Saudade escrita por Mayor Hundred


Capítulo 1
O Primeiro e Único





Português é uma língua cantada.

Foi feita para ser uma expressão artística. Cada letra é somada com outra como numa melodia. Cada palavra foi construída para ser carregada de sentimento. Não há neutro nessa língua. Não há imparcial. Há o mais ou menos, pouca coisa, quase nada.

Saudade é uma palavra sem tradução.

É sentir falta. É nostalgia. É querer. E não é. Nenhuma dessas coisas. Mas todas elas. Saudade é quando o dia segue tão cinzento que é quase automático, e, de repente, algo me atinge e lembra de você. E então eu quero te mostrar, ou te contar sobre isso. Mas olho ao redor e não te vejo. Só para descobrir dentro de mim um buraco no seu formato.

Saudade é desbloquear o telefone e olhar o seu nome na lista de contatos. É voltar para casa correndo para ver a sua fotografia. É ligar para você, mesmo que não atenda. Se tiver sorte, vou ouvir a caixa postal dizendo que não pode falar agora, mas que vai me ligar quando puder. Mesmo que não vá.

Às vezes é o suficiente.

Às vezes torna tudo mais profundo.

Saudade é dizer eu amo você. Eu amo os momentos que tivemos juntos. Eu amo até os que não tivemos. Como naquele show que nós dois fomos e não nos vimos. Ou naquela vez em que nos desencontramos, eu cheguei muito cedo, a ansiedade bateu e fui embora. Você chegou tarde, como sempre, e eu já não estava mais lá. Bateu a minha porta, e eu sabia quem era. Pensei que encontraria raiva, mas o que chegou foi um sorriso.

Saudade é dizer que eu quero te ver. É dizer que eu queria que estivesse aqui. Ou eu aí. Para criarmos mais momentos para se sentir saudade.

Saudade não é só você.

É a comida da minha mãe. É o meu pai dormindo de jeans e sapatos em um colchão na sala, só por um tempinho, porque sabe que tem que ir antes da minha mãe chegar. É meu avô levantando os braços e dizendo que casa boa é a da gente. É a pose de Mona Lisa do meu labrador, escorando na janela da sala. É o cheiro das flores se abrindo pela manhã no quintal daquele casal de idosos. É o tufo de cabelo da minha avó que meu avô visitava, na hortinha que ela cuidava. É a volta para casa. É o dinheiro que sumiu do bolso. É a ressaca que não passa. É o choro engolido.

Um dia, eu espero, alguém vai traduzir saudade.

Ou o mundo inteiro vai ter essa palavra em português.

Igual iogurte, do turco.

Porque saudade não é sentir falta. Saudade é ter. Ou ter tido. Já não importa. Porque mesmo que não se possa alcançar o que lhe causa saudade, no presente ou num futuro próximo, se pode voltar ao tempo. Aqui dentro. Sentir-se protegido e aquecido.

Encontrar-se, onde quer que esteja no mundo, em casa.





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