O Edifício Genebra escrita por Kori Hime


Capítulo 1
O cadáver do 704


Notas iniciais do capítulo

A história terá capítulos narrados pelo ponto de vista dos moradores do prédio. Pode ou não seguir uma ordem cronológica, é capaz que eventos dos capítulos se passem em momentos diferentes.

Boa leitura.



A viatura de polícia estacionada em frente ao edifício Genebra, na rua Marquês de São Joaquim, chamava a atenção dos moradores do bairro do Flamengo. Assim que o rabecão do IML chegou, com um atraso de três horas, o sargento Simas precisou dispersar a pequena multidão de curiosos que se formou diante do prédio de oito andares.

Na mesa da portaria, Josemar, o porteiro da manhã, pedia calma para os moradores do prédio, que estavam impossibilitados de utilizar a escada, pois os policiais precisavam de espaço para trabalharem. O elevador estava em manutenção, notícia que não agradou o legista, assim que solicitou a entrada no local, mostrando sua identificação para o porteiro.

Josemar olhou para o crachá do legista, com o cenho enrugado, ele analisou o rosto do médico, que nada parecia com a fotografia da identificação. Era um homem alto e muito magro, os cabelos castanhos despenteados e oleoso na raiz, usava óculos de armação preta muito grande para o rosto miúdo. Já na fotografia do crachá, uma versão mais asseada de sua imagem.

O porteiro não era nenhum especialista, mas depois de tantos anos, aprendeu a discernir os moradores que sempre estavam de mudança, salvo alguns proprietários que não alocaram seus apartamentos. Ele então esticou o braço direito, apontando na direção da escada. Observou o legista caminhar carregando uma mochila nos ombros, pensando se ele não era jovem demais para um emprego tão importante como aquele.

As ideias de Josemar dissiparam quando Maria Rita, a inquilina do 201, voltou a reclamar que suas compras iriam estragar se ela esperasse por muito tempo. Acompanhando-a na discussão, outros moradores reivindicavam o poder de ir e vir que lhes eram garantidos por lei.

Cansado de repetir o que os policiais disseram mais cedo — Não é para ninguém subir — Josemar aquietou-se em sua cadeira, apenas movimentando a cabeça, concordando automaticamente com o discurso de cada um.

Em vinte anos de trabalho, o porteiro achava que já tinha visto de tudo na vida. Pelo menos lera muita coisa, sentado na portaria com o jornal na mão. Mas poucas histórias o deixavam tão boquiaberto. E aquela era uma das vezes que ele se sentia assim.

Josemar não conseguia tirar da cabeça que, naquela mesma semana, dera bom dia para o Sr. Rubens, o morador do 704. E agora ele estava lá em cima, morto. Esquecido pelos filhos que moravam em São Paulo, os netos, os amigos. Morreu solitário em um prédio onde vivia tanta gente.

Também não podia deixar de pensar em como a vida era uma caixinha de surpresas e que as pessoas não possuíam nenhuma pista de quando chegaria a hora de acertar as contas com Deus.

A morte era algo terrível, mas natural. Afinal, como já leu em algum lugar, tudo que é vivo um dia morre. O que não era normal para Josemar, era aquela cena lamentável que se desenrolava diante de seus olhos. Ninguém parecia sentir a perda do vizinho. Estavam preocupados com o almoço de domingo que iria atrasar, o sorvete descongelando, o jogo de vôlei que estava sendo transmitido.

Foi preciso aguardar mais uma hora e meia, até que o corpo fosse liberado e levado para o IML. Josemar viu o saco preto ser carregado porta afora, ele fez o sinal da cruz e prometeu passar na igreja na hora do almoço, para acender uma vela ao Sr. Rubens.

— Isso aí me parece coisa de gente com problema. — Segurando as sacolas de compra com uma das mãos, Maria Rita apontou o dedo indicador para a própria cabeça, girando-o. — Gente doida que não pode ficar sozinha em casa.

Josemar olhou-a incrédulo, enquanto o show de bizarrices era endossado pelos demais moradores, que subiam as escadas. Mesmo assim, era possível ouvir a conversa. O porteiro balançou a cabeça, abatido e estressado com aquela manhã, mas era apenas o começo de uma semana tumultuada. Uma semana em que o Sr. Rubens não compartilharia com ele uma fatia de pizza que sempre sobrava, já que era muito para uma pessoa solitária comer.

— A morte é mesmo algo difícil da gente encarar. — Falou em voz alta, para ninguém na verdade, pensando alto. Só que a moradora Adriana ouviu, aproximando-se da portaria.

— A morte é apenas o começo, seu Josemar. — Ela sorriu, apesar da expressão de seu rosto não ser de felicidade. — Sinto muito pelo o que aconteceu com o meu vizinho. Eu não o conhecia muito bem, mas ele sempre foi muito gentil segurando o elevador para mim.

Josemar riu, movendo os ombros.

— Engraçado como são as coisas, Dona Adriana. — Ele dobrou o jornal. — Estava pensando agora mesmo das vezes que o Sr. Rubens dividiu pizzas comigo, e a senhora se lembrará dele por segurar a porta do elevador.

— Nós deixamos algumas marcas no mundo, infelizmente alguns mais do que os outros.

A mulher balançou a cabeça e deu um bom dia para o porteiro.

Josemar pensou naquela frase o resto do dia. Que tipo de marca ele deixaria no mundo quando partisse? Com essa pergunta na cabeça, passou a semana toda melancólico, os moradores estavam já incomodados com a falta de animação do porteiro e as respostas cruas que lhes eram oferecidas, sem sorrisos ou uma conversa fiada antes do elevador chegar.

Após uma conversa com o síndico, onde foi chamado a atenção sobre Josemar estar cabisbaixo e sendo inconveniente na portaria com sua falta de humor, o porteiro fingiu nos dias seguintes que estava feliz, satisfeito e distribuindo sorriso. Era assim que salvaria seu emprego, era assim que as coisas funcionavam.

— Muito bom dia, seu Josemar. — Adriana passou pela portaria, puxando o carrinho de compras. — Mais tarde vou fazer uma paella, trago aqui bem quentinho para o senhor experimentar.

— Com muito gosto, dona Adriana. — Ele acenou.

Josemar viu a porta do elevador se fechar, assim como o sorriso em seus lábios foi morrendo lentamente, até o próximo morador passar. A marca que deixaria no mundo seria a mais pura e completa farsa de quem ele era e o que sentia.



Notas finais do capítulo

Agora é sua vez, eu já fiz a minha parte.
Me conte o que achou.



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