Dépendance escrita por KarenAC


Capítulo 32
Capítulo 32 - Veredito




 

Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. 

Não espere o juízo final. 

Ele realiza-se todos os dias.

Albert Camus

 

 

O som do borbulhar de água fervendo preenchia a agência do último andar do prédio da Miraculous. Tikki fitava as bolhas que agitavam-se para cima e para baixo constantemente dentro da jarra elétrica, e torceu o nariz pensando que era muito melhor quando a cafeteira ainda funcionava. Café solúvel nem chegava aos pés do cheiro de café fresco pela manhã. Muitas vezes ela nem precisava beber o café, apenas sentir o aroma invadir-lhe as narinas já era suficiente. Mas aquelas eram sensações do passado que ela agora precisava preencher com pó e água quente.

"A gente precisa de uma cafeteira nova, né?" Plagg digitava preguiçosamente algo na tela da tablet sobre a mesa de trabalho enquanto espiava Tikki, lendo a decepção no olhar dela.

"Urgentemente." Ela ergueu a vasilha quente do suporte e encheu as duas canecas "O cheiro não é emocionante."

Plagg riu baixo e sacudiu a cabeça negativamente. Depois de tantos anos, Tikki ainda conseguia fazê-lo rir sem fazer muito esforço. Era natural, eles simplesmente se encaixavam na maneira de pensar e agir. Ela o fazia muito feliz, e Plagg se esforçava para que ela também se sentisse amada.

"Eu vi o Chat saindo quando cheguei." Tikki caminhava até Plagg com uma xícara de café entre as mãos, colocando-a à frente da tablet que exibia mapas da cidade onde Plagg trabalhava em novas rotas de fuga para os agentes da Miraculous.

"É, ele teve aqui de manhã cedo." Plagg respondeu enquanto bebericava o líquido quente.

"Eles estão bem?" ela perguntou enquanto sentava à frente da mesa.

"Acho que sim." Plagg suspirou "Ele veio dizer que precisava de um tempo, que os últimos dias tinham sido muito pesados pra ele e pra Ladybug."

"Não é muito do perfil deles fazer isso." Tikki apoiou os cotovelos na mesa e pousou o queixo sobre as mãos espalmadas em uma pose pensativa.

"Você acha que aconteceu algo?" Plagg inquiriu erguendo uma das sobrancelhas.

"Não sei." ela disse pensativa "Mas existem coisas que-"

"Não." Plagg ergueu os olhos verdes, as íris brilhando como se tivesse luz própria "Nós não vamos discutir isso de novo."

"Plagg..." Tikki falou o nome dele no meio de uma expiração, em tom de derrota, e se aproximou da cadeira onde ele estava sentado, juntando a cabeça dele contra o peito em um abraço "Tem coisas que o tempo não pode apagar. Coisas que mais cedo ou mais tarde vão vir à tona. E depois não tem mais volta."

"Eu prefiro não arriscar." o moreno pronunciou parecendo muito cansado.

Tikki o soltou em silêncio e girou nos calcanhares enquanto Plagg a fitava com um olhar inquisidor.

 

*****

 

"Parece que estamos quase acabando!" Nino esfregou a testa suada com um pequeno pano azulado que carregava nas mãos.

"Quase acabando? Não parece." Alya resfolegava com um pesado monitor nos braços "Não parece mesmo."

"Como você reclama!" Nino rebateu e Alya franziu o nariz em resposta, mas ao final da provocação trocaram sorrisos.

Adrien estava sentado na maior mesa ao fundo da garagem, os olhos cravados no grande monitor agora ainda mais moderno do que o anterior, digitando códigos que Marinette ao longe tentava decifrar, sem sucesso.

Duas semanas já haviam se passado desde que Adrien finalmente aceitara retornar para a mansão Agreste, e Marinette agora recuperada considerava retornar para sua própria casa. Ela havia conversado muitas vezes com seus pais naquele período, e logo o tempo de ficarem fora de casa estaria terminado, o que fazia com que as decisões precisassem ser tomadas com ainda mais velocidade.

"Mari, me dá uma ajuda aqui?" Adrien perguntou sem virar-se na cadeira, e Marinette sorriu ao perceber como os dois estarem próximos, a um chamado de distância, agora era tão natural.

"Quê foi?" ela se aproximou ainda sorrindo e Adrien abaixou-se para mexer em algo sob a mesa.

"Preciso que você me diga quantas vezes o sinal verde vai piscar na tela depois que o monitor religar." Adrien falava ainda abaixado, e Marinette sentou-se na cadeira, fixando os olhos na grande tela preta.

Uma imagem semelhante a uma pegada de gato surgiu na tela e desligou. Uma, duas, três vezes. E então tudo ficou escuro.

"Três vezes." Marinette disse, e ouviu Adrien rir embaixo da mesa em comemoração.

"Deu certo! Finalmente! Agora digita aí no teclado: M-Y-L-A-D-Y" ele soletrou e Marinette sorriu ao unir as letras mentalmente, porém sua alegria logo virou reflexão.

Marinette pousou as mãos sobre o teclado, mas seus dedos continuaram repousados sobre as teclas, imóveis. Ela lembrou de quando Adrien a havia lhe chamado assim pela primeira vez, em um passado onde os dois ainda se consideravam desconhecidos. Em um passado onde Chat Noir e Adrien eram pessoas completamente diferentes. Ela então respirou fundo e digitou, e ao terminar um grande símbolo de joaninha apareceu na tela, vermelho e preto, que piscou três vezes e ligou todo o sistema da garagem, acendendo luzes, monitores e todas as aparelhagens que antes estavam desligadas.

"O que foi isso?" Marinette perguntou enquanto sentia Adrien apoiar-se nos joelhos dela para se levantar.

"É a senha para o sistema daqui." Adrien passou a mão nas mechas loiras e sorriu de canto "Para o nosso sistema."

"Nosso?" ela arregalou os olhos, sem entender.

"Nós dois sabemos que mesmo depois que toda essa história da Papillon se resolver você não vai deixar de ser a Ladybug." Marinette baixou a cabeça timidamente por Adrien conhecê-la tão bem a ponto de conseguir ver até mesmo aquilo através dela "E eu nunca vou deixar de ser o Chat Noir." ele riu, e acrescentou "Bom, pelo menos enquanto minha capacidade física me deixar."

"Mas Adrien, eu não-"

"Pode? Você não pode? É isso o que vai me dizer?" Adrien ergueu uma sobrancelha e sentou de lado sobre o braço da cadeira giratória, o tom de desafio na voz.

"Para de ler os meus pensamentos!" ela cruzou os braços e crispou os lábios em uma expressão irritada, fazendo Adrien gargalhar.

"Eu não tenho culpa se você se deixa ler tão fácil" ele se aproximou de lado e colocou o queixo sobre a cabeça dela, sentindo o perfume de cerejas adentrar suas narinas "O que eu quero dizer é que se você quer continuar fazendo o que faz pelo mundo - e eu sei que quer porque eu te conheço - você não vai estar sozinha. Nunca."

Borboletas voaram e se debateram dentro do estômago de Marinette. Ouvir aquelas palavras saindo dos lábios de Adrien lhe fazia sentir a mais pura felicidade. Ele não estava aceitando apenas a Marinette. Não estava aceitando apenas a Ladybug. Estava aceitando as duas, cada pedaço delas, e mais do que tudo, estava aceitando-as em sua vida.

Marinette ergueu os olhos e fitou Adrien, que sorria tranquilamente. Diferente do subir de lábios sempre irônico e das sobracelhas curvadas desconfiadamente, agora o garoto gentil de cabelos loiros e olhar tranquilo pelo qual ela se apaixonara há muitos anos aparecia cada vez mais sob aquele manto escuro que ele usava para se esconder de quem pudesse lhe machucar. E ela não conseguia nem descrever o quão honrada estava de ele a ter escolhido para mostrar seu verdadeiro eu.

Depois de tantos anos, e de tantas reviravoltas, Marinette podia, enfim, dizer que Adrien Agreste, o verdadeiro Adrien Agreste, estava de volta. E que ele era somente seu.

E pensando nisso ela esticou o pescoço e aproximou o rosto do dele, que percebendo o movimento da garota fechou a distância, encontrando os dois pares de lábios em um suave e macio beijo de cumplicidade, apenas interrompido pelos sorrisos de alegria no rosto de ambos.

"Tudo bem, eu aceito." a voz de Marinette saiu doce e risonha, e Adrien não conseguiu conter o impulso de abraçá-la.

"Olha aqui, ainda tem um sistema todo pra testar nessa espelunca. Será que dá pra vocês descolarem um pouco?" Alya rugiu do outro lado da garagem, fazendo Adrien levantar-se enquanto ria, mas não sem antes acariciar os cabelos negro-azulados de Marinette, contagiando-a com seu sorriso.

Marinette levantou-se da cadeira, mas algo pesou abruptamente em suas pernas e a fez sentar-se novamente, seguido por uma forte sensação de vertigem que a deixou enjoada.

"Mari, tá tudo bem?" Alya perguntou abaixando-se para fitar a amiga "Você parece que viu um fantasma?"

"Tô sim, foi só uma sensação estranha." ela sentiu a mão de Alya pousar sobre sua testa, como se para medir sua temperatura "Como se eu fosse ficar doente."

"Você não tá com febre." Alya concluiu e suspirou "Minha mãe costuma dizer que nossa mente consegue prever coisas que o nosso corpo ainda não viveu. E que sensações assim são más energias nos circundando. Más notícias se aproximando."

Marinette sentiu um risco gelado subir pelo meio de suas costas e alcançar a base do seu pescoço, lançando-lhe em um tremor incontrolável. Uma sensação que durou apenas um segundo, mas carregada de uma força que ela não soube explicar. Ela olhou fixamente para Alya, a preocupação estampada no olhar.

"Não importa o que seja, a gente vai estar sempre aqui." Alya disse e lançou um olhar carinhoso em direção à amiga e Marinette retribuiu da mesma forma.

"Eu espero que sim, se você não estiver muito ocupada agarrada no pescoço de um italiano desses aí." Mari fez um beiço, fingindo ciúme, tentando espantar a sensação ruim que antes se espalhava dentro de seu peito.

"Olha quem fala!" a ruiva colocou as duas mãos na cintura "Que eu saiba a senhorita tem muito mais culpa no cartório do que eu! E se for considerar o tempo que ele ficou fora, o Adrien já é quase italiano!"

Marinette riu e Alya a acompanhou. Do outro lado da garagem, um brado de comemoração foi trocado entre Adrien e Nino, fazendo as duas garotas virarem as cabeças a tempo de presenciarem os garotos trocando um aperto de mãos e um sorriso divertido. Aquele parecia o sinal oficial de que o serviço ali estava terminado, e Marinette olhou em volta confirmando a teoria, vendo todos os monitores ligados em sincronia, as luzes brancas acima de suas cabeças iluminando o lugar como um todo.

O restante do dia passou rapidamente. No final da tarde Adrien dera o dinheiro para Alya passar no supermercado e comprar tudo o que precisava para encher um pouco os armários e cozinhar o bendito espaguete com almôndegas que o Nino passara o dia inteiro implorando que ela fizesse. Após voltarem para a mansão, os quatro tomaram banho e se reuniram para comer na cozinha enquanto relaxavam.

Após a janta, Alya e Nino foram dar uma volta na rua enquanto Adrien e Marinette cuidavam dos pratos. Ela não gostava tanto de secar a louça, então o pano ficou com Adrien. Os dois começaram a tarefa em silêncio, porém quando a porta da frente bateu sinalizando que Alya e Nino haviam saído, o assunto que até então vinha sendo deixado para trás ressurgiu.

"Mari, o que você decidiu sobre a Papillon?" Adrien começou.

Marinette baixou o prato que tinha nas mãos e fechou a torneira, o barulho de água corrente cessando e dando lugar ao peso da decisão que precisava tomar. Ela sabia que mais cedo ou mais tarde aquele dia chegaria, e que a calmaria uma hora precisaria dar lugar a tempestade.

"Eu não quero te pressionar" Adrien sentiu as sobrancelhas se unirem quase que em arrependimento vendo a reação dela "Mas eu sei que seus pais voltam em breve."

"Amanhã." ela falou firmemente, reabrindo a torneira e enxaguando o prato cheio de espuma do detergente "Nós vamos lá amanhã."

"Amanhã?" Adrien arregalou os olhos ao ouvir a decisão rápida.

"Um dia a mais só vai nos deixar mais nervosos. Formular planos complexos e invasões cheias de detalhe não nos ajudou da última vez" ela disse pensando no Teatro e no sequestro de Tikki "Não dá mais pra adiar." Marinette falava sem hesitar, calma e decidida, mas esfregava a esponja no prato com tanta força que achava que poderia quebrá-lo ali mesmo.

 

*****

 

A noite já havia caído há muitas horas quando o último café feito sobre a mesa da Miraculous esfriou. A cadeira se moveu no momento em que os passos tranquilos se afastaram da mesa de trabalho. Plagg passou a mão no rosto, sentindo-se exausto. Mesmo tendo ficado o dia inteiro sentado apenas fazendo planejamentos, parecia que havia carregado toneladas e corrido uma maratona.

Muito tempo havia passado, e muita coisa havia acontecido, porém apesar do semblante calmo, o nervosismo acumulava-se palpável sob a pele dele. Algo estava para acontecer. Algo grande. Mais do que aquilo, a sensação do fim eminente aproximava-se como um enxame de abelhas, zunindo em seus ouvidos, contando que se aproximava para fazer um estrago e tanto.

Um toque de celular soou dentro da Miraculous, e Plagg sobressaltou-se ao ser arrancado de seus devaneios. Ele olhou a tela e franziu a testa com força. Tanta força que suas têmporas doeram como se tivesse adagas cravadas nelas.

"O que foi?" a voz do moreno saiu nada amigável, as sobrancelhas ainda curvadas "Eu já disse pra não me ligar a essa hora." ele silenciou para ouvir o outro lado.

As sobrancelhas de Plagg relaxaram ao ouvir a voz do outro lado, mas diferente do que parecia no início, o que ele sentia não era tranquilidade. Não era calmaria. Era incompreensão.

"Tem certeza?" Sua testa continuou a se curvar e se curvar, até que a expressão de raiva se tornou incredulidade e a incredulidade virou dor. A dor mais excruciante que ele já sentira. E não era física.

"Entendo." a voz de Plagg era baixa e rouca "Amanhã cedo estarei a caminho."

Plagg desligou e fechou os olhos, engolindo a seco. Suas pálpebras apertaram-se e ele baixou a cabeça, sentindo os ombros enfraquecendo. O aparelho começou a estalar entre seus dedos, e sem perceber ele estava esmagando o celular com tanta força que ele começou a rachar. Após o primeiro estalo no acrílico do celular, o moreno ergueu a mão em um ímpeto e atirou-o contra a parede, desfazendo-o em mil pedaços.

Tikki tinha razão. Toda a razão.

Não havia mais volta.

 

 





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