O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 94
Solaris




Segundo Andar do Pandemonium, “O Labirinto Eterno”...

TELAS DE METAL CINZENTO SURGIRAM A PARTIR DOS ANTEBRAÇOS DA ARMADURA DE TEIGRA, juntando-se em uma espécie de escudo com a posição que ela adotou, um escudo que se opôs ao grande punho de Behemoth quando o cavaleiro-monstro caiu sobre ela, golpeando-a com todas as forças. O impacto do seu punho já foi o suficiente para fazer com que os joelhos de Teigra se dobrassem imediatamente, e a pressão que ele exercia fez com que a cavaleira sentisse o solo abaixo dela começar a ceder e quebrar, afundando os dois cada vez mais numa cratera que começava a se formar. Como imaginado, Behemoth é extremamente proficiente na área física. A força por trás dos golpes do Caçador de Monstro era fenomenal, capaz de facilmente se comparar a que alguém como Hozar trazia por trás de seus golpes, e a velocidade dele também não era nada mal, como provado por seu avanço rápido. A resistência dele também não é algo que pode ser subestimado, afinal de contas ele conseguiu sobreviver a um tiro direto do Magnum Solaris e continuar a lutar sem problemas aparentes. Basicamente, pelo que estava vendo, tentar enfrentar Behemoth em um combate corpo-a-corpo seria algo bem problemático. O ideal para lidar com ele seria tentar manter alguma distância e lhe atingir com uma barragem de golpes poderosos, e entretanto...

A cauda de Behemoth se moveu selvagemente, contornando as defesas de Teigra para atingir a cavaleira na lateral do corpo com força, quebrando a base dela e arremessando-a ao ar, embora ao menos fazendo isso com velocidade o suficiente para que o punho dele não a atingisse. Tch.... Criou e liberou chamas de posições estratégicas de sua armadura em meio ar para manobrar seu corpo com eficácia, aterrissando firmemente no chão já com os joelhos meio dobrados e seus braços estendidos em direção a Behemoth, ambas as mãos abertas. Seu oponente viu aquilo e foi rápido em avançar contra ela na tentativa de impedi-la..., mas Teigra foi mais rápida.

Solaris Lupara!

A partir dos canhões nas palmas de suas mãos, Teigra disparou duas poderosas rajadas de energia, tão grandes que praticamente toda a área a frente da mesma foi obliterada pelas duas, e o próprio corpo de Behemoth foi completamente engolido por essas rajadas. Um acerto direto, observou mentalmente Teigra, mantendo a descarga de energia constante apesar disso, sem nem pensar em parar. Mas não é o suficiente. Ela sabia disso, sentia em seus ossos. Por isso não se distraiu nem por um momento, mantendo-se sempre atenta.

Mas nem mesmo toda essa atenção fez com que ela pudesse reagir quando Behemoth emergiu do meio da rajada de energia bem diante dela, tendo suportado e atravessado toda a rajada para fazer seu caminho até Teigra, tudo isso para jogar seu braço para trás e acertar um soco poderoso direto no rosto da cavaleira. Um soco do qual ela não pode desviar.

O golpe lhe arremessou longe com uma força incomparável com a do golpe anterior, fazendo com que ela fosse arremessada desajeitadamente até a parede do outro lado em meros instantes. Brutal. Como eu pensei, ataques como esse não vão ser o suficiente para lidar com Behemoth, ao menos não com ele transformado. Ainda no ar ela cuspiu um pouco de sangue da sua boca e girou no ar, para que acertasse a parede com suas pernas, usando o impulso do que o golpe havia lhe dado para fazer com que elas se dobrassem rapidamente. Seus olhos se fixaram sobre Behemoth, e ela fez com que jatos de fogo viessem da sola dos seus pés, unindo eles a força artificial que sua armadura dava ao seu salto para disparar a si mesma em alta velocidade contra o traidor.

Mulher-Foguete! – Seu corpo cruzou a distância que os separava em um instante, atingindo Behemoth direto na boca do estômago com a sua cabeça com tanta força que ela podia muito bem ser o dardo disparado por uma besta. O Caçador de Monstros gemeu em dor com o golpe, seu corpo se curvando com a força do ataque e sendo arrastado um pouco para trás pelo impacto..., mas não por muito tempo. Mesmo com toda a força de Teigra e os jatos a impulsionando cada vez mais contra ele, Behemoth conseguiu firmar seus pés no chão de forma a parar o avanço dela, e no momento em que sentiu-o fazer isso, Teigra imediatamente desativou os seus jatos e tentou se afastar.

Mas já era tarde demais a esse ponto. As mãos do Caçador de Monstros a seguraram pelos braços e ergueram-na alto tão facilmente como se ela fosse um saco de verduras, fazendo isso enquanto ao mesmo tempo movia o corpo de Teigra de forma a deixa-la de cabeça pra baixo, erguida há mais de dois metros do chão por um guerreiro monstruosamente forte que não queria nada mais do que quebra-la em pedaços. Ah, não! Os olhos dela se arregalaram ao compreender o que estava prestes a acontecer, seu corpo começou a se debater violentamente buscando se afastar dele, mas ele não vacilou. Suas mãos a seguravam com firmeza, e com um grito de guerra Behemoth caiu de joelhos, esmagando o corpo de Teigra contra o chão com todas as forças.

A única coisa que ela pode fazer para amenizar um pouco o golpe foi esticar sua cabeça para cima, impedindo que seu crânio absorvesse o bruto daquele golpe, mas isso significou que o dano caiu todo sobre as suas costas. Ouviu e sentiu parte da sua armadura se quebrar com o impacto, e a brutalidade do golpe foi tamanha que até mesmo os ossos por baixo dela foram quase que pulverizados pelo dano do ataque. Dr-Droga.... Tossiu um bocado de sangue que inundou sua boca depois do golpe, sentindo o gosto de ferro em sua língua ao mesmo tempo em que o cheiro da fumaça que começava a vir de sua armadura subia às suas narinas. Behemoth é perigoso demais para que eu tente lutar contra ele a curta distância, mas ele também é resistente demais para que eu faça algum dano com golpes de longo alcance. Como eu devo enfrentar alguém assim?

Sentiu seu oponente começar a levantar seu corpo para seguir com algum outro ataque, mas não deixou que ele simplesmente fizesse o que quisesse. A armadura das suas pernas era cheia de pequenos jatos, criados para permitir que ela fizesse inúmeras manobras em meio ao ar, e não hesitou em ativar os jatos das laterais das pernas para mover as mesmas rapidamente em um movimento giratório. Graças a posição em que ele havia lhe colocado, isso fez com que acabasse acertando um chute direto no rosto de Behemoth, e embora ele não sido o suficiente para causar algum dano, ele foi o bastante para surpreender o cavaleiro o suficiente para que ela pudesse se soltar do seu aperto. Ainda usando os jatos em suas pernas, Teigra os manuseou de forma a fazer com que o seu corpo girasse enquanto ela se afastasse para trás, o suficiente para que ela pudesse se recuperar e aterrissar de joelhos há cerca de cinco metros de distância de Behemoth, uma mão apoiada no chão para lhe garantir estabilidade. Uma mecha de cabelo branca caiu sobre o seu olho, ficando grudada ao seu rosto pelo seu suor, e Teigra não ousou tirá-la do caminho por temer que isso fosse lhe prejudicar mais do que tudo naquela batalha. Ataques normais do Solaris não irão afetar Behemoth. Rajadas como o Magnum ou o Lupara são grandes e poderosas, mas não tem poder o suficiente para causar um dano significativo. Tenho bons meios de o enfrentar a curta-distância, mas isso seria perigoso demais considerando os atributos físicos dele. Em outras palavras, eu preciso fazer alguma coisa que o mantenha à distância e ainda assim consiga causar um dano decente. E acho que tenho uma ideia do que seria capaz de algo assim.

Sem nunca tirar os olhos do seu oponente, Teigra posicionou um de seus braços à sua frente enquanto ergueu sua mão do chão, levando-a até ele. Behemoth apenas observou de braços cruzados e com um leve interesse enquanto Teigra levava sua mão até o seu antebraço, apertando uma seção específica dele e depois o girando em sentindo horário para destravar sua arma. Ao leve som de um dispositivo pneumático, um conjunto cilíndrico com vários barris tomou conta do seu antebraço, cada um deles apontando para Behemoth. Uma das sobrancelhas do Caçador de Monstros se ergueu em confusão diante daquilo, mas Teigra decidiu deixar que ele visse tudo para entender do que se tratava. O cilindro começou a rodar, ganhando velocidade rapidamente, e ela segurou seu braço bem atrás dele firmemente, para garantir a estabilidade que iria precisar em seus ataques.

– Prece de Fogo! – Centenas de balas foram disparadas rapidamente pelo cilindro em questão de momentos, e ao colidirem com o corpo de Behemoth, cada uma delas explodiu em explosões que, embora pequenas e incapazes de causar muito dano por si só, eram absolutamente brutais quando unidas e sucessivas daquele jeito. Não demorou para que o Caçador de Monstros se visse forçado a adotar uma postura de guarda para tentar resistir àqueles ataques, mas Teigra não aliviou nem mesmo depois de ver isso, continuando a disparar mais e mais sem parar. Quanto mais rápido o cilindro girava, mais rápido ela disparava, e a velocidade do giro dele aumentava a cada segundo que passava. Essa metralhadora tem a capacidade de disparar seis mil projéteis por minuto. Considerando o poder destrutivo de cada um desses projéteis, uma barragem como essa teria teoricamente poder o suficiente para destruir toda uma fortaleza. Será que você é durão o suficiente para sobreviver a algo assim, Behemoth?

A resposta para essa pergunta veio bem rápido, no momento em que ouviu um grunhido de irritação vir da garganta de Behemoth, um instante antes que ele saltasse e começasse a avançar rapidamente em direção a Teigra, saindo da sua posição de guarda para assumir uma posição de ataque, suas garras reluzindo enquanto ele as afastava em preparação para o seu ataque. A cavaleira teve que parar subitamente o seu ataque para se abaixar a tempo de evitar o golpe que ele lançou contra ela, e o som do cilindro parando ainda foi audível mesmo quando o olhar dos dois se cruzou, um encarando o outro com firmeza, determinado a vencer. A guarda dele está baixa, notou Teigra, e não perdeu a chance de se aproveitar disso. Ativou os jatos na sola do seu pé direito de forma a impulsioná-lo para cima com tudo, e antes que Behemoth tivesse tempo para erguer qualquer tipo de guarda ela o acertou no queixo com chute ascendente forte o bastante para fazer com que o homem cuspisse um pouco de sangue. A cabeça de Behemoth foi jogada para trás pela força do seu chute..., mas mesmo assim ela pode ver os olhos dele se voltarem contra ela, seriamente irritados.

Uma das mãos dele se fechou ao redor de sua perna antes que pudesse a afastar, e a partir dessa Behemoth levantou Teigra do chão, lhe deixando a sua mercê. Seu outro punho recuou, e já sabendo o que estava por vir Teigra foi rápida em apontar um de seus punhos contra ele e disparar o seu soco foguete contra o rosto do Caçador de Monstros, mas ele estava atento e só precisou mover sua cabeça para o lado para evitar seu golpe. Ela, por sua vez, não tinha o luxo de poder se mover assim; o soco que ele lançou lhe acertou em cheio no meio das costas, fazendo com que ela cuspisse sangue e isolando-a novamente até o outro lado da sala.

Balas explosivas não funcionam também... acho que isso significa que balas normais também seriam ineficazes. E embora um chute movido a jato tenha sido o bastante para causar algum dano real, esses golpes me colocam em uma situação vulnerável demais para serem viáveis. Levantou-se dos escombros que seu impacto havia criado, jogando fora pedaços de destroço que haviam ficado sobre ela e limpando um pouco de sangue que escorria da lateral de seu lábio com sua mão restante. Graças ao soco foguete, minha outra mão está longe demais para que eu possa contar com ela para qualquer coisa. Isso significa que, efetivamente, eu só tenho uma mão disponível. Isso não era tão ruim – tinha várias que podia acessar só a partir do seu braço – mas ainda era uma desvantagem, e contra um oponente como aquele ela não podia se dar ao luxo de ter nenhuma desvantagem. Mas de qualquer forma, ainda mais importante do que pensar em evitar desvantagens é pensar em como eu devo agir de agora em diante. O que eu posso usar para derrotar Behemoth? Podia usar a arma experimental que Tiamat havia lhe dado – uma pequena bomba de fissão que ele havia chamado de “Guri” – mas isso era algo que queria evitar a todo custo; os testes que havia feito na bomba haviam sido assustadores, revelando que ela era poderosa o suficiente para erradicar uma grande cidade completamente em questão de instantes, e os efeitos que ela iria causar depois da sua detonação... “catastróficos” nem sequer começava a descrevê-los. Eu teria que ser um monstro irredimível para usar uma arma dessas sabendo os efeitos dela, e mesmo analisando toda a situação por um lado puramente pragmático, não faz sentido que eu use uma arma que não só aniquilaria o meu inimigo como também todos os que estão aqui, incluindo eu mesma. Mas mesmo assim, essa era a melhor ideia que tinha até agora. Meu arsenal é vasto, mas não tenho tempo para ficar testando cada item dele contra Behemoth, e eu duvido que ele vá me dar a chance de fazer isso, de qualquer forma. Eu preciso de uma boa ideia, e preciso disso rápido!

E foi exatamente isso que teve naquele exato momento.

Seus olhos dispararam para o braço do qual havia disparado o soco foguete. Graças a ausência do punho, seu braço agora mostrava apenas um grande oco cilíndrico metálico, o canal por onde passava a energia que disparava em suas rajadas. Hum... normalmente eu uso os canhões imbuídos nas minhas mãos para controlar melhor as rajadas, dando mais precisão a elas e definindo melhor as suas dimensões. Mas de certa forma, isso parece um canhão um pouco maior. Duvidava que fosse ter tanta precisão ou controle usando um canhão com aquelas dimensões, mas tinha outros usos que podia dar a ele. Com um canhão desses, o poder que eu poderei colocar por trás das minhas rajadas será muito maior. Mas só poder não será o suficiente. Pelo que estava vendo da resistência de Behemoth, ele iria sobreviver a uma rajada como aquela, mesmo que mais poderosa. Dificilmente iria sair ileso ou com ferimentos tão leves quanto antes, mas definitivamente seria capaz de sobreviver e contra-atacar, e ela já havia sofrido danos demais, não podia se dar ao luxo de levar mais golpes dele. Isso significa que eu preciso me certificar de que ele caia com o meu próximo ataque. Levou sua mão até o seu outro antebraço, apertou uma pequena seção dele para revelar o seu painel e começou a trabalhar nele tão rápido quanto pôde. Eu preciso recalibrar isso. Se eu diminuir a área de propagação do disparo, devo conseguir concentrá-lo, o que implicaria num aumento considerável do seu poder de fogo. Isso faria com que fosse mais difícil para ela acertar o seu golpe, mas esse seria um risco que teria de correr. Com uma nova calibração e o aumento do poder concedido pelas dimensões desse canhão... talvez eu consiga alcançar o meu objetivo.

O som de passos lhe avisou que seu oponente havia decidido parar de simplesmente esperar que ela fizesse alguma coisa e tomado a ação. Não sabia se ele fazia isso movido por impaciência ou por ter alguma ideia de que ela estava bolando um plano, mas isso também não importava. Eu não tenho tempo para me preocupar com nada disso. Se apressou em terminar os ajustes necessários, bateu o painel para fechá-lo e começou imediatamente a concentrar energia no seu mais novo canhão, sabendo que estava ficando sem tempo. É isso, isso vai ter de servir! Esse ataque decide essa luta!

Voltou seu rosto para o seu oponente, bem a tempo de ver Behemoth saltar sobre ela como um predador salta sobre sua presa, com ambos os seus braços esticados, suas mãos prontas para rasga-la em pedaços. Foi exatamente nesse momento que seu canhão terminou de carregar a energia necessária para disparar, e sem hesitar ela apontou ele contra o Caçador de Monstros e disparou.

SOLARIS WINCHESTER!

A rajada de energia que veio do seu canhão dessa vez foi completamente diferente das que havia disparado antes. Ela foi muito mais concentrada, e por tal, o poder por trás dela foi muito maior, ainda que ela não fosse tão destrutiva. O disparo atingiu Behemoth direto no meio do peito, batendo de frente com as defesas da sua transformação por não mais do que um momento antes que ele as perfurasse e atravessasse diretamente o corpo de seu oponente, seguindo para atravessar até mesmo a parede do outro lado da sala como se ela não fosse nada e seguir em frente, imparável. Os olhos de Behemoth se arregalaram enquanto jatos de sangue esguicharam do buraco que ele ganhou em seu peito; ele, que havia saltado contra Teigra, agora caia para trás, estiraçado no chão de olhos esbugalhados e braços abertos.

Teigra tomou um momento para respirar depois daquilo, e depois ficou apenas observando Behemoth por alguns segundos, procurando ver qualquer sinal que pudesse indicar que o homem estava vivo depois daquilo. Não precisou observar muito ou ser muito atenta para ter sua resposta a isso. Pouco a pouco a transformação do homem foi desaparecendo, revelando novamente as suas feições naturais, e isso só deixou ainda mais evidente os movimentos de seu peito enquanto ele subia e descia em busca de ar. Mas mesmo com aquilo, Teigra não se sentia minimamente ameaçada. Ele não pode fazer mais nada, compreendeu ela, vendo a forma como ele começou a tossir sangue até que seu rosto ficasse manchado de vermelho, bem como vendo a poça que ia se formando abaixo dele. Ele já está praticamente morto. Relaxou um pouco ao entender isso, passou uma mão por seus cabelos para tentar jogá-los para trás o melhor possível, e em seguida começou a fazer seu caminho em direção ao seu punho do outro lado da sala.

Assim que passou por Behemoth, no entanto, ela ouviu a voz dele.

– E então... Teigra? – Perguntou ele com dificuldades, sua voz soando claramente carregada em dor, as palavras vindo um pouco arrastadas. – Como você se sente...? Eu sou o traidor. Você... você deve estar feliz em me derrotar, não é.…?

– Não sou uma mulher que tira prazer ou felicidade nesse tipo de coisa – respondeu ela calmamente em um tom neutro, sem se virar ou parar de andar enquanto falava. – Além do mais, eu não vim te enfrentar buscando vingança pela sua traição. Na verdade, eu diria que foi exatamente o contrário.

– ... Hã? – A confusão expressa naquela única sílaba foi tão clara que ela parecia quase palpável.

– Muitos dos cavaleiros e mercenários que estavam no Salão Cinzento te odeiam agora, e com boa razão. Uma traição não é algo fácil de engolir, nem algo que as pessoas esquecem. Se eles te enfrentassem, o ódio deles iria culminar em uma de duas coisas; ou ele faria com que eles se tornassem descuidados me batalha e acabassem mortos pela sua mão, ou ele faria com que eles fossem brutais com você. E nenhuma das coisas é algo que eu quero. – Enquanto andava ela passou a mão novamente sob seus cabelos, sentindo-os molhados pelo seu suor, empapados como se ela tivesse acabado de sair de um banho. – Você é meu inimigo, mas não é um homem de coração ruim, Behemoth. Você pode ser um traidor e parte de uma guilda criminosa como o Olho Vermelho, e as pessoas normais não iriam hesitar em colocar o título de “vilão” na sua testa, mas eu te conheço bem o bastante para saber o quanto isso seria errado. O seu coração é bom, e por isso você merece uma morte minimamente digna.

Finalmente alcançou seu punho, e caindo sobre um joelho ela o apanhou e o encaixou de volta no lugar. Mesmo enquanto fazia isso, Teigra podia ouvir uma gargalhada fraca vindo de Behemoth, e mesmo sem se virar ela praticamente conseguia ver o sorriso que ele devia ter estampado em seu rosto.

– Há... hahaha... isso é tão... tão inesperado... – murmurou ele, sua voz ficando mais fraca a cada instante. Ele está morrendo, compreendeu Teigra, solene. – Em uma guerra... normalmente uma das primeiras coisas a serem feitas é vilanizar o inimigo... “ele é mal”... “ele é inumano”... “ele é cruel, cheira mal e come criancinhas no jantar”! Fazem com que o inimigo pareça um demônio... um ser horrível e sádico que só quer causar morte e destruição. Isso torna as coisas mais fáceis, acredito eu... é muito mais fácil matar um inimigo sem dó... se você não vê ele como humano... se você ignora as suas convicções...

Pela forma como a frase foi terminada, parecia que ele ainda tinha mais a dizer, mas as palavras nunca vieram. Fez seu caminho até o corpo do que um dia foi um cavaleiro em silêncio solene e ajoelhou-se ao lado da sua forma. Mesmo depois de morto, os olhos de Behemoth continuavam abertos: fechou-os com uma mão suave, gentil.

– Eu não sou das que acreditam nesse tipo de coisa, Behemoth – sussurrou ela, mesmo sabendo que o homem não podia mais lhe ouvir. – Eu sei que o nosso mundo não é tão simples assim. Em guerras como essa, não existem heróis ou vilões. Terrenos como esse campo de batalha... eles são territórios neutros. Campos Cinzentos, onde as ideologias entram em conflito.





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