Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 41
[2ªT] 3. Deslumbre


Notas iniciais do capítulo

DEMOREI, MAS VOLTEI!
Mil desculpas pela demora, gente. Eu planejava postar rápido, mas minha internet deu problema (pela milésima vez) durante esses dias e só agora normalizou. Ah, e esse capítulo está GIGANTE!
Espero que gostem ♥




[2ª TEMPORADA]

CAPÍTULO 3

 

Porque, querido, foi bom nunca olhar para baixo.
E bem ali onde estávamos era solo sagrado.

Taylor Swift - Holy Ground

 

   Acordei de repente com a cabeça pesada feito chumbo.

   Olhei a redor confusa e vi que estava amanhecendo. Tateei as mãos pela cama e encontrei meu celular. Era quase sete horas da manhã. Eu não tinha muito tempo para me arrumar para o trabalho. Sorte minha que era sexta-feira.

   Levantei rápido e tomei um banho quente. Já era inverno e eu nunca havia sentido tanto frio na minha vida. Depois de uma vida inteira na Califórnia, ser jogada em Nova York em pleno inverno era quase uma tortura. Vesti minhas roupas rapidamente e peguei minha bolsa, saindo do quarto em seguida. Minha cabeça doía horrorosamente e meu estômago queimava. Eu devia ter lembrado que beber muito vinho me destruiria, como sempre.

   Quando cheguei na sala, encontrei Eve sentada na mesa de jantar, de costas para a estante, com as pernas cruzadas e uma xícara de café nas mãos enquanto lia uma revista. Já estava arrumada para ir trabalhar também. Blazer branco, cabelos loiros presos em um rabo de cavalo alto e seu moderno óculos para leitura. Seu olhar caiu sobre mim e eu engoli em seco, desconcertada. Deixei minha bolsa sobre o sofá e Eve sorriu fracamente para mim. Andei até ela e sentei na cadeira ao seu lado.

— Me desculpe por ontem. – falei. – Eu não queria ter sido tão grossa com você.

— Tudo bem. – ela murmurou, colocando a xícara sobre a mesa de madeira. – Me desculpe por ser tão intrometida, também.

   Sorrimos uma para a outra e nos abraçamos.

— Eu fiz panquecas. Coma alguma coisa antes de sair. – ela disse. – E tem alguns comprimidos de Advil no armário.

   Comi uma panqueca, só para não sair com o estômago vazio, e bebi um pouco de leite. Se eu bebesse café, a queimação no estômago iria me matar. Tomei um comprimido para as dores e saí apressada do apartamento. O caminho até a editora foi congestionado, como de costume, mas consegui chegar a tempo. E quando entrei em minha sala confortável e silenciosa, foi como entrar no céu. Sentei em minha cadeira e peguei os manuscritos para analisar.

   Ouvi duas batidas na porta e logo a cabeça de Manoella, a assistente editorial, apareceu. Ela sorriu animada para mim e veio até minha mesa, com seus cachos e com uma caixa da Starbucks nas mãos. Tirou um dos copos da caixa e colocou na minha frente.

— Aqui, o seu preferido. – ela piscou para mim. – A noite foi boa?

— Foi ótima. – lamuriei. – Eu sozinha na minha cama, bêbada e com dor de cabeça. Não poderia ser melhor.

— Quer que eu procure um cara bem gato para você? – ela perguntou, me olhando com pena, mas eu via o humor em seus olhos. – Ou o seu noivo abandonado ainda está no jogo?

   Revirei os olhos rindo e Manu deu um sorrisinho.

— Vai trabalhar, garota. – falei, bebendo um gole do meu Caramel Macchiato enquanto olhava ela ir em direção a porta com um sorriso idiota no rosto. – E eu não o abandonei!

— Sim, claro. – ela riu com ironia e saiu da sala.

   Suspirei, encostando-me melhor na minha cadeira e fechando os olhos. Fiquei imaginando o que Cameron estaria fazendo agora. Ontem ele me avisou que tentaria agilizar as coisas para vir o mais rápido possível, e logo me daria mais detalhes. E logo o que Eve tanto dizia me veio à mente. Eu estaria mesmo em cima do muro em relação a Cam? Eu o amava, certo? Era meu amigo, eu confiava nele – mesmo depois da traição... – e eu sabia que ele estava tentando melhorar. 

   Nossa relação sempre foi um pouco conturbada. Em certos momentos estávamos ótimos, em outros estávamos em crise por causa de certas atitudes e palavras dele, mas no geral... Bom, eu sabia que ele estava tentando. Ao menos eu sempre tentava melhorar, sempre tentava ser boa para ele. Eu sabia que ele percebia isso. Só espero que ele perceba que isso tem que partir dos dois lados.

   Decidi voltar ao meu trabalho, já que tinha muita coisa para ler e analisar. Mas meus pensamentos me apunhalaram diversas vezes com dúvidas em relação a Cam.

***

   Faltava cerca de quinze minutos para encerrar o meu trabalho quando Manu entrou na minha sala após duas batidas altas e apressadas.

— O que houve? – perguntei assustada.

— Tem um cara muito maravilhoso querendo falar com você. – ela disse, afoita. – Maravilhoso mesmo.

   Meu coração acelerou e a primeira pessoa que veio à minha mente foi Cameron. Levantei num átimo da cadeira e segui Manu para fora da minha sala, com o coração a mil esperando virar o corredor e dar de cara com Cam. Mas quem eu vi foi...

— Jones. – Benjamin sorriu.

   Suspirei, com um alívio estranho passando pelo meu corpo. Alívio? Eu não devia estar decepcionada? Engoli em seco, empurrando meus pensamentos para o fundo da mente e abrindo os braços para abraçar Ben.

   Manu voltou para a sua mesa e ficou nos olhando sugestivamente, ao mesmo tempo em que analisava Benjamin de cima a baixo. Bem discreta. Lancei um olhar recriminatório para ela, que apenas riu e me ignorou.

— O que veio fazer aqui? – perguntei a Ben. – Eu estava pensando em te ligar hoje a noite.

— Então nossos pensamentos devem estar interligados. – ele disse, misterioso, mas logo abrindo um grande sorriso. – Vim saber se você iria querer sair a partir daqui mesmo, ou se iria querer ir em casa primeiro. Saí do trabalho mais cedo, então...

— Podemos ir daqui. – sorri. – Mas só poderei sair daqui a dez minutos. Enquanto isso vou ligar para Eve e Jack, para saber se ela quer ir conosco.

   Benjamin concordou e sentou-se em uma das poltronas de espera. Manu logo se ofereceu para pegar um café para ele, enquanto eu revirava os olhos e voltava para a minha sala.

   Liguei para Eve, para saber se ela iria querer sair conosco, mas ela e Jack dispensaram. Ambos estavam muito cansados e queriam passar a noite em casa, mas disseram que no dia seguinte com certeza sairiam. Então, arrumei minhas coisas em minha bolsa e encontrei Benjamin.

   Andar de carro com ele e passear pelas ruas de NY com Benjamin O’Neil ao meu lado era como voltar a seis anos atrás. Quando eu tinha 18 anos, não 24. Quando ele era o capitão dos Lions e não um publicitário em ascensão. Enquanto ele me contava mais sobre o seu trabalho e sua vida em NY, eu me peguei pensando em como a vida dá voltas surpreendentes. Eu nunca iria imaginar que o encontraria aqui, a essa altura da minha vida.

   Tenho que admitir que, durante a faculdade, eu vivia imaginando-me encontrando Benjamin novamente. E Daniel. Na virada de uma esquina, em uma praia qualquer da Califórnia, numa visita aos meus pais em São Francisco. Quando eu ia visitar minha mãe, olhava para todos os cantos das ruas, esperando ver um deles dois. Qualquer um.

   Benjamin foi importante para mim, também. Não marcou minha vida-corpo-alma como Daniel... Bom, não fez tanto estrago. Mas foi essencial. E surpreendentemente eu senti uma falta absurda dele durante aqueles anos. Mas preferi não procura-lo porque eu sabia bem no fundo que onde quer que Benjamin estivesse, Daniel estaria também. E pensar em revê-lo era...

   Mordi o lábio inferior, enquanto suspirava disfarçadamente. Eu não queria pensar nisso agora. Nem tão cedo. Ainda tinha esperanças de que Daniel nem vivesse mais em NY. Talvez tenha se tornado um grande cientista e foi para o Japão ou qualquer coisa assim. Seria melhor se ele estivesse longe. Longe dos meus olhos, da minha vida. Definitivamente seria o melhor para todos; é o que eu prefiro.

   Mas todos sabemos que Allison Jones é uma péssima mentirosa.

— Então... – Benjamin mordeu seu lábio, arqueando uma sobrancelha para mim enquanto balançava levemente sua cerveja. - Como anda a sua vida amorosa? Ainda está me esperando?

— Oh, claro. – suspirei teatralmente, sorrindo para ele. – Minha vida se resume a esperar pelo seu olhar, O’Neil. Meu maior sonho é ser notada por você.

— Ótimo. – ele sorriu abertamente. – Não sou mais o capitão do time, mas acho que ainda estou bem, não acha?

— Um garanhão. – pisquei para ele. – E respondendo a sua pergunta... Eu estou em um relacionamento há dois anos.

   O sorriso de Ben foi murchando lentamente, enquanto ele tentava disfarçar o baque e bebia um longo gole de sua bebida.

— É mesmo? – perguntou. – Uau. Dois anos é bastante coisa. Já devem estar quase casando.

— Ele me pediu. – falei, passando os dedos nas gotinhas de água do vidro da garrafa. – Mas eu tive que vir para Nova York, e ele ficou em Los Angeles.

— Então quer dizer que você destruiu o coração do cara. – ele constatou, me fazendo revirar os olhos. – Ainda estão juntos?

— Eu acho que sim. – bebi um gole da cerveja, me sentindo nervosa com aquele assunto. Eu queria cortá-lo, queria falar de qualquer outra coisa. O que está havendo comigo. – Ele planeja vir para cá. Mas enfim, como estão seus pais?

   Ele pareceu perceber a minha fuga do assunto, mas não prolongou. Começou a falar de Tanya e Antony, que ainda moravam em São Francisco mas pretendiam passar o natal desse ano em NY.

   Será que Daniel ainda vivia aqui? Será que Benjamin mantinha contato com ele? Eles eram primos e se davam razoavelmente bem, mas Daniel tinha certa implicância com Benjamin, então...

   Eu tinha que parar de pensar nisso. Mesmo após todo esse tempo, pensar em Daniel era doloroso. Tudo me levava às lembranças da noite do baile. Quando Cameron surgiu em minha vida, eu juntei tudo o que me lembrava Daniel em uma caixa e a coloquei no fundo da minha mente. Estava mofada e cheia de teias. Eu gostava de mantê-la assim, esquecida. Mas estar aqui, com Benjamin, me faz lembrar de tudo o que eu não quero e isso me enlouquece.

   Daniel vira minha vida de cabeça para baixo e me deixa maluca mesmo sem estar por perto. Mas eu sei que superei. Todo esse alvoroço e ansiedade é pelo simples fato de que ultimamente muita coisa tem acontecido, apenas. Logo passa. E eu posso jurar que se ele aparecer na minha frente, agora, eu vou agir como uma perfeita adulta. Vou fingir que nem o conheço. Como se nada tivesse acontecido.

   Simples.

— Termine essa cerveja, quero te levar em um lugar. – ele disse, bebendo o que restava da sua bebida rapidamente. – Rápido, Jones!

   Virei a garrafa e limpei o canto dos lábios ao fim, rindo confusa. Benjamin já havia pagado pelas bebidas, então apenas agarrou minha mão. Estávamos próximos ao Rockefeller Center, logo percebi que era para lá que ele estava me levando. Eve havia prometido que me levaria lá para ver a vista do Top of the Rock, mas ainda não havíamos encontrado tempo para isso.

— Eu não sei você, mas imagina a cara de um rapaz que passou a vida inteira na Califórnia ao ver uma pista de patinação pela primeira vez. – ele sorriu, e logo eu entendi o que ele estava dizendo.

   Eu já havia visto as fotos, é claro. Já ouvia ouvido os elogios e todas essas coisas. Mas nada se compara a ver tudo de perto. A famosa árvore de natal era gigantesca e totalmente iluminada. Se erguia acima de nós, e eu não pude evitar o sorriso idiota ao ver como vela era bonita com todos aqueles prédios iluminados ao redor. A pista de patinação estava cheia de gente, tanto patinando quanto ao redor, apenas assistindo.

   Mas isso não pareceu desanimar Benjamin. Ele me puxou para alugarmos nossos patins e quando eu vi, já estava agarrada a suas mãos, tentando me manter de pé no gelo escorregadio. Benjamin sorria abertamente, me ajudando a manter o equilíbrio. Caí de joelhos e escorreguei para os lados diversas vezes, arrancando risos de Bem e de mim mesma. Demorou cerca de cinco minutos para eu conseguir fazer meus pés me manterem de pé sem tanto esforço, mas ainda assim eu estava levemente tonta por causa das cervejas. Benjamin continuou segurando minhas mãos e me guiando pela pista. Passávamos por entre as pessoas e eu ficava olhando para o alto, admirada com todo o cenário ao redor.

— Obrigada por isso. – falei desviando o olhar dos prédios e da grande árvore. – Esse lugar é incrível, Ben. Mas só você mesmo para me trazer aqui depois de me embebedar.

   Ele riu, parecendo feliz.

— Não precisa me agradecer, Ally. – ele disse carinhosamente, deslizando para o lado e me levando junto. – Você parece um pouco desanimada desde que nos encontramos. Eu só queria... Não sei. Te deslumbrar um pouco, eu acho.

— Você sabe como deslumbrar uma garota. – sorri. – Parabéns. O combo cervejas mais pista de patinação e muitas luzes com certeza causam o efeito de deslumbre. Eu vejo cinco vezes mais luzes do que realmente deve ter aqui.

   Benjamin riu alto e me puxou um pouco para mais perto dele, enquanto deslizávamos para a saída da pista. Devolvemos os patins e nos colocamos a andar para fora do local calmamente.

   Ben me acompanhou até o meu carro e ficou ao lado da janela enquanto eu me acomodava no banco e abria a janela.

— Tem certeza que consegue voltar para casa? – perguntou preocupado. – Eu posso te levar e amanhã você pega seu carro.

— Eu estou bem. – pisquei para ele, enquanto colocava o cinto de segurança. – Depois da patinação e de quase quebrar a perna eu voltei a ficar sóbria.

   Ben revirou os olhos e me olhou com desconfiança, se apoiando na janela. Peguei sua mão e dei um beijinho, sorrindo levemente para ele.

— Obrigada pelo deslumbre.

   Um sorrisinho contido apareceu em seus lábios e ele assentiu levemente, parecendo satisfeito. Liguei meu carro e saí do estacionamento, vendo a figura de Benjamin pelo retrovisor me olhando ir embora, com as mãos nos bolsos da calça social.

***

   O sábado amanheceu com um sol tímido atrás das nuvens. Estávamos na metade de novembro e o frio já estava presente. Tomei um banho quente assim que acordei, vesti uma calça jeans e um suéter e fui para a cozinha, a procura de Eve. Encontrei ela e Jack sentados na mesa de jantar, com a mesa de café da manhã posta. Jack bebericava uma caneca de chocolate quente e observava Eve, que tinha uma pasta amarela sob seu colo e algumas folhas espalhadas a sua frente, quase caindo dentro do prato de panquecas.

— Bom dia, amores da minha vida. – falei, sentando à frente de Eve e pegando um pratinho para me servir. – Algum problema?

— Eve está enlouquecendo e eu estou tentando lembra-la de que ela trabalha para cuidar de crianças, e não mata-las. – Jack falou.

   Arregalei os olhos para Eve, que bufou e lançou um olhar cortante para Jack. Sorri diante do seu óculos caindo do rosto e seu bico de insatisfação nos lábios.

— Não exagere. – ela resmungou para seu noivo. – O que acontece é que tem umas crianças que não sabem o significado da palavra respeito, porque dentro de casa elas são criadas por uns pais filhos da p...

— Olha a boca. – Jack falou com uma voz séria e grossa, mas um sorrisinho nos lábios.

— Problemas com bullying? – perguntei.

— Sim. – ela suspirou, tirando os óculos e reunindo todas as folhas, guardando-as dentro da pasta e deixando-a de lado. – Eu esqueci como era estar em uma escola do fundamental quando consegui esse emprego. Tem um grupinho de garotos do oitavo ano que não param de perseguir alguns alunos do sexto ano. A vontade que eu tenho é de pegar uma mesa e jogar em cima deles.

Eve. – ralhei, com a boca cheia de panqueca e a voz embolada. – Eu não tenho dinheiro para te tirar da cadeia, pelo amor de Deus. São crianças.

— Eu sei, e eu amo aqueles pirralhos. – ela choramingou, passando as mãos no rosto. – Mas eles me deixam maluca! Você acredita que eu chamei os pais deles no colégio e nem metade apareceu para saber do problema? E que os que foram conversar comigo foram tão babacas quanto os filhos? Falando sério, se você coloca uma criança no mundo, poderia ao menos tentar parecer bom para ele não crescer e ser ruim como você.

— É complicado... – murmurei, pensativa. – Você poderia planejar algo para tentar conscientizar as crianças sobre esse tema. E os professores, é claro. Muitos nem fazem ideia de como lidar com alunos que estão nessa situação.

— Sim, eu já estou vendo o que posso fazer. – ela disse, dando uma mordida em uma torrada e olhando distraidamente para a grande janela atrás de mim. – Algo que não envolva eu sendo presa por fazer justiça com as próprias mãos.

   Sorri, revirando os olhos. Ela também sorriu para mim. Eve tinha todo esse temperamento impaciente, mas era um doce por dentro. Eu sabia que apesar de mostrar esse lado aqui, para eu e Jack, na escola ela devia parecer uma mãe preocupada com os filhos. Eu lembro do estágio que ela fez em um colégio na época da faculdade, de como ela era cuidadosa e atenta às crianças. De longe é algo improvável imaginar Eve como psicóloga escolar, mas olhando de perto eu vejo que é algo que ela realmente gosta. Apesar de todo o nervosismo.

— Então, o que faremos hoje? – Jack perguntou. – Você marcou de sair com Benjamin?

— Não, mas posso ver se ele quer fazer algo. – dei de ombros. – Do jeito que ele é animado, provavelmente vai topar na hora.

— Hm... – Eve me olhou com um sorrisinho sugestivo. – E como foi ontem à noite?

— Bebemos e depois ele me levou ao Rockefeller Center. – sorri. – Aquela árvore é incrível! Patinamos por um tempo e depois eu vim embora.

— Só isso? – Eve continuou com o bendito sorrisinho.

   Revirei os olhos, percebendo o que ela estava querendo dizer. Peguei um biscoito amanteigado do pote de biscoitos e joguei nela, que ria enquanto Jack a acompanhava.

— Vocês são dois idiotas. – resmunguei enquanto jogava mais mel nas minhas panquecas. – Eu e Ben somos amigos.

— Mas você já foi apaixonada por ele. – Jack piscou para mim, ainda rindo. – Aliás, eu até ouvi falar que você escrevia o nome dele no seu caderno todinho e desenhava vários corações...

   Semicerrei os olhos para Eve, metralhando-a com o olhar, e eu colocou uma mão na frente do rosto, enquanto mastigava e prendia o riso.

— Eu era uma jovem menina apaixonada e bobinha. – falei, tentando explicar aquilo. – Aliás, eu não sei se já te contei, Jack...

   Eve ainda ria enquanto levantou o olhar para mim, bebendo um gole de seu café. Sorri vingativa e continuei.

— Mas a Eve também adorava rabiscar corações na agenda dela. – sorri deliciada ao ver o olhar arregalado de Eve. – E o que ela mais adorava escrever era “Eve Smith”. Tinha até alguns desenhos que ela fazia de você e...

   Um biscoito voou para o meio da minha testa e eu ri, vendo o rosto totalmente vermelho de Eveline Walker.

— Chega de falar do passado, né, amiga? – ela disse, ficando de pé e pegando seu prato e xícara sujos.

   Jack sorria de orelha a orelha, todo bobo por saber que Eve já pensava nele daquela forma anos antes. Ele não conseguiu se conter e a seguiu até a cozinha, abraçando-a por trás e enchendo seu rosto de beijinhos. Ela ria e batia nele de leve com o pano de prato, tentando afastá-lo. Fiquei observando-os de onde eu estava, rindo deles.

   Eu os amava tanto.

***

   Eve demorava para escolher um bendito sorvete tanto quanto demorava para decidir que roupa vestir. Nós decidimos andar um pouco pelo Washington Square Park, próximo ao apartamento, durante a tarde enquanto Jack resolvia algo relacionado ao seu trabalho. Algumas famílias faziam piquenique, alguns grupos de amigos estavam reunidos debaixo das árvores... Era um lugar bem relaxante. E eu já havia batido minha cota de “turista” do dia ao correr até o Arco do Triunfo igual uma criancinha, pedindo para Eve tirar uma foto minha na frente dele. Quanto mais eu via essa cidade, mais encantada eu ficava. Tinha um ar tão diferente da Califórnia, de tudo o que eu tinha vivido até hoje.

   Meu celular vibrou dentro da bolsa e eu acordei dos meus devaneios. Peguei o aparelho calmamente, enquanto respirava o ar puro do parque.

   Eram mensagens de Cameron. Havíamos nos falado brevemente mais cedo e ele disse que poderia conversar melhor mais tarde.

   “Meu pai vai precisar de mim para terminar de resolver alguns casos, então provavelmente só poderei me mudar em definitivo em Janeiro. Estou com saudades, amor.”

   Quase dois meses... Eu pensei que antes do natal ele conseguiria vir, mas pelo visto, não. E estranhamente eu não me senti incomodada com isso. Mas deveria, Allison. Deveria se sentir incomodada e triste e chateada e o que quer que fosse, porque ele é o seu (quase) noivo, não é?

   Eu já devia ter desistido de tentar entender a mim mesma.

   Digitei uma resposta rápida para Cameron.

   “Também estou com saudades. Pensei que conseguiria vir a tempo para o natal, mas tudo bem. Vou te esperar.”

   “O que tem feito de bom?”

   “Não consegui ver muita coisa ainda. Apenas alguns parques e barzinhos, tenho trabalhado bastante.”

   “Espero não ter que lidar com nenhum nova-iorquino querendo te tirar de mim quando eu chegar aí, haha.”

   Sorri fracamente, digitando apenas uma risadinha e enviando. Eu não quis falar sobre o meu reencontro com Benjamin por dois motivos:

 

Cameron não sabe sobre toda a história. Eu nunca contei sobre Benjamin, Daniel e tudo aquilo. Empurrar a caixa de lembranças para o fundo da mente envolvia não falar sobre. Nunca.

 

Cameron era muito ciumento. Esse era um dos pontos que eu mais odiava nele. Era difícil ter amigos ou coisa assim. O único homem com quem Cameron não implicava era Jack, e isso depois de um bom tempo, quando ele finalmente percebeu que Jack vive para Eve como se ela fosse o ar que ele respira. Se eu falasse qualquer coisa sobre Benjamin, era capaz de Cam pegar um voo para Nova York na mesma hora.

   Finalmente Eveline Walker (quase Smith) retornou com nossos sorvetes. Peguei a casquinha de morango de sua mão, olhando-a com desconfiança.

— Você foi tirar o leite da vaca para fazer o sorvete? – perguntei. – Eu estava quase morrendo de tanto esperar.

— Exagerada. – resmungou. – Não reclame, só coma.

   Sorri e a cutuquei com o cotovelo, arrancando um sorrisinho dela também.

— O Cam acabou de mandar uma mensagem. – falei, enquanto lambia meu sorvete. Eve fez uma careta  de nojo para mim, fazendo-me revirar os olhos. – Não faça essa cara.

— Meio impossível, quando esse nome é mencionado. – ela disse baixinho, mas logo sorriu abertamente, em uma falsa felicidade. – Mas me conte, o que o seu maravilhoso noivinho disse?!

   Não consegui conter o riso diante da sua ironia. Eve era uma palhaça.

— Pelo o que parece, o pai dele ainda precisa de seu serviço no escritório. Então ele só conseguirá vir em janeiro.

— Graças a Deus. – Eve sussurrou, olhando para o céu azul. – Vou poder ter a sua companhia por mais tempo.

— Você sabe que eu preciso de um canto só meu, Eve. – suspirei. – Vou começar a procurar na semana que vem.

— Não... – ela murmurou, me olhando com uma feição tristonha. – Espere o natal passar, por favor. Nossas mães virão para a cidade, é uma oportunidade maravilhosa para estarmos todos juntos.

— Tudo bem. – sorri. – Mas assim que o natal passar eu vou procurar um apartamento.

— E eu te ajudarei. – ela piscou.

***

   Às sete e quarenta da noite, Benjamin buzinou na frente do prédio.

   Eu, Eve e Jack já estávamos prontos. Trancamos o apartamento e descemos rapidamente. Como iríamos todos juntos a um pub, Benjamin se ofereceu para nos levar em seu carro. Eve e Jack o cumprimentaram animadamente e Benjamin não conseguiu se conter na hora de elogiar Eve. Ela estava bem diferente daquela menina rabugenta de 6 anos atrás.

   O casal foi no banco de trás e eu fui na frente com Benjamin.

— Vocês vão adorar o lugar! – ele sorriu. – Geralmente tem show ao vivo dia sim, dia não, mas hoje me disseram que não vai ter. Porém, é muito bom de qualquer forma.

— Podemos voltar quando tiver show também. – falei.

— Er... – seu sorriso vacilou um pouco, incerto. – Podemos sim, claro.

   O local tinha uma decoração bem rústica, mas era espaçoso e bem organizado. Havia tijolinhos aparentes nas paredes, poltronas pretas e confortáveis e mesas de madeira. Era bem aconchegante. Por ser sábado à noite havia bastante gente, mas encontramos uma mesa vazia no lado esquerdo do local, próxima ao palco. Enquanto sentávamos, vimos vários instrumentos montados no palco iluminado no fundo do local. Alguns homens afinavam os instrumentos.

— Olha, a banda parece estar aqui hoje. – observei, cutucando Ben com o cotovelo. – Você não disse que não iria ter show hoje?

   Quando voltei meu olhar para Ben, ele tinha seus olhos levemente arregalados e os lábios um pouco abertos. Parecia surpreso. Será que ele gostava muito da banda e estava surpreso por ela estar aqui hoje? Ou era muito ruim e ele ficou com medo de ouvirmos e odiarmos o lugar? Das duas, uma.

— Er... Sim, eles... – ele gaguejou, passando uma mão nervosamente na nuca. – Eu vou buscar algumas bebidas para nós, ok?

   Assentimos e ele levantou da mesa. Olhou para a banda durante todo o caminho até o balcão do bar.

— Ele parece nervoso. – Jack cochichou. – Aconteceu alguma coisa?

   Dei de ombros, murmurando que também não sabia. Logo Benjamin voltou para a mesa e nos deu nossas bebidas, ao mesmo tempo em que o vocalista da banda falava ao microfone:

— Preparados para mais uma música? – ele perguntou.

   Todos no local gritaram que sim, enquanto um frio congelante percorria a minha espinha. Arregalei os olhos, enquanto meu coração acelerava e todo o meu corpo respondia àquela voz, à presença.

   Olhei rapidamente para o palco, vendo o vocalista sentando sobre uma cadeira alta na frente do microfone. Ele sorriu abertamente para os outros membros da banda, fazendo um sinal para que começassem. E quando ele voltou seu olhar verde para o público, eu senti minha respiração ficar presa dentro de mim.

   Daniel Sullivan estava bem na minha frente. Novamente.



Notas finais do capítulo

AI MEU DEUS ♥
Cadê as que estavam ansiosas para o retorno do Daniel? hahahaha. Espero muito que tenham gostado do capítulo! Prometo que tentarei não demorar com o próximo, gente. Me digam o que acharam, por favorzinho ♥

P.S: Quem participa do grupo sabe que eu sempre aviso lá quando acontece algo, o motivo do atraso dos capítulos, etc. Então se você ainda não participa do grupo, corre lá!
https://www.facebook.com/groups/209079426170113/?fref=nf

Bjbjbjbjbjbjbj



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Collide" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.