Razão Ou Amor? escrita por Alison Adams


Capítulo 2
Capítulo 1 - De volta às raízes


Notas iniciais do capítulo

Aqui está o primeiro capítulo!! Espero que gostem e espero reviews ;)




Dali conseguia ouvir o som de alguns aviões a descolarem. Também via várias pessoas à pressa para embarcarem por já terem feito a última chamada, tal como os risos de famílias que passavam e regressavam de férias. Eu pertencera a uma família assim há muito tempo atrás, o qual me parecia agora uma realidade alternativa e um pouco enevoada, o que impedia de me lembrar dela e de a considerar uma memória.

Reparei no rosto do meu pai e embora este não demonstrasse qualquer sinal de tristeza ou de qualquer outro sentimento, eu sabia que lhe estava a custar muito esta separação. Antes de eu entrar no avião ele abraçou-me e apertou-me com força nos seus braços. Eu até acho que nos seus olhos haviam lágrimas a tentar escapar. Apesar de elas simbolizarem a dor que ele sentia devido à nossa despedida, eu estava feliz porque era a primeira vez desde a morte da minha mãe, há três anos, que ele demonstrava qualquer sentimento ou emoção.

E de algum modo eu fora afetada. Resistia a demonstrar os meus sentimentos e cumpria tudo o que me pedia. Nunca desobedecera e sempre fora a menina perfeita que não se metia em confusões. Apenas não queria que ele me continuasse a afastar como fizera até agora.

– Eu vou ficar bem – disse-lhe, tentando o acalmar e dando-lhe um beijo na cara.

Os seus olhos castanhos estavam marcados por umas grandes olheiras das noites mal dormidas e o seu cabelo castanho estava um pouco despenteado. Ele era alto e tinha ficado muito magro, tal como eu. Ele andava sempre de fato e gravata, tal como hoje.

Como ele não me disse nada, comecei a andar em direção à porta de embarque. Ele não resistiu e correu atrás de mim. Antes de eu entrar, deu-me um beijo na cara e disse-me ao ouvido algo que ele não me dizia há três anos:

– Eu gosto muito de ti, filhinha.

– Eu também, pai – retorqui.

E fui-me embora, sem olhar para trás com medo de que, se o fizesse, perdesse a coragem para partir. Mas a verdade é que eu precisava de me afastar. Já não conseguia olhar para o meu pai e ver o sofrimento a corroê-lo por dentro. Eu perdera a força para encarar aquele sofrimento que ele trazia sempre nos olhos e que me trespassava cada vez que eu o via. A morte da minha mãe mudara-o. Ele afastara-se de mim.

Eu agora teria a oportunidade de recomeçar novamente a minha vida e aproveitá-la-ia.

* * *

Quando o avião aterrou o aeroporto estava cheio de gente. Apesar de ter estado os últimos três anos fora ainda me lembrava muito bem da língua e conseguia entender as placas, as pessoas e a voz dos altifalantes quando era necessário.

Após pegar na minha mala dirigi-me para a saída, onde vi um senhor com um cartaz onde estava escrito: “Helena Vieira de Andrade”. As suas feições continuavam as mesmas apesar de parecer um pouco mais velho desde a última vez que o vira. Os seus cabelos loiros e os seus olhos azuis eram ligeiramente mais escuros do que os da minha mãe. Ele era alto e para uma pessoa com o seu estatuto vestia-se como uma pessoa da classe média. De calças de ganga e uma camisa com os primeiros botões desabotoados.

Ele ficou a olhar para mim e sorriu. Eu sabia que ele me iria reconhecer apesar de eu estar numa idade em que mudava muito e rapidamente.

Ele cumprimentou-me com dois beijos e disse:

– És tal e qual como a tua mãe. Tive saudades.

– Eu também, tio. E a tia? – perguntei.

– Ela teve uns assuntos para tratar nos restaurantes.

Após a morte dos meus avós, a minha mãe ficou com metade dos hotéis e o meu tio com a outra. Os meus tios fundaram uma cadeia de restaurante com reconhecimento internacional após venderem a parte do meu tio dos hotéis aos meus pais.

– E o Martim? Há tanto tempo que não o vejo – disse eu lembrando-me do meu priminho que completara há pouco tempo cinco anos.

– Está um reguila! – disse ele rindo e pegou nas minhas malas, começando a dirigir-se para o carro – Sai ao pai. Deixa é a mãe louca.

Ri-me. Senti tanto a falta dele. Ele sempre fora como que um pilar para a minha mãe. A boa disposição do meu tio era contagiante, e há muito tempo que os meus dias eram cheios de indiferença e de frieza, por parte das pessoas à minha volta. Foi nessa altura que eu me comecei a afastar e a fechar-me.

– E a tua prima Clara tornou-se uma adolescente tão bonita. Essa já é mais calminha no entanto acho que ela tem um namorado.

Chegámos ao seu carro. Era um jipe grande e preto da BMW com a pintura ainda brilhante devido ao facto de este ter sido adquirido à cerca de um ano segundo a matricula.

Após o meu tio pôr as malas no porta-bagagem, eu sentei-me no banco da frente ao seu lado. Liguei o rádio baixinho na Cidade FM para poder ao mesmo tempo conversar com ele. A viagem foi marcada pelo riso e pelo seu bom humor. Ele sempre fora um homem muito divertido e atencioso mas, como não o via há tanto tempo, acabara por o esquecer.

Ao chegarmos à sua casa reparei que esta tinha quatro quartos, um escritório, a sala, a sala de jantar, a cozinha, a dispensa e cinco casas de banho, sendo quatro delas privadas por pertencerem aos quartos.

Apesar de não ser tão grande quanto a minha em Londres, os seus tons eram suaves e a mobília moderna estava disposta numa posição que dava uma sensação de harmonia e leveza a quem quer que fosse que entrasse. O que a tornava mais acolhedora no meu ponto de vista. Acho que a preferia à minha. Mas o que mais me surpreendeu foi o ligeiro cheiro a rosas que povoava o ar, fazia-me lembrar o cheiro da minha mãe.

– Provavelmente não é tão grande, nem tão confortável como a tua, mas temos todo o prazer em te receber – disse o meu tio.

Eu sorri e disse:

– Eu vou desfazer as malas. Onde é o meu quarto?

Após ele mo indicar, subi as escadas e fui para lá. Enquanto guardava as coisas no roupeiro a minha tia entrou.

– Há quanto tempo – disse ela abraçando-me.

– Então, está tudo a correr bem nos restaurantes? – perguntei-lhe.

– Sim – disse ela e depois mudou de tom – Helena, eu sei que tu passaste por uma experiência traumática e sei que foi muito complicado para ti lidar com tudo o que te aconteceu… enfim, eu só quero que tu saibas que nós estamos aqui.

– Isso já aconteceu há muito tempo, tia. Eu estou bem, a sério – respondi-lhe e, mais uma vez, forcei o sorriso como o fazia há anos.

Ela sorriu e saiu do quarto dizendo que me ia preparar o lanche. Eu sabia que, tal como os outros, a tinha convencido de que estava bem. Eu não me sentia culpada por lhe ter mentido. Ela não tinha nada haver com o meu passado. Ela não conseguia perceber o inferno pelo qual eu passara.

Eu ainda me lembrava dela no seu caixão. A sua face branca, fria e imóvel... esta era a última imagem que eu tinha antes de me deitar todas as noites. E nada nem ninguém poderia apagar essa imagem da minha cabeça, nem o pânico que eu sentira quando me informaram da sua morte

Fui à casa de banho e fiquei a olhar para a imagem refletida no espelho. Era tal e qual como eu: cabelos loiros ondulados e compridos que me chegavam até ao fim das costelas. Uns olhos azuis claros com grandes olheiras e que escondiam o grande sofrimento que me atormentava. Os meus lábios bem definidos e um pouco grossos impediam-me de gritar devido ao desespero que sentia. Eu não era alta como o meu pai, apenas lhe chegava aos ombros, no entanto estava deveras magra porque, desde aquele trágico acontecimento, que eu não conseguir comer quase nada.

Ouvi a porta da rua a abrir e desci as escadas por suspeitar que eram os meus primos. E acertei.

O Martim receou a minha presença por já não se lembrar de mim.

– Então, Martim? – disse a tia – Não te lembras da tua prima? Ela veio passar uns tempos connosco. Chama-se Helena.

No entanto, o menino correu para os braços do pai para meu grande alívio. Nunca lidara muito bem com crianças. Eram tão pequenas e frágeis. O seu cabelo loiro como o do pai enfeitava-lhe o rosto que possuía uns belos olhos verdes escuros da mãe.

A minha tia era baixa e tinha o cabelo castanho alourado e os olhos verdes escuro. A minha prima Clara era um pouco mais alta que eu, longos cabelos castanhos alourados, como os da mãe, provavelmente devido ao sol, olhos verdes e magra. Reparei que ela, para uma rapariga de estatuto, era como o pai: vestia-se de uma forma relaxada e como se não pertencesse àquela classe.

Entre todos havia uma certa cumplicidade. Eu nunca me tinha apercebido que era aquilo que eu ambicionava, mas também o que eu tinha mais receio. A minha vida era simples: ser racional. Não me interessa se as pessoas me acham fria e até um pouco assustadora pela forma como me expressava. Eu era assim e não ia mudar.



Notas finais do capítulo

Não se esqueçam das reviews! E como viram este capítulo já foi maior que o anterior :)



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