Recomeço escrita por Katherslyn


Capítulo 5
Capítulo 5


Notas iniciais do capítulo

Quase desisti dessa fic, mas o desafio de dezembro/janeiro ta acabando e preciso terminar.




Eu tinha prometido a mim mesma quando aceitei dar um depoimento pra essa campanha de que seria forte. Mostraria pra todos, e isso me incluia nesse meio, a imagem de alguém que poderia fazer qualquer coisa, e provaria de uma forma ou de outra que os meus limites não me colocavam pra baixo, nunca.

Uma coisa que não segui, e percebo agora que isso seria fingir algo que não é real. Então eu ficaria em panos leves, não tocaria em assuntos muito sérios, e conseguiria fazer um bom trabalho.

Mais de uma vez os produtores insistiram pra que eu tocasse num assunto que não me agrada nem um pouco. E eu sei que, em algum nível, mostrar um pouco de fraqueza é humano, mas mostrar pra si mesmo que não consegue algo é difícil. Assumir que não é forte o suficiente, ou maduro, ou seja lá o que for.

Tem coisas que não superei ainda, e que talvez não vou conseguir superar nem nos anos que me restam. Porém, eu vou fazer o possível pra cumprir o máximo possível das minhas metas, mesmo que isso requeira mais esforço do que geralmente me permito. E é isso que vou fazer.

Perder uma pessoa querida é uma dor irreparável. Não importa quanto tempo passe ou o que faça, em algumas ocasiões, tudo volta.

Uma festa de família, um aniversário. Assistindo a um filme, ouvindo uma música, andando por uma praça. Passando pelos lugares favoritos daquela pessoa que se foi. As lembranças vem mais rápido do que adormecer nos dias de muito sono.

Convivendo diariamente com pessoas na minha condição, fazem com que eu acredite que a morte é aquela que está ali, logo na porta. Tão perto, com tão pouco a impedindo de entrar. A produção me pediu pra tocar nesse assunto, e não é fácil. É como aquele refluxo, que sobe ardente por sua garganta, mas resolvi fazer um esforço.

Falar das pessoas que conheci e que se foram, seja por uma doença ou não, é doloroso demais, principalmente quando se trata da mulher que me deu a vida.

Quando eu fiz 12 anos, minha mãe entrou em uma tremenda depressão. Não sabia o que era na época, mas me assustei pra caramba. Mariana passava tempo demais se lamuriando, amaldiçoando meu pai e qualquer coisinha a tirava do sério. Ela culpava a vida, culpava Deus, qualquer coisa que pudesse. E acima de tudo, e o que considero um dos seus piores alvos, ela culpava a si mesma.

Nessa época, alguns vizinhos comentavam muito sobre nós duas, e bochichos assim irritavam minha mãe mais do que quando eu falava do meu pai. Não foi uma surpresa quando ela anunciou que iríamos nos mudar de casa, decisão essa que fazia com frequência e sem me consultar.

Se bem que nunca tive do que reclamar. Ir para um lugar novo era recomeçar do zero, ter a chance de corrigir o que fiz de errado e me ver livre dos comentários maldosos e perguntas inadequadas, que sempre me deixavam trêmula e com uma resposta mentirosa na ponta da língua.

Naquela nova escola, procurei não me enturmar com ninguém e ficava o mais invisível que conseguia. Não queria sentir a rejeição pelos meus colegas de classe, não queria ver ninguém com nojo ou se afastando. Se eu fosse a primeira a dar as costas, não sentiria a dor de ser deixada sozinha outra vez.

Por sorte, nunca era tão longe a ponto de me tirarem do grupo de apoip no hospital, onde naquela altura eu tinha meu primeiro quase namoradinho.

Me lembro das primeiras vezes em que vi mamãe desistindo de tomar seus remédios habituais. Tínhamos uma rotina de longa data, ver ela atrasando seus conprimidos ou se negando a tomá-los foi um tremendo choque. Quando criei coragem o suficoente, perguntei a ela o motivo de só eu estar tomando aqueles remédios, e ela me mandou não aborrecer. Dias depois, quando eu a vi mal, perguntei mais uma vez dos remédios e ousei dizer o que aconteceria se eu parasse de tomar. Ela ameaçou me espancar se eu oussasse parar com meu tratamento, e me mandou cuidar da minha própria vida. Depois disso, não insisti mais no assunto.

Pouco a pouco, ela foi desistindo de lutar. Definhando, apodrecendo, deixando que a sujeira se acumulasse sem uma limpeza. Abrindo mão do tratamento, ela ficou exposta a todas as doenças possíveis e ficou em estado vegetativo. Não demorou muito pra que a minha tia, Vivian, ficasse sabendo disso, e decidisse ajudar.

Mamãe não ia mais nas minhas reuniões escolares, não me perguntava sobre como ia meus dias na escola, não me levava mais para o hospital. Tia Vivian ia assumindo todas essas funções enquanto mamãe abria mão delas. Não demorou muito pra ela ser internada. Ainda me pergunto se eu poderia ter feito algo pra contornar isso, pra motivá-la, pra fazer com que mamãe lutasse. Vivian ainda diz que minha mãe foi longe até demais, e que ela só viveu tempo por minha causa : queria se certificar de que eu ficaria em boas mãos.

– Sua mamãe está doente. Sabe disso, não sabe querida? -minha tima me perguntou certa tarde. - Ela não está bem, e infelizmente não vai poder voltar pra casa. Vou cuidar de você, querida. Vou cuidar de você agora.

Provavelmente, eu pressentia o que iria acontecer, porque lá no fundo sabia o motivo pelo qual a mamãe não voltaria. Cada vez que eu ia visitá-la no hospital era uma visita pior que a outra, ela aparentava estar de ruim pra péssimo, de horrível pra irreconhecível.

Às vezes, ela me deixava ficar sentada ao seu lado na cama, desce que eu ficasse quieta. Mamãe olhava pra mim, chorava baixinha e pedia desculpas. Em outras, não aguentava ouvir meu nome, e mandava que ninguém me deixasse chegar perto dela.

Foi naqueles momentos, em que eu a vi tão triste e arrasada, que jurei a mim mesma que nunca iria desistir. Era no que eu pensava, no quanto era lastimável uma cena daquelas. Eu faria o possível pra não deixar quem eu amasse me ver daquele jeito, jamais.

Meses depois, o final dela chegou. O dia em que soube da morte da minha mãe marcou definitivamente a minha vida. Sentia um aperto horrível no coração, que parecia não ter fim. Era como se tivessem tirado o chão em que eu pisava, algo que tivesse sido arrancado dolorosamente de mim. Parecia até que eu estava sendo asfixiada, como se algo me impedisse de respirar.

Não é fácil perder aquela pessoa que era o seu tudo, seu porto seguro. Às vezes, a saudade bate e a dor volta, mas sei que estou indo bem. Um dia, vou me reencontrar com ela, sei que vou. Em algum paraíso, vou ter a mãe que nunca tive, aquela feliz e sorridente, e vamos ter boa saúde e sorrisos pra trocar.

Por sorte, tive Vivian do meu lado, e mesmo antes de mamãe nos deixar ela cuidou de mim. Não me deixava faltar nada, me ajudava dia após dia. Foi como ganhar uma segunda mãe, e agradeço todos os dias por ela, que não tinha obrigação nenhuma comigo.

Tia Vivian me tratava com uma normalidade especial, mesmo que eu fosse, em algum nível, diferente. Ao contrário de mamãe, ela não aceitava o fato de eu ter uma doença como justificativa pra tirar notas baixas, não ter amigos, viver isolada e trancada dentro de casa.

Isso colou nos primeiros meses logo após a morte da mamãe, mas depois não teve mais jeito. Só que isso me fez muito infeliz, em certo nível, ou era assim que eu pensava. Vivian tentava me fazer socializar, e isso na maioria das vezes era um desastre.

Quando meu primeiro namorado morreu, ela abriu una brecha, e deixou que eu me isolasse um pouco mais. Alguns anos depois, cheguei a abrir meu coração pra outro garoto, mas não deu certo. Ele era um ótimo cara, mas não me entendia ao todo, e achava que eu vinha com bagagem demais.

Com a maioridade, passei a me mudar com mais frequência do que quando criança, e dessa vez cheguei a atravessar cidades e estados.

Contudo, como fugir de si mesma? Eu sei, eu já tentei, não dá. Isso serve pra você também. Pare de evitar o que te faz bem, pare de negar quem você é. As pessoas podem aceitar ou não, isso é irrelevante. O que importa é a bagagem do coração e da mente.

É difícil, eu sei. Você já está no fundo do poço e vem alguém pra pisar em cima e jogar na sua cara o quão baixo você está. Mas se está no fundo do poço, o único caminho pra sair dali é subir. Vá em frente, mostre a todos que você pode





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