Juntos Contra o Clichê escrita por VILAR


Capítulo 9
Papéis são mais cruéis que pessoas


Notas iniciais do capítulo

Vamos questionar um pouco o ensino?
Vamos!



Contar para a minha madrinha sobre tudo o que aconteceu fora um dos desafios mais difíceis que cheguei a presenciar em toda a minha vida. Ela acabou me deixando sem internet por cinco dias. Para ajudar, os machucados só pioraram no dia seguinte; acabei sendo arrastada para o hospital mais tarde.

Desfilar pela escola com um enorme curativo no meu rosto não é bem a minha ideia de moda do mesmo jeito que sair da sala de aula a cada hora para passar uma pomada no ombro não é a minha ideia de aprendizado.

Atualizar Gabriel também não fora nada fácil. Cerca de dez minutos depois que saímos do “esconderijo” do Leo, ele havia chegado para me buscar. Aguentar seus sermões por todos os recreios da semana, sem poder sequer reclamar, fora a segunda pior tortura que sofri. Em primeiro lugar, claro, é esperar pelo retorno de Hunter x Hunter.

Como se já não bastasse todas as punições anteriores, todos os professores marcaram um teste valendo ponto para a semana seguinte. Confessar que não estava entendo grande parte da matéria para cada um deles me rendera diversos olhares reprobatórios. Ricardo, o professor que leciona história e se declara comunista, me recolhera de braços abertos, oferecendo-se para me ajudar depois das aulas. Mesmo sabendo que minhas dificuldades maiores eram em outras matérias, aceitei de bom grado. Concentrar-me em suas aulas fora um novo desafio, não conseguia desviar os olhos do Che Guevara em sua blusa. Depois de quatro dias tendo as aulas de reforço, percebi que meu querido professor de história só tem blusas com a estampa do revolucionário cubano.

Alternando entre fazer anotações loucamente nos meus cadernos, comer enquanto escutava os sermões de Gabriel, assistir mais uma aula de história quando todos já estavam em suas casas almoçando e aguentar esses dias sem internet era o resumo da minha semana. Não vira o Leonardo, sequer conversei sobre ele com o meu amigo. Não tinha tempo, mas vontade estava sobrando. Sonhar acordada com o quase-beijo do Leonardo pode me custar a média do primeiro bimestre, e isso definitivamente não posso deixar acontecer.

 A semana seguinte chegou trazendo os papéis que podem definir o meu futuro, tornando-o bem catastrófico se errar muitas questões sobre uma matéria que não quero cursar futuramente. Segunda-feira acabou logo com a minha esperança de me sair bem, contando com a sorte e com o pouco que havia entendido. Todas as questões de matemática eram indecifráveis para mim, até mesmo a prova de filosofia estava em um nível diferente, caíra tudo que o professor alegava termos visto ano passado. Oras, eu nem tive filosofia ano passado na minha escola, estávamos sem professor. Os dias foram passando e nada da minha situação melhorar. Química, física, biologia, sociologia... até mesmo Literatura – foi uma surpresa descobrir que eles separavam essa matéria do português. Cada dia era uma surra diferente. Sempre era a última a sair da sala de aula, torcendo para aprender a matéria só de ler as questões centenas de vezes por minuto. Ir embora sozinha não levantava meu astral; Gabriel se recusava a me esperar. Sexta-feira foi como uma dádiva. O dia começou mal, o teste de inglês estava muito avançado para o meu diploma de To Be aprendido desde a quinta série – para a minha sorte, consegui desenrolar um pouco por causa das séries que assisto e dos jogos –, mas terminou bem com o último testo sendo de história. Resolvi as questões de revisão sobre Iluminismo de olhos fechados, pois foi a minha matéria preferida do segundo ano.

Levantei para entregar a prova com orgulho de mim mesma, finalmente tendo completado essa semana horrível. O professor Ricardo olhou rapidamente meu teste e me devolveu um sorriso confiante, o qual tive o prazer de retribuir. Passei pela porta desfilando, o vento que passava pelas janelas do corredor balançava meus cabelos como se eu estivesse em um comercial de shampoo. Caminhei graciosamente, passos largos e braços colocados no corpo, sem esquecer o belíssimo sorriso orgulhoso, durante todo o trajeto até encontrar meu querido amigo. Desci até o primeiro andar mexendo em uma mecha do meu cabelo, me sentido a Gisele Bündchen, e logo estranhei a grande porta de vidro trancada, mantendo os alunos presos dentro da escola. O falatório estava alto, xingamentos à coordenação estavam saltitando de boca em boca.

Me espremi entre os grupinhos na busca pela cabeça ruiva perdida, encontrando-o logo depois de atrair magneticamente todos os cotovelos e mãos para o meu ombro machucado. – O que está acontecendo? – indaguei enquanto massageava a área dolorida.

— Antes de mais nada deixa-me alertá-la. – não perdeu tempo. Manteve a postura robusta e o cenho franzido, seu dedo indicador a centímetro do meu nariz. – Se descer as escadas daquele jeito novamente finjo que não te conheço para sempre.

— O que tem de errado no meu novo modo de andar? – indaguei incerta, arqueando a sobrancelha enquanto fitava os olhos castanhos do meu amigo.

Gabriel bufou em meio a leves risadas, seu tom irônico mais forte do que nunca, finalmente voltando à normalidade depois de tanto tempo focado nos sermões. – Novo modo de andar? Você parecia uma galinha com problema de coluna.

Antes que eu pudesse iniciar uma nova discussão, as caixas de som espalhadas pela escola ecoaram com a voz masculina que ouvi há algumas semanas, a mesma que estava louca para declarar-se para minha madrinha.

Atenção, alunos. Atenção.— começou, grave. – Hoje começa o feriado de carnaval.— ao contrário da minha outra escola, os alunos não comemoraram; nada de gritaria ou assobios ensurdecedores, consumiram a informação apáticos. Pude notar até mesmo alguns grupos tristes em passar alguns dias em casa. – Aproveitem com cuidado, preservando-se e nada de bebidas alcóolicas. Voltaremos às aulas na próxima segunda. — Logo depois o diretor anunciou que estávamos liberados. A porta de vidro sendo destrancada por um dos funcionários sincronizou perfeitamente com sua fala. Tenho certeza que eles já ensaiaram isso antes.

A minha vontade era de gritar e dançar, estava em êxtase, foi difícil me conter em meio à multidão indiferente. Pode descansar depois de duas semanas puxadas será como caminhar sobre as nuvens.

Voltar para casa caminhando ao lado do Gabriel continuou sendo a troca de “elogios” de sempre. Tentava manter uma conversa agradável, contudo ele não abria mão de seu mau-humor constante. Alertava-o sobre os perigos das rugas e da calvície prematura, entretanto o meu amigo preferia descobrir por si mesmo no futuro.

Em casa tive que atualizar minha madrinha sobre os resultados, só sairão quando voltarmos às aulas. Dei-a um abraço de urso para comemorar a folga e ela me respondeu dando a lição de que não devemos nos alegrar com os feriados do país, pois são uma perda de educação, dinheiro e blá-blá-blá. A minha felicidade não diminuiu porquê realmente precisava desse descanso, não passava por tanta dificuldade na minha antiga escola. Espero me acostumar em breve.

A tarde do dia seguinte chegou num um piscar de olhos, trazendo consigo um tédio que nem a internet conseguia curar, mesmo precisando atualizar os animes da temporada de inverno. Mandei algumas mensagens para o meu fabuloso melhor amigo, que fazia questão de respondê-las uma eternidade depois, chamando-o para andar por aí ou até mesmo visita-lo – estava ansiosa para conhecer mais sobre ele e principalmente sua televisão de não sei quantas polegadas. Ele fez questão de negar todas as atividades que propus e nem se importava em ajudar a escolher outra. Às 15h uma ideia espetacular invadiu minha mente e meu coração, abrindo as portas – e quase as minhas pernas – para uma pessoa que não vejo há longos anos.

Vamos visitar o Leo. – enviei a mensagem lotada de emojis sorridentes.

 

*

 

— Admita que estamos perdidos, caralho. – reclamava o doce Gabriel.

— Já falei que sei para onde estamos indo, cacete. – retribuía eu, a doce Sophie.

Mas realmente não fazia ideia por onde já passamos. Gravar direções nunca foi um dos meus pontos fortes, o que fazia meu irmão mais velho dizer que jamais serei uma boa motorista. Lembro-me desta rua, ou, bem, lembro-me do Leonardo desfilando por esta rua. Seguimos aleatoriamente pelas redondezas procurando uma casa ou loja que refrescasse minha memória sobre o caminho até chegar no “esconderijo”. Depois de meia hora andando em círculos, aguentando o calor e a reclamação do Gabriel, encontrei a rua que ficava a casa perdida no tempo.

A casa de tintura descascada e alguns piches parecia escondida atrás da grama gigante que cobria o extenso quintal, enfeava todo o bairro de casas humildes arrumadas. Ao chegarmos mais perto percebemos a porta de madeira escancarada, convidando qualquer um a entrar. Passei pela porta e parei para observar o sofá que poderia ter sido o meu caixão com Gabriel ao meu lado me cutucando com o cotovelo.

— Ô di casa! – chamei alto e não obtive resposta. Gabriel olhou para mim com as sobrancelhas arqueadas, confuso pelo que falei. Devolvi o mesmo olhar. Fala sério, não tem nada demais no meu modo de chamar.

Pensei em abrir a porta pela qual o bando saiu da última vez em que estivesse aqui, mas ao tocar a maçaneta um barulho de panela caindo quase me fez cuspir o coração. Caminhamos até lá. Reconheci a figura que picava algumas verduras em um pote. O baixinho balançava a cabeça ritmicamente, acompanhando a música em seus fones de ouvido. Troquei olhares com o Gabriel por uns instantes e apontei para a figura dançante com o queixo. Se tudo ocorrer como eu espero, sei muito bem o que acontecerá em seguida.

Gabriel chegou atrás do rapaz e colocou uma das mãos em seu ombro enquanto falava algo que nunca terminará. O baixinho reagiu rapidamente pegando seu pulso e rodando o corpo do meu amigo para trás, imobilizando-o enquanto ficavam de frente para mim. Não segurei minhas risadas, chegando a jogar a cabeça para trás. Não aconteceu exatamente como imaginei, mas a expressão aterrorizada de Gabriel estava hilária. Sem perder tempo, tirei meu celular do bolso e bati uma foto discretamente enquanto eles se entreolhavam.

— E aí! – cumprimentei enquanto segurava para não voltar a rir, tampando minha boca com uma das mãos.

O baixinho me encarou confuso, porém logo soltou um Gabriel completamente furioso. Meu amigo massageou o pulso.

— Você é louco? Porra! – controlou sua ansiedade para não voar em cima do rapaz, pois tinha certeza que perderia. Não quer ficar com uma marca como a minha na bochecha.

O baixinho focou-se nele, escrevendo na sua testa que pensava seriamente em bater no poste ruivo a sua frente. – Eu, louco?! Você é que chegou atrás de mim sem ao menos avisar!

— Nós gritamos quando chegamos aqui! – retrucou Gabriel aos gritos.

Antes que o rapaz respondesse me coloquei no meio deles, afastando-os com a mão no peito de cada um. Gabriel nunca admitiria, mas aposto que estava me agradecendo mentalmente. – De leve na neve, pessoal.

Depois de hesitar por um tempo, o baixinho desistiu e afastou-se mais. Apoiou-se em um dos balcões de madeira e cruzou os braços, suas sobrancelhas tão franzidas que dava para pular as sete ondas do Ano Novo em sua testa. – E então, o que estão fazendo aqui?

Coloquei atrás da orelha alguns fios do cabelo que tampavam minha visão e sorri. – Viemos visitar o nosso querido amigo, o Leo!

O baixinho me fitou intensamente, sem tentar esconder sua raiva emanando. Não consigo entender o motivo. Serão ciúmes?, pensei. – Ele não está aqui agora.

— Não tem problema. Podemos esperar ali na sala.

Comecei a andar em direção a porta, mas parei quando fui segurada pelo pulso. – Espera. – sua voz tornou-se mais séria. Quando virei para trás deparei-me com seu olhar intenso fuzilando o meu. – Você está me devendo uma luta, já que a nossa foi interrompida antes de decidir um vencedor.

As lembranças daquele dia voltaram como se fosse no capítulo anterior. Aguentar a luta com ele enquanto pensava que minha vida estava em jogo não foi nada legal. Foi desesperador achar uma maneira de ganhar da sua rapidez em poucos segundos. Agora, entretanto, pode ser uma boa diversão e treinamento. Pensava seriamente em aceitar seu pedido. Gabriel, por outro lado, alternava o olhar em nós, confuso, pensando se realmente seria idiota em aceitar.



Notas finais do capítulo

Hunter x hunter é um mangá cujo autor é conhecido pelos hiatus constantes de sua obra. Obrigada mesmo, hein, Togashi?



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Juntos Contra o Clichê" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.