O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 130
Os Monstros do Mundo se Mostram (pt.II)


Notas iniciais do capítulo

Então... aqui está.

Esse é o último, senhoras e senhores.

O último capítulo dessa história.

MAS NÃO O ÚLTIMO DA SAGA!

Ainda temos mais - muito mais! - para vermos das aventuras de Kastor e dos outros! Mais a vermos do mundo de Reham! E veremos sobre isso! Pois mais no futuro nós teremos a terceira temporada, a terceira história!

"O Olho Vermelho" termina, mas preparem-se para a "Guerra das Guildas"!



Enquanto no Salão Cinzento os cavaleiros e membros da Era Dourada comemoravam e se recuperavam das batalhas que travaram durante a Guerra do Olho Vermelho, o mundo não parava. Naquele mesmo dia, no mesmo momento em que Kastor e os outros cuidavam de seus próprios assuntos, pessoas poderosas faziam o mesmo e começavam a se agitar.

Os grandes poderes do mundo, desde o Sul de Haerion ao Norte de Ikan, estavam tensos. Mesmo que uma guerra tivesse acabado de terminar, outras guerras estavam por vir. E cada um dos integrantes desses grandes poderes estava fazendo seus próprios movimentos em relação ao caos que estava para tomar o mundo.

Com sua vitória sobre Balak, Kastor venceu a guerra. Mas ao mesmo momento em que aquilo acontecia, ele também marcou o início da Nova Era. Uma Era que seria conhecida no futuro como “A Era Vermelha”, pelo sangue que foi derramado durante ela.

Uma Era que se inicia agora.

 

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VILA DE GOLDEN OAK – REINO MERCANTIL DE FREDORA

Golden Oak. Localizada na seção centro-oeste do reino de Fredora, Golden Oak é uma das vilas mais ricas da nação do ouro. Com muralhas e uma pequena guarda pessoal, Golden Oak abriga vilões de mais ricos do que o normal, com bens aquisitivos consideráveis: mercadores, agricultores, alfaiates e ferreiros de renome eram os que compunham a base da cidade, com até mesmo algumas pessoas de maior importância vivendo ali: não eram muitos, mas haviam alguns bardos, atores, pintores e alguns fidalgos de nobres que montavam casas ali, para fugirem um pouco da vida caótica e turbulenta da cidade. Apesar de pequena demais para ser chamada de uma cidade, a vila era definitivamente próspera, como alguém podia imaginar ao olhar para o seu centro e ver a razão do seu nome: um velho e raro carvalho dourado com galhos que cresciam para todos os lados, erguendo-se imponente como um símbolo da glória e da imponência daquela vila.

E era exatamente por isso e por essas condições que Brennan Reyver não conseguia entender o porquê daquele povo ser tão estúpido.

Ele estava com um pedaço de pergaminho nas mãos, apoiando-o sobre um caixote de madeira enquanto anotava o que seus homens traziam das casas com uma pena. Carcino havia criado um dispositivo há alguns anos chamado “caneta” que supostamente era muito melhor do que o seu método, mas havia crescido aprendendo a escrever com pena e tinteiro, e gostava de cultivar os velhos hábitos. Treze caixas de joias de ouro, dezesseis guarda-roupas cheios de peças finas, dezoito garrafas de vinhos de safras finas, vinte e cinco garrafas de uísque que beira cinquenta anos, cinco mil oitocentos e quarenta e duas moedas de ouro até agora... e isso é só considerando os artigos de luxo que tiramos dessa pequena seção. Não cobrimos nem um terço do território dessa vila ainda. Sempre que via toda aquela riqueza, Brennan ficava cada vez mais confuso. Será que eles pensam realmente que podem sonegar impostos e saírem impunes?

Olhou ao redor e, por um momento, voltou seu foco ao caos que ocorria. Foi quase que imediato que os gritos e os gemidos lhe ensurdecessem. Para onde quer que olhasse ele conseguia ver homens, mulheres, velhos e crianças sendo arrancados de suas casas e guiados em direção ao carvalho que servia como ponto de orgulho para aquela cidade. Um carvalho de ouro... bem conveniente para representar a riqueza dos que viviam aqui, bem como a ganância e avareza que os levou a morte. Havia dado ordens para que seus homens enforcassem cada devedor naquela árvore, e seus galhos já estavam começando a ficar bem decorados. Presumo que seja uma boa coisa o fato desse carvalho ser tão grande assim. Provavelmente ficaríamos sem espaço se fosse menor, mas com esse tamanho... duvido disso. Ele vai ser uma bela árvore de natal ao fim do dia.

E pensar que tudo aquilo havia começado por um motivo fútil. O senhor daquela vila havia decidido aumentar as taxas em preparação para a inevitável guerra que estava por vir com Ember, e a vila não quis aceitar. O aumento nem foi realmente considerável – três a cinco por cento, se não lhe falhava a memória – mas a vila decidiu fazer o que qualquer vilão indisciplinado e sem o menor respeito a sua nação decidia fazer; eles fecharam a vila e passaram a sonegar impostos, negando-se a efetuar qualquer pagamento até que as taxas fossem reajustadas, bem como que que uma série de outras medidas reivindicadas fossem tomadas.

Naturalmente, a resposta do senhor foi suplicar à Legião por ajuda. Ele provavelmente torcia para que Charlotte ou Llavaleric respondessem, considerando o dom dos dois para a política, e com certeza rezava para fosse Goudo que viesse – considerando que era mais provável que o Cavaleiro Dourado se aliasse aos vilões do que qualquer coisa – mas de certa forma, pela expressão que havia cruzado o rosto dele ao lhe ver, estava seguro de que era a última pessoa que ele esperava ver. Sabia que não era bem visto em Fredora, e por mais que não tivesse um homem vivo com culhões o suficiente para dizer isso na sua cara, “Inclemente” era uma alcunha que existia para pouco mais do que esconder a alcunha pela qual era realmente conhecido: Brennan Reyver, o Cruel. Mas que me chamem assim, se é o que querem. Podem me chamar se Brennan, o Filho da Puta, e eu não poderia me importar menos. Seu trabalho não era ser popular; seu trabalho era manter a ordem e mostrar o poder militar do reino de Fredora ao mundo, e isso não seria feito com gentilezas.

 Sua atenção foi arrancada de seus pensamentos por um grito mais alto que pareceu ecoar em seus ouvidos. Um de seus soldados estava tentando arrastar uma criança até a árvore para enforca-la junto aos outros, e estava tendo até algum sucesso com isso, já que a pirralha havia decidido basicamente se jogar no chão e começar a chorar e espernear enquanto berrava besteiras aleatórias demais para que pudesse fazer sentido disso. Não se incomodaria com aquilo se fosse só isso, mas o problema era seu soldado. Ele deveria ser capaz de arrastar aquela garota facilmente, mas não era isso que fazia. Ele continuava a arrastá-la e a levava a criança cada vez mais em direção a árvore, mas toda a sua postura demonstrava hesitação em fazer aquilo, e isso era inaceitável.

— Por que você está demorando? – Questionou Brennan rispidamente, fitando seu soldado com um olhar afiado que fez com que o homem congelasse no mesmo momento, ficasse quase que totalmente paralisado perante a agressividade daquele olhar. – Essa criança não pode ser pesada, e você é treinado o suficiente para ter bons músculos. Apresse-se logo e enforque-a de uma vez.

— M-mas, comandante, isso é... isso é realmente necessário? – De forma sutil, extremamente sutil, uma das sobrancelhas de Brennan se franziu perante àquela resposta. Ele realmente foi ousado a esse ponto? Ao redor deles tudo continuava a ocorrer normalmente, com seus homens saqueando as casas e enforcando os vilões, mas sabia que estavam todos atentos no que ocorria agora. Qualquer outro deles já teria calado a boca por saber que haviam provocado a sua fúria, mas aquele em particular parecia ter perdido toda a noção do perigo. – Digo, ela é... senhor, ela é só uma criança! Ela não tem nada a ver com tudo que aconteceu aqui! Por favor... não poderíamos poupá-la? Mostrar um pouco de misericórdia?

Sua resposta a isso foi imediata, e brutal. Sacou a pistola que trazia no cinturão e efetuou dois disparos rápidos, acertando ambos os joelhos do soldado com tiros que arrancaram nacos de carne deles. Sua pistola era ainda de um modelo mais velho – uma flintlock, uma das primeiras pistolas feitas por Carcino – mas havia se dado ao trabalho de customiza-la e aprimora-la um pouco, o que fazia com que ela causasse um dano muito maior e com que fosse capaz de recarrega-la rapidamente ao puxar o dispositivo no seu topo com o dedão da mão. Se orgulhava dela. Ela é excelente em luta, funciona muito bem como para dar sinais e comandos a um exército, e é perfeita para execuções.

O soldado primeiro caiu de joelhos, antes que o resto do seu corpo pendesse para frente e ele caísse completamente no chão. A criança soltou um grito horrorizado, mas foi rápida em se aproveitar do fato de que não havia mais ninguém lhe segurando para fugir e abandonar seu “protetor” para trás. E é por isso que um soldado morre. Uma garotinha chorona que não podia se importar menos. Balançou a cabeça em negação diante disso e colocou sua pena sobre o caixote antes de se levantar. Fez seu caminho até o soldado sem pressa e usou seu pé para virar o corpo dele, bem como para chutar seu elmo longe. O que estava por detrás dele era o rosto de um homem de cabelos loiros desgrenhados, com olhos azuis arregalados que pareciam incapazes de acreditar no que havia acabado de acontecer. Um jovem. Tinha de ser. São sempre os jovens que me dão trabalho.

— Regra número um: as ordens do comandante são absolutas. Você não sugere modificações, não as questiona, nem sequer pensa sobre o que elas podem significar. Você apenas as segue ao melhor da sua habilidade. Isso foi ensinado a você, não foi? – Perguntou Brennar, puxando novamente o dispositivo enquanto apontava sua pistola para o rosto do infeliz. – Ir contra as regras é uma violação do Código da Legião, e conforme o código diz, cabe ao comandante definir a punição adequada nesses casos. E por esse crime, eu, Brennar Reyver, Duque da Legião de Prata e Ouro de Fredora, lhe sentencio a morte.

Um simples puxar do gatilho foi todo o necessário para que a pistola disparasse e o crânio do jovem explodisse como uma melancia, espalhando sangue e miolos para todos os lados. O som do disparo fez com que alguns vilões ao redor gemessem um pouco mais alto, e a garota se assustou tanto que caiu no chão. Voltou seu olhar para ela, contemplando a forma como aquela criaturinha lutava para se reerguer e voltar a correr enquanto puxava novamente o gatilho da sua pistola.

— Uma morte assim, desonrada e violenta, por uma criança desprezível como essa... que patético. – Apontou a arma e puxou o gatilho, e mesmo daquela distância a sua pistola foi o suficiente para abrir um rombo na cabeça da pirralha, onde deveria estar seu olho esquerdo. O corpo desabou como um saco vazio no chão, enquanto fumaça ainda saia do cano da arma. – Nunca vou entender o porquê de tanto choro. Seja um bebê de colo ou um velho de bengala, nada muda. A lei vale para todos, e a justiça dos Duques deve ser absoluta.

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CIDADE DE GRANVEIR – REINO MERCANTIL DE FREDORA

— Então, o Olho Vermelho foi derrotado por crianças? – A voz que disse aquelas palavras era madura, e seu tom era condescendente. Na cidade de Granveir, no reino de Fredora, havia uma mansão enorme, visível desde as muralhas, localizada no centro da cidade. Era nessa mansão que uma das mais ricas e antigas famílias nobres de Fredora tinha o centro do seu poder, e era no Saguão Central dessa mansão, cercado por seus filhos e súditos mais leais e iluminado pelas chamas dançantes da fogueira, que estava Llavaleric Montegral, patriarca da família Montegral e Duque da Legião de Ouro e Prata de Fredora. – Eu esperava mais.

O jornal que o Duque lia foi atirado as chamas com nada mais do que desdém no olhar do velho. Com noventa e dois anos, Llavaleric era um homem velho e calvo, com não mais do que alguns fios de cabelo branco que pareciam frágeis como carvão, caindo para trás e nas laterais do seu rosto. O centro da sua cabeça era completamente careca, deixando visível uma marca de nascença em cor-de-vinho que ele tinha no meio dela – uma marca horrível, mas que ninguém ousava mencionar por temor a ele. E não era por menos esse medo: mesmo estando sempre em uma cadeira de rodas, Llavaleric conseguia manter uma presença imponente, e seu rosto cruel e amargo mostrava passava sempre uma sensação de calma superioridade perante a qualquer um que se dirigisse a ele. E se essa postura não fosse o bastante para intimidar alguém, então sua reputação cuidava disso: não havia um membro da nobreza de Fredora que não soubesse que Llavaleric era o responsável por eliminar as grandes ameaças que se ergueram contra o reino dos mercadores. Havia sido ele o que organizou a morte de Quan dos Vigilantes, bem como havia sido ele o organizador da traição que levou Dokurei Deux à prisão. Dentre os Quatro Duques da Legião de Ouro e Prata, Llavaleric era reconhecido como o mais perigoso, e isso não se devia a poder bruto, mas ao poder político e a imensa rede de assassinos, espiões e criminosos que obedeciam a cada comando seu.

— Pai, essa é uma notícia péssima – murmurou um dos filhos de Llavaleric, suando frio em nervosismo, mas não ousando erguer sua voz acima do tom de um sussurro por medo de despertar a fúria de seu pai. Ele era um homem alto e já maduro, pai de jovens guerreiros e um político influente, com um bigode já grisalho acima dos lábios, mas mesmo assim ele se via reduzido a um adolescente apavorado diante de seu pai. – O Olho Vermelho era um dos nossos maiores fornecedores de produtos e serviços. Eles eram os responsáveis por conduzir metade das operações e realizavam suas missões com eficiência impecável. A perda deles é...

— Desprezível – terminou o Duque, cortando a frase de seu filho com simplicidade enquanto simultaneamente deixava cair sobre ele um olhar gélido dos seus olhos azuis. – A guilda foi destruída por crianças, por um pirralho que mal saiu das fraudas. Uma associação a um grupo tão patético quanto esse só faz reduzir a família a uma posição mais e mais vulnerável. Se o Olho Vermelho não é capaz de se manter de pé, então é uma graça que eles tenham sido derrotados antes que pudessem nos falhar.

— Pai, com todo o respeito, você não parece se dar conta do quão importante o Olho Vermelho era para as nossas operações – disse outro dos filhos de Llavaleric, um homem alto e careca de porte guerreiro e um tanto mais ousado, tão forte que seu terno mal conseguia se fechar ao redor do seu peito. – O Olho Vermelho era...

— Meus ouvidos me enganam? – Interrompeu Llavaleric, movendo seu olhar para esse filho. – Parece que o imbecil que se acha um guerreiro pretende me explicar algo. Claro, isso deve ser apenas impressão. Afinal, não acredito que um filho meu seria burro o suficiente para achar que há algo que ele possa me dizer que eu não saiba, ou ingênuo o bastante para acreditar que sua opinião vale de alguma coisa. Cale a boca, moleque. Sua mãe não tinha miolos, e vejo que você também não tem. Não há nada útil que pode sair dos seus lábios, então mantenha-os fechados, antes que eu reconsidere e decida que ser um filicida é melhor do que deixar degenerados como você arrastarem o nome da família pela lama.

Os olhos do filho de Llavaleric se arregalaram diante dos insultos proferidos por seu próprio pai. E logo em seguida ele ficou furioso. Seu rosto ficou vermelho, veias tornaram-se visíveis e seus dentes rangeram com força o bastante para triturarem uma noz entre eles. Ele fez um movimento para se levantar, mas no momento em que ia se colocar em pé seu corpo parou de lhe obedecer. Suas mãos moveram-se por vontade própria, erguendo-se até sua garganta e apertando-a com uma força terrível, como se estivesse tentando quebrar seu próprio pescoço. Os olhos furiosos do guerreiro se tornaram amedrontados, e todos os que estavam perto dele se afastaram em medo, recuando tanto quanto podiam enquanto acompanhavam o espetáculo macabro que decorria bem à sua frente.

— Isso dito, é uma boa coisa que existem formas de contornar problemas como esse – comentou Llavaleric, contemplando o olhar suplicante de seu filho sem qualquer traço de emoção enquanto mantinha um único dedo erguido do apoio de sua cadeira. – Eu não posso ser filicida se meu filho resolve comete suicídio, posso?

Ninguém deu uma resposta a isso. Alguns ainda ousaram mover olhares horrorizados para seu pai, suplicando por um pouco de piedade e misericórdia para seu irmão, mas todos sabiam que isso não iria adiantar em nada. Não demorou muito para que o som doentio do quebrar de ossos ressoasse, e logo a seguir o corpo do filho caiu sobre o carpete, com olhos mortos ainda arregalados e um pouco de baba escorrendo dos seus lábios.

— Eu poderia dizer que isso foi um desperdício, mas francamente, a palavra falha em definir exatamente a perda que lixo como esse representa. Tanto investimento para um bruto estúpido como esse... realmente, eu deveria ter me focado em plantar minha semente em mulheres escolhidas pelos seus genes ao invés de priorizar fatores políticos. Talvez assim eu tivesse filhos descentes ao invés do lixo que tenho de aturar. – A mão direita de Llavaleric se ergueu, e dois dos seus dedos estalaram. Rápidos como um relâmpago, dois dos servos dele, um homem de meia idade com porte elegante e uma jovem garota de cabelos rosas e olhos azuis, vestidos respectivamente em roupas de mordomo e camareira, surgiram bem atrás do Duque, em posições de prontidão e subserviência, prontos para obedeceram seus comandos. – Seves. Maves. Limpem isso.

— Prontamente, senhor – murmurou o homem, sua voz a mais perfeita demonstração de formalidade e profissionalismo.

— Mil perdões senhor, mas prefere que o corpo seja cremado ou enterrado? – Disse a garota em um tom infinitamente educado e perfeitamente normal, que alguém poderia usar para perguntar sobre o clima ou em um cumprimento comum.

— Tanto faz. Cortem-no em pedaços e alimentem os cães com ele, pelo que me importa... embora isso provavelmente daria diarreia aos pobres animais. De qualquer forma, o corpo é a menor das minhas preocupações. Apenas certifiquem-se de limpar bem o carpete. Seria uma pena se ele fosse arruinado.

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FAZENDA ISOLADA – REINO MERCANTIL DE FREDORA

 

— ‘Qui está, sô Duque! – O rosto da velha fazendeira era só sorrisos enquanto ela se aproximava de Goudo, estendendo ao Duque de meia-idade uma caneca de café e um prato de biscoitos.

— Ah, muito obrigado! – Ao contrário do resto do seu corpo, as mãos de Goudo estavam nuas. Havia retirado suas manoplas já algum tempo, sabendo que seria rude da sua parte comer com elas. A bem da verdade, sentia-se rude só de estar comendo da comida de pessoas que tinham tão pouco, mas o casal havia lhe feito o convite de ficar depois que havia afugentado os lobos que assolavam o seu gado, e estava com tanta fome... – A senhora é muito gentil. Por favor, não deixe que eu te incomode.

— Ah, por favor, como se ocê fosse um incômodo! – Disse ela, jogando a cabeça para trás e rindo com gosto. O sorriso e as risadas dos camponeses eram coisas que Goudo nunca havia presenciado quando mais novo, e eles alegravam imensamente o seu coração. – É uma honra termos ocê por aqui. Cum tantos nobres por aí que estã tão ocupados cum luxos e tentando ganhar mais e mais dinheiro, é uma benção que tenhamos um homi como o sinhô por aqui: um homi honesto que si importa com os que tão abaixo dele.

— Mas vocês não estão abaixo de mim. – Protestou Goudo, molhando a ponta de um biscoito no café antes de levá-lo aos seus lábios. – É apenas devido aos camponeses que os nobres podem ter acesso ao luxo. Meu dinheiro, minha comida, minhas roupas, minhas propriedades... tudo o que tenho foi feito por pessoas como a senhora e o seu marido, e eu só consigo mantê-las porque pessoas como vocês colaboram para mim com recursos que me sustentem. O mínimo que eu posso fazer é dedicar esses recursos à sua proteção, afim de lhes garantir segurança. É o dever de qualquer Duque se preocupar com seu povo.

— Seria bom si os outros pensassi assim – disse o marido dela, puxando uma cadeira e pegando um biscoito para si também. Ele era um homem um pouco mais velho que ela, magro e queimado pelo sol, mas que ainda assim de alguma forma tirava forças para arar todo um terreno e ainda criar vacas e galinhas. – A gente sabe disso tudo, sô Duque, mas acontece que os outros num se importam! Eu antes morava lá prus lado da terra dos Bali-alguma-coisa e eles só quiriam saber sobre o dinheiro. Se ocê num pagava no dia certo, eles amarravam ocê nu tronco e metiam chibatada até o cabloco sair de lá cum a costa vermelhinha de dá dó.

— Bali... você quer dizer os Balistein, provavelmente? – Perguntou Goudo, obtendo um aceno em concordância do velho. Seus olhos ganharam um brilho determinado ao ouvir isso. – Hum. Interessante. Parece que vou ter que dar uma passada por lá depois.

— E u quê que o sinhô vai fazê? Si num si importa cum a pergunta, claro. – Questionou a senhora.

— Não sou apenas eu que digo que um Duque deve se importar com seu povo. É a lei. E a lei também estabelece que punições como chibatadas só podem ser realizados em casos de crimes de nível intermediário, como roubos. Sonegar ou atrasar o pagamento de impostos é uma ofensa menor; um senhor qualquer nunca poderia chicotear alguém por algo assim. Se lorde Balistein está fazendo isso, então ele deve ser punido. A lei prevê que a punição de um Duque que comete o crime de abuso de poder é ressarcir os que sofreram o abuso por todos os abusos sofridos. Vou assegurar que ele faça isso.

— Mas..., mas i si ele num quisê? – Perguntou o velho.

— A lei também diz que os Duques da Legião de Prata e Ouro tem todo o direito de exercê-la em plenitude. E se quem quer que esteja recebendo uma punição se negar a acatar a essa punição, a lei concede aos Duques o direito realizar a sumária execução deste indivíduo da forma que o Duque achar mais adequada. – Em outras palavras, o que aquilo significava era que a lei lhe permitia matar qualquer pessoa em território Fredorense que se recusasse a sofrer determinada punição legal, sem sofrer qualquer repercussão por isso. – Se lorde Balistein tiver algum bom senso ele pagará por seus crimes da forma apropriada. Se não, eu encontrarei um novo lorde que não cometa crimes em primeiro lugar.

 A essa altura, entre ele e o senhor, os biscoitos haviam acabados. Agradeceu imensamente aos senhores pela refeição e ofereceu-se para ajudar a lavar os pratos, e quando eles se negaram a deixar que fizesse isso, anunciou que chegava a hora da sua ida. Eles também não quiseram deixar que ele fosse embora, pedindo para que ficasse um pouco mais, mas aí foi a sua vez de negar. Por mais que eu goste de passar tempo com pessoas como eles, eu tenho meu trabalho e meus pecados pelos quais pagar. Em seu leito de morte, o pai de Goudo havia amaldiçoado seu filho, falando que ele havia sido a maior desgraça a cair sobre a família Naito e lamentando que o nome e as terras da família agora estavam em mãos tão sujas. Ele não havia estado errado quando disse aquilo, e desde então Goudo tinha dedicado sua vida a fazer com que fosse um homem melhor, e que de alguma forma – qualquer forma – seu pai pudesse ter um pouco de orgulho do seu filho, onde quer que estivesse. Eu já fiz muitas coisas desde então, ajudei minhas pessoas..., mas ainda não é o bastante. Seus pecados eram vastos, vastos demais, e mesmo que passasse cada momento da sua vida ajudando alguém, ainda não seria o bastante para pegar pelo mal que já havia feito. E por isso eu não posso me dar ao luxo de ficar parado. Eu nunca irei me redimir completamente, então devo ao menos me esforçar para corrigir todos os erros que eu puder!

Com uma promessa de que enviaria suprimentos depois para ajudar aquele velho casal a passar o inverno, Goudo montou novamente em seu corcel de batalha, e colocando novamente as manoplas em suas mãos e o elmo em sua cabeça, Goudo Naito, o Cavaleiro Dourado, galopou em direção à Brandbill, sede da família Balistein.

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RUÍNAS DO FORTE DARVEIN – REINO DA PAZ DE HAERION

 

Forte Darvein. Em tempos antigos, aquele forte havia servido como uma base avançada para o Reino de Haerion, quando esse reino ainda era pequeno e estava em expansão sobre o território sulista. A medida que o reino foi se expandido, a importância desse forte foi caindo mais e mais, e com isso a manutenção dele tornou-se precária, uma preocupação distante. Não demorou, portanto, para que o forte começasse a decair e eventualmente acabasse transformado em uma ruína. Mesmo nos tempos atuais, com o reino reduzido aos territórios mais ao sul do continente, ele ainda não mantinha uma guarnição, pelo simples fato do rei Callen, o Gentil, não prezar tanto pelos esforços militares e querer evitar problemas com o reino mercantil de Fredora mais ao norte.

No entanto, a crescente urgência que a guerra que estava por vir colocava sobre os sulistas fazia com que fosse necessário que o forte fosse recuperado. Afim de enviar suas forças ao Norte mais rapidamente, Callen havia desenvolvido uma estratégia que se baseava tanto em enviar parte da sua força pelo mar em uma grande frota como em também efetuar a guarnição de outros contingentes nos fortes mais ao norte de Haerion, afim de fazer com que a marcha até o Norte fosse o menor e mais rápido possível. Mas com o passar dos anos, esses fortes haviam que haviam anteriormente sido abandonados tinha sido tomados por bandidos, que usavam as ruínas como um abrigo para se esconderem.

E para recuperarem esses fortes e permitir que o plano fosse executado com sucesso, os Guardiões da Sociedade do Anel haviam sido convocados.

Quebre! — Gritou Zerves Pardini, Guardião do Anel Cinzento, reunindo sua energia e golpeando o chão com força com ele no momento em que um bando de bandidos avançou em sua direção. A energia concentrada em seu anel se espalhou pelo chão a sua frente como pequenos raios de energia, e um momento depois, o chão quebrou. Não ruiu, não rachou, não sofreu dano algum; ele simplesmente quebrou, todo o pedaço que havia sido afetado pela energia de Zerves, fazendo com que uma enorme cratera escura cujo fim era impossível de se ver se abrisse nesse espaço e engolisse os bandidos que avançavam. Os gritos de medo deles foram ouvidos ainda por algum tempo enquanto caiam, mas não demorou para que até esses fossem perdidos em meio à escuridão.

— Mas o quê... o que esse filho-da-puta acabou de fazer?! – Alguns outros bandidos que vinham pelo flanco hesitaram diante daquilo, dando tempo o suficiente para que Zerves se erguesse novamente e voltasse seu rosto em direção a eles. De olhos dourados e cabelos cinzentos que caiam sobre seu rosto, Zerves Pardini era um sujeito magro e desprovido de verdadeira massa muscular, mas que parecia ainda mais intimidador por isso de alguma forma. Ele era magro e alto demais, com facilmente cerca de dois metros e setenta de altura, e isso fazia com que seus membros fossem também anormalmente grandes, o que dava a ele um ar aterrorizador, que combinando com seus olhos e as vestes simples e desgastadas que ele usava, faziam com que ele parecesse um monstro saído direto das histórias de terror.

— Meu nome é Zerves Pardini, e a minha Aloeiris se chama “Quebra” – disse ele, fechando sua mão em um punho novamente e erguendo-a em direção aos outros bandidos. – Com ela eu sou capaz de fazer com que tudo ao meu redor quebre gradualmente até que não reste nada. E com o uso do Anel do Foco que Vossa Majestade Callen me concedeu, eu sou capaz de concentrar essa habilidade de forma a trocar um alcance reduzido por um efeito imediato. O que significa o seguinte!

As pernas de Zerves dobraram-se subitamente, e em um instante o homem avançou com uma velocidade impressionante contra os bandidos, seu punho do anel revestido por uma camada de energia cinzenta. O bandido que viu o punho vindo contra ele se assustou, movendo sua espada desesperadamente para tentar bloquear o golpe, e no instante em que ela entrou em contato com o punho, ela quebrou em milhões de pedacinhos minúsculos demais para que pudesse vê-los.

— Tudo que eu golpeio com esse punho é quebrado instantaneamente a nível molecular, efetivamente desintegrando a matéria, seja ela inorgânica... – seu punho, ainda revestido pela mesma energia, subiu em direção ao peito do bandido. O homem tentou saltar para trás e evitar o golpe, mas foi lento demais; o soco de Zerves lhe atingiu diretamente, e no momento em que isso aconteceu um rombo se abriu em seu peito, um grande buraco de cerca de trinta centímetros de diâmetro que era absolutamente perfeito, sem nenhuma marca de falha nem qualquer tipo de problema, pelo simples fato de que ele não havia sido criada por força bruta, mas porque toda a matéria daquelas área quebrou. – Ou não.

O corpo do bandido morto escorregou até o chão, e Zerves não perdeu tempo dando atenção para ele, preferindo investir contra os demais bandidos. Nenhum deles tentou enfrenta-lo novamente. Assim que viram um monstro com aquele poder investindo contra eles os bandidos quase se atropelaram na pressa de fugir, fazendo com que fosse fácil para ele executar cada um dos retardatários.

Enquanto aquilo acontecia o líder dos bandidos – um homem cheio de anéis e brincos que havia roubado de mercadores mortos pelas suas mãos chamado Geyser – estava mordendo seus dentes com mais e mais força a cada minuto que passava. Maldição... esses malditos miseráveis imprestáveis...! Não conseguia aceitar que tantos homens estivessem fugindo de um único palhaço alto demais. Não podia acreditar que seu reinado criminoso estivesse ruindo assim tão fácil.

QUAL O PROBLEMA, SEUS PALERMAS?! — Gritou ele à plenos pulmões, conseguindo que Zerves lhe dignasse um rápido olhar enquanto continuava a matar seus homens. O fato de que ele foi o único que lhe ouviu, os outros estando ocupados demais correndo por sua vida para prestarem atenção no que falava, lhe deixou ainda mais irado, o bastante para que arrancasse um machado de arremesso de seu cinturão e o atirasse contra um dos covardes. Ele atingiu o imbecil bem na testa, cravando-se profundamente dentro do seu crânio, e por mais que os outros tenham parecido aterrorizados por aquilo, isso chamou sua atenção. – ESCUTEM, SEUS MALDITOS IMBECIS! ELES SÃO APENAS DOIS HOMENS! PAREM DE CORRER FEITO MARICAS POR AÍ E OS MATEM DE UMA VEZ!

— Isso mesmo, como ele falou. Parem de correr como maricas e nos matem de uma vez. Ou, ao menos, tentem. – As palavras sarcásticas foram ditas por Cyril Franberschek, conhecido como “o Escritor” dentre os guardiões. Um homem de cabelos, bigode e barbicha negros, ele estava vestido completamente em verde, usando um bycocket verde em sua cabeça com uma pena vermelha na parte de trás, bem como uma túnica cor-de-grama leve e elegante com botas de couro protegendo seus pés. Todas as feições que via daquele maldito otário eram arrogantes ou cínicas, sempre com um sorrisinho convencido no rosto, aparentemente ignorante de como sendo tão pequeno e frágil ele poderia facilmente ser morto por qualquer um dos que estavam ali. Tão ignorante disso que mesmo enquanto toda a batalha ocorria ao seu redor, o que ele fazia não era nada mais do que escrever com uma pena em um pedaço de pergaminho, aparentemente mais preocupado em escrever sobre o que acontecia do que em ajudar seu companheiro, e enquanto ele fazia isso o anel com uma esmeralda que ele usava em seu indicador direito brilhava. – O fim das histórias de cada um de vocês já foi decidido, então vocês podem muito bem fazer com que ele seja ao menos um pouco interessante, não concordam? Se eu tiver que ficar escrevendo sobre como os bandidos covardes ficaram correndo de um lado para o outro enquanto meus companheiros os massacravam, a história vai ficar bem maçante.

— V-você! Como ousa falar assim?! – Um dos seus homens que estava mais perto de Cyril e ouviu aquilo foi atiçado por aquelas palavras. Não estava realmente certo se ele fazia isso porque queria matar aquele homem ou se porquê julgava enfrentar Cyril mais seguro do que ir contra Zerves, mas ele apontou sua arma contra o Escritor, e isso já foi mais do que todos os outros fizeram. – Você acha que isso é tudo um jogo?

— Ah, não, claro que não! Imagine só! Se isso fosse um jogo, eu estaria me divertindo! – Gracejou Cyril, girando sua pena entre os dedos. – Mas, suponho que esse é um dos males de ser um adulto. Sem tempo para a diversão, sempre tendo que fazer coisas tediosas para ganhar a vida. Por isso que dizem que as crianças são sortudas.

— Ora seu... vá pro inferno! – Com um grito de guerra o bandido avançou, erguendo sua espada com ambas as mãos e jogando-a para trás enquanto investia com tudo contra Cyril. Com a cabeça baixa, nada mais do que a parte inferior do rosto do homem estava visível, e o bandido não estava olhando para ela... pois se estivesse, ele teria visto o sorriso maldoso que se abriu nos lábios de Cyril.

Girando por uma vez a espada em suas mãos, o bandido moveu a lâmina com toda a força, atingindo o pescoço de Cyril em cheio. Sangue espirrou da ferida, caindo sobre o rosto do bandido, este sorriu em satisfa-

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Girando por uma vez a espada em suas mãos, Rodger moveu a lâmina com toda a força, atingindo o pescoço de Bracket em cheio. Sangue espirrou da ferida, caindo sobre o rosto de Rodger, e este sorriu em satisfação... até o momento em que o corpo tombou, e ele então percebeu que o que havia atingido era um de seus amigos. Sua expressão satisfeita se tornou horrorizada, seus olhos fitaram o cadáver sem entender, e então ele ouviu o assobio.

— Bravo, bravo! Linda atuação! Bem como o ensaiado! – O rosto do bandido foi para o lado, para ver que Cyril estava agora apoiado contra uma das paredes destruídas do forte, ainda escrevendo enquanto mantinha o sorriso no rosto. Os olhos de Rodger se arregalaram ainda mais ao vê-lo ali, completamente bem, e isso só fez com que um brilho travesso surgisse nos olhos do guardião. – Sabe, se você não fosse morrer hoje, você realmente deveria procurar um teatro. Faria sucesso por lá.

— Você... você... o que diabos você fez?! — Rugiu Rodger, sua voz como a de uma fera ferida. – Eu te atingi! Eu te vi sangrar! Eu vi seus olhos se arregalarem e vi seu sangue esguichar em mim! Você deveria estar morto! Então por que você está aí e é Bracket que está morto?!

— Ora, porquê foi Bracket que você atingiu, logicamente – respondeu Cyril, como se a resposta fosse óbvia. Quando a confusão do bandido se mostrou ainda maior ele apontou para o pergaminho. – O quê, não acredita em mim? Pois está aqui, tudo escrito! “Girando por uma vez a espada em suas mãos, Rodger”, que é você, “moveu a lâmina com toda a força, atingindo o pescoço de Bracket”, que é o cavaleiro caído sobre uma poça do seu próprio sangue ai do seu lado, “em cheio. Sangue espirrou da ferida, caindo sobre o rosto de Rodger”, e vê, sabe, eu gostaria da sua opinião sobre essa parte. Acho um pouco... hmm, como dizer? Sangrento demais. Talvez devêssemos refazer essa cena, não concorda?

— O quê...? Mas o qu-

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Girando por uma vez a espada em suas mãos, Rodger moveu a lâmina com toda a força, atingindo o pescoço de Bracket em cheio. Ele sorriu em satisfação ao ver o rosto em pânico de seu oponente... até o momento em que o corpo tombou, e ele então percebeu que o que havia atingido era um de seus amigos. Sua expressão satisfeita se tornou horrorizada, seus olhos fitaram o cadáver sem entender, e então ele ouviu o assobio.

— Muito melhor, não concorda? – Perguntou Cyril alegremente, parecendo tremendamente empolgado. – Ah, sim, muito melhor! Alguns leitores gostam de sanguinolência, sabe, mas é importante saber dosar isso. Trabalhar com apenas a medida certa, e nada mais.

— O quê... o que foi... – a essa altura, Rodger já não compreendia mais nada. Seus olhos arregalados, ele suava frio, sentia seu estômago revirar, sentia vontade de vomitar. A sensação era horrível, horrível demais. – Duas vezes... duas vezes agora...! O que infernos foi isso? O que diabos você fez?!

— Ora, o que um escritor deve fazer: eu escrevi. Ou, mais especificamente... eu escrevi a história. – Quando o outro demonstrou não entender o que ele queria dizer com aquilo, Cyril bufou em aborrecimento, mas se pôs a elaborar. – Veja bem, pense da seguinte forma. Você já viu alguma história que, seja um livro ou uma peça de teatro ou qualquer coisa do tipo, com uma parte da qual você não gostou? Já pensou como seria reescrever essa parte? Pois se sim, parabéns: você entende a lógica básica do que eu faço.

Afastando-se da parede, Cyril pôs-se a caminhar lentamente em direção a Rodger. Um passo após o outro, o homem era um símbolo da parcimônia enquanto fazia seu caminho, falando enquanto andava.

— A minha Aloeiris, meu amigo, se chama “Tudo Pode Mudar”, e é exatamente isso que eu faço. Eu mudo tudo. Ou, sendo mais preciso... eu escrevo e reescrevo. Você vê, quando eu estou escrevendo em meu pergaminho eu não estou apenas escrevendo sobre o que está acontecendo aqui: eu estou escrevendo o que acontece aqui. Em outras palavras, eu estou definindo qual será o curso dos acontecimentos. Sabe por que os seus companheiros estão fugindo de Zerves? Porque eu escrevi que eles fariam isso. Sabe por que o seu chefe atirou um machado de arremesso em um deles? Porque eu escrevi que ele faria isso. Tudo que acontece aqui já foi escrito pela minha mão, e sendo assim, eu já escrevi o fim de cada um de vocês. Por isso que digo com toda certeza que vocês irão morrer aqui: porque isso tudo já foi escrito, e o que foi escrito não pode ser desescrito... claro, até porquê, “desescrito” não é uma palavra – comentou Cyril com uma pequena risada. – E antes que você pergunte, sim, foi isso que fez com que você experimentasse essas sensações também. Eu não posso simplesmente escrever o que vai acontecer, mas também posso reescrever o passado recente, bem como posso reescrever o futuro eminente. Você realmente me atingiu da primeira vez. Parabéns, você me matou. Porque eu deixei. Porque eu decidi que não teria nada mais dramático do que deixar você me matar, para então no último momento ativar a minha habilidade e fazer com que você tenha acabado de matar seu melhor amigo. E concorde comigo... eu sou o rei do drama, não sou?

Rodger não deu resposta para isso. Ele ainda estava abismado demais pelo que havia acontecido, e mesmo se não fosse esse o caso, seu espírito estava visivelmente destruído. Ele não parecia ter ânimo ou motivação para fazer mais nada... até o momento em que seus olhos caíram novamente sobre sua espada. Um brilho determinado surgiu em seus olhos quando isso aconteceu, e sem hesitar ele fechou suas mãos ao redor da empunhadura dela e a ergueu com toda a força.

E foi então que Cyril falou.

— E lógico, sendo o rei do drama, eu pensei em uma morte bem dramática para você – murmurou o Escritor, e no instante em que ele disse aquilo todo o corpo de Rodger congelou, como se um milhão de correntes estivessem impedindo todos os seus movimentos. – Sabe, eu inicialmente pensei em te matar pessoalmente, mas eu não trouxe o meu arco e flecha, e isso não seria particularmente dramático, certo? É importante para um escritor manter sempre o drama das suas histórias, fazer com que os leitores sintam a perda e a aflição dos seus personagens, e que forma melhor de fazer isso do que através de um suicídio, hum?

Os olhos de Rodger se arregalaram ao ouvir aquilo. Sua boca se abriu, e um grito veio de sua gar-

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Movido pela miséria e a angústia de ter matado seu melhor amigo, Rodger perdeu toda a vontade viver. Erguendo sua espada com ambas as mãos, ele não pensou duas vezes antes de cravá-la na própria barriga, perfurando seu próprio umbigo e sentindo o sangue escorrer. Uma última lágrima surgiu e escorreu de seu olho direito antes que todo o seu corpo tombasse ao chão, o resto da sua vida sendo derramada junto com seu sangue viscoso.

— ... E perfeito! – Comemorou Cyril, balançando sua pena no ar enquanto olhava para o que havia acabado de escrever. Virou seu rosto um pouco para o lado, e não muito distante ele viu o corpo do bandido, ainda com um traço úmido por onde a lágrima havia passado. O sorriso do escritor se abriu ainda mais em orgulho ao ver aquilo. – Ah, sim, uma obra de arte. Um bandido que mata seu melhor amigo por acidente e se suicida. Um bandido com consciência! Trágico, dramático e perfeito! – Enquanto falava seus olhos se moveram para o lado, vendo a mulher que chegava até o campo de batalha, e vê-la fez com que seu sorriso se abrisse ainda mais. – E aí vem ela, a estrela do espetáculo, bem a tempo do nosso gran finale.

Àquela altura, todos os bandidos que haviam atuado sobre o comando de Geyser estavam mortos. Zerves estava tirando seu punho do buraco que ele havia criado no último deles quando viu o machado vir voando em sua direção. Com seus bons instintos ele foi mais do que capaz de usar o corpo do morto como um escudo humano, fazendo com que o machado se cravasse na parte de trás do crânio do defunto antes de jogar o corpo de lado e revestir seu punho em energia. Geyser liberou um grito de guerra que mais pareceu o urrar de um urso e sacou de uma vez um par de machados que a maioria das pessoas teria que usar com ambas as mãos como se eles não fossem nada..., mas antes que ele pudesse investir, a voz dela soou.

— Vocês pediram dez minutos. – Disse Ymirra Lyen, Comandante dos Guardiões e detentora do Anel do Imortal, a mais leal e poderosa dos guerreiros sobre o comando do rei Callen. – Seus dez minutos já acabaram.

A mera presença de Ymirra foi algo que pareceu mudar toda a situação. A mulher era de um poder e imponência tão grande a sua presença fazia com que homens se calassem, e seu olhar fazia com que reis sentissem medo. Em um passado distante, aquela mulher havia sido escravizada pelos nobres de Fredora. Linda de nascença, Ymirra havia sido colocada para lutar desde cedo em competições doentias que os nobres faziam, nas quais eles empetecavam jovens mulheres lindas, vestiam-nas em vestidos e salto-altos e armavam-nas com espadas cegas para enfrentar javalis. Todas as que lutaram com ela quando ainda pequena morreram nessas batalhas, mas Ymirra não. Assim como era bela, ela também era habilidosa, e os javalis nunca conseguiram fazer nada contra ela. Ela matou não só javalis, mas também outras mulheres, e gladiadores, e soldados, e mercenários renomados. Tudo isso na arena, em condições cada vez piores, mas ela nunca perdeu uma luta, nem sequer foi ferida. Dos seis aos vinte e seis anos de idade ela lutou, e nesse tempo ela participou em dez mil lutas, ganhando todas elas sem que seu sangue tocasse o chão da arena uma única vez.

De alguma forma, em algum momento, Callen conseguiu a libertar e a recrutou para integrar suas forças, e ela jurou sua eterna lealdade a ele. A partir desse acordo, ele obteve um dos maiores luxos que o mundo já viu. Ymirra era absolutamente linda até hoje; alta, com um corpo atlético e lindos olhos de um azul profundo que eram acompanhados por cabelos negros que embora curtos e descuidados conseguiam ser mais belos que os da maioria das mulheres, ela era bonita o bastante para que os mais poderosos dos homens a desejassem, mas ela também era fria como o gelo e completamente desinteressada em qualquer tipo de romance. E sua habilidade com a espada era lendária. Agora, vestida dos pés ao pescoço em uma armadura de ferro que ela tinha há anos e empunhando sua espada bastarda repleta de inscrições rúnicas, com um lenço vermelho amarrado ao redor do seu pescoço e dançando com o soprar do vento, aquela era uma das mulheres mais fortes do mundo, capaz de disputar seu lugar junto ao sol com pessoas como Xelia, a Rainha das Amazonas, e Selene, Imperatriz do Norte.

— Você... – resmungou Geyser como uma besta, virando-se em direção a ela. – Você é a responsável por isso? O rei de Haerion envia uma mulher para comandar o ataque ao meu império?! O BASTARDO ZOMBA DE MIM?!

— Ele te superestima – respondeu ela, gélida, apoiando a ponta de sua espada no chão e segurando-a pela empunhadura com ambas as mãos. – Vossa Majestade me disse que essa podia ser uma missão perigosa. Pensei que enfrentaria homens poderosos aqui. Mas me enganei. Vocês são todos fracos, e não há um homem de verdade em seus números.

A resposta de Geyser a isso foi rugir novamente e investir contra ela sem pensar duas vezes, movendo um de seus machados direto em direção ao seu rosto. Você está facilitando o trabalho dela com isso, amigo. Um passo para o lado, um golpe rápido, e o braço com machado e tudo saiu voando. Sangue esguichou ao ar do coto localizado quase que na altura do ombro de Geyser, mas surpreendentemente, ele ignorou aquilo. Seu segundo machado moveu-se ainda mais rápido do que o primeiro, fazendo com que Ymirra tivesse de bloquear seu golpe dessa vez, e quando ele a encarou seus olhos estavam consumidos pelo vermelho e sua boca estava cercada por baba e espuma como se ele fosse uma espécie de cão raivoso.

— Hum. Um Berserker – murmurou Ymirra com desdém, nada impressionada com aquilo. Ela moveu a lâmina em sua mão suavemente, deixando que o machado escorregasse por ela e seguisse em direção ao seu rosto, e então se abaixou quando este estava preste a atingi-la. O golpe não chegou perto de sequer arranhar um fio de cabelo dela, e deu a guerreira toda a chance da qual precisava.

Com a precisão de um mestre ela passou a lâmina nas pernas de Geyser, cortando seus tendões, e por mais que ele pudesse ignorar a dor, ele não podia ignorar seu corpo. Ele caiu de joelhos imediatamente, e no momento em que ele tentou liberar mais um grito de guerra, Ymirra aproveitou-se da chance para enfiar sua espada pela garganta dele. Ela entrou pela boca e saiu pelo peito, coberta em sangue.

Foi só depois que o brilho morreu de seus olhos que ela puxou a espada de volta, girando-a e a balançando com tanta força que o sangue foi todo arremessado contra uma parede próxima. Depois ela voltou seu olhar para o que Cyril e Zerves haviam feito, sua expressão completamente neutra, e por fim acabou por girar nos calcanhares.

— Cyril, eu não quero mais saber de você atrasando nossas missões com suas manias sádicas – disse ela simplesmente, sem sequer se dignar a olhar para o Escritor.

— Ora, Comandante, compreenda, isso é necessário! – Defendeu-se ele com um sorriso travesso nos lábios, já sabendo que aquilo apenas iria servir para irritá-la um pouco mais. – Afim de criar arte, é necessári-

— Eu não me importo com suas desculpas. Atrase uma missão novamente e eu irei puni-lo pessoalmente – retrucou ela, e ao som daquelas palavras duras o sorriso de Cyril morreu, dando lugar a uma expressão aborrecida. Mesmo estando de costas para ele, ela de alguma forma parecia saber que disso. – Agora, vamos logo, vocês dois. Se terminamos aqui, é hora de reportarmos ao rei e nos reunirmos com os outros guardiões.

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ILHA DA GLÓRIA – REINO DAS AMAZONAS DE VALENFORD

 

A comoção era visível a metros de distância. Por todos os arredores, guerreiras e escravos estavam parados, olhando abismados na mesma direção. Acácia fez seu caminho por entre eles sem pedir licença, empurrando os que estavam a sua frente e jogando no chão os que tentavam resistir. Não demorou muito para que começassem a espalhar rumores de que ela estava irritada pela comoção estar atrapalhando seu descanso, mas isso não conseguia ser mais longe da verdade. Em realidade, Acácia estava animada; com a calma em que Valenford estava – tendo parado com as incursões e as guerras em favor de poupar forças para a inevitável guerra com o Norte – o reino das amazonas estava terrivelmente tedioso ultimamente. E isso fazia com que a Termagand se sentisse satisfeita com qualquer oportunidade que se mostrasse de se divertir um pouco.

Embora, apesar disso, seu orgulho de mulher impedisse que ela não se sentisse irritada pelo fato de ter um homem sujo matando algumas de suas irmãs, o que justificativa o sorriso feral que se abria em eu rosto.

Não demorou muito para que a multidão de mãos ociosas se tornasse cada vez mais grossa, a medida que ia se aproximando do foco dela, e não hesitou em colocar sua mão sobre o ombro de uma das amazonas mais próximas para pedir mais informações.  A guerreira se volto para ela com uma expressão irritadiça em seu rosto, mas essa logo se desfez quando viu exatamente com quem estava lidando.

— Se-senhorita Acácia! – Murmurou ela no tom mais respeitoso que podia, embora o que Acácia pudesse ver em seus olhos fosse medo, não respeito. Não que isso importasse para ela. Medo ou respeito, em meio militar, dão no mesmo. E não posso dizer que não é agradável saber que as pessoas têm medo de me irritar. — O que a senhorita.... o que a senhorita veio fazer aqui?

— O que você acha que eu vim fazer aqui? – Perguntou a Termagand, esboçando um sorriso um pouco maior, embora a forma como uma de suas presas se destacava e o tom de sua voz fizessem o trabalho em sugerir que a guerreira não desperdiçasse o seu tempo com perguntas estúpidas como aquela. – Essa comoção está se estendendo por tempo demais. Quem é o responsável por isso e o que exatamente aconteceu?

— É-É um homem, senhorita! – Respondeu a outra, e dessa vez Acácia grunhiu em insatisfação, fazendo com que ela logo se corrigisse. – Quero dizer... o responsável por isso é um homem de cabelos cor-de-fogo, um novo escravo que está aqui há um ou dois meses que insiste em se chamar de “Lars o Ruivo”.  Quanto ao que aconteceu... é um pouco difícil dizer ao certo, foi tudo muito súbito, mas pelo que parece uma das garotas mais novas tomou uma queda por ele. Aparentemente ele havia a convencido a pegar a chave da sua algema e o libertar para que pudessem escapar juntos das ilhas e fazer uma vida no continente, mas esses sonhos se quebraram quando ele quebrou seu pescoço na primeira oportunidade que teve. Depois ele escondeu o corpo, esgueirou-se até as barracas, roubou uma espada e as chaves e começou a sair por aí, matando as nossas guerreiras e libertando escravos a torto e a direito. Nós conseguimos lidar com os escravos que ele libertou, claro, mas ele parece ser bom com a arma; onze de nós já morreram para a sua espada, e a situação agora está mais tensa já que ele pegou uma de nós como refém.

— Espere um pouco: você está me dizendo que um único homem matou onze de nós? E que agora estamos com toda essa confusão porque ele conseguiu um mísero refém? – Quando a guerreira assentiu em concordância com sua cabeça enquanto mantinha um olhar confuso Acácia não pode deixar de bufar e revirar os olhos em aborrecimento. – Pelos malditos Deuses, é por isso que no continente nós somos tão subestimadas. Ande, saia do meu caminho! Veja como uma mulher de verdade lida com isso e talvez você aprenda alguma coisa!

Ainda mais decidida agora do que antes a terminar logo com toda aquela palhaçada, Acácia foi rápida em abrir seu caminho por entre a multidão, empurrando quem quer que estivesse na sua frente para fora do caminho com tanta agressividade que não demorou para que as pessoas começassem quase a se amontoar em cima uns dos outros para sair do seu caminho.

Lars, por outro lado, demorou um pouco a notar essa aproximação. Apesar de ter um refém em mãos, a situação estava praticamente toda contra ele. Havia libertado todos os prisioneiros que havia conseguido encontrar na esperança de criar uma rebelião interna grande o suficiente para que pudesse começar uma revolução. Tinha todo um plano em mente: eles iriam matar as amazonas que estivessem por perto e avançar com a velocidade de um raio em direção a costa, tomando alguns barcos para si. A partir desse momento ele iria organizar para que um grupo fosse enviado até o continente em busca de reforços enquanto ele lideraria excursões rápidas contra o território das amazonas, resgatando mais e mais escravos e fazendo sua força inchar cada vez mais. Sem os escravos que faziam a base que sustentava o exército das ilhas, o reino de Xelia iria ruir perante os seus olhos, e então ele poderia atacar o coração do reino e livrar de uma vez o mundo da praga que eram as amazonas.

Ao invés disso, seus planos haviam sido arruinados antes mesmo que pudessem realmente começar por nada mais do que a incompetência dos prisioneiros e o fato de que a maioria daqueles mentecaptos eram incapazes de brandir uma espada, mesmo com suas vidas dependendo disso. Cercado pelas guerreiras como estava, Lars não via muitas opções além de tentar uma fuga solo desesperada para o continente num barco rápido e fugir para a costa leste de forma a evitar o exército das vadias. Tch... fugir assim é covarde, mas não tenho muitas alternativas. Melhor isso do que morrer de uma vez. Só precisava conseguir que elas lhe dessem um barco e estaria livre. Um barco, era todo do que precisava.

— Ei, o que vocês estão esperando?! – Gritou ele, quase mordendo sua língua para impedir que acrescentasse um “vadias” a sua frase: embora não gostasse nem um pouco daquelas mulheres, a última coisa que precisava naquele momento era irrita-las a ponto de fazer com que não quisessem deixa-lo escapar. – Andem logo! Eu já falei antes e repito o que disse: me deem um barco e ninguém mais precisa morrer! Me deem um barco rápido e me deem um mar livre no qual eu possa velejar e eu deixarei essa aqui no meio do caminho, perto o bastante da costa para que possam a recuperar! Não parece um acordo ruim, parece?

— Na verdade, parece – respondeu uma voz que ele não havia ouvido antes. – Você vê... se seguíssemos esse acordo, você escaparia daqui com vida. E isso é algo que não vai acontecer.

A mulher que disse aquilo logo se revelou do meio da multidão, e foi o tempo de bater os olhos nela para que compreendesse que ela era uma pessoa completamente diferente das outras. Ao invés das demais guerreiras que estavam todas usando armaduras leves ou pesadas, aquela mulher não estava usando nada mais do que vestes que, embora claramente militares, não eram nem de longe o ideal para uma batalha. Suas calças negras eram longas e terminavam em botas grossas de couro, enquanto seu torso era coberto por uma camisa branca de algodão com uma jaqueta militar preta com detalhes em dourado por cima, aberta. Em sua cabeça ela usava um quepe, mas isso parecia quase uma troça das tradições militares pela forma como seus longos cabelos negros eram soltos e fluíam livremente ao redor dela. Em suas mãos ela trazia luvas negras que não cobriam seus dedos, e essa aparentemente era toda a arma que ela usava. E, no entanto, apesar disso ela parecia confiante, confiante demais. O sorriso que exibia e a forma como ela se portava mostravam que ela estava inabalada por tudo que ele havia feito, e isso perturbava Lars mais do que deveria.

— Não seja estúpida, mulher – resmungou ele, aproximando a lâmina um pouco mais do pescoço da sua refém, o suficiente para arrancar um filete de sangue dela. Sentia que tinha que estabelecer pressão, mas ao mesmo tempo, sentia que isso não ia adiantar em nada com aquela mulher. – Eu vou sair daqui vivo! Se eu não sair, essa daqui morre! Você realmente pretende deixa-la morrer pelo seu orgulho?

Em resposta a isso a mulher só fez aumentar seu sorriso, e isso fez com que calafrio corressem pela espinha de Lars. O que há de errado com essa vadia?! Diante dos seus olhos a mulher se agachou bem calmamente, esticando seus dedos até alcançar com eles uma pequena pedrinha no chão. Ela voltou a se erguer enquanto brincava com essa pedrinha, jogando-a para cima e voltando a apanhá-la no ar, fazendo isso por uma e duas vezes antes de enfim agir.

Em dado momento, quando a pedrinha estava caído, os olhos dela brilharam malevolamente. Ao invés de apanhar a pedrinha ela fechou seus quatro dedos em uma espécie de punho, deixando que ela caísse sobre eles, e então seu polegar a atirou da mesma forma como crianças atiravam pedrinhas durante jogos infantis. Só que aquilo estava muito além de qualquer jogo: o disparo foi potente, potente demais, fazendo com que Lars nem fosse capaz de acompanhar o movimento da pedra. Só se deu conta de que alguma havia acontecido quando sentiu sangue quente espirrar em seu rosto – o que o motivou a virar-se para a refém e ver que estava agora segurando um cadáver cuja testa tinha um pequeno buraco, causado por nada menos do que a pedrinha que a mulher havia disparado.

Um grito começou a vir da garganta das mulheres que estavam reunidas ao redor de Acácia, mas elas trataram de se silenciar no momento em que se deram conta de que a Termagand ainda estava por perto. A mulher apenas observou com um sorriso no rosto enquanto Lars – assustado e enojado – atirava o corpo longe antes de se voltar para ela, parecendo tão assustado quanto descrente pelo que havia acabado de acontecer.

— Mas o que porra você está pensando?! Essa era uma das suas, não era?! – O ruivo apontou sua espada contra Acácia, mas ela apenas riu em resposta, como se ter um homem apontando uma arma contra ela fosse uma piada para a guerreira.

— Uma de nós? Por favor! Acha mesmo que lixo como esse tem algum direito de fazer parte da glória das amazonas? – Num passe de mágica Acácia havia surgido próxima de Lars, fazendo com que o homem gritasse e saltasse para trás enquanto ela simplesmente chutava o corpo da mulher falecida longe, como se ela fosse um pedaço de lixo. – Aprenda uma coisa, homem. As mulheres de Valenford são as maiores e as melhores! Superiores a qualquer um, nós somos o ápice da evolução, o primor da humanidade! Não há ser nesse mundo que possa nós derrotar, principalmente um homem inútil como você! Qualquer mulher que morreu foi derrotada pela sua espada no dia de hoje merece a morte! Antes que elas morram em nossa terra, pelas nossas mãos, do quê que sejam mortas no campo de batalha por homens e tragam vergonha ao nome das amazonas!

— Isso... isso é loucura! Sua maldita, doente, vadia insana da porra! — Nunca havia gostado das amazonas. Mesmo antes quando morava no continente, antes de ser capturado, ele nunca havia gostado do que uma “cultura” formada apenas por mulheres podia representar no mundo, e esse desgosto havia apenas se ampliado ainda mais quando foi capturado e feito de escravo por elas, mas mesmo com todo esse ódio, ele não conseguia deixar de se sentir enojado ao ouvir o que a Termagand havia dito. E o pior era que ela estava sorrindo o tempo todo, como se aquilo fosse tudo uma grande piada pra ela. – Quem é você para se julgar superior aos outros?! Quem é você para definir o valor da vida dos outros?!

— Eu sou Acácia Styx, uma das Cinco Termagand de Valenford – respondeu ela, estalando seus dedos. – E eu sou a sua executora.

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FORTALEZA DE YUMAEL – IMPÉRIO DE IKAN

 

Construída a partir de granito, a fortaleza de Yumael era uma das mais formidáveis fortalezas de todo o Norte. O Clã Braveheart havia mantido a posse dela por centenas de anos, e seus bravos guerreiros haviam vencido inúmeras guerras ao forçar seus oponentes a realizarem assaltos contra suas muralhas que nunca funcionavam. Ember havia sido o primeiro a conseguir atravessar essas muralhas e derrotar os defensores, e seu triunfo havia marcado o fim daquele clã centenário. Agora que a batalha havia chegado ao fim, o Imperador de Ikan tinha finalmente tempo para averiguar a destruição que seu ataque havia causado: olhando pela varanda ele podia ver as nuvens negras de fumaça subindo do vilarejo ao redor do castelo, das casas que queimavam pela sua ordem, enquanto seus soldados avançavam como uma onda azul atrás de qualquer possível sobrevivente da família Braveheart, obedecendo o seu comando de eliminar completamente a linhagem. Gritos de pânico se misturavam aos gritos de dor em uma melodia quase infernal, e quando olhava para a bandeira do seu Império que agora substituía a bandeira dos Braveheart, Ember não sentia orgulho, mas sim um profundo sentimento que ele não conseguia descrever como nada mais do que a sensação de que aquilo estava errado. Não, não pense assim. Você tomou uma decisão. Aguente ela, seja forte. Mantenha a cabeça erguida e não olhe nunca pra trás. Sabia que era responsável por milhares de mortes, e sabia que ao fim daquele dia mais centenas de mortes iriam pesar sobre seus ombros, mas esse era um peso que tinha de suportar, pois ele era um líder, o Imperador, e seus soldados confiavam e dependiam dele. Um Imperador e um Conquistador não tem o direito de mostrar nunca fraqueza, de mostrar dúvida. Nós definimos o curso e seguimos por ele, sem nunca hesitar.

— Mesmo depois de tantos anos você ainda fica abalado depois de uma batalha tão sangrenta quanto essa, não é? – A voz calma e paternal de seu tio não lhe surpreendeu. De alguma forma, Loki parecia sempre saber quando alguma coisa incomodava Ember, e ele sempre procurava ajudar seu sobrinho de alguma forma quando isso acontecia. Por essa empatia, Ember era imensamente grato. – Eu sei que já disse isso várias vezes no passado, Ember, mas sinto que devo frisar isso de novo e de novo: isso é algo bom, muito bom. O fato de você ficar tão abalado é um sinal da sua natureza, um sinal de que apesar de todo o sangue que foi derramado e todas as dificuldades que você superou, seu coração continua sendo puro, bom.

— Heh, um sinal de que eu tenho um coração bom, não é? .... Francamente, eu não sei se podemos realmente continuar a dizer isso. – Não gostava de parecer dramático, mas era impossível não fazer isso quando era assim que se sentia. – Antes eu me sentia assim constantemente, tio. Mas a cada dia que passa isso acontece menos e menos. Em batalha eu consigo matar mil homens sem piscar, e em corte eu consigo manter a postura fria e imponente que intimida meus oponentes. Isso sempre aconteceu, mas entre esses períodos eu sempre lidava com esse sentimento, essa culpa que parece corroer até a alma. E essa culpa está desaparecendo, tio. O que era um sentimento constante se transformou em crises, e os espaços entre essas crises estão se distanciando cada vez mais. Faz meses desde a última vez que me senti assim.

— E você acredita que isso significa que seu coração está se tornando ruim? – Perguntou Loki, parecendo já conseguir visualizar qual era o problema por trás de tudo aquilo. – Não se preocupe demais, Ember. A humanidade possui uma habilidade única de se adaptar e acostumar a quase qualquer situação. Quando você convive constantemente com sangue e mortes e perdas, você eventualmente endurece, você se torna menos sensível a esse tipo de coisa. Horrores terríveis param de serem tão terríveis aos seus olhos, e embora essa perda de sensibilidade simbolize a morte da inocência, ela não faz com que um homem bom se torne mau.

— Sim, eu sei sobre essa perda de sensibilidade tio, mas não é ela que é o problema. O que me preocupa não é tanto o fato de eu não me sentir tão mal tão constantemente pelo que faço, mas sim o que isso pode significar a longo prazo. Se eu não me sinto culpado por matar pessoas em batalha, posso mesmo dizer que vou ter a consciência necessária para fazer as melhores decisões para o meu reino? Para decidir o que fazer não baseado em fatores como o que é mais vantajoso ou o que é menos problemático, mas sim baseado no que é certo e no que é errado? Porque é isso que é valioso para um rei. Fazer as decisões corretas guiado pelo centro de moralidade, sem orientar-se em beneficiar um grupo A ou prejudicar um grupo B, é uma das chaves para a criação da Utopia. Se eu estou perdendo a capacidade de sentir culpa... eu ainda serei capaz de criar essa Utopia?

— .... Você demonstra seus medos e suas hesitações Ember. Seus temores quanto ao futuro. Você duvida da sua capacidade e questiona a sua habilidade, questiona seus próprios métodos, mesmo depois de tanto tempo, de tantas provas. Diga... você tem noção do quão admirável isso é? – As palavras de Loki foram simples, mas honestas. Cada uma delas soou como se viessem do coração do velho guerreiro, como se ele estivesse simplesmente dando voz aos seus sentimentos mais profundos. – Você questiona se você tem a consciência necessária para transformar a Utopia em realidade, mas uma coisa que você falha em notar é que esse próprio questionamento é toda a prova da qual você precisa. Eu já vi muitos reis, Ember. Muitos líderes, todos diferentes, incomparáveis uns aos outros. Dentre todos eles, eu posso dizer o seguinte: você é o único capaz de transformar esse sonho em realidade. Você é o único com a força para criar essa verdade, e o único com o coração para mantê-la pelos anos que virão. Você, Ember, é o homem que criará a Utopia, a Terra Perfeita. É nisso que eu acredito, e nisso que todos os que te seguem acreditam.

O Conquistador ficou em silêncio diante daquilo. Ele estava refletindo sobre o que Loki dizia, e o velho guerreiro sabia disso, mas sabia também que suas palavras – por mais honestas e verdadeiras que pudessem ser – não seriam o suficiente para acalmar o coração turbulento dele.

E exatamente por isso era importante mudar o assunto, e para sua sorte, Loki tinha algo a dizer que interessaria Ember.

— Em outras notícias, eu trago um relatório importante pelo qual estávamos esperando a muito tempo, Ember – disse o comandante da guarda real, fazendo com que seu sobrinho se virasse levemente em sua direção, uma sobrancelha se erguendo em interesse. – Nossos informantes relatam que a missão passada a eles a tanto tempo foi finalmente completada. Seu irmão foi encontrado.

Se antes Ember parecia apenas levemente interessado no que tinha a dizer, a menção do seu irmão foi o bastante para fazer com que seus olhos se arregalassem. Uma expressão de completa estupefação ganhou seu rosto, e Loki não pode impedir um sorriso de abrir-se em seu rosto ao ver aquilo.

— Ele... ele está... – até mesmo Ember, que normalmente mantinha-se composto diante da maioria das notícias, ficou embasbacado demais para conseguir terminar uma frase. Supunha que aquilo não era mais do que natural; seu estado mental obviamente não era o melhor considerando o quão chateado ele parecia momentos atrás, e aquela era uma notícia que ele aguardava há muito tempo. – Aonde... aonde exatamente ele está? Onde foi que ele se escondeu por todos esses anos?

— Em uma guilda sulista. Eu sinto dizer que em minha euforia em lhe dar a notícia eu não prestei tanta atenção no nome da guilda, então não posso dizer exatamente qual guilda tem lhe abrigado, mas podemos ter a resposta depois. Por hora, é importante que consideremos outra coisa, Imperador.

— Outra coisa? – Tão rápido quanto havia relaxado, o semblante de Ember recuperou sua compostura, talvez por ter percebido no tom de voz de Loki que o assunto que seu conselheiro tinha a tratar era sério. – O que seria isso?

— De tempos em tempos, o povo Sulista costuma manter um evento chamado “A Guerra das Guildas”. Guildas de guerreiros e mercenários são comuns entre eles, veja bem, e esse evento é uma chance dessas guildas se provarem. Esse é um dos mais importantes e grandiosos eventos de todo o Sul, o que faz com que ele seja frequentado por pessoas importantes, e considerando as tensões atuais que o nosso crescente Império está colocando sobre os reinos sulistas, esse evento ganhou ainda mais importância. Os governantes de todos os reinos e grandes organizações sulistas estarão ou comparecendo pessoalmente a esse evento ou enviando representantes oficiais para ele, tanto afim de averiguar o poder militar do Sul quanto afim de discutirem questões de estado e referentes a inevitável guerra que está por vir.

— Em outras palavras, esse evento servirá basicamente como um grande conselho onde estarão presentes as mais poderosas guildas do Sul, bem como os mais importantes membros dos grandes poderes sulistas – concluiu Ember, ganhando um brilho astuto no olhar. – Acho que consigo ver o ponto que você quer fazer, tio.

— Como esperado de você, sobrinho – disse Loki, assentindo alegremente com a cabeça enquanto mantinha um sorriso fino no rosto. – Já que esse será um grande conselho entre os mais importantes, parece apenas correto que o Império de Ikan envie um representante próprio ao Sul, não concorda? Para negociar com os líderes sulistas, para aprender sobre o poder militar sulista... e para encontrar-se com o Herdeiro do Norte.

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ESTALAGEM A BEIRA DA ESTRADA – TERRAS VELHAS

 

Acordou com a cabeça latejando e o corpo dormente, gemendo em dor enquanto seus olhos viam os primeiros sinais de luz. Tentou se mover, mas só conseguiu em resposta o som de correntes, e isso bastou para que soubesse imediatamente que estava preso. Ah, bosta! Ainda mal havia despertado, mas isso não lhe impediu de se debater com força na tentativa de quebrar aquelas correntes. Com a sua força, aquilo deveria ser fácil.

Mas nem bem havia começado a fazer seu movimento e uma espada veio de cima, pousando sua ponta no meio da testa do cavaleiro e fazendo com que ficasse parado como uma estátua.

— Eu pararia por aí, se fosse você. – Ergueu seus olhos para ver quem era o responsável por aquilo em resposta, e o que viu foi o rosto de um homem loiro com físico claro de guerreiro, usando uma armadura de ferro pesada e um tanto gasta, com várias cicatrizes em seu rosto, inclusive uma estranha cicatriz a queimadura que mostrava a imagem de um réptil alado em sua testa. Ele tinha duas espadas; uma bastarda que estava em suas costas e a que usava para ameaçar Bokuto naquele momento, uma espada menor cuja bainha estava na cintura. – O nosso melhor interesse é manter você vivo, mas irei te matar num piscar de olhos se se mostrar perigoso demais.

— Não, não vai! – Declarou uma voz mais aguda e infantil, aparentemente vinda de alguma garota próxima que os olhos de Bokuto não conseguiam encontrar. – Você é gentil demais, Hadvar, gentil demais! Apesar de toda essa sua pose, eu duvido que você faça mal a uma mosca.

— Eu sou, ou era, um mercenário, Neshka. Seria um mercenário bem ruim se eu não fizesse mal as pessoas. E além do mais, você não está ajudando. – Apesar de seu tom aborrecido, a forma como o suposto Hadvar sugeria que ele conhecia aquela garota bem e tinha alguma afeição por ela, e isso já foi o suficiente para que Bokuto ligasse os pontos. Hadvar e Neshka... se eu não me engano, esses são os nomes de dois dos mercenários do S.O.M.B.R.A. que atacaram o Salão Cinzento enquanto estávamos treinando. Pelo que fui informado, quase todo o grupo acabou morrendo em batalha num ponto ou outro pelos nossos mercenários, mas esses dois escaparam com vida. A questão é: o que diabos eles estão fazendo aqui? E o que diabos é aqui? — De qualquer forma, cavaleiro, eu sugiro que você não volte a tentar se libertar, ao menos não ainda. Por que não se acalma e espera um pouco, como seus companheiros ali? Eles têm aguardado o seu despertar já a algum tempo.

 Virou sua cabeça na direção que o homem indicou, por curiosidade se nada mais, e o que viu foi algo que fez com que seu queixo caísse. Ao seu lado, não muito distantes, um homem e uma mulher também eram mantidos prisioneiros: Dokurei Deux, um homem perigoso que havia se oposto sozinho ao reino de Fredora no passado, e Ylessa Farcry, provavelmente a mercenária mais forte que o Salão Cinzento contratou para lutar ao seu lado durante a guerra. Esses dois... o que raios eles estão fazendo aqui?! Já era uma coisa que tivesse acordado de repente em um lugar estranho como aquele quando tudo sua memória mais recente era da sua luta contra Jiazz no Pandemonium, mas para os dois estarem ali – e ainda mais, estarem tão quietos e pacíficos como estavam – algo deveria estar errado ali, muito errado.

— Hhm. Você certamente demorou a nos notar, Espada de Madeira – comentou a mercenária, movendo-se um pouco em meio as correntes em busca de uma posição melhor. Quem quer que tivesse os capturado havia sido decente o suficiente para não passar acorrenta-la através dos seios, considerando que isso provavelmente seria doloroso pelo tamanho dos seus dotes, mas para compensar ela tinha o dobro de correntes ao redor do abdômen e uma ao redor de seu pescoço que a impedia de mover sua cabeça livremente. Quem quer que tenha sido o responsável por prendê-la deve ter ouvido falar do incidente do Mercado de Escravos. Não havia estado lá para ver, mas os rumores que havia ouvido diziam que ela tinha causado um bom estrago em um homem com nada mais do que seus dentes, e pelo tamanho das presas que ele viu quando ela sorriu, não duvidava nem um pouco disso. – Sempre pensei que cavaleiros fossem melhores do que isso, mas considerando o quão forte esse miserável bate e o fato de que você ficou inconsciente por tanto tempo, acho que posso deixar essa passar.

— O quão forte esse miserável bate...? – Não era burro, e aquela frase era cheia de dicas. Um instante foi o bastante para que ligasse os pontos, e isso fez seus olhos se arregalarem. – Espere um pouco, você não pode estar querendo dizer que...

— Ei! Você nos ouviu, não ouviu? A Bela Adormecida já despertou! – Dokurei interrompeu a frase de Bokuto com esse grito e um remexer nas correntes em busca de posição melhor. Ao contrário de Ylessa que parecia surpreendentemente calma para alguém que estava acorrentada, ele mostrava clara inquietação, talvez por já ter passado alguns anos presos anteriormente. – Você disse que iria falar com a gente e nos libertar depois que ele acordasse, não é? Pois bem, então fale! Acabe logo com isso, Juggernaut!

Juggernaut, notou Bokuto solenemente. Não há dúvidas. Estamos lidando com aquele que imaginei. Hadvar lançou um olhar aborrecido para Dokurei, mas mesmo assim se afastou, abrindo espaço para que pudesse ver o resto da sala.

Olhando ao redor foi fácil compreender que estavam em uma espécie de taverna, embora provavelmente uma bem vagabunda, considerando os buracos que via no chão e um reparo dolorosamente amador em uma parede. Ela estava repleta de homens mal-encarados, sujeitos que pareciam mais bandidos e rufiões do que qualquer coisa, com cicatrizes e tatuagens espalhadas pelos seus corpos... que ironicamente estavam correndo de um lado para o outro, obedecendo ordens brandidas por uma pequena velhinha que de alguma forma parecia bem mais aterrorizadora do que eles.

Uma garota jovem estava sentada sobre uma mesa próxima, com um sorriso no rosto e nos olhos enquanto tomava uma sopa animadamente e mantinha o olhar sobre os três prisioneiros como se estes fossem animais raros. Ela deve ser Neshka, eu suponho, contemplou Bokuto enquanto movia seu olhar para outra mesa, na qual estavam dois homens jogando xadrez: um deles um sujeito aparentemente alegre, de cabelos curtos e vestindo uma camisa social sem botões, deixando seu peito tatuado a mostra, enquanto o outro era um homem vestindo uma blusa grossa cinzenta com capuz na cabeça e, pelo pouco que podia ver dela, uma expressão entediada em sua face. Esses devem ser... Alcatraz o Aprisionador e Reivjak, o Deus do Aço. Nunca havia visto nenhum dos dois, mas tinha ouvido um pouco sobre eles no Salão Cinzento: guerreiros que haviam feito alguma fama como mercenários, cujos rumores eram que haviam sido anteriormente escravos. Mais além, em uma mesa mais para trás, uma... pessoa de aparência andrógina estava ao lado de um grande homem de cabelos castanhos que comia coxas de frango, com uma mão pousada sobre a empunhadura de sua espada, atuando como um guarda para o homem. Pela aparência, só consigo imaginar que essa deve ser a que chamam de Saber... e o outro... ele eu sei quem é.

Sentando de forma despreocupada, comendo suas coxas de frango sem se importar com qualquer um enquanto mantinha os olhos sobre o trio de prisioneiros, Jiazz o Juggernaut mantinha uma postura muito menos hostil e agressiva do que a que tinha mostrado antes, mas Bokuto não se deixava enganar por isso. Ele pode não parecer tão imponente e formidável agora, mas esse definitivamente é o mesmo homem que me derrotou na Batalha do Salão Cinzento e na Batalha do Pandemonium. Inteligência e pensamento lógico aparentemente não eram os fortes do Juggernaut, mas seria tolice para qualquer um subestimá-lo no que diz respeito a força bruta.

— Opa, opa! Finalmente hein?! – Gritou o gigante entre mordidas, levantando-se da mesa com um pulo e fazendo seu caminho a passos largos em direção ao trio. Ele se agachou diante deles com uma coxa de frango na mão direita e um saco de papel cheio de coxas fritas na outra, e seu olhar foi primeiro para Bokuto, com uma sobrancelha erguida em interesse. – Você ficou um bom tempo desacordado, cavaleiro. Eu devo dizer que não imaginei que você ficaria fora de si por tanto tempo... apesar de que, por outro lado, considerando o quão exausto você devia estar àquela altura e o fato de que eu estava usando uma quantia decente de poder na hora ajuda a explicar isso um pouco.

— Você fala como se eu devesse me desculpar por ter ficado inconsciente – apontou Bokuto enquanto mantinha uma feição aborrecida no rosto... embora, pra ser justo, ele mesmo não estava muito satisfeito pelo fato de ter ficado fora de si por tanto tempo. – Em primeiro lugar, quanto tempo fiquei desacordado? Em segundo lugar, o que houve com a guerra? Em terceiro lugar, por que diabos estou aqui em correntes?

— Ora, e não temos um curioso entre nós? – Comentou Jiazz com uma sobrancelha erguida e um semblante divertido no rosto. – Bem, pra responder suas perguntas: você está desacordado a mais ou menos um dia e meio ou dois, por aí. A guerra acabou como uma vitória para o Salão; eu não fui derrotado, obviamente, mas você e os outros me ocuparam por tempo o suficiente para que o Garoto Azul derrotasse Balak, então, meus parabéns por isso. Quanto ao porquê de você estar em correntes... hehe, essa é a parte divertida.

— Esse bastardo gigante se recusa a dizer o porquê de estarmos assim, cavaleiro – resmungou Dokurei, em um tom ácido e venenoso que sugeria que ele não derreteria o sorriso do rosto de Jiazz naquele exato momento se pudesse. – Eu perguntei sobre a minha situação algumas vezes, e em todas elas ele apenas respondeu com um sorrisinho filho da puta e balbuciando qualquer coisa sobre como precisava da plateia toda pra falar.

— Sendo mais específica, ele disse que tinha algo a tratar conosco e que nos libertaria depois disso, mas que queria falar com os três simultaneamente, e que para isso precisávamos esperar que você acordasse – afirmou Ylessa em tom resignado, sem parecer se importar realmente em ser uma prisioneira. – Perguntar qualquer coisa sobre o porquê de estarmos aqui ou o porquê de você estar aqui só nos dava uma resposta não muito diferente da que Dokurei citou... apesar de que, considerando que ele acordou agora, acho que já é hora de termos uma resposta de verdade, não é, Juggernaut?

— Hehehe, sim, mais do que na hora – concordou o Juggernaut, colocando o seu saco de coxas no chão e arremessando a que estava em sua mão descuidadamente por cima do ombro, para que a mão de Alcatraz se erguesse mais atrás dele, a apanhasse em meio ar e continuasse a comê-la normalmente como se nada tivesse acontecido. – Bom, vamos lá, vocês três... bom, em primeiro lugar, acho que vocês devem concordar que os três são bem diferentes entre si, não é? Um cavaleiro, uma mercenária, um prisioneiro de alta periculosidade... vocês poderiam tentar estabelecer alguma relação entre vocês ao afirmar que lutaram pelo mesmo lado na guerra, mas isso não é verdade, já que Bokuto e Ylessa lutaram pelo Salão enquanto Dokurei lutou pelo Olho Vermelho. Ao mesmo tempo, poderíamos dizer também que vocês talvez tenham lutado juntos no sentido de lutarem simultaneamente no mesmo lugar, mas isso não aconteceu. Ylessa e Dokurei lutaram na mesma área, sim, mas Bokuto estava separado, isolado dos-

— Você não precisa passar meia maldita hora tagarelando sobre essas merdas com as quais ninguém se importa, principalmente não depois de já nos deixar sentados nessa porra de chão duro do caralho por quarenta e seis horas, vinte e quatro minutos, trinta e dois segundos e contando! — Esbravejou Dokurei, remexendo-se furiosamente em suas correntes. – Vá logo à porra do ponto!

— Tá, tá. Não precisa rasgar a calcinha, Sr. Estraga-Prazeres – murmurou o Juggernaut como uma criança aborrecida, coçando o queixo com uma de suas mãos. – Então, para resumir tudo: vocês três são pessoas que chamaram a minha atenção. Durante toda essa guerra eu fiquei observando guerreiros de ambos os lados, avaliando a força deles, as suas personalidades, os seus poderes, o seu potencial... e ao fim de tudo, eu encontrei três pessoas de destaque. Três pessoas que tem potencial para serem alguns dos melhores do mundo, e caráter o suficiente para não serem completos filhos-da-puta. Essas pessoas são vocês.

— “E então, compreendo que aqueles três eram tudo o que estavam entre ele e os seus planos de semear caos e discórdia pelo mundo, o Juggernaut colocou o trio em uma armadilha mortal desnecessariamente complexa que daria a eles tempo o suficiente para terem uma morte lenta e dolorosa... ou apenas o suficiente para que escapassem mesmo” – zombou Ylessa, mostrando um sorriso divertido ao ouvir as palavras de Jiazz. – O quê, foi mais ou menos nisso que você pensou?

— Ei, se eu quisesse matar vocês eu podia ter feito isso a qualquer momento, esqueceu? – Apontou Jiazz. – Além do mais, por mais que eu possa concordar que acabo sendo um pouco... espalhafatoso e inconvencional em alguns momentos, não é como se eu fosse estúpido o suficiente para lhes colocar sobre uma piscina cheia de tubarões ou coisa do tipo. Principalmente porquê eu não tenho ideia de onde raios eu arranjaria os tubarões em primeiro lugar.

— Que você não tem interesse em nos matar parece óbvio – retrucou Bokuto, o único que aparentemente mantinha algum nível de seriedade entre os que estavam ali. – Mas isso não responde o que exatamente você planeja com isso. Você disse que nós chamamos sua atenção, não é? Partindo do princípio de essa atenção que despertamos, o “destaque” que representamos foi o motivo por trás do nosso sequestro, então o que exatamente você quer com isso?

— Recrutar vocês.

A resposta foi dita de forma tão simples e casual que demorou alguns minutos para que os cérebros dos que compunham o trio processassem o que aquilo sugeria, e quando isso aconteceu, a reação dele foi cada uma diferença. Ylessa foi a mais escandalosa, jogando sua cabeça para trás com gosto e gargalhando a plenos pulmões como se tivesse acabado de ouvir a piada mais divertida do século, enquanto Dokurei lançou um olhar ao Juggernaut que era em parte completamente surpreso e confuso, enquanto em parte também irritado – se por estar furioso com a ousadia ou pensando que o Juggernaut estava apenas pregando uma peça com ele, Bokuto não sabia. A única coisa que sabia era que, dentre os três, era o único que não estava surpreso com aquilo. Eu já estava esperando por algo assim. No momento em que seu cérebro processou o que Jiazz havia dito, sua reação imediata foi lembrar-se do que o Juggernaut havia lhe dito ao fim da sua luta na Batalha do Salão Cinzento. Ele já pareceu antes interessado em me ter por perto. No mínimo ele estava interessado no meu potencial, em quão forte posso me tornar.

... E, francamente? Considerando o quão forte ele era, não podia dizer que não estava interessado em descobrir o quanto podia melhorar se ele lhe ajudasse.

— “Nos recrutar”, você diz. Para quê? – Questionou Bokuto, tomando o cuidado de certificar-se de que seu tom de voz parecesse tão neutro quanto possível. Pelo sorriso que surgiu nos lábios de Jiazz, soube que não havia sido bem-sucedido com isso.

— Ora, “para quê?” ao invés de algo como “e o que te faz pensar que aceitaríamos?”. Devo admitir, não esperava tanto interesse da sua parte logo de cara, Bokuto. – Gracejou o Juggernaut, fazendo com que Bokuto grunhisse entre dentes em fúria. Miserável. Ele pode parecer uma besta, mas o idiota é mais esperto que seu tamanho e modos simplistas podem sugerir. — Bom, a resposta para essa pergunta é bem simples: para o meu grupo, a minha guilda.

Sua guilda? – Repetiu Dokurei, parecendo cada vez mais surpreso. – Desde quando você tem uma guilda?

— Francamente, não muito tempo – respondeu o outro, dando de ombros como se dissesse “quem se importa?”. – Essa guilda foi fundada recentemente, no início dessa guerra. E quando falo do início eu não estou me referindo apenas ao ataque ao Salão Cinzento ou coisa do tipo, mas do início mesmo. Quando você foi libertado da prisão, Dokurei, a minha guilda já estava formada.

— Oficialmente, nossa guilda deveria ser considerada uma guilda novata e deveria passar por várias missões e trabalhos antes de obter reconhecimento – complementou Reivjak enquanto jogava, falando sem nem virar o rosto em direção aos que dirigia a palavra. – Isso dito, considerando que temos o Juggernaut como líder, ela ganhou um status de alto nível em pouco tempo. Graças aos seus contatos e ao peso do seu nome, Jiazz conseguiu fazer com que a nossa guilda, os Asas Livres, ganhasse um espaço dentre as grandes guildas do mundo. Em termos práticos, a maioria das pessoas ainda não a conhece, mas fazemos parte dos registros oficiais e, sendo assim, temos acessos as mesmas regalias que guildas como o Sétimo Círculo ou a Pérola Negra, bem como estamos listados em meio a essas nos catálogos.

— Sim, sim, exatamente. Reivjak é o que cuidou de toda a papelada por mim, então ele sabe dessas coisas melhor do que ninguém – comentou o Juggernaut, completamente desvergonhado em admitir que havia deixado um de seus subordinados responsável por algo de alta importância. – Basicamente, criar uma guilda era algo que eu já queria fazer a algum tempo, e o trabalho com o Olho Vermelho serviu como motivador para fazer com que eu finalmente fizesse um esforço em tirar essa ideia do papel. Foi ele que me incentivou a entrar em contato com velhos amigos e reunir os primeiros membros da guilda: Alcatraz, Reivjak e Saber, nessa ordem.

— Vocês provavelmente já devem ter imaginado isso devido a nossa antiga afiliação ao S.O.M.B.R.A., mas eu e Neshka somos inclusões recentes na guilda. – Apontou Hadvar, sentando-se em cima de uma das mesas próximas para conversar melhor com eles. – Depois da morte de Robert e o fim do S.O.M.B.R.A. nos tornamos mercenários livres, e embora alguns possam gostar do gosto da liberdade, ela não enche bolsos nem mantém ninguém vivo. Para um mercenário, ter uma companhia, um grupo no qual ele possa se sustentar, é quase tão fundamental quanto ter uma espada afiada. Ocorreu do Juggernaut entrar em contato conosco e nos convidar a integrar sua guilda, e considerando a reputação que Jiazz já criou nos últimos anos, acho que podem concordar que integrar a sua guilda nos dá o sustento e a proteção que requeremos.

— Ah, que interessante! Sério, que maravilhoso que vocês estejam compartilhando tudo isso conosco! Eu juro, não consigo pensar em nada melhor do que ficar aqui, acorrentado como a porra dum animal, ouvindo a merda da história de vocês, DEPOIS DE EU TER DITO PARA IREM DIRETO AO MIL-VEZES-MALDITO PONTO!— Berrou Dokurei, debatendo-se violentamente contra as correntes. Bokuto não pode deixar de observar aquilo com um olhar levemente intrigado. Considerando as suas habilidades, Dokurei devia ser facilmente capaz de destruir as correntes que o prendem. Mesmo se suas habilidades estivessem inutilizadas, ele ainda tem força física o bastante para partir uma mera corrente de aço em pedaços como se não fossem nada. E ainda assim ele continua apenas se debatendo desse jeito. Na maioria das vezes, Bokuto veria isso como um sinal de que alguém estava apenas atuando, que essa pessoa estava desempenhando um papel... mas Dokurei parece genuíno demais em suas reações para ser realmente esse o caso. Ou ele é um dos melhores atores que esse mundo já viu, ou ele é idiota o bastante para ficar tão furioso a ponto de esquecer que pode quebrar essas correntes. E a sua aposta para isso ficava na segunda alternativa.

— Ei, ei, acalme a sua periquita aí, Ouriço Vermelho. Isso tudo é importante para o nosso ponto – retrucou o Juggernaut, com suas sobrancelhas franzidas em uma careta de aborrecimento. – Se você se lembra bem, a primeira coisa que eu disse é que quero recrutá-los, e quando falei que isso era para a minha guilda você perguntou sobre ela, o que é o motivo pelo qual oferecemos todas essas informações. Mas, tudo bem, vamos voltar ao ponto. Vocês três são interessantes. Não são apenas fortes, mas tem potencial para crescerem, e eu simpatizo em algum nível com vocês. Um guerrilheiro que travou uma guerra sozinho contra uma das maiores nações do mundo até ser traído pelos que defendia. Uma mercenária sangrenta e violenta, com uma postura tão estourada e descuidada em batalha que chega a parecer suicida. Um cavaleiro de poucas palavras que possui uma Aloeiris extremamente poderosa, mas evita usá-la pela sua honra, e impetuoso e corajoso o suficiente para insistir em lutar mesmo com seu corpo quebrado. Eu não consigo descrever isso de forma melhor do que isso: vocês me interessam, e eu quero vocês na minha guilda.

— E para esse fim você nos sequestrou? – Questionou Bokuto, erguendo uma sobrancelha. – Pretende nos forçar a nos juntar a você, Juggernaut?

— Heh. Se você acha que eu pretendo forçar alguém a fazer qualquer coisa, você realmente não me conhece.

Os olhos de Jiazz faiscaram em dourado ao dizer aquelas palavras, e um súbito clarão cegou os olhos de Bokuto por um momento – e pelos grunhidos que ouviu, o mesmo havia acontecido com os outros dois. Isso foi algo rápido que não durou mais do que alguns instantes, e logo ele estava novamente de olhos abertos.

E sem correntes ao seu redor.

— Vocês não são prisioneiros. Peço perdão se passei essa impressão, mas eu só queria que vocês ouvissem a minha proposta antes de qualquer coisa. – Nunca havia visto quando aquilo havia surgido, mas agora o Juggernaut tinha uma espada forjada de puras chamas douradas em sua mão direita. Os olhos de Bokuto se moveram para as correntes caídas ao redor dele, com marcas do trajeto por onde uma espada havia passado, queimando e derretendo tudo em seu caminho ao mesmo tempo em que cortava por entre elos de aço e ferro. – Se vocês não quiserem se juntar a mim, são livres para ir embora. Eu não vou fazer nada caso essa seja a sua decisão. Se quiserem vocês podem até mesmo tentar me matar, apesar de que não serei tão dócil se decidirem seguir por esse caminho. Mas, antes que façam suas decisões, permitam-me um último discurso, sim?

A espada flamejante desapareceu de forma tão súbita quanto havia surgido e o dono dela se colocou em pé com um salto. O Juggernaut deu as costas para os três – sem demonstrar reação alguma quando eles se levantaram – e com as mãos atrás da cabeça ele foi se afastando da sua forma despreocupada de sempre, embora as palavras que saíssem dos seus lábios fossem sérias.

— Digam... vocês, em algum momento, qualquer momento, já pararam pra pensar sobre o quão podre é esse nosso mundo? Ou, mais especificamente, a nossa sociedade? Parem e pensem. Nós, todos nós, nascemos cercados de correntes. Nascemos em um grupo que força suas morais, opiniões e leis sobre todos aqueles que conseguem. Quando você nasce e vive em uma sociedade, você nunca tem liberdade. Qualquer que seja a sociedade na qual você está inserido, aquela sociedade já possui uma estrutura própria, códigos próprios criados pelos seus fundadores conforme a sua vontade e desejos que são passados de geração em geração, vistos como mandamentos inquestionáveis e inflexíveis. E isso implica em algo bem simples: a sociedade constantemente grita nos nossos ouvidos sobre como deveríamos viver nossas vidas.

“Isso acontece de inúmeras formas. As vezes de maneira mais direta, as vezes de maneira indireta. As vezes isso tenta ser feito de forma sutil, com sugestões, enquanto as vezes alguém vai literalmente gritar na sua cara com todas as palavras. A forma, francamente, de pouco importa. O fato é que a sociedade define uma forma como você deveria se sentir diante de uma determinada sensação, e essa opinião é empurrada pela sua garganta abaixo. Como um todo a sociedade define o que você deve ou não fazer, quais são as pessoas que você deve louvar e quais são as que você deve odiar, o que você deve pensar sobre um grupo ou outro, o que é bom e o que é mal, o que é certo e o que é errado.

E perante a todas essas definições, preceitos, conceitos, leis, opiniões e códigos, acredito que vocês partilhem do mesmo pensamento que eu tenho: pro inferno com tudo isso.

O Juggernaut girou de uma vez nos calcanhares, virando-se para o trio com braços abertos e gestos grandiosos. Seu rosto parecia ao mesmo tempo aborrecido e determinado, como se ele estivesse desabafando sobre algo que lhe incomodava a anos, jogando para fora coisas que desejava ter dito há muito tempo.

— Pro inferno com a sociedade e pro inferno com seus preceitos! Pro inferno com suas definições, pro inferno com seus códigos, pro inferno com todos aqueles que tentarem me dizer o que fazer ou não! Essa é a minha vida, e eu sou meu próprio homem! Eu defino no que eu acredito, eu defino o que eu faço, eu defino como eu penso, como me sinto e como eu ajo! Algo tão importante como o meu código de moral e integridade não será definido por ninguém mais do que eu, porque sou eu, com a minha percepção do que o que eu faço e das consequências que isso causa, que irei definir se uma ação é boa ou ruim, certa ou errada! Eu me recuso a ser prisioneiro dos preceitos e conceitos dos que vieram antes de mim! Eu viverei do meu jeito, com a Verdadeira Liberdade, e qualquer um que me negue essa liberdade é um inimigo que irei destruir!

Bokuto não foi capaz de deixar de erguer suas sobrancelhas ao ver aquilo. Ora, quem diria? Parece que ele pode ter algo interessante a dizer no fim das contas. A maioria das pessoas provavelmente consideraria o discurso de Jiazz algo estúpido e sem sentido, digno de um jovem revoltado... mas para alguém como Bokuto, muito do que ele falava se relacionava com como se sentia em vários momentos. Eu não seria dramático como ele, mas é verdade que toda sociedade – grande ou pequena – possui um padrão pré-estabelecido. Quando você integra uma sociedade, esse padrão é forçado a você. A sociedade tenta fazer com que você adira aos seus conceitos, e se isso não acontece, o melhor que você pode esperar é que ela te exclua e te evite. O próprio Salão Cinzento não era uma exceção a isso; Bokuto tinha vários pensamentos que discordavam com algumas das ideias espalhadas pelo Salão, mas essas ideias eram praticamente incontestáveis, o que fazia com que ele tivesse de manter silêncio e apoio mesmo diante de medidas que não aprovava. Seu desagrado com isso foi parte do que fez com que fosse mais calado e mal-humorado, e isso por sua vez fez com que ele ganhasse a fama de antissocial, o que acabou por criar uma separação que fez com que ele se distanciasse e isolasse dos demais cavaleiros.

 – Quando você quer que alguém faça alguma coisa você oferece algo para essa pessoa, algo para motivá-la a fazer o que você deseja. O quê exatamente varia muito, sendo por vezes um bem material, enquanto em outras não é necessário mais do que um argumento. O que eu lhes ofereço não é nada tangível, mas também não é apenas um argumento. Bokuto! Ylessa! Dokurei! O que eu lhes ofereço é o que eu almejo: a Verdadeira Liberdade! A Liberdade de viver sem ser preso a qualquer código de moral que não seja o seu, de viver sem respeitar qualquer regra que vocês não decidam respeitar, e a garantia de que vocês irão fazer isso. Há apenas duas regras que vocês devem seguir para na minha guilda: não seja um filho-da-puta, ou seja, não saiam por aí matando pessoas aleatoriamente ou fazendo alguma babaquice desse tipo, e respeitem o espaço do outro. Se vocês puderem aderir a essas duas regras, então vocês são bem-vindos a se juntarem a guilda, e eu prometo que uma vez que vocês se tornem parte de nós eu irei me certificar de que nada nem ninguém impeça a sua liberdade, e prometo que irei trabalhar o seu potencial para fazer com que vocês se tornem fortes o suficiente para defenderem completamente a sua liberdade, fazer com que nenhuma nação nem nenhuma organização consiga jamais fazer nada contra essa liberdade! Juntem-se a mim, vocês três, e eu lhes prometo que vocês reinaram sobre os céus, pois suas asas serão sempre livres!

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CRATERA DO METEORO – TERRAS VELHAS

 

— Então, essa é a Cratera do Meteoro, hum...? – Murmurou Trevor, olhando ao redor com interesse, analisando aquele lugar quase lendário. Centenas de anos atrás, um rumor dizia que um grande meteoro havia caído em algum lugar das Terras Velhas, muito antes delas serem conhecidas por esse nome, muito antes da guerra entre homens, Deuses e demônios. Os relatos sobre o que aquilo havia causado eram confusos, com alguns dizendo que esse meteoro abrigava uma forma de vista extraterrestre que foi exterminada pelos humanos, enquanto outros diziam que ele trazia minérios raros que eram muito mais poderosos do que qualquer coisa que se podia encontrar naquele mundo, e um terceiro grupo ainda dizia que aquela cratera abrigava substâncias que quando absorvidas por um humano faziam com que essa pessoa se desenvolvesse de forma completamente diferente, tornando-se um ser diferente de qualquer outro. Não achava que nenhuma das três estavam lá corretas, mas não podia dizer que aquele lugar não era interessante, nem tampouco que ele não era útil. Só de estar ali, Trevor conseguia sentir o fluxo do próprio tempo ser diferente do que acontecia em outros locais, e a própria atmosfera que sentia era mais rígida do que a que estava acostumado, passando a constante sensação de que o ar era mais rarefeito e que a gravidade ali deveria ser maior. – Lugar interessante, hehe. Acho que ele vai servir.

— Servir pra quê? – Questionou Darla Hatfield, a Escrivã de Aço, saltando de cima de Gunlamar e aterrissando de joelhos no chão. A mulher, que nunca foi conhecida por ser delicada ou medir suas palavras, estava olhando ao redor com vago interesse nos olhos, mas parecia ao mesmo tempo mais interessada em saber o que Trevor queria em algum lugar como aquele do que tudo. – Você estava bem apressadinho antes quando veio me falar que tinha algo interessante a me mostrar. É isso aqui o “interessante”?

— É, isso mesmo – respondeu ele, assentindo animadamente com a cabeça enquanto ignorava o suspiro aborrecido da mulher. – Diga, Darla! Por que você não se junta a nós?

— Me juntar a vocês? – Repetiu ela, erguendo uma sobrancelha como se ele fosse louco. – Você está falando do clã, não é? Deixe-me te perguntar uma coisa, Lancaster: você bateu a cabeça durante a guerra ou coisa do tipo? Sara já me convidou uma dúzia de vezes para me juntar ao seu clã e eu neguei todos esses convites, e ela é minha amiga. Por que eu aceitaria um convite seu?

— Sei lá – disse Trevor, dando de ombros. – Apenas quis perguntar mesmo.

Pela forma como Darla olhou para ele em resposta a isso, com as sobrancelhas franzidas, conseguia saber bem qual era a resposta dela a isso, mesmo que ela não falasse nada.

— Suponho que você também pretende me fazer a mesma pergunta? – Questionou Leona Myers, direcionando um olhar calmo e inexpressivo a Trevor. Tal como Darla e os outros, Leona era uma das que havia enfrentado Jiazz o Juggernaut durante a Batalha do Salão Cinzento, uma mercenária que havia sido contratada pela sugestão de Trevor para representar os interesses do Salão, mas que não teve a chance de fazer muita coisa ao ser atacada pelo Juggernaut.

— Nah. Não leve a mal, mas essa não era a intenção – respondeu Trevor, falando sempre de forma casual. – Eu sei que você já está considerando a possibilidade e não quero passar a sensação de que estou te pressionando a se juntar a nós ou coisa do tipo. Só queria mesmo convidar a Darla, já que ela sempre rejeita as propostas.

— E eu rejeitei essa também. Na cratera dum maldito meteoro. Feliz agora? – Questionou a Escrivã, cruzando os braços. – Se terminamos aqui, eu gostaria de ir embora. Já passei tempo demais fora de casa. Esse seu dragão pode me dar uma carona até Nidhelm?

— Bom, isso daí você teria que perguntar para o Gunlamar, mas eu não vejo porque não – disse Trevor enquanto girava sua cabeça e estalava seu pescoço. – Mas antes disso, tem algo mais que eu quero perguntar a vocês.

— Hum? – Sara, que até então havia ficado calada, apenas ouvindo o que os outros palavras, deu seu primeiro sinal de vida ao ouvir aquilo. Normalmente ela provavelmente assumiria que Trevor iria convidar alguma das outras a integrar seu clã, mas como ele já havia acabado de fazer isso era claro que não era essa sua intenção, e isso despertou o interesse dela.

— Uuu, sinto que vem coisa boa por aí! – Disse Scarlet, abrindo um sorriso em seus lábios e ganhando um brilho de interesse em seus olhos felinos, girando sua lança nas mãos enquanto olhava para Trevor. – E aí, chefe, o que tu manda? Qual a sua ideia?

— Ficar mais forte. – Respondeu Trevor de forma simples. Por exceção de Marco e Gunlamar, ninguém entendeu exatamente o que ele queria dizer com isso, e por isso Trevor se voltou totalmente em direção a eles. Ele, que normalmente mantinha um jeito simples e bem-humorado de ser, agora falava com seus amigos e companheiros com uma feição séria e focada em seu rosto. – Digam... quanto tempo vamos continuar sendo fracos?

Se antes ele havia deixado sua plateia confusa, agora ele havia a irritado. Alguns que o conheciam melhor, como Sara e Scarlet, simplesmente continuaram a aparentar confusão, enquanto Leona franziu um pouco o cenho em insatisfação e Darla chegou até mesmo a ganhar uma pequena veia de irritação visível em sua testa.

— Ei, ei, o que você pensa que está dizendo, Trevor?! – Questionou ela, dando um passo ousado em direção a ele, fazendo com que Sara olhasse quase que imediatamente para sua amiga em um pedido silencioso para que ela não fizesse nada precipitado enquanto ao mesmo tempo Scarlet apertava um pouco mais a lança que segurava, preparando-se mentalmente para a possibilidade de ter de parar Darla caso ela avançasse contra ele. – Quem você pensa que é para chamar a gente de fraca?

— Você me entende mal – disse o homem, balançando sua cabeça. – Eu não estou chamando você de fraca, ou vocês mulheres de fracas, nem nada desse tipo. Eu estou estabelecendo um fato: somos fracos, todos nós. E é importante reconhecermos isso, porque essa fraqueza poderia ter nos custado caro.

— Pelos Deuses homem, você não está falando coisa com coisa! – Reclamou a Escrivã, arquejando uma sobrancelha em confusão. – O que raios você quer dizer?

— Eu quero dizer que fomos todos derrotados durante a guerra! – Declarou Trevor, em um tom bem mais forte e frustrado do que o que ele normalmente usava. A mudança na entonação da sua frase foi o suficiente para pegar Darla e Leona de surpresa, enquanto os que conheciam Trevor melhor identificaram imediatamente o que estava acontecendo. – Você, Scarlet, Marco, Sara e Leona foram derrotados pelo Juggernaut durante a Batalha do Salão Cinzento. Durante a Batalha do Pandemonium, eu e Marco derrotamos Gunlamar, e nós três fomos imediatamente derrotados por Dokurei Deux. E nessas duas situações de derrotas, nós corremos riscos imensos! Em ambas essas situações nós podíamos acabar mortos, e foi apenas por sorte que isso não aconteceu! Nós ficamos completamente vulneráveis, à completa mercê dos nossos inimigos, e isso é inaceitável! Em uma guerra, ser derrotado significa a morte, e nós fomos todos derrotados! Isso não pode acontecer! E eu me recuso a deixar isso acontecer de novo!

Com suas mãos abertas, Trevor se virou. Com seus braços ele gesticulou para o ambiente que lhes cercava, para a cratera na qual estavam.

— Após a Batalha do Salão Cinzento, Odin organizou para que os membros da Era Dourada treinassem em locais especiais nos quais o tempo fluía de forma diferente. Uma semana treinando nesses locais foi como três meses de treinamento para eles, o que permitiu que eles ficassem muito mais fortes. Eu planejo fazer algo similar, mas usando um pouco mais disso. Gunlamar é mais velho do que qualquer um de nós e sabe muitas coisas, então eu perguntei a ele se ele conhecia algum lugar onde poderíamos fazer algo similar, e essa foi a sua decisão. Segundo ele, o tempo aqui flui duas vezes mais rápido do que nos locais onde os membros da Era Dourada treinaram, o que significa que passar uma semana no mundo normal seria o equivalente a seis meses aqui. O que significa que em dois meses, teremos treinado por quatro anos aqui.

— Uou, uou, uou! – Interrompeu Scarlet, gesticulando freneticamente com suas mãos. – O que você quer dizer agora? Quero dizer, dois meses? Quatro anos? Do que raios você está falando?!

— É... Trevor, eu não quero parecer rude, mas também não estou entendendo o que exatamente você quer dizer. – Disse Sara, olhando para ele com um olhar genuinamente confuso. – Quero dizer... o que exatamente você quer dizer com isso de dois meses? Por que dois meses em particular?

— Hum? Ah, sim, eu não avisei vocês, avisei? – Comentou Trevor, voltando por um momento a ter a sua expressão normal antes de começar a se explicar. – Bom, é bem simples. Apesar de sermos um clã, somos considerados como uma guilda pelos grandes do mundo. Aparentemente o conceito de um clã como o nosso ainda é um tanto estranho para eles, e por isso eles nos consideram como uma guilda, já que guildas são grupos mais familiaridades com os quais eles sabem lidar. De qualquer forma, antes de vir participar dessa guerra, eu recebi uma mensagem em que o nosso clã foi convidado a participar da Guerra das Guildas, e como ela vai começar em aproximadamente dois meses, esse é o tempo aproximado que temos para treinar.

Aquilo conquistou o interesse dos que o ouviam. Sara e Scarlet murmuraram qualquer coisa em concordância, enquanto os olhos de Leona brilharam – provavelmente animada com a possibilidade de enfrentar pessoas poderosas durante o evento se se juntasse ao clã – e a própria Darla pareceu surpresa, como se não esperasse aquilo. Aproveitou-se disso para finalizar o que tinha que dizer.

— Então, sendo assim, acho que vocês conseguem entender aonde quero chegar. O que eu quero é que treinemos aqui para a futura guerra contra Ember, já que esse parece o maior perigo no nosso horizonte. Darla, Leona, eu não posso exigir que vocês nos acompanhem, mas eu realmente sinto que tenho de pedir para que ao menos considerem essa possibilidade. Isso é importante.

— Espera aí: eu e Leona? Se eu não me engano, só Marco, Sara e Scarlet são membros do seu clã. A não ser que...

A não ser que a grande sombra alada, o terror de seus inimigos, o Dragão Negro de Ninhelm tenha decidido se juntar ao clã? Pois isso pode ter acontecido, humana! As estrelas podem ter se alinhado e o cosmos pode ter conspirado para esse momento! — Rugiu Gunlamar, falando animadamente da sua forma tradicional, fazendo com que um sorrisinho se abrisse nos lábios de Trevor. – Após tribulações de dor e sangue e deliberações de anos e anos nos eternos e extensos labirintos da complexa mente dracônica, a Sombra de Ninhelm pode ter chegado a uma decisão ousada, nunca antes cogitada, para ent-

— Sim, Gunlamar se juntou a nós – cortou e resumiu Marco de uma só vez, fazendo com que o dragão parasse em meio ar e dirigisse a ele o mais cômico olhar de “por que você foi cortar a minha graça?”.

— É, como Marco disse, Gunlamar se juntou a nós, e eu já estou pensando com ele em uma forma de fazermos com que ele possa competir na Guerra das Guildas, já que duvido que os corredores de lá sejam espaçosos o suficiente para que um dragão do seu tamanho possa passar por eles. Mas isso não é o mais importante no momento. No momento, o mais importante é nos focarmos no nosso objetivo. – Exclamou Trevor, decidido. – Nesses dois meses que temos, nós iremos treinar. E com esse treinamento, vamos nos tornar fortes! Fortes o suficiente para não sermos derrotados por ninguém na Guerra das Guildas! Iremos derrotar todos que se erguerem contra nós! Sol Vermelho, Pérola Negra, Sétimo Círculo, Vigilantes, Coração Negro, Era Dourada, não importa! Qualquer que seja nosso oponente, nós iremos derrota-lo! E não importa o que aconteça, eu prometo para vocês que irei vingar as nossas derrotas! Dokurei Deux... Jiazz o Juggernaut... custe o que custar, eu irei derrotar esses dois!

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FLORESTA DE KAVERHEIN – REINO MERCANTIL DE FREDORA

 

Com suas mãos já sujas e calejadas por tudo que havia feito naquele dia, Balak empurrou a estaca contra o chão com força. Foi necessário um pouco de esforço, mas não demorou muito para que ela estivesse bem cravada no chão, denotando o local aonde estava enterrado o corpo de mais um dos que haviam morrido naquela batalha. Scar. Nunca imaginei que você iria morrer. Você sempre parecia tão competente, tão poderoso, inflexível, inexorável... é difícil imaginar que exista alguém no mundo que foi capaz de te derrotar em batalha, embora eu suponha que isso serve como um testamento de quão fortes são os cavaleiros... e os amigos de Kastor, também.

Seu rosto se ergueu suavemente. Seus olhos haviam inchado com sangue demais depois de abusar da sua herança sanguínea, fazendo com que tivesse de removê-los depois e com que cobrisse suas órbitas vazias com faixas, mas verdade seja dita, isso não chegava a ser um incomodo. Talvez outras pessoas tivessem problemas com isso, mas Balak era um mago capaz que tinha conhecimento de milhares de tipos diferentes de magia, e entre esses estava o conhecimento de magias que permitiam fazer com que um cego enxergasse. Isso influía em um gasto constante de mana, mas algo praticamente negligível; não precisava de tanta energia assim para que mantivesse sua magia funcional, e com ela ele era capaz de enxergar a tudo perfeitamente com todas as cores, como se ainda tivesse seus olhos no lugar. E graças a isso ele conseguia ver o campo que se estendia a sua frente; um campo cheio de estacas e montes de terra, aonde ele havia enterrado os corpos de centenas de guerreiros que haviam lutado por ele e morrido em sua guerra.

— Você enterrou até mesmo os mercenários – apontou Tristah, caminhando lentamente até parar ao seu lado. A expressão no rosto dela era calma, mas sabia que ela estava mais ansiosa do que demonstrava. Não podia culpa-la por isso. Ele também estava ansioso agora, uma vez que tudo o que havia construído ao longo de tantos anos com tanto esforço havia ruído perante de si. – Nunca pensei que você se importasse com eles.

— Não me importo – respondeu o mago, não vendo motivo algum para mentir. – Mas ao mesmo tempo, essas são pessoas que me ajudaram nessa batalha e que morreram lutando pela minha causa, quaisquer que sejam os seus passados ou as suas motivações. Me parece apenas justo que eu dê a eles um enterro decente.

— Sim, claro. Porque um monte de terra em meio de lugar nenhum marcado por dois gravetos que nem sequer tem o seu nome escrito neles é a marca de um enterro decente – murmurou Caelum, sacudindo a cabeça como se o que Balak sugerisse fosse uma grande estupidez.

— Ei, você sabe tão bem quanto eu que não temos condições de fazer um enterro tradicional aqui, quanto menos um de acordo com os preceitos da sua religião – contrapôs Zaniark, voltando-se para o padre. – Balak está fazendo o melhor que pode e ele está passando por tempos difíceis. Dê uma folga pra ele, sim?

— Todos estamos passando por tempos difíceis. Fomos derrotados, se você não se deu conta. E não quero ouvir um meio-demônio me dizendo o que devo fazer – resmungou de volta o padre, fazendo com que os olhos de Zaniark se afiassem um pouco em irritação e com que um brilho vermelho viesse deles.

— Ei, parem com isso, vocês dois – cortou Steelex, ainda com uma feição emburrada em seu rosto. – Eu já estou com dor de cabeça o suficiente sem ter que aguentar dois idiotas medindo pra ver quem tem o pau maior. Se querem ficar nessa briguinha estúpida, façam isso em algum outro lugar.

— Não concordo com a frase, mas o sentimento por trás dela é certo – apontou Byron, tragando um pouco da fumaça do seu cachimbo para dentro de seus pulmões. – Nós já temos problemas o suficiente sem termos de lidar com brigas internas. Então, colaborem, entenderam?

Nem Zaniark nem Caelum disseram nada em resposta. Eles apenas se encararam mais uma vez e então desviaram o olhar em repugnância, e isso fez com que o demônio suspirasse em cansaço, mas ao menos eles não estavam discutindo mais um com o outro, e ao menos por hora supunha que isso já era bom o suficiente. Balak viu tudo isso com sua visão mágica, mas não quis se manifestar de forma alguma; aqueles eram seus companheiros, e era importante para eles que começassem a compreender um ao outro melhor para que assim conseguissem interagir bem como um grupo. O Olho Vermelho original já tinha essa habilidade. Os nossos membros conheciam bem uns aos outros, e embora cada um tivesse suas desavenças e seu modo particular de agir, a interação e sincronia entre nós ainda era forte o bastante para que pudéssemos nos dar bem mesmo assim. Mas contando Balak e o desaparecido Cleus, apenas quatro membros do Olho Vermelho ainda estavam vivos. Menos da metade. Então, teremos de trabalhar nossas relações de novo, tudo desde o começo.

— Qual o nosso novo plano, Balak? – Quis saber T.I.T.A.N., a golem de pedra da sua guilda. Havia sido uma surpresa para Balak descobrir que ela ainda estava viva: havia sido capaz de jurar que ela havia morrido na Batalha do Salão Cinzento, e por isso havia se pegado tão surpreso quando ela havia ressurgido ao fim da Batalha do Pandemonium. Embora, talvez, eu já devesse ter imaginado por isso. Como uma golem, T.I.T.A.N. era completamente diferente de um humano comum. Ela não tinha uma forma fixa, nem tampouco era um ser que envelhecia ou se reproduzia. De forma básica, ela era basicamente uma mente pensante que construía para si mesmo um corpo a partir de rochas e pedras, o que significava que ela era basicamente imortal desde que estivesse em algum local onde pudesse ter acesso a esses. – Devemos fazer preparativos para reconstruir a guilda e recuperar nossas forças?

— Se você quiser seguir por esse caminho, posso ajudar bastante – disse Tristah, falando em um tom inexpressivo como gostava de fazer, sem sugerir de forma alguma o que ela achava que ele devia fazer. – Scar tinha vários contatos com o submundo, mas eu também tenho muitos outros. Sem Apollo para nos fornecer dinheiro com o mercado de escravos a nossa fonte de renda cai bastante, mas ainda consigo contratos o suficiente para que possamos faturar bem o suficiente, principalmente se o escopo das nossas operações for reduzido.

— Se isso for ajudar, eu também posso tentar sugerir alguns contatos mercenários que eu usava antes – sugeriu Harclay, batendo um punho no outro enquanto falava com olhos distantes, perdidos em pensamentos. – Não posso ver a hora de batermos de frente com os bastardos da Era Dourada de novo. Mal posso esperar para me vingar daquela maldita mag-

— Nós não iremos investir contra a Era Dourada novamente – cortou Balak de forma simples, em um tom que não deixava espaço para discussão.

A reação dos outros a isso foi bem a que ele esperava. Todos arregalaram seus olhos e olharam para Balak de forma embasbacada, como se mal pudessem acreditar no que haviam acabado de ouvir. Todos, exceto Tristah. Ela era mais esperta do que muitos, e pela forma como olhava para ele, tinha quase certeza de que ela já sabia que ele iria dizer aquilo.

— Pera aí, como assim? – Questionou Zaniark, sem entender mais nada. – Você... você desistiu do seu objetivo, é isso? O que aconteceu com proteger o mundo dos demônios? O que aconteceu com impedir a Era dos Demônios?

— Nada. Meus objetivos continuam os mesmos. O que não significa que irei repetir os mesmos erros do passado – respondeu Balak de forma calma, virando-se lentamente. – O meu objetivo ainda é proteger o mundo dos demônios. Isso não mudou, nem nunca vai mudar. Mas já ficou óbvio que não o alcançarei se continuar agindo da forma que agi até agora. Então, é hora de mudar a estratégia.

— Mudar a estratégia? – Repetiu Byron, e mesmo por trás das faixas que cobriam os seus próprios olhos, foi possível para ele ver que o demônio da fumaça havia afiado o olhar. – O que exatamente é o seu plano, Balak?

Sorriu ao ouvir aquilo. Essa é justamente a pergunta que eu queria ouvir. Obrigado, Byron.

— Antes do começo dessa guerra, meus passarinhos me disseram que o Imperador do Norte está começando a reunir uma força especial em segredo para a guerra que está por vir – disse Hauss, olhando em direção ao Norte, em direção ao grande e expansionista Império de Ikan. – Acho que talvez seja hora de fazermos uma visita a ele. Alguém em sua posição certamente deve ter uma utilidade para talentos como os nossos.

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TRIÂNGULO DO DIABO – MAR ALÉM DO MUNDO CONHECIDO

 

— Então, Balak foi derrotado, hum? – Murmurou ele, sentado em um trono de ossos, saboreando de uma taça de vinho tão vermelho que parecia sangue. Apesar de ser um demônio, o Branco tinha modos bem próximos dos humanos, algo provavelmente resultado de suas experiências com seu anfitrião. – Interessante. Suponho que isso tenha sido parte dos seus planos, Devorador?

— O que posso dizer? Um peão que não faz os movimentos certos deve ser sacrificado. Mesmo se em outrora ele foi útil. – Quem murmurou em resposta a ele era um homem sentado num trono erguido, flanqueado por bestas roxas com cabeças de dragão e corpos de serpentes. Conhecido como Devorador de Mundos, aquele era um homem que há muito havia renegado sua humanidade: uma criatura que poucos conheciam, mas cujos poderes avançavam além do território dos Deuses, comparando-se ao que os lendários demônios possuíam... se não o superando. – Balak foi um fantoche útil por um tempo, mas era uma questão de tempo para que ele se voltasse contra nós. O que me lembra... você sabe se ele está morto agora?

— Supostamente sim, mas acho isso... improvável. – O que respondeu a essa pergunta era uma pessoa já conhecida, que embora não fosse um demônio, também não era completamente humano. Ekhart Grimm tinha um sorriso macabro em seu rosto enquanto se reclinava sobre um trono de sombras, parecendo uma pessoa completamente diferente da que ajudou o Salão Cinzento e a Era Dourada durante sua batalha. – O miserável conseguiu me atingir com uma magia santa durante a batalha, Sanctus Corona ou coisa do tipo. Com a limitação que insiro sobre meus poderes para não chamar atenção demais eu não fui capaz de suportar isso. Acabei desmaiando, e quando acordei o Strauss veio me falar que havia o matado..., mas francamente, pelo brilho dos seus olhos eu duvido que isso seja verdade.

— Tsc, tsc, tsc – fez o Branco, balançando sua cabeça de um lado para o outro enquanto mostrava sempre um sorriso cínico. – Falhando em assegurar algo tão importante e sendo derrotado em batalha? Quão vergonhoso, Ekhart. É uma sorte sua que meu irmão seja tão bondoso. Eu nunca teria paciência para dividir um corpo com um humano tão incompetente.

— Vamos, vamos, sem provocações, Branco – disse o Devorador de Mundos em tom apaziguador, embora sua voz sugerisse que ele estava mais divertido por aquilo do que tudo. – Mesmo que ele não tenha matado Balak, a organização que o apoiava agora está destruída. O Salão Cinzento e o Colégio Branco o odeiam, e o submundo nunca irá aceita-lo de novo depois desse fiasco. Ele é como um rato encurralado agora. O mais provável é que ele dedique o resto dos seus dias a correr e correr por aí, até o momento em que cometa um erro e alguém acabe o matando... isso se não cuidarmos disso nós mesmos. Mas, o mais importante foi bem-sucedido, não é?

— Impecavelmente bem-sucedido – disse uma voz nova, um momento antes de Mefisto, um demônio ancestral, se manifestar na sala que os três monstros dividiam. Ele trazia em suas mãos duas urnas, uma da qual vinha um brilho vermelho e outra da qual vinha um brilho cinzento, e após trocar um rápido olhar com seu mestre Ekhart, ele avançou. Ajoelhando-se em frente ao trono do Devorador de Mundos, Mefisto caiu humildemente sobre um joelho e direcionou seu olhar para baixo, estendendo ambas as urnas ao homem e deixando que ele as tomasse em suas mãos.

— Coração Vermelho... e Coração Cinzento. Balak fez um bom trabalho. Seria problemático corromper seus antigos hospedeiros o suficiente para que eles pudessem se libertar antes, mas agora? Agora ficou tudo muito mais fácil. – Sentindo o calor que vinha de cada uma das urnas, o Devorador se reclinou em seu trono. Relaxado e de olhos fechados, e ele quase podia ouvir os demônios ancestrais sussurrando em seu ouvido, e isso fez com que ele esboçasse um sorriso. – E quanto ao resto, acredito que posso contar com você, Ekhart?

— Certamente – respondeu o Hospedeiro do Coração Negro. – Eu falei com Coração Azul enquanto treinava Kastor. Ele foi um pouco cabeça-dura, mas concordou em seguir nosso plano. Ele vai aguardar, juntar forças... e quando o momento for oportuno, ele quebrará o garoto Strauss.

— E ao mesmo tempo em que isso ocorre, os outros inimigos iram destruir-se uns aos outros – comentou o Branco com um risinho.

— Certamente – concordou Ekhart com um aceno. – Jiazz ainda não é tão poderoso no momento, mas como a reencarnação de um dos heróis lendários, ele pode ser mais do que um pouco problemático. E como o líder do maior Império humano e um homem com poder que se compara ao dos Deuses, Ember Vyhler também não é um oponente que possamos subestimar. É bem afortunado que os dois sejam idiotas teimosos que acabarão matando um ao outro na guerra que está por vir.

— E isso, senhores, é a estupidez humana! – Declarou o Devorador de Mundos, erguendo ambas as urnas ao ar. – Um brinde a estupidez dos humanos, a ignorância e a sua sede por violência! Graças a ela, os pobres tolos farão metade do nosso trabalho! Que seja infinita a estupidez humana, e que seja longa a Era dos Demônios!

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TABERNA “O BAFO DO DRAGÃO” – REINO DA PAZ DE HAERION

 

A taberna fedia. Localizada nas favelas que cercavam a cidade de Valeste, ela era habitada pelo que os nobres descreviam como a “escória da sociedade”. Nos melhores casos as pessoas que iam ali eram pobres, cansados e suados depois de um dia duro de trabalho, e barulhentos graças aos efeitos da bebida. No entanto, pela fama que tinha, o Bafo do Dragão atraia mais tipos criminosos e agressivos do que tudo. Homens e mulheres com cicatrizes e tatuagens obscenas, membros de gangues e cartéis criminosos que faziam sua riqueza em cima de sangue e traição, cães magricelas que comiam outros cães por sustento. Eles eram agressivos, barulhentos, ignorantes e imprudentes, criaturas que não hesitariam em rasgar a garganta de um homem pela menor das justificativas.

E era nessa taberna que ele estava. No bar, bem diante do barman, o homem lutava para se manter de pé enquanto virava mais um copo de cachaça barata garganta abaixo. Seus cabelos eram negros como a noite, razoavelmente longos, e pelo tanto que ele suava eles estavam colados ao seu rosto. Sua barba era um pouco grossa, obviamente desleixada e por fazer, e seus olhos escuros mostravam um ar depressivo e derrotado que era fácil de associar a um homem que perdeu toda a vontade de viver. E apesar disso, no entanto, as vestes dele demonstravam um estado bem maior que a sua própria aparência podia sugerir; ele estava vestido em um casaco de pernas de corvo que caia até quase esbarrar no chão, dando um ar um tanto quanto nobre a sua aparência, e por baixo dele jazia uma armadura escura como se fosse feita de pedras de ônix, completa, que vinha desde seus pés até seu pescoço. Essas peças dignas de um nobre eram coisas que chamavam a atenção, e por isso não era de se surpreender que os vários criminosos que estavam ali estivessem olhando para ele como lobos que observam um coelho indefeso, cochichando uns com os outros planos para emboscá-lo na saída e se apossar daqueles bens.

E por saberem e sentirem essas más intenções, os companheiros daquele homem mantinham a guarda erguida.

— Esse não é um bom lugar, Jihad – comentou em um múrmuro uma linda mulher de cabelos castanhos lisos e brilhantes que caiam sobre suas costas. Ela estava vestida com uma camisa branca de tecido fino, com babados no meio e nas mangas que davam um certo ar de elegância a ela, bem como uma calça de couro preta com botas grandes e grossas dignas de alguém que se aventurava por trilhas duras. Toda a postura e aparência da mulher tinham um ar de elegância que faziam com que ela parecesse uma nobre, e isso somado a espada que ela trazia na cintura, uma espada longa cuja bainha negra tinha um padrão de listas brancas verticais, fazia com que ela parecesse uma cavaleira, embora isso fosse longe de ser verdade. – Essas pessoas estão todas esperando um deslize. Uma chance para meter uma faca nas costas do Pai...

— E você acha que eu não sei disso, Cyl? – Questionou seu companheiro e irmão. Enquanto sua irmã parecia nobre e elegante, Jihad parecia forte e imponente, e mais do que um pouco aterrorizador. A armadura negra que o cobria era feita para acentuar sua altura e seu porte guerreiro, e o próprio desenho dela havia sido montado à imagem de uma caveira para simbolizar o que ele representava para seus oponentes. Em seu cinturão ele trazia três grossos volumes de livros: um vermelho, um dourado e um verde, e em costas ele trazia tanto um machado de lâmina dupla (verticalmente, na parte direita) quanto uma espada bastarda que podia empunhar tanto com uma mão quanto com duas (verticalmente, na parte esquerda). Mas o que mais assustava era o que ele trazia em seu rosto; nenhum pedaço da sua face era visível, simplesmente porque ele era coberto por uma máscara de demônio negro capaz de fazer com que até o mais corajoso dos homens se sentisse intimidado, com cabelos e pelos que caiam até a metade das suas costas, o que fazia com que sua voz soasse mais grave ainda. – Se algum engraçadinho tentar alguma coisa nós cuidamos dele, mas até isso acontecer não faremos mais nada. Você sabe qual será a reação do Pai se tentarmos o tirar daqui à força, e eu não sei você, mas não tenho a menor intenção de lidar com ele esperneando no meu ouvido.

— Eu sei disso, mas não podemos apenas deixar que ele continue assim – insistiu ela, lançando um olhar de relance ao seu pai. – Nós temos que ajudá-lo. Ele já bebeu bastante, então talvez se tentarmos guia-lo ele...

Qualquer que fosse o plano de Cyl, ela nunca teve a chance de expressá-lo, pois no momento em que ela estava o contando um grito agoniado do seu próprio pai lhe interrompeu.

Ela e seu irmão se voltaram em direção a ele ao mesmo tempo em que os vários homens na taberna faziam o mesmo. O copo a partir do qual Skeid bebida havia caído ao chão, e seu corpo tremia visivelmente enquanto ele mantinha seus olhos fixos sobre o balcão do bar, aonde agora estava um jornal. Gemidos escapavam constantemente de seu pai como se ele estivesse sentindo uma dor terrível, e o que podia ver do rosto dele demonstrava uma expressão de abismada e terrivelmente nervosa, como se o que quer que ele tivesse visto pudesse fazer com que seu coração explodisse a qualquer momento. O barman – um homem mal-encarado sem um olho que já parecia cansado de ter de lidar com bêbados – não achou isso nada divertido e esticou uma mão para tentar fazer Skeid parar, mas no momento em que seus dedos tocaram o casaco do homem ele compreendeu que aquilo era um grande erro.

Uma asa negra abriu um buraco no casaco de seu pai, contorcendo-se ao redor de seu corpo de forma a alcançar e golpear o barman com uma força estrondosa. Mesmo sendo apenas um golpe de asa, aquele ataque havia sido poderoso o suficiente para isolar um homem que deveria ser forte e pesado por metros de distância como se ele não fosse nada, arremessando-o para o outro lado da taberna com uma força tão monstruosa que seu choque quebrou a parede de madeira, abrindo um buraco no estabelecimento e fazendo com que ele desaparecesse em meio a escuridão da noite.

Os homens que antes estavam apenas olhando para Skeid se levantaram com um salto ao ver aquilo. Um novo grito de dor ecoou das entranhas do seu pai como se ele fosse um homem sofrendo torturas inumanas, mas ninguém deu atenção a isso. Suas mãos foram ao seu rosto e seu corpo e asa se debateram de forma enlouquecida, mas a resposta dos que estavam ali a isso foi sacar suas armas rapidamente. Era isso que eu temia, pensou Cyl enquanto ela e seu irmão se colocavam de pé. Pai enlouqueceu de novo. Mas o que foi dessa vez?

— O que porra é essa aberração?! – Gritou um dos homens, olhando para Skeid com tanta surpresa quanto desprezo no olhar.

— A asa desse merda é preta! – Apontou outro, chamando atenção para a asa de penas negras que havia emergido das costas de Skeid, não muito diferente das penas do seu casaco. – Isso quer dizer que as histórias são verdadeiras?!

— A porra dos Anjos Caídos são reais?! – Exclamou outro, parecendo um tanto mais aterrorizado que os demais. – Mas não pode ser, isso não pode ser verdade! Como devemos enfrentar uma merda assim?!

— Anjo Caído ou só uma aberração qualquer, isso não importa! – Gritou um quatro, lambendo a lâmina de sua espada em excitação. – Vocês conseguem imaginar o quanto os escravistas pagariam por um filho-da-puta desses?! Peguem ele, seus panacas! Só não o matem nem cortem a asa! Com o dinheiro que ganharemos com a venda dele, poderemos todos viver como reis!

Aquela última frase foi como um grito motivador para a multidão, servindo para incitar os vários criminosos que estavam ali a pegarem suas espadas e avançaram em direção a Skeid. Eles não foram muito longe. Um deles – o mais rápido – chegou a dar cinco ou seis passos antes que entrasse em choque com alguma coisa, e então o próprio mundo lhe rejeitou. Seu estômago se deformou como se tivesse sido atingido por um soco, e seu corpo foi isolado para trás como se uma ventania forte lhe empurrasse. Ele caiu de costas sobre uma mesa de madeira, quebrando-a ao meio com seu peso, e isso fez com que os que haviam há pouco se animado parecessem novamente temerosos, com que olhassem para aquilo sem entender o que havia acontecido.

— Eu não conheço nenhum de vocês, não sei que tipo de homens vocês são. Mas se insistirem em tentar fazer mal ao meu pai, eu irei garantir que não saiam daqui com vida. – Qualquer traço de gentileza ou nobreza na voz de Cyl foi perdida no momento em que ela proferiu aquelas palavras. Ela sacou sua espada em um movimento rápido, girando a arma de aço cinza em seu punho enquanto ao mesmo tempo deixava que sua energia fluísse para ela, fazendo com que as runas espalhadas pela sua extensão se mostrassem, brilhando em tons de púrpura como se tivessem vida própria.

— Uma espada de runas?! Isso quer dizer... EI, PESSOAL! A VADIA É UMA GUERREIRA RÚNICA! – Anunciou um dos criminosos, apontando freneticamente para Cyl e chamando a atenção dos seus companheiros para isso. Uma ou duas dezenas de sujeitos mal-encarados se voltaram para ela, claramente irritados, mas nenhum deles ousando fazer algum movimento. – Sua vagabunda... você é a responsável pelo que acabou de jogar o Rupert longe, não é?! O que porra você fez?!

— Que linguajar sujo – comentou Cyrillia com desdenho, desviando o olhar e torcendo o nariz. – E se você se deu conta do que eu sou, então você também já deveria ter entendido o que eu fiz. Não é tão difícil de entender assim.

A confusão se misturou a expressão irritada do homem quando ela disse aquilo, mas Cyl apenas apontou para baixo com sua mão livre, fazendo com que ele olhasse para baixo e finalmente compreendesse exatamente o que ela queria dizer. No chão, alguns metros adiante dele, runas estavam entalhadas sobre a madeira em uma linha reta e num padrão uniforme que transmitia uma mesma mensagem. Ele não conseguia ler o que elas diziam, mas não precisava, pois Cyrillia traduziu.

— “Ninguém vai passar”. Essa é a mensagem gravada nessas runas, e isso é o que vai acontecer – disse ela, sorrindo, e o brilho púrpura que vinha daquelas runas pareceu ficar mais intenso por um momento. – Essas runas que eu escrevi formam uma barreira mágica que pessoas como você não tem como transpor. Você pode tentar danificar as runas com sua espada se quiser, mas as escrituras estão grafadas sobre a própria essência do chão abaixo de você, mais fundo do que qualquer lâmina humana pode alcançar. E por favor, seja meu convidado a tentar atravessar a barreira com pura força bruta. Isso não é impossível de forma alguma, mas já adianto que alguém como você nunca será capaz de fazer isso. Embora certamente vá ser divertido vez você tentar.

A expressão de pura fúria que dominou o rosto do homem foi indescritível. Seu rosto pareceu mais a máscara de um demônio do que qualquer coisa enquanto ele encarava Cyl com puro ódio, e a mulher só fez esboçar um leve sorriso perante a isso, como se fosse tudo apenas um jogo terrivelmente divertido para ela. Em desafio ele liberou um grito de guerra, atiçando o espírito guerreiro dos que estavam ao seu redor e os incentivando a investir contra ela como uma lança, com ele na ponta.

O choque desses homens com a barreira foi como o choque de uma lança com um escudo: a lança se estraçalhou. Os que haviam se agitado e respondido ao seu chamado foram atirados longe sem cerimônia sem mais dificuldade do que o primeiro, e apenas o homem que havia sido ousado o bastante para falar com ela foi capaz de escapar desse destino, sendo esperto o suficiente para saltar pra trás no momento em que começou a sentir a força agir sobre ele ao invés de deixar que a magia lhe arremessasse. Enquanto os corpos eram jogados longe ao seu redor ele se viu cravando sua espada no chão para se manter firme, encarando a mulher com ódio fervente nos olhos por detrás dos seus cabelos negros, cercado por não mais do que uma dúzia de homens que agora estavam aterrorizados.

— Sua vadia covarde... desfaça essa maldita barreira! Você tem uma espada, não tem?! Então desfaça essa maldita barreira e lute com um pouco de honra, maldição!

— É irônico que você esteja me falando de honra quando você não tem nenhuma – comentou ela em resposta, pendendo seu rosto um pouco pro lado. – Já se esqueceu? Você é o homem que está atacando meu pai em um momento de dor para vende-lo como escravo a quem pagar mais. Você não tem direito de falar nada.

— O que não significa que o que ele falou está errado. – A figura do homem alto que estava sentado junto de Cyl surgiu ao lado dela subitamente, sem que o homem tivesse qualquer ideia de onde é que ele havia vindo. Jihad avançou um passo além de sua irmã com pés firmes, empunhando na mão direita seu machado e na esquerda sua espada. – Desfaça a barreira, Cyrillia. Eu lido com eles.

Diante dessas palavras a mulher – que até então havia se mostrado confiante e segura como dona da situação – ficou visivelmente nervosa. Ela mordeu seu lábio inferior e voltou-se para seu irmão, claramente insatisfeita com a sugestão.

— Ji, eu sei o que você está pensando, mas isso é desnecessário. Eu posso lidar com is-

— Você é uma boa irmã, Cyl, mas é mole demais – cortou ele rudemente, virando seu rosto mascarado levemente em direção a ela. – Esses homens são lixo, mas você ainda faz todos esses esforços para poupá-los. Isso é comovente, mas também idiota. Você não poupa lixo, irmã. Você o queima até que não sobrem cinzas.

Jihad disse aquilo e, em seguida, investiu. Seu avanço foi rápido demais para que olhos humanos pudessem acompanha-lo; o homem só pode ouvir o som da barreira sendo estraçalhada pelo seu avanço como se fosse feita de vidro seguido por um grito de dor, e então virou seu rosto na direção da qual esse grito veio. Jihad havia feito seu caminho até eles, e com seu machado ele havia acabado de cortar limpamente um homem forte e adulto em dois como se ele não fosse nada.

Alguns dos que estavam mais próximos a isso se assustaram, mas outros tiveram uma reação mais agressiva; eles investiram contra Jihad, e no momento em que viu aquilo o líder compreendeu que aquilo era um erro. Esses dois... eles são monstros! Não podemos enfrenta-los! Abriu sua boca para gritar que os outros corressem, mas não teve essa chance; com uma agilidade inumana Jihad arremessou sua espada ao ar, alcançou o volume vermelho em seu cinturão com sua mão agora livre e o abriu em uma página aparentemente aleatória.

Hellfire — murmurou ele, e o brilho brilhou, e faíscas surgiram no ar que se transformaram em labaredas quase instantaneamente. Os homens que estavam perto dele, tanto os que investiram quanto os que se acovardaram, foram engolidos por essas chamas sem terem qualquer chance de reação, e seus gritos inumanos de dor foram ouvidos em uma melodia infernal logo em seguida. A raiva e o ódio que haviam queimado no coração do líder daqueles homens ao ver tudo aquilo desapareceu completamente para dar lugar ao mais puro e absoluto terror, o maior medo que ele já sentiu. Isso é impossível. Impossível! Quem é esse cara?! Quem são essas pessoas?!

Como que em resposta a isso, as chamas se moldaram. Enquanto queimavam e crepitavam e dançavam loucamente, as chamas tomaram uma forma quase que corpórea. Elas agiram de forma a formar uma única figura: a de uma caveira ardente demoníaca que tinha seus olhos de chamas fixos naquele homem, como se fosse o próprio ceifador prometendo a ele a morte.

— Ouçam, vocês que levantaram armas contra nós. Meu nome é Jihad, e por onde passo recebo muitos nomes: “Arauto da Perdição”, “Cavaleiro da Morte”, “Pesadelo Ambulante” e “Mal da Terra” são alguns dos que já ouvi, mas há apenas um nome ao qual respondo. Eu sou Jihad, e eu sou a Encarnação do Medo. E ao se erguerem contra mim, vocês marcaram sua sentença. A chama de cada um de vocês vai se extinguir, mas não agora. Quando seus corpos estiverem quebrados, quando suas mentes estiverem despedaçadas e quando vocês começarem a ver o abismo do que é o verdadeiro terror... só então terão minha permissão para morrer!

Se antes ele já estava com medo, aquilo terminou o trabalho e fez com que o homem ficasse completamente amedrontado. Ele não tentou gritar novamente; ele, e todos os que ainda estavam vivos, simplesmente jogaram suas armas no chão e dispararam a correr na tentativa de fugir dali, mas tão breve eles se viraram e as chamas que Jihad havia invocado se moveram de forma a cobrir a saída, prendendo-os frente-a-frente com aquele demônio em forma de homem. Sem ter para onde fugir ou para onde se esconder os sobreviventes se viram forçados a voltarem-se aterrorizados novamente em direção a Jihad, e então eles tiveram uma nova visão: os que haviam sido engolidos pelas chamas dele não estavam mortos. Seus corpos carbonizados estavam espalhados no chão, desfigurados de forma tão violenta que era difícil dizer que eles um dia haviam sido humanos, mas eles estavam todos vivos, respirando com dificuldade, gemendo e gritando como se simplesmente existir fosse doloroso para eles.... e em meio a esses corpos estava a figura do homem, avançando passo após passo contra os sobreviventes, cercado por chamas e escuridão, como um demônio que emergia das profundezas do inferno.

Enquanto seu irmão fazia sua chacina, Cyrillia fazia seu caminho até o seu pai. Ela não concordava nem um pouco com o modo de agir do seu irmão, não concordava em nada com os modos desnecessariamente violentos e brutais dele, mas sabia que tentar discutir não iria adiantar em nada, e tinha coisas mais importantes nas quais se focar do que na brutalidade de Jihad. Criou com runas uma segunda barreira – não física como a anterior, mas de som, para que não tivesse de ouvir os gritos de dor – e foi até seu pai para tentar ajuda-lo.

Ele ainda estava se debatendo quando ela o alcançou. Seus braços o envolveram em um abraço para tentar acalmá-lo. Isso pareceu funcionar: ele não parou imediatamente, mas foi o tempo dela começar a abraça-lo para que notasse que ele estava se debatendo cada vez menos – se para evitar de machucá-la ou se por estar realmente se acalmando ela não sabia dizer. O que sabia era que, apesar disso, o choro e os gemidos continuaram. Ele está mais afetado que o normal dessa vez¸ observou ela. Não era a primeira vez que seu pai tinha uma crise como aquela, mas essa estava sendo pior, mais intensa e duradoura do que deveria ser, e por isso ela quebrou a regra do silêncio para sussurrar no ouvido dele.

— O que houve, pai? O que te incomodou tanto assim?

Ainda envolvido por seus braços ele tentou falar, mas as palavras se misturaram ao choro e saíram em uma bagunça incoerente. Ao invés disso, o que ele fez foi apontar com seu rosto para um jornal que estava sobre o balcão, atraindo o olhar de Cyl para ele. Não entendeu o que ele queria dizer com isso inicialmente..., mas a compreensão e o arregalar dos seus olhos foram instantâneos no momento em que viu o que exatamente estava escrito na manchete desse jornal:

“JOVEM CAVALEIRO LÍDER DA NOVA GUILDA INTITULADA ‘ERA DOURADA’, KASTOR STRAUSS, DERROTA ‘OLHO VERMELHO’ AO LADO DO SALÃO CINZENTO!”

Ele está vivo! — De alguma forma, em meio ao choro e a emoção, Skeid havia conseguido voltar a falar. Sua voz ainda era chorosa, mas Cyl agora compreendia aquilo. Naquele exato momento ela conseguia sentir lágrimas subindo aos seus olhos enquanto olhava para o rosto mostrado na imagem da manchete. – Depois de tanto tempo, tantos anos, eu finalmente vejo ele de novo, Cyl! Seu irmão está vivo!



Notas finais do capítulo

Sabe, antes de terminar de postar essa história, eu queria falar algo com vocês.

Eu estou escrevendo essa história há dois anos. Cara, isso é muita coisa. E sabem o que é muita coisa também? O tanto que foi escrita nela. Quase um milhão de palavras. Vocês tem noção disso? Para fins comparativos, Harry Potter (toda a saga de Harry Potter, do primeiro ao último livro juntos) tem aproximadamente um milhão e oitenta mil palavras. Sabem o que isso significa? Essa única história, por si só, equivale a praticamente toda a saga Harry Potter em puro tamanho.

E vocês sabem o que permitiu que essa história fosse escrita?

VOCÊS!

Eu por várias vezes pensei em desistir dessa história. Eu por várias vezes quis largar ela de lado e fazer alguma outra coisa. Mas eu não fiz, e isso porque vocês me incentivavam a continuar! Seja ver um comentário novo de alguém como Murray, ou Eros, ou da Kya, da Bia, da Victoria, do Origami! Seja ter o prazer de conhecer leitores novos como a Malyan, ou receber recomendações! Seja ver que eu tenho um novo leitor acompanhando a história, ou que tenho um novo favorito, vocês sempre de alguma forma me animavam a continuar escrevendo e me dedicando a essa história, e por isso vocês tem meus mais profundos agradecimentos!

Eu sei que não fiz uma história perfeita. Tem muitos erros que eu cometi aqui que espero não cometer mais. Em particular, sinto que não explorei alguns personagens de leitores tão bem quanto eu podia ter explorado (principalmente os seus, Bia e Origami), e isso é algo que pretendo corrigir na Guerra das Guildas. Sinto que a história não foi tão interativa quanto podia ser, e isso também é algo que pretendo corrigir na Guerra das Guildas. Por favor, tenham paciência comigo. Eu falho, mas prometo que vou me esforçar para fazer a melhor história possível para vocês!

Eu sei que muitos dos que começaram a ler essa história não estão acompanhando ela agora diariamente, tanto dos que começaram pelo Torneio quanto os que começaram pelo Olho, mas por favor, saibam que eu estarei aguardando por todos vocês na Guerra das Guildas! Como vocês podem imaginar, tenho muita coisa reservada para o futuro, muitos planos que irei realizar, e espero poder lhes divertir muito ainda!

Então, é isso! Até a próxima, pessoal! Se tiverem interesse, por favor, acompanhem o meu perfil um pouco. Devo demorar um pouquinho para começar com isso, mas a Guerra das Guildas virá ainda esse ano, e farei o meu melhor para fazer com que ela seja dez vezes melhor do que o Olho Vermelho. Uooooooooo!!!

ATÉ A PRÓXIMA, PESSOAL! O/



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