Colônia de férias para pais solteiros escrita por Mebe


Capítulo 2
A viagem




Uma semana depois

Sam

Só a Carly mesmo para me convencer a ir nessa tal colônia. Mil e uma coisas mais divertidas para fazer durante as férias de verão e eu vou logo para o meio de uma floresta com um bando de pais solteiros - tá, eu também sou mãe solteira, mas ninguém é perfeito. Além do mais, não teria como recusar. Afinal, todos os anos eu procrastino, falo que vou no próximo ano e nunca vou, porém desta vez até Leon veio insistir, dizendo que se eu fosse não seria necessário dá-lo presente no dia do seu aniversário, e como eu ando meio sem grana… Foi a oportunidade perfeita.

O que a Shay não me contou era que, para chegar a tal floresta, teríamos que viajar por quase seis horas dentro de um ônibus cheio de crianças mimadas e pais cafonas. Pensei que, por ser uma colônia para pais solteiros, esses pais seriam pessoas mais legais, mas pelo jeito estava errada. As mulheres mal haviam entrado no ônibus e conversavam sobre panos de prato - fala sério! - e os homens, para variar, falavam de futebol. Mereço.

—Sam, tire esses fones - Carly se incomodou com minha música.

—O quanto menos eu escutar essas conversas de dona de casa, melhor será para a minha saúde mental.

Tomei meus fones da sua mão e quase cheguei a colocá-los de volta, mas uma voz nada estranha soou.

Aquele mesmo cara de uma semana atrás entrou no ônibus com um trajezinho típico de riquinho engomado.

—Fala sério… - Murmurei.

—Bom dia, pessoal. É um enorme prazer ter todos vocês aqui mais um ano. Como vocês bem sabem, geralmente é minha mãe que vem aqui falar, mas desta vez ela foi na frente para garantir que tudo esteja certo quando cheguemos lá. Bom…

Carly e eu estávamos sentadas no primeiro banco, enquanto do outro lado do corredor estavam Leon e Mia que, assim como a grande maioria das crianças, dormiam - coisa que eu também gostaria de estar fazendo, afinal, são seis da matina ainda. Eu, porém, ainda não havia entendido o porquê de estarmos sentadas tão na frente, até que o engomadinho se sentou no apoio de braço do banco de Leon e anotou algumas coisas numa prancheta, voltando-se para Carly.

—Oi, Carls. Tudo bem?

“Oi, Carls”? O que eles eram? Ex-namorados? Crushes um do outro?

Acho que não evitei meu típico suspiro irônico, pois imediatamente senti dois pares de olhos em mim: um da Shay e o outro do engomadinho.

—Essa daqui é a Sam, minha amiga, mãe do Leon…

—Já nos conhecemos, Carly - falei, impaciente. Odiava quando a Shay me apresentava para as pessoas.

—Ah. É verdade.

—É…

O engomadinho murmurou e eu senti um desdém? Hum. Tanto faz. É recíproco.

Ele se levantou novamente, suspirando.

—Bom, pessoal. Vamos parar daqui a aproximadamente três horas e devemos chegar por volta de meio dia. Boa viagem a todos.

“Boa viagem a todos”. Aff. Parece até um senhor de oitenta anos. Revirei os olhos.

—Você pode se encarregar do pessoal por mim, Carls?

—Claro.

—Obrigado.

Antes de sair ele falou algo com o motorista, mas logo pulou para fora do ônibus. Olhei pela janela e o vi entrando num Maserati preto do outro lado da rua.

Ri com um escárnio que eu fiz questão de não esconder.

—Que foi? - Carly perguntou naquele típico tom doce dela.

—Eu não gosto desse cara.

—Por que não? Todos gostam dele. Ele é tão gente boa.

Voltei-me para a morena que soava apaixonada.

—Está afim dele, Carlotta?

—Claro que não! - Ela corou. - Você sabe que eu ando investindo no Griffin. Inclusive ontem à noite…

E blablablá. A partir daí eu parei de escutá-la.

Três horas depois

Geral

—Sua amiga não quis descer?

Enquanto se serviam com alguns petiscos no restaurante onde parara o ônibus, Freddie quis saber de Carly que estava logo à sua frente na fila para o caixa.

—Ela está dormindo e ela odeia quando eu a chamo, então prefiro deixá-la lá. Aliás…

Olhou ao redor e avistou Leon perto de alguns doces.

—Leon, querido. Vai lá ao ônibus chamar a sua mãe.

—Tá.

Viu o garotinho sair correndo e se voltou para Freddie.

—Ela também odeia quando eu não a acordo para as ocasiões que tem comida.

—Entendi.

—Ela é um pouco complicada.

—Percebi. Tivemos um pequeno desentendimento na semana passada.

—Ela me contou.

—Pois é.

Riram juntos sem saber bem do que.

—Papai, eu quero me sentar.

Violet, que tinha os braços cheios de guloseimas e estava ao lado do moreno, chamou-lhe a atenção.

—Procure uma mesa, filha.

Olhou Mia que estava junto à Carly.

—Chame a sua amiguinha.

Barrada um pouco pela timidez, Violet estendeu uma mão para Mia que aceitou de prontidão e ambas saíram rumo à parte do restaurante que estava abarrotada de mesas.

Carly riu da cena.

—Então sua mãe foi na frente?

—É, ela estava paranoica lá em casa e acabou indo anteontem para conferir tudo. Você sabe, ano passado foi uma confusão…

—É…

—Não tinha nada pronto quando chegamos e…

Freddie se calou quando avistou Sam vindo em sua direção mexendo no celular. Ao chegar diante dele, a loira ergueu o olhar e olhou dele para Carly.

—O que é isso daqui? Uma reuniãozinha?

—Eu não quis te acordar.

—Fez bem…

—Mamãe. Mamãe. Mamãe.

Leon puxava a blusa da loira, inquieto.

—Que foi, Leon?

—Posso ir até a Mia?

—Vai.

Sam murmurou em resposta, sem nem ao menos olhar o filho. Aquilo deixou Carly desgostosa.

—Você nem sequer olhou para onde ele está indo, Sam.

—Ele está indo para onde sua filha está - retrucou num tom de obviedade. - Dá licença - pediu a Freddie que estava em pé ao lado de uma pequena prateleira de Cheetos.

O moreno se afastou.

—Mas você nem sabe onde ela está - Carly insistiu.

—A sua filha sempre está num lugar seguro, Shay. Então eu não me preocupo.

Abriu o pacote de Cheetos e meteu uma boa quantidade na boca.

—Já volto. Vou pegar uma coca.

Então, despreocupada, Sam se afastou, deixando Carly e Freddie à sós novamente.

—Engraçado. Semana passada ela pareceu bem mais cuidadosa com o filho.

O moreno não se conteve ao comentar.

—É assim. Ela pode tratá-lo como quer, mas os outros não.

—Ah. Agora eu entendi a dinâmica. Muita gente é assim.

—Pois é.

—Sam.

—Hum?

—Não acha que está na hora de parar?

A loira, que tinha os olhos na tela do seu celular sobre a mesa, ergueu o olhar e encarou a amiga que apontava para a latinha de cerveja sobre a mesa.

—Não.

—Sam.

—Que foi? Foi você que perguntou.

—Sim, mas…

—Olha só, eu vou ali no banheiro e já volto.

Apanhou o celular e se levantou sob o olhar de Freddie que estava do outro lado da mesa.

—O ônibus já vai sair - o moreno disse.

—Ele espera.

—Acha que ele está em função de você?

—Eu paguei, né bebê?

—Sim, mas não foi a única.

A loira respirou fundo com ar de sarcasmo.

—Olha só, fique na sua. Está bem?

—Não posso. Minha mãe me encarregou de cuidar da viagem e eu não vou deixar que uma pessoa estrague todo o esquema.

—Ah é? É só me dar um espaço naquele seu Maserati que eu deixo de atrapalhar tudo. Porque é fácil ficar pagando de playboyzinho. Difícil é viajar naquele jegue de quatro rodas que nem ar-condicionado tem.

Freddie olhou Carly de relance e viu que a morena olhava em outra direção, mantendo-se fora da discussão.

—Então vai logo ao banheiro.

—Sabia que você ia entender, lindinho.

Sam se inclinou sobre a mesa e tocou a ponta do nariz do moreno que recuou a cabeça, embaraçado. Encaixou sua lata de cerveja entre as mãos de Freddie e se ergueu.

—Cuida da minha cerveja.

E assim ela saiu na direção do banheiro, obrigando Freddie olhá-la pelas costas.

Com Sam já longe, Carly tomou a cerveja da mão de Freddie e jogou-a no lixo.

—Mia. Leon. Vem. Vamos para o ônibus - chamou pelas crianças que estavam na mesa ao lado.

—Não vai esperar sua amiga?

—Ela se vira. E você também não precisa esperar. Se ela perguntar, diga que eu joguei a cerveja dela no lixo.

Carly, então, não deu tempo a Freddie para que ele se manifestasse. Saiu do restaurante, deixando o moreno confuso à mesa.

—Bom, pessoal, agora iremos direto para…

Freddie que falava para os pais dentro do ônibus se calou quando sentiu algo tocá-lo na parte direita da sua costela. Desceu o olhar e viu uma mão com unhas pretas. Virou-se e viu Sam com outra lata de cerveja.

—Dá licença? - Ela perguntou num tom de obviedade.

Contrariado, o moreno se afastou. Mas não podia negar que ficara com aquele toque marcado na pele.

Terminou de falar o que tinha para dizer e desceu do ônibus, metendo-se em seu Maserati com as intenções bagunçadas.

Duas horas e meia depois

Sam

Depois de um bom tempo numa estrada de terra esburacada para cacete - o que fez com que ficássemos quicando dentro do ônibus - chegamos à uma puta casa.

—Caralho. É aqui? - Perguntei à Carly que desafivelava o cinto.

—Não te falei que era legal?

—Legal, eu não sei. Mas que é um casarão, isso é.

Saquei meu celular do bolso e procurei por sinal.

—Merda!

—Que foi? - Carly me questionou.

—Não tem sinal no meio desse mato.

—Ah. Esqueci de te falar. Aqui os celulares pegam muito mal.

A Shay se levantou, despreocupada. Gostaria de ter a tranquilidade dela.

—Leon. Acorda - falei.

Também gostaria de ter o sono de Leon. Mas nada é perfeito.

—Pessoal, não se esqueçam de pegar seus crachás comigo.

Olhei para a porta do ônibus e lá estava o engomadinho com um dos braços cheios de crachás. O que éramos? Crianças? Tá. Metade do ônibus era, mas eu não.

—Te espero lá fora, Carly. Já que você tem muita coisa para tirar daí.

Falei vendo a morena tirando dezenas de bolsas do maleiro acima dos bancos.

—Vai gostar de carregar tanta coisa assim lá na puta que pariu - resmunguei, ajudando Leon com o seu casaco.

Logo desci do ônibus e encontrei o tal Freddie à porta.

—Nome - ele falou sem me olhar.

—Branca de Neve.

Ri com ironia e ele ergueu a cabeça.

—Ah. É você.

—Não, sou a Branca de Neve.

—Tá mais para bruxa.

Vi-o rir e fechei o meu sorriso, desafiando-o com as sobrancelhas.

—Você quer que eu te diga quem você é?

—Tenta.

—Um sapo.

—Pelo menos o sapo quando é beijado se torna um príncipe.

—No seu caso nem beijo resolve. Você precisa é de um engenheiro para consertar esta arquitetura da sua cara.

Ele riu de novo.

Arght!

—Aqui está o seu crachá, Sam.

—Samantha para você. Sam é só para os íntimos, coisa que você está bem longe de ser.

Peguei o crachá da sua mão e saí caminhando com Leon, mas não antes de escutar a perguntinha indecente daquele estrupício em pé ao lado do ônibus.

—Será?

Ri. Quem ele pensa que é?

Carly

De dentro do ônibus eu vi tudo, absolutamente tudo, e não teve como não rir. Sam e suas investidas.

Quando, finalmente, estávamos no quarto, resolvi abordá-la, aproveitando que Leon e Mia não estavam.

—Eu vi tudo, loira.

Ela, que estava jogada sobre a cama comendo o resto do Cheetos que comprara mais cedo, me olhou com os dedos amarelados por causa do corante.

—Viu o quê?

—Você e o Freddie.

—Eu e quem?

—Não se faça de boba. Eu vi vocês dois se provocando.

Sam riu e eu conhecia aquele sorriso. Se eu a conheço bem, ela vai negar até o último instante.

—Você está vendo coisas, Carlotta.

—Será?

—Com certeza.

—Não dou três dias.

—Não dá três dias para quê?

—Para ver você de beijinhos com ele.

Imitei-a beijando e recebi um travesseiro no rosto.

Gargalhei.

—Eu te conheço, Puckett. E sei muito bem quando você está a fim de alguém.

—Tá louca, Shay? Desde quando eu tenho um gosto tão ruim assim? Acha mesmo que eu vou gastar minhas energias com aquele pedaço de…

Ela parou de falar imediatamente, como se estivesse prestes a dizer algo que não devia.

—Pedaço de quê? – Incentivei-a a falar, com um sorriso no rosto.

—Nada.

—Pedaço de que, Puckett? Você não ia ofendê-lo?

—Claro que ia.

—Então o que você ia dizer?

—Pedaço de bosta.

—"Pedaço de bosta". Aham, sei.

Ela poderia enganar a qualquer um, mas não a mim.

—E não sei porque você está aí me crucificando se é você que parece gostar dele.

—Eu?!

—Você mesma, senhorita Shay.

Sam se levantou da cama e caminhou até uma pequena lixeira no canto do quarto.

—Quando ele fala com você, você fica toda derretidinha.

—Eu? Derretida? Eu sou assim com todo mundo e você bem sabe. Além do mais, ele é educado e eu…

—Educado é um eufemismo para dizer que ele é…

Novamente ela parou de falar, freando as palavras.

Sorri cruzando os braços.

—Ele é o quê? - Provoquei.

—Nada…

—Você anda freando demais as palavras, loira. Isso é um sinal de hesitação?

—Gostoso. Eu ia falar gostoso.

Gargalhei alto e ela continuou séria.

—Então você admite?

—Eu não admito nada, Shay. Eu apenas disse que você dizer que ele é educado é um eufemismo para dizer que ele é gostoso. É o que você acha, não eu.

—Aham. Três dias, Puckett. Três dias.

Vi-a sorrir um pequeno sorriso.

—Eu sou muita areia para o caminhãozinho dele, Shay. O que você acha? Que um Maserati e um Rolex no pulso é o suficiente para aguentar a mamãe aqui? Claro que não. Ele precisaria se esforçar muito mais.

—Humildade mandou lembranças - brinquei.

Ela sempre muito presunçosa, mas só por agora. Eu a conheço.





Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Colônia de férias para pais solteiros" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.