Friends escrita por sal


Capítulo 1
Capítulo 1


Notas iniciais do capítulo

Essa é provavelmente minha última fic, por uns tempos, de KNB. Eu tenho algumas fic não concluídas e eu quero focar nelas agora, então vou passar um tempo sem criar novas histórias.É minha primeira fic sobre o casal e eu espero que gostem. O próximo capítulo vai ser o último e eu confesso que tenho quase tudo planejado, mas ainda falta digitar, então não vou prometer uma data de postagem.Boa leitura!



Kise observa o pulso pálido, a pele macia e suave, algumas pulseiras balançam, mas ele não pode sentir o vento. Ele olha as mãos brancas e pequenas, os dedos finos e frágeis e imagina aquela mão na sua – Ela iria simplesmente se perder ali dentro. É como uma imagem Polaroid, simples, porém, com um toque diferencial, um ar de antiguidade e nostalgia que torna a imagem mágica.

Em seguida ele ver as sardas, muitas delas, marquinhas espalhadas em seus ombros, a pele leitosa em contraste com aqueles pontinhos escuros. Ele vê-las na sua clavícula, perto do seu pescoço e nas bochechas que estão levemente coradas. Ele encontra uma boca pequena e rosada, espalhada em um sorriso tão grande que seria capaz de iluminar o mundo.

Ele vê um corpo que parece tão minúsculo em comparação ao seu, como uma bonequinha de porcelana em uma loja de antiguidades. Ele vê cachos alaranjados caídas em seu rosto e ombros, selvagens e leves como as folhas no outono. Ele vê a pequena marca em seu queijo, um pequeno espaço entre seus dentes, uma cicatriz em sua coxa.

Ele consegue enxergar todo de maneira focada, como por trás das lentes de uma câmera, mas nunca pegando a imagem completa. Não vê seus olhos, não encontra nenhum rosto. Como pequenos pedaços de legos que podem construir castelos, mas não estão se encaixando no momento. E da mesma maneira que vieram, elas se vão. Todo se desfaz como um palácio de areia que finalmente foi alcançado por ondas.

Ele abre os olhos – sem lembrar-se de quando exatamente os havia fechado – E tudo que pode encarar é seu tapete na sala de estar, os pés de sua mesa talhada em madeira Nogueira, e diversas latas de cerveja vazias espalhadas ao seu redor. Sua cabeça de sente entorpecida, ainda enevoada pelo álcool e se sente quente e confortável onde está. Então ele fecha os olhos e tenta se concentrar novamente em seus sonhos. Ele quase sente o aroma de flores silvestres que vem dela, basta se concentrar um pouco mais. Infelizmente, ele cai em um sono sem sonhos antes de conseguir.

Abrir os olhos novamente não se sente tão bom quanto da última vez. Dessa vez a sala está iluminada, os raios de sol entrando pela janela sem cortinas, sua cabeça martelando, como se tambores de uma tribo estivessem retumbando em seu crânio e seu corpo está duro e dolorido por ter passado uma longa noite no chão.

Ele obriga-se a levantar e caminhar de forma inconstante para o banheiro. O rosto no espelho é estranho e envelhecido. Seus fios dourados parecem fragilizados como palha seca, seus lábios estão resacados e rachadas e uma palidez mórbida destaca suas olheiras. Kise fica mais do que feliz ao sentir a água fria bater em seu corpo e se esforçar para remover toda sujeira e todo o sentimento de estar sujo, esfregando sua pele até deixá-la avermelhada. É como se fosse uma nova pessoa depois de um bom banho e uma boa aspirina.

O ruim de se estar acordado é ter que lidar com a realidade. A mesa de sua cozinha está vazia, não há duas xícaras de chá prontas e não tem ninguém a beira do fogão mexendo os ovos e cantarolando Blink 182. Não há som algum. É tudo muito quieto e o apartamento parece inesperadamente vazio.

Ela não está lá.

Como um tsunami. As ondas estão recuando agora, faltam uns dez minutos para a destruição geral, mas o leito está exposto, revelando mais do que ele gostaria. E ele se lembra de ter ligado para Kuroko ontem, bêbado demais para falar algo decente, mas de alguma forma a sombra foi capaz de entendê-lo. E agora as ondas se formaram e caem sobre a cidade como a ressaca cai sobre ele. Destruidor, esmagador, ainda surpreendente, apesar de já ter sido antecipado.

Ela o havia deixado e não estava voltando.

Apesar de todo o espaço ele se sente claustrofóbico. Ele sai para o ar frio de Londres, o céu escuro e nublado, a ventania gélida. É quase hora do almoço e ele poderia comer um pouco. No entanto, essa foi uma péssima ideia. Londres é como uma caixinha de memórias, cada lugar, cada cenário, cada espaço por mais normal que seja, é apenas um gatilho para suas lembranças. Como uma caixa de Pandora que foi aberta: Ele não pode evitar as lembranças de escaparem.

Ele vê a Cafeteria preferida dela, ainda com um número relativo de pessoas naquele horário. Eram dois quarteirões de distância do seu apartamento – seu ex-apartamento. Kise lembra que foi um dos motivos de terem procurado um apartamento naquela região, porque ela adorava aquele lugar.

E ele lembra no natal de dois anos atrás, quando ela se fantasiou de Sally e ele de Jack e foram juntos para lá. As guirlandas, o pisca-pisca, o clima natalino e ambos rindo idiotamente da cara surpresa dos outros clientes. Foi seu Halloween no natal e foi perfeito. E agora é apenas uma lembrança e ele quer chorar, mas apenas balança a cabeça e segue em frente, pode apenas comer em outro lugar.

Mas em cada recanto é uma memória: A loja de discos onde ela encontrou o Vinil que faltava na sua coleção de Blink, as lojas onde ele comprava suas roupas e ela ria dos preços absurdos que ele pagava, os pontos turísticos que visitavam quando estavam entediados e os parques onde deitava em dias ensolarados, dividindo sorvetes e beijos. Londres o estava oprimindo.

A decisão de viajar veio rápida e ele não pensou muito sobre isso, só havia um dilema: Para onde ir. Ele definitivamente não queria ficar sozinho, então um de seus amigos serviria. Ele pensou em Kuroko, mas se deparar com aqueles olhos inexpressivos que pareciam ler sua alma não era uma boa perspectiva. Além disso, o Japão também continha algumas memórias que preferia não revirar.

Havia Aomine, mas ele estava no período de descanso e provavelmente iria para o Japão viver seu relacionamento-que não é realmente um relacionamento-mas que é sim um relacionamento, com Kuroko. Momoi realmente é um amor de pessoa, mas consegue ser incrivelmente inconveniente em momentos como esse e Kise não estava pronto para responder perguntas.

Akashi e Murasakibara estavam fora de cogitação, porque Kise realmente não se via passando um período de tempo com nenhum deles. Kasamatsu estava com um filho recém-nascido e Kise não atreveria levar toda sua tristeza para alguém que estava tão feliz com a vida.

Kagami. Ele estava de férias como Aomine e da última vez que conversaram ele admitiu que não sairia de Los Angeles. Era uma boa opção. Não só um país diferente, mas todo um continente, a America que parecia sempre brilhar e irradiar calor, as praias de LA sempre convidativas.

Ele pensou um pouco, rindo ao perceber que nesses momentos ele só era capaz de lembrar-se de seus antigos amigos, dos tempos de colegiais e que de alguma forma ainda conseguiram manter contato. Ele puxa o celular do bolso antes que possa se arrepender.

Ei, o que acha de passar sua temporada de férias na minha incrível companhia? É uma honra para você, eu sei, mas ainda espero sua resposta ( ノ゜ω ) ( . ‿‿ .)

É fácil fingir que está tudo normal por mensagem. Sua garganta se sente seca e áspera, sua voz deve estar horrível e ele só não está pronto para falar ainda. A resposta vem mais rápido que o esperado.

Acho que posso aguentar você por uns dias. A chave vai estar em baixo do tapete caso eu não esteja em casa para te receber. E pare de mandar essas carinhas ridículas.

Kise trêmula um sorriso para a mensagem.

( ω ) Sabia que podia contar com você Kagamicchi. ( )

Ele envia e ignora a resposta, dando meia volta para seu apartamento e acabando por não comer nada.

Ele ignora a parte da sua mente que lamenta o vazio do apartamento. Recolhe as garrafas do chão da sala, come uma pequena salada leve, marca um voo para o final da tarde e começa a organizar sua mala. Ele joga a maior que encontra no fundo do armário e joga metade de suas roupas na cama, tentando decidir quais devem ou não ir.

Ele espera a qualquer momento a vinda dela. Ele consegue ver perfeitamente ela chegar com passos suaves, uma bolsa sendo jogada no sofá e seu corpo reclinar confortavelmente na porta, os braços cruzados e sua pulseira com um pingente balançando vertiginosamente. Um sorriso resignado e carinho jogado em sua direção e sua voz suave repreendendo sua falta de organização.

Mas não há ninguém lá. Ele está sozinho. A próxima hora é gasta na escolha de roupas, produtos de limpeza e algo para o manter ocupado. Qualquer coisa em que ele possa focar para não pensar. Mas é inútil.

Ele encontra seu hidratante favorito de canela e ele quase pode sentir o cheiro que emanava de sua pele se misturando ao cheiro de campo dos seus cabelos. Um livro que definitivamente não pertence a ele está escondido entre seus CDs e ele se lembra de vê-la sentada em uma poltrona, os joelhos dobrados junto ao peito, os fios presos em um rabo de cavalo e os óculos escorregando para a ponta de seu nariz, seu rosto concentrado nas paginas a sua frente. Ele acaba por colocar o livro na sua mochila. E um velho cachecol que há tempos ela não usava ainda estava perdido junto de suas roupas. E um par de meias em sua gaveta.

O resto do dia passa em um borrão e ele já está em um avião, pronto para enfrentar mais de onze horas de voo. Ele pensa em ouvir algo em seu ipod,mas suas lista de reprodução é uma mistura de músicas boas e músicas que ela gostava de ouvir. Ele opta por resgatar o livro de sua mochila. Ele observa a capa escura, uma flor branca em destaque com um laço vermelho, suas raízes quase se perder na escuridão e atrás dela uma escada, única parte bem iluminada. Em letras brancas estão o nome da autora e o titulo “O Morro dos Ventos Uivantes”. Ele folheia distraidamente o livro e vai para o primeiro capitulo.

(...) Que bela região, esta! Em toda a Inglaterra, acho que não poderia ter encontrado um lugar tão completamente afastado da sociedade humana (...).

Ele adormece um pouco antes da visita dos irmãos Linton. Sonha com casas sobre morros, altos campos verdejantes e abertos, gados soltos e cabelos alaranjados, calorosos como os raios solares do entardecer.

Ele acorda ainda faltando quatro horas de voo. Pega seu celular e rola distraidamente entre seus aplicativos. A mensagem de Kagami está lá e ele a relê uma ou duas vezes. Kuroko já deveria ter contado a todos sua história e ainda sim Kagami nem sequer tocou no assunto. Se não fosse sua postura quase gentil, Kise pensaria que estava tudo normal. Mas Kise lembra que o ruivo sempre debochava quando ele falava de passar um tempo juntos. Dessa vez, ele deixou claro: Estava tudo bem Kise ir.

O fato da chave está debaixo do tapete é uma tentativa ridícula de Kagami mostrar que ele seria bem-vindo. Aquele ruivo idiota estava sempre fazendo coisas constrangedoras. Kise fecha os olhos e pode ver perfeitamente bem: Kuroko, Kagami e Seirin do outro lado da quadra. A energia nervosa em seu corpo que sempre surgia antes dos jogos e a empolgação que ele sentia vindo de todos os lados.

Mas ao abrir dos olhos a realidade retorna. Kagami vive do outro lado do mundo, uma das maiores conquistas da NBA, em especial para os Lakers, que já fez uma boa fortuna e tem uma saúde que pode segurá-lo em quadra até os quarenta anos se ele quiser. E Kise é um piloto comercial, saiu do mundo da moda para o anonimato, mas ainda é sócio de uma das maiores agencias de moda do mundo – em segredo, porque ele gosta de desfrutar sua privacidade – que acaba de ser chutado por sua namorada de quase dez anos e que agora está saído de seu país, sua casa, apenas porque não é capaz de lidar sozinho com isso.

É um pouco humilhante pensar dessa forma. Apenas, existem esses momentos, em que ele se sente sugado para um buraco negro na sua existência, quando ele se sente fraco e incapaz, como um verdadeiro perdedor. Ele se sente como estivesse novamente naquela quadra, com Aomine pairando sobre ele majestosamente e seu corpo incapaz de se mover. Só que dessa vez seu Senpai não está lá para ajudá-lo a levantar.

Mas Dayse estava. Agora também no tempo passado. Ele se lembra de seus piores dias, quando a exaustão era enorme e ele tinha que conciliar suas aulas e seu trabalho, ela também estava sempre cansada, a faculdade de medicina cobrando seu preço, mas Kise se enrolava ao seu lado na cama e a pedia para falar sobre seu dia e ela fazia exatamente isso.

Sua voz era lenta e suave, meio rouca ás vezes, e era como um farol. Não importava a tempestade ou a agitação do mar, Kise sempre foi capaz de voltar à realidade através dela, da sua presença. E agora que essa presença se foi, Kise sente a solidão profunda em seus ossos, sua âncora longe de ser encontrada.

Engraçado, porque enquanto crescia Kise sempre acreditou que ao chegar à fase adulta tudo seria mais fácil. As inseguras iriam desaparecer, ele teria o total controle de sua vida, e seria mias fácil tomar decisões. Mas ele está no auge de seus vinte e seis anos e sua vida parece ter sido virada de ponta a cabeça, tudo porque ela o deixou. Ele não havia percebido até esse momento o quanto era depende dela. Ou talvez não seja bem assim. Talvez as coisas já estivessem ruins para ele e a saída dela foi apenas o ápice.

Uma dor de cabeça estava se aproximando e ele decidiu parar de pensar. Pegou novamente o livro e procurou o ponto onde havia parado. Demorou um pouco para conseguir se concentrar novamente, as palavras ganhando vida, seus pensamentos distraindo-o de sua realidade.

(...) Aos quinze anos, ela era a rainha da região; não havia moça que se comparasse a ela. Ela sabia disso e tornava-se uma criatura altaneira e voluntariosa.(...)

Ele acordou para uma voz gentil e uma leve agitação em seu corpo. A aeromoça o olhava suavemente e demorou um minuto ou dois para Kise entender que eles haviam pousado. Ele corou profundamente e se desculpou, mas ela apenas sorriu. Ele saiu para encontrar um sol brilhante da America. Depois de quase Meia hora ele conseguiu retirar sua mala- houve algumas confusões com seus pertences, e sim, não era sua temporada de sorte – e finalmente seguir para fora do aeroporto.

Haviam combinado que Kagami não precisava vir buscar Kise, ele podia muito bem pegar um taxi, obrigado. O ruivo não havia ficado muito satisfeito, mas também não empurrou muito a questão. O fato era que Kise queria desfrutar sua própria companhia e se preparar psicologicamente para enfrentar outra pessoa.

Não importa o quão bom Kagami seja, hora ou outra ele vai trazer o assunto e Kise deseja estar preparado para falar sobre isso sem quebrar. É só que, ele tem medo de fazer isso agora e não se capaz de parar seus pedaços de se espalharem por ai, infinitas partes microscópicas dele, caindo em valas do universo, e ele se sente incapaz de se remontar.

Kise só espera que tenha feito à escolha certa. Agora sentando no confortável taxi e dando instruções para a casa de praia do ruivo. Ele se sente cansado. È cerca de uma hora da tarde aqui e cinco da madrugada em Londres. Então tudo bem, nesse momento ele pode culpar o Jet lag.





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