Juízo final (WSU: Lucy, Livro 2) escrita por Natália Alonso, WSUniverse


Capítulo 9
Capítulo 8 – Segredos obscuros




 

 

“Reflete ainda nisso: supõe que esse homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do Sol?” – Sócrates.

 

 

 

New Orleans

 

Manson caminha no vagão de trem, os corpos no chão estão cobertos por plásticos brancos. Ele vira de lado e vê tirarem o plástico de uma criança de no máximo seis anos de idade. O menino está ao lado de uma garrafa plástica e uma lata de suco de maçã derramada no chão. Os paramédicos pegam a criança quando um policial termina de marcar o local com um giz no chão, contornando o pequeno cadáver.

— Mais dois morreram no hospital. — fala Diego, para seu atônito chefe. — Pelo que os paramédicos disseram é realmente o sarin.

— Aquele que o Bashar al Assad usava contra sua própria população?

— Quem?

— O presidente sírio.

— Ah, é. Esse mesmo. Mas como isso veio parar aqui?

— É um composto agrícola, relativamente fácil de fazer. Não exige grande técnica, mas é proibido, por conta de coisas como essas.

— Então estamos falando de terrorismo?

— Acho que sei quem fez isso. Quantos mortos no total?

— Até agora, 22. Mas temos mais de 30 hospitalizados ainda.

Manson tira as mãos dos bolsos da calça e cruza os braços na frente do corpo, observando os montes plásticos ao redor. Balança a cabeça e sai do vagão, é acompanhado por Diego, logo atrás.

— Você disse que sabe quem é... — Manson para e se vira irritado para o novato. —, senhor. — corrige rapidamente.

— Já pegaram as gravações do vagão?

— O sistema já está selecionando as gravações do dia e do vagão.

— Ótimo, vamos confirmar isso, mas acredito que seja Babel.

 

 

 

Madri, 1571

 

As correntes muito largas em meus pulsos e tornozelos não me deixam escapar. Eu mal tenho força para me manter em pé pois regularmente alguém vem me ferir para que eu permaneça fraca. Eu sei que hoje acontecerá algo muito grande, desde de ontem ouço muito barulho do lado de fora de minha pequena janela. O som de madeira sendo pregada e cavalos trazendo alguma coisa, agora, há muitas pessoas lá fora, mesmo sendo noite.

Finalmente, um dos inquisidores aparece em minha cela, acompanhado de vários soldados que me golpeiam com seus bastões, sinto vários ossos serem quebrados. Eles me seguram e começam a me arrastar pelo corredor escuro, enquanto sou carregada passo em frente de várias outras portas fechadas. Cada uma com uma pequena janela, tal como era a minha. Em algumas posso ver as mãos dos prisioneiros lamentando suas dores e pedindo por água, comida e perdão.

Ao final do corredor, a porta se abre de repente e a luz do dia quase me cega, tenho que fechar os olhos e tento me cobrir. Sou empurrada para a parte de cima de uma carroça, as correntes são atadas na parte superior de uma viga muito larga, me mantém com os braços elevados acima de minha cabeça.

— Maldita! — grita alguém.

— Vagabunda do Diabo! — outra voz mais ao longe.

Enquanto a carroça se move, eu consigo finalmente abrir os olhos. Muitas pessoas estão a volta, a carroça anda por uma curta estrada cercada por soldados. Eles seguram a turba de homens e mulheres que me gritam calúnias e profanações.

Olho para eles e vejo que o mar de pessoas cobre todo o chão de pedras, é uma manhã quente. Muito quente. Quando olho mais ao longe minha cabeça é surpreendida por uma pedra. Assim que tento me proteger sinto outra maior atingir meu ombro e depois outra e outra. Aos gritos, a multidão agora atira fezes de cavalos, pedras, ovos e outras coisas que não pude identificar.

Eu não consigo entender ao certo o que dizem, a fala confusa deles se sobrepõem aos meus pensamentos. É um trajeto curto, meus cabelos cortados muito curtos expõe as feridas de minha cabeça, o balançar da carroça para e me puxam para descer. Sou forçada a subir os degraus de madeira até uma tora presa, abaixo de mim, a lenha, feno e gravetos menores são colocados.

— Não, por favor, eu juro que nun...

Um encapuzado bate em meu rosto com as costas do punho cerrado.

— Cala a boca, vadia.

Outros amarram e usam correntes em volta de meu corpo, querem garantir que eu não escape. Sinto o cheiro peculiar, e me viro para um encapuzado que joga um óleo sobre as vigas de madeira. Eu olho outra carroça chegando ao lado, nela duas pessoas estão presas por cordas, a carroça para em outro patamar mais à frente. A forca está preparada, outros encapuzados empurram os prisioneiros. Antônio e Laura.

— NÃO!!! Antônio!!! — Eu grito em desespero, mas ele não consegue me ouvir, a turba atrapalha com o ecoar de seus outros gritos de violência e crueldade.

Ele me olha, é segurado por soldados que o agridem com bastões, o fazendo cair no chão. Laura está com o rosto coberto por um saco branco de tecido, amarrada segurando sua boneca de pano. Mesmo sem poder ver o que a cerca, Laura está apavorada, ela treme enquanto lhe empurram. Minha filha, minha amada filha, sendo tratada como criminosa por animais. Posso ver um líquido escorrer em suas pernas, em seus últimos instantes de vida, ela se urinou. Eu estou fraca demais para ter qualquer reação, mal me mantenho em pé, fome, sede, fui cortada diversas vezes... tudo para garantir o espetáculo de horrores da igreja.

Um dos executores coloca um capuz branco na cabeça de Antônio e uma corda em volta, o agarram com violência para se levantar e ir até o local que é preciso. Eu olho para minha família de costas para mim, vejo que no braço esquerdo dele, um delicado tecido verde está amarrado, o lenço que ele me deu no dia que me levaram está manchado de sangue. Aos poucos, a turba começa a fazer silêncio para ouvirem o inquisidor de vestes rubras em uma outra plataforma de madeira. Ele faz o sinal da cruz antes de começar a falar, calmamente.

— Hoje, vamos celebrar a justiça divina aplicada entre os homens. Após as denúncias da igreja, além de longa investigação, pudemos descobrir um ponto de malignidade entre nós. O demônio nos tentou mais uma vez, irmãos. Ele se apresenta como pessoas de bem, pessoas boas e justas, mas temos que enxergar através do conhecimento do Livro Sagrado.

A turba fala amém, em coro.

— Sob a acusação de auxílio de uma bruxa, de levar a linhagem dela e se tornarem, portanto, amaldiçoados. Antônio De Miranda e Laura De Miranda são condenados à forca. Pena generosa, para que possam ser perdoados pelo Senhor e admitidos no Reino dos Céus.

Os monstros à minha frente gritam, concordam em seus rostos de fétidas almas corrompidas.

— Sob acusação de bruxaria, feitiçaria, conjura e pacto com Satanás, a Santa Inquisição condena à fogueira, Catarina De Miranda.

Os monstros agora urram, quase em sincronia festejam, celebrando o macabro festim. Entre o som de seus berros, minha mente se silencia ao ver Antônio e Laura de costas para mim. O coração dele pula no peito em pavor, eu sei que estão chorando, eu sei de seus medos.

Posicionados um ao lado do outro, o carrasco finalmente puxa uma corda, soltando a madeira abaixo de seus pés. Eles caem com violência, a corda se estica ceifando suas vidas de mim. Eu não ouvi nada, eu não olhei quando começaram a atear fogo no óleo, eu não vi quando começou a fumaça branca que sobe e, aos poucos, começa a cobrir a minha visão. Eu só volto a ouvir novamente, quando não posso mais vê-los, parados, esticados muito à minha frente. Muito longe de meus braços.

A fumaça recobre a praça, o vento faz com que se espalhe rapidamente, pedras ainda são lançadas cortando a neblina da queimada. O calor sobe, sinto meus pés sendo torrados desde a carne, sinto meu corpo se deixando levar. Eles acreditam que eu morrerei dessa forma sagrada, eu sei que vou aguentar muito tempo. Isso não me preocupa, sei que meu corpo irá lutar para se regenerar, ao mesmo tempo que ainda é queimado. A densa fumaça se dissipa por um instante e vejo muitos de vestes rubras olhando para mim, entre eles, Dorian. Ele me olha fixamente e quase sorri.

 

 

 

6º Círculo do Inferno, a Heresia

 

Ajoelhada no chão de terra vermelha eu olho para meu corpo, que está inteiro e sem vestígios de queimado.

— Achei melhor que ficasse assim aqui. Não é necessário que você fique se vendo daquela forma. — diz Mefisto, se aproximando por trás de mim.

Um flash de como fui queimada me vem à cabeça, eu sei que lembro do que aconteceu. Mas não lembro tudo. A dor, o calor, sentir o sangue fervendo em minhas veias, a gordura corporal servindo de combustível.

— Se você quiser, eu posso tirar essa memória. — sugere, de forma compreensiva.

— Não. Deixe comigo.

— Como preferir.

Ele se senta ao meu lado na terra, usa umas calças claras quase brancas, uma camisa solta de linho de forma simples.

— Para onde eles foram? — pergunto a Mefisto.

Ele se vira para mim, me olha de forma surpresa.

— Você sabe. Eles não vieram para cá.

— Eles estão bem?

— Sim.

— Existe alguma possibilidade de eu vê-los novamente?

Um longo silêncio fica no ar. Ele balança a cabeça, negando.

— Quanto tempo tenho que ficar aqui?

— Não muito. Está com pressa de voltar?

— Sim, muita.

Dias depois, Madri despertou em um terrível pesadelo. Oito padres e todos os inquisidores estavam mortos pela manhã. O bispo estava castrado, sua cabeça estava no alto da grandiosa cruz da Igreja Matriz. De frente a ela, o Inquisidor chefe, balançava devagar lateralmente, enforcado com suas próprias vísceras.

 

 

 

Londres

 

O vampiro que restara do ataque na casa de Jekyll está amarrado em uma cadeira, eu o prendi de forma reforçada e amarrei o seu pescoço de forma que não pudesse escapar se auto devorando. Dou-lhe um tapa no rosto para que ele acorde.

— Nossa, que gentil.

— Agora que está aqui, vai nos explicar algumas coisas.

Ele ri de minha fala, olha para Jekyll sentado no sofá, com um pequeno caderno no braço, um lápis na mão e seus óculos na ponta do nariz.

— E porque acha que eu te contaria alguma coisa? Eu vim para matar você e o velho, não para contar nada.

Eu pego um martelo, deixo que ele veja.

— Esqueceu que eu regenero? Não vai me matar com um martelo.

— É claro que não. — falo enquanto levanto para o alto e acerto de uma vez em seu joelho. A força foi o suficiente para soltar a rótula do fêmur. Ele berra. — Eu não quero que você morra.

— Sua vadia maldita! Eu não vou fal...

Acerto o outro joelho, repetindo o movimento.

— O primeiro está regenerando, vou esperar ficar completo para pegar ele de novo. — falo enquanto viro o martelo com o a alavanca para ele. — Quero saber quantos vampiros tem a Ordem. Quero saber das armas de Dorian, Shiva e de como estão organizados. É no Castelo de Bran que estão, não é mesmo?

— Queime no inferno! Sua, vaca traiçoeira!

Eu atinjo seu primeiro joelho com a alavanca do martelo, a parte estreita do metal penetra fundo e empurro com delicadeza soltando a rótula até ela cair. Ele grita demais no meu ouvido, ainda bem que estamos no porão de Jekyll, construções antigas de Londres tem camadas de pedras muito largas. Jekyll continua sentado no sofá confortavelmente, ele levanta os olhos por cima dos óculos e avisa o novato vampiro.

— Garoto, se eu fosse você começava a falar logo. Eu não enxergo bem a noite e estou um pouco cansado. Não quero ficar aqui a noite toda.

O vampiro saliva em dor, seus músculos femorais têm espasmos, mas ele ainda não fala nada. Eu levanto as sobrancelhas surpresa por sua teimosia e coragem, vou para o seu lado e puxo sua a camisa, massageio seu ombro examinando as juntas com seu braço.

Oito horas depois eu tomo banho, uso muito limão para tirar esse cheiro férreo de meu corpo. Jekyll está no laboratório fazendo algumas fórmulas, pedi que ele fizesse várias para não correr o risco de faltar. Eu fico pensando em quanto vou gastar, vou comprar as passagens de avião para Romênia. Quero resolver isso da forma mais rápida possível. Saio do chuveiro e me visto rapidamente, Jekyll bate na porta para conversarmos.

— Surpresa com Shiva?

— Na verdade, não. Uma hora ela deixaria de ser controlada por Dorian, então ele teria que dar um jeito de contê-la.

— Sim. Mas mantê-la presa até agora?

— Ele não pode matá-la, precisa dela viva, ou ele morre também. Afinal, ele é o seu servo.

— Desculpe, mas eu não entendo direito como isso...

— O servo não é um transformado, não é um vampiro. Ele se torna pó e se regenera do pó, mas não foi mordido. Shiva deu uma gota de seu sangue para Dorian e assim ele conseguiu sua imortalidade.

— Ele também é amaldiçoado, então?

— Sim, por isso que quando eu decepei a sua mão com a Lança de Longinos, ela não se regenerou.

— Então precisamos pegar a lança.

— Pode ser qualquer objeto amaldiçoado, a lança, a Sedenta, ou até mesmo algo que eu use com meu sangue.

— Ou podemos simplesmente matar Shiva. Já que é prisioneira e deve estar fraca, seria um oponente mais fácil.

— Sim, mas também teremos problemas com a Ordem, cerca de trezentos vampiros... isso é muito, tanto para mim, como para você. Como iremos sair de lá? Eu pensei em outra possibilidade.

— Que seria?

— Libertar Shiva. Tenho certeza que ela deseja também a morte de Dorian. E ela seria uma grande aliada contra vampiros da Ordem que estejam ao lado de Dorian. Se a libertarmos, talvez muitos não lutem por terem maior fidelidade a ela que é uma vampira verdadeira do que Dorian.

— Se você bebesse sangue de verdade, se alimentasse, não seria necessário nem mesmo eu mover um dedo.

— Ambos sabemos que isso não está em cogitação.

Ele ouve minha proposta encostado na parede, me encara com incerteza no olhar.

— Ela pode nos trair.

— Sim, ela pode. Mas eu acho...

— Vamos baseado em “achismos”, Lucy?

— Você e eu já tentamos lutar com chances ainda menores que essas.

Um barulho oco e baixo vem do porão. Jekyll olha para mim, preocupado.

— Certo. Eu posso decapitar o nosso visitante?

— Fique à vontade.

Ele desencosta da parede para sair, mas ainda me questiona.

— Já foi decapitada, Lucy?

— Você sabe que sim.

— E...

— Eu não lembro de muita coisa, só da espada vindo e de repente estava no inferno. Depois voltei.

— Mas voltou... como?

— Como assim?

— Você regenerou da cabeça ou do corpo?

— Do corpo.

— Porque a cabeça estava lá?

— Não, porque ela ainda não tinha crescido totalmente. — Ele ri um pouco de minha descrição de microcefalia. — Não ria, não foi engraçado na hora.

— Mas afinal, e a cabeça?

— Eu não sei, acho que Dorian simplesmente a levou.

— Levou sua cabeça como suvenir? 

— Você duvidaria dessa atitude de Dorian?

— Não. Não duvido.

 

 

 

 

New Orleans

 

Manson entra em casa com a chave que eu lhe dera, assim que pôde, coloca a casa de felinos no chão libertando Demócrito para o lar. Após buscá-lo no hotel para animais também passou no mercado para pegar algumas cervejas. Coloca algumas na geladeira, outra ele abre no batente da porta, a tampa metálica cai no chão e se torna o novo brinquedo de meu tricolor peludo.

Manson bebe em grandes goladas e joga o resto de compras em cima da sala, caminha enquanto folga sua gravata azul e desabotoa a gola da camisa. Exausto, cai na cama e fica relaxando enquanto olha o teto. Ele bebe novamente ainda deitado, derrama cerveja no lençol, fecha os olhos entrando em seus sonhos, mas seu precioso momento é cortado pela vibração de telefone celular. A música a tocar é “Stupid boy”, escolhida especialmente para seu novo parceiro, o novato Diego.

— Que foi?

— Eu vi as 14 horas de gravações de vários pontos do metrô, encontrei o assassino do martelo.

— Babel?

— Sim.

— Ele entrou na Claiborne e desceu na Jefferson, acompanhado.

— Acompanhado?

— É, parece que rolou um clima no vagão, ele conversou com uma garota e algumas estações depois ele saiu junto dela.

— Você viu que horas ele usou o bilhete? Pode rastrear?

— Ele usou um bilhete individual, comprou na hora. Ela usou um bilhete registrado, de estudante, Daniele Candore.

— Quem é essa garota?

— Ainda vou verificar, mas podemos chegar a ele através dela.

Manson sorri, aliviado por finalmente ter uma pista desse canalha.

— Isso é bom. Obrigado, Diego.

— Por nada, senhor. — Diego desliga o telefone ainda olhando para as gravações. Ele pega o bloco de notas com o nome da garota tatuada para tentar encontrá-la no sistema.

Enquanto isso, Manson dá mais uma golada de cerveja, ainda deitado na cama. Percebe que uma gota escapa dos lábios e, desta vez, tenta pegá-la com a mão antes de chegar ao lençol.

 

 

 

Romênia, entornos do Castelo de Bran

 

Nos arredores do castelo, Jekyll e eu nos embrenhamos na relva, andar por aqui me trazem más lembranças, só de pensar de tudo o que aconteceu. Drácula, Mehemed, Dorian... tudo isso vem em um turbilhão de memórias que não queria carregar comigo, que nunca quis. Eu nunca desejei ser uma vampira, apesar de por alguns períodos de minha vida não me orgulho em nada. Sim, eu me tornei um monstro, mais de uma vez, aqui, na Rússia e em outros casos isolados. Eu gostei de matar, eu gostei de saciar a sede e tenho que tomar muito cuidado para não cair em tentação novamente. Isso é viciante, tal como uma droga, que me deixava cada vez mais dependente.

— Vamos pela parte de trás, a saída do esgoto das catacumbas é por lá. Podemos entrar, libertar os prisioneiros e depois atacar começando pela cozinha.

— Eu devo beber uma fórmula já aqui?

— Não, espere. Se você crescer pode ser que não passe pela saída.

— Está falando de esgoto mesmo, Lucy?

— Tem alguma ideia melhor?

Ele olha na parte superior do castelo e vê alguns andando na parte da frente.

— Certo... — fala ele, conformado.

— Quantas fórmulas você tem aqui?

— Eu trouxe três inteiras, e tem uma de reserva. — fala abrindo o colete e me mostrando os pequenos frascos de líquido verde e tampas de borracha.

— Certo, terá de servir.

Andamos desviando dos olhares dos seguranças do alto do castelo, entramos no rio e mergulhamos em busca do esgoto, eu arranco as grades e podemos entrar, logo conseguimos chegar nas catacumbas.

— Qual delas? — fala Jekyll procurando também.

— O vampiro disse que há muitos prisioneiros fiéis a Shiva, mas é melhor primeiro encontrá-la. Ela está na primeira.

— Ele disse que ela estaria lá?

— Não, ele não sabia onde que ficava cada prisioneiro.

— Então como você sabe?

— Porque eu fiquei lá.

Caminhamos e vamos até a porta de madeira maciça, uso as garras para cortar a madeira em volta da fechadura da forma mais silenciosa possível. Assim que abro sinto o ar frio vindo do pequeno calabouço fechado, eu entro com Jekyll logo atrás de mim. Me viro e vejo o pulsar do coração conhecido por mim, um pulsar fraco e uma respirada debilitada. Em minha mente posso me ver da mesma forma, deita da lado, virada para a parede de pedras a minha frente. Mas agora, a parede é inteiramente recoberta do musgo que eu vi nascer. Eu desço os degraus e me aproximo devagar.

— Você veio até aqui, para rir de mim, Lince? — fala Shiva, ainda deitada de costas, eu posso ver suas costelas aparecendo, sua aparência esquelética.

— Eu não sou a Lince. Nunca fui. — Ela ri, em uma voz rouca e falhada.

— O que você quer?

— O mesmo que você. Vingança. A morte de Dorian.

Ela move um pouco a cabeça ao ouvir isso, o ambiente é frio demais e ela começa a se mover devagar para levantar.

— E acha que eu posso te ajudar.

— Sim.

— E depois? Quer o trono?

— Fique com ele, eu lhe dou. Oficialmente.

Ela corre até mim e é contida pelas correntes, suas garras ficam a poucos centímetros de me arrancar a carne, seus olhos estão opacos e sem vida. Ela está cega, cabelos brancos, idosa, frágil. Fica muito irritada em não me alcançar e busca me farejando pelo ar.

— Está muito perto, posso senti-la.

— Estou sim. — Eu sopro em seu rosto, ela tenta me morder com seu hálito asqueroso de gente morta a muitos anos. — Eu me lembro até onde a corrente ia, estou no local de segurança. — Shiva, se não se acalmar eu não vou te matar. Eu vou deixar você aqui e vou selar a porta para que você definhe lentamente.

Ela começa a baixar os braços, sabe que estou falando a verdade.

— Dorian é um maldito manipulador.

— Sim, eu sei.

— Drácula era outro fraco sentimental.

Eu franzo a testa, Drácula era muitas coisas, mas não um fraco.

— Shiva, quero saber se vai me ajudar a matar Dorian. Eu não tenho tempo para perder com seu falatório.

— Você demorou quinhentos anos para tentar sua vingança. Pode esperar mais alguns minutos.

— Chega. — Me viro indo embora.

— Não! Espera. O que eu mais quero é matar Dorian.

— Vai me ajudar ou não?

— Quando isso acabar, vai me dar o reino, na frente de todos. Precisa ser oficialmente.

— Tem minha palavra que sim.

Ela sorri em seus dentes manchados, fareja profundamente o ar virando o rosto em um movimento circular, então para bem de frente para Jekyll, ela o encara com seus olhos cegos.

— Trouxe o médico também... inteligente. Eu sinceramente pensei que ele fosse se matar depois da última ordem de Dorian. — fala com um sorriso sarcástico nos lábios.

Eu a soco com muita força, fazendo-a bater a cabeça no chão de pedras.

— Não abusa, Shiva. Quero sua força, não a sua língua. Posso arrancá-la se for preciso.

— Calma, Lucy... calma... eu só não estou acostumada a ter visitas. E fora que primeiro precisamos que você me traga alguns vampiros traidores para me alimentar. Ou quer que eu lute dessa forma?

— Já está servido.

Corto meu pulso e deixo o sangue escorrer, ela fareja e o agarra arranhando meu braço. Morde minha pele e suga comigo ainda em pé. Não me sinto muito bem, acabo puxando o braço de volta e vejo o rosto de Shiva voltando a ficar mais jovem, os cabelos tornam-se mais negros e ondulados.

— Eu preciso de mais!

Estendo o braço e ela me puxa para que fique no chão. Ela sobe em mim e morde meu pescoço, sinto sua fome sugando como se não se alimentasse a anos. E na verdade, acredito realmente nisso. Jekyll se aproxima preocupado querendo tirá-la de mim. Eu estendo a mão pedindo que deixe. Afinal, o pior que pode acontecer é eu morrer, mas será só por alguns instantes.

Assim que ela levanta sua boca cheia de sangue eu a golpeio contra a parede, ela bate nas pedras de costas, mas cai como um gato com suas mãos no chão. Eu me levanto rapidamente e vou até suas correntes, enquanto isso ela ainda está sob efeito do sangue, sentindo o prazer da alimentação.

— Espero que tenha sido bom pra você, mas agora — quebro suas correntes do pescoço — temos muito o que fazer, e a começar em pegar aqueles que sejam seus aliados.

Ela se levanta e para em minha frente, sorri com meu sangue ainda em seus lábios, seus olhos negros estão com as pupilas dilatadas. Ela lambe o lábio superior, se exibindo pra mim.

— Não se preocupe com isso. Me dê o meu reino e terá os meus vampiros para lutar com Dorian. Tem muitos de meus fiéis aqui.

— Ótimo. Então não temos tempo a perder. Pode se alimentar de outros que sejam fiéis a Dorian.

— Sim, com prazer.

Eu passo por Jekyll e subo as escadas, ela vem logo atrás de mim, passa por ele, mandando um beijinho de puro veneno. Assim que saímos de sua catacumba ouvimos o coro baixo de muitos de seus aliados, que já sentem a líder em maiores forças.

— Sim meus bebês, eu serei a sua rainha novamente. — Ela caminha entre as catacumbas abrindo suas portas.

Jekyll e eu também fazemos o mesmo, uma a uma libertamos os vampiros, cada um em condição mais precária que outro, alguns já deficientes, provavelmente atacados pela Lança de Longinos ou a Sedenta. Alguns se organizam e começam a pegar os guardas próximos da entrada, trazem alimento para o bando e aos poucos se fortalecem de forma diabólica. Após abrir muitas portas percebo uma no fim do corredor, a única que está iluminada e com calor vindo de dentro. Assim como outras, ela está trancada, mas algo está profundamente errado.

— Lucy? — chama Jekyll, percebendo minha mudança. Ele se aproxima de mim já segurando uma de suas fórmulas na mão.

Eu abro a porta, ela tem feixes muito maiores do que as outras, mas o calor que vem de dentro, o cheiro, é estranhamente familiar. Abro e vejo o quarto, finamente decorado com uma cama de dossel, uma lareira acesa, uma parede de livros, armas, quadros... é um belo quarto feminino.

Assim que entro, vejo a parede da porta, nessa há diversos raios-x, imagens de tomografia, esboços de um corpo robótico nos mínimos detalhes, muitos desenhos. Viro para a estante de livros e um pedestal me chama a atenção, um lenço está cobrindo alguma coisa, Jekyll olha para tudo como o mesmo espanto que eu. Ele se aproxima e levanta o lenço, revelando a minha cabeça decapitada.

Foi aqui então que ele guardou, penso eu, me aproximo e olho para meus olhos sem vida. E noto uma grande cicatriz na parte superior da testa.

— Olá, não sabia que alguém vinha hoje. — diz uma voz, atrás de nós, na cama. — Eu não posso sair daqui, podem vir até mim?

Eu me viro e olho.

A mulher deitada na cama, está com o rosto de lado falando conosco.

Não vejo o seu pulsar, mas ela continua falando.

Olho para seu rosto, seu corpo. Em uma sinistra semelhança, exatamente, em todos os detalhes, ela é eu mesma

Chocada, dou um passo para trás. Ela percebe o meu pavor.

— Não vá. Por favor. — diz a mulher deitada, parece paralisada.

— O que... mas você é? — fala Jekyll.

— Eu sou Lucy. — responde a mulher.

 

 





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