Ágda escrita por Maresia


Capítulo 8
Discórdia




Ângela dava voltas na cama ansiosa por adormecer e abafar todas aquelas dores que lhe martelavam pesadamente por todo o corpo, fruto amargo de todas aquelas horas de treino. Deu mais uma dolorosa volta, olhando o pequeno relógio dourado que sossegado dormia sobre a mesinha-de-cabeceira de pinho, uma da manhã, pensou ela tristemente, já fazia um ano que chegara a Bluegard e nunca se lembrara de ter uma noite tão complicada.

— Parece que Morfeu se esqueceu de mim esta noite. – Pensou ela tristemente, remexendo na fofa almofada de penas.

Uma e meia, duas horas e nada do aconchegante encantamento do sono, o mundo dos sonhos fechava a sete chaves as suas portas de rubis evitando a entrada da jovem e dedicada aprendiza. Numa atitude desesperada, levantou-se e dirigiu-se até à deserta cozinha para beber um copo de leite, segundo Serafina era a melhor e mais eficaz poção para vaguear tranquilamente através das pontes douradas que conduziam até ao fascinante mundo da fantasia. Voltou para a sua caminha de lençóis de linho branco, enroscou-se na sua almofada e finalmente viu a entrada do tão desejado mundo, mergulhando nas suas quentes e surreais profundezas.

Ângela estava cada vez mais forte e mais bonita à medida que o tempo fazia a sua irrepreensível passagem por Bluegard, pensava Dégel enquanto se agitava debaixo dos seus cobertores felpudos, a noite também não estava a ser favorável para ele, pensamentos e pensamentos invadiam sem permissão a sua mente cansada. Levantou-se e dirigiu-se também ele à escura cozinha para beber um pouco de água, pelo menos esse era o seu plano original.

Quando atravessava com paços lentos o largo corredor onde se situava o confortável e perfumado quarto da sua aprendiza, escutou a sua voz falando durante o sono. Parou imóvel junto à porta castanha, colocou a sua fria mão na maçaneta de bronze, rodou-a sem fazer barulho e entrou cautelosamente tateando na escuridão com fragância de rosas.

— Não entres, vais arrepender-te no segundo a seguir. – Repreendeu-se a si próprio, porém de nada serviu a repreensão.

Caminhou devagar até que por fim sentiu a cama da menina tocar-lhe docemente nos joelhos. Sentou-se, escutando atento o profundo dormir da bela menina. Ergueu uma mão trémula e indecisa, procurando os belos cabelos de fogo que tanto adorava, acariciou-os com ternura, até que…

— O que pensas que estás a fazer? – Perguntou em voz baixa mas irada Unity, entrando no quarto.

— Eu? Bem nada. – Respondeu o Aquário, levantando-se de um salto.

— Nada, como assim nada? – Perguntou o jovem louro desconfiado, acompanhando Dégel até ao corredor.

— Não tenho que dar justificações, Unity. – Respondeu o dourado zangado.

— Não tens? – Interrogou o irmão de Serafina furioso. – Eu acho que nós temos que ter uma conversa muito importante. – Disse, segurando o braço do amigo, arrastando-o até à biblioteca, fechando a porta com força nas suas costas.

— Nós não temos nada para falar, vou dormir de novo. – Disse Dégel, o seu sangue habitualmente gelado fervia como o fogo.

— Acredita que temos. O que sentes por Ângela? E não me mintas porque eu sei que se passa alguma coisa, ouviste bem? – Perguntou o jovem nobre irritado.

— Tu estás maluco. – Retorquiu o dourado indignado com aquela questão.

— Não negues, conheço-te melhor do que tu próprio. – Afirmou Unity irredutível.

— Não sabes o que dizes. – Retorquiu de novo o cavaleiro. – Não sei como tens coragem de afirmar tal coisa sobre mim, eu sou o teu melhor amigo, mas acho que temos que rever os laços que nos unem. – Concluiu Dégel. Unity estava certo, porém ele não iria dar parte fraca naquele assunto. Todos aqueles sentimentos deviam ser reprimidos, eram um grave erro.

— Sei que és demasiado orgulhoso para assumir tal facto, todavia recorda-te que és um cavaleiro de ouro e lembra-te ainda o que isso implica. Tu sabes que tens de a esquecer ela é tua aluna, tua aluna. – Avisou o jovem louro com a ira a dançar-lhe nos brilhantes olhos cor do mar.

— Eu não sinto nada por ela, ouve bem o que te digo. – Gritou Dégel nervoso, perante o olhar acusador do seu amigo.

— Pára de mentir, não vale a pena. – Exaltou-se Unity dando um murro na mesa. – Já basta teres-lhe traçado o pior dos destinos, por favor não lhe pintes o futuro de negro. – Pediu.

— Jamais faria algo para a prejudicar. – Afirmou o jovem Aquário, indignado com aquelas insinuações. – Jamais!

— O aviso fica feito. – Finalizou Unity, saindo rapidamente da biblioteca.

— Quem é que ele pensa que é para dar lições de moral, logo ele. Eu não sinto nada, nada. – Pensou Dégel furioso, dirigindo-se ao seu quarto.

Na manhã seguinte, Ângela não sonhara o que tinha ocorrido entre o seu mestre e o seu grande amigo. Quando entrou na sala para tomar o pequeno-almoço compreendeu de imediato que algo estava errado, as suas expressões eram pesadas e distantes, porém nada perguntou, comeu rapidamente e saiu para aproveitar o dia de folga.

Vagueou sem destino pela bela e graciosa aldeia, cumprimentando aqui e ali algum aldeão madrugador. Finalmente deixou a aldeia para trás imersa naquela manta de gelo brilhante. Sentou-se numa pedra fria, olhando penetrante o céu. Vislumbrava com tristeza o seu perdido passado, perdido em sombras de gelo branco e macio.

— Quem sou eu? – Perguntava em voz baixa. – De onde venho? – Insistia em vão.

As lágrimas caíam-lhe em torrente pelo rosto bonito e doce, lágrimas de gelo e sol. Ficou ali durante muito tempo imersa no espelho vazio das suas inexistentes memórias até que algo captou a sua atenção.

Ergueu-se, recebendo os frios beijos da brisa nórdica, procurando a fonte da sua distracção. Caminhou, deixando os seus decididos paços no tapete branco e silencioso. Parou junto de uma enorme parede de gelo rígido e fatal, encostou o seu ouvido e escutou alguns latidos aflitos.

— É um cão, oh meu Deus! – Disse ela assustada. – Deve estar a morrer de frio. – Afirmou, procurando uma entrada para a gruta que se escondia atrás daquela espessa camada de neve. – Aguenta amigo! – Exclamou, compreendendo que a entrada estava completamente obstruída. – E agora? Bem só tenho uma opção. Afasta-te da porta cãozinho. – Pediu ela, rezando para que o animal a compreendesse. Um belíssimo cosmo envolveu o local. – Pó de diamante! – Gritou ela. Quando o seu justo punho tocou a superfície branca, milhares de partículas brilhantes voaram pela atmosfera, resultara.

No fundo da escura gruta, um pequeno cão branco aninhava-se assustado, tremendo de frio. Ângela correu até ele, agarrou-o e colocou junto do seu peito.

— Devias ter mais cuidado, não se brinca com o poder do clima nórdico. – Disse ela, recordando o dia em que o seu mestre a salvou das garras da perigosa tempestade branca.

— Acho que senti o cosmo de Ângela. – Comentou Dégel, parado na entrada principal da mansão.

— Achas que aconteceu alguma coisa? – Perguntou a bela Serafina a seu lado.

— Não, acho que não. Que cosmo incrível, apesar de ser ainda muito jovem e inexperiente a sua energia está repleta de justiça e sentido de cooperação. O que a terá feito despertar todo este poder? – Pensava ele preocupado.

— Dégel, estás bem? – Questionou a jovem de cabelos louros, vendo a expressão ausente do cavaleiro.

— Estou ótimo. Vou ao encontro de Ângela. – Decidiu.

— Não vale a pena. – Respondeu a doce aristocrata, apontando.

Ângela corria até ao nobre palacete senhorial, transportando o pequeno cão nos seus braços.

— O que aconteceu Ângela? – Perguntou o dourado, correndo até ela. Os seus inteligentes olhos pousaram sobre o volume branco que a menina protegia. – Senti o teu cosmo.

— Eu estava a passear e… - Iniciou a jovem aprendiza.

Quando Ângela finalizou a sua história, o Aquário estava bastante orgulhoso e esperançado. Finalmente a sua aluna libertara o poder que encerrara no seu interior.

— Posso ficar com ele? – Perguntou ela, já sentada com o cão junto da acolhedora lareira.

— Sim acho que sim, contudo ele será tua responsabilidade. – Respondeu o cavaleiro.

— Certo. O teu nome será Snow. – Anunciou a menina acariciando o cão do gelo. – Acho que ele gosta. – Sorriu para os que a rodeavam.

O cavaleiro de ouro sem conseguir evitar, olhou-a com admiração e carinho. Os seus olhos caíram docemente naquele cabelo ruivo, cor de cereja. Olhou caprichosamente aquele rosto doce e ternurento. Perdeu-se naquela imensidão marinha inscrita nos seus apaixonados e corajosos olhos. Uma brecha de ar frio fê-lo desfazer o encantamento, Unity entrara na sala apressadamente. Correu até Ângela, abraçando-a docemente.

— Estava preocupado contigo. – Disse, dando-lhe um grande beijo na face sonhadora.

Será este cão o impulso que Ângela precisa para libertar o seu cosmo? Será Snow o laivo de esperança tão desejado por Dégel de Aquário? Como será daqui para a frente a relação entre o cavaleiro e Unity?





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