O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 63
A Dança dos Demônios


Notas iniciais do capítulo

E é nesse ponto que o arco realmente começa a pegar fogo! o/



MAS QUE DIABOS... – murmurou Bryen quando viu o que lhe cercava, seus olhos correndo em círculos pelo ambiente, sem que ela pudesse acreditar no que via diante de seus olhos. – Você tem de estar de brincadeira comigo!

Haviam conseguido avançar para o Segundo Andar do Pandemonium após terem deixado Duke para trás nas escadarias do Primeiro, deixando– o a sós contra um oponente perigoso. Aquilo não havia sido algo fácil ou agradável de se fazer, mas era algo que tinha de ser feito, e, portanto, eles seguiram em frente para o Segundo Andar com um único objetivo claro em mente: derrotar o Olho Vermelho.

Mas aparentemente, isso iria demorar mais do que esperavam. Assim que emergiu do Primeiro Andar, uma das primeiras coisas que Bryen viu é que ela havia parado em uma sala grande e extremamente espaçosa que não possuía nada mais do que dezenas e dezenas de passagem pelas quais alguém podia seguir. Em todas as direções, todas iguais, sem nada que discernisse uma da outra; sentia que tinham mais passagens ali do que tinham pessoas, e sentia que cada uma delas dava para um lugar diferente.

– “Labirinto Eterno”... – murmurou Hozar, franzindo o cenho um pouco, olhando ao redor com um olhar neutro que trazia apenas uma leve sugestão de irritação. – Subitamente o nome desse lugar faz muito mais sentido. Eu havia imaginado que o que estaria sob efeito aqui seria algum tipo de magia interdimensional ou espacial, mas parece que eles decidiram seguir com o estilo mais simples e tradicional.

– Uma escolha esperta – observou calmamente Teigra, movendo levemente seus olhos pelas passagens. – Um labirinto criado através da magia pode ser quebrado por uma magia similar. Um labirinto de verdade, no entanto, é algo bem mais complicado com o qual se lidar.

– Não poderíamos abrir buracos nas passagens? – Questionou Maoh com sua voz sempre educada. – Se esse é um labirinto físico ao invés de ilusório, então as passagens devem, ao menos durante alguns trechos, estar separadas uma das outras apenas por paredes finas. Com nossas habilidades nós poderíamos quebrar essas paredes e abrir um bom caminho até as escadarias.

– Eu não acho que isso funcionaria, Maoh – contemplou Kyanna, mordendo seu lábio inferior enquanto apoiava o queixo com uma mão e olhava intensamente para as passagens, buscando alguma resposta para o impasse. – Esse labirinto pode ser “ordinário”, por assim dizer, mas isso não muda o fato de que a fortaleza em si é mágica. Lembra dos feitiços que estão atuando sobre a fortaleza? Da mesma forma que esses feitiços nos impedem de avançar direto para o Quinto Andar, por exemplo, faz sentido imaginar que eles também nos impedem de “trapacear” nesse labirinto.

– Além do mais, eu dificilmente acho que um homem que planejou um ataque a uma das maiores organizações militares do mundo seria idiota o suficiente para ter um andar em forma de labirinto que pudesse ser burlado de forma tão simples assim – apontou Enderthorn, cruzando os braços. – E francamente, não vejo o porquê de estarmos perdendo tempo discutindo algo assim até agora. É bem óbvio o que devemos fazer aqui.

Bem óbvio? Sim, escancarado, pensou secamente Bryen, e esse é justamente o problema. Era fácil entender qual era a intenção do Olho Vermelho com aquelas passagens, e era justamente isso que preocupava Bryen. Eles querem que nós nos separemos em grupos menores para buscar a saída. Fazer algo assim com certeza seria um erro; dividirem– se em grupos menores iria diminuir demais sua força e criar problemas de comunicação, fazendo com que se tornassem um alvo fácil para qualquer inimigo. Isso é estúpido... mas eu simplesmente não vejo outra alternativa. Odin provavelmente seria útil aqui. Com sua habilidade de multiplicação, ele provavelmente seria capaz de investigar cada uma dessas passagens com seus clones e nos informar qual é o caminho certo. Mas graças ao estúpido Shell que não havia sido prestativo o suficiente para dar uma explicação decente sobre o que exatamente era o Labirinto Eterno, Odin e os outros haviam assumido que as bestas sob o comando do Olho Vermelho eram um problema maior do que aquilo, e por isso ele havia ido lidar com elas. Maldição... Shell, eu juro que vou chutar a sua munda com tanta força por isso que você vai redefinir o significado da expressão “cara– de– cu”!

– Ei, pessoal, eu acho que não preciso dizer isso, mas nos separar será dar ao inimigo exatamente o que ele quer – disse Valery, analisando com maior atenção uma passagem em específico. – Não me entendam a mal, não estou com medo ou coisa do tipo. Se essa for a decisão do grupo eu não tenho problemas em seguir por uma dessas passagens, tranquilamente. Mas se tem uma coisa que eu aprendi bem é que você nunca deve dar ao inimigo o que ele quer.

– A Ilusionista faz um bom ponto – concordou Marco, segundo em comando do clã Potentia Aurae. – Exércitos enormes e poderosíssimos ruíram dezenas de vezes diante de inimigos muito mais fracos, não por serem pegos desprevenidos por alguma armadilha engenhosa, mas sim por terem se julgado tão superiores que eles não se deram ao trabalho de tentar evitar uma armadilha que já previam.

– Fato interessante. Já que você se sentiu tão entusiasmado em apontar algo assim, posso assumir que você tem alguma solução para o nosso problema? – Questionou Ex com a sua clássica voz gélida, embora ela agora também soasse um tanto aborrecida, como se ele estivesse lidando com uma criancinha irritante. – Não? Foi o que eu pensei. Então, faça– me um favor e não sugira que vamos ser derrotados se fizermos determinada coisa sem ter uma alternativa para nós.

– Ei, ei, calma aí – disse Trevor, interpondo– se em defesa de seu subordinado. – Eu entendo que falar sobre como exércitos foram derrotados fazendo algo similar a isso pode não ser lá a melhor coisa a se fazer em um momento como esse, mas o Marco estava apenas nos alertando para sermos um pouco mais cuidadosos. Você não precisa ser tão rude assim, sabia?

– Tem razão; não preciso. Eu apenas escolho – declarou Ex, cruzando seus braços.

Aquilo aparentemente irritou um pouco Trevor, fazendo com que um tique nervoso se formasse acima de um dos olhos do guerreiro. A boca dele se abriu para dar uma resposta, mas antes que ele pudesse encontrar sua voz as palavras de Anabeth lhe cortaram.

– Hum, pessoal? Eu odeio interromper o flerte de vocês, mas nós temos um pequeno probleminha em mãos aqui. Olhem pra cima.

Foi exatamente isso que Bryen fez, e assim que seus olhos viram o que Anabeth queria lhe mostrar, eles se arregalaram quase ao ponto de saltarem de suas órbitas. Uma gigantesca e grossa nuvem de fumaça cobria o teto daquela sala, alta o bastante para que não tivessem a notado até então, mas bem perceptível uma vez que você prestava um pouco de atenção. Isso... fumaça? O que fumaça está fazendo aqui? O que signifi-

Seus próprios pensamentos foram interrompidos por uma lembrança. Lembrou– se do início da invasão, do momento em que Zaniark se mostrou. Um dos mercenários que haviam enfrentando durante a batalha no Mercado de Escravos, ele havia sido contratado junto com outros três mercenários para proteger o dono daquele mercado... e um desses mercenários em particular havia sido um homem poderoso e perigoso, um homem com a habilidade de transformar seu corpo em fumaça e manipular essa fumaça de sua criação como ele bem quisesse, fazendo até mesmo com que ela assumisse propriedades sólidas. Byron Cromwell. Pelo que Kyanna havia relatado da batalha, tinha imaginado que o homem tinha sido morto por Ex, mas se Zaniark estava vivo, não seria estranho se o mesmo valesse para ele.

– Kyanna Aoki. É um prazer te ver novamente. – A voz que disse isso veio respeitosa e educada, calma e serena. Os olhos de todos os guerreiros da aliança foram imediatamente na direção dela, e eles viram um homem de cabelos verdes cor– de– musgo com faixas brancas cobrindo os seus olhos segurando um cachimbo elegante cheio de fumo aos seus lábios e apoiado lateralmente a entrada de uma das passagens enquanto “olhava” para o grupo com uma expressão completamente neutra no rosto. – Faz algum tempo desde a última vez que nos encontramos, não?

– Espera, espera, espera um pouco aí. “Te ver”? Você... está falando no sentido figurado, não é? – Perguntou Trevor, suas sobrancelhas arquejadas em confusão. – Quero dizer, você é cego, certo?

– Dedução brilhante, Capitão Óbvio. O que te deu essa ideia, as faixas que cobrem meus olhos? – Retrucou sarcasticamente o outro, fazendo com que a cor subisse às bochechas de Trevor. Por um momento Bryen sentiu– se tentada a se intrometer naquela conversa já que se lembrava de Kyanna ter dito que aquele homem não era cego de verdade, mas acabou decidindo que não valia a pena se envolver naquilo e segurou sua língua.

– Byron... – murmurou Kyanna, soando tão surpresa quanto frustrada. Ela avançou alguns passos para frente, ficando na dianteira de todo o grupo, e seus olhos caíram imediatamente sobre o homem, sérios e duros de uma forma bem incaracterística dela. – Eu pensei que você estava morto. Eu vi Ex congelar você.

– Ah, sim, o Tecelão Branco. Vejo que ele também está aqui – disse Byron, acenando levemente com sua cabeça em direção ao mago, que por sua vez apenas fez grunhir como um animal irritado diante disso. – Sim, eu admito que o golpe de Ex me pegou com a guarda baixa..., mas eu também me lembro de ter lhe dito com todas as palavras que demônios como eu não são fáceis de se matar. Você vai precisar fazer muito mais do que apenas me congelar para se ver livre de mim.

Demônio.... Isso também era algo do qual Bryen se lembrava da conversa que haviam tido com Kyanna depois da luta. Ela disse que Byron era um demônio. Não apenas no sentido de força, mas também no sentido literal da palavra. Lembrava– se de que na época ela havia por um momento ficado um pouco cética quanto a isso, mas tinha decidido acreditar no que Kyanna dizia considerando o que havia visto em relação a Tsui e o que chamavam de “Coração Branco”. Considerando o que eu vi depois com Mefisto e Kastor, não haviam sobrado muitas dúvidas, mas o fato desse cara estar afirmando isso abertamente assim acaba com qualquer uma que tenha restado.

– Um demônio... – Repetiu Maoh, o cavaleiro de chifres que havia treinado Kyanna. Bryen lançou um olhar rápido de relance em direção a ele ao ouvir aquele murmúrio, e isso foi o bastante para que visse que sua postura havia mudado; por mais que ele ainda se mantivesse no mesmo lugar e não parecesse estar se preparando para avançar, sua postura havia se tornado visivelmente mais rígida e ereta, mais sombria e séria. Seus olhos estavam fixos sobre Byron, olhando para o homem com algo que Bryen não conseguia definir se se tratava apenas de seriedade ou se envolvia algum tipo de fúria também. – O que um demônio está fazendo aqui? Por que um demônio lutaria lado– a– lado com o Olho Vermelho?

– Por que um demônio lutaria ao lado do Salão Cinzento? – Devolveu Byron, impassível. – Você deve saber algo assim melhor do que ninguém, garoto. Mesmo que você seja apenas parte demônio. Se existe uma coisa da qual a nossa raça não difere da dos humanos é no livre– arbítrio; nós somos todos livres para trilharmos o caminho que bem quisermos, e esses caminhos muitas vezes nos levam a lugares interessantes. O seu lhe levou ao Salão, o meu me levou ao Olho. Isso é apenas como as coisas são, e é estupidez querer questionar algo assim. – Ao terminar de dizer aquilo, Byron desvencilhou– se da postura que havia mantido até então para deixar seu corpo completamente ereto. Com uma de suas mãos ele retirou o cachimbo dos lábios, soprando um monte de fumaça com uma calma quase infinita, ao mesmo tempo em que sua outra mão se erguia. – De qualquer forma, chega disso. Não vim até aqui para ter uma conversa agradável com vocês... e certamente, vocês não acham que toda essa fumaça no teto é apenas uma decoração, certo?

Seus dedos estalaram ao dizer aquilo, e esse foi para Bryen o aviso de que seus poderes haviam começado a agir. Quando olhou de novo para cima, toda a cortina de fumaça que ela havia visto antes havia assumido uma forma sólida, quase que como uma segunda camada do teto, mas uma que estava repleta por grandes espinhos de fumaça, espinhos gigantescos e que tão afiados que suas pontas pareciam até brilhar. Ah, merda. Ah, MERDA!

Fumaça– Sólida! – Entoou Byron, a voz calma e metódica do homem ganhando subitamente uma carga de emoção que também refletiu em suas ações. Seus braços de abriram de imediato de forma espalhafatosa, suas mãos brilharam, e quando ele bateu uma na outra com força, sua voz tornou a trovejar. – Triturador Esmagador!

Por um momento, sentiu uma de suas veias se tornar visível. Por um momento, sentiu um tique nervoso surgir em uma de suas sobrancelhas. Por um momento, sentiu vontade de gritar. Triturador Esmagador? TRITURADOR ESMAGADOR?! QUE DROGA DE NOME ESTÚPIDO É ESSE?! Era absurdo imaginar que alguém fosse idiota o bastante para colocar um nome estúpido como aquele em alguma técnica, e era ainda mais absurdo imaginar que seria justamente alguém como Byron que faria isso, um homem que parecia sempre tão sério.

Mas não teve tempo de fazer nada disso, pois antes que pudesse fazer qualquer coisa, a parede de espinhos criada por Byron caiu contra eles.

Não sabia se isso era devido a influência do demônio ou apenas devido ao peso da sua criação, mas aquela parede caiu contra eles com uma velocidade assustadora. Maldição, malditos infernos... Mesmo com a velocidade que aquela parede tinha, Bryen sabia que era rápida o suficiente para entrar em uma das passagens antes que aquilo lhe atingisse, mas não era isso que lhe preocupava. O que eu faço com os outros?! Eu provavelmente consigo levar uma ou duas pessoas comigo, mas isso não é nem de longe o suficiente! Merda, eu não vou simplesmente abandonar os meus companheiros aqui!

Por um momento Bryen pensou que ela teria de fazer uma decisão horrível naquele momento, mas felizmente, ela foi salva disso.

Apesar de toda a sua velocidade e do peso que isso certamente deveria ter, a parede de espinhos não chegou a atingi-los. Ela parou há cerca de quinze metros acima deles, e embora a impressão inicial tenha sido de que a parede simplesmente parou aleatoriamente em meio a sua queda, um olhar mais atento revelava que o que havia a detido tinha sido uma barreira. Uma barreira de formato circular – quase que como um grande globo de vidro – que era mais ou menos visível apenas devido a grande concentração de poder mágico investido nela.

Uma barreira que havia sido criada por Kyanna Aoki, a Varinha de Prata, que tinha agora ambas as suas mãos erguidas e estendidas em direção a dois pontos opostos da barreira, seus olhos completamente brancos pelo uso que fazia da magia e sua linguagem corporal indicando que ela estava fazendo um grande esforço apenas para permanecer em pé ali, como se estivesse sustentando toda aquela parede em suas próprias costas.

– Você conseguiu deter isso sozinha? Admirável, Kyanna. – Parabenizou Byron, voltando a assumir sua postura com um braço cruzado e o outro apoiando seu cachimbo. – Posso ver que você ficou bem mais forte desde a nossa última luta, mas o mesmo vale para mim. Isso que você está segurando pode ser feito apenas de fumaça, mas eu agora consigo controlar a minha fumaça com uma maestria muito melhor do que antes. Nesse exato momento, por exemplo, o peso que isso tem deve ser o de aproximadamente vinte toneladas, mas se eu quiser... – murmurou o demônio, descruzando seu braço para mover sua mão, gesticulando com ela em direção a sua parede espinhenta – eu posso fazer o seu peso decuplicar em um instante.

Tão breve as palavras foram ditas Bryen viu o que parecia ser uma grande pressão cair sobre Kyanna, levando a maga aos seus joelhos imediatamente, algo que foi acompanhado pelo som de algo duro raspando em uma parede, causado pela parede que estava fazendo força contra a barreira de sua companheira, descendo cada vez um pouco mais.

Mas mesmo esse peso aumentado não foi o suficiente para derrotar Kyanna. A respiração da jovem maga veio ofegante, e pela forma como seu corpo se movia era óbvio que ela estava sentindo muita dor, mas mesmo assim ela fez o esforço para colocar– se novamente de pé, e de alguma forma a sua barreira aguentou. Foram vários os que olharam admirados para ela depois disso, e Bryen foi uma desses. Decuplicar... se Byron realmente fez o que ele disse, isso significa que o peso que ela está segurando com seus poderes nesse momento é de cerca de duzentas toneladas. Duzentos mil quilos. E ela aguenta tudo isso? Sozinha? Dizer que estava admirada com aquilo era pouco. Um sorriso começou a abrir seu caminho por entre seus lábios, um sorriso honesto que tomava conta de seu rosto. Duke... Kyanna... os meus companheiros estão me dando muito orgulho ultimamente.

Mas isso não durou muito. Antes que pudesse realmente apreciar o que havia ocorrido, seus ouvidos captaram o som do que parecia ser vidro se quebrando. Virou seus olhos imediatamente na direção da qual esse som havia vindo, e o que viu foi que Steelex – o membro do Olho Vermelho que haviam encontrado no início da invasão – havia emergido de uma das passagens laterais e tinha criado um buraco na barreira de Kyanna com uma investida. Ele estava avançando contra ela naquele exato momento, e por mais que Bryen quisesse, ela simplesmente não teve a chance de impedi– lo; pega de surpresa, tudo que ela pode fazer foi acompanhar com seus olhos a maneira como Steelex acertou um soco revestido de aço em cheio no rosto de Kyanna, lançando a mulher para longe com tanta força que ela foi jogada para além de uma passagem do outro lado de onde estavam. Os olhos de Bryen praticamente arderam em chamas ao ver isso, mas Steelex não foi burro; sem parar por um momento ele continuou a avançar atrás de Kyanna, e no momento em que Bryen voltou– se para avançar contra ele, sua atenção foi chamada por algo ainda mais urgente.

Com aquele ataque, a barreira de Kyanna havia sido quebrada, e isso fez com que a parede de espinhos caísse sobre eles com ainda mais velocidade do que antes.

REPULSÃO! – O grito foi seguido por uma rajada de energia transparente que lançou as duzentas toneladas de fumaça de Byron de volta para cima com uma velocidade ainda mais do que a com a qual ela havia caído em primeiro lugar, levando– a até o teto em uma fração de segundos e esmagando– a contra ele com tanta força que pedaços de fumaça sólida explodiram por todo o ar durante um único instante, antes que essa fumaça perdesse suas propriedades sólidas e se dissipasse.

Instintivamente, Bryen já sabia quem era o responsável por aquilo. Seus olhos caíram sobre Maoh, o Demônio Chifrudo do Salão Cinzento, um cavaleiro que olhava fixamente para Byron com algo que agora era nada mais do que uma fúria fria. Uma de suas mãos ainda estava erguida, a manga desse braço estraçalhada pela força do seu último ataque. Mesmo por trás das faixas que cobriam seu rosto, Bryen sabia que Byron estava retribuindo aquele olhar naquele exato instante, e isso estabelecia uma tensão incrível entre os dois.

Tensão essa que só foi quebrada quando um brilho começou a vir de uma das várias passagens que davam para aquela sala. No momento em que Bryen virou sua cabeça nessa direção para ver do que se tratava a ruiva quase acabou por saltar para trás, tamanha a sua surpresa ao ver uma espécie de dragão voador com o corpo de uma serpente feito do que parecia ser nada mais do que pura eletricidade emergindo dessa passagem.

Mas que droga é essa?! O dragão era diferente de qualquer outro dragão que Bryen já tinha visto; por mais que ele tivesse escamas, a sua cabeça tinha uma forma estranha, um tanto quanto caricaturada, e seu corpo em si era completamente diferente; ele não tinha pernas ou sequer um corpo decente para ser sincera, sendo apenas extremamente longo como uma cobra com três pares de pequenos braços, cada um com três garras que pareciam maiores do que os braços em si. O dragão gigantesco, o que fez com que ele tivesse de voar em um sentido de espiral ao redor da sala, subindo até o topo dela antes de enfim curvar a dianteira de seu corpo para baixo, de forma que ele pudesse olhar para o grupo.

E foi no momento em que ele fez isso que Bryen pode ver quem era o responsável por ele.

– Parece que a sua armadilha falhou, hein, Byron?! – Exclamou Zaniark da sua forma espalhafatosa, sentado tranquilamente de pernas e braços cruzados em cima da cabeça do dragão, olhando para os outros de cima com um sorriso no rosto. – Bom, não precisa se preocupar. Eles podem ter sobrevivido à sua armadilha..., mas eles não vão sobreviver ao meu DRUK!

O grito de Zaniark serviu como o soar de um chifre de guerra, e assim que ele veio ele foi acompanhado pelo dragão de eletricidade que investiu diretamente contra eles, sua boca de abrindo e suas presas se mostrando de forma ameaçadora. Mais um ataque desses?! O que é que há com o Olho Vermelho e essa mania estúpida de lançar ataques gigantes?! Dobrou suas pernas e se preparou para se afastar, mas não chegou a ter que fazer nada. Tal como antes, um dos braços de Maoh disparou para cima, e ao som de um grito de “repulsão!”, uma nova rajada de uma energia foi disparada e o dragão elétrico foi destruído, seus feixes se espalhando pelos ares de uma forma que até lembrava uma espécie de chuva dourada.

Viu Zaniark girando no ar, seu corpo comprimido como uma bola, poucos segundos antes que ele aterrissasse de joelhos ao lado de Byron. Seus antebraços estavam feridos, marcados por alguns cortes que pareciam até serem bem profundos, mas não demorou nada para que a regeneração de seu corpo se acelerasse e esses cortes se fecharam em questão de momentos, fazendo com que tudo o que fosse exibido fosse o rosto insanamente satisfeito de Zaniark, um de seus olhos tão afiado que ele parecia estar quase fechado enquanto o outro estava completamente arregalado, um sorriso violento e deturpado tomando conta de sua face.

– Hahaha! – Gargalhou ele à amplos pulmões. – Veja isso, Byron! O rapaz dos chifres parece ser bem fortinho! – Colocou– se de pé novamente com um salto e com uma de suas mãos ele estalou seu pescoço, sua aura hostil e selvagem como a de um grande predador. – Eu pensei que ganhar um par de chifres como esse emasculava um homem, mas ele está se virando muito bem.

– Você tem de fazer essas suas piadinhas, Zaniark? Elas nunca foram boas, e ficar repetindo elas de novo e de novo não lhes faz nenhum favor – disse Byron, censurando seu companheiro enquanto balançava sua cabeça como se ele fosse um caso perdido. – De qualquer forma, realmente. Eu devo admitir, ele está se mostrando mais forte do que eu imaginei.

– Eu sei, e ele não é nem o mais forte deles! Isso não é excitante?! – Zaniark bateu com um punho fechado na palma de sua mão aberta e deu pequenos pulinhos aonde estava, preparando– se para um novo avanço. – Cara, eu quero tanto chutar a bunda de todos eles!

– Calma – murmurou o Demônio da Fumaça, colocando uma mão no caminho de seu amigo. – O sangue de demônio no seu sangue faz com que você seja mais difícil de matar e com que você tenha uma boa regeneração, mas não se engane: você não é imortal. Seja inconsequente demais e você acabará morto.

– Ah, pelos Deuses! – Resmungou o loiro, rolando os olhos. – E o que você sugere então? Mais algum plano genial para lidarmos com eles?

Enquanto os dois discutiam, Bryen ia ficando progressivamente mais e mais irritada. Esses dois... eles estão realmente discutindo coisas assim enquanto estão diante de tantos inimigos?! Mais do que apenas ultrajante, aquilo era humilhante. Aquilo era ignorar qualquer ameaça que pudessem representar para eles, tratar a aliança como se eles não fossem perigo nenhum para eles. E isso era algo que enfurecia profundamente a ruiva. Eu treinei duro com Titânia para me tornar mais forte. Tão forte quanto pessoas como Kastor e Hozar. Eu não serei subestimada por esses dois!

Com um movimento rápido ela sacou sua espada. Suas pernas se dobraram e seu olhar se fixou sobre os dois inimigos. Vocês morrem agora, bastardos, e pelas minhas mãos!

– Espere, Bryen. – A voz de Maoh soou bem a tempo, fazendo com que Bryen detivesse o seu avanço no último instante. Seu rosto se virou a tempo de vê-lo caminhando em direção a ela, abrindo seu caminho por entre os outros calmamente enquanto mantinha seus olhos fixos sobre o par de demônios que servia o Olho Vermelho. – O que Hozar disse no Primeiro Andar está certo. Nós não temos tempo para perder aqui. Com todas as pessoas poderosas que a nossa aliança possui, nosso grupo provavelmente seria capaz de derrotar esses dois sem grandes dificuldades..., mas isso demoraria algum tempo, e com as nossas habilidades e números, seria quase que inevitável que acabássemos entrando no caminho uns dos outros. Nós não podemos nos dar ao luxo de prejudicar– nos aqui, Bryen, e cada segundo pode significar a diferença entre a vida e a morte para nossos aliados.

– .... Aonde você quer chegar com isso? – Pela forma como ele falava e pelas palavras que ele escolhia, Bryen já tinha uma boa ideia de qual era o ponto que Maoh estava fazendo, mas ela queria uma confirmação.

– Temos muito trabalho a fazer, e nenhum tempo a perder. Você e os outros deveriam se separar e seguir cada um por uma passagem, buscando pelas escadas – disse o Demônio Chifrudo, assumindo a liderança do grupo e se livrando de seu manto negro com um movimento, exibindo a armadura escura de torso que ele trazia. Seus braços estavam nus, e quando eles se abriram em um arco e suas mãos se fecharam, Bryen pode ver a energia fluir visivelmente por eles. – Eu cuido desses dois.

.... Abandonar mais um companheiro, não é? Não podia dizer que sentia tanto no caso de Maoh quanto sentiu com Duke – o Titã era seu amigo, afinal de contas, por mais idiota e irritante que ele pudesse ser – mas ainda assim não se alegrava nem um pouco com o pensamento de ter de abandonar um aliado sozinho contra inimigos. Mas as guerras são cheias de coisas desagradáveis, e essa é uma guerra. Eu vejo a lógica por trás desse plano, e francamente, não tenho nenhuma ideia melhor.

– Muito bem, faremos como você sugere – interpôs Hozar, assumindo mais uma vez o seu papel de líder e dando uma resposta pelo grupo. – Mas antes disso, uma pergunta. Maoh, você foi o responsável pelo treinamento de Kyanna, o que significa que você é quem está mais ciente do nível de poder atual dela. Devemos enviar reforços?

– Fazer isso seria um desperdício – respondeu prontamente o Chifrudo, sem um momento de hesitação. – Durante o nosso treinamento, Kyanna evoluiu muito. Ela está muito mais forte agora do que antes. Tão forte como eu, se não mais. É desnecessário que alguém vá atrás dela. Apesar de que o homem que a atacou provavelmente vai precisar de algumas boas orações.

– Então é bom que ele torça para que os membros do Olho Vermelho sejam do tipo religiosos – retrucou Hozar com sua voz tradicionalmente grossa e de poucos amigos, um momento antes de erguer seu martelo de batalha. – Ouçam, guerreiros! Separem– se agora e sigam cada um por uma passagem diferente! Busquem as escadarias para o Terceiro Andar e prossigam imediatamente por elas assim que as encontrarem! Não se preocupem com seus companheiros; cada um de nós aqui é forte e capaz, e cada um de nós vai viver muito além dessa batalha, se não em corpo, em alma! Acreditem em si mesmos e em seus companheiros, e tragam a morte ao Olho Vermelho!

Normalmente, não era uma mulher que apreciava muito discursos, mas aquele em particular lhe animou. Muito. Um grito de guerra veio da sua garganta ao fim deles, e sua voz foi acompanhada por um coro ensurdecedor formado pelas vozes de vários outros membros do grupo. E ao fim daquele grito, Bryen disparou em direção a uma das passagens sem hesitação, sem olhar para trás. Com sua visão periférica ela viu uma onda de fumaça sólida na forma de uma grande mão seguindo em sua direção, mas uma rajada de energia destruiu essa muito antes que ela pudesse representar uma ameaça a ruiva. Alcançou a passagem sem mais problemas, e seu coração começou a bater mais forte quase que de imediato. Agora as coisas ficam sérias de verdade. Agora eu estou sozinho, pensou ela, apenas para corrigir– se no momento seguinte. Não... sozinha não. Eu não estou sozinha. Kastor, Hozar, Duke, Kyanna, Teigra, Anabeth, até mesmo Shell. Todos nós temos o mesmo objetivo. Temos a mesma determinação. O nosso coração bate no mesmo ritmo e o nosso destino aponta na mesma direção. Enquanto eu tiver meus companheiros eu nunca estarei sozinha, não importa a distância que nos separe.

Esse pensamento foi um estimulo para a espadachim. Sacando sua espada, Bryen acelerou ainda mais o passo, avançando ainda mais ferozmente contra a escuridão.

– Venha contra mim, OLHO VERMELHO!

SHELL: Bom, já que estamos nos preparando para o ataque aqui, acho que convém que eu fale com vocês um pouco sobre cada um dos membros do Olho Vermelho, certo? Isso pode lhes ajudar a se preparem um pouco melhor. Bom, primeiramente... Balak. Por que não começarmos pelo líder, não é? Ele é mais importante... e ironicamente, um dos quais eu menos posso fornecer informações. Permita– me primeiro dizer que eu não sei o porquê dele ter resolvido começar com essa caça aos demônios e que eu não tenho a menor ideia de quando ele fundou o Olho Vermelho. O que eu sei, no entanto, é que ele é descendente de um clã de caçadores de demônios famoso por contarem com uma habilidade especial; quando eles estão furiosos os seus olhos ficam vermelhos, e quando isso acontece o poder deles aumenta exponencialmente. Além disso, nada demais a declarar, salvo que ele é um absoluto gênio da magia. Eu acho que Balak é alguém que domina literalmente todo estilo de magia já criado pelo homem, isso além de ter criado o seu próprio estilo de magia, um tremendamente poderoso que por si só foi o suficiente para lhe levar a posição de Tecelão. Em matéria de poder mágico ele é o mais fraco dos Tecelões, mas não o subestimem por isso. Ele é de longe o mago mais versátil que eu conheço, e ele é muito esperto em batalha. Balak pode não ser necessariamente o mago mais poderoso que vocês poderiam enfrentar, mas vai ser difícil que encontrem um mago mais perigoso do que ele nesse mundo.



Notas finais do capítulo

FATOS INTERESSANTES!

*A técnica de Zaniark, "Druk", é baseada no Druk, símbolo nacional da nação de Butão (sim, tem um país com esse nome), conhecido como "Dragão do Trovão" da mitologia butanesa. O hino nacional de Butão, Druk tsendhen, pode ser traduzido como "Reino de Druk".



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