontrou a garota que eu lhe falei?

— Ela vai ser sua nova escolhida? Por que afinal ela é importante?

— Súcubo, por favor, não tenho tempo...

— Tudo bem, ela está no outro quarto. Eu mal consegui explicar alguma coisa a ela, estava muito confusa, coitada.

— Obrigado, minha querida, eu sabia que podia contar com você.

— E agora, o que me trouxe?

O demônio sorri, a segura gentilmente e passa a mão em seus cabelos.

— Quando Íncubo fora jogado no poço, você ficou muito sozinha. Eu entendo você sentir tanto desejo, insaciável. — Ele olha profundamente nos olhos negros dela. — Eu sei os mais profundos desejos dos outros, e o mais incrível, é que muitas vezes eles não sabem quais são os seus verdadeiros anseios. Ficam buscando outras formas, e por isso, nunca ficam satisfeitos. Mas é claro, que eu preciso de um pagamento.

— O que quer?

— O sacrifício puro.

Ela levanta o rosto, assustada com o pedido.

— Um sacrifício por amor, para que precisa de tanto poder, Mefisto?

Mefistófeles sorri.

— Não gosto de dar spoilers. Me ajuda, querida?

Ela caminha até uma mesa, Mefisto forja uma adaga verde e entrega a ela, que apoia o braço na mesa, toca a adaga no cotovelo mostrando a ele. Mefisto faz um gesto com a mão pedindo um pouco mais, com os olhos fixos nele, ela levanta a lâmina até abaixo do ombro. Ele aprova com a cabeça e, sem dizer mais nada, ela levanta a adaga e golpeia a si mesma, decepando o próprio braço esquerdo no segundo golpe. O gesto de fé e lealdade não a exime da dor, ela urra enquanto Mefisto se aproxima rapidamente em um feitiço cauterizando o ferimento.

— Sua entrega e devoção é belíssima. Acho que mais nenhum demônio faria algo assim.

— Foi por isso que pediu a mim. — fala ela, um pouco zonza.

— Sim, é claro que sim.

Ele pega o braço dela e se vira para pegar algo que trouxera consigo. Ela se apoia na parede um pouco pálida e fraca.

— E qual o nome do homem que me trará satisfação plena. O amor incondicional que tanto anseio.

— Eu não sei. — Mefisto fala se virando. — Você ainda não me disse o nome que escolherá.

Ele se aproxima e entrega um pequeno embrulho de tecido. Ela segura, apreensiva e curiosa, o tecido pardo escorrega revelando o rosto de um bebê demônio, recém-criado do barro das árvores sagradas. Ela arregala os olhos para a criança com tamanha surpresa, e sorri ao ver os olhos abertos da pequena criatura.

 

 

 

*********

 

Mefisto percebe o sutil movimento de alguns demônios, ele sabe que seu tempo está acabando. Retorna rapidamente até a cidade de Ditis, sobe o monte do jardim conduzindo pela mão a alma de uma mulher. Ele pede que a garota espere, enquanto ele se abaixa desenhando no chão com o sangue que sai do braço de súcubo.

Ele prepara cuidadosamente os itens que precisava para o ritual. O grande pentagrama no chão pintado é rodeado de outros signos místicos. No centro, ele coloca o braço de Súcubo, as penas de Azazel, o cálice com o resto do sangue de Moloch e caminha até as árvores. Entre elas, pega mais uma porção de barro, observa os frutos vermelhos da árvore do conhecimento.

— Parecem suculentas mesmo. Eva tinha razão.

Se vira para a árvore da vida, se aproxima e pega um pomo dourado. Assim que ele tira o fruto, um novo surge no lugar do que fora tirado. O demônio caminha para o centro do pentagrama, e chama a alma da mulher que estava perdida.

— Venha, está tudo bem, Sara. — fala ele estendendo a mão a garota.

— Por que isso está acontecendo?

— Por que um amigo disse o quanto você era necessária. Ele me abriu os olhos do que poderia acontecer, mesmo sem ele mesmo saber o que aconteceria. E agora, eu preciso de sua ajuda.

— Isso é um ritual?

— Sim, e se você participar dele, irá me ajudar, eu poderei lhe ajudar em terra também. — Ela o ouve atentamente. — Sua alma está aqui por dois motivos. O primeiro é por sua maldição, da qual você não tem controle. O segundo é pelo seu pecado.

— Pecado? Eu não sou alguém que mereceria ir para o inferno. — Ela protesta. — Eu andei nos círculos, em todos são assassinos, ladrões... eu não fiz nada assim!

— Não tão grave, realmente. Mas segundo a Lei, você teria que dar o perdão para ir direto aos céus.

— Perdoar quem?

Mefisto olha com lamento, ela entende que ele se refere ao seu padrasto.

— Não podem me pedir isso. — fala com o rosto em negação.

— Exatamente, ele não merece o seu perdão, ele está aqui no círculo da luxúria pelo que lhe fez. Súcubo sempre cuida especialmente desses tipos. Mas se não fizer isso, quando a maldição acabar e seu corpo zumbi morrer tu ficarás aqui no Limbo para sempre. Ao invés disso, eu tenho uma solução, para você e para mim.

— O que eu tenho que fazer?

— Apenas diga sim, a mim. Eu posso retirar essa contaminação de sua alma. Posso, limpá-la, perdoar o seu pecado e assim, você permanece aqui no Limbo enquanto seu corpo estiver na forma zumbi. Mas quando ele morrer, sua alma terá a chave do Reino Superior.

Ela para, pensativa.

— O limbo, acho que não passei por ele.

— É o único sem penitência, o que está sem um comandante no momento.

— Azazel era quem o comandava, não é?

Mefisto a olha entristecido e confirma.

— Posso contar contigo, morta-viva?

Ela confirma com a cabeça. Mefisto parte o pomo dourado e oferece uma de suas metades, o fruto da árvore da vida.

— Preciso que partilhe comigo da vida, eu garanto que tudo acabará bem.

Eles se sentam no chão, de frente um ao outro no centro do pentagrama, ela come o fruto e Mefisto cobre a outra metade com o sangue de Moloch. Ele pronuncia palavras em sânscrito e aramaico, em tom baixo apoiando as mãos no chão. Se curva mudando a entonação da voz, usa o barro para cobrir o braço, depois as penas com a voz aumentando cada vez mais.

O círculo do pentagrama se torna flamejante, o brilho vermelho dos signos em torno começa a se mover até os dois. As luzes se direcionam para Sara penetram em sua carne, com ela sentindo dor. Seus olhos ficam vermelhos brilhantes, e nesse instante o demônio aproxima seus lábios nos dela.

Em quase um beijo, as bocas ficam muito próximas, mas é possível ver os feixes de luz passando de um a outro. Mefisto suga esse poder e seus olhos imediatamente brilham intensamente em verde e ele toma sua verdadeira forma, a que nunca mostrava a ninguém. Sua pele escurece tornando um azul profundo, os signos têm um leve brilho esverdeado em seu torso. Suas longas asas de morcego saem das costas rasgando a camisa.

Ele come o pomo dourado com o sangue do pai e ergue o braço decepado ao alto. A oferta é aceita, o braço envolto de barro se desfaz em pontos brilhantes vermelhos penetrando em seu corpo demoníaco, ele ruge em dor. O sacrifício puro, a pureza da quintessência é um poderoso ritual para convergir poderes do pecado, da essência demoníaca da terra para ele. Em uma neblina verde, ele desaparece do local.

 

 

 

*********

 

Em terra, Metatron ainda está com os braços erguidos, mas agora a luz cálida começa a falhar, ela emana pulsando de seu corpo. Já é possível ver o movimento dos olhos de Daniele se fechando devagar para piscar. O serafim muda sua expressão, de calma, para dor.

 

 

 

*********

 

A neblina verde passa entre os demônios paralisados, a maioria estava comemorando a saída do Leviatã e organizados frente a Mia. A possuída de olhos flamejantes está concentrada, tentando abrir uma outra fenda para liberar a saída dos demônios restantes. Mefisto retoma sua forma física, ele está com sua aparência humana novamente, a única diferença são os desenhos verde brilhantes em sua pele.

— Não devia ter matado Azazel, pequena maldita. — Ele se aproxima do rosto da garota. — Zagan, eu sei que está me ouvindo aí dentro, seu animal peçonhento. Saia daí, agora! — vocifera.

Uma energia emana da garota, labaredas negras saem de Mia e tomam a forma de Zagan, fora de seu receptáculo humano. O demônio de pernas de gárgula e rosto feral olha para si mesmo sem entender.

— Como fez isso? Com que direito pode me tirar... — Zagan avança, mas para quando vê um pergaminho na mão de Mefisto.

— Eu encontrei a venda. — Ele coloca o pergaminho aberto, flutuando no ar. — Seu maldito profanador de crianças, a garota agora será deixada em paz.

Ele queima o contrato de venda da alma de Mia, Zagan em fúria tenta ainda tocá-la, mas suas mãos se queimam em contato com ela. Ele urra de ira e dor.

— EU VOU TE DEVORAR VIVO, MEFISTO! — Zagan grita se virando a ele, e nota que o demônio dos contratos já está com as mãos erguidas ao alto e os símbolos místicos brilhando intensamente em sua pele.

Zagan o observa sussurrando palavras em hebraico e depois os olhos dele retornarem ao normal. Mefisto baixa então os braços e olha calmamente para Zagan.

— Você fez o rito para convergir poder e lutar comigo? Achou que conseguiria me controlar com ele? — fala Zagan, sarcástico. — Você sempre foi o magrelo do grupo mesmo.

— Te controlar? — Mefisto ri andando um pouco mais para o lado. — Não, Zagan, se for para montar em um animal, que seja um dos grandões.

Zagan vira o rosto confuso, arregala os olhos quando sente um tremor e do alto, pedras caem abrindo um gigantesco portal. Da fenda, o Leviatã aparece descendo com os olhos brilhando em verde, ele cai ao chão de boa aberta, devorando Zagan de uma só vez. Continua o seu percurso rumo ao poço do esquecimento, onde levará o goetia e lá, permanecerá.

Mefisto assistiu tudo parado, ele se curva olhando o túnel formado pelo percurso do Leviatã. Então fecha os olhos sentindo o poder se esvair de seu corpo e, tal como veio, a luz vermelha brilhante sai e penetra no chão. Mefisto se torna uma neblina verde novamente, segura Mia para tirá-la do inferno, agora ela é apenas uma garota paralisada.

 

 

 

*********

 

Em terra, Metatron está no alto, com suas asas abertas e braços erguidos. Ele começa a ter uma expressão de profunda dor quando sua pele começa a se desfazer, pequenos fragmentos são extirpados e as pontas dos dedos se desmancham. Daniele fechara os olhos no movimento de piscada e agora está retornando a abrir cada vez mais rápido. As gotas d´água se movimentam no ar, atingindo as labaredas de fogo que pulsam.

Imagens passam na mente dele, que não é um anjo, e agora, quase um demônio. Fora feito para ser o próprio poder divino, de criação e morte, de justiça e saber. Ele não pôde dizer que amava a criatura criada por Deus, isso pois ele não sabia o que era amor. Não sabia. Agora é diferente. Ele sente, sentir o tornara contaminado, ele não pode mais julgar com tamanha sabedoria, pois o sentir era a sua ruína. O amor fora a sua perdição.

O serafim tem seu rosto tenso, as mãos se desfazem, o vento é presente e suas asas ficam transparentes e magras. Ele lembra do amor que Azazel sentia por Lilith, do desespero e lamúria que teve com a visão da morte dela. Quando acalmara Lucy, que havia sido resgatada dos infernos, ele também sentiu, tudo o que ela viu. Seu próprio inferno particular, todos os que a feriram, os entes queridos que vira morrer repedidas vezes. Ele sentiu, quando o grupo conversava tranquilo, alguns brincando com os outros.

A agonia dele não está apenas em sua mente, sua pele arde enquanto sai, descamando parte a parte. Ele lembra de quando lutara a primeira vez no Ibirapuera, a ira que sentiu com um demônio que lançou uma flecha em sua direção, ele o matou. Ele poderia tê-lo matado de forma rápida, mas não quis, desejou que o monstro sofresse, era a ira em seu ser, o desejo de vingança. Foi por isso que seus poderes foram sendo consumidos aos poucos, ele não era mais digno.

Seu corpo se desmantela, desestrutura em uma latente agonia, ele sente, finalmente volta a se mover devagar, olhando em torno, lamentando. As pessoas em medo, a alien em luta, o detetive tentando apagar um incêndio, um atirador que acabara as balas e luta com as mãos. Eles lutam, eles sofrem, eles sentem. Sentir tudo isso dói demais, mas ele precisou salvá-los. Outrora, fora ordenado que ele limpasse a terra da humanidade, e assim ele fez. Agora, ele teve a oportunidade de entendê-los. E assim ele fez.

— Obrigado, Pai.

Fala ele antes de seu rosto se formar em sal e areia, fragmentos que se soltam no ar. Ele vê Mefisto, em forma de neblina verde, trazendo Mia para a terra. O demônio o avista de baixo por um instante antes de desaparecer, novamente aos infernos. O tempo está acabando. Metatron terá que deixar de ser. Contaminado pela emoção, perdido pela humanidade, ele deu todo o seu poder para isso. Agora, ele fecha os olhos e se desfaz por completo, desaparecendo da existência terrestre.

O Aracnídeo salta com os repórteres, a torre se despedaça com Sara e Lucy correndo de baixo dela. Karen acorda no chão, a poucos instantes estava lutando com o Leviatã, e agora o gigantesco dragão não está mais lá. Nenhum demônio medieval está mais lá, somente os orobas que auxiliam os heróis. As pessoas olham em volta sem entender, como poderia terem desaparecido em um piscar de olhos.

O padre percebe que Metatron não está entre eles, olha para Baal que sorri com sua vitória, sem notar o que acabara de acontecer. A terra está segura, mas e quanto aos infernos?

 

 

 

Instantes antes, nos vestíbulos do inferno

 

Em um movimento de giro, Lúcifer grita ao erguer a azul flamejante e desce rapidamente para o corte limpo, atingindo verticalmente o pescoço do rei Astaroth. A espada se quebra em pedaços, em som vítreo e tintila no chão.

Ambos param, Astaroth vê os pedaços de metal azulado no chão. Lúcifer arregala os olhos, mira sem entender. Astaroth ri, levanta o rosto de olhos fechados em uma gargalhada profunda.

 

 

Metatron para tudo e todos, usa o seu pleno poder até sucumbir sua existência.

 

 

As tropas de vampiros e demônios medievais chegaram ao entorno da praça central dos vestíbulos do inferno. A neblina verde passa rapidamente entre os inúmeros soldados em direção ao rei e o desafiante. Eles ficam libertos da paralisia de Metatron e Astaroth retoma sua gargalhada para Lúcifer.

— Não me diga que quem lhe entregou a espada foi Mefistófeles? — fala Astaroth, oscilando a fala com risadas de desdém da tolice de Lúcifer.

Lúcifer olha atônito e irado, no mesmo instante Mefisto aparece se materializando ao lado deles.

— Falando no demônio... — diz Astaroth em um leve sorriso.

O rei faz menção de se levantar, mas Mefisto rapidamente conjura a espada Azul Flamejante e golpeia o peito. Astaroth se desequilibra e o segundo golpe atinge seu pescoço, deslizando perfeitamente de um lado a outro. O rei para, sua cabeça vai ao chão, seu corpo robusto cai logo em seguida.

Lúcifer assistiu os rápidos movimentos de Mefisto, furioso ele se vira, mas o demônio dos acordos levanta a espada a ele também.

— Chega, Lúcifer.

O príncipe observa a espada verdadeira.

— Você me enganou, como ousa.

— Você estava enganando todo mundo, acha que não sei o que pretendia fazer? Iria dominar a terra assim que pudesse.

— Não, eu só estava... — fala Lúcifer, mas Mefisto o interrompe.

— Eu ouço os desejos de todos, Lúcifer. Se esqueceu disso?

Lúcifer para, sorri em um embaraço fingido.

— O que quer que eu faça? É minha natureza. Tu me enganaste, muito bem. — Lúcifer fala se afastando devagar, se aproximando da outra espada caída no chão. — Mas e agora, acha que pode lutar comigo?

Lúcifer acelera tentando alcançar a Cimitarra de Luz, mas o pé de Belzebu a segura.

— Bel! Ainda bem que chegaste...

— Acabou, filho de Moloch. Você irá continuar como príncipe.

Lúcifer brilha os olhos em vermelho e ira, ele range as presas enquanto golpeia o rosto de Belzebu, uma, duas vezes. Bel permite os golpes, um quarto arranca sangue da boca do demônio que vira o rosto sorrindo rubro para Lúcifer.

— Minha vez.

Bel dá um soco no estômago que faz o príncipe arquear, o ergue novamente ao alto dando-lhe uma cabeçada. Assim que o solta, Lúcifer se desequilibra para trás caindo no chão sentado. Então ele nota que Belzebu continuava em cima da espada, ele sequer havia se movido.

— Não é à toa que você é um dos comandantes. — fala Lúcifer, visivelmente tonto.

Mefisto apenas assiste à cena satisfeito.

— Você pretende me matar, tal como fez a Astaroth? — fala Lúcifer de costas para Mefisto.

— Eu estou com a verdadeira flamejante, Bel tem a cimitarra. Além disso temos todos os exércitos lá fora. Então não, não acho que seja necessário. Você sabe que não tem como vencer agora. — Mefisto para por um segundo ouvindo, e depois retoma a Lúcifer. — Por mais que esteja desejando urinar em meus restos mortais. Por favor, Lúcifer, tente desejar mais baixo, minha cabeça vai explodir.

Lúcifer sorri, olha para Bel que continua imóvel com os braços cruzados a sua frente.

 





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