Ágda escrita por Maresia


Capítulo 10
Por de baixo do capuz




Alguém caminhava furtivamente através do cenário silencioso e gélido. Um vulto desconhecido e arrogante, trajando um uniforme negro que sobressaía impecavelmente na neve prateada. O seu rosto estava oculto por um felpudo e misterioso capuz negro. Parou, escutando algumas vozes ali perto. Sem hesitar escondeu-se num aglomerado de gelo circular, observando atentamente o pequeno grupo que caminhava nervosamente.

– Bem, Ângela chegámos. – Disse a voz fria e inexpressiva do dourado de Aquário.

– Certo. – Respondeu a jovem, vislumbrando aquele lugar feroz e inóspito. Olhou horrorizada para uma ponte de gelo que abrigava um rio frio e moribundo, que fugia desesperado daquele clima, fugia para os braços do aconchegante oceano azul.

– Não achas que este local é demasiado perigoso, Dégel? – Perguntou Unity apreensivo. Contudo a única resposta que obteve foi um olhar repleto de recriminação por parte do seu melhor amigo. – Tudo bem, já não digo mais nada. – Resignou-se a muito custo. – Coragem Ângela, dá o teu melhor. – Recomendou enquanto se afastava do perímetro de combate.

– Obrigada. – Tentou prenunciar a jovem, todavia a sua língua estava completamente presa por apertadas cordas de nervos e angústia.

A atmosfera gelou ainda mais com o elevar de cosmo do cavaleiro do gelo, Ângela corajosamente seguiu-lhe o exemplo, como sempre fazia.

– Vamos lá, eleva o teu cosmo até ao universo! – Incentivou o mestre, dando-lhe um grande soco que resultou num brilhante fio de sangue quente decorando a testa da menina ruiva. – Vamos defende-te. – Ordenou Dégel aborrecido, atingindo-a desta vez com um valente pontapé, contudo desta vez a dedicada aprendiza respondeu com eficácia, rebolando no manto branco para se esquivar.

O cavaleiro executou um padrão de diferentes e potentes ataques, os quais Ângela se livrou com muita destreza e valentia, no entanto aquela atitude defensiva não agradava aos olhos observadores do dourado. Este atacava cada vez mais, usufruindo da sua fascinante velocidade para estimular os movimentos da sua aluna, porém os resultados positivos e aceitáveis estavam a milhares de anos luz de Bluegard presos por fortes correntes de diamante inquebrável.

– Se somente te defendes este combate não faz sentido algum. – Afirmou Dégel aprisionando a sua aprendiza num imponente círculo de gelo. – Liberta-te do meu Kalisto! – Ordenou virando costas.

– Se continuar assim, morrerei certamente congelada. – Pensava a menina desesperada, sentindo horrorizada o seu quente sangue percorrer-lhe o rosto ferido. – Tenho que me libertar. – Dizia ela, apelando a todas as suas forças e a toda a sua indomável coragem. – Eu serei uma amazona! – Gritou ela, intensificando o seu maravilhoso e suave cosmo banhado com milhares de flocos de cristais prateados.

– Que cosmo! – Exclamou o dourado, saboreando aquela energia repleta de coragem e força de vontade. Por fim, o apertado círculo estava desfeito e Ângela estava de novo a postos para o doloroso teste de admissão. – Parece que te conseguiste libertar. – Murmurou o jovem Aquário, lançando-lhe um olhar onde o desafio estava refletido.

– Sim eu consegui. – Assentiu a sua discípula, respirando com dificuldade.

O vulto encapuzado aproximou-se cautelosamente do local de fogo, camuflando-se imperfeitamente com as paredes e colinas de gelo branco. Os seus paços eram plenamente abafados pelo tapete macio e arrepiado. Até que por fim, possuía uma visão privilegiada do lugar onde Ângela superava dedicadamente os seus limites. Estagnou, pisando com força a neve brilhante. Ele não gostava de esperar e muito menos num lugar tão frio e desconfortável.

– Pó de diamante! – Gritou Ângela para espanto de todos ali presentes. A surpresa embateu com uma potência descomunal no espírito do cavaleiro que quase levou com o poderoso ataque.

– Não! – Berrou Dégel irritado, compreendendo que Ângela mudara a trajetória do golpe a escassos centímetros do seu elegante rosto, embatendo numa grosseira parede de gelo.

– Desculpe senhor Dégel. – Lamentou a menina, nas profundezas geladas e sofredoras do seu ser. – Acho que parti o pulso. – Afirmou em voz baixa, examinando a deformação que surgira no seu definido corpo juvenil.

Dégel olhou em redor, aquela pesada e insegura decisão viera a tona de forma brutal. Os seus olhos pousaram freneticamente sobre Unity que cravava nervosamente as suas unhas na palma da mão, onde cresciam pequenos jardins de vermelhões cintilantes devido à força exercida. Depois, o seu olhar vagueou desesperadamente até Ângela que arquejava imersa em dores no seu fino e partido pulso. Num último e derradeiro acto os seus olhos deslizaram até ao esconderijo da figura oculta pelo capuz. Um raio brilhante de esperança cintilou no horizonte gélido e decrépito.

– Não tenho escolha. - Pensou ele, voltando a observar a sua aprendiza. – Desculpa Ângela é a minha única chance. Não apenas a minha única, será também a tua derradeira oportunidade de te tornares uma amazona. – Cismou ele, abraçado pela dor e pela vergonha daquela ação. – Agora receberás um dos golpes mais potentes do cavaleiro de Aquário! – Exclamou, mergulhando na horrenda e deprimente tristeza. – Pó de diamante! – Gritou. O ataque assertou em Ângela numa dança perfeita entre dor e beleza. A menina foi atirada violentamente pelos ares, caindo desamparada naquele rio de gelo e perda.

O seu coração derretia com a pressão congelante das águas destruidoras. O seu corpo caía pesadamente como uma rocha no encantamento sufocante da inevitável dormência. A sua mente desfazia-se em mil cristais de gelo prateado, lançados pela justiceira mão do seu querido e dedicado mestre. O seu nobre espírito era duramente devorado pelas correntes confusas do destino. Os seus olhos mergulhavam numa cegueira eminente e ensurdecedora. Porém, antes que a jovem aprendiza caísse naquele sono infinito e sem retorno algo a fez acordar. Acordara ofuscada com a intensidade e perigosidade de um imenso cosmo que ameaçava a superfície cálida e antiga. Imergiu teimosamente, sentindo as algas da morte puxarem-na para as profundezas escuras e miseráveis daquele rio amaldiçoado. Finalmente, a sua cabeça irrompeu através das geladas águas assustadas, num raio de esperança e luz. Ao olhar em volta deparou-se com um cenário horripilante e desolador.

Quem se esconde por de baixo do capuz negro? Qual o cenário com que Ângela se deparou?





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