Chess escrita por Pan Alban


Capítulo 15
Jogada decisiva


Notas iniciais do capítulo

Olá, pessoas!
Pan está sem PC em casa o que está dificultando um pouco as coisas, mas as postagens não serão atrasadas!
Aviso importante: preparem o coração!



2 semanas depois

 

Temari abriu os olhos começando a tentar se situar. Antes mesmo que chegasse a todas as respostas que seu corpo pedia, ainda meio atordoado, viu o rosto de Shikamaru sobre o seu tocando um dedo na boca para que ela não fizesse barulho.

Ela enrugou as sobrancelhas e ele sorriu inclinando a cabeça para a direção esquerda dela, assim como os olhos que se desviaram para lá. Temari piscou lentamente, só então se dando conta de que havia adormecido quando havia se deitado no colo de Shikamaru para que ele não se deitasse e dormisse. Quis rir de si mesma.

Então, bem lentamente virou a cabeça em sua direção esquerda e viu dois cervos os observando atrás de uma árvore, um deles era um filhotinho e o outro era um pouco maior, mas ainda não era adulto. Um sorriso pequeno e instantâneo se formou no rosto dela, era a primeira vez que via os cervos tão perto.

Sobre seu rosto, viu o braço de Shikamaru se estender e o menorzinho dar um passo adiante e diligente, o maior hesitou um momento, mas logo foi vencido pela curiosidade e também se aproximou.

— Não faça nenhum barulho. Não se mexa. — ele sussurrou baixinho enquanto o menor se aproximava tanto a ponto de cheirar a mão de Shikamaru.

Temari assistia aquilo hipnotizada e maravilhada. Movia somente os olhos com medo de assustar e afastá-los, assistindo Shikamaru afagar a cabeça do pequeno cervo que ficava mais confortável com o carinho. O segundo cervo apareceu e inclinou a cabeça para Shikamaru, Temari teve vontade de rir completamente boba com aquela cena e com inveja de que Shikamaru pudesse tocá-los com tanta familiaridade.

E ele sorria como uma criança, ou se estivesse vendo as suas crianças. Cada mão era ocupada fazendo carinho na cabeça de um filhote e em seu colo Temari continuava a assistir encantada.

— Estica a sua mão devagar. — ele disse mais descontraído, mas ela ainda estava receosa. Sentiu, então, sua mão ser levantada pela dele e um focinho gelado encostar curioso.

Aos poucos, ela foi se sentando sem tirar a mão do rosto caramelo e tão inocente daquele cervinho, o outro já se sentia à vontade com ela também, mas continuava recebendo carinho de Shikamaru unicamente.

— Acho que ele gostou de mim. — ela disse sorrindo como boba e só depois de um tempo percebeu um olhar estranho de Shikamaru em sua direção. — O que foi? — Pela primeira vez não soube dizer o que um olhar dele significava. Parecia sentimental...

Shikamaru balançou a cabeça e sorriu sem jeito.

— Você vai cuidar bem deles.

Os olhos já não estavam mais nela e os dela também haviam se desviado com a afirmação. Um leve amargor subiu pela garganta de Temari quando ela concordou com a cabeça duas vezes. Os olhos começavam a arder, mas ela não iria chorar.

Sentados embaixo de uma das mais antigas árvores, quase não tocados pelos raios fracos do sol poente, ela encostou a cabeça no peito dele e ele apoiou seu queixo sobre os cabelos loiros dela. Shikamaru e Temari ficaram em silêncio acariciando os pequenos cervos enquanto não conseguiam colocar em palavras o que se passava em suas mentes naquele momento.

 

♚♛

 

Algumas horas antes

 

— Ele está se divertindo. — Izumi ofereceu um copo gelado de suco para Temari e se sentou ao lado dela na mesinha.

Temari riu pelo nariz e balançou a cabeça bebendo um gole do bem vindo e refrescante suco. Estavam na casa de Itachi e era a primeira vez que Temari apresentava Shikamaru aos amigos como… como… “o cara que ela estava saindo”. Teve receio no começo pela provocação que poderia surgir diante da diferença de idade dos dois, mas Temari logo espantou aquilo da cabeça e se firmou na sua principal filosofia: Foda-se a opinião dos outros.

Shikamaru parecia calmo indo até lá, mas foi ouvindo música enquanto dirigia, fato que fez Temari tirar sarro da cara dele. Ele havia perguntado se algum dos amigos dela sabia e ela havia dito que somente Tenten, então foi uma surpresa para os dois quando ninguém pareceu surpreso quando chegaram de mãos dadas.

Aquilo era constrangedor.

Rapidamente Shikamaru foi incluído no grupo e rapidamente contaram histórias de dor e frustração tendo o rapaz como o gênio do mal. Temari gostou de como todos o trataram bem e em como ele se sentiu confortável ali, era apenas uma reunião com churrasco e papo furado, mas era o primeiro evento que apareciam juntos como casal.

Estavam naquele dia, além de Itachi e Izumi, Konan e Nagato. Konan estava onde os olhos de Temari se desviavam naquele momento, sentada numa cadeira, frente à uma mesa, olhando um tabuleiro de xadrez à sua frente. Shikamaru estava na outra ponta e Nagato estava em pé atrás dela dando pitaco.

— Ele está deixando ela ganhar porque está grávida. — Temari confidenciou baixinho vendo a incoerência de Shikamaru em seus movimentos. Konan sorria confiante e vez ou outra alisava a barriga de poucos meses que despontava redonda sobre a camiseta larga e preta de alguma banda gótica.

Izumi sorriu e cruzou as pernas começou a falar sobre a maternidade e o sonho dela em ter uns três filhos. Temari ouvia calada, não havia muito o que dizer, aquele tipo de sonho nunca foi para ela como era para Izumi. Mas agora que ela colocava a questão em pauta e pedia uma resposta sobre o número ideal de filhos, Temari se via surpreendida com uma resposta na ponta da língua:

— Dois. Uma menina e um menino. Exatamente nesta ordem.

— Nossa, tão específica. — Izumi riu olhando ligeiramente para Itachi, nisso não percebeu que Temari tinha um sorriso divertido no rosto olhando para o garoto que perdia a revanche no xadrez. — E me diga… — o tom de Izumi mudou ficando mais baixo. Temari desviou os olhos para ela — Como seus irmãos estão reagindo?

Temari revirou os olhos e Izumi riu.

— Gaara não está nem aí, sempre foi o mais esperto dos dois. Kankuro diz que não passamos dos 15 dias…

— E acha que passam?

— Já passamos. — Temari sorriu contra o copo e Izumi riu alto. — Mas, não me importo com esse tipo de coisa, sabe disso. — Temari ergueu os ombros dando a entender que não marcava os dias que estavam juntos, tentando não parecer romântica ou coisa do tipo.

Izumi revirou os olhos conhecendo bem a amiga.

— Vocês dois juntos é algo natural. — Itachi apareceu com uma travessa cheia de carne assada entre as duas. Sorriu olhando para o garoto e depois para Temari — Logo seu irmão vai perceber isso. Servidas?

— Obrigada. — Temari estendeu a mão colocando um pouco em um prato que havia separado. — Se tem uma coisa que aprendi nesses 17 anos ao lado de Kankuro é como ignorá-lo, não se preocupe. E seu irmão?

— Na casa do Naruto, acho que logo aparecem.

E como dito, algum tempo depois apareceram Sasuke, Sakura, Naruto e Hinata. Sasuke logo foi ajudar o irmão na churrasqueira e Naruto e Sakura entraram em um revezamento para jogar xadrez contra Shikamaru, e Hinata havia se sentado próxima ao namorado completamente tímida para conversar com Temari, Izumi e Konan.

Temari observava aqueles casais com atenção e analiticamente. Sasuke e Sakura pareciam ter um relacionamento mais maduro, se entendo apenas com olhares e completamente autônomos. Eles pareciam funcionar numa mesma sintonia e serem um complemento um do outro. Sakura era espontânea e falava alto, era expressiva e dizia palavrões sem hesitar quando Naruto a irritava ou quando se via numa situação desfavorável contra Shikamaru no xadrez, mas Temari percebeu que ela era muito inteligente e fazia Shikamaru pensar com mais frequência que os outros. Sasuke era calado, sério, observador. Muito discreto nos gestos e nos olhares, mas extremamente atencioso. Temari percebia que a todo momento ele olhava para Sakura, às vezes para ver se ela precisava de algo, às vezes para sorrir pequeno diante de um gesto/grito de vitória dela, às vezes para ver o que Naruto fazia para deixá-la irritada.

Naruto e Hinata eram completamente diferentes. Hinata era mais calada que Sasuke, mas sorria com muito mais frequência e facilidade, ela tinha um olhar maravilhado na direção de Naruto e prestava atenção no que ele fazia no tabuleiro. Ela parecia saber jogar, já que a cada má jogada que ele fazia ela colocava uma careta pequena com antecedência. Hinata era prestativa e falava bem baixo, não havia comido muito e parecia não querer incomodar e ficar quase invisível no canto. Izumi mais de uma vez colocou-a na conversa, mas Hinata mais ouvia do que falava. Não era um comportamento esnobe ou algo do tipo, era mais uma característica até educada demais e polida. Já Naruto era ainda mais barulhento que Sakura e tinha um raciocínio lento quanto às estratégias do xadrez, esquecendo a toda hora as regras e deixando até mesmo Shikamaru impaciente. Entretanto, a todo momento perguntava se Hinata estava bem, se ela queria algo e a abraçava quando não estava jogando. Temari conseguia ver aquela insegurança de início de relacionamento neles, a preocupação dele com o bem estar dela e o olhar brilhante de ambos.

Eram dois casais muito diferentes, mas que no fim, ela chegava a conclusão, que funcionavam bem do jeito que eram. Como Izumi e Itachi, Konan e Nagato - que haviam deixado de jogar quando ela “ganhou” duas vezes de Shikamaru e se preparavam para ir embora como um casal mais perto da “normalidade” do que os góticos trevosos e que fingiam ser egocêntricos morcegos em suas cavernas - todos ali eram diferentes, dando a Temari a certeza que não havia uma fórmula mágica e nem um padrão de relacionamento perfeito.

Há um tempo ela vinha tendo um pouco de receio sobre ela e Shikamaru, cada vez pensando mais em oficializar aquilo que tinham nos moldes certos, tendo rótulos e alianças e tudo o que o pacote “namorar” disponibilizava, mas tinha medo de pensar que talvez o que sentissem fosse só atração confundida com uma amizade forte demais… Bom, isso sumia logo que surgia a cabeça, mas a insegurança ainda ficava quando percebia que eles não se pareciam com os casais de filmes e séries (uma comparação que depois ela percebeu ser ridícula) e que não aparentavam serem um casal quando em público, sem demonstração de afeto e bem longe de darem um beijo com as pessoas olhando… No entanto, ela compreendia que distante de tudo isso que ela pensava sobre namoros, o que havia de existir de verdade era algo simples chamado “ligação”.

E isso ela e Shikamaru tinham de forma profunda.

Assim, como se ele estivesse lendo seus pensamentos, a olhou pegando-a no flagra com o olhar fixado nele. Mas, ela não desviou, puxou um sorriso ao bonito que aparecia no rosto dele. Ela se sentia tão feliz e tão certa de estar ao lado dele que não havia mais como negar que o queria como seu namorado.

Decidiu que conversariam sobre aquilo depois, no momento se satisfez com o sofrimento dele querendo fugir daquele tabuleiro com dois oponentes obstinados demais a vencê-lo.

 

♚♛

 

— Não era mais fácil você ter aberto mão e acabado logo com aquilo? — Temari questionou segurando o riso com o revirar cansado de olhos de Shikamaru ao lado dela.

— É uma questão de honra não deixar que Naruto vença.

Os dois caminhavam de mãos dadas pela pracinha perto da sorveteria que ela quis parar para tomar um sorvete depois de comer tanta carne assada. Havia passado o tempo todo conversando com Izumi e Itachi enquanto Shikamaru não era liberado com os pedidos de revanche, até que Temari ficou impaciente e quase o arrastou de lá. Shikamaru a agradeceu por aquilo, mas ela sabia que ele se divertia em momentos como aqueles com os amigos.

— Sei… — Ela entrou primeiro no fresco espaço da sorveteria e fingiu estar distraída pelos sabores enquanto a questão do namoro passava por sua cabeça. Toda aquela atmosfera de casais havia despertado nela uma vontade insana de ouvir da boca dele que eram namorados, de fazer tudo certinho e planejar melhor as coisas entre eles. Dava agonia não ter controle sobre algo, ser insegura sobre como se comportar em determinada situação, estar cega sobre os limites que poderiam chegar… Ela queria uma confirmação e dezessete dias juntos já dava a ela a afirmação de que estava pronta para esse próximo passo. Quando em sua vida havia pensado que aos dezenove namoraria um garoto de dezesseis? Balançou a cabeça limpando a garganta depois que ele pediu o sabor que queria ao atendente. — Hm, acho que vou pegar só um picolé.

Se afastou dele indo até o freezer com picolés e pegou um de limão.

— Formigas.

— O quê? — perguntou sem entender quando ele apontou para o picolé nas mãos dela.

— Isso me faz lembrar formigas. O dia em que fui atacado por formigas e você passou picolé nas minhas costas. — disse fazendo uma careta com a casquinha nas mãos.

Temari demorou a compreender e se lembrar. E, assim que a lembrança veio, veio também a gargalhada.

— Sempre te salvando, não é bebê?

Ele estalou a língua ao apelido e ela continuou rindo, os dois andando lado a lado no dia quente.

Temari aproveitou a oportunidade para jogar indiretas sobre os casais e como todo mundo estava namorando, Shikamaru parecia não se ligar e dizia que todos lá no churrasco eram problemáticos. Temari ficava frustrada às vezes, tinha que tomar cuidado com as palavras que usava para que ele não entendesse que ela queria que ele entendesse o que ela queria. Mas quando tomava cuidado demais ele acabava não entendendo e a conversa ficava sem sentido algum. Teria que ser direta.

— Eu preci…

— Temari eu…

Os dois ficarem quietos ao mesmo tempo, ambos pareciam sérios de repente e surpresos pela interrupção.

— Pode falar. — ele engoliu em seco desviando os olhos para o chão.

— Hmm, já até me esqueci o que era. Diga você. — Mentiu mal, sabia. Mas viu aquilo como uma oportunidade de se calar e não fazer nada precipitado. Argh, era uma droga não poder tomar todas as decisões sozinha!

— Eu preciso conversar com você. Uma coisa séria. — ele disse sem insistir com ela novamente. Temari olhou-o por um segundo em silêncio e sentiu seu coração se agitar. Havia um brilho estranho nos olhos dele que a fez ficar nervosa.

Será que ele daria aquele passo por eles?

Ela diria sim! Já estava pronta.

— Diga.

Temari!

Shikamaru piscou assustado e Temari sentiu um braço a envolver do nada num abraço apertado. Precisou de meio segundo para reconhecer aqueles dois coques balançando em sua visão.

— Tenten? Ah… Oi.

Temari olhou zonza ao redor, Shikamaru havia dado um passo para o lado e já não segurava mais sua mão e Tenten a soltava com um sorriso brilhante, mas havia mais alguém ali que Temari só havia visto por foto.

— Neji, esta é aquela amiga que te falei. Um dia vocês precisam jogar xadrez, ela é muito fera. Temari, este é o Neji. — Tenten gesticulou de um para o outro e Temari tremeu um sorriso quase convincente, ainda meio abalada com o que estava acontecendo.

— Hmm... Prazer.

— O prazer é todo meu. Tenten fala muito sobre você. — Neji estendeu a mão de forma cortês e Temari ficou um pouco desconcertada com tanta polidez. Resolveu que seria melhor não dizer que Tenten também falava muito dele.

— Espero que bem. — Riu um pouco tentando parecer casual, mas seus olhos foram para Shikamaru ao canto que comia o sorvete de forma pensativa, com as sobrancelhas tensas. O que ele iria falar? Quis estapear Tenten naquele momento.

— E este é o namorado dela, Shikamaru Nara. Lembra dele? — Tenten o colocou na conversa e Temari percebeu que ele se assustou como se acordasse.

— Ah, claro. O gênio da matemática. Nunca vou me esquecer que sozinho derrotou a nossa escola naquela competição. — Neji sorriu mais simpático com Shikamaru e ele ficou meio sem graça apertando a mão do rapaz.

Temari ergueu as sobrancelhas desconhecendo aquele fato, mas deixou passar por causa de um detalhe na fala de Tenten: “o namorado dela”. Olhou para Shikamaru, mas ele pareceu não notar o jeito que havia sido apresentado daquele jeito, entrou em uma conversa baixa com Neji sobre pessoas que ela não conhecia e coisas sobre as quais ela não fazia ideia.

— Ele é lindo, não é? — Tenten sussurrou ao lado dela empolgadíssima. Temari piscou olhando-a sem entender. — Ok, não responda senão eu vou ficar enciumada. — riu mais uma vez e Temari quis revirar os olhos para ela. — Tô brincando, credo. Tá tudo bem?

— Shikamaru ia me dizer algo sério quando você chegou. — disse baixo olhando os dois conversando ali perto. — Acho que ele ia me pedir em namoro.

Tenten tapou a boca com as duas mãos e arregalou os olhos.

— Neji! Vamos deixar os pombinhos a sós. Eu quero tomar um sorvete, que tal? — Rápida, Tenten enganchou-se no braço de Neji e sorriu forçada para o rapaz que a olhava sem entender.

— Nos vemos por aí, Nara. Seria interessante conversarmos um dia desses com mais tempo.

— Hmm, claro. — Shikamaru acenou com a mão enquanto Neji era arrastado para longe.

Temari olhou Tenten se afastando sem acreditar na falta de discrição da garota. Que hora boa era para ela aparecer levando o famoso Neji para ela conhecer! Sorte a sua que Tenten não era alguém egocêntrico que ficaria chateada e já acostumada com o jeito de Temari, não que ela fosse grossa, mas naquele momento ela não conseguiria ser cordial e paciente com demonstrações sociais. Não quando estava quase espumando de curiosidade e ansiedade.

Olhou para Shikamaru com um convincente sorriso zombeteiro e ergueu um ombro como se também não entendesse Tenten, então cruzou os braços e fez sua melhor cara de quem espera algo.

Shikamaru pareceu ter desistido do que ia falar pela careta que fez, coçando a nuca e voltando a andar sem ela.

— Pare aí mesmo, Shikamaru. — ela não se mexeu e o olhou séria quando ele a encarou sem jeito por cima do ombro. — Diga.

— Acho melhor irmos pra outro lugar.

— Ninguém vai te atrapalhar, fala.

— Oh, mulher… — ele resmungou voltando um passo e a vendo terminar o picolé de limão em uma mordida. — Por que tão problemática?

— Não vai começar, você não vai me dissuadir a esquecer como já fez outras vezes. — ela disse séria apertando os braços cruzados com o palito limpo do picolé entre os dedos. Era melhor ele não entender aquilo como realmente era: um sinal de nervosismo.

— Estou em xeque, não é? — ele riu sem humor, abaixando a cabeça e chutando umas pedrinhas no asfalto com as pontas do coturno.

— E se continuar me enrolando vai acabar num xeque mate.

Ele ergueu os olhos no mesmo instante para ela. Ela respirou fundo, pelo jeito ele havia entendido o que ela quis dizer com aquilo. Ah, se ele não a pedisse em namoro logo, quem pediria seria ela!

Shikamaru balançou a cabeça duas vezes, seu rosto tornou-se grave e deu muito mais maturidade para aqueles olhos que sempre pareciam cansados mas que era bem atentos ao redor. Com os braços no bolso do jeans, ele indicou um banco ao lado deles para se sentarem. Temari não questionou, fez todo o caminho olhando para ele sem desviar nenhum momento, tentando entender pelas expressões dele porque tudo pareceu mais complicado do que ela imaginava.

Ele soltou o corpo de forma pesada depois que ela se sentou, ele esfregou o rosto e disse algo baixo demais e abafado pelas mãos que cobriam o rosto. Temari sentiu-se agitada e nervosa, sentiu medo por estar pensando errado e não ser um pedido de namoro que ela ouviria. Balançou a cabeça com o pensamento e cruzou as pernas numa atitude nervosa, era sua maneira de parecer calma e com o controle da situação.

Shikamaru estava com o corpo inclinado para a frente, os dedos das mãos giravam num movimento que ele fazia para pensar com clareza.

— É algo ruim? — ela perguntou não aguentando mais aquele silêncio dele. A sua voz havia saído um pouco estrangulada, mas ainda tinha força.

Shikamaru suspirou e abaixou um pouco a cabeça antes de levantar em definitivo e se encostar no banco para olhá-la nos olhos.

— Depende da sua resposta no final.

Temari não soube o que dizer, o ar ficou preso em sua garganta e o coração palpitou, mas foi um pouco doloroso. Não sabia o que esperar daquilo, já não sabia mais o que esperar daquela conversa.

— Bom… — Limpou a garganta e o encorajou a continuar, estava se sentindo desconfortável com aqueles olhos pequenos e castanhos a analisando tão de perto, atento às suas tão familiares expressões e reações.

Shikamaru puxou um sorriso pequeno no canto da boca, um daqueles que ela não sabia que significado tinha.

— Eu sou um cara que não gosta de improvisar. Pensar em fazer algo sem um plano me apavora… — ela assentiu atenta e ele pausou para umedecer os lábios — Ser impulsivo também é algo que não faz parte de mim, e quase fui duas semanas atrás. — Temari se lembrou da conversa que ele queria ter e acabou sem um assunto em especial, então havia realmente algo. Permaneceu em silêncio. Ele inclinou um pouco a cabeça percebendo que ela sabia do que ele estava falando, então estalou a língua e continuou. — Se eu fosse impulsivo, provavelmente estaria muito encrencado agora, talvez tendo que tomar uma decisão muito mais difícil. Nenhuma dessas decisões seriam ruins, mas as consequências é que me assustam.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não. Ainda não. — Ele desviou os olhos pela primeira vez apenas para passar a mão nos cabelos e desmazelar um pouco do rabo de cavalo, então a olhou novamente com profundidade — Eu estou planejando algo à médio que pode chegar a longo prazo, mas tudo depende das consequências que podem surgir. Eu tinha desistido desse plano há muito tempo, e você é o motivo de eu voltar a pensar nisso. Como também é o motivo de eu talvez desistir mais uma vez.

Temari sentiu seus nervosos tensionarem e suas mãos fecharam-se sobre o seu colo quando a compreensão surgiu como uma flecha em sua mente.

— Carreira Militar? — Shikamaru balançou a cabeça uma vez concordando, seus olhos mais presos aos dela e ainda mais profundo. Temari não sabia que reação ter aquilo, um aperto em seu peito dizia que ela deveria ficar triste, mas sua mente falava o contrário. Ela fechou os olhos por um momento, precisava pensar. Ele esperou em silêncio. Temari ficou confusa e zonza por um momento, mas logo ela se lembrou de quem ela realmente era. Ela não pensava com os sentimentos, era racional e madura. Não havia o que pensar mais, não havia porque prolongar aquilo. Abriu os olhos tendo certeza do que deveria falar, mesmo que em seu peito ela tivesse um sentimento muito mais egoísta. — Eu devo ser a pessoa que mais espera que você tire essa bunda preguiçosa dessa cidade e vá ser alguém que use essa inteligência para algo grande. Eu não quero que você se torne um cara dentro da média quando você é talentoso demais para estar muito acima disso. — ela o olhou séria, ele corou parecendo surpreso. — Não vou te pedir para ficar se é a resposta que está esperando ouvir de mim.

Ouviu o suspirar dele e sentiu uma mão forte se fechar sobre a sua.

— Eu já esperava que você não se oporia, não esperava era que fosse me elogiar tanto. — Brincou desfazendo o clima estranho que tinha sido construído e Temari sorriu um pouco o empurrando com o ombro. Na cabeça dela já começava a surgir as perguntas principais: Quando e Quanto tempo? Mas ele não deu brecha para que ela perguntasse, puxando as duas mãos delas para o colo dele e voltando a falar. — E não era isso que eu queria perguntar para você, problemática.

— Então… — olhou-o desconfiada, sentia suas mãos suarem contra as dele.

— Ai que saco… — ele resmungou desviando os olhos e Temari quis dar um tapa na cabeça dele para falar logo. — Essa era a parte difícil.

— Fala logo, Shikamaru.

Ele pareceu pensar algo com ele mesmo e abanou a cabeças várias vezes antes de a olhar novamente. Seu rosto estava corado, mas seus olhos estavam determinados.

— Temari, eu não quero te prender a um relacionamento a distância, eu… — ele pausou e ela arregalou os olhos. Ele ia terminar com ela? — … não quero ser o tipo de homem que acha que tem algum direito sobre alguém. Mas… ai cara, eu não quero perder você.

— Shikamaru….

— Você me espera? — Temari arregalou os olhos surpresa com a pergunta repentina. As palavras ficaram presas num gaguejar sem sentido. Ele apertou os lábios e continuou com mais coragem — Eu ia pedir sua mão em namoro, mas fiquei com medo de ser muito cedo e você ainda não ter certeza se é isso mesmo o que quer. Então, eu peço pra que você me espere. Se você ainda estiver maluca e ainda quiser ficar comigo, eu vou te fazer a proposta mais uma vez.

— Você é um idiota. — Temari balbuciou emocionada. Engoliu em seco balançando a cabeça. — Como pode fazer uma promessa dessas se nem sabe se vai arranjar alguém lá e…

Shikamaru a interrompeu com uma risada que a fez ficar irritada. Ela estava falando sério!

— Eu não faço uma jogada arriscada dessas se eu não souber o resultado final, já deveria saber.

 

♚♛

 

Já havia escurecido e ela não queria ir embora. Shikamaru também não fazia menção de sugerir aquilo.

Ela queria ficar sozinha com ele o tempo que ainda tivessem antes do fim das férias. Antes dele arrumar as malas e ir embora mais uma vez. Temari escolheu ir para o bosque dos Nara e ele não questionou, a colocou em sua caminhonete e mudaram de assunto assim que surgiu algo para conversarem. No entanto, estavam mais carinhosos que o normal e isso mostrava que nenhum dos dois estava ignorando a conversa que tiveram, só que não era a hora de falarem.

Os cervos já haviam ido embora e Temari havia deixado que Shikamaru deitasse em seu colo para mexer no cabelo solto dele, já havia ameaçado fazer algo brutal se ele dormisse e ele respondia a cada minuto mostrando estar acordado e atento à ameaça constantemente.

Então, ela suspirou em determinada hora.

— Quão longe você vai morar?

Ele a olhou por um momento e depois voltou a observar as folhas que balançavam com a brisa da noite.

— Pretende me visitar? — sorriu de canto e a falta de resposta dela o fez a olhar novamente, agora com surpresa.

— De carro. Quanto tempo?

— Uns três dias de viagem, provavelmente. — respondeu sem saber se ela pensava naquilo com seriedade mesmo ou se estava tirando um sarro.

— Ok, acho que posso fazer isso. O quê? Prefere que eu não vá?

— Está falando sério? — ele sussurrou se sentando e ela sorriu marota colocando uma mecha do cabelo dele atrás da orelha.

— É muito ingênuo em achar que eu vou ficar aqui te esperando, garoto. Vamos ver se essas viagens de três dias vão valer a pena e me fazer continuar com isso. Mas, eu tenho uma condição. — ergueu um dedo ficando séria de novo. Shikamaru tinha um sorriso pequeno e surpreso no rosto, ele assentiu para que ela continuasse. — Você não vai solteiro para lá. Não que eu não confie em você, mas é melhor deixarmos as coisas bem claras, ok?

Shikamaru soltou uma risada incrédula, passando a mão pelo cabelo solto e balançando a cabeça. Temari segurou o sorriso, ele era bobo em pensar que era o único que tinha consciência das jogadas que fazia até seu objetivo.

— Eu não vou deixar você tomar iniciativa em tudo, mulher. — Surpreendentemente, ele se ajoelhou em frente a ela e pegou a mão direita de uma Temari chocada. Ela sussurrou o nome dele e pediu que ele se levantasse, mas ele continuou ali, com aquela carinha de sono e olhos brilhantes — Eu não tenho uma aliança aqui porque não tinha planejado isso, mas você não me deixa com outra saída se eu quiser parecer o homem da relação de vez em quando. — ela riu e revirou os olhos, mas por dentro ela se derretia completamente. — Quer namorar comigo?

Um riso bobo escapou da boca dela e, mesmo esperando aquele pedido mais cedo e pronta para fazê-lo antes que ele fosse embora, ela ficou emocionada. Balançou a cabeça afirmando e o abraçou forte de uma maneira que pouquíssimas vezes havia feito. E o beijou como muitas vezes havia sentido vontade, o deitando no chão da floresta e quase fundindo seu corpo ao dele numa felicidade sem tamanho. Ele a abraçou pela cintura com força e a virou para ficar em cima, aquilo a fez rir olhando o rosto dele moldado pelos cabelos castanhos que caiam lisos ao redor.

— Você vai ter que falar com meu pai. Quero ver a cara do Kank. — riu com a careta que ele fez, querendo esconder o rosto no pescoço dela e fazendo cócegas com a respiração.

Temari ria quando afastou a cabeça dele de sua pele e afagou o rosto dele com a mão, seu coração batia em júbilo e a saudade de um tempo que ainda não existia já estava presente. Aos poucos o riso foi se extinguindo e o clima ficou diferente, ela ficou séria encarando o rosto dele com um brilho latente e ele logo começou a compreender o que aquele olhar significava.

Não haviam palavras para trocar quando um casal estava em sintonia, quando os dois chegavam num patamar que apenas os olhos já eram suficientes para transferir uma vontade.

Sem que se soubesse qual dos dois havia tomado a iniciativa, voltaram a se beijar de uma forma diferente, com mais profundidade e menos pressa, com mais contato e menos brechas para conversas. Os corpos foram apresentados a mãos curiosas e carinhosas, as bocas saborearam mais lugares fora o limite do queixo e do pescoço.

Naquela noite, haviam mais do que afirmado que não desistiriam um do outro por meros três dias de viagem de distância. Naquela noite eles se entregaram e se amaram pela primeira vez.

 

betado por Mirys.



Notas finais do capítulo

Casal mais lindo não?
Em breve Chess volta distribuindo esse amor que cada vez mais.
Beijinhos!



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Chess" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.