Dépendance escrita por KarenAC


Capítulo 33
Capítulo 33 - Desenlace (Parte I)




O mundo é um lugar perigoso de se viver não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer.

Albert Einstein

 

Adrien abriu as pálpebras e as fechou novamente com força ao lembrar do dia que teria pela frente. Finalmente havia chegado o momento de desfazer todos os nós que haviam sido atados nos últimos anos em sua vida, mas ele não tinha certeza se aquilo o deixava mais aliviado ou mais preocupado. Ou, se afinal, estava sequer preparado.

Desde o primeiro momento em que reencontrou Marinette teve a sensação de que ali estaria o recomeço que esperava para sua vida, mas não tinha ciência do quão profundamente suas histórias se cruzariam. E mesmo sabendo o quão pesada seria aquela quinta-feira, sorriu e se deixou respirar fundo, permitindo-se invadir da certeza de que a teria a seu lado mesmo no meio daquele turbilhão de decisões. Quanto a se eles ainda estariam lado a lado após o final, só o tempo diria. E era ali que o alívio terminava e a ansiedade enchia seu peito.

"Há males que vêm para bem." Fora o que Amélie lhe dissera um dia, e a frase de sua mãe nunca fizera tanto sentido quanto fazia naquele momento para Adrien Agreste, que mesmo depois de tantas desgraças havia encontrado um lugar para chamar de 'lar'. Um lugar do qual sentiria saudade quando estivesse longe.

O rapaz jogou o lençol branco para o lado e sentiu o ar frio da manhã tocar seu peito. Em reflexo levou a mão até o tórax nu onde repousava a cicatriz de borboleta marcada por ferro quente. Os dedos roçaram suavemente na pele grossa e irregular, onde cada canto da brasa havia rasgado sua pele e marcado seu caminho. Os olhos verdes fixavam no teto, relembrando-o de cada segundo em que a Papillon o havia mantido sobre controle. Ele não seria mais o fantoche deles. Nunca mais.

Sabendo que quanto mais demorasse a levantar da cama mais forte as memórias ruins preencheriam seus pensamentos, ele ergueu-se, jogou a camisa branca sobre os ombros e a vestiu sem abotoá-la na frente, pegando em seguida o celular e baixando os olhos para o horário indicado na tela. Ergueu as sobrancelhas levemente quando os números visíveis lhe explicaram o silêncio da casa: Era exatamente cinco horas da manhã.

Dormir cedo nunca havia sido seu forte, mas por causa das tantas noites de insônia Adrien se acostumara a levantar cedo da cama e manter-se ocupado a maior parte do tempo que estivesse consciente. Tudo para não perder o controle. Tudo para não ver por mais nenhum minuto os pesadelos carregados pelo Akuma em suas veias.

Adrien abriu a porta do quarto e desceu as escadas, sentindo os pés descalços tocarem o carpete macio dos degraus e lembrando-o da sensação de infância de descer correndo até a grande sala no meio da madrugada para descobrir se a árvore de Natal já estaria cheia de presentes sob a densa copa verde enfeitada. Quando suas noites eram cheias de sonhos e não terrores. Anos e anos de alegria dilacerados como se nunca houvessem existido.

Ao chegar à cozinha abriu a geladeira e a encontrou recheada de frutas, sucos e outras gostosuras que Alya e Marinette certificaram-se de comprar para preencher as prateleiras antes vazias. A casa estava impecavelmente limpa graças ao serviço de faxina contratado pouco antes de ele se mudar para a Itália. Duas vezes por semana um grupo de pessoas passava o dia inteiro espanando e esfregando a mansão inteira, enviando fotos para ele via e-mail, para que soubesse que estavam fazendo seu trabalho adequadamente. Agradeceu mentalmente por não terem tentado lhe enganar, pois Adrien nunca abrira os e-mails.

Puxou uma maçã da gaveta de baixo onde estavam guardadas as frutas e mordeu a casca gelada, sentindo o sabor suculento e doce acordar seus sentidos. Fechou a porta da geladeira e pegou uma xícara do armário superior, repassando o plano daquela noite incessantemente na cabeça. Andou em direção à parede mais distante e puxou o telefone sem fio que se projetava próximo ao balcão de mármore. Não queria ter que recorrer àquilo, e talvez não o tivesse feito caso fosse apenas ele o envolvido, mas ter Marinette junto no ataque à Papillon fazia com que Adrien se sentisse vulnerável e temeroso. Nada podia dar errado. Não com ela lá. Sem pensar mais, discou o número que ainda sabia de cor.

"Alô? Agente Rossi, código 413." Ordenou com gentileza a uma linha muda do outro lado, mas sabia que estavam ouvindo. Poucos segundos depois, uma voz feminina e musical respondeu.

"Agreste?" O tom da em um misto de espanto e descrença fez Adrien sorrir. Talvez fosse aquele o motivo pelo qual havia odiado tanto que Marinette o chamasse pelo sobrenome, o fato de lembrá-lo do passado tão vividamente, de como os agentes com quem trabalhava sempre o chamavam pelo sobrenome.

"Oi, Rossi." Ele respondeu enquanto encostava o ombro na parede ao lado do telefone, coçando a nuca ao continuar "Sei que andei desaparecido, e não posso te contar todos os detalhes, mas preciso de um favor imenso seu."

Adrien sabia que rodeios não funcionavam com Lila Rossi. Ela era uma das agentes mais bem treinadas em negociações na Miraculous italiana. Haviam trabalhado juntos em diversas missões, mas em seguida ele resolveu que a Itália e suas lembranças relacionadas a Farfalle era um lugar sufocante demais para se viver, e que Paris ainda era sua casa. Explicou o plano para a agente, ao qual ela ouviu cuidadosamente, interrompendo Adrien apenas para perguntar sobre pequenos detalhes que podiam comprometer suas ações. Ao final, ainda que um pouco relutante, concordou e confirmou a ajuda. Adrien agradeceu fervorosamente.

"Não sei o que você andou aprontando nesse tempo aí, Adrien, mas nunca achei que alguém ia ser capaz de arrancar aquela sua carranca séria." Ela fez uma pausa, quebrando o silêncio poucos segundos depois enquanto gemia contrariada "Acho que vou ter que esquecer pra sempre aquele convite pra jantar."

Lila frequentemente flertava com Adrien, tentando levá-lo para jantar e a encontros aos quais ele nunca aceitava, dando desculpas ou criando compromissos que nem sempre eram assim tão inadiáveis. Ela sabia que havia uma garota, alguém que já ocupava o coração dele, mas a esperança de fazê-lo esquecer quem quer que fosse que havia ficado em Paris não a tornava mais tímida em suas investidas. Antes das missões, Lila dizia que caso eles tivessem sucesso, Adrien deveria levá-la para jantar. Todas as missões foram um sucesso. Nunca houve um jantar. E pela mudança no comportamento de Adrien, em sua cautela ao ligar para ela e pedir um favor daquele tamanho, nunca haveria.

"Muito obrigada, Lila." Ele quebrou o protocolo, agradecendo-a ao usar seu primeiro nome, e a garota riu abertamente do outro lado. "Te devo mais essa."

"É, é." Ela confirmou sem muito entusiasmo "Só se cuida, tá bem? Não faz nenhuma loucura. Até mais, Agreste."

"Até mais, Rossi." Ele se despediu enquanto sorria, satisfeito em ainda tê-la como aliada, e colocou o telefone no gancho da parede, mordendo novamente a maçã que tinha na mão.

Ao se virar, encontrou um par de olhos azuis lhe encarando, e era muito tarde para se tranquilizar quando o pedaço de maçã desceu garganta adentro sem aviso, e Adrien começou a tossir, sentindo-se engasgar.

Marinette arregalou os olhos e após tentar duas vezes chamar Adrien e não vê-lo responder enquanto tossia, correu rapidamente ao seu socorro, abraçando-o por trás e pressionando seu estômago, obrigando-o a cuspir seja lá o que fosse que estivesse trancado em sua garganta através da manobra de Heimlich que haviam sido ensinados na escola. Duas pressões depois, Adrien caiu de joelhos ainda tossindo em reflexo, mas já respirava normalmente. E pensar que eles haviam rido incessantemente durante aquela aula e achado que nunca precisariam daquilo. Ela abaixou-se à frente dele, buscando uma resposta nos olhos verdes. E ele estava... rindo?

"O quê...?" ela tentava procurar uma explicação.

"Marinette..." ele tossiu mais uma vez e ria enquanto cobria os lábios, um dos olhos fechados ainda marejados pelo engasgo "Você é a coisa mais linda do mundo quando está preocupada."

"Mas que..." ela franziu os lábios e subiu a mão fechada em um punho, descendo-a sem perdão no braço dele, fazendo-o rir ainda mais alto "Você é horrível! Eu estava mesmo preocupada! Desgraçado! Você estava fingindo!?"

"Não, não! Eu estava mesmo me engasgando!" ele sacudiu o braço no ar, respirando fundo "Mas se eu soubesse que a sua expressão de preocupação era assim tão fofa eu juro que me engasgava mais seguido."

Marinette repuxou o lábio superior em indignação e franziu as sobrancelhas na direção dele. Sacudiu a cabeça condenando as palavras que acabara de ouvir, vendo-o levantar-se logo em seguida e se mover até o fogão.

"Quer café?" ele perguntou, colocando uma chaleira sobre o fogo.

"Quem é Lila?" ela perguntou sem mais rodeios, tentando fazer com que a pergunta parecesse uma simples curiosidade e não uma acusação enquanto sentava-se em frente ao balcão de mármore ouvindo Adrien lhe explicar sobre a agente com quem trabalhara.

"Inclusive" ele continuou enquanto pegava outra caneca do armário para Marinette "Aquela foto que estava na revista que você jogou em mim lá na sua casa, a modelo que posava comigo, aquela era a Lila. Era o nosso disfarce pra manter a cidadania na Itália, foi bastante coincidência ter encontrado ela na mesma agência onde eu trabalhava quando cheguei lá."

"É." Marinette soou mais incrédula do que quis, lembrando do quão próximos os dois estavam na foto do anúncio e o quão linda Lila era "Bastante coincidência." Repetiu as palavras de Adrien em sarcasmo e viu o rapaz erguer o olhar em sua direção, um meio sorriso debochado atravessado ali que desvaneceu devagar enquanto ele caminhava até ela com a xícara fumegante entre as mãos e uma meia expressão preocupada.

"Marinette..." ele começou ao estender a mão na direção dela, os olhos estreitados "Não se mexe, tem algo no seu rosto." Marinette congelou, seus olhos arregalando-se ao imaginar o que poderia ser. Um inseto? Seria venenoso?

"O que é? O que é?" ela perguntou sem respirar, os olhos fixos nele e as costas eretas, como se mover-se pudesse colocá-la em perigo.

"Ah não, já saiu." Ele falou devagar, raspando a ponta do polegar na bochecha dela como se limpasse uma mancha de sujeira "Era só ciúme." Ele disse próximo ao rosto dela, um sorriso largo que se abria ainda mais ao ver que a expressão dela mudar de descrença para raiva.

"Segunda vez hoje!" Marinette fechou o punho e o chocou múltiplas vezes contra o ombro de Adrien que ria alto e se encolhia com os golpes.

A garota se acalmou, mas uma ruga de desconfiança ainda esculpia cada canto dos olhos azuis. Adrien sorria ao alcançar a xícara de café para ela. E pensar que até poucos minutos atrás ele sentia que a ansiedade o estava sufocando. Bastava Marinette por perto e seus problemas se dissolviam como açúcar no fundo de uma colher molhada.

"Obrigada." Já começava a se acostumar que sempre que estava à volta de Adrien suas emoções saíam de controle.

Ela sentou-se à mesa, passando a mão no rosto. Não havia dormido bem a noite toda e acordar com todo aquele nível de adrenalina já correndo no corpo não devia ser assim tão saudável. Antes que percebesse, uma enorme caneca de café era postada à sua frente, o cheiro da manhã lhe convidando a saborear e acordar.

"Também dormiu mal?" Adrien descascava a maçã e a cortava, colocando-a sobre um prato na mesa "Mastiga devagar, essa fruta é assassina." sorriu ao olhar para ela, que lhe retribuiu com uma torcida de nariz.

"Então não fui só eu." Ela pegou uma das fatias e a colocou na boca, sentindo o adocicado e fresco da fruta misturar-se ao quente e amargo do café "Sonhei com a vez que busquei a Alya na Papillon a noite toda. Foi horrível." gemeu com as últimas palavras, a dor de cabeça latejando nas têmporas. "Ainda não lembro da hora em que deixei ela em casa e fui até a garagem. Metade daquela noite na minha cabeça é uma névoa." Exalou o ar dos pulmões sentindo-se subitamente exausta "Eu não me perdoaria se ela tivesse se machucado por minha causa."

"Vai ser diferente dessa vez. A gente vai estar junto." Adrien deu o último gole no café e passou por Marinette beijando-lhe o topo da cabeça e em seguida levando a caneca até a pia.

"A diferença pode ser que dessa vez nós dois acabemos do mesmo jeito." Marinette se virou no banco giratório para ver Adrien sair da cozinha, um calafrio de mau presságio subindo por sua nuca.

Ele apoiou-se no batente da porta com o braço direito e descansou a mão esquerda na cintura, fazendo a camisa branca pender aberta e revelar o abdome bem torneado embaixo do tecido. Nos lábios, o sorriso de lado que Marinette bem conhecia. Arrogante. Convencido.

"Nem em um milhão de anos, princesa." ele piscou "Eles vão precisar destruir o mundo antes de eu deixar tocarem em você de novo." e deu as costas, esticando a postura enquanto espreguiçava-se com os braços estendidos sobre a cabeça.

Arrogante.

Convencido.

Marinette sorriu de volta.

Irresistível.

 

*****

 

Adrien subiu o zíper à frente da roupa negra, selando-o com a trava de segurança na altura do pescoço. Deixou cair o capuz sobre a cabeça e levou a máscara aos olhos, testando atrás da cabeça os pequeninos botões escondidos no fundo da máscara que ativavam a visão noturna e o GPS. Tudo estava certo. Ele estava pronto. Chat Noir estava pronto. Esticou a mão e sorriu para os dedos firmes. Os tremores eram cada vez menos constantes. O Akuma estava sumindo. Ele estava, finalmente, desintoxicando. Ouviu passos atrás de si e soube que Marinette também devia estar preparada.

"Que demora pra-"

Mas a piada trancou nas cordas vocais de Chat Noir e ele esqueceu como se falava. Devia mover os lábios primeiro? Soprar? Como era mesmo? Não tinha como lembrar, não quando as curvas do corpo de Marinette ficava tão óbvias sob o novo uniforme de Ladybug.

"O que foi? Não gostou?" Ladybug caminhou na direção dele, o quadril ondulando devagar com as passadas, as pernas longas delineadas sob o tecido firme cujo tom mais escuro na cintura e nas panturrilhas faziam-na parecer ainda mais curvilínea. Um sorriso suave perpassava os lábios rosados enquanto os longos cílios batiam sob a máscara vermelha com pintas negras e ela girou em uma volta completa. "Dizem que é última moda em Paris."

"Você está impressionante." Ele deixou escapar no meio de um suspiro, fazendo Ladybug ficar da mesma cor do uniforme enquanto ele se aproximava e colocava as mãos na cintura dela "A gente precisa mesmo ir? Tem tanta coisa melhor pra fazer-"

"Ah, me poupem!" Alya gritou atrás dos dois "Já não me basta a gritaria na cozinha de manhã cedo! O que vocês estão fazendo aqui ainda?"

"Olha pra isso, Alya!" Chat apontou para Ladybug como se ela fosse uma obra de arte "Me dá um minuto pra admirar isso!"

"Como você não percebeu antes que esse cara era o Adrien?" Alya torceu os lábios enquanto condenava a falta de perspicácia de Marinette, cruzando os braços "É tão óbvio."

"Não era antes, tá? Ele agia de um outro jeito, não dava pra saber." Ladybug se afastou em passos largos e contrariados indo até o terminal onde Nino digitava incessantemente "E aí, como tá o perímetro?"

"Nenhum movimento até agora. A área tá tranquila. O pulso eletromagnético está programado pra exatamente..." ele olhou um contador no canto da tela "Vinte e oito minutos. Seria bom vocês irem andando." ele girou na grande cadeira "Vamos estar aqui esperando por vocês."

"Prontos?" Alya perguntou e tanto Chat quanto Ladybug confirmaram com a cabeça "Então vão lá pegar aqueles desgraçados."

Os dois mascarados sorriram para ela e a seguir um para o outro, correndo para a rua e lançando-se no final de tarde parisiense.

"Você acha que eles vão ficar bem?" Nino perguntou, puxando Alya pelo ombro.

"Vão. Eles tem que ficar." Alya sentiu os olhos marejarem "Para o bem de todos nós."

 

*****

 

A noite se enchia de uma névoa densa e sufocante, espantando quaisquer sinais de que aquela era uma cidade tão cheia de vida e movimento durante o dia. Plagg tinha as mãos enfiadas no fundo dos bolsos da jaqueta de couro, os dentes da arcada superior revirando ­impacientemente o piercing no canto do lábio como se a sensação pudesse lhe fazer esquecer para onde ia ou com quem iria conversar. Mentir para si mesmo era só o que podia fazer agora. Mentir para si mesmo era tudo o que vinha fazendo nos últimos anos. O pensamento lhe causou um riso baixo, um som rouco parecido com aquela tosse que tinha pela manhã depois de uma noite fumando sem parar.

Ele podia ter usado sua moto para se deslocar, a mesma que estava parada na garagem da Miraculous há semanas, e teria chegado ao seu destino em menos de vinte minutos, mas Plagg tinha certeza que ia demorar muito mais do que isso para seus pensamentos entrarem em ordem. Por esse motivo, resolveu caminhar e torceu para que o tempo de chegar até onde devia fosse suficiente para que suas ideias e suas palavras entrassem em concordância.

As pontas das unhas traçaram seu couro cabeludo, dedos inquietos abrindo caminho por entre as mechas escuras enquanto o prédio agigantava-se à sua frente, o terror de uma fortaleza quase indestrutível de concreto e vidro à prova de balas misturado à elegância de uma arquitetura europeia moderna. Aquela definitivamente era a imagem que eles sempre tentavam passar ao mundo. Um império de perfeição. Um império de devastação.

Plagg apertou o interfone do 37º andar sabendo que estava sendo esperado, consciente do olho da câmera que piscava vermelho no canto da porta de entrada. Um zumbido e um clique depois e a majestosa porta abriu-se em um estalo delicado. O carpete cinza cobria todo o chão do primeiro andar, o tecido grosso e impecavelmente limpo abafando seus passos o suficiente para que ele quase esquecesse que estava mesmo ali. Pressionou o botão do elevador e suspirou profundamente. Ia precisar muito mais do que um carpete caro para lhe fazer esquecer aquela noite e o que estava por vir.

A caixa de metal fechou-se ao seu redor em um suspiro calmo, a baixa música clássica preenchendo o elevador enquanto o moreno repousava as costas contra uma de suas paredes frias, a parte de trás da cabeça encostando na superfície enquanto seus olhos pousavam em outra das centenas – ou milhares, ele nunca saberia ao certo - das câmeras de vigilância instaladas pelo prédio.

Ele odiava aquele lugar. Não com a força ou fúria de quando era adolescente, não. Não com aquela energia que seria capaz de fazer ruir as próprias paredes da construção. Não. Aquele sentimento amadurecera, devagar e dolorosamente se embrenhando para dentro de sua cabeça e de suas entranhas até se tornar um misto de vergonha e nojo, cada uma das sensações direcionadas a quem vivia lá dentro, e não a quem projetara aquele lugar. Plagg sacudiu a cabeça, recriminando a revolta de quando era jovem. Como se tijolos e cimento tivessem culpa de qualquer coisa. Como se tijolos e cimento pudessem destruir famílias inteiras como seu pai fizera.

A única porta do 37º andar se abriu logo que o moreno desceu do elevador, encaminhando-se até ela com pressa, mas sem raiva. Ele sabia quem estaria esperando do outro lado.

"Plagg." A voz grave cumprimentou-o e seus olhos caíram sobre a figura do irmão mais velho parado à porta recém-aberta, um meio sorriso incerto repuxando o canto dos lábios do rapaz cuja imagem era quase uma réplica do próprio Plagg, não fossem as poucas marcas de expressão na face de Wayzz que indicavam os quatro anos que separavam os dois e os cabelos que lhe encostavam os ombros em mechas irregulares. Vestia uma camisa tão negra quantos os cabelos, uma gravata cinza frouxa sobre o colarinho e uma calça social e sapatos também escuros, deixando-o ainda mais elegante. Suas costas sempre eretas não escondiam os centímetros que o tornavam mais alto. Plagg torceu o nariz para a imagem. Aquele era o tipo de requinte que seu pai nunca conseguira esculpir nele.

"Wayzz." Plagg acenou de leve com a cabeça enquanto passava pelo irmão e empurrava a porta para trás, abrindo passagem e fazendo questão de não fazer contato visual. Ele não estava ali para trocar agrados e conversas. Aquele não era o tipo de família que eles eram. "Onde ele está?"

"Fora." Wayzz respondeu enquanto dava de ombros, encaminhando-se ao carrinho de bebidas parado ao lado do largo sofá de luxo e servindo-se de uma dose de whisky. "Quer?" Seus olhos felinos viraram-se para o irmão mais novo, o displicente sorriso atravessando sua face enquanto ele erguia uma das sobrancelhas e o copo com três dedos do líquido dourado que já estava servido.

Plagg caminhou até ele e pegou o copo sem responder, sentando-se no sofá e sorvendo um gole do conteúdo. Apesar do vício na nicotina ele nunca fora muito interessado em bebidas alcoólicas. Não as odiava, muito pelo contrário, mas sentia que já estava testando demais com um tipo de veneno entrando em seu corpo. Repousou os cotovelos sobre os joelhos enquanto o calor do whisky descia por sua garganta e esfregou o braço em reflexo. Pelo menos nicotina não o fazia perder controle de sua própria mente.

O despejar da bebida em outro copo quebrou o silêncio da vasta sala de estar, e logo em seguida Wayzz sentava-se no braço da poltrona em frente ao sofá de Plagg.

"Ele não está muito contente." O rapaz mais velho começou antes de levar o líquido aos lábios, as sobrancelhas levemente erguidas em direção ao irmão, como se Plagg ainda tivesse dez anos de idade e tivesse rodado em uma prova na escola.

Plagg detestava aquilo. Detestava a forma com que Wayzz sempre lhe tratava como uma criança, como carregava a palavra do pai feito lei, como nunca questionava as atrocidades que lhe eram incumbidas como missões. Detestava o senso de justiça distorcido que sua família carregava como brasão.

"Ele nunca está contente." Plagg contestou, bufando, jogando a verdade contra os ouvidos do irmão mais velho que apenas sacudiu a cabeça em uma negativa decepcionada mas concordante.

"Sabe o que ele me disse ontem?" Wayzz fez uma pausa para bebericar mais uma vez do copo de whisky, as pequenas pedras de gelo tilintando contra o vidro enquanto Plagg mantinha os olhos presos na própria bebida, o suave turbilhão girando entre seus dedos enquanto o sacudia para que o gelo se dissolvesse mais rápido. Aquela era uma pergunta retórica, uma das muitas que seu irmão tinha o costume de fazer apenas para se assegurar que controlava toda sua atenção. Sabia que mesmo que não respondesse, Wayzz continuaria, e assim ele o fez "Que o seu prazo já acabou há semanas, que ele já te deu tempo mais do que suficiente para resolver toda a situação na Miraculous e que ele mesmo vai resolver as coisas daqui pra frente."

"Corta essa, Wayzz." Plagg finalmente respondeu, interrompendo o discurso "Eu não vim aqui por causa disso, e você sabe bem disso." As palavras dele saíam entre dentes, controladas mas ácidas "Se for pra levar sermão e ouvir sobre toda essa merda eu nem tinha colocado os pés aqui. Você sabe a minha posição sobre tudo isso, e sabe melhor ainda que eu estou prestes a finalmente fazer a Miraculous francesa crescer do meu jeito. Eu não vou aliviar pra Papillon. A Miraculous italiana nunca precisou da Farfalle. Por que nós precisaríamos?" Plagg retorceu o lábio superior em uma expressão de escárnio, largando o copo quase intocado sobre o carrinho de bebidas.

"A Miraculous precisa da Papillon pra continuar viva, Plagg. Vocês precisam do investimento." Wayzz disse em voz alta as palavras que arrepiavam cada um dos pelos da nuca do irmão. Já era hora das coisas serem discutidas claramente.

Subitamente, Plagg sentiu nojo de si mesmo, como se tivesse rolado dentro do esgoto o dia inteiro. Como se fedesse tanto quanto os planos do próprio pai.

"Eu nunca precisei da merda de um centavo deles." O moreno cuspiu a frase sentindo que se ela ficasse em sua língua por mais um segundo sequer ele poderia morrer envenenado com as palavras "Tenho meus próprios investidores."

"Agreste?" Wayzz riu e bebeu o resto de seu copo em um só gole, o tom de piada pairando no ar entre os dois "Então você simplesmente faz um acordo com quem destruiu a nossa família?"

"Com quem destruiu a nossa família!?" Aquele era o limite, era o máximo que Plagg conseguiu aguentar. Ele se ergueu do sofá, consciente do quanto estava irritado e do quanto Wayzz parecia sempre se divertir cada vez que aquilo acontecia "Como você tem a porra da cara de pau de falar uma coisa dessas? Você sabe muito bem da história toda, de tudo o que aconteceu!" Plagg colocou as mãos na cintura e andou até uma vasta janela distante, os pontos iluminados de Paris acesos a centenas de metros abaixo deles traçando um mapa de energia "Você sabe muito bem o que ele me fez fazer." As últimas palavras saíram baixas, o som raspando nas cordas vocais e tornando real os pensamentos que lhe consumiam dia após dia "Quem destruiu quem de verdade nessa história, Wayzz?"

O tilintar do gelo no copo de Wayzz era tudo o que Plagg escutou por um bom tempo, até que a voz do irmão mais velho quebrasse o silêncio mais uma vez "Alguém precisava fazer aquilo, Alguém precisava impedir algo pior de acontecer."

Aquela era sempre a forma que seu irmão mais velho encarava as ordens de seu pai. Inevitáveis. Indiscutíveis. Irrefreáveis. Plagg girou nos calcanhares, a fúria enchendo seus olhos verdes.

"Precisava!?" Plagg jogou dois passos à frente, agarrando o colarinho de Wayzz e erguendo-o da poltrona, suas faces frente a frente, tão semelhantes e tão opostas "Nosso querido pai precisava mesmo injetar aquela merda em mim e me jogar dentro daquele furgão? Precisava mesmo me mandar dirigir e arriscar a minha pele enquanto me fazia assassinar uma família inteira!?" Plagg rosnava as palavras contra o rosto do rapaz mais velho, os punhos apertados contra o tecido da gola do irmão. Mantê-los ali, firmes e ocupados, era a única garantia de que os nós dos seus dedos não socariam o maxilar de Wayzz "O que de tão pior podia acontecer do que ele me obrigar a arrancar a vida dos pais do meu melhor amigo? Você é ridículo, Wayzz."

"O que está feito está feito. Tem um jeito de colocar uma bandage em cima dessa ferida, Plagg." Wayzz colocou as mãos sobre as de Plagg e calmamente o afastou, o sorriso debochado de canto formando uma covinha quase imperceptível sobre a sua bochecha direita. Seu irmão mais novo sempre fora instável e impaciente, mas aparentemente os últimos dias o estavam pressionando de tal forma que fazê-lo perder o controle se tornara ainda mais fácil. Os dois pares de olhos verdes mantiveram-se conectados, a espera corroendo a alma de Plagg como ferrugem em um portão velho.

"Essa é a verdade na qual você quer acreditar, Wayzz! Não dá pra trazer gente morta de volta á vida! Nem por todo o dinheiro do mundo!" Plagg havia erguido o tom de voz, seus braços abertos indicando o luxo do apartamento no qual os dois se encontravam, o luxo ao qual ele havia negado, preferindo dormir em um quarto no fundo da Miraculous ou no pequeno apartamento que havia alugado junto com a Tikki juntando o pagamento das primeiras missões na Miraculous. Havia pessoas que precisavam de proteção. Pessoas honestas, em perigo por causa de um mundo cruel, que estavam dispostas a investir na Miraculous. Ele não queria dinheiro do pai dele. Não queria um centavo do que viesse daquele império de podridão.

Mobília importada, lustres adornados com centenas de cristais e quadros originais de pintores famosos pendurados nas paredes circundavam os dois irmãos, um cenário que sempre fazia Plagg sentir-se como um completo estranho, deslocado como peixe fora d'água "E cada uma dessas mentiras que nosso pai conta é pra satisfazer o próprio desejo de manter seu estilo de vida, e você compra cada uma delas como se fossem um investimento sagaz. Você precisa abrir os olhos e enxergar que nosso pai é um babaca que perdeu a porra da vice-presidência da Papillon pra um moleque de quatorze anos e achou que isso era motivo suficiente pra foder com a vida dele!"

Plagg gritava a plenos pulmões, mas sentia que nem todo o ar do mundo seria suficiente pra atirar aquelas palavras em volume alto o suficiente dentro daquele lugar maldito alimentado por dinheiro sujo.

"Eu sei." A concordância de Wayzz pegou Plagg de surpresa, os olhos verdes antes fervorosos agora abrandando-se em direção ao irmão mais velho "Mas mortes só são irreversíveis quando são mesmo mortes, maninho." Ele ergueu os olhos em direção ao rapaz mais novo, subitamente parecendo ter muito mais idade do que tinha "Meu nome já está na lama. Tudo que eu posso fazer agora é tentar impedir que você acabe assim também."

Plagg caminhou devagar até o irmão mais velho, sentando-se no sofá novamente sem cortar contato visual. Suas mãos cruzaram-se sobre o colo, absorvendo as últimas palavras do rapaz à sua frente.

"Do que você sabe que eu não sei?" ele perguntou calmamente sem tirar os olhos de Wayzz, as sobrancelhas caindo sobre os olhos verdes.

"Muita coisa." A resposta foi expirada em um tom de cansaço "Mesmo depois de tudo o que aconteceu, você nunca mudou Plagg. Eu sempre te invejei por causa disso. Pelo fato de você ser quem quer ser, em um mundo que te joga de um lado pro outro e grita nos seus ouvidos o tempo todo, te obrigando a se moldar e se adaptar tão rápido e tantas vezes que no final você mesmo acaba perdido."

A confusão assolava a cabeça de Plagg enquanto seus olhos viam o irmão erguer-se da poltrona e as palavras fluírem pelos seus lábios.

"O sequestro da Tikki não era pra ser um sequestro." Wayzz começou e Plagg sentiu algo ferver dentro do seu estômago "Nosso pai planejava matá-la para trazer você de volta para o nosso lado, para te convencer de alguma forma que não havia algo nesse mundo pelo qual valia a pena lutar." Uma tontura nauseante atingiu Plagg como uma martelada na nuca e ele precisou apoiar as costas no sofá para ter certeza que não iria desabar sob os próprios joelhos enquanto seu irmão mais velho continuava "Eu consegui convencer ele que valia mais a pena trazer toda a Miraculous para o nosso lado, principalmente a agente que havia quebrado metade da Papillon sem nem tentar, na esperança de evitar que mais gente fosse morta. Eu precisava focar a atenção dele em outro lugar." Wayzz bufou em um meio riso "Foi um plano horrível e cheio de falhas do qual eu não me orgulho, mas eu sei o quanto aquela garota é importante para você e quanto ia quebrar você caso ela fosse eliminada."

Plagg apoiou-se para a frente, os cotovelos sobre os joelhos e as mãos na cabeça, dedos afundados no couro cabeludo enquanto seus olhos arregalados focavam o chão. Tudo o que a Miraculous havia passado. Tudo o que Marinette havia passado. Tudo por culpa dele.

O rapaz mais velho caminhou até um pequeno armário de mogno escuro e puxadores de prata, abrindo a gaveta do meio e retirando uma grossa pasta de papel amarelo de dentro "Aqui estão todos os planos, caso você duvide de mim. E algo mais. Algo que nem todo o dinheiro do mundo pode comprar." Ele sorriu torto, repetindo as palavras do irmão.

O soar de um telefone tocando encheu a sala enquanto Plagg abria a pasta e demorava os olhos sobre os papéis. Os planos da Papillon. A prova definitiva que seu pai estava envolvido até os ossos no fornecimento de narcóticos por toda a França. Aquilo seria mais do que suficiente para depô-lo do cargo. Para tirar a Miraculous definitivamente das garras daquele homem inescrupuloso.

"Há quanto tempo?" Wayzz perguntou ao telefone enquanto dirigia o olhar para Plagg, ambos fixos um no outro aguardando a resposta do outro lado "Sim, por favor. Obrigado." Desligou o telefone, sacudindo a cabeça negativamente e falando mais para si mesmo do que para o irmão "Parece que nada que envolva a Miraculous consegue ser feito com calma. Por que mandou os seus agentes até a base?"

Plagg olhou o rapaz do outro lado da sala e incompreensão atravessou sua face, uma expressão que durou poucos segundos até uma onda gelada de entendimento subir e descer no seu peito, caindo no meio de seu estômago como uma bola de gelo maciço.

"Eu não mandei." As palavras saíram sussurradas, e os irmãos se olharam em choque por alguns segundos até que Plagg se levantasse do sofá em um pulo, a pasta presa firmemente entre os dedos. Wayzz correu até a porta onde o rapaz já tinha meio corpo para fora, agarrando-o do ombro "Não faça nada que vá se arrepender depois."

"Você devia ter dado esse conselho pra ele." E saiu em disparada para fora daquele apartamento e em direção à única família que jamais conhecera naquele mundo.

 

 



Notas finais do capítulo

Pra compensar o tempo de espera, tá aí um capítulo gigante que eu tive que dividir em dois pra poder finalizar a história e desenlaçar todos os nós. D:

Próximo (e possivelmente último) capítulo vai ser postado dia 29/10.

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