O Corvo escrita por Paladina


Capítulo 9
Dia 9 — Cinzas de um corvo


Notas iniciais do capítulo

Pois bem, aqui estamos em mais um capítulo! Este aqui vai ser o último durante as próximas duas semanas porque estarei em épocas de prova.
Aguentem firme, porque eu também estarei aguentando. ♥

De toda a forma, esse capítulo foi... Ele já foi postado, mas estava tão ruim que eu apaguei e acabei passando um dia inteiro para revisá-lo e tentar melhorá-lo, mas ainda assim eu sei que não está perfeito. Perfeição nunca pode ser alcançada.

Mas a melhora sim. Então peço que vocês leiam com carinho para que pautem todos os meus erros e defeitos. É um capítulo cheio de lutas, algo que eu definitivamente não domino, então se puderem me indicar novos sinônimos, verbos, adjetivos, movimentos de luta (e coisas do gênero) seria muito útil. Não precisa ter vergonha.

Críticas construtivas não machucam, só ajudam. Bom capítulo! :D



Garian jogou uma adaga ligeira contra o necromante, que estava ocupado demais lidando com os golpes pesados de Tadeo, e acabou sendo atingido no ombro. Sangue esguichou e o velho gritou de dor, reagindo de modo defensivo dando um passo para trás. Tadeo aproveitou a oportunidade para tentar atingi-lo na cintura, jogando-o com força para o lado. O velho rolou no chão, deixando a passagem para a porta livre.

— Sigam o caminho! — Ordenou Tadeo, desferindo um chute no necromante, que perdeu o ar dos pulmões. — Eu cuidarei dele!

— Não! — Gritou o adversário com seu último fôlego, ainda no chão, apagando todas as chamas do corredor com um sinal de mãos. A escuridão dominou por poucos segundos, até o velho expelir as chamas pela boca, cuspindo-as contra Tadeo, e as tochas voltaram a se acender. O homem chamuscado quase caiu, mas voltou a equilibrar-se sobre os calcanhares depois de rasgar a camisa com uma força de urso.

Garian aproveitou-se da breve escuridão para aproximar-se do necromante, pegou-o pelo capuz e o arrastou em arco, jogando-o contra uma parede. Qualquer pessoa com sangue élfico tinha vantagem no escuro, devido sua visão avançada. A face do necromante gelou.

Estava prestes a atravessar a garganta de seu adversário com um de seus punhais quando a porta do final do corredor foi escancarada por outros dois necromantes, que utilizaram-se de uma magia fosca e aterrorizante para impulsionar Garian e Tadeo para longe. Os dois voltaram para o lado de Corvo, arfando.

Os dois novos necromantes tiraram o capuz do rosto, expondo suas identidades. Um deles era uma mulher de pele escura e tatuagens em relevo que deixavam-na semelhante a um monumento, enquanto o outro era um homem de barba pontuda e pele amarelada. Igualaram-se em número e começaram, em conjunto, a recitar algo. Corvo reparou que tratava-se da língua antiga, algo que aprendia com Líria, mas que naquele instante muito pouco sabia; E ainda assim, ouvi-la pela voz dos seus inimigos fez com que uma dor profunda o invadisse. Largou a espada no chão, tentando resistir a si mesmo. As palavras o atingiam como socos, como se sofresse de uma magia de tortura mental.

Garian e Tadeo entreolharam-se, sem saber ao certo como proceder, mas como se tivessem lido a mente um do outro, avançaram contra o trio de inimigos. Garian fez um corte no rosto do barbado, enquanto Tadeo golpeou a boca do estômago da mulher. Corvo desabou sobre os joelhos, sentiu vontade de gritar, e pouco a pouco começou a contorcer-se. Precisava ajudar seus companheiros, não ser um estorvo. Com os olhos já fechados, tentou se recordar de alguma oração, mas a única coisa que lhe vinha era o branco; As informações confundiam-se em sua mente, assim como as lembranças, o fazendo cair em um oceano de angústia que o deixava incapacitado de agir.

O velho, que não estava sendo atacado, aranhou o próprio antebraço, ao passo de que sussurrava uma magia. Pingou seu sangue no chão, e as gotas uniram-se formando uma foice sombria. Ele tomou a foice em mãos e sorriu em silêncio, enquanto caminhava na direção de Corvo. O necromante sabia que era forte o suficiente para derrotar o escudeiro com um único golpe bem realizado na cabeça, tomando vantagem sobre os outros dois. As dores continuavam para o aprendiz, porém ainda assim forçou-se a abrir os olhos, sofrendo a maior dor de cabeça de sua vida. Sem tempo de pegar sua espada, tirou o punhal que Garian havia dado-lhe do cinto, erguendo-se do chão. Encarou seu adversário, seu rosto decrépito e seus olhos falidos.

Quando o golpe veio em sua direção, abaixou-se, e a ponta da foice deslizou na placa metálica de suas costas, causando um arranhão profundo na armadura, mas sem afetar o aprendiz. Corvo impulsionou-se para frente, segurando o punhal com ambas as mãos. Gritava. A arma penetrou com facilidade o manto verde, e em seguida a carne de seu inimigo. Um sangue gélido escorreu por sua mão e antebraço, a dor de cabeça foi amenizada de um momento ao outro. A foice se desfez como fumaça. O peso do corpo de seu inimigo quase o fez tombar ao chão, porém Corvo deu um passo para o lado e deixou com que caísse morto. Olhou para as próprias mãos ensanguentadas.

— Eu... Matei um homem... — Corvo foi capaz de falar. Suas pernas quase falharam em sustentá-lo. Havia matado alguém.

Foi uma das piores sensações de sua vida. Por mais que aquela pessoa fosse cruel e também matasse, a morte era algo que aterrorizava o pequeno; Provocá-la deu-lhe uma sensação de vazio.

Não muito longe, Garian e Tadeo ainda enfrentavam seus inimigos. Trocavam golpes ágeis, pesados e impactantes, enquanto os necromantes limitavam-se a defender com sombras e contra-atacar com alguma magia que não surtia efeito o bastante para pará-los. Nenhum deles dava atenção a Corvo, que ao notar o fato, guardou o punhal, não sem antes lê-lo novamente, e segurou sua espada. Não havia tempo para lamentar-se, precisava juntar-se a eles.

Esgueirou-se pelo flanco do adversário de Tadeo, e quando esse bateu com a clava contra uma das sombras da mulher, Corvo girou o corpo e atingiu seu joelho, fazendo um corte que obrigou o alvo a cair sobre uma perna. Tadeo ergueu a clava e esmagou sua face tatuada, fazendo com que nada além de um capuz ensanguentado sobrasse. Dominado pelo calor da batalha, Tadeo continuou a desferir golpes mesmo após a queda, e quando finalmente deu-se por si de que ela estava morto, bufou e foi prestar auxílio para Garian.

O necromante tinha vantagem sobre o meio elfo, que apesar da agilidade e destreza, faltava-lhe força. Tinha cortes profundos ao longo do rosto e do braço, resultado de ser atingido muitas vezes pela sombra pungente. Tentou um golpe mirando em seu olho, mas o inimigo em um gesto brusco usou as sombras para empurrá-lo para trás. Garian bateu contra uma parede e caiu de bruços no chão. O nariz sangrava, e alguma costela provavelmente estava quebrada. Corvo usou a espada para tentar atacá-lo, mas em vão. As sombras não apenas apararam o ataque como igualmente envolveram seu pescoço e começaram a enforcá-lo. Tadeo atingiu as sombras e libertou Corvo, avançando contra o necromante logo em seguida.

Trocaram uma sequência curta de golpes, até o momento em que, por deslize, Tadeo deixou sua defesa aberta, recebendo um ataque que, como se fosse uma lança, atravessou seu corpo. Arregalou os olhos e cerrou ambos os punhos. Seu ferimento sangrava sem parar. Com uma única mão, atirou a clava contra o necromante, atingindo sua têmpora. Desequilibrado, o necromante mal percebeu quando Garian surgiu por trás e o degolou. Com este golpe final, a luta terminou.

Corvo sentou-se, ofegante. Seus músculos doíam, sentia que seu corpo inteiro estava arranhado, e suor pingava de seus cabelos para seus olhos. Tudo o que gostaria de ter agora era água, e um elogio da Grifo Negro, porém sabia que sua mestra estava ocupada, lidando com muito mais adversários do que si próprio. Pensou em falar algo para os outros dois, mas estava muito cansado, e Tadeo encontrava-se muito ferido. Garian pegou uma das tochas ao lado da porta do fim do corredor e aproximou-se de Tadeo, ateando fogo ao seu ferimento. Tadeo rugiu e socou Garian, e este não fizera questão de desviar.

Corvo ficou boquiaberto, sem saber se levantava para impedir que lutassem entre si ou se permanecia sentado para recuperar as forças.

— Um de nada seria muito bom. — Largou a tocha apagada no chão, massageando a área atingida do rosto.

— Você me queimou, merda! — Tadeo gritou, hesitante em tocar a pele antes ferida, agora queimada. — Isso está doendo pra porra!

— Está falando como Dargil. — O meio elfo riu. — E antes seja queimado do que fique sangrando e morra no caminho. Ainda preciso de você.

— Como é? — Ergueu uma sobrancelha.

— Ainda precisamos de você, foi o que quis dizer. — Explicou Garian, caminhando até os cadáveres e tirando as adagas. — Não temos tempo para descansar, precisamos continuar.

Tadeo assentiu com a cabeça, pegou sua clava e colocou no ombro. Os restos de sua camisa jaziam aos trapos em seu corpo.

— O que faremos se encontrarmos outros? Não estamos com todas as nossas energias... — Corvo finalmente disse, com uma voz mais grave do que esperava.

— Então lutaremos. — Foi tudo o que o meio elfo disse, sem querer prolongar aquela conversa. Tadeo ofereceu uma mão para Corvo, que a aceitou e se levantou.

Passaram pela porta ao fim do corredor, encontrando uma nova escadaria. Nesta, os degraus eram menores e feitos de uma pedra lisa, convidativos a um tropeço. O grupo estava com os sentidos mais atentos, com Tadeo seguindo em último por estar em um momento mais fragilizado, Garian no meio, segurando seis adagas entre os dedos, prontos para lançá-las se visse algo de suspeito, e com Corvo guiando o grupo, erguendo um archote que encontraram logo no início. Um som perturbador de goteira era escutado, sem ao certo discernir se era um som próximo ou distante, ao passo de que a temperatura caia cada vez mais, arrepiando o trio.

Depois de chegarem ao fim da escadaria e atravessar três longos corredores, estavam nas masmorras. As paredes eram gradeadas com grandes celas por trás, todas fedendo a urina e morte, iluminadas por uma luz tênue que vinha de poucas tochas bem localizadas. Apenas o necessário recebia luz, e por isso as vítimas encarceradas não passavam de silhuetas sôfregas que se encolhiam em sua própria miséria. Corvo semicerrou os olhos para olhar as mulheres por detrás das grades, mas todas escondiam-se nas sombras, como se temessem a própria luz.

— Vocês... Finalmente chegaram. — Uma voz tenebrosa destacou-se. — Sobreviveram... Mais do que deveriam.

O fogo das tochas pularam de suas brasas e uniram-se ao centro do local, formando uma silhueta flamejante semelhante a um esqueleto. Era uma espécie de monstruosidade sobrenatural, alta, com o rosto sendo nada mais do que um crânio rachado. Trajava uma armadura rubra esmaltada, e a luz que seu corpo emitia era o suficiente para iluminar todo o local. O vazio de seus olhos ardia como o inferno.

— A morte... É presente. — Fumaça saía de sua boca.

Garian lançou uma adaga, mas as labaredas intensificaram-se no rosto do esqueleto e fizeram da adaga pó. Seu corpo reluziu diferente.

— Ataques físicos não funcionam. — Declarou o meio elfo, preparando outro golpe e posicionando-se.

— Vai ter que funcionar até descobrirmos um ponto fraco dessa... Coisa.

— É um mago. — Disse Corvo. — Minha mestra me explicou a respeito desse tipo de magia... Ele é um mago de fogo revivido.

— Isso explica ele ser, literalmente, ossos. — Falou Tadeo.

O esqueleto de fogo fez menção de se aproximar, e o trio o deu atenção.

— Tolos... — A voz do mago era um crepitar. Riscou o ar como se preparasse uma magia. — De mim não... Passarão...

— Eu irei pela esquerda, você pela direita. — Indicou Tadeo para Garian, que balançou a cabeça em concordância. — Garoto, você vai quando perceber uma brecha.

O inimigo criou um símbolo rúnico do ar, de onde saiu uma bola de fogo que atirou-se no trio. Tadeo puxou Corvo para o lado, e Garian esquivou-se no sentido oposto. A magia atingiu as escadas no fundo, e o escudeiro sentiu o calor das chamas esquentando-lhe.

— Vamos agir! — Declarou o meio elfo.

Garian avançou pela direita, saltando para a parede e da parede realizou uma manobra acrobática para agir contra o mago e atingi-lo com uma de suas lâminas, enquanto Tadeo arrastou a clava pelo chão e tentou um golpe pela esquerda de baixo para cima. O inimigo esticou os dedos ósseos nas laterais de seu corpo, provocando uma pequena explosão que os atingiu e os lançou contra as grades das celas, sem que fossem capazes de se aproximar. Seu fogo concentrou-se em suas mãos e foi reduzido ao longo do corpo, voltando ao normal segundos depois.

Uma das mulheres entregou a adaga de Garian que havia deslizado para dentro da cela, e o meio elfo percebeu em seus olhar o quanto temia.

— Nos salve. — Ela sussurrou, com o lábio sujo de lama e sangue seco.

— Iremos. — Voltou-se para o inimigo, a tempo de ver que ele preparava outra bola de fogo. Se a magia fosse ali lançada, atravessaria as grades e atingiria as mulheres, deixando Garian em um dilema de permitir ou receber o ataque por elas.

Tadeo se apoiou em sua clava e se levantou, limpando o sangue que escorria de sua boca. Ainda tinha energia para continuar a trocar golpes. Pegou uma das tochas apagadas e, assim que percebeu a situação de Garian, jogou o objeto contra o mago, que esquivou sem dificuldade alguma, mas acabou parando de desenhar as runas. Neste tempo de esquiva Tadeo avançou, porém acabou não conseguindo se aproximar muito devido ao calor poderoso que foi emitido pelo rosto de seu alvo, que o encarava com intensidade. Garian percebeu a distração que o amigo havia criado e tentou mirar na perna do esqueleto. O ataque o atingiu, e o esqueleto gritou.

As chamam voltaram a fluir por todo o seu corpo.

Suas chamas são limitadas, percebeu Corvo, ele precisa manuseá-las para defender-se ou atacar. Colocou o archote de lado e firmou a espada na mão. Se eu conseguir com que ele concentre as chamas em algum lugar, eles vão conseguir atingi-lo em outro!

— Ataquem em um lugar diferente do meu! — Instruiu o garoto, com seu melhor tom de encorajamento, enquanto disparava contra seu adversário. Tadeo e Garian o acompanharam com o olhar, atônitos.

Corvo tentou um ataque contra uma fissura que havia na armadura que servia como estrutura peitoral do esqueleto. O mago teria olhado-o em deboche se tivesse algo além de buracos no lugar dos olhos, e no exato instante em que a espada de Corvo ia penetrar a placa metálica, seu fogo concentrou-se em seu peitoral e se expandiu.

O escudeiro percebeu o êxito em seu objetivo, mas o fogo era mais veloz e mais quente do que o próprio era capaz de defender. Uma explosão de labaredas derreteu sua espada, beijando sua pele com uma dor inescapável quase cozinhando-o dentro de sua própria proteção. Corvo sentiu calor, mas nenhuma dor. Talvez seus nervos tivessem se tornado cinzas, ou quem sabe seu corpo não quis que ele sentisse tamanha angústia; Fosse o que fosse, foi lançado para tão longe que sentiu sua armadura rachar quando bateu contra uma parede. Alguns ossos dentro de si fizeram um barulho estranho, sentiu o sangue invadir sua garganta e saltar para fora em um gemido abafado. Sua visão ficou turva, e a última coisa que vira foi Tadeo e Garian, juntos, atingindo o crânio do mago esqueleto. As chamas apagaram-se e ele desmontou. Tão frágil quanto o próprio Corvo.



Notas finais do capítulo

Comentem, é de grande ajuda.
Até o próximo!



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