O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 101
Paladino Celeste




Terceiro Andar do Pandemonium, “O Deserto de Ossos”

 

A PATA DE GUNLAMAR CAIU CONTRA ELE COM TODO O SEU PESO, e por mais que soubesse que não tinha solo firme sob os seus pés, Trevor firmou a melhor base que pôde, ergueu os braços, e se preparou para o impacto.

Tal como havia pensado, suportar um golpe como aquele não era nada fácil quando não tinha uma base sólida em que se sustentar. Tinha força mais do que o suficiente para competir com Gunlamar, mas o solo arenoso lhe atrapalhava, forçando-o a fazer um esforço bem maior para aguentar aquele golpe. Mas isso não significava que não podia suportar aquilo. Não era fácil, mas Trevor fez o seu melhor e ficou firme onde estava, suportando todo o peso e a força do dragão da melhor forma possível.

E nem mesmo todo aquele esforço foi o suficiente para lhe silenciar.

GUNLAMAR! — O grito de Trevor pareceu explodir do seu peito, alto o bastante para ressoar por todo o terceiro andar. – O que você pensa que está fazendo?! Por que você está aqui?! Por que você está lutando pelo Olho Vermelho?! Isso não é a sua cara!

Disse aquilo, mas não esperava uma resposta para isso, e não teve. Gunlamar apenas rugiu novamente, como se suas palavras o irritassem, e colocou ainda mais força sobre a sua pata na tentativa de finalmente esmagar Trevor. A pressão extra fez com que as coisas ficassem ainda mais difíceis, mas isso não durou muito. Enquanto Gunlamar estava focado em atacar o Luz Brutal, Marco tinha caminho livre para fazer o que bem entendesse, e permitir isso era um erro grave do qual qualquer um ia se arrepender. Com o tempo que ele teve, Marco conseguiu saltar alto, pairando no céu acima de todos – bem acima até mesmo do grande Gunlamar. E então, uma vez no ar, ele desceu. Ele fez seu caminho de volta para baixo em altíssima velocidade, girando como uma grande serra, o que fazia com que seus movimentos parecessem ainda mais brutais e perigosos, algo que se confirmou quando ele acertou Gunlamar no que deveria ser a nuca do dragão com ambos os seus bastões.

Graças a força e velocidade concentradas por trás daquele golpe, a cabeça de Gunlamar foi jogada direto contra o chão sem que o dragão tivesse sequer a chance de tentar resistir. A pata dele deixou de tentar esmagar Trevor para escorregar para o lado, e ao invés dela o que passou a cobrir a visão de Trevor foi a cabeça do dragão, caindo em alta velocidade em sua direção.

                Ver aquilo fez com que um pequeno sorriso surgisse no rosto do Luz Brutal. Então Marco fez a sua parte, não é? Bom, creio que isso significa que eu devo fazer a minha. Em geral, o pensamento de ter que lutar contra alguém que considerava um amigo daquela forma era algo que Trevor odiava, mas aquela era uma situação especial. Se a minha teoria está correta, Gunlamar não está fazendo isso por vontade própria. Considerando que ele é um dragão – e um dos fortes – e considerando também que o líder do Olho Vermelho é um mago e alguém claramente inescrupuloso, não é difícil chegar a conclusão que ele deve ter usado alguma magia para controlar a mente dele ou coisa do tipo.

Tinha certeza que, se perguntasse a um mago, ele lhe diria que existem várias formas de lidar com alguém que está sob controle mental. Algumas magias, alguns rituais, talvez até algumas poções ou bênçãos divinas. Mas não tinha um mago disponível, e Trevor era bem leigo nesses assuntos, e de qualquer forma, ele já conhecia uma forma excelente de lidar com um problema como esse.

A melhor forma de quebrar o controle mental sobre alguém, pensou ele, estalando o punho, é chutando a bunda dessa pessoa até que ela saia dele!

Ficou firme enquanto o dragão caia, esperando até o momento em que ele estivesse perto o suficiente para que pudesse desferir seu golpe com efeito máximo, e foi então que atacou. Seu punho subiu como que impulsionado por um foguete, acertando o dragão no que deveria ser seu queixo com toda a força, gerando uma onda de impacto que causou uma deslocação de ar tão grande que toda a areia ao redor deles foi erguida aos céus. Por um momento o mundo pareceu congelado na imagem que os dois representaram – por apenas um momento – antes que Gunlamar fosse jogado aos céus em alta velocidade, avançando ao ponto de se tornar rapidamente pouco mais do que um ponto em meio a paisagem clara do céu limpo que o terceiro andar tinha.

— Heh... isso é o que eu chamo de um “Dragão Ascendente” – gracejou Trevor para si mesmo, não conseguindo conter uma pequena risadinha da sua piada infame. Não demorou muito para que Marco aterrissasse, sério como sempre, e fizesse calmamente seu caminho em direção ao seu líder.

— Você tem certeza de que deveria estar agindo tão despreocupado assim? – Perguntou ele, olhando para o sorriso de Trevor e a postura relaxada que o mercenário havia assumido depois de lançar seu oponente aos ares. – Ele não vai ser derrotado por algo assim. É uma questão de momentos para que ele volte contra nós, provavelmente raivoso.

— Eu sei. De certa forma, é isso que faz com que eu esteja tão satisfeito – respondeu Trevor, mantendo seus olhos no céu. Marco ergueu uma sobrancelha ao ouvir aquilo.

— Pensei que você não gostava de lutar seriamente contra amigos – disse ele, sem disfarçar a sua confusão.

— Não pensou errado. Eu realmente não gosto – afirmou Trevor, acenando rapidamente com a cabeça – mas esse caso é diferente. Lutar contra Gunlamar vai lhe ajudar, no fim das contas. Se ele estiver sendo controlado por alguma coisa, chutar a bunda dele com força o suficiente deve quebrar o controle. Se não estiver, nós ao menos iremos apenas deixa-lo inconsciente, o que significa que ele escapará de um possível destino pior, como morrer nas mãos de algum cavaleiro. Além do mais, por mais que eu não seja nenhum viciado em lutas ou coisa do tipo, devo assumir que o guerreiro em mim aprecia uma boa luta e um bom desafio de tempos em tempos. Gunlamar é um oponente que eu já enfrentei uma vez, e eu me lembro do quão difícil foi a luta naquela época. Enfrentar ele de novo... de certa forma, isso é excitante!

Marco continuou a encará-lo por algum tempo depois de ter dito isso, sempre com aquele olhar confuso e incrédulo no rosto, antes de finalmente parecer se dar por vencido e simplesmente se afastar enquanto balançava a cabeça e dava de ombros, como se estivesse dizendo que não se importava mais. Ele não compreende o que eu quero dizer, mas tudo bem. Sendo completamente franco, o próprio Trevor não compreendia completamente o porquê de estar tão satisfeito. As razões que havia dito eram parte do motivo, lógico, mas não eram tudo. De alguma forma, por algum motivo, ele sentia-se um pouco estranho. Não de uma forma negativa, mas de uma forma positiva. Sentia-se.… esperançoso? Confiante? Entusiasmado? Não sabia realmente descrever. Só sabia que se sentia empolgado, como se aquele dia estivesse marcando uma nova fase na sua vida. Como se esse dia marcasse um momento na sua história a partir do qual as coisas fossem mudar para melhor de novo e de novo. Hoje, pensou o mercenário, cruzando seus braços a frente do peito, é um bom dia.

E foi então que Gunlamar desceu.

“Desceu” por que ele não estava simplesmente caindo. Não sabia se isso havia sido feito enquanto ele estava sendo jogado para cima ou se foi algo que ele fez enquanto estava em queda livre, mas o fato é que o dragão havia aberto as suas asas e agora estava usando a força com a qual podia batê-las para se impulsionar com toda velocidade contra Trevor e Marco. Sua boca estava aberta, mostrando seus dentes gigantes e afiados, e pela forma como ele grunhia e rosnava, o mercenário apostaria que ele não estava necessariamente satisfeito com o que havia acontecido. Marco começou a se colocar em posição de luta ao ver o seu avanço, dobrando as pernas e se preparando para saltar, mas Trevor tinha outros planos.

— Calma, Marco. Relaxe um pouco. – Disse ele, gesticulando com uma mão para que seu braço-direito abandonasse a sua postura de luta. Esse pedido fez com que Marco se voltasse para ele quase que imediatamente, erguendo novamente uma de suas sobrancelhas em pura incredulidade, mas dessa vez essa incredulidade não durou muito. Quando ele voltou seu rosto em direção a ele, o que viu foi que Trevor havia cravado sua espada no chão a sua frente e agora se ocupava em esticar um braço com a ajuda do outro e estalar o pescoço enquanto observava o avanço do seu oponente. – Tem uma técnica na qual eu tenho trabalhado já há algum tempo, e recentemente ela ficou pronta. Mas ainda não cheguei a testá-la em uma batalha de verdade, sabe? Acho que essa pode ser a ocasião perfeita para ver exatamente o que ela pode fazer.

Pela expressão no rosto do seu amigo, se atrevia a dizer que ele mesmo assim não entendia exatamente o que ele queria dizer, mas não se preocupou com isso. Você logo vai entender tudo, meu amigo. Fechou seus olhos e respirou fundo, limpando sua mente de tudo afim de se focar completamente no que ia fazer.

                Sua magia se chamava “luz sólida”, sendo capaz de – como o nome sugeria – atribuir características sólidas a luz pura, fazendo com que ela se tornasse palpável e permitindo que a usasse em batalha. Sua Aloeiris era uma habilidade que por muito tempo havia permanecido oculta para ele, ao ponto de ter achado por muitos anos que era um Ignorante, mas recentemente ele havia despertado os seus poderes, e agora já havia se acostumado com ele. “Santidade” lhe permitia revestir seu corpo e tudo que estivesse diretamente relacionado a ele com atributos santos e bênçãos, o que fazia com que ele pudesse se tornar muito mais forte, rápido e durão em uma batalha, bem como também lhe concedia uma certa habilidade regenerativa – nada tão absurdo como a que Kastor havia demonstrado, mas o suficiente para que ele pudesse se curar da maioria dos ferimentos ainda durante uma batalha se tivesse uma brecha.

Antes, quando ainda contava com apenas a sua magia, Trevor estava trabalhando em uma técnica especial – algo que, caso bem-sucedido, iria lhe tornar muito mais forte e lhe conceder uma grande vantagem nas lutas. Havia encontrado um limite de até onde podia chegar contando apenas com a sua magia, no entanto, e por um tempo esse limite foi como uma parede... até que despertasse sua Aloeiris, e com ela, conseguisse quebra-lo.

Com a ajuda de sua Aloeiris, ele havia conseguido criar a técnica suprema.

Luz sólida começou a envolver seus pés e mãos como botas e guantes, peças de uma armadura maior que foi aos poucos se formando. Ao contrário da armadura de ferro leve que usava, a armadura de luz sólida que estava criando era o que seria classificado como “armadura pesada”, sendo formada por placas grossas que eram unificadas umas com as outras como um único conjunto, envolvendo cada pedaço do seu corpo e fazendo com que sua armadura fosse uma peça única. Dos pés ao pescoço, a luz havia lhe coberto na forma de um metal branquíssimo, imaculado, deixando apenas a sua cabeça descoberta, e mesmo isso não durou muito. Assim que a parte principal da armadura foi concluída, Trevor não hesitou em levar suas mãos a sua cabeça e usar sua magia para concentrar luz sólida ao redor de seus dedos. Por mais que a maioria dos guerreiros sejam um pouco vaidosos e decidam por não usar elmos para manterem seus rostos a vista, ninguém pode negar os quão úteis eles são. Um golpe na cabeça é praticamente fatal se você não tiver algum tipo de proteção. Normalmente não usava elmos já que eles limitavam a sua visão, mas já que estaria usando uma armadura pesada, decidiu fazer uma exceção a essa regra. Moldou o seu a mão para que ele se adequasse perfeitamente a sua cabeça, fazendo-o se unir em uma peça ao resto da armadura de forma a proteger também completamente o seu pescoço, e depois passou um dedo pela frente dele para criar o seu visor, um único feixe pelo qual podia ver adiante.

Gunlamar ainda estava vindo em sua direção enquanto fazia tudo aquilo, mas não se apressou por causa disso. Primeiro testou a sua armadura, movendo um pouco o seu corpo apenas para ver a quão pesada ela era e o quanto ela limitava seus movimentos, e depois que se deu por satisfeito com o resultado, Trevor se permitiu sorrir e seguir em frente com seus planos. A partir das costas de sua armadura ele fez com que a luz se solidificasse em uma espécie de extensão da armadura em si, algo que inicialmente não parecia ter uma forma fixa, até que ficasse claro o que isso era. Tal como havia sido feito com todas as outras partes da armadura, as Asas de Luz foram anexadas de forma a serem uma única peça junto com o conjunto da armadura, mas ao contrário das outras, elas não pareceram nem um pouco serem feitas de metal. Toda a parte que parecia feita de metal em meio a elas era um esqueleto, uma estrutura que servia apenas como base para as suas verdadeiras asas, que não eram feitas por penas nem nada similar, mas por feixes de luz sólida que se movimentavam maleavelmente como se tivessem vida própria, tremulando ao redor de Trevor como se fossem chamas, exalando um calor e um brilho e uma simples aura quase que angelical sobre o guerreiro, fazendo com que ele parecesse mais um Anjo do que qualquer tipo de guerreiro humano. Elas se estendiam por pelo menos três metros de comprimento, para a direita e para a esquerda, o suficiente para que pudessem envolver o corpo de Trevor se ele assim desejasse, mas essa não era à vontade dele.

Ergueu sua cabeça e olhou através do visor para ver que Gunlamar já estava bem próximo a essa altura, avançando em sua direção com tamanha velocidade que parecia que o ar deslocado pelo seu movimento estava quase pegando fogo, como se ele fosse um grande meteoro que caia contra a terra. Tão perto assim, hein? ... Bom, não importa. Isso vai acabar em breve. Com sua mão direita ele segurou o cabo da sua espada, e no momento em que tocou ela, uma onda de luz correu pela lâmina, revestindo-a em luz sólida e fazendo com que ela brilhasse como se fosse uma espada feita de pura energia santa. Era, afinal de contas, esse o segredo por trás daquilo. Misturando sua magia com sua Aloeiris – a Luz com a Santidade – Trevor havia conseguido criar aquela armadura, a sua mais poderosa técnica.

Paladino Celestial— Anunciou ele, brandindo sua espada de forma casual... e gerando com esse simples movimento uma onda de choque que criou uma grande fenda pelo deserto, algo que quase poderia passar por uma espécie de desfiladeiro, não fosse a forma perfeita demais que tinha graças a espada. Havia usado sua Aloeiris na sua magia para ampliar os seus poderes mágicos e conseguir criar, manter e fortalecer a sua armadura, mas como ele estava usando a armadura as bênçãos colocadas sobre ela também refletiam em seu corpo, o que fazia com que sua força, velocidade e resistência naturais fossem muito maiores. E isso deixando de lado o fato de que essa espada também está abençoada, o que significa que o poder dela está maior, e a luz que a cerca, que também está abençoada, já aumenta o seu poder de ataque consideravelmente. Aquela era uma combinação de poder em cima de poder que fazia com que Trevor se tornasse incomparavelmente forte perto da sua forma normal, e era por isso que tinha tanta confiança naquela técnica.

Dobrou suas pernas e respirou fundo por uma última vez. Eu tenho que tomar cuidado. Fraco demais e não vai funcionar. Forte demais e eu posso acabar matando ou mutilando Gunlamar. Tinha que achar o equilíbrio perfeito de poder a dedicar por trás de seu ataque, a quantia exata para que pudesse alcançar o seu objetivo sem causar danos acidentais. Fazer isso de uma vez não é fácil. Inferno, isso é de certa forma mais complicado do que derrota-lo normalmente. Mas estou confiante de que sou capaz. Eu posso fazer isso.

— Aqui vou eu, Gunlamar. – Disse calmamente Trevor, e tão breve as palavras deixaram os seus lábios, ele saltou.

Seu salto exerceu uma pressão tão grande sobre o solo que ele criou uma profunda cratera que mais parecia um buraco gigante para o qual a areia começou a escorrer, mas não deu atenção a isso. Seus olhos estavam completamente fixos em Gunlamar enquanto ele ascendia pelos seus. Sua espada estava deixando uma trilha de luz por onde ele passava, e segurou-a com ambas as mãos em meio ar para dar mais firmeza e precisão aos seus movimentos. Não demorou para que Gunlamar lançasse seu primeiro ataque contra ele: aparentemente, mesmo com a visível transformação pela qual Trevor havia passado, o dragão não tinha medo algum de o atacar de frente. Isso é mais um sinal de que ele está sendo controlado, pensou Trevor enquanto avançava. Gunlamar não é nenhum covarde, mas ele tão pouco é um idiota. Ele não lança um ataque frontal contra um oponente que ele não conhece ou que claramente se fortaleceu de alguma forma. Esse é o erro mais estúpido que alguém pode cometer em uma batalha.

Gunlamar havia atacado lançando as garras do que deveria ser um de seus “braços” contra Trevor, e embora o ataque tenha sido bem rápido – principalmente considerando a massa e dimensão do dragão – ele era lento como uma lesma para os sentidos aprimorados de Trevor. Suas asas podiam ser feitas de feixes de luz, mas elas eram tão ou mais efetivas do que as asas de uma ave normal, e com elas Trevor não teve dificuldade alguma em evitar o golpe, alterando sua posição enquanto voava o suficiente para que a garra passasse bem longe dele, bem como se aproveitando do golpe descuidado para fazer seu caminho por um ponto aberto; a frente do corpo do dragão.

Passou voando bem diante da cabeça de Gunlamar, e viu os olhos do dragão fixos nele por todo o trajeto com uma intensidade que sugeria que ele podia derreter a qualquer momento. Você não me reconhece, Gunlamar? Apesar de já estar preparado e conformado com o fato de que teria de derrotar Gunlamar para tirá-lo de qualquer controle mental que estivesse o manipulando, em seu interior ele ainda tinha a esperança de que o dragão iria se lembrar dele se o visse bem. Pela forma como a cabeça dele disparou para frente e ele tentou abocanha-lo, teve a certeza de que estava sendo inocente demais em pensar assim. Então é isso, não é? .... Bem, apenas espere um pouco, Gunlamar. Isso deve doer, mas eu vou te tirar desse controle. Isso é uma promessa!

Determinado, Trevor intensificou ainda mais a luz das suas asas, fazendo com que elas lhe impulsionassem com ainda mais força, e manobrando no ar ele conseguiu se levar para perto do peito de Gunlamar. Perfurou o dragão assim que teve certeza de que sua espada não ia atingir nenhum órgão vital, e graças à velocidade do seu voo e à força dos seus braços, a sua espada deslizou livremente pelo peito do dragão, cortando-o como um açougueiro corta um peito de frango, fazendo com que o sangue fluísse para o ar. Seu corte cruzou com a cicatriz que o dragão tinha no abdômen e continuou além, só parando quando ele chegou no começo da cauda dele, e isso porque Trevor quis assim. Se afastou um pouco de Gunlamar e olhou para ele enquanto caia, deixando para trás a sua trilha vermelha que quase que se misturava a própria trilha de luz que o avanço de Trevor havia deixado. Vamos ver.… será que isso vai ser o suficiente? Esse corte vai dar um fim a essa luta?

Teve a resposta para essa pergunta rapidamente, pois não demorou muito depois do seu ataque para que os olhos de Gunlamar – que haviam se fechado quando ele havia atingido seu golpe – se abrissem subitamente de uma vez, e ainda enquanto caia o dragão bateu suas asas, manobrou seu corpo e tornou a avançar contra Trevor, rugindo com todas as suas forças de forma quase que ensurdecedora, mostrando seus dentes de forma ameaçadora para o seu oponente.

Apenas observou estoicamente o avanço dele por algum tempo. Então, não foi o suficiente, não é? Muito bem, isso complica um pouco as coisas. Agora que ele já havia sofrido um corte como aquele, era simplesmente arriscado demais tentar cortar Gunlamar de novo. Seria muito fácil que ele morresse, se não devido a choque ou danos diretos, por perda de sangue. Eu preciso colocá-lo no chão de forma um pouco menos... perigosa. Com esse pensamento em mente, não hesitou em erguer sua espada e arremessa-la ao chão com força. A lâmina passou rente ao rosto do dragão, criando um pequeno corte superficial que sangrou nele, mas avançou além disso e cravou-se firmemente no chão, e isso era o que Trevor queria. Se esticou depois disso, estalando seus músculos e batendo seus punhos um no outro com força.

— Já que te cortar seria perigoso demais agora, eu vou simplesmente chutar a sua bunda – afirmou Trevor, assumindo uma posição de batalha enquanto no ar, encarando seu oponente enquanto ele avançava. – Venha, Gunlamar!

E ele veio. Parecia que ele já estava se esticando ao máximo para tentar alcançar Trevor o mais rápido possível, mas Gunlamar ainda conseguiu lhe surpreender quando sua cabeça subitamente pareceu disparar para frente em uma mordida que só não abocanhou o guerreiro pela agilidade que sua armadura havia lhe concedido. Mas o quê... uma ilusão? Ele usou alguma ilusão em algum momento para fazer com que seu rosto parecesse mais distante ou coisa do tipo? Havia assumido que conseguia identificar qualquer ilusão de Gunlamar a esse ponto, mas talvez tivesse subestimado o dragão ao fazer isso. Bom, de qualquer forma, isso não muda o que eu tenho de fazer! Com aquele ataque o dragão havia ficado próximo o suficiente para que Trevor pudesse o atacar, e foi exatamente isso que ele fez; investiu impulsionado por suas asas, movendo-se tão rápido que era como se estivesse cortando o próprio ar, e acertou um soco em cheio na lateral do rosto de Gunlamar.

Se alguém visse de longe, aquilo pareceria cômico. Era como uma mosca batendo em um elefante. Mas era exatamente o que estava acontecendo. A força do golpe de Trevor deformou o rosto de Gunlamar por um momento, empurrando-o o dragão vários metros para o lado em meio ar antes que ele pudesse se recuperar, e quando conseguiu fazer isso, os olhos de Gunlamar brilharam em vermelho de uma forma tão intensa que ficou óbvio que ele estava simplesmente puto com aquilo. Uma de suas patas dianteiras desceu contra Trevor com força, como se ele fosse um homem tentando estapear uma mosca, e isso foi simplesmente perfeito para o cavaleiro.

Firmar uma base em meio ar não era algo fácil, mas com suas asas lhe impulsionando, também não era algo invisível. Com propulsão o suficiente, Trevor conseguiu se manter no ar tão firmemente como se estivesse pisando em rocha sólida, e isso permitiu que ele bloqueasse o golpe de Gunlamar sem sair do lugar. A pata do dragão devia pesar toneladas e Trevor estava em meio ar, mas todo esse peso não significou absolutamente nada para ele, e facilmente o guerreiro não só bloqueou o golpe do dragão como também segurou uma das garras dele, e isso era exatamente o que ele queria.

Apoiou a garra no seu ombro, virou-se e puxou o dragão com tudo. Estavam no ar e ele não tinha se firmado como Trevor, mas dado o seu tamanho e massa, até mesmo com a armadura o guerreiro teve alguma dificuldade em fazer aquilo, mas no fim das contas, ele conseguiu. O corpo do dragão foi erguido cada vez mais, atingindo o seu ápice quando ele estava reto bem acima da cabeça de Trevor, e como que para compensar a dificuldade que teve em o erguer, levá-lo para baixo foi infinitamente mais simples. Com a sua força e o auxílio da gravidade, Trevor arremessou Gunlamar do ar ao chão em uma fração de segundos, criando um impacto tão poderoso que todo o Pandemonium o sentiu. Das Terras Úmidas ao Elísio, todas as lutas foram interrompidas por um único momento por um tremor súbito, mas só os que estavam no Terceiro Andar sabiam o que era isso.

O dragão berrou de dor em um urro estrondoso com o seu impacto, suas patas se remexendo involuntariamente em meio ar graças a dor inumana que ele sentiu com o impacto. Quanto maiores eles são, maior a queda. Esse era um ditado popular bem verdadeiro. Cair era algo muito pior para criaturas gigantes como um dragão do que para alguém como um homem. Mas por mais que ele esteja dolorido no momento, isso ainda não é o suficiente. Podia ver nos olhos de Gunlamar que ele ainda estava sobre o controle do Olho Vermelho, e até que esse controle não fosse quebrado, a missão de Trevor ainda não havia chegado ao fim.

                Virou seu corpo no ar de forma que sua cabeça estivesse apontando para Gunlamar. Graças ao arremesso do dragão ele estava atualmente de costas no chão, deixando seu peito – a parte mais levemente protegida do corpo de um dragão – completamente exposta a golpes, e isso era algo do qual Trevor planejava se aproveitar. Bateu suas asas de luz com força e disparou a toda velocidade contra o dragão, jogando um de seus punhos para trás e preparando-se para o golpe final. Os olhos de Gunlamar viram o seu avanço e se arregalaram quase que imediatamente, mas ele não teve tempo o suficiente para tentar reagir. Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa Trevor o acertou bem no meio do peito com todas as forças, em um único soco que foi como se um Deus estivesse golpeando o dragão com seu martelo. A onda de choque do golpe fez com que a areia se movesse como se fosse água, fez com que Gunlamar vomitasse sangue no ar e fez com que a cabeça do dragão finalmente caísse completamente no chão, sinalizando a sua derrota.

Saltando de cima do peito de Gunlamar para a areia do deserto, Trevor fez questão de manter a armadura em seu corpo a todo momento. Não imaginava que o dragão fosse se reerguer depois de um golpe como aquele, mas também não estava disposto a correr riscos desnecessários. Nem bem os seus pés tocaram o chão e Marco se manifestou ao lado dele, surgindo do nada como se estivesse sempre ali. Não sabia se isso significava que seu amigo era tão rápido que não conseguia acompanhar os movimentos dele mesmo com a sua armadura, ou se Marco era simplesmente muito bom em se esgueirar por aí.

                – Muito bem, eu vou morder a isca – disse ele, olhando para a armadura de Trevor de braços cruzados enquanto ainda segurava seus bastões em suas mãos – o que exatamente é isso?

                – Uma armadura – respondeu Trevor simplesmente, fazendo com que seu companheiro erguesse uma sobrancelha para ele. Sabia muito bem que essa era uma resposta porca, mas ela não deixava de ser verdade, e tinham coisas mais urgentes das quais tratar no momento. Virou seu rosto em direção ao de Gunlamar e falou abertamente, sabendo que não teria de erguer muito o tom de voz para que o dragão lhe ouvisse. – Ei, Gunlamar! Você está acordado?!

... O Anjo Branco veio e esmagou a serpente alada contra as cinzas das civilizações, transformou seus ossos em pó e fez com que ela se tingisse de vermelho, mas ainda assim ela vê o sol, e crê com a sua alma que ainda não mergulhará na terrível escuridão eterna.— Aquele modo de falar era bem característico, e associado daquele tom de voz, não restavam dúvidas de quem estava falando. Por baixo de seu elmo, Trevor sorriu. – Luz Brutal... recordo-me da sua força e da última vez em que dançamos a dança violenta, mas isso só faz com que meu susto seja ainda maior. Para um humano, sua evolução é estrondosa. Se tivesse nascido uma formiga, você não seria soldado, mas avançaria direto ao posto de capitão.

— Cara, eu nunca pensei que ficaria tão feliz em ouvir a sua voz e a sua forma peculiar de falar, Gunlamar. – Levou uma de suas mãos ao seu elmo, e com um toque suave ele fez com que esse se desfizesse em fiapos de luz que escorreram para dentro da sua armadura. Virou seu rosto na direção para qual havia direcionado Hozar antes, e tal como imaginava, pôde ver a longa escadaria que levava ao quarto andar ao longe, uma estrutura completamente isolada no meio do deserto. – Heh, pelo visto você já desfez as suas ilusões, não é.

Se o Senhor das Areias não deseja por isso, não há o porquê das miragens existirem. Se uma existe, isso é apenas porque o Senhor decidiu que ela deve enganar alguém — afirmou Gunlamar, de uma forma que podia ser resumida como “não quero mais fazer isso”. O corpo gigante do dragão começou a se virar, mas um gemido de dor veio dele e seus movimentos cessaram de imediato. – Grr... um homem descalço teria mais facilidade em correr por um palácio de vidro quebrado do que em mover esse corpo sem que os gritos de um porco no abate engolissem o mundo. Mesmo os que você conhece o nome e o rosto não recebem piedade em suas mãos, Guerreiro da Brisa?

— Ei, eu tinha que chutar a sua bunda com força para te tirar do controle mental, não me culpe. – Verdade seja dita, estava bem certo de que provavelmente tinham outras formas de acabar com aquele controle mental, mas elas não estavam tão acessíveis naquele momento e não havia pensado em nenhuma melhor que pudesse fazer com o que tinha em mãos, então era melhor simplesmente ignorar essas outras possibilidades. – De qualquer forma, isso me lembra... como isso tudo aconteceu, Gunlamar? Como você veio parar aqui, pra começo de conversa?

                – Ah, as razões. Elas estão escondidas no fim do confuso labirinto interno de cada um de nós, um labirinto pelo qual já é difícil se deslocar em situações normais, e cujo nevoeiro atual apenas faz torna-lo ainda mais enigmático. As razões são difíceis de achar nesse labirinto, e o mesmo vale para os detalhes..., mas ainda é possível que um recorde certos detalhes, imagens emolduradas de tal forma que esquecê-las seria quase um pecado. Imagens que mostram a aproximação do Homem de Branco e Vermelho e que revelam a força estrondosa que um pode exibir em um instante. Magos... magos são considerados perigosos na sociedade dos bípedes, não são, Senhor da Energia? Sim, são. E como não? Tanto poder na ponta dos dedos... um ser como eu, que também tem acesso às forças místicas do nosso mundo, não pode se declarar inocente..., mas mesmo um tão desenvolvido e habilidoso quanto o que vós fala nunca foi capaz de imaginar o poder que testemunhou. Nada, nem ninguém, deveria ter essa força. O controle dela pelas mãos do Espectro dos Caçadores é apenas uma prova do perigo que seu nome representa. Balak Hauss, o Tecelão do Tempo. Balak Hauss, dos Olhos Vermelhos. Balak Hauss, o Caçador de Demônios. Balak Hauss... o Mago Que Não Deveria Existir.

                Levou uma mão ao seu queixo ao ouvir aquilo. Apesar de já estar acostumado a lidar com Gunlamar há algum tempo, a forma peculiar que o dragão tinha de falar era bem confusa, o que o forçava a ter de parar um pouco para decifrar o que ele dizia de tempos em tempos. Se eu estou entendendo bem, o que ele está dizendo é basicamente que ele não consegue se lembrar bem do que aconteceu, mas que ele consegue se lembrar de Balak e da força dele. Pela forma como ele havia falado disso, também, podia supor que a força de Balak deveria ser algo extraordinário..., mas francamente, não estava completamente certo disso. Gunlamar não é fraco e eu não duvido da sua honestidade, mas isso... isso me parece um pouco exagerado. No Colégio Branco haviam Seis Tecelões, seis magos de altíssimo nível que eram considerados como reis pelos outros, muito mais poderosos do que magos normais. Balak Hauss, o Tecelão do Tempo. Ex Glace, o Tecelão Branco. Calcium Alkaline, o Tecelão dos Ossos. Ignis Flamburg, a Tecelã das Chamas. Zeto Markhart, o Tecelão da Vida. E o Yorgan Buzzsaw, “O Grande Panda”, o Tecelão do Mundo. Os Seis Tecelões. Dentre os seis, era dito que Balak era o mais fraco em poder mágico em si. Ele não havia conquistado a sua posição por ser capaz de colocar uma força particular por trás de suas magias ou coisa do tipo, mas pelo fato de ser um gênio, tendo maestria sobre praticamente todas as formas de magia já vistas no mundo e tendo criado um novo estilo de magia completamente novo e muito poderoso, a Magia do Tempo. Então, se os rumores estão falando a verdade, Balak não deveria ter um poder mágico grande o bastante para assustar Gunlamar dessa forma. A única explicação que consigo imaginar para isso seria de que alguma outra pessoa atacou Gunlamar usando a aparência de Balak por algum motivo... ou que os magos do Colégio são muito, muito mais fortes do que qualquer um de nós imagina.

Sacudiu sua cabeça para afastar esses pensamentos da sua mente. Não, não, não devo me focar em coisas assim. Não tenho tempo para me distrair com esse tipo de coisa! A essa altura Hozar já devia ter alcançado as escadas, e havia prometido ao cavaleiro que estaria logo atrás dele. Considerando que ele é o penúltimo andar, o quarto andar deve ter uma defesa bem reforçada. O Olho Vermelho deve ter deixado os seus soldados mais poderosos tomando conta dele. Não podia deixar que Hozar enfrentasse essas pessoas sozinho, não quando podia fazer tanta diferença. Mas ainda resta uma coisa que devo fazer antes de ir pra lá, não é?

— Ei, Gunlamar, o que você planeja fazer agora? – Questionou Trevor, virando-se em direção ao dragão para ver qual era a sua resposta. – Eu não sei como você deve sair daqui, na verdade eu não tenho nem ideia de como te colocaram aqui em primeiro lugar, mas se você quiser escapar, a hora é agora. Não vejo inimigos por perto e os andares inferiores já devem ter sido limpos pelos meus aliados a essa altura; você não terá chance melhor.

.... Fugir? Você sugere que a fera enjaulada corra para a floresta quando abrem sua gaiola? Ingênuo da sua parte... muito ingênuo, Filho da Luz! — Todo o corpo de Gunlamar se remexeu violentamente, algo que arrancou alguns gemidos de dor do dragão, mas ele foi rápido em silencia-los de forma teimosa, transformando-os em rugido furioso. – A vingança irá cair sobre aqueles de pupilas vermelhas quando as asas sombrias do filho de Ninhelm passarem sobre as suas cabeças, semeando o medo em seus corações com grãos vermelhos que consumirão e destruíram tudo em seu caminho, como malditas ervas daninhas criadas do medo e do terror que será espalhado! Seus corpos se prostraram de joelhos ao chão, murmurando preces por misericórdia e piedade, mas ouvidos surdos deixaram de as ouvir e a destruição será completa e arrasadora! Gargantas irão gritar por socorro até que os pulmões estourem em seus peitos, mas ninguém poderá lhes ajudar, pois o Terror Negro estará lá, e eles compreenderão tarde demais que nunca deveriam ter provocado o dragão negro, Gunlam-

Ele não teve tempo de terminar aquela frase. Um sorriso ia se abrindo nos lábios de Trevor enquanto ele ouvia o discurso de Gunlamar, sentindo-se alegre pela empolgação e determinação do seu amigo, mas esse sorriso desapareceu num instante quando uma espécie de gosma escarlate veio do mais absoluto nada, acertando Gunlamar em cheio sem que ele pudesse fazer qualquer coisa com força o suficiente para lança-lo alguns metros no ar, criando uma boa distância dele para Trevor enquanto ao mesmo tempo deixava um rastro em meio a areia. Os gritos de dor vieram imediatamente após a gosma o atingir, e embora Trevor tenha assumido inicialmente que isso devia ser fruto do impacto, logo viu que a situação era muito pior. Olhando para Gunlamar, ele conseguia ver fumaça subindo do corpo do dragão, e mesmo a distância ele via que aquela gosma estranha era aparentemente extremamente corrosiva, pois ela estava derretendo o corpo de Gunlamar naquele mesmo instante. As escamas do dragão negro pareciam lhe dar alguma defesa quanto àquilo, mas isso não era nem de longe o suficiente para o impedir de sentir dor.

GUNLAMAR! — O grito escapou de sua garganta antes que se desse conta, e Trevor tentou de imediato ir ajudar o dragão, sendo detido apenas pela rapidez de Marco em lhe segurar. Podia jogar seu amigo para trás facilmente, mas aquela gosma vermelha ainda estava por perto, e o medo de acabar fazendo com que ele caísse nela fez com que Trevor se limitasse a gritar. – ME SOLTA, MARCO! EU TENHO QUE AJUDAR O GUNLAMAR!

— A não ser que você esteja achando que derreter também pode ajudar de alguma forma, você não vai conseguir fazer nada, moleque. – A voz que falou aquilo soava arrogante, carregada de um tom de zombaria selvagem que fez com que Trevor lembrasse imediatamente da risada de uma hiena, embora ela ao mesmo tempo soasse grave demais para passar por algo assim. Virou-se na direção dela, e o que viu avançando em sua direção foi um homem de cabelos castanhos-avermelhados penteados para trás, longos e um tanto quanto espetados, fazendo com que ele lembrasse de alguma forma um ouriço ou coisa similar. Ele usava botas grossas de couro e pelo, um uniforme digno de militares com patentes que haviam sido claramente arrancadas e um casaco longo e grosso carmesim com detalhes em prata, aberto na frente e com gola levantada. Um dos olhos faltava àquele homem, mas isso só fazia com que o sorriso que ele tinha nos lábios parecesse ainda mais feroz, e em uma de suas mãos ele trazia uma gosma escarlate similar à que havia acertado Gunlamar, uma que envolvia tudo até o seu cotovelo, mas por algum motivo não parecia causar dano algum a ele. – Esse é o meu veneno, e ele vai continuar derretendo esse dragãozinho por quanto tempo eu quiser.

                Dokurei... Reconheceu de imediato aquele homem. Como não reconhecer? Ele era uma das maiores ameaças que enfrentavam do lado do Olho Vermelho, e a fuga dele da prisão havia sido noticiada em todos os jornais de Fredora, acompanhada por fotos dele. Dokurei Deux, o Demônio Escarlate. Pelo que os rumores diziam, ele era alguém que havia conseguido desafiar todo o reino de Fredora sozinho, alguém que tinha poder o suficiente nos próprios braços para se opor aos exércitos de todos os duques e governadores e a todos os mercenários que o ouro deles podia contratar. Aparentemente ele só foi preso devido a traição de uma das vilas que pela qual ele lutava, e considerando as notícias que eu andei lendo, parece que teve a sua vingança dela. Aquilo era péssimo. Pelo que tudo dizia, o poder de Dokurei devia ser no mínimo comparável ao de indivíduos como os líderes do Salão Cinzento ou os Tecelões do Colégio Branco. Mesmo com o Paladino Celestial, derrotar um opoente como ele parecia uma tarefa extraordinária..., Mas eu não posso simplesmente deixar o Gunlamar assim também!

                – Ei, Dokurei! – Gritou Trevor, fazendo com que o sorriso do homem-veneno se fechasse e com que sua atenção se voltasse completamente para ele. – Gunlamar já não está em condições de lutar! Pare com isso!

— Tá, beleza. – A resposta foi tão simples e veio tão rápida que Trevor nem pôde acreditar nela quando ouviu, mas ela também havia sido surpreendentemente honesta. Os gritos de dor perderam intensidade em questão de instantes, e quando virou seu rosto de novo para Gunlamar ele não viu mais fumaça alguma, nem qualquer indicação de que ele ainda pudesse estar derretendo. Voltou seu rosto de novo para Dokurei, e foi recebido com um sorrisinho arrogante do guerreiro. – Ei, ei, por que essa cara de surpreso? Só porquê eu estive na cadeia não quer dizer que eu sou um psicopata, sabe? Nunca tive a intenção de matar esse dragão, mas também não posso simplesmente deixar que ele se volte contra os outros, principalmente considerando que ele e esse andar em geral estão sobre a minha responsabilidade. Derreter ele um pouco para que ele fique paradinho aí já me parece bom o suficiente.

— Você está falando sério? – Aparentemente Trevor não era o único que tinha dificuldades em engolir aquela história. Marco estava próximo a ele, e ele também estava olhando para Dokurei com uma expressão incrédula. – Você realmente não pensou em tomar alguma vantagem disso? Considerando que já ficou óbvio que ao menos ele – disse, apontando para Trevor – se importa com o dragão, era de se esperar que você ao menos tentasse usá-lo como uma espécie de refém.

— Oh ho ho ho ho ho ho! Ah, isso seria um belo dum jogo sujo, não concordam? – Ele se agachou de forma despreocupada ao dizer aquilo, enfiando sua mão limpa na areia e mexendo nela como se buscasse alguma coisa. Não entendeu aonde ele queria chegar com aquilo, mas então ele tirou uma haste flexível com ponta de algodão de lá (“como raios ele achou isso?”, iria se perguntar Trevor depois) e começou a limpar a orelha com ela de forma bem relaxada enquanto falava. – Sabem, garotos, deixem-me lhes ensinar uma coisa. Na política vale tudo. Na culinária? Vale tudo. Na economia? Vale tudo. Na cama? Vale tudo, desde que esse tudo mantenha qualquer merda com aparência fálica bem longe da sua porta traseira. Agora, numa luta? Numa luta não. Numa luta você tem que se ater a algumas certas cortesias, pequenas coisinhas que vão certificar de que, embora você possa ser um filho-da-puta-miserável-de-merda, você não será o maior dos filhos-da-puta-miseráveis-de-merda. Em outras palavras, eu não luto sujo. O que, sim, eu sei que é bem irônico vindo de um cara que literalmente luta usando veneno, mas ei, vai te foder. Desde que meus oponentes não me irritem demais, eu sigo a cortesia de lhes dar a chance de me derrotar em uma luta limpa.

Mal podia acreditar no que estava ouvindo. Esse... esse cara está realmente falando sério? Isso não é algum tipo de piada elaborada ou coisa do tipo, ele realmente quer dizer o que ele diz? Quando Gunlamar havia sido atingido pela gosma e havia visto que era ele o responsável por aquilo, Trevor havia ficado furioso. Essa fúria permaneceu mesmo quando ele compreendeu quem ele era, mas aí ela foi temperada por um certo temor e cautela. Mas agora, depois do que havia acontecido e diante do que ele havia acabado de fazer... ele se sentia simpatizando um pouco com o homem. Em menos de um minuto de conversa, Dokurei havia conseguido acabar com toda a vontade de enfrenta-lo que Trevor tinha até então.

— Ei, ei, por que você está relaxando a sua postura? Não vá me dizer que já está se esquecendo da situação na qual se encontra! – A censura de Dokurei lhe arrancou de seus pensamentos, fazendo com que seu olhar desperto fosse prontamente para o guerreiro, permitindo-lhe ver o sorrisinho que ele tinha no rosto mesmo enquanto tornava a se erguer. – Não entenda mal as coisas, moleque da luz. Eu não sou um maldito psicopata, mas eu também não sou seu amiguinho. E a minha missão aqui vai diretamente contra a sua. – Um líquido viscoso vermelho surgiu ao redor de ambas as mãos de Dokurei, envolvendo-as em um veneno extremamente corrosivo; algumas gotas gordas dele pingaram no chão, e até mesmo a areia foi derretida por ele. – Não se enganem, panacas. Eu mostrei misericórdia ao dragão. Não farei o mesmo com vocês.





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