As Cem Melhores Historias Da Mitologia escrita por Allan


Capítulo 27
O Tonel das Danaides




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Belo, rei do Egito, tinha dois filhos: Egito e Danao. Cada qual teve cinqüenta filhos. O

primeiro, cinqüenta rapazes, e o segundo, cinqüenta moças. Ora, os cinqüenta filhos de Egito não

se entendiam jamais com as cinqüenta filhas de Danao. Em conseqüência, uma guerra civil

estourou, lançando uns contra os outros. Após ferozes combates, os filhos de Egito expulsaram

do país Danao e suas cinqüenta filhas, obrigando-os a procurar refúgio no reino vizinho de

Argos. Felizmente, o rei de Argos, Celanor, recebeu os exilados com toda a generosidade, dandolhes

casa, comida e proteção.

Em reconhecimento, Danao e suas cinqüenta filhas expulsaram-no do trono.

A conspiração começou com um ataque promovido por um lobo contra o rebanho do rei

Celanor. A fera, confiante em sua força, abatera o touro que chefiava o rebanho, tomando conta

do restante dos animais. Vendo nisto um pretexto. Danao decidiu comprar os vaticínios de um

sacerdote influente para que convencesse a corte inteira de que isto era o sinal evidente de uma

profecia divina. O sacerdote, diante do povo, explicou então o significado profético do fato:

— O sentido deste acontecimento é evidente e irrefutável — disse. — Significa que uma

nova autoridade está prestes a assumir o comando do nosso reino.

— Ai daqueles que se recusarem a se submeter a esta autoridade! — disse Danao, que por

conta própria já se proclamara o novo rei.

O povo, assustado, reconheceu imediatamente o novo rei, enforcando em seguida o

anterior, numa emocionante cerimônia em praça pública. No reino vizinho, entretanto, a notícia

chegara ligeiro.

— Poderoso rei Egito! — disse o mensageiro, que trazia a notícia. — Seu irmão, Danao,

agora é o novo rei de Argos!

Temendo que isso pudesse lhe trazer complicações futuras, Egito resolveu prevenir-se,

chamando os seus cinqüenta filhos:

— Rapazes, quero que vocês se casem o mais rápido possível com as filhas de Danao! —

disse o rei, sem admitir recusas. — Danao agora é rei de um país mais rico e poderoso do que o

nosso e precisamos fazer esta aliança com ele.

Egito, na verdade, tinha razão em tentar comprar a amizade de seu irmão. Danao só

esperava uma ocasião para pôr em prática a sua vingança. Alguns dias depois, um mensageiro de

Egito chegou à corte de Danao, trazendo os cinqüenta convites de casamento. O rei, após

dispensá-lo, chamou as suas filhas.

— Minhas adoráveis filhas! — disse -, quero que vocês aceitem o pedido de casamento

dos cinqüenta filhos de Egito.

— O quê? Como poderíamos aceitar, se nos traíram de modo tão vil? -exclamaram as

cinqüenta moças, indignadas.

— Calma, minhas filhas! — disse Danao, tentando explicar-se. — Depois da cerimônia

nupcial, vocês terão o prazer de vingar-se deles todos, matando-os durante a sua primeira noite

de amor — completou, com um sorriso.

— Ah, bom... — disseram, aliviadas.

O dia das núpcias chegou. Uma grande festa parou o reino inteiro. Durante a manhã, as

cinqüenta filhas de Danao receberam como maridos os cinqüenta filhos de Egito. Um banquete

faraônico deu prosseguimento às festividades, até que a noite caiu.

— Agora é preciso que os casais partam para os deliciosos jogos de Vênus! — decretou o

rei de Argos, dando a bênção aos recém-casados.

Os casais instalaram-se às margens do belo lago de Lerne, em alvas e espaçosas barracas.

De tal forma estava o local protegido da curiosidade do povo, que apenas as estrelas teriam o

privilégio de escutar as conversas dos amantes. Dentro de cada ampla barraca, cada uma das

filhas de Danao já se despia, revelando aos olhos do respectivo marido as suas formas perfeitas.

Sob os travesseiros, porém, repousavam cinqüenta afiados punhais de prata.

Embriagados pela visão de suas cinturas finas e aveludadas, os esposos também

começaram a se despir. Antes, porém, que pudessem acalmar o fogo de seus desejos, foram

todos apunhalados pelas mulheres, sem dó nem piedade. O sangue espirrou por tudo,

respingando até nas estrelas, ornando algumas delas de um halo vermelho.

Depois de consumado o crime, as filhas de Danao arrancaram as cabeças dos maridos,

lançando os corpos nas águas do lago, que se tingiu inteiro de vermelho.

Uma delas, no entanto, recusara-se a assassinar o homem com quem recém casara.

— Meu adorado! Amo você e por isto me vejo obrigada a desobedecer a meu próprio pai

— exclamou, jogando longe a adaga e caindo nos braços do esposo.

Era Hipermnestra, a única que fez correr naquela noite o seu sangue virginal.

No dia seguinte, todas as filhas de Danao, menos Hipermnestra, apresentaram-se diante

do rei empunhando as cabeças de seus cônjuges. Ele exultou ao ver concretizada, finalmente, a

sua vingança. Porém, revoltado com Hipermnestra. que faltara com sua palavra, atirou-a num

calabouço. Já o marido dela, Linceu. fugiu às pressas para o país vizinho.

No entanto, as danaides, como eram chamadas as filhas de Danao, ficaram outra vez sem

maridos.

"Precisamos dar um jeito nisso", pensou o pai das quarenta e nove virgens. Para tanto,

decidiu organizar um grande torneio, no qual os vencedores receberiam as mãos de suas filhas em

casamento.

— Uma corrida de quadrigas! — sugeriu Danao às moças.

— Oba! — exultaram elas, felizes na expectativa de terem uma nova distração. Na

verdade, desde a divertida noite dos punhais as coisas andavam meio aborrecidas na corte.

No dia das corridas, apresentaram-se à corte centenas de concorrentes. As danaides

podiam estar certas, ao menos, de arrumar quarenta e nove esposos valentes e destemidos; afinal,

não era qualquer um que se dispunha a morrer num acidente de quadriga ou a ser apunhalado na

própria noite de núpcias.

Os carros já estavam dispostos na linha de partida. Num balcão, acomodavam-se o rei e

suas quarenta e nove virgens. Os competidores, em cima das quadrigas, tentavam conter os

cavalos, que escarvavam o chão, ansiosos para lançarem-se na pista. As danaides percorriam com

olhos ávidos os corpos nus de seus pretendentes — que estavam livres das vestes, para facilitar a

escolha das exigentes mulheres. Foi dada a partida. Uma onda de pó levantou-se à saída dos

competidores. Os de trás, sem nada enxergar, logo se embolaram, virando seus carros num

amontoado de cavalos, quadrigas e cabeças partidas. Um urro de prazer partiu das arquibancadas,

tomadas pela plebe. A pista, no entanto, era grande e circular; assim, enquanto os competidores

restantes faziam a volta, os mortos eram recolhidos e lançados num monturo.

— Eia, cavalos! — berravam os dianteiros, que, emparelhados, distribuíam chicotadas no

dorso dos cavalos e na cara dos adversários.

Os braços rijos e suados dos homens seguravam com firmeza as rédeas. Do alto da

cabeça descia-lhes um suor, que o vento secava rapidamente, mas que se renovava a cada novo

esforço que faziam. Os olhos das danaides faiscavam. Seus noventa e oito cotovelos cutucavamse

o tempo todo, a cada novo ângulo de observação que tinham dos corpos dos competidores.

— Aquele lá é meu! — exclamou uma delas, escolhendo o líder da corrida, que tinha os

membros lustrosos do óleo que passara por todo o corpo, antes da disputa.

Infelizmente para ela, o carro de seu eleito tombou numa curva, bem em frente à tribuna,

lançando-o ao chão como um marionete de madeira. Um grito de horror partiu das virgens,

enquanto o corpo do rapaz rodopiava velozmente pelo chão, parecendo um deus hindu de

duzentos braços e duzentas pernas. Em seguida, o carro que vinha atrás passou sobre o

concorrente, esmagando-lhe a cabeça.

A corrida chegava ao seu final. Os quarenta e nove primeiros competidores cruzaram a

linha de chegada, sob a ovação das moças e da ralé ajuntada nas arquibancadas. Cobertos de pó,

os pretendentes subiram os degraus da tribuna, indo ajoelhar-se diante das suas futuras esposas.

Depois de limpar com seus lenços o suor e o pó dos corpos dos vitoriosos, as danaides

depositaram sobre suas frontes douradas coroas de louro.

Enquanto isso, no reino vizinho, Linceu, o marido de Hipermnestra, reunira-se às forças

de Egito e invadira o país de Danao. O caos instalou-se.

Danao foi preso e morto. Hipermnestra, a danaide virtuosa, foi libertada de sua prisão

pelo esposo. O sangue correu pelas ruas da capital, até que Linceu, o vencedor daquela noite

fatídica, transformado em novo rei do país, viu chegada, enfim, a hora de vingar a morte de seus

quarenta e nove irmãos. Dirigiu-se com seus soldados até o palácio e ainda chegou a tempo de

capturar as virgens, enlouquecidas de medo. Todas as perversas danaides foram, então, passadas a

fio de espada, sem piedade. No mesmo dia, suas almas entraram no Hades sombrio; lá as

aguardava, impaciente, Minos, um dos juízes do inferno, que lhes decretou uma punição coletiva.

Carregadas de ferros, foram conduzidas até a beira de um imenso lago. Cada qual,

portando um pesado jarro de chumbo, foi obrigada a enchê-lo de água até as bordas e levá-lo até

a beira de um gigantesco tonel, despejando ali o conteúdo. E assim deveriam repetir a tarefa para

todo sempre, até encher o imenso tonel — que não tem fundo.


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