O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 39
A Filha do Sol


Notas iniciais do capítulo

Querem ouvir uma música com esse capítulo? Tentem "You Are The Light" da banda Nine Lashes.

Em outra nota... esse é o penúltimo capítulo desse arco. Sim, pessoal! Esse grande arco termina no próximo capítulo, com a última luta que nos resta e a conclusão. Aguardem!



SEUS OLHOS ESTAVAM AFIADOS, analisando a postura de Balak de forma cuidadosa, tentando encontrar algum ponto fraco em suas defesas. Esse mago é bem cuidadoso, foi a decisão a que ela chegou depois de observá-lo por cinco segundos. Ele não possui fraquezas... ou ao menos não fraquezas reais. Havia notado algumas coisas que supostamente seriam pontos fracos, mas não demorou nada para entender que aquelas eram apenas armadilhas – Balak estava propositalmente deixando que alguns pontos fracos mostrassem-se afim de induzir Gwynevere a lançar um ataque. Se as coisas chegarem a essa altura, não vai fazer diferença esse ser um verdadeiro ponto fraco ou não. Um golpe que meu inimigo prevê é um golpe que pode facilmente significar a minha perdição.

Girou relaxadamente sua lança em sua mão. Sabia que, tal como ela observava Balak, ele também fazia o mesmo, atento a todos os seus movimentos. Acho pouco provável que algo assim funcione, mas talvez eu consiga virar o feitiço contra o feiticeiro... Não teve muito sucesso, entretanto; a feição de Balak tornou-se um pouco mais obscura ao ver as falhas em sua defesa, como se ele pensasse que ela estava zombando dele com aquilo, mas apesar disso ele não fez nenhum movimento agressivo. Cauteloso demais para ceder às tentações, não é? Muito bem então. Isso significa que é a minha vez de agir. Se ele não iria até ela, então só restava a Gwynevere ir até ele.

Em um segundo desferiu dezenas de estocadas com sua lança na direção de Balak. Normalmente a mera força de seus movimentos seria o suficiente para criar uma pressão de ar tão forte que seus ataques seriam literalmente arremessados pelo ar, mas com o poder de sua Aloeiris, isso se tornava muito mais. Cada estocada que fazia era apenas uma “base”, cuja única função era estabelecer um ponto de foco para que pudesse lançar seu verdadeiro ataque – feixes de luz concentrada com tanta força que essa luz era capaz de derreter tudo que entrasse em contato com ela. Concentrados como eram, esses feixes funcionavam como projéteis – flechas, se quisessem chama-los assim – sólidos o bastante para cortar e perfurar tudo o que tocavam, tanto devido a velocidade deles quanto devido ao seu calor. A esses feixes, Gwynevere dava o nome de “laser”.

Os lasers de Gwynevere avançaram contra Balak com a velocidade da luz, não demorando nem uma fração de segundo para lhe alcançar, mas mesmo assim, de alguma forma, Balak reagiu a tempo. A Parede-Espelho ergueu-se diante dele e brilhou por uma vez ao absorver seus lasers, antes de devolvê-los contra ela com a mesma velocidade com a qual ela havia os lançado... mas já era tarde demais a essa altura. Não havia ficado parada ao lançar seus lasers contra o Tecelão; havia aproveitado-se da distração que seus ataques representavam para transformar seu corpo em feixes de luz, usando-os para mover-se rapidamente e contornar seu oponente. Quando a Parede-Espelho chegou ao ponto de refletir seus ataques de volta, Gwynevere já havia há muito deixado a área de efeito deles.

Materializou novamente seu corpo quando ainda estava no ar, atrás de Balak. Lançou outras estocadas com sua lança contra ele, liberando novos lasers contra seu inimigo. O mago foi rápido em se voltar para ela e erguer uma nova barreira, apesar que essa foi visivelmente diferente da última. Enquanto a Parede- Espelho absorvia e refletia os ataques lançados contra ela, aquela meramente servia como uma verdadeira parede – ao chocarem-se contra ela, os lasers de Gwynevere se dispersaram em pequenas partículas tão insignificantes que eram invisíveis ao olho nu. Esperto, observou a cavaleira com uma sobrancelha erguida, observando aquilo. Ele sabe que refletir meus ataques será inútil se continuarmos assim, então ele trocou sua primeira defesa por uma barreira secundária, provavelmente para poupar um pouco sua mana. Tinha de admitir; aquilo era um pouco impressionante, não só pelo fato dele ter raciocinado tanto assim nos míseros instantes que haviam se passado, como também por ele ter mudado de magia assim tão rápido. Mas no fim das contas, isso não faz diferença. Não importa o quão rápido ele reage, o quão habilidoso ele é ou o quão afiada é a sua mente... isso não faz diferença alguma diante de mim.

Transformou-se novamente em feixes de luz, e assim que assumiu essa forma ela se aproveitou de sua velocidade aumentada para mover-se até a lateral dele. Lançou novos lasers através de estocadas dali, e novamente Balak se moveu para defender-se delas com uma de suas barreiras, mas nem bem o homem havia começado a fazer isso, ela já havia usado sua habilidade para chegar em outro ponto, e desse ela tornou a lançar seus lasers contra Balak. Dividindo sua atenção o homem conseguiu para seu golpe, mas Gwynevere ainda não estava acabada – moveu-se ao redor de Balak cada vez mais rápido, demorando menos de um segundo para mover-se de um ponto ao outro, sempre lançando lasers a medida que ia se movendo. Não demorou muito para que Balak simplesmente não conseguisse mais acompanhar seus movimentos e fosse forçado a erguer uma barreira esférica para proteger-lhe de todos os lados... e era justamente isso que ela queria. Uma barreira que protege todos os lados cobre uma área maior, mas em troca ela também é muito mais frágil. Com a velocidade da luz ela avançou para cima, para o topo da barreira, e só materializou-se novamente quando estava muitos metros acima de Balak. Com uma barreira como essa como defesa, você está completamente vulnerável a mim, Balak Hauss!

Enquanto no ar, Gwynevere endireitou sua postura. Girou sua lança e segurou com ambas as mãos, movendo-a de forma a deixar uma das pontas dela apontada em direção à Balak. Sua Parede-Espelho é a única coisa que pode me atrasar, Balak. Se você pensa que meras barreiras serão o suficiente para parar uma cavaleira da dinastia Sunfyre, você cometeu o grande erro de me subestimar. Transformou parcialmente seu corpo em luz, o suficiente para que continuasse a segurar sua lança enquanto ainda ganhava parte das vantagens de sua forma elemental, e sem hesitação, usou seu corpo de luz para ganhar velocidade e avançou com tudo contra Balak.

Eventualmente chocou-se contra a barreira de Balak enquanto avançava, mas aquilo foi simplesmente patético; o mago podia ser alguém talentoso e poderoso, mas até mesmo ele tinha de se curvar a certas leis, e mesmo uma barreira constituída por suas mãos era fraca quando feita naquele formato. Atravessou-a sem dificuldades como se ela fosse feita de vidro, e numa fração de segundo depois disso já estava em acima de Balak, investindo contra ele com sua lança.

Mas antes que conseguisse acertar seu golpe, Balak reagiu. A mão do mago se moveu em oposição, os dedos indicador e pai-de-todos dela erguidos, um forte brilho branco vindo dentre os dois. Esses dedos encontraram a lança de Gwynevere, e para a surpresa da cavaleira, eles trouxeram consigo força o suficiente para bater de frente com a força de seu golpe. Isso é impossível! Um mago não deveria ter tanta força física assim! Balak não deveria ser capaz disso, a não que... O rosto do mago se ergueu, e no momento em que viu o sorriso no rosto dele, Gwynevere sentiu seus olhos se afiarem em fúria e frustração. Maldito! Ele previu o meu ataque! Essa barreira esférica, ela não foi criada por necessidade, mas sim porquê ele sabia que eu iria lhe atacar assim que criasse-a, porque ele sabia que ela não seria um obstáculo para mim! Desde o início, ele tinha sua energia concentrada e uma magia preparada para me enfrentar!

Uma onda de choque incrível foi emitida do confronto entre as forças de uma das líderes do Salão Cinzento e um dos Seis Tecelões do Colégio Branco. Essa onda refletiu em tudo ao redor deles, incluindo o próprio prédio em que estava. Em um instante ele pareceu tremer, para que no momento seguinte todo o prédio fosse subitamente ao chão, desabando como se sua própria estrutura estivesse completamente podre. Com esse desabamento, o confronto foi forçosamente separado; graças a sua posição inferior e a falta de suporte para lhe sustentar, Balak foi arremessado ao chão antes de Gwynevere, que aterrissou novamente em cima de alguns escombros do prédio aonde estava.

Seus olhos correram ao seu redor, afiados, cautelosos. Graças ao desabamento, uma cortina de fumaça se erguia por praticamente todo aquele lugar, impedindo-a de ver exatamente o que estava acontecendo a um palmo de distância dela. Palavras lhe faltavam para expressar o quanto detestava aquilo. Essa é uma péssima, péssima situação para si estar. Balak havia caído antes do que ela, o que significava que ele provavelmente já estava de pé a essa altura; considerando que seu oponente era um mago – o que por si só já lhe dava uma versatilidade incrível – ter seu campo de visão tão prejudicado quanto estava agora era uma das piores coisas que podia lhe ocorrer. Um verdadeiro cavaleiro nunca seria traiçoeiro o suficiente para aproveitar-se de algo assim para lançar um ataque desonesto, mas Balak não é um cavaleiro. Ele é um mago – seres que por si só já são naturalmente traiçoeiros – e o líder da maior guilda criminosa do mundo. Táticas covardes devem ser as melhores amigas dele. Tinha de manter-se atenta ali, pronta para reagir a qualquer sinal de-

IMPACTO!

A palavra cortou o silêncio que estava estabelecido naquele local até então, e justamente por isso ela fez com que Gwynevere reagisse de imediato. A cavaleira saltou rapidamente pro lado, a tempo o suficiente para evitar o ataque; de onde estava, viu parte da cortina de fumaça se abrir em duas graças a uma onda de energia que reduziu de imediato um pedaço de concreto a migalhas. Um ataque covarde, tal como eu pensei. Nada inesperado. Isso dito, não pode deixar de sorrir com a estupidez do homem. Anunciar o nome de seus golpes assim quando eles são sorrateiros é algo idiota, Balak. Tão idiota que quase te faz suspeitar...

Girou rapidamente sua lança, e com a ponta dela refletiu o ataque que se esgueirava contra ela pelas costas. Virou seu rosto para o lado, e por cima do ombro viu a lança de pedra que havia se erguido do chão quebrada em duas perto dela. Tal como imaginei. O “Impacto” foi apenas uma distração. Você executou ele para que eu me movesse e lhe subestimasse, para que você pudesse tentar me atingir com seu verdadeiro ataque depois. Esperto, Balak, mas não o suficiente.

– Essa foi uma boa tentativa, mas chega desses joguinhos – declarou Gwynevere em voz alta, endireitando novamente seu rosto. – Pare com essas tolices e enfrente-me como um ho-

Não teve a chance de terminar sua frase. Antes que o fizesse, um soco atingiu em cheio a lateral de seu rosto. Não doeu – o golpe era fraco demais para isso, e ela havia treinado seu corpo para ser duro demais – mas não era a dor que a preocupava. Miserável. Aquele havia sido um soco no rosto. Um soco direto no rosto. A dor era o de menos ali. A humilhação que aquilo representava, a ofensa a sua honra e respeito... isso era muito mais grave. Virou seu rosto lentamente, seus olhos completamente consumidos pelo ódio, e encarou o rosto sorridente de Balak com tanta fúria que ele poderia muito bem derreter diante dos seus olhos.

– É um pouco difícil lhe enfrentar como um homem – gracejou o homem, sorrindo de forma arrogante e desafiadora do seu lado – considerando que você é uma mulher.

Sua resposta foi imediata. Sua lança se moveu, e sem hesitação ela atravessou o peito de Balak. O rosto sorridente do homem se transformou numa expressão de dor, medo e pânico diante disso, mas não durou muito. Logo todo o corpo dele se tornou trêmulo e a miragem se revelou, mas estava preparada para isso. Quando Balak tentou ataca-la por trás, foi mais rápida que ele; virou-se rapidamente e segurou firmemente o pulso do homem, redirecionando o ataque dele para alguns escombros enquanto o encarava firmemente. O rosto de Balak havia sido tomado por pura surpresa com a sua reação... mas logo essa máscara se quebrou, e para a surpresa de Gwynevere, ele tornou a sorrir. Não compreendeu de imediato o que ele queria dizer com aquilo, mas então ouviu um ruído elétrico acima de sua cabeça, e ergueu seu rosto bem a tempo de ver outro Balak acima dela, uma de suas mãos envolvidas no que parecia ser pura eletricidade.

Foi apenas por pouco que ela se afastou, usando de sua Aloeiris para mover-se rápido o suficiente para evadir o ataque. Viu logo o quão fortunada foi com isso; a descarga elétrica que Balak libertou de sua mão foi forte, poderosa o bastante para criar uma cratera de bom tamanho no lugar aonde ela antes estava. Se eu tivesse sido atingida por algo assim, eu não escaparia sem alguns danos severos. Girou sua lança novamente, e de onde estava observou o Balak da eletricidade se erguer, ficando lado a lado com o outro Balak, ambos lhe fitando. Dois Balaks, hum? Aquilo era problemático. Me pergunto... isso é fruto de alguma magia, ou é uma Aloeiris como a de Odin? Ou, mais importante... o verdadeiro Balak está entre esses dois? Esses dois são tudo? A cortina de poeira ainda não havia desaparecido por completo, e a essa altura já estava mais do que certa de que Balak havia usado sua magia nela para fazer com que a cortina durasse mais. Com essa cortina impedindo uma boa visão do que está acontecendo, pode ser que tenham vários Balaks escondidos, prontos para caírem sobre mim a qualquer momento. Não podia se dar ao luxo de ficar atacando-os um por um – tinha de acabar com todos (ou ao menos a maioria) de uma vez, com um só golpe. E sei exatamente o que fazer pra isso.

Girou sua lança em suas mãos, e sem hesitação cravou-a com força no chão. Deixou que energia fluísse por seu corpo, fazendo com que seus cabelos se erguessem como que criando vida própria e dançassem no ar, e em seguida guiou essa energia, fazendo com que ela fluísse para sua lança, o que fez com que a arma brilhasse intensamente.

Ó, Gwyn, Deus do Sol! Conceda-me sua graça, agracie-me com seu poder! Estou cercada de inimigos, meu senhor! Por favor, mande-me sua luz, para que o mal seja purgado!

Ao seu chamado, a luz do sol caiu sobre ela. Da mesma fenda que havia criado antes no céu para invocar a luz na luta contra o assassino do Olho Vermelho veio à luz pura de Gwyn, reluzindo sobre sua lança. Com seus poderes e a energia que havia concentrado em sua lança, ela fez muito mais do que apenas receber um banho de luz – absorveu-a por um instante e juntou à luz a sua própria energia, e logo em seguida liberou-a no ambiente, muito mais forte do que antes, em raios dourados que purificavam tudo o que tocavam.

Diante da sua luz, a poeira se pôs. Diante da sua luz, os dois Balaks que via a sua frente e ao menos uma dúzia de outros que estavam escondidos na cortina de poeira caíram ao chão, seus corpos tornando-se puro pó imediatamente com o impacto. A luz de Gwyn é gentil e calorosa, mas também impiedosa. Aqueles que o Deus do Sol tomava como impuros eram prontamente purificados por ela, fosse essa sua vontade ou não. E a única maneira de purificar algo é destruindo tudo que isso é e recomeçando tudo do começo.

Correu seus olhos por ali, cautelosa. Muito bem, agora o que vem a seguir? Em teoria, seu ataque deveria ter matado o verdadeiro Balak ao mesmo tempo em dava conta de seus clones, mas não estava segura disso. Isso parece tão... fácil. Seria fácil demais se Balak tivesse sido morto só com aquilo, e considerando o que havia visto das habilidades e capacidades de seu oponente, sentia dificuldades em acreditar que aquele era realmente o seu fim.

Compreendeu de imediato o quão certa estava em manter aquele pensamento quando sentiu algo quente acertar-lhe nas costas. Moveu-se rapidamente, claramente não rápido o bastante para evitar o golpe em si, mas o suficiente para que conseguisse evitar que ele perfurasse seu verdadeiro alvo. Aquele golpe havia sido mirado em seu coração, mas graças aos seus movimentos ele apenas perfurou seu seio esquerdo. Grunhiu e rangeu os dentes quando viu que o que havia lhe perfurado era nada mais do que um feixe de luz concentrada. Amaldiçoado seja o seu nome, Balak Hauss! Quanto tempo pretende continuar zombando de mim?! Virou-se na direção da qual veio aquele raio com sangue puro nos olhos, usando todo o seu autocontrole para simplesmente não lançar-se no pescoço dele e quebrar-lhe com suas mãos nuas.

– Ufa, foi por pouco – disse o mago, com um sorriso apologético sarcástico em seu rosto, apesar de que os olhos vermelhos dele demonstravam muito mais seriedade do que o resto de suas feições. – Você realmente não devia fazer coisas como aquela, sabia, Gwynevere? Sua técnica foi perigosa. Pessoas podiam ferir-se.

Não respondeu. Ele está tentando me provocar, tentando fazer com que eu vá contra ele e caia em sua armadilha. Não era tola o suficiente para cometer um erro como aquele... mas francamente, sentia-se tentada a fazer exatamente isso. Se isso me desse a chance de apagar esse sorriso arrogante do rosto dele com meu punho, eu caminharia de cabeça erguida para qualquer armadilha. Mas... não. Não podia se dar ao luxo de ser tão descuidada assim. Era uma das líderes do Salão Cinzento, uma das guerreiras mais fortes da organização. Tenho de conservar minha calma e autocontrole. Tenho de certificar-me de vencer meu oponente com danos mínimos, para que depois eu possa ajudar os outros ao melhor das minhas habilidades. Tinha de fazer com que Balak abaixasse sua guarda... e ao menos até o momento, só tinha uma ideia de como fazer isso.

– O que motivou seu ataque? – perguntou ela subitamente, apontando a lança para o mago, pegando-lhe de surpresa com sua pergunta e fazendo com que uma das sobrancelhas dele se erguesse em surpresa. – O Olho Vermelho é uma guilda ilegal. O Salão Cinzento é uma organização de cavaleiros. Em poder militar, superamos em muito vocês, independente de quão formidáveis seus membros possam ser. Para conseguir se equiparar a nós, vocês devem ter precisado fazer poderosas alianças e contratar um bom número de mercenários para lutarem do seu lado. Mas aparentemente, nem isso foi o suficiente, não é? Afinal, você teve de vir ao campo. Balak Hauss, Tecelão do Colégio Branco. Sua presença aqui e a revelação do fato de que você é um dos membros do Olho Vermelho é o suficiente para causar um incidente de proporções internacionais, um escândalo envolvendo o Colégio Branco que pode afetar a vida de magos em todo mundo. Não importa como você olhe para esse ataque, essa foi uma ação muito ousada e muito arriscada. Sendo assim, tenho de perguntar; o que o motivou? O que fez com que você decidisse nos atacar?

Por alguns momentos, Balak ficou simplesmente em silêncio, parecendo estupefato, como se ele estivesse tentando compreender ao certo exatamente o que ela queria dizer com aquilo. Logo, entretanto, o sorriso voltou ao seu rosto, e a postura do mago relaxou um pouco, embora duvidasse que o mesmo se aplicava a sua guarda.

– O motivo, hein? – repetiu ele, como se estivesse experimentando as palavras, coçando seu queixo, parecendo pensativo. Depois, eventualmente, balançou sua cabeça. – Bom, muito bem. Creio que você tem o direito de saber disso, e de qualquer forma, não é como se isso fosse fazer alguma diferença no grande esquema das coisas. Muito bem, em primeiro lugar sim; tudo o que você disse é verdade. Tive que usar quase todas as cartas do meu baralho afim de colocar nossas forças em um nível comparável ao de vocês. Não me entenda mal, meus companheiros são todos tão ou mais fortes que os cavaleiros de elite do Salão, mas se viéssemos pra batalha sozinhos, seriamos superados simplesmente devido a diferença numérica. Isso dito, consegui jogar bem minhas cartas, conseguindo algumas alianças poderosas, cobrando alguns favores e deixando um pouco de ouro cair em minhas mãos. Consegui alguns guerreiros poderosos para nos ajudar aqui, e simultaneamente, também consegui alguns guerreiros não-tão-fortes para lidarem com os cavaleiros menores e atrapalharem um pouco os mais fortes.

“Sim, a minha presença aqui também é algo... complicado, por assim dizer. Tal como você disse, se minha posição for revelada ao mundo, teremos um incidente internacional em mãos. Mas francamente, eu não tinha muitas escolhas. Quero dizer, eu tinha, mas a única forma de manter-me longe dos olhos seria ficando de fora dessa batalha, e isso é algo que eu simplesmente nunca faria. Sendo uma líder também, Gwynevere, creio que você consegue simpatizar com minha posição; você seria capaz de enviar seus companheiros para o campo de batalha sem dignar-se a acompanha-los? Eu não sou.”

Apertou sua mão ao redor de sua lança com um pouco mais de força ao ouvir aquilo, e seus olhos também se afiaram um pouco mais. Essas não são palavras que eu esperaria ouvir dos lábios de alguém como ele. No entanto, também não eram palavras das quais ela podia duvidar – não muito tempo atrás aquele homem havia interferido em sua luta contra um dos companheiros dele, e foi apenas a presença de Balak ali que salvou o outro. Creio que até mesmo homens desprezíveis possuem uma ou duas características respeitáveis neles.

– Muito bem, agora que confirmei suas afirmações anteriores, podemos ir para o interessante: minhas motivações! Vejamos... bem, eu diria que posso separar minhas motivações atuais em dois pontos distintos. – disse isso e, para ilustrar, ergueu uma de suas mãos, mostrando um único dedo nela. – Primeira: eu precisava derrotar vocês. Com tudo que aconteceu recentemente, o Salão Cinzento e o Olho Vermelho já estavam em guerra. E vocês, minha cara Gwynevere, são oponentes muito complicados de se lidar. Você, Odin e Ezequiel, junto dos quatro Ascendentes e os inúmeros cavaleiros de alto nível sobre seu comando... vocês são muito poderosos, tão poderosos quanto uma das grandes nações. Mesmo para uma guilda como a minha, enfrentar vocês de frente é simplesmente impossível. Por isso tive de usar um pouco de estratégia. Odin está fora daqui, assim como Kastor, Hozar e Teigra, três cavaleiros de alto nível. Similarmente, eu já havia derrotado em uma ocasião separada tanto Titânia, uma das Ascendentes, quanto Lancelot, um cavaleiro de alto nível. Sendo as-

O homem não teve tempo de terminar sua frase. Antes que pudesse concluir seu discurso, o sorriso rapidamente morreu de seu rosto para dar lugar a uma expressão de pânico, e ele saltou para o lado tão rápido quanto pode, apenas a tempo o suficiente para evitar a investida de Gwynevere. Havia lhe surpreendido com aquele seu súbito ataque enquanto ele falava, mas francamente, não dava a mínima para isso. Completamente irada, Gwynevere virou-se na direção de Balak, vendo o mago um pouco distante dela, fitando-a ainda um pouco assustado, mas muito mais cauteloso agora.

– Seu maldito mago miserável... – as palavras foram cuspidas de seus lábios como se fossem veneno. Moveu sua lança, tão bruscamente e com tanta força que a ponta dela raspou no chão, arrancando pedaços de terra e jogando-o ao ar com o movimento. – Você... você foi o responsável pelo que aconteceu aqueles dois?! Foi você o miserável que ousou fazer mal a ela?!

Por um instante, Balak pareceu confuso. Uma das sobrancelhas dele se ergueu, como se ele não compreendesse o que ela queria dizer com aquilo... até que lentamente a compreensão foi abrindo caminho em seu rosto, fazendo com as feições dele ficassem progressivamente mais nervosas e com que um sorriso amarelo surgisse em seu rosto.

– É claro, como eu pude esquecer. Titânia é sua discípula, e para você, ela é como uma filha. – uma gargalhada seca veio da garganta dele, um misto de nervosismo e divertimento com sua própria estupidez. – Ah, sim, sim. Eu sempre soube que a minha mania de falar iria me custar caro um dia.

Não respondeu a isso. Avançou contra o mago com uma velocidade completamente inumana, segurando sua lança com ambas as mãos, preparada para lançar uma estocada contra o peito dele... mas não foi isso que fez. Aproximou-se, aproximou-se bastante, até ficar bem cara a cara com ele... mas então, ao invés de atacar-lhe, transformou seu corpo em feixes de luz. Tudo aquilo durou apenas um instante: transformou seu corpo em feixes de luz enquanto diante do homem, usou essa forma para contornar a figura dele, e ainda se materializando atrás dele realizou seu ataque. Sua perna ainda estava entre a forma física e de luz enquanto realizou seu ataque, e isso fez com que a velocidade do golpe fosse muito maior, o que também significava que o dano dele foi muito maior. Atingiu Balak direto no rosto, com tanta força que o homem foi lançado para longe por aquilo, seu corpo atravessando inúmeras casas graças a força e velocidade de seu golpe. Nem assim o deixou em paz, entretanto. Ele vai pagar. Ele vai pagar caro pelo que fez.

Transformou seu corpo novamente em luz e avançou com toda a sua velocidade na mesma direção na qual Balak havia sido arremessado. A velocidade com a qual o mago havia sido jogado era simplesmente incrível, mas por mais rápido que aquilo fosse, ainda não era nada se comparado a velocidade da luz. Materializou-se novamente metros à frente dele, cravou rapidamente sua lança atrás de si, esperou por uma fração de segundo e então lançou seu golpe. Seu chute foi acedente e acertou em cheio; seu pé colidiu em cheio com o queixo de Balak, fazendo com que ela sentisse a mandíbula do homem quebrando-se com o golpe, e o corpo dele foi jogado para cima por aquilo, o que fez com que ele se endireitasse. Perfeito. Naquela situação, era como se ele estivesse se exibindo para Gwynevere, e certamente iria tomar vantagem disso.

Deixou seus braços em um estado entre luz e sólido, e seu pensar duas vezes lançou-se ao ataque. Enquanto naquele estado, seus golpes não eram tão fortes quanto o normal, nem seus movimentos tão rápidos quanto a luz, mas era o suficiente. Com ambos os seus braços, lançou milhares de socos contra aquele homem em um único instante, golpeando cada pedacinho do torso dele com toda a sua força e ira, seus braços movendo-se tão rápido que ela nem podia vê-los ou senti-los – agia apenas por puro instinto e puro ódio.

OooooooOOOOOOHHHH! – os ruídos que vinham dela soavam no mínimo estranho e até mesmo um pouco embaraçantes, mas não podia contê-los; estava se esforçando demais, irritada demais para impedir esses sons, e mesmo se não fosse esse o caso, provavelmente simplesmente não daria a mínima para isso. Lançou seu braço esquerdo para trás com toda a sua força e velocidade e fixou seus olhos sobre seu oponente, sobre aquele que iria destruir. – QUEIME NO INFERNO, BALAK HAUSS!

Seu punho retornou ainda mais rápido e forte do que antes, tanto que sua velocidade gerou atrito com o ar o suficiente para que ele estivesse rodeado chamas. Atingiu o peito de Balak em cheio com aquele soco, e o resultado foi imediato. Seu punho simplesmente explodiu em pedaços com a violência do golpe, mas em troca, Balak foi arremessado para longe com tanta brutalidade que a terra até se abriu nos lugares por onde seu corpo passou.

Foi só depois que o corpo de seu oponente foi arremessado além da sua visão que Gwynevere permitiu-se cair de joelhos no chão. Estava completamente exausta – mover-se tanto quanto havia feito já seria algo extremamente exaustivo por si só, mas somado ao uso dos seus poderes aquilo passava a exigir uma quantia completamente absurda de energia. Creio que eu deveria dar palmadinhas em minhas próprias costas por estar consciente depois disso. Apesar de que, talvez não merecesse essas palmadas...

Seus olhos desceram, caíram sobre o coto que havia ficado no lugar aonde antes estava sua mão. Eu fui imprudente. Muito imprudente. O mais provável era que Gwynevere tinha mais do força e habilidades o suficiente para derrotar Balak de uma outra forma que não lhe custasse tanto, mas francamente, isso simplesmente nunca passou em sua cabeça. No momento em que ouviu as palavras do mago, em que ouviu sobre como ele havia sido o responsável pelo que aconteceu a Titânia, a ira que a cavaleira sentiu foi algo muito além desse mundo. Sentiu como se seu sangue literalmente fervesse, como se tivesse uma besta aprisionada dentro de seu corpo e essa besta estivesse lutando para se libertar. Todos os seus desejos, todo o seu autocontrole... isso não significava absolutamente nada naquela situação. Ela mal pensou, apenas agiu. Apenas moveu-se para destroçar por completo seu oponente. E, pra ser sincera, eu não consigo ficar verdadeiramente arrependida pelo que aconteceu. Sim, havia perdido sua mão, e isso era uma perda grande, não só pra ela como para todo o Salão Cinzento, mas havia ao mesmo tempo conseguido sua vingança, conseguido matar seu oponente e vingar a crueldade dele sobre sua pupila. E isso vale a pena. Sim, isso vale toda pena.

– Uau, esses foram ataques absurdamente fortes, Gwynevere. Estou honestamente impressionado. – o som daquela voz foi o suficiente para fazer com que os olhos de Gwynevere se arregalassem, com que todo o seu corpo congelasse como se tivesse virado pedra. Não. Impossível. Nada nem ninguém deveria sobreviver depois disso! Isso é completamente impossível! – Foi um desempenho muito bom esse o seu... embora um tanto quanto imprudente também. Sendo uma das líderes do Salão Cinzento, pensei que você seria esperta o suficiente para saber que você deveria evitar usar todo o seu poder até saber exatamente quais as habilidades de seu oponente, mas pelo visto, esse não é o caso. Acho que te superestimei um pouco.

Ergueu seu rosto, e ele estava caminhando em sua direção. A parte superior das vestes do mago estavam bem destruídas devido aos seus golpes, deixando que pouco mais do que alguns retalhos cobrissem o corpo dele, mas apesar disso ele mantinha um sorriso no rosto. Seu queixo, pescoço e a parte superior de seu corpo estavam empapadas em seu próprio sangue, deixando claro que ele havia sofrido muitos danos com seu golpe, mas mesmo assim ele agia tranquilamente, como se não tivesse sido afetado por seus ataques. Gwynevere tinha certeza de que tinha acertado todos os golpes nele, mas Balak Hauss simplesmente não exibia sinal algum de dano.

– Minha Aloeiris... Geas... você não compreende ainda exatamente o que ela faz, não é? – questionou ele com um olhar arrogante brilhando em seu rosto, embora claramente já soubesse a resposta. – Bom, não espere que eu vá te explicar o funcionamento dela, já tive uma lição hoje que me ensinou bem que é de meu interesse manter o funcionamento das minhas habilidades confuso para meus inimigos, mas permita-me, pelo respeito que tenho a você, lhe dizer o que aconteceu. Sim, você me acertou com seus ataques, todos eles. Não precisa se preocupar achando que você cometeu algum erro pois não o fez, ao menos não naquela etapa. Mas isso não significou nada, temo eu. Seus ataques foram fortes e me deixaram a beira da morte, minha boa cavaleira... mas não morto, não imediatamente. Apesar de todo o dano que sofri, eu ainda estava vivo e consciente, e sendo assim, não foi difícil para mim usar as habilidades de minha Aloeiris para curar-me por completo. Seu ataque mataria qualquer um... exceto eu, porquê algo assim está longe de ser o suficiente para me matar. Isso seria algo que você compreenderia se tivesse dedicado um pouquinho a mais de esforço a descobrir exatamente o funcionamento das minhas habilidades, mas nós dois sabemos que isso não aconteceu, não é? Bem... todos nós cometemos erros, eu acho. Embora alguns paguem mais caro por esses erros.

Tentou levantar-se rapidamente ao ouvir aquilo, mas Balak agiu rapidamente, sem lhe dar chance de reação. Nem bem ela começou a mover-se, sentiu uma pequena esfera de energia concentrada acertar-lhe no rosto, bem na bochecha. Era uma coisa minúscula, do tamanho de uma formiga, mas quando a energia concentrada naquilo foi liberada de uma única vez, a força foi tão grande que a cavaleira foi jogada trás instantaneamente, quicando com no chão. Enquanto era arremessada, em meio ao ar, ainda tentou reagir de alguma forma, tentou controlar sua postura o suficiente para que aterrissasse em segurança, mas estava cansada demais para ter a força necessária para fazer algo assim, e tudo o que conseguiu com seus esforços foi com que acabasse caindo de costas no chão e fosse arrastada por ele por algum tempo. Quando enfim parou, toda a sua armadura na parte de trás havia sido arrancada pelo atrito e ela estava com o rosto voltado para cima, para o céu, sentindo dor correr por seus ossos. Maldição... isso é muito ruim. Sem uma mão, tão exausta assim... ela estava na pior situação possível, contra o pior oponente possível. Maldição... se eu não arranjar uma forma de reagir a isso, as chances de que eu morra aqui são bem reais.

Tentou mover seu corpo a força, tentou levantar-se... mas não teve nem tempo para tentar isso antes que Balak subitamente surgisse pouco atrás dela, o corpo dele pairando acima de sua visão. O homem mostrou-lhe um sorriso sarcástico antes de esticar sua mão sobre o corpo de Gwynevere, e quando ele fez isso a cavaleira pode ver que energia estava controlada nessa mão, energia dourada.

Chuva Dourada. – disse tranquilamente ele, no instante em que a energia concentrada em sua mão começou a disparar incontáveis raios dourados sobre Gwynevere, atingindo em cheio seu corpo em diversos pontos, queimando o que tocavam pouco antes de causarem pequenas explosões que, apesar de minúsculas, eram incrivelmente dolorosas. Tentou controlar-se, mas apesar de os seus esforços e toda a sua determina, gemidos de dor vieram dela com os raios, para logo transformarem-se em grunhidos, e daí foi um passo para que os grunhidos tornassem-se verdadeiros gritos de dor.

Aquilo pareceu durar por toda uma vida, uma onda de sofrimento quase que sem fim, mas eventualmente, eventualmente os raios pararam. Fumaça saiu de seu corpo; tal como na parte de trás, a parte frontal de sua armadura também havia sido destruída pelos raios de Balak, deixando apenas alguns pequenos de aço ali, algo que mal era o suficiente para cobrir seus seios. Os locais que haviam sido afetados pelos raios de Balak estavam queimados e feridos pelas pequenas explosões dos raios, mas de alguma forma, de alguma forma, ela havia sobrevivido a tudo aquilo.

– Hm. Você é mais durona do que imaginei. Parece que eu te superestimei inicialmente, para logo em seguida te subestimar, não é? – um brilho índigo surgiu nas mãos de Balak, muito diferente do que todos os outros que já havia visto, trazendo uma energia e poder que eram claramente muito superiores aos de qualquer outro golpe do mago. Com essa energia Balak criou uma espada acima de sua cabeça, a ponta da espada espectral apontando direto para o coração de Gwynevere. – Sem problemas. Isso vai resolver tudo.

Seu movimento foi tremendamente rápido, principalmente para um mago. Balak caiu de joelhos rapidamente, levando a espada espectral junto consigo, e por um momento ele esteve prestes a perfurar Gwynevere com ela. Mas antes que pudesse fazer isso, ela reagiu. Nem mesmo a cavaleira sabia exatamente de onde tirou forças para fazer isso, mas de alguma forma ela transformou seu corpo em feixes de luz, e esses feixes de luz se dispersaram muito antes que Balak chegasse sequer próximo de atingi-la. Eles tornaram a se juntar atrás do homem, dando forma ao corpo dela novamente, e assim que isso foi feito ela não perdeu tempo. Quando se transformava em luz, transformava também toda matéria não-orgânica que estivesse em contato direto com o seu corpo com ela, e isso fez com que ela mantivesse sua lança na sua mão... a lança que usou para lançar uma estocada contra o crânio de Balak.

Chegou perto, mas não o suficiente. O mago era alguém desprezível, um homem que ela queria matar com suas próprias mãos, mas se havia algum elogio que era forçada a dar a ele era que o homem era tremendamente competente no que dizia respeito a batalhas. Seu movimento foi extremamente rápido, mas Balak parecia ter lhe previsto de alguma forma – antes que o atingisse, o mago literalmente deslizou pelo chão para fora do seu alcance, usando seus poderes mágicos para criar distância. Com um movimento rápido e até um pouco habilidoso ele girou, tornando a virar-se em direção a ela, fitando a cavaleira com interesse e certa cautela. Não era estúpida ou iludida, sabia que sua postura naquele momento estava muito longe de ser qualquer coisa intimidadora, sabia que parecia mais próxima da morte do que da vida, mas ainda segurava sua lança firmemente com a mão que lhe restava e ainda mantinha seus olhos afiados e desafiantes, e esperava que isso fosse ao menos o suficiente para fazer com que ela lembrasse um pouco a guerreira que era.

– Que... interessante – murmurou Balak, embora ele não parecesse estar muito feliz com aquilo. A arrogância do homem havia desaparecido depois da reação de Gwynevere, e no lugar dela reinava agora um ar sério, compenetrado, completamente focado nos movimentos da cavaleira, tal como no início de tudo. A diferença é que, quando começamos a lutar, eu estava em um estado bom o suficiente para ser uma grande ameaça pra ele. Agora que estou exausta e sem uma mão, meu poder caiu bastante. Havia tido de fazer um grande esforço para completar seus últimos movimentos, e se fosse esperar ter de se esforçar tanto assim para fazer qualquer coisa contra ele, nunca derrotaria Balak... por mais que isso lhe enchesse de fúria. – Você é uma oponente perigosa, Gwynevere. Uma oponente muito perigosa, pelo que estou vendo. Parece que não posso me descuidar com você, do contrário as chances de que eu acabe com uma lança atravessando meu crânio são bem grandes. Muito bem então. – a espada espectral que o mago havia criado desapareceu em um instante, e lentamente Balak abriu seus braços. Algo subitamente surgiu em suas mãos, uma coisa estranha que Gwynevere imediatamente assumiu ser mais energia... até compreender que não, que essa definitivamente era alguma outra coisa, que aquilo era... escuridão. Pura escuridão. – Ainda acho que isso será um pouco de exagero para alguém em seu estado... “mas antes sobrar do que faltar”, diz o ditado. Mais é sempre melhor que menos. Geas: Escuridão Completa.

Assim que essas palavras foram ditas, uma das coisas mais bizarras que Gwynevere já viu na vida desenrolou-se em frente aos seus próprios olhos. A escuridão nas mãos de Balak avançou para os céus na forma de dois grandes pilares negros, e ao alcançar altura o suficiente elas se espalharam, propagaram-se no ar como se fossem uma nuvem de praga, criando uma espécie de camada negra tão absolutamente escura que nem mesmo a luz do sol de Gwyn conseguia passar por ela. A escuridão cobriu quilômetros de distância ao redor de Balak e Gwynevere, envolvendo toda a área em trevas pura, prendendo-os em uma espécie de esfera negra.

E quando isso aconteceu, toda a luz do mundo morreu.

Como eu devo lutar aqui?! Foi esse o primeiro pensamento que passou pela cabeça de Gwynevere. Virou sua cabeça pra um lado e pro outro, mas mal sequer compreendeu que havia feito isso – não via absolutamente nada independente de pra onde quer que olhasse, o que fazia com que a cavaleira soubesse de seus movimentos apenas por senti-los. Isso é como andar sem sentir as pernas, pensou ela, rangendo os dentes. Por mais que pudesse sentir os movimentos de seu corpo, isso era muito pouco – sem visão não tinha uma boa noção do estava fazendo, não sabia qual era o seu posicionamento ou o que exatamente os seus movimentos geravam, e isso prejudicava-a muito mais do que alguém poderia imaginar.

E foi então que foi atingida por aquele golpe.

Não soube de onde ele veio; não conseguia vê-lo, obviamente, e ele também não havia feito som algum para lhe dar uma dica do seu ponto de origem. Também não importava, de qualquer forma; a força por trás do ataque foi o suficiente para lhe jogar para trás – não tanto quanto os outros golpes que havia sofrido antes, mas ainda assim mais do que o bastante para que ela perdesse qualquer noção que tinha de onde estava no meio daquela escuridão. Rolou no chão, e numa tentativa tola de deter a si mesma tentou apoiar-se nele com seu coto, esquecendo-se por um momento que havia perdido sua mão. A dor que subiu por ela foi tão grande que teve de morder seus próprios dentes com força o suficiente para arrancar sangue afim de que não gritasse, e apesar de ter sucesso ao menos nisso, aquilo não lhe ajudava. Droga, droga, droga! Se as coisas continuarem assim, eu irei morrer!

– O que foi, Gwynevere? Você parece estar com problemas. Precisa de uma mão? – a voz de Balak veio de todos os cantos simultaneamente, tranquila e provocante, zombando dela, fazendo pouco de sua situação. – É incrível, não é? Existem pessoas que são cegas e mesmo assim vivem normalmente. Desempenham suas atividades com maestria, algumas de forma até melhor do que pessoas normais, e não apenas atividades que não envolvem a visão. Algumas compõe músicas e poemas, outras costuram, outras vigiam. Sabe o porquê disso, cavaleira? Porque, com a falta de sua visão, essas pessoas desenvolveram meios alternativos. Já que elas não podem ver, elas usam ao máximo seus outros sentidos para compensar por isso. Tato, paladar, olfato, audição... é incrível o potencial que esses sentidos têm, apesar de que isso é algo que a maioria das pessoas nunca compreendem. A visão é uma prisão, cavaleira. De todos os sentidos, a visão é o que mais nos limita; pelo fato de termos uma visão bem desenvolvida, nossos outros sentidos não são explorados como deviam... e isso faz com que percamos quase toda a nossa habilidade quando nossa visão é perdida.

– ... Como? – questionou ela, entre dentes. Certificando-se agora de que estava usando a mão que lhe restava, apoiou-se no chão se esforçou para se erguer de alguma forma. – Como você sabe aonde estou? Como consegue me atacar assim?

– Ah, por favor. Isso deveria ser óbvio. Você realmente acha que eu propositalmente faria algo que me prejudicaria de alguma forma, Gwynevere? E mesmo deixando isso de lado, você se esquece que sou um mago? Essa escuridão é um problema para você, ela impede sua visão, impede que você veja qualquer coisa que esteja a um palmo do seu rosto, mas pra mim? Magias que me possibilitam ver no escuro são coisas simples pra mim.

Isso faz sentido. No entanto, por mais que fizesse sentido, aquilo não tornava as coisas nada melhores para ela. Então, não estou somente lidando com um oponente de alto nível enquanto estou exausta e ferida, como também estou cega aqui enquanto ele consegue me ver perfeitamente? Era difícil imaginar como a situação poderia piorar ainda mais. Eu preciso pensar em alguma forma de reagir a isso. Deve ter alguma forma de eu dar um jeito ao menos nessa escuridão. A luz de Gwyn não conseguia penetrar a esfera negra que a escuridão de Balak havia criado... mas isso dito, ela não havia tentado todas as suas cartas com ela. Talvez, se eu me concentrar... se eu me concentrar nisso, talvez eu seja capaz de atravessar a esfera e iluminar o mundo de novo. Isso era arriscado... mas era um risco que valia a pena.

Fechou seus olhos, respirou fundo e concentrou-se. Focou-se em sua lança, usando-a como um ponto de centro como sempre fazia, deixou que sua energia fluísse. A luz de Gwyn que brilhava do lado de fora era, em parte, feita pelos poderes de Gwynevere – o que significava que, se a cavaleira quisesse, ela deveria ser capaz de controla-la um pouco. Foi exatamente isso que tentou. A sensação foi, no mínimo, estranha. De certa forma, sentia mais daquela luz do que do seu próprio corpo; sentia o calor dela, e de alguma forma ela conseguia “ver” o que a luz “via”, saber o que estava ao redor dela. Não perdeu tempo em tentar concentrar essa luz, e com ela se pôs a quebrar a esfera negra.

Falhou miseravelmente. Por mais que se esforçasse, por mais luz que concentrasse, não conseguia fazer nada. Independente do quanto de luminosidade jogasse contra a esfera, a escuridão era forte, forte o suficiente para engolir toda essa luz sem deixar que um único feixe dela passasse para dentro. Não demorou muito e sentiu novamente ataques atingirem-na – três simultaneamente dessa vez – e a força por trás deles foi o suficiente para jogá-la novamente para trás.

– Eu sei o que você está tentando, Gwynevere, e permita-me adiantar desde já que isso é completamente inútil – disse a voz de Balak, um leve tom arrogante e orgulhoso temperando-a. Quanto mais o homem falava, mais ela se convencia de que ele estava ficando progressivamente mais e mais satisfeito consigo mesmo. – Essa esfera foi feita sob medida pelo meu poder. Você não vai conseguir. Não importa o quanto tente, ela vai engolir tudo. Nenhuma luz de fora vai penetrar na camada de escuridão dessa esfera.

Provavelmente, com aquelas palavras Balak almejava ferir o espírito de Gwynevere, fazer com que ela se sentisse perdida, derrotada. Falhou nisso, da pior forma possível. Ele queria quebrar seu espírito, mas o que ele fez foi lhe dar uma ideia, e com ela, esperança. Sob medida, hum? Nenhuma luz de fora pode penetrar, hum? Aquilo era muito interessante – não porquê isso dizia que as suas tentativas iriam todas falhar, mas sim porque isso dizia que aquela esfera foi feita para engolir toda a luz que viesse de fora. Mas o que acontecerá, eu me pergunto, se a luz vir de dentro

Tornou a focar-se em sua lança, dessa vez de uma diferente. Seu poder era a luz de Gwyn, Deus do Sol. Ele permitia que ela transformasse-se em luz e tirasse poder dela para lutar, usasse a luz em suas técnicas. Só que, ao contrário do que alguns poderiam pensar, essa não tinha de ser necessariamente uma luz externa. Não podia usar a maior parte de suas técnicas sem a luz do sol, sim, mas para certas situações, ela contava com uma carta extra. A luz de Gwyn não é algo tão simples quanto à luz do sol. Ela é a luz, a luz do mundo, a luz dos homens. A luz que brilha em cada homem e mulher, que combate eternamente as trevas em nossos corações, a luz que nos guia no caminho do bem. Essa era a luz que precisava. Essa era a luz que iria usar.

Brilhou com força. A própria Gwynevere mal conseguia acreditar nisso, mas a luz que veio dela foi linda e forte, um brilho poderoso que destruía toda a escuridão. Eu sou indigna disso. Uma mulher como eu, uma mulher tão maculada e com tantos defeitos... não mereço carregar toda essa luz comigo. Mas se seu Senhor havia decidido por lhe agraciar com essa luz, então ela iria usá-la.

A luz destruiu a escuridão. De dentro pra fora, a esfera negra de Balak desabou diante da sua luz, explodiu em milhares de pedaços, revelando novamente o mundo que ela havia ocultado, revelando novamente o Salão Cinzento. Viu Balak alguns metros a sua frente, recuando para trás, confuso e atordoado, fechando e abrindo seus olhos constantemente, meio cego por aquilo.

Não hesitou.

Dessa vez, usou a luz do exterior. Fez com que ela cercasse sua lança, garantindo uma lâmina de luz ao redor da longa arma, e sem pensar duas vezes avançou contra seu oponente. Balak não teve tempo ou chance de reagir. O cabo cercado de luz da sua lança atingiu-o direto no pescoço, a luz concentrada e solidificada ao redor dali servindo como uma espécie de lâmina, penetrando na carne dele, arrancando sangue do homem. Os olhos de Balak se arregalaram, sua feição se transformou em pura incredulidade... e medo, muito medo.

– Lembre-se de uma coisa, garoto que se chamava Balak – disse ela, seus olhos cerrados, fixos no homem que havia sido seu oponente por todo aquele tempo, o maior desafio que ela já enfrentou. – Não importa quão densas elas sejam, não importa o quão escuro elas tornem o mundo... as trevas sempre vão perder... porque ao fim de tudo, no fim de tudo... A LUZ DESTRÓI A NOITE MAIS ESCURA!

Ele não respondeu, mas também, não teve tempo pra isso. Forçou um pouco mais sua lança, e de uma só vez ela passou. Sangue foi jogado ao chão, e finalmente Gwynevere permitiu-se cair de joelhos e suspirar. Finalmente. Acabou. Virou sua cabeça para o lado e viu, com um sorriso no rosto, o momento em que a cabeça de Balak tornou a cair, ao lado do corpo decapitado do mago. Você perdeu, Olho Vermelho.



Notas finais do capítulo

ÁREA OESTE:

Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Enderthorn)
Enderthorn VS Raptor (Vencedor: Enderthorn)
Vaen VS Lilybell (Vencedora: Lilybell)
Jiazz VS Maoh (Vencedor: Jiazz)
Senjur VS Reivjak (Vencedor: Senjur)
Chappa e Dayun VS Lilybell e Vaen (Vencedores: Chappa e Dayun)
Vaen, Chappa e Dayun VS Saber e Alcatraz (Fragmentada)
Chappa e Dayun VS Alcatraz (Vencedor: Alcatraz)
Vaen VS Saber (Vencedora: Saber)

ÁREA SUL

Kuman VS Fera (Vencedor: Fera)
Skylar VS Fera (Vencedor: Skylar)
Skylar VS Cleus (Vencedor: Cleus)
War e Coralina VS Nicholas (Vencedores: War e Coralina)
Trevor VS Maverick (Vencedor: Trevor)
War, Coralina, Ogre, Ekhart e Clone das Sombras VS Agnes, Ibur e Dokurei (Fragmentada)
War e Coralina VS Agnes (Vencedor: War)
War VS Ibur (Vencedor: Ibur)
Ogre VS Ibur (Empate)
Ekhart VS Dokurei e Shell (Interrompida)
Bokuto VS Zodwik (Vencedor: Bokuto)
Bokuto VS T.I.T.A.N. (Vencedor: Bokuto)
Valery e Goa VS Cleus (Vencedor: Cleus)

ÁREA LESTE

Alexander VS Goliath (Vencedor: Alexander)
Alexander VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Eldigan VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Soulcairn VS Steelex (Vencedor: Soulcairn)
Soulcairn VS Bertold (Vencedor: Bertold)
Ezequiel VS Bertold (Vencedor: Ezequiel)
Ezequiel VS Tristah (Em andamento)
Zephyr VS Balak (Vencedor: Balak)
Kazegami VS J (Empate)
Florian VS Tristah e Behemoth (Vencedores: Tristah e Behemoth)
Jack Branco e Jack Negro VS Behemoth (Vencedor: Behemoth)

SALÃO CINZENTO

Marco, Scarlet, Sara, Leona e Darla VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)
Bokuto VS Jiazz (Vencedor: Bokuto)

ÁREA NORTE

Gwynevere VS Retalhador (Vencedora: Gwynevere)
Gwynevere VS Balak (Em andamento)



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