A Garota Dos Defeitos escrita por Tamires Rodrigues


Capítulo 7
O bilhete


Notas iniciais do capítulo

Estão achando meu capítulos muito curtos ? >



Gabriel Wolf

— Você está bem mesmo de morarmos aqui? -meu pai perguntou olhando ao redor da nossa sala ainda cheia de caixas da mudança.

— Estou – respondi procurando por uma roupa limpa.

— Eu andei vendo alguns apartamentos se você...

— Não – interrompi . _ Voltar aqui me lembra dela, mas isso não é mais tão ruim.

Peguei uma camiseta xadrez da pilha do sofá, e cheirei – ela não estava suja, e tampouco cheirando mal.

— Estamos aqui há quase três semanas e você ainda nem montou sua cama.

Dei de ombros.

— O sofá é confortável.

Nós dois sabíamos que não era verdade, mas ele não me pressionou mais sobre isso.

— Suzanne é uma garota realmente bonita, não acha? –ele mudou de assunto.

— Sim, você já disse isso.

Ele repetiu a mesma coisa diversas vezes desde que saímos do jantar.

— Então você concorda? Ela é o tipo de garota que namoraria?

 – Ela é uma garota, – comecei irônico - e assim como as outras vai querer me mudar e...

— Tem certeza? – meu pai cobriu a boca falhando em conter um riso _ porque em certos momentos em que eu achei que ela fosse pular no seu pescoço.

Sorri de volta.

— Faz parte do meu charme – comentei com uma piscadela.

 _ Você é uma merdinha convencido – ele disse rindo - sua mãe te mataria se visse no que se tornou.

Juntei-me a ele no sofá.

— Não pai, ela me faria chocolate-quente e me chamaria pra conversar, seria você que iria por de castigo. 

— Traste ingrato – murmurou fingindo desgosto.  - Trata de tirar a bunda do meu sofá ainda hoje.

Levantei do sofá e peguei as chaves da harley de cima da mesa de centro. Meu pai estava certo quando disse que eu não lembrava da cidade, eu precisava mudar isso.

Voltar para a cidade não chega nem perto o que eu achei que seria. Eu ainda lembro o dia em que cheguei mais cedo da escola e vi o caminhão de mudança do lado de fora da casa.

— Vamos passar uma temporada na casa de campo do sua avó – meu pai disse – pegue só o essencial.

Foi o primeiro sentimento próximo à felicidade que eu tive depois do acidente. Meu pai sabia que cada centímetro da casa me lembrava dela, e me fazia sentir culpado. Eu mal tinha 14 anos e já achava que podia lutar contra o mundo.

A partir daí, ficamos mudando feitos dois nômades, ele queria que eu me juntasse a uma panelinha de gente que eu nunca ia ser , eu não me encaixava , arrumava brigas por tudo – muitas vezes voltava quebrado na madrugada.

A um par de semanas atrás meu pai perguntou se eu sentia falta da cidade - eu podia dizer pelo olhar nostálgico no rosto dele que ele sentia então dei a resposta que ele queria.

Sim.

E quando ele me perguntou se eu pensava em voltar apenas repeti a resposta - e em parte era verdade. Esse foi onde eu cresci, a maior parte das minhas lembranças está aqui.

Eu não sabia o que esperava ao voltar, mas com certeza não achei que fosse encontrar uma garota de boca petulante de olhos marrons. Um desafio interessante.

Eu nunca desisti de um desafio.

Não achei que fosse esbarrar com ela novamente, mas Deus tem um humor de merda. Meu pai encontrou um amigo em uma ferragem e quando ele descobriu que a maior parte dos nossos moveis estavam ou desmontados ou em caixas e que meu pai e eu estávamos vivendo a base de pizza e água nos arrastou para um maldito jantar. Ouvi as coisas que ele contou sobre as filhas durante quase 1 hora sem saber de quem se tratava realmente.

Katherina a filha mais velha de 25 anos que mudou de cidade por causa da faculdade e que continua distante por um estágio em grande escritório de advocacia, aluna dedicada e esforçada na faculdade. E Suzanne. Ele não usou o nome dela, sempre dizia o apelido Sukes. Que tipo de merda é Sukes? , eu me lembro de pensar.

Sukes gosta de livros e essas merdas – Fernando disse fazendo careta. Ela é apegada demais na mãe e na avó, mas nada supera a amizade com a irmã. Mexer com uma é mexer com outra as duas são teimosas como o diabo... É uma garota sensível Deus sabe que se magoa por tudo... Vai apanhar muito do mundo. E então eu a encontro dormindo agarrada em um livro no sofá da sala de estar.

Ainda dou risada ao lembrar o que Fernando, disse ao me ver olhando para ela :

“Mantenha suas bolas dentro das calças rapaz”

Eu engasguei e meu velho quase rachou de tanto rir.

Apesar de ter saído da cidade a anos, eu ainda a conhecia como a palma da minha mão, ao contrário do que meu pai acha. Passei pela minha antiga escola, pelo parque em que eu aprendi a andar de bicicleta e me perguntei como uma coisa podia mudar tanto e continuar igual. Andei por diversas ruas, sem ir ao lugar em que realmente queria.

***

— Gabriel?

—Perguntei se vai cozinhar ou se eu ligo para um delivery .

— Eu cozinho – respondi me levantando.

Ele deixou soltar um suspiro de alívio.

Não aguentar mais comer a mesma comida de fast food barata com gosto de papel, foi um dos motivos que me fez começar a cozinhar.

— Você sabe que não vai poder ficar em casa por mais tempo – meu pai disse vindo atrás de mim.

— E por quê? – perguntei temperando a carne moída.

— Por que já perdeu tempo demais. Eu não vou deixar você perder mais um ano na escola.

Outra vez a mesma conversa.

— Eu entendi quando você disse isso da primeira vez. Não precisa repetir – falei levando a panela ao fogo.

— Verdade? Três semanas Gabriel e você nem se preocupou em saber em que escola vai estudar.

— Na que tiver vaga, o ano letivo já começou. Talvez não tenha notado-observei com sarcasmo.

— Eu quero recomeçar – ele disse suspirando. - De verdade sem ligações no meio da noite me dizendo que você foi parar no hospital por brigar. Você precisa arrumar novos amigos. Eu não quero que você volte para casa tatuado – ele disse apontando para o meu pulso .

Isso me irritou. Eu não queria discutir com ele, mas se continuássemos falando sobre o maldito “recomeço” outra vez , era exatamente isso que iria acontecer .

— Você sabe o que a tatuagem significa– me surpreendi com o fato da minha voz estar controlada, já que eu queria esmurrar alguém. –O que é difícil de entender? Eu disse que iria tentar e estou tentando, mas não me peça para ser como um desses merda filhos de papai.

— Não foi isso que eu disse.

Enrolei meus lábios para cima em um meio sorriso amargo.

— Mas é isso que você quer.

— Você já tem 18 anos Gabriel eu não devia ter que me preocupar com você brigando como um moleque de rua.

— E o que você quer que eu faça? –retorqui abrindo a geladeira e pegando uma massa de lasanha.

— Só... Arrume novos amigos.

— Quem, por exemplo? A maior parte dos vizinhos que eu conhecia nem morar mais aqui.

Isso o fez pensar, e de imediato eu sabia que não queria ouvir uma resposta.

— Suzanne.

Esfreguei os olhos, balançando a cabeça.

— Você mesmo disse que ela me odeia.

— Mostre quem você é de verdade. E eu tenho certeza que vocês vão se tornar bons amigos quem sabe até mais.

Meus lábios formaram um sorriso completo, perdendo um pouco do mau humor exposto neles.

— Quando essa conversa se tornou um livro do Nicholas Sparks? O que vem depois perseguir o por – do – sol? E por que no inferno tudo sempre volta a ela?

Quando acabei de fazer o jantar eu não estava com fome e tampouco com vontade de conversar. Depois de ir por quarto, peguei o violão e me sentei na minha cama recém-montada. Eu deixei o violão para trás quando saímos da cidade, foi uma das primeiras coisas que eu deixei para trás, faziam anos que eu não tocava mas assim que meus dedos tocaram as cordas eu soube exatamente o que queria tocar.

 A favorita da minha mãe.

 



Notas finais do capítulo

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