O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 126
A Dança Brutal




Quarto Andar do Pandemonium, “A Catedral”

 

FLECHAS FLAMEJANTES AVANÇARAM CONTRA O JUGGERNAUT DE TODAS AS DIREÇÕES, sem uma única brecha pela qual o gigante pudesse escapar. Jiazz viu isso, claro, mas ele não demonstrava a menor preocupação e não tinha nada mais do que um fino sorriso satisfeito no rosto, mesmo enquanto todas essas flechas vinham contra ele. O impacto delas causou uma série de sucessivas explosões que culminaram numa enorme bola de fogo e fumaça que engoliu tanto Jiazz quanto uma boa parte do ambiente ao redor dele, agitando o ar ao ponto de fazer com que Anabeth e os outros tivessem que firmar seus pés para que a força do vento não lhes jogasse longe – mas de forma alguma ela imaginava que aquilo seria o suficiente.

— A minha parte está feita! – Gritou ela, voltando o rosto para sua companheira. – Sua vez, Teigra!

Nem precisava dizer aquilo. No momento em que havia visto as flechas avançando Teigra já havia começado a se preparar, e quando Anabeth se voltou para ela viu que a cavaleira já havia assumido a postura de bombardeio. Seu corpo havia se aberto, em um sentido bem literal; seus braços, sua perna e seu torso se abriram como máquinas, deixando que inúmeras armas se mostrassem – todas elas sendo nada menos do que algumas das mais destrutivas e perigosas armas que o Rei de Carcino havia criado, os chamados “mísseis”, armas de destruição em massa que rivalizavam com grandes magias. Com tantos mísseis vindos de todos os lados, Teigra parecia um verdadeiro arsenal humano.

Um arsenal humano que tinha olhos fixos no Juggernaut, mesmo por detrás da cortina de fumaça que o envolvia.

— Juggernaut Jiazz. Dizem que você é um monstro imortal e invencível. Mas afirmação nenhuma pode ser tomada como fato sem antes ser colocada a teste! – Os olhos de Teigra brilharam num intenso vermelho vivo, e de uma só vez ela disparou simultaneamente todos os mísseis em seu corpo, espalhando dezenas de projéteis destrutivos pelo ar que avançaram contra o Juggernaut enquanto deixavam rastros de fumaça branca por onde passavam. – Sobreviva a isso, Juggernaut! Armaggedom!

A fumaça estava apenas começando a se dissipar quando as explosões fizeram que ela retornasse com tudo, assegurando que o Juggernaut ficasse envolvido naquela fumaça. Tal como as de Anabeth, as explosões dos mísseis foram monstruosamente poderosas, parecendo quase capazes de abalar a própria estrutura do Pandemonium e fazendo com que o chão no qual se sustentavam tremesse como se ele tivesse causado um verdadeiro terremoto.

Mas enquanto tudo isso acontecia os membros da Era Dourada mantinham feições sérias e compenetradas, com suas guardas erguidas e uma postura guerreira, continuando a encarar fixamente a fumaça que engolia Jiazz. Tudo por um motivo simples; eles sabiam que aquele homem era poderoso, eles sabiam quais eram os oponentes que ele tinha tido de enfrentar para chegar até ali, e mais do que tudo, eles sabiam que ele não iria cair facilmente. Eles sabiam que aqueles ataques nunca seriam o suficiente para derrota-lo.

— .... Não há dúvidas. Meus sensores confirmam que o Juggernaut ainda está dentro da cortina da fumaça, e pelas leituras que tenho dele, é seguro dizer que ele deve estar ileso mesmo depois de tudo isso. – Teigra falava aquilo calmamente enquanto dados corriam pelos seus olhos a uma velocidade assombrosa, rápido demais para que um cérebro normal pudesse sequer tentar fazer algum sentido de tudo aquilo, mas apenas na velocidade adequada para que uma mulher genial como ela pudesse se pôr a parte da situação. – Isso significa que...

— É a nossa vez – concluiu Duke por ela, esticando seus braços e estalando seu pescoço. O Titã virou seu rosto para a direita, pousando o olhar sobre sua companheira, e um pequeno sorriso confiante foi o que ofereceu a ela. – Pronta para chutarmos a bunda desse panaca, Kyanna?

— Sempre, Duke – retrucou Kyanna, abrindo um sorriso tão confiante quanto o de Duke enquanto erguia um punho na direção de Jiazz. – Vamos derrotar o Juggernaut!

Os dois avançaram simultaneamente em direção a fumaça, Duke usando da sua magia para fazer com que seus braços de carne e aço se transformassem em braços de aço ardente, enquanto ao mesmo tempo Kyanna avançava ao seu lado, revestindo seus punhos com seu poder mágico, preparada para liberar sua magia psíquica contra Jiazz ao primeiro sinal do Juggernaut. Os dois saltaram para dentro da cortina de fumaça com gritos de guerra e punhos erguidos, e ambos foram parados não mais do que um momento depois quando um par de mãos grandes e fortes se fechou, uma sobre a cabeça de cada um dos dois, erguendo-os como troféus de dentro da fumaça.

— É quase fofo que vocês achem que isso vai ser o suficiente para lidar comigo – comentou a voz do Juggernaut, ao mesmo tempo em que seu sorriso afiado e sedento de sangue emergia por detrás da cortina de fumaça. Apesar de todos os ataques que haviam sido lançados contra ele nos últimos segundos, Jiazz não parecia minimamente incomodado. Seu corpo estava completamente intacto, sem nenhum traço de ferimento visível, nenhum tipo de dano que não fosse alguns rasgados e buracos em suas roupas. Mesmo depois de todos aqueles ataques, Jiazz continuava tão imponente e temível antes, como demonstrava ao erguer facilmente os dois magos da Era Dourada. – Vou lhes dar um ponto em dizer que me atacar a distância foi uma boa ideia, e buscar erguer uma cortina de fumaça para limitar a minha visibilidade também não foi nada mal, mas investir pela frente? Acharam mesmo que um avanço direto como esse iria funcionar em alguém como eu? Por favor, isso é arrogância demais!

Você tem certeza disso?— Trovejou a voz de Hozar, próxima demais, fazendo com que os olhos de Jiazz se arregalassem em surpresa, um instante antes de se esbugalharem em dor.

Embora não fosse de forma alguma um homem famoso por ser esperto ou particularmente racional, Jiazz não estava errado em sua afirmação. Avançar frontalmente contra um oponente tão perigoso como ele – mesmo que esse oponente tenha a sua visibilidade limitada e tenha atacado de ser alvejado por vários ataques – era uma ideia tola, estúpida até. E Duke sabia disso, tal como Kyanna. Mas eles seguiram em frente mesmo assim, por um único motivo:

O plano deles demandava que fizessem isso.

Quando eles avançaram, não foram apenas eles que avançaram. Hozar também investiu, mas de forma mais cautelosa, avançando nas sombras do avanço deles enquanto tomava o cuidado de evitar fazer barulho. O anúncio que iriam atacar e os gritos de guerra que liberaram enquanto avançavam, esses haviam sido para nada mais do que distrair Jiazz e disfarçar o avanço de Hozar, dando ao cavaleiro a chance perfeita de se aproximar. E ele não desperdiçou sua chance; assim que chegou perto o suficiente, Hozar se certificou de mover seu martelo de guerra com todas as forças, revestindo a cabeça dele com chamas ardentes enquanto o girava contra Jiazz.

O Juggernaut foi atingido em cheio na boca do estômago pelo golpe, e a força absurda por trás do ataque somada a falta de defesas contra ele fizeram com que Jiazz vomitasse sangue imediatamente perante ao impacto. Ele tentou estabelecer algum tipo de resistência depois do impacto inicial para se manter firme, mas foi inútil: já era tarde demais para isso, e apesar de todos os seus esforços o Juggernaut acabou sendo empurrado forçosamente para trás pelo choque, deixando Duke e Kyanna escaparem das suas garras graças a isso.

Uma reação instintiva fez com que ele levasse suas mãos ao estômago, e imediatamente compreendeu o erro imenso que era isso. Seu rosto havia se abaixado devido ao golpe, e tratou de levantá-lo rapidamente para poder se situar da situação que tinha em mãos... apenas para que visse os rostos de Duke e Kyanna de relance, um momento antes dos dois chutarem seu queixo com toda a força. O golpe duplo da dupla acertou o Juggernaut em cheio, fazendo com que o corpo dele – que havia se dobrado perante a força do golpe de Hozar – se tornasse novamente ereto de uma vez, jogando o rosto de Jiazz para cima de forma a fazer com que o olhar dele fosse ao teto.

Tudo de acordo com o plano. Esse mesmo pensamento passou pela mente dos três guerreiros envolvidos naquela sequência de golpes ao mesmo tempo, fazendo com que cada um deles sentisse um certo grau de satisfação. Com seu rosto voltado para cima desse jeito, o pescoço de Jiazz está completamente esticado. Um vulto vermelho surgiu as costas de Jiazz, impossível de se notar por qualquer um que não olhasse direto para ele, mas se tornando cada mais sólido e visível a cada instante que passava, assumindo cada vez mais a forma de uma mulher, de uma espadachim.

Essa é sua chance! Ataque, Bryen!

A lâmina de aço da guerreira cortou através do ar como um falcão corta os céus, movendo-se rapidamente em direção ao pescoço esticado do Juggernaut. Com um olhar afiado e fixo no seu oponente, Bryen atacou com toda a sua força, decidida a mata-lo com um único golpe!

E foi por isso que ela se surpreendeu tanto quanto uma das mãos dele se ergueu quase que instantaneamente, fechando ao redor da lâmina de sua espada e parando seu ataque como se não fosse nada.

— Eu já disse... – murmurou a voz do Juggernaut, profunda e poderosa, como a de um comandante militar que se dirige a sua unidade. Seu rosto voltou a sua posição normal lentamente, e a medida que isso foi sendo feito os olhos do Juggernaut foram se revelando. O olhar dele era sombrio, desinteressado, aborrecido e levemente irritado, e de alguma forma, isso foi assustador para os que o viram. – Isso é arrogância demais!

A mão que segurava a espada se fechou com força, estraçalhando a espada em estilhaços como se fosse de vidro, e isso ocorreu ao mesmo tempo em que Jiazz girava com um punho fechado, acertando um soco com força e momento direto no rosto de Bryen. O corpo da ruiva foi arremessado longe pelo golpe, cruzando toda a dimensão da sala em menos de um instante até explodir contra uma parede, criando uma cratera profunda nela para a qual ela afundou. Os olhos de alguns dos membros da Era Dourada foram para sua companheira ferida, mas eles imediatamente voltaram a cair sobre Jiazz quando o Juggernaut começou a falar.

— Uma adaga na garganta. Uma lança no coração. Uma fodida árvore de gelo! E agora isso? Uma mil-vezes-maldita espada no pescoço?! Vocês não acham que estão me subestimando demais?! — A fúria de Jiazz explodiu de uma vez, tanto num sentido figurado quanto num bem literal. As chamas douradas queimaram com força ao redor do Juggernaut, envolvendo-o em um círculo de fogo quente o suficiente para que ninguém ousasse se aproximar dele. – Vocês realmente acreditam que eu cairei tão fácil assim?! Eu sou Jiazz, o Juggernaut! Ao nascer, minha pele era tão dura quanto aço! Aos cinco anos eu matei meu primeiro homem, um campeão gladiador! Aos sete anos eu matei meu pai, e toda a vila podre na qual vivíamos! Eu me tornei adolescente nos ringues e nas arenas, lutando com e contra os maiores gladiadores que esse mundo já viu! Eu destruí exércitos com minhas mãos aos treze, e reis caíram de joelhos perante a mim e imploraram pela minha ajuda quando eu tinha quinze! Aos dezessete anos eu já conseguia bater de frente com um Deus Demoníaco, e agora, aos dezenove anos, o meu título é o de “homem mais forte do sul”! Eu sou Jiazz, o Juggernaut, uma lenda-viva! E vocês vão aprender a me temer!

Ao soar daquelas palavras, Jiazz avançou. Ele emergiu de dentro das chamas como um demônio saído do inferno, ainda envolvido por suas chamas douradas, e avançou em velocidade estrondosa em uma linha reta, direto contra um alvo em específico. Anabeth só teve tempo de ver as chamas dele brilharem mais forte diante dos seus olhos antes que sentisse algo lhe acertar com força na boca do estômago, tirando seu ar, fazendo com que seu corpo se curvasse em dor e arrancando seus pés no chão.

Ela foi arrastada junto de Jiazz pelo punho do Juggernaut até uma parede do outro da sala, quando então – e só então – o avanço parou... quando Jiazz bateu seu punho e o corpo dela contra a parede com todas as forças. O puro poder por trás do impacto foi capaz de fazer com que toda a parede se quebrasse e ruísse em milhares de pedaços de concreto, e foi nesses escombros que o corpo de Anabeth caiu. A última visão que qualquer um teve da ruiva foram os olhos dela, esbranquiçados e inconscientes, antes que os destroços a soterrassem.

— Um caiu... – murmurou o Juggernaut, em um tom frio e ameaçador, enquanto contemplava o que havia acabado de fazer. O punho que tinha sido usado para golpear a ruiva estava sujo de sangue, e Jiazz não hesitou em erguê-lo e lamber líquido rubro de um de seus dedos, antes de direcionar um olhar predatório aos seus demais oponentes, um olhar como o de um lobo perante um rebanho de ovelhas. – Restam cinco.

Essas palavras despertaram algo. Com exceção de Bryen (que havia sido lançada longe demais para sequer ter alguma ideia do que havia acontecido), todos os membros da Era Dourada estavam simplesmente aturdidos demais pelo que haviam acabado de presenciar para fazerem alguma coisa, mas as palavras de Jiazz fizeram com que os olhos deles brilhassem em sinal de que haviam despertado desse transe... e quase imediatamente, uma expressão de pura fúria ganhou o rosto de Duke.

O Titã disparou contra Jiazz sem pensar duas vezes, jogando ambos os seus braços para trás e revestindo-os em aço ardente. Seus dentes rangiam um no outro com tanta violência que ele poderia quebra-los a qualquer momento, e a ira em seus olhos deixava além de qualquer dúvida que ele não queria nada mais do que quebrar Jiazz ao meio com suas mãos.

— Duke! – O grito de Hozar não veio necessariamente surpreso, mas com um misto de aborrecimento, irritação e preocupação, e um claro grau de urgência. – O que você pensa que está fazendo?!

— Algo que eu já devia ter feito a muito tempo! – Retrucou o Titã, rangendo os dentes com ainda mais força por um momento. Brasas arderam ao redor dos seus punhos, fazendo com que seus braços parecessem ser envolvidos em chamas puras enquanto ele avançava cada vez mais rápido contra Jiazz. – Eu vou chutar a bunda desse filho da puta!

— Isso, ou falhar miseravelmente e acabar beijando o chão – comentou o Juggernaut, dando de ombros sem se importar muito, ainda que se movendo sutilmente em direção a Duke, dando ao Titã a sua atenção. – Aposto cinquenta moedas na alternativa, francamente.

— Vai pro inferno seu bastardo arrogante de merda, você e suas apostas! – Bravejou Duke, cada vez mais furioso. – Quem você pensa que é? O que você pensa que é?! Acha mesmo que vai conseguir me derrotar assim tão fá-

O Juggernaut foi atingido antes que tivesse tempo de terminar sua frase. Tudo aconteceu num instante; num momento ele estava falando, para que no momento seguinte o braço duro como uma barra de aço de Jiazz lhe acertasse direto no pescoço, silenciando suas palavras e parando seu avanço. Suas pernas foram para cima, seu corpo girando em pleno ar graças a própria velocidade que ele tinha antes em seu avanço – tudo isso enquanto o Juggernaut mantinha uma feição calma e inexpressiva em seu rosto, olhando com olhos frios para o homem que caia.

— Permita-me responder sua pergunta com outra pergunta – disse ele, quase em um sussurro. – O que te faz pensar que é um oponente a minha altura?

Sem dar tempo para que o guerreiro pudesse oferecer qualquer resposta, Jiazz girou rapidamente em seus calcanhares, acertando um chute forte bem na boca do estômago do seu oponente. Ainda no ar e de cabeça para baixo, Duke cuspiu sangue para cima antes de ser arremessado longe, isolado até acertar uma das paredes e criar uma cratera nela com seu corpo. Balak vai realmente precisar contratar um bom pedreiro quando essa batalha chegar ao fim, observou Jiazz, movendo-se novamente para voltar sua atenção aos demais...

E virando-se bem a tempo de ver Teigra disparar uma enorme rajada de energia laser em sua direção.

A maioria das pessoas ficaria amedrontado em ver algo ameaçador como aquilo vindo contra elas, mas Jiazz só fez abrir um sorriso largo no seu rosto, como uma criança que ganhou um novo brinquedo. Ah, sim, um raio laser! Isso vai ser interessante!

Os joelhos de Jiazz se dobraram, exercendo uma pressão tão grande que o chão abaixo dele começou a se rachar diante do seu peso, e nessa postura ele aguardou com seu sorriso até que o raio estivesse bem diante do seu rosto, para só então investir. Ele saltou direto contra o raio ao som de uma gargalhada insana, e a pura energia do disparo engoliu seu corpo por completo – mas nem por isso ele desapareceu. Mesmo tendo sido engolido por aquela energia, o vulto de Jiazz ainda era visível no meio dela, uma mancha de resistência que não estava simplesmente parada, mas que ativamente avançava por dentro daquele raio como se aquilo não fosse nada, investindo cada vez mais rápido contra Teigra. A cavaleira viu isso também, fazendo com que ela se apressasse em cortar a energia e tentar saltar para trás, mas já era tarde demais.

Antes que ela pudesse tentar se afastar, Jiazz emergiu bem diante dos seus olhos, e com um soco pesado ele amassou o crânio dela contra o chão, criando uma cratera abaixo deles, no local de impacto.

— Dois caíram – disse ele, sorrindo selvagemente. – Restam quatro! Ou, melhor dizendo...

Ainda focado em Teigra, Jiazz moveu seu outro braço para trás bem a tempo de bloquear o chute que veio contra seu rosto. Um grunhido de frustração veio de Kyanna ao ter seu golpe parado assim tão facilmente, e ela rapidamente tentou se afastar para reagir àquilo, mas antes que tivesse essa chance a mão de Jiazz se fechou ao redor do seu tornozelo. Uma expressão de pânico cruzou o rosto da maga ao mesmo tempo em que um sorriso violento se abriu nos lábios do Juggernaut, e sem hesitar Jiazz puxou Kyanna para ele, apenas para que pudesse afastar sua mão de Teigra e movê-la na forma de um punho em um golpe mirado direto na junta do joelho da perna da maga.

Um grito agudo de dor explodiu da garganta dela diante daquilo, alto o bastante para que pudesse ser ouvido por quilômetros de distância, mas isso só pareceu divertir ainda mais o Juggernaut. Ele deixou que o corpo da maga caísse ao chão, e ela se esticou quase que imediatamente em direção ao seu joelho, mordendo seus próprios dentes para tentar não gemer de dor. E enquanto ela estava ocupada com isso, Jiazz não teve piedade e pisou com força em sua cabeça, esmagando o rosto dela contra o chão e fazendo com que todos os seus movimentos cessassem de uma vez.

— Três caíram – disse o Juggernaut, atualizando seu escore violento com claro gosto, antes de dirigir seu olhar a Hozar. – Restam só três agora... e desses três, você é o único que ainda não fez um movimento decente. Qual o problema, Royes? Eu pensei que você deveria ser uma espécie de líder para esses aqui.

O cavaleiro cinza permaneceu impassível mesmo diante da provocação. Hozar permanecia parado bem aonde estava, de braços cruzados, sólido como se tivesse sido esculpido em mármore. Ele não demonstrou absolutamente nada, e Jiazz não podia dizer que não ficava decepcionado com aquilo.

— Oi, oi, sério mesmo? Nem uma reaçãozinha, Hozar? Você planeja realmente me decepcionar desse jeito? – A voz de Jiazz adotou um tom jocoso nessa última frase, assumindo uma melancolia exagerada, uma troça de choros. E enquanto ele fazia isso, Jiazz também moveu levemente seu pé sobre a cabeça de Kyanna, em uma ameaça nada sútil que ele tornou ainda mais clara ao coloca-la em palavras. – Sabe, talvez esteja no seu melhor interesse não me decepcionar tanto assim, Cavaleiro Cinzento. Eu estive bem ansioso por uma boa luta com você durante todo esse tempo, e, bem... se eu não me divertir com ela, eu posso ter que me divertir esmagando o crânio dessa mulher.

— .... Você por acaso acha que eu sou tão idiota quanto você? – Questionou Hozar depois de alguns instantes, falando em um tom aborrecido enquanto se dirigia ao Juggernaut. – Eu não sou burro, Jiazz, e se você acha que a minha raiva irá me fazer agir estupidamente, você vai se desapontar bastante. Uma das coisas que eu aprendi antes de vir lutar nessa guerra é a como controlar a minha fúria. Eu não diria que sou um mestre nisso, ao menos não ainda, mas eu aprendi o suficiente para controlar a minha fúria de forma a permitir que eu aja de forma racional mesmo enquanto ela queima dentro da minha alma. Eu não sou tolo o bastante para simplesmente investir de forma descuidada contra você; eu não conseguiria ajudar Kyanna em nada com isso, mas apenas me colocaria em riscos desnecessários que provavelmente iriam culminar mais em problemas para os meus aliados do que tudo.

— Uh, olha só! O Berserker tem um cérebro na cabeça! Quem imaginaria! – A forma divertida como Jiazz falava aquilo deixava claro que tudo aquilo era pouco mais do que um joguinho particularmente divertido para ele, e isso era algo capaz de fazer com que a fúria ardesse com cada vez mais força no peito de Hozar, principalmente quando ele via o estado de seus companheiros diante da ofensiva do Juggernaut. Mas ainda assim, ele continuava a lutar para se controlar. Eu não posso me dar ao luxo de ser idiota aqui. Com essa sua arrogância e estupidez, o Juggernaut está me dando uma ótima chance de planejar o meu próximo movimento. Seu inimigo era forte, provavelmente mais forte do que qualquer inimigo que já tinham enfrentado antes, mas tinha que pensar em uma forma de o derrotar... e no momento em que viu aquela figura surgir por detrás dele, um plano completo foi desenhado na mente do Cinzento.

— Além do mais, acho que você vai ver em breve que não é comigo que você deveria se preocupar, Juggernaut – disse Hozar, gesticulando enquanto falava para que o Juggernaut se virasse de costas. A maioria dos guerreiros saberia imediatamente que estava tramando alguma coisa ao fazer isso, mas o Juggernaut não era um homem muito esperto, e isso fez com que ele apenas levantasse uma sobrancelha em curiosidade e girasse nos calcanhares...

Para ser prontamente recebido por um punho de aço ardente que acertou seu rosto com todas as forças.

Para um golpe com tanta força investida por trás dele, ele não foi muito efetivo. O som do seu impacto ressoou, mas Jiazz não foi jogado para trás, e seu rosto também não pareceu particularmente ferido depois do ataque, mas ao menos aquilo serviu para atordoa-lo, deixando o Juggernaut vulnerável ao golpe que se seguiu. E de qualquer forma, Duke estava pouco se fodendo para se seus golpes eram efetivos ou não. Pela expressão em seu rosto Hozar podia ver que ele estava ardendo em fúria, e isso só foi ainda confirmado com suas palavras.

— Seu miserável...! Arrombado...! Gigante FILHO DA PUTA! — Cada grito foi pontuado por um golpe novo que ressoava cada vez mais alto que o anterior. O Juggernaut havia se mantido firme depois do primeiro, mas cada soco a mais que Duke lançava parecia abalar sua base um pouco, fazendo com que ele acabasse tendo que tirar o pé de cima de Kyanna para se apoiar melhor no chão duro. – Quem você pensa que é? O que você pensa que é?! O QUE MERDA VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, HEIN?! Esse monte de merda de galinha que você chama de cérebro não é capaz de te dar uma noção da merda que você está fazendo?! Toque em um fio de cabelo dessa mulher, ou de qualquer um dos meus amigos, e eu arranco suas tripas por esse seu rabo fedorento, Jiazz o Juggernaut!

Sua declaração foi seguida de um gancho: o mais forte dos seus golpes até agora. Seu punho ardente acertou o queixo de Jiazz com força o bastante para arrancar sangue do Juggernaut e lança-lo ao ar, e foi nisso que Hozar viu sua chance. É agora ou nunca! Seus joelhos se dobraram rapidamente, e invocando toda a fúria que ardia em seu coração, Hozar fez com que seu corpo fosse cercado pelo que podiam muito bem ser as chamas do próprio inferno, um instante antes que saltasse.

Cão de Caça... — gritou ele enquanto fazia seu caminho pelos ares em direção ao Juggernaut, impulsionado não só pela sua própria força física quanto também pelas chamas que ele fazia queimar, que cada vez mais assumiam uma forma própria. Não demorou mais do que alguns instantes para que o que era Hozar se transformasse na figura de um grande cão de caça de fogo, rasgando os céus atrás da sua presa. Ele surgiu perante ao Juggernaut no exato momento em que o guerreiro lhe notou, e seu martelo se moveu sem hesitação, acertando as costelas de Jiazz enquanto cercado pelas chamas da sua ira. – Fúria Vermelha!

Um brilho escarlate engoliu a sala no momento do impacto, e por um instante todo o mundo pareceu congelar, para que em seguida o corpo de Jiazz fosse arremessado rodopiando pela força do golpe, deixando para trás um rastro de chamas e fumaça por onde passava. O corpo dele cruzou a sala de uma ponta até a outra, batendo na parede com tanta força que ele abriu um buraco através dela, passando para a sala adjacente, e dela para outra, e outra ainda – tudo isso enquanto Hozar aterrissava tranquilamente no chão, bem ao lado de Graham.

— Você foi bem. – Murmurou o cavaleiro assim que chegou ao chão, dirigindo suas palavras e olhar para a figura exausta do seu companheiro. Duke havia colocado tudo de si por trás daqueles golpes, e isso era visível; a respiração dele estava entrecortada naquele exato instante, sem fôlego algum, seu peito subindo e descendo com a atividade exagerada de seus pulmões.

— Fui, é...? – Questionou ele, lançando um olhar de relance a Hozar, para depois movê-lo até o buraco que Jiazz havia deixado na parede. – Francamente, não é essa a sensação que tenho. Eu pensei que iria fazer alguma coisa com esses golpes, mas o miserável não pareceu sentir nada mais do que o último golpe, e nem mesmo esse pareceu ser lá tão efetivo. Bater nele foi como socar uma maldita muralha de diamante. O desgraçado não parecia tão durão assim antes.

— Ele provavelmente estava usando só parte do seu poder ou tinha deixado a guarda baixa por excesso de confiança – apontou o cavaleiro cinzento, usando como base o que sabia do funcionamento da mente dos fortes, bem como os modos imprudentes, divertidos e arrogantes do Juggernaut até então. – Esse Jiazz que enfrentamos agora... esse deve ser o verdadeiro Juggernaut, o que enfrentou Odin. Considerando seus feitos até aqui, duvido que até mesmo o meu golpe tenha sido capaz de fazer muito. Mas ele conseguiu fazer algo, e isso já é o suficiente. Pois temos do nosso lado uma pessoa capaz de derrota-lo, desde que consiga fazer algum dano. Não é mesmo, Bryen?

O rosto do cinzento se voltou para olhar nos olhos da sua companheira. Bryen Hardying havia feito seu caminho até eles no mais completo silêncio, quase como se fosse uma assassina profissional. Mas mesmo com essa aproximação sorrateira Hozar ainda havia sido capaz de nota-la facilmente, por um simples motivo: por mais que ela não fizesse ruído algum, o mero desejo assassino dela de cortar a cabeça do Juggernaut era tão intenso que alguém como Hozar poderia senti-lo a quilômetros de distância.

— Você sabe que sim – respondeu ela da forma fria como sempre falava quando não estava irritada. Ela definitivamente fez jus ao título de “Rainha do Gelo”, hm? — Eu só preciso que vocês me deem uma chance. Um ataque em uma brecha grande o bastante nas defesas dele e eu acabo com isso de uma vez. O Juggernaut pode ser forte, mas não existe homem no mundo que possa sobreviver sem seu cérebro.

— Você ficaria surpresa, cabelo-de-fogo. E eu me lembro de ter dito especificamente a vocês que coisas assim não funcionariam. – O soar das palavras fez com que três pares de olhos se voltassem na direção da qual a voz vinha, a tempo de verem o Juggernaut emergindo do buraco que seu corpo havia criado, sem nenhum sinal de ferimento em seu corpo. Ele deve ter se curado... é exatamente por isso que precisamos de Bryen. — Eu sou o homem mais forte do Sul. Acham mesmo que eu morreria tão fácil assim?

— Ser forte não te faz imortal, Juggernaut – retrucou friamente a ruiva, segurando firmemente sua espada com ambas as mãos.

— Perante a fracotes como vocês? Ah sim, faz sim. Talvez eu tenha sido um pouco sútil demais antes, então permita-me deixar as coisas um pouco mais claras pra vocês: não há chance nenhuma no maldito inferno de vocês conseguirem me derrotar.— A declaração foi feita como se fosse um fato, e como se para demonstrar o que queria dizer, Jiazz abriu seus braços e sua guarda. Grunhidos furiosos vieram de Bryen quase que imediatamente, deixando claro à Hozar que ela estava lutando para simplesmente não ir direto contra ele e cortar o pescoço do Juggernaut, mas ela era esperta demais para cometer um erro como esse. – Uma coisa que vocês têm que aprender, meus amigos, é que por mais que existam variáveis que influenciam em uma batalha, existe apenas uma coisa que define realmente as possíveis conclusões que uma luta pode ter: a força dos que estão lutando. Conseguem entender isso? Hardying, Graham, Royes... não importa quais sejam as suas habilidades, ou qual seja o plano de vocês, ou que tipo de Deus ou Demônio esteja guiando as suas mãos... vocês são fracos demais para me derrotar!

Aquelas palavras forma a gota d’água. Foi capaz de ouvir a alteração na respiração de Bryen, e isso já foi o suficiente para que soubesse que ela estava prestes a avançar, mas quando voltou sua cabeça para gritar que ela esperasse, ele a viu erguida a quase um metro do chão, levantada por sua garganta que era pressionada pela mão de Jiazz que parecia se fechar cada vez mais ao redor dela, ameaçando rasgar sua carne e quebrar seus ossos a qualquer momento.

— Vê o que quero dizer, ruivinha? – Gracejou o Juggernaut, fitando Bryen com um sorriso sádico no rosto e nos olhos enquanto a esganava cada vez mais.

A mulher não estava aceitando aquilo pacificamente. Enquanto o Juggernaut a estrangulava ela tentava lutar, chutando-o tanto quanto podia e fazendo o seu melhor para mover sua espada contra ele, mas anda parecia fazer muito efeito. Jiazz recebia cada um dos seus ataques tranquilamente, sem demonstrar o menor incomodo, e se alguma coisa, toda aquela luta só parecia entretê-lo ainda mais. Maldição, ele vai mata-lo nesse ritmo! Tomou seu martelo em ambas as mãos e fez com que suas chamas começassem a cerca-lo, mas antes que pudesse avançar contra Jiazz ele ouviu um grito de guerra, e ergueu seu rosto a tempo de ver Duke saltando contra o Juggernaut, brandindo um de seus punhos revestidos.

— Ei, seu saco de merda! – Gritou o Titã, mostrando suas presas. – O que porra você pensa que es-

Antes que Graham pudesse terminar de falar a mão livre de Jiazz foi em direção a ele, aberta, e uma rajada de chamas vieram dela, causando uma explosão dourada assim que entraram em contato com o corpo de Duke. A figura do Titã foi jogada longe pela explosão, isolada até quase o outro lado da sala, e isso só fez com que Hozar rangesse os dentes em raiva. Maldito idiota impulsivo... isso tudo seria muito mais fácil se você pudesse se controlar um pouco mais e atacasse em sincronia comigo! Tendo que atacar Jiazz sozinho agora, Hozar sabia que ter algum sucesso seria muito mais difícil do que antes, mas não era como se pudesse simplesmente abandonar Bryen nas mãos dele.

Avançou em uma corrida e girou seu martelo com todas as forças em direção ao peito do Juggernaut. Mesmo enquanto fazia isso, no entanto, ele já sabia bem o quão difícil seria que conseguisse acertar seu golpe, e por isso mesmo ele não ficou realmente surpreso quando a mesma mão que havia se erguido para lidar com Duke moveu-se rapidamente para segurar a cabeça do martelo, bloqueando facilmente seu golpe.

— Você não vai conseguir salvar sua companheira de alguém como eu só com essa força, Royes – gracejou o Juggernaut, mostrando um sorriso cheio de dentes afiados ao cavaleiro, para em seguida fechar sua mão de uma só vez, esmagando o martelo em pedaços como se ele fosse feito de vidro.

Havia esperado desde o início que Jiazz bloqueasse seu golpe de alguma forma, mas em momento algum havia imaginado que ele poderia quebrar seu martelo daquele jeito. A surpresa lhe deixou estupefato, de olhos arregalados... e em meio a essa surpresa, Hozar foi incapaz de reagir a tempo quando o punho do Juggernaut veio contra o seu rosto, acertando-o em cheio. Sentiu seu nariz quebrar, sentiu sangue na boca, mas mais importante, sentiu uma força absolutamente monstruosa batendo de frente com ele naquele momento. Mas o que é... que força é essa?! Aquilo era incomparável com qualquer outra coisa que havia sentido antes em sua vida, estava em um nível absurdamente diferente. As correntes de Reivjak, as magias de Tristah... eles nem começam a se comparar a essa força! Como é possível que um único homem seja tão forte assim?!

Foi lançado longe sem que pudesse ter qualquer chance de resistir, e seu corpo atingiu a parede tão rápido que a impressão que teve foi que havia sido jogado instantaneamente de um lado para o outro. Ficou preso na própria cratera que seu corpo criou por um instante antes que caísse ao chão como se fosse um saco de batatas, e o impacto por si só foi o suficiente para fazer com que ele vomitasse sangue. Merda... merda...! Isso é ainda pior do que eu imaginei! Sabia desde o início que Jiazz era forte, mas nunca havia imaginado que a diferença de forças era tão gritante assim. Se esse cara é realmente tão forte quanto ele demonstrou agora, então Bryen... Bryen não tem chance alguma de escapar das suas garras sem ajuda de alguém! Tentou se forçar a se levantar e fazer alguma coisa, mas foi o tempo de começar a fazer isso para que ouvisse o som de algo caindo ao chão.

Bryen ainda “olhava” na sua direção, se é que podia dizer isso. Os olhos dela estavam bem abertos – arregalados até – mas qualquer sinal do brilho da vida havia desaparecido há muito deles, fazendo com que não fossem nada mais que órbitas vazias que fitavam o mais completo nada. Olhar para isso e para o estado da sua companheira foi algo capaz de fazer a própria alma de Hozar arder em chamas, e o sorriso triunfante que ele flagrou no rosto do Juggernaut não ajudou em nada.

O ar de superioridade que exalava daquele homem conseguia ser tão grande – ou talvez até maior – do que a própria força que ele exibia.

— Quatro caíram, restam dois. Mas se isso te serve de consolo, eu não planejo matá-la, tal como não matei nenhum dos seus outros companheiros – comentou Jiazz, colocando as mãos nos bolsos de forma relaxada. – Meu interesse é chutar as bundas sua e do Kastor. Eu não tenho razão para querer vocês ou algum dos seus companheiros mortos. Apesar de que a história já é outra se formos pegar pelo lado do Balak. Então... acho que vocês estão bem fodidos de qualquer forma. Foi mal.

— Foi... mal...? Foi... MAL?! — Os olhares de tanto Jiazz quanto Hozar foram atraídos pela pura fúria na voz de Duke. A explosão dourada que havia atingido o mago havia o deixado bem ferido; não o suficiente para que ele tivesse qualquer dano permanente, mas mais do que o suficiente para que ele sentisse bastante os danos. Sua pele estava queimada, sua roupa estava em trapos, seus cabelos estavam chamuscados..., mas apesar de tudo isso ele ainda parecia relativamente bem, ao menos o suficiente para conseguir levantar o seu corpo com alguma dificuldade o suficiente para encarar friamente o Juggernaut. – Seu pedaço de merda... acha que pode escapar disso tudo assim tão fácil?! Você... você realmente acha que pode lavar suas mãos assim? Que pode dizer que não quer nos matar e que isso subitamente faz de você alguma merda melhor? Seu pedaço de bosta hipócrita! Se você tem as bolas de fazer alguma coisa, então ao menos honre os seus culhões o suficiente para admitir o ser humano de merda que você é!

— Hmm... e aí está. A agressividade. Eu estava me perguntando quando é que ela iria chegar? – A forma como Jiazz falou foi tranquila, mas isso não enganou Hozar. Ele conseguiu sentir a ira por trás das palavras do Juggernaut, e foi por isso que ele se pegou tão apreensível quando viu-o virar seu corpo em direção à Duke e começar a caminhar lentamente em direção ao Titã, ainda da sua forma relaxada. – Ei, Graham. Perguntinha pra você. Você acha que eu dou a mínima, hum? Quero dizer, você acha realmente que alguém como eu dou a mínima para o que as pessoas acham de mim? Novidade, meu amigo. Foda-se a porra do mundo. Existem milhares de pessoas por aí que me odeiam por algum motivo. Algumas com motivações firmes, como eu ter afetado negativamente as suas vidas em algum momento, ou ter matado alguém que era seu ente querido. Outras com motivações fracas como gravetos, como me acharem arrogante, ou invejarem o que sou e o que tenho, ou simplesmente não irem com a minha cara. De qualquer forma, estou pouco me fodendo pros dois grupos. Eu vivo a minha vida da forma que eu quero, seguindo o meu próprio código e me importando apenas com o que é importante pra mim. E se você seguir essa linha de raciocínio, meu amigo, você vai entender que eu não tenho preocupação alguma em “lavar as mãos”. Eu não nego nada do que faço, nem as consequências que essas coisas têm. Eu simplesmente não me importo com elas. O mundo é dos fortes, Duke Graham! Desde que você seja forte o bastante, você pode fazer o que bem entender sem ter que prestar contas pra ninguém, e é assim que eu vivo! Se você acha que sou um “ser humano de merda” por fazer o que eu faço, bem, esse é um direito seu, e eu não vou ser um daqueles otários que tenta te calar por dizer algo que não quero ouvir. Você tem uma opinião, oras, e não é nada mais do que certo que você possa expressá-la em alto e bom som a todos que tiverem ouvidos para ouvir. Desde que você aceite o que vem a seguir.

No momento em que disse aquilo o avanço de Jiazz encontrou um fim súbito, e o Juggernaut parou completamente. Ele simplesmente ficou parado assim, sem fazer nada, bem aonde estava, por mais de um momento, o suficiente para fazer com que tanto Hozar quanto Duke se perguntassem exatamente o que raios estava acontecendo.

Não demorou para que eles tivessem suas respostas. A primeira coisa que serviu como uma espécie de “aviso” para o que estava por vir foi uma onda de pura energia que veio de Jiazz, em uma intensidade tão grande que os dois puderam a sentir quase como se fosse sólida. A seguir vieram as chamas; elas se manifestaram do nada, ardendo de forma controlada ao redor do corpo de Jiazz, envolvendo-o como se fossem uma espécie de aura ou espectro, uma extensão do próprio Juggernaut. Os olhos de Jiazz tornaram-se brancos como leite, e todo o seu rosto assumiu uma estrutura feral, como o que alguém esperaria de uma besta enlouquecida. Sua boca se abriu, revelando presas avantajadas como as de uma fera selvagem, e a cada respirar dele era possível se ver a respiração do Juggernaut no ar, fazendo com que ele parecesse ainda mais agressivo e perigoso.

— A vida é feita de escolhas, Graham, e cada escolha tem uma consequência. Assim sendo, a vida não é nada mais do que uma série de consequências das várias escolhas que você vai fazendo. Eu fiz as minhas escolhas, e elas fizeram com que você me odiasse: parte das consequências das minhas escolhas. Da mesma forma, você escolheu vir pra cima de mim agora com esse discursinho moralista... e eu espero que você saiba o que exatamente isso significa, Juggernaut. – Um sorriso violento abriu-se no rosto feral de Jiazz, e o Juggernaut jogou seu rosto um pouco para o lado, como se esperasse fitar Duke por outro ângulo para ver melhor sua reação. – Diga... qual consequência você pode esperar de irritar um homem como eu, além da sua completa aniquilação?

Os olhos de Hozar e Duke se arregalaram ao ouvir aquilo, mas antes que qualquer um dos dois tivesse tempo de fazer alguma coisa Jiazz desapareceu. Ele ressurgiu um mero instante depois, na pior posição possível; ele estava bem atrás de Duke, se erguendo acima do mercenário como um monstro, erguendo em sua mão direita uma lança de chamas douradas cuja ponta apontava direto para Duke.

— Que isso sirva de lição para você, Duke Graham da Era Dourada! – O soar da voz do Juggernaut fez com que o rosto de Duke se voltasse rapidamente na direção dele, e os olhos do Titã se arregalaram ainda mais quando viram a figura assustadora do Juggernaut. – Ousadia é bom! Atrevimento é bom! Mas me irritar... me irritar é a forma mais dolorosa de cometer suicídio!

A lança desceu de uma vez, atravessando a carne e os músculos de Duke até emergir do outro lado, arrancando um grito agonizante de dor do Titã, como o de um homem sendo torturado. Não era apenas a perfuração que lhe causava dor; as chamas de Jiazz estava queimando mesmo enquanto atravessavam a carne de Duke, fazendo com que fumaça subisse das suas feridas e com que o cheiro de carne humana queimando se espalhasse pela sala. O corajoso e brigão guerreiro da Era Dourada esperneava e tentava desesperadamente se afastar, mas a lança havia o atravessado e se cravado ao chão, impedindo-o de fazer qualquer coisa para sair daquela situação, e enquanto tudo isso acontecia Jiazz apenas mantinha um fino sorriso sádico e satisfeito no rosto.

E mesmo assim, ele não estava satisfeito.

— Ora, por favor Duke, não seja tão chorão. Nós nem começamos a brincar: se você for gritar tanto assim, vai ficar sem fôlego para o espetáculo principal. – Uma das mãos de Jiazz fechou-se ao redor do cabo de sua lança ao mesmo tempo que a outra empurrou violentamente a cabeça de Duke ao chão, abafando seus gritos de dor com a pedra da catedral. Em sua mão, a lança começou a brilhar cada vez mais intensamente, e não demorou muito para que Hozar começasse a ter a impressão de que ela estava literalmente pulsando. – Sabe, o meu poder permite que eu cure as pessoas fisicamente, mas uma coisa que as minhas chamas não tiram é a sensação de dor. Eu poderia elaborar mais sobre isso, mas o importante é que você saiba que isso significa que eu posso me assegurar de que alguém não morra até o momento em que eu quiser que ela morra, o que significa que posso ficar torturando essa pessoa tanto quanto eu quiser enquanto ela sente toda a dor de tudo que acontece. E eu já fiz isso, meu amigo. Alguns filhos da puta que conseguiram me deixar verdadeiramente puto sofreram as piores mortes imagináveis nas minhas mãos, mortes tão brutais e sangrentas que os próprios demônios virariam o rosto em repulsão. Eu poderia fazer isso com você... mas como eu disse antes, não tenho a intenção de matar nenhum de vocês, e francamente? Eu não te odeio. Na verdade, eu meio que simpatizo com o seu jeito estourado e ousado, com as bolas que você demonstra ao insultar tão abertamente alguém que pode facilmente foder com a sua vida. Respeito um pouco essas coisas, o que faz com que eu não tenha desejo algum de te matar. Mas você ainda me irritou consideravelmente ao falar aquelas merdas Duke, e isso significa que não vou ficar satisfeito em simplesmente te deixar sair daqui ileso. Então, veja da seguinte forma: eu não vou te matar, mas vou te dar um gostinho do que acontece com aqueles que me irritam, para que você não volte a cometer esse erro. Conheça, Duke, a verdadeira dor! Sétimo Mandamento do Deus do Fogo – Batismo das Chamas!

A lança explodiu ao soar daquelas palavras, e todas as chamas que a compunham foram liberadas em uma torrente de fogo que consumiu mais de metade da sala instantaneamente. O próprio Hozar – que estava praticamente do outro lado da sala – se viu forçado a recuar e cobrir seu rosto com os braços para se proteger das chamas, e teve que fazer tudo isso enquanto ouvia os gritos de Duke, ainda mais intensos do que antes, ecoando por todo o quarto andar.

Quando as chamas finalmente se desfizeram e ele pode ver novamente, foi recebido por uma visão de Jiazz, de pé ao lado do corpo queimado e quase carbonizado de Duke, olhando para Hozar com um sorriso afiado, embora algo na sua feição sugerisse que ele não estava mais tão violento ou agressivo quanto antes.

— Cinco caíram, e agora só resta um – cantarolou Jiazz alegremente, em um tom jovial que entrava em direto contraste com toda a crueldade e agressividade que ele havia demonstrado até então. – Ah... parece que no fim das contas, você acabou sendo o último dos seus a ficar de pé, não é, Hozar? Hm, não posso dizer que isso é realmente surpreendente. Na verdade, considerando quem você é, eu ficaria decepcionado se o resultado fosse outro! Apesar de que, considerando tudo que tem acontecido até agora e a forma como vocês se provaram incapazes de fazer alguma coisa contra mim, eu tenho que me perguntar... o que exatamente você vai fazer?

Aquelas palavras simples fizeram com que uma gota de suor frio corresse pela lateral do rosto de Hozar, e ao ver isso o sorriso de Jiazz se abriu um pouco mais. Uma espada enorme foi forjada pelas suas chamas, solidificadas de forma a parecerem uma espécie de cristal dourado, e segurando-a em uma mão o Juggernaut começou a seguir em direção ao Deus da Fúria, deixando que a ponta da arma raspasse no chão enquanto fazia seu caminho, fazendo um ruído que conseguia ao mesmo tempo irritar e criar medo.

— Você não tem chances de me derrotar, e nós dois sabemos disso. Você não tem como fugir de mim, e nós dois também sabemos disso. Seus amigos não podem lhe ajudar, e a sua derrota aqui significará não só que os esforços deles serão em vão, mas que o seu amiguinho no andar seguinte vai estar com sérios problemas. E mesmo assim, você simplesmente não tem alternativas! Não importa o que você tente, ou como você tente, a vitória é um objetivo inalcançável a esse ponto, o que significa que o fracasso é a sua única alternativa. E como você vai lidar com isso, hm? Vai enfiar o rabo entre as pernas e tentar fugir? Se desesperar e avançar contra mim, jogando socos como uma criança? Talvez tente usar um pouco a cabeça e bolar algum plano que possa lhe fazer me dar algum trabalho, ou talvez ainda você decida por simplesmente alongar essa luta o máximo possível da melhor forma que conseguir? Qualquer que seja a sua escolha, eu sei qual será o resultado final, e francamente não tenho pressa alguma em chegar nele. Eu só quero que, independente do que aconteça, você faça uma dança divertida para mim!

Algo na entonação daquelas últimas palavras disse a Hozar que o Juggernaut ia investir, e ele prontamente tentou erguer seus punhos em sua defesa naquele momento, mas antes que tivesse tempo de adotar qualquer tipo de guarda um punho duro atingiu seu rosto com um soco assustadoramente potente. Seu corpo foi direto contra a parede e ficou cravado nela como se alguém tivesse o martelado como se fosse um prego, e isso só fez com que Jiazz gargalhasse ainda mais, se divertindo imensamente.

— Hahahahaha! Eu vou ser franco e dizer que esperava uma luta interessante de você, mas não posso dizer que estou realmente decepcionado com o que tenho agora. Seu “pai” já me deu um desafio, mais do que eu esperava de qualquer um de vocês, e mesmo que não seja exatamente o que eu tinha em mente, isso é divertido o suficiente! Uma boa luta desafiante é sempre bom, mas as vezes você pode se satisfazer em simplesmente surrar alguém sem que essa pessoa possa reagir!

Tch...! Pela forma como Jiazz falava, sentia-se como se fosse indefeso diante do Juggernaut, e o fato de saber que isso não estava tão longe da verdade era algo que o enfurecia ainda mais. Maldição... eu não vim tão longe apenas para deixar esse idiota me derrotar! Seu corpo caiu ao chão de joelhos, e Hozar se apressou para se levantar... só para ser jogado de volta ao chão quando Jiazz chutou seu rosto com força. Sentiu alguns de seus dentes se quebrarem perante a força do impacto, e seu rosto – que se voltou ao chão tão rápido que ele quase sentiu como se seu pescoço estivesse quebrando – ficou banhado no sangue que veio das suas novas feridas. O mesmo sangue que ele pode ver a um palmo de distância; uma poça vermelha no chão com pequenos pedaços brancos dos seus dentes flutuando no meio.

— Você ainda tenta lutar, Hozar? Há! Você certamente tem espírito, mas eu não consigo deixar de achar isso bem infrutífero da sua parte! Se você levantar, eu te jogo de volta no chão! Se você criar esperanças, eu quebro elas diante dos seus olhos! Não importa o quanto ou como você tente, nada vai mudar! Você perdeu! Mercenários, Coração Negro, Salão Cinzento, Era Dourada... ninguém pode me parar! Vocês são todos simplesmente fracos demais! E a derrota é o que aguarda os fracos!

... Fracos? Dentre todo o discurso de Jiazz, aquela palavra em particular ficou marcada na mente de Hozar, algo que fez com que o cavaleiro sentisse seu sangue ferver.

— Com que direito...? – O murmúrio veio quase que sem Hozar se desse conta, e foi o bastante para fazer com que um grunhido confuso viesse do Juggernaut. Em resposta a isso o cavaleiro virou levemente seu rosto, e olhos ardentes em fúria encararam o homem chamado Jiazz. – Com que direito você chama essas pessoas de fracos?

Se antes Jiazz não havia entendido a sua frase, depois dessas palavras que ele ficou confuso de vez. A maior expressão de pura incompreensão dominou o rosto do Juggernaut enquanto seu cérebro tentava processar o que havia acabado de ser dito e sua boca balbuciava quase que por conta própria.

— Com que direito? Ora, com o direito de ser mais for-

— Você não é mais forte do que eles, Jiazz. Você nunca foi e nunca será mais forte do que eles. Você nem sequer consegue compreender o que é a verdadeira força. – A vida por trás daquelas palavras deixou o Juggernaut mais do que um pouco surpreso, fazendo com que seus olhos se arregalassem e com que ele não fizesse nada mais do que observar o cavaleiro enquanto Hozar se reerguia lentamente, mal sendo capaz de conter a sua fúria. – Você é um pirralho, uma criança insolente. Alguém que ganhou poder dos céus e nunca precisou se esforçar para ter a força que possui hoje, incapaz de compreender pelo que cada um de nós passou para chegar aonde estamos. Eu e os meus, Jiazz... nós não nascemos fortes como você. Nunca tivemos esse luxo. Nós nascemos tão fracos quanto qualquer outro, e montamos nossa força com nossas próprias mãos. Nós sangramos e suamos em treinamentos, nós nos dedicamos noite e dia em nossos objetivos para obter o que queremos, nós trabalhamos duro para ter a força que exercemos, e é por isso que somos e sempre seremos mais fortes do que você. Um idiota que nunca teve que se esforçar para nada é incapaz de compreender a força da nossa determinação!

Foi o tempo de Hozar terminar de dizer aquilo para que ele flagrasse os olhos de Jiazz escurecendo. Quando ele havia se dirigido a Hozar sua voz havia soado mais calma e divertida, sem os traços da raiva que Duke havia provocado, mas agora essa parecia estar voltando com toda a força.

— Hm, uhum, é... parece que ver o que aconteceu com seu amigo não é o suficiente para dar uma lição em vocês, não é mesmo? Você insiste em falar merda, insiste em me condenar e agir como se fosse melhor do que eu, insiste em me irritar. Bom, tudo bem. Se você é masoquista, o problema é seu, mas saiba de uma coisa, HOZAR ROYES! — O rosto de Jiazz havia mantido antes uma certa expressão controlada, uma falsa amistosidade, mas a fúria se tornou clara de uma vez, como se sua máscara tivesse se despedaçado. Ele jogou seu braço para trás, e seu punho se fechou com tanta força que veias se tornaram visíveis e seus músculos se expandiram de forma a fazer seu braço parecer duas vezes mais grosso do que antes. A mera força por trás do movimento de jogá-lo para trás foi o suficiente para estabelecer pressão no ar terrível o bastante para abrir um buraco na parede do outro lado da sala, e isso não era mais do que o começo. – Esse não é um mundo de conto-de-fadas, pirralho! Pura determinação não te leva a lugar algum! Apenas a força faz algo, apenas a força importa! Esse é o mundo de Reham, onde os fortes reinam soberanos e os fracos morrem ou dobram o joelho em servidão! E NESSE MUNDO, SUA DETERMINAÇÃO NÃO VALE DE NADA!

— E é por isso que eu digo que você não é capaz de compreender! Falar com você é como falar com uma maldita muralha! VOCÊ NUNCA VAI ENTENDER DO QUE ESTOU FALANDO, JUGGERNAUT! — Tal como Jiazz, Hozar jogou seu punho para trás. Ao contrário do Juggernaut que tinha pleno espaço para se mover, Hozar não contava com o mesmo, mas isso não o impediu. Seu punho bateu na parede às suas costas e fez com que ela se ruísse em milhões de pedaços quase que instantaneamente, dando espaço para que o cavaleiro cinzento pudesse preparar o seu próprio golpe. – A determinação é o que nos move, o que nos mantém de pé! Homens e mulheres só conseguem se levantar e continuar a seguir em frente nesse mundo terrível pela determinação que queima em nossas almas! É a determinação que nos faz levantar quando caímos! É a determinação que nos faz persistir nos tempos difíceis! É a determinação que faz com o impossível se torne possível! Você não entende, nem nunca vai entender, mas a determinação é a nossa força! PORQUE É A DETERMINAÇÃO QUE NOS DÁ FORÇA PARA SUPERAR QUALQUER OBSTÁCULO!

— QUANTA MERDA! — Brandiu o Juggernaut com olhos sedentos de sangue. – A DETERMINAÇÃO LHE DÁ FORÇAS? MUITO BEM! PROVE ISSO ENTÃO! SUPERE O MEU PUNHO, DEUS DA FÚRIA! SUPERE A MIM!

É EXATAMENTE ISSO QUE IREI FAZER, JUGGERNAUT! — Rosnou Hozar, e ao soar dessas palavras, chamas arderam ao redor de ambos os punhos dos guerreiros.

Os punhos dos dois oponentes se moveram simultaneamente, e se chocaram um de frente com o outro bem no meio de ambos. O soar do impacto emitiu uma onda de pressão que fez com que as paredes mais próximas se quebrassem e as mais distantes se rachassem, e as chamas que vinham de ambos formaram um círculo de fogo ao redor dos dois: metade vermelho, metade dourado. As respectivas chamas de cada guerreiro dançavam ao redor de seu dono enquanto eles se defrontavam, e os punhos de Jiazz e Hozar empurraram um ao outro desesperadamente, cada um dando o melhor de si para superar seu oponente.

O olhar furioso de Hozar começou a cintilar em preocupação quando ele viu seu punho recuando perante ao de Jiazz, sendo cada vez mais forçado para trás. O sorriso selvagem e sanguinolento do Juggernaut se abriu mais e mais ao flagrar aquilo, e o que Hozar sentiu em seu coração foi a maior sensação de fracasso que já encarou na vida. Maldição, não! Isso não pode acontecer! Não podia perder ali, não depois de ir tão longe, não para aquele homem. Kastor está contando comigo! Essa batalha não é a principal da guerra, não será lembrada em livro algum, provavelmente irá afundar no abismo do esquecimento da história, mas isso não faz com que ela não seja importante! Lidar com o Juggernaut é tão vital para a nossa vitória quanto derrotar o próprio Balak, e eu sou a última pessoa que pode fazer alguma coisa contra ele! Todos os seus companheiros haviam lutado com todas as forças contra aquele homem, feito o seu melhor na tentativa de derrota-lo. Não só os membros da Era Dourada, mas todos os membros da aliança. Incluindo meu Pai. Não podia perder, não podia perder.

Tinha que vencer, se não por ele, pelos que haviam sido derrotados.

Um grito de guerra ecoou da sua garganta, e ele foi seguido por uma explosão de poder. A força por trás do punho de Hozar aumentou imensamente de uma única vez, e o sorriso de Jiazz se transformou na mais completa expressão de incredulidade quando Hozar empurrou de volta e jogou seu braço para trás como se não fosse nada, abrindo caminho até que pudesse atingir em rosto em cheio com um único e poderoso soco.

O Juggernaut foi arremessado ao outro lado da sala tão rápido por aquele golpe que o olho humano nem sequer conseguiu acompanhar o seu movimento. Suas costas explodiram contra uma parede rachada que desmoronou imediatamente diante do seu peso, levantando uma cortina de fumaça que o cobriu completamente. Quando essa cortina se pôs, o que ela revelou era algo que absolutamente ninguém esperaria um dia ver; Jiazz estava caído com seu rosto coberto em seu próprio sangue, as marcas dos dedos de Hozar claras em sua bochecha como se tivessem sido marcadas com ferrete. Mas o que realmente assustava era o estado do seu braço. O braço esquerdo do Juggernaut – o braço que ele havia usado para lançar seu golpe – estava completamente quebrado, contorcido anormalmente, duas fraturas expostas: uma aonde parte das costas da sua mão havia sido queimada, deixando amostra os ossos destroçados por trás dela, e outra aonde seu osso havia sido empurrado com tanta violência que ele havia perfurado seu antebraço até que dez centímetros da ponta do osso emergissem do outro lado. Apesar disso tudo, no entanto, Jiazz continuava consciente: ele estava ali, de olhos arregalados, olhando para seu braço como se não conseguisse começar a entender como tudo aquilo havia acontecido, quando Hozar chamou sua atenção ao pisar com força no chão.

— De pé, Juggernaut. – Disse ele simplesmente, com chamas queimando em um círculo ao redor da sua figura e dançando ao redor do seu corpo. O mesmo punho que havia acabado de golpear o Juggernaut estava erguido, ainda sujo do sangue do guerreiro lendário. – Eu ainda não acabei com você.

Aquelas palavras pareceram despertar algo em Jiazz. A expressão confusa em seu rosto desapareceu quase que instantaneamente ao ouvir aquilo, sendo imediatamente substituída por uma de puro júbilo. Sem nem se dar ao trabalho de usar de suas chamas douradas, o Juggernaut se pôs novamente em pé com um salto, parecendo quase incapaz de se conter em animação, com o sorriso largo de uma criança hiperativa estampado em seu rosto.

— Ora ora, quem diria! – Rugiu ele, flexionando os dedos da sua mão ainda boa sem demonstrar o menor sinal de dor ou medo. – Eu tenho mais um desafio, no fim das contas!

Com uma gargalhada e um grito de guerra o Juggernaut disparou, sem dar a mínima para seu braço quebrado, e Hozar fez o mesmo. Fogo envolveu novamente os punhos dos dois, e em meio a chamas vermelhas e douradas, os dois guerreiros dançaram a brutal dança da guerra.



Notas finais do capítulo

Primeiro Andar – O Mundo de Pedra

Ylessa VS Piromaníaco (Vencedora: Ylessa)
Bokuto VS Shiva (Vencedor: Bokuto)
Soulcairn VS Kong (Vencedor: Soulcairn)
Duke VS Bertold (Vencedor: Duke)
Breath, Denis, Zetsuko e Blair VS Alcatraz e Zumbis (Vencedores: Quarteto)
Jane VS Cleus (Vencedor: Cleus)
Syd VS Cleus (Vencedor: Cleus)
Bokuto VS Cleus (Luta Interrompida)
Bokuto e Syd VS Ibur (Vencedores: Bokuto e Syd)
Breath, Denis, Zetsuko, Blair, Syd, Coralina e Orochi VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)

Segundo Andar – O Labirinto Eterno

Maoh VS Zaniark e Byron (Vencedor: Maoh)
Kyanna VS Steelex (Vencedora: Kyanna)
Teigra VS Behemoth (Vencedora: Teigra)
Mefisto VS Zumbi de Zephyr (Vencedor: Mefisto)
Hozar VS Reivjak (Vencedor: Hozar)
Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Octo Gall)
Bryen VS Octo Gall (Vencedora: Bryen)
Goa VS Saber (Vencedora: Saber)
Anabeth VS Saber (Vencedora: Saber)
Cleus VS Saber (Em andamento)
Valery e Bryen VS Presas (Interrompida; Valery morta)
Senjur VS Presas (Vencedor: Presas)
Bryen e Enderthorn VS Presas (Vencedores: Bryen e Enderthorn)
Maoh, Enderthorn, Bokuto e Titânia VS Jiazz (Em Andamento)

Terceiro Andar – O Deserto de Ossos

Hozar VS Gunlamar (Luta Interrompida)
Trevor e Marco VS Gunlamar (Vencedores: Trevor e Marco)
Trevor e Marco VS Dokurei (Vencedor: Dokurei)
Ex, Cleus e Ylessa VS Dokurei (Vencedores: Ex, Cleus e Ylessa)
Ex, Cleus e Ylessa VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)
Soulcairn e Odin VS Jiazz (Fragmentada)
Soulcairn VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)
Odin VS Jiazz (Vencedor: Jiazz)

Quarto Andar – A Catedral

Hozar VS Tristah (Vencedor: Hozar)
Hozar, Duke, Bryen, Teigra, Kyanna e Anabeth VS Jiazz (Em andamento)

Quinto Andar – Elísio

Kastor, Ekhart e Shell VS Balak e o Anjo de Sangue (Fragmentada)
Kastor e Ekhart VS Balak (Fragmentada)
Shell VS Anjo de Sangue (Vencedor: Shell)
Ekhart VS Balak (Vencedor: Balak)
Kastor VS Balak (Em andamento)

Primeiro Andar Subterrâneo – Terra das Bestas

Odin, Soulcairn, Gwynevere e Ezequiel VS Hashmaul (Vencedores: Odin e Soulcairn)

Segundo Andar Subterrâneo – Terras Úmidas

Titânia, Vaen, Chappa e Dayun VS Retalhador (Vencedora: Titânia – Vaen e Chappa mortos, Dayun inconsciente)



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