Quando chegar a hora escrita por Love Whisper


Capítulo 12
Magoado


Notas iniciais do capítulo

Muito obrigada a Nat pelos comentários nos últimos capítulos, ainda nao tive tempo de responder todos, mas já ja vou. Voces deixam meu dia muito feliz aaaa



Rafael

Faz um tempo que, na minha cabeça, eu tinha uma ideia firme de como minha vida seria. Eu passaria de trabalho em trabalho, sem ter coragem de fazer uma faculdade de música por medo. Me casaria se encontrasse alguém paciente o suficiente, e viveria uma vida medíocre até o final. Mas aquela notícia... Aquilo destruiu qualquer conceito de tempo que eu tinha.

Leucemia Linfoide Aguda.

As três palavras rodavam na minha cabeça. O que eram, uma sentença de morte? Ou apenas três palavras?  

A médica as entregou calmamente a mim e eu não processei direito o que significavam.

 —Como assim? — Miguel perguntou — A senhora tem certeza?

 —Sim, temos. Os resultados dos exames são altamente confiáveis, e está se espalhando rápido.

Eloá deu um passo à frente.
 

— E o que a gente faz a partir de agora?

 A doutora me olhou, apreensiva. Eu não sabia o que falar, e os dois estavam fazendo um bom trabalho em falar por mim.

Em momentos como esse, o silêncio me caia bem. Era como se as palavras apenas ficassem presas em meu peito, junto com todas as minhas dúvidas.

É claro que eu tinha muitas perguntas. Mas elas se embolavam na minha cabeça, tudo estava acontecendo rápido demais.

Rápido demais para eu acompanhar.

 — Miguel? — chamei. Queria me esconder atrás dele, como fazia quando éramos crianças. Mas não tinha para onde fugir, não tinha como me esconder.

Ele foi até mim, o olhar desesperado, no qual eu identifiquei algumas lágrimas que não desciam. Relaxei os ombros e fiz um sinal de "deixa pra lá".
 

Doutora Lilian então seguiu para me explicar algumas coisas. Ela começou dizendo que a medula se dividia em duas partes, e que minha leucemia, embora tivesse começado em uma, já estava se espalhando para a outra. E que meu sistema nervoso poderia ser comprometido logo, se eles não agissem rápido.

 — Eu sei que você deve estar bastante assustado agora — ela disse. Pelo que me pareceu, era bastante empática, diferente da maioria dos médicos que eu conheci. — E que o futuro parece um beco sem saída. Mas eu mesma vou supervisionar seu tratamento, e a equipe de médicos daqui é altamente competente. Isso é, se você optar por fazer o tratamento. Mas suas chances são altas, sendo sincera. Eu diria... 50%.

 Assenti com a cabeça, o tom dela me passando alguma segurança.

50% de chance de o tratamento dar certo. E o resto? O que acontece na outra hipótese?

 — Tudo bem — murmurei.

Doutora Lilian abriu um pequeno sorriso, triste, mas levemente satisfeito.  — Vamos te estabilizar primeiro, enquanto você está internado. E aí vamos tentar a quimioterapia, mas vou deixar você se acostumar com a ideia primeiro para depois conversamos sobre isso, okay?

Assenti com a cabeça. Doutora Lilian, então, se despediu e saiu.

O silêncio no quarto era sufocante. Eu conseguia ouvir as respirações de Eloá e Miguel que, ambos, estavam sentados no sofá do lado da minha cama. Era como se o mundo tivesse parado por alguns segundos, sem barulho absolutamente nenhum. Nada existia naquele momento, apenas o choque.

Então um soluço interrompeu o silêncio. Eu nem precisei olhar para saber que era Miguel. Outro soluço. Ele agora chorava, cobrindo o rosto com as mãos, os ombros involuntariamente se mexendo. Eu sabia que ele estava tentando não chorar, Miguel odiava demonstrar fraqueza, pelo menos na minha frente. Ele sempre tomava a posição de mais velho, me protegendo, me consolando e não sendo consolado. Eu havia o visto chorar poucas vezes, como quando mamãe morreu e... Agora.
Quis poder levantar e abraçar ele, mas não conseguia. Eu e Eloá nos encaramos e ela foi lentamente até mim.

Talvez eu devesse estar chorando. Minha garganta ardia tanto e meu coração estava tão apertado que fisicamente doía. Mas eu estava tão confuso que não consegui nem mesmo chorar, tudo em mim eram perguntas e inseguranças. 

 — Rafa...— ela disse, a voz embargada. Então respirou fundo, abaixando os ombros. — Eu sinto muito.
 

Olhei pra baixo, querendo sumir.

 — Eu só quero dormir — afirmei. — Não quero pensar sobre isso. — então olhei por trás dela, Miguel tentando controlar o próprio choro. — Chama ele aqui — falei, baixo.

 Eloá foi até Miguel e sussurrou:

"Vai ficar com seu irmão." e saiu um pouco do quarto.

Miguel, que pareceu ter entendido o recado, tirou a mão do rosto e foi até mim, os olhos vermelhos e as lágrimas ainda descendo.

Nos encaramos por alguns segundos, e ele apoiou a testa no meu peito.

 

"Eu te amo." falou, devagar. As lágrimas, finalmente, invadiram meus olhos.

Eu também te amo, pensei, mas não consegui falar.

Comecei a chorar aos poucos, mas ainda me sentia fora do ar. Como se não estivesse realmente acontecendo.

Eu queria estar em casa, em frente ao piano, fingindo que nada mais existisse. Mas estava preso aqui por tempo indeterminado. Talvez fosse ter que me acostumar com hospitais.

Eu e Miguel choramos abraçados por algum tempo. Quando se acalmou, ele segurou minha mão e disse:
 

— Você não vai ter que passar por nada disso sozinho. Sabe disso, não sabe?

 — Eu sei.

 Limpou as lágrimas com a mão, e fungou. Eu fechei os olhos por alguns segundos, cansado. Adormeci, sem que percebesse. 

A verdade me atingiu no meio da noite. 

A partir de agora, nada era certo. Tudo dependia de muitas coisas, coisas as quais eu não podia controlar. Abri os olhos assustado, procurando por Miguel, mas quem estava lá era Eloá.

 — Lorena! — chamei, respirando forte. — Eloá!
 

Estiquei a mão, mas não conseguia a alcançar. Chamei mais algumas vezes e ela acordou, rapidamente indo até mim, mesmo antes de despertar completamente.
 

— O que foi? Tá tudo bem?
 

Eu me sentia estranhamente compelido a falar. Era como se tudo tivesse se acumulando e, agora, ia explodir.

 — Não — falei. — Não tá. Acende a luz — pedi, segurando as lágrimas.

 Ela acendeu a luz e sentou na cadeira do meu lado, se alongando.

Chegou perto de mim e perguntou, o tom mais doce do mundo.

 — O que foi?

 —Por quê tudo é tão injusto? — foi o que saiu. — Eu... Eu não to pronto pra isso, Eloá. Eu não tô pronto pra todas essas coisas. Não quero ter que fazer quimioterapia ou sei lá o quê, eu só quero ir pra casa e continuar minha vida. Isso é pedir demais?

Dei uma pausa ao perceber que eu estava ficando um pouco nervoso demais.

 — Rafa, eu... Não tem muita coisa que eu possa te dizer agora. Eu sei que tudo isso isso é assustador e novo. Eu sei.
 Meus olhos se encheram de lágrimas, que caíram assim que eu pisquei.

 — E se... E se não der certo? Eu não quero morrer. Eloá, eu não quero morrer.

 — Rafael, tem muita coisa pra acontecer ainda. Não se preocupa com isso agora.

Me encolhi, chorando. Era diferente de mais cedo, de quando eu estava com Miguel. Agora eu tinha plena consciência de que minha vida iria virar um inferno, e que não tinha nada que eu pudesse fazer pra evitar isso.

Eloá passou a mão pelo meu cabelo, e, por uns segundos, eu me perguntei se meu cabelo cairia.

Eu não fazia ideia das mudanças a minha frente.

 — Vai dormir, Rafa — ela disse, carinhosa. — Você precisa mesmo descansar.

 No final, acabei dormindo de tanto chorar, os olhos e a garganta doendo.

Eu estava perdido.

 

Demoraram exatamente 10 dias para me estabilizar, o que foi bem mais do que eu esperava. 10 dias sem dormir direito, com muitas agulhas e Eloá e Miguel se revezando para continuar suas vidas e, ao mesmo tempo, não me deixar sozinho. O tempo todo, eu senti falta de Rosa. Não conseguia parar de pensar em quanto a vida foi injusta com ela e a levou tão cedo, e agora estava prestes a fazer a mesma coisa comigo. Pensando sobre isso, eu entendi a reação de Miguel.

O mundo é, realmente, muito injusto. Mas, apesar disso, estávamos tentando construir um arco—íris no meio de toda essa chuva.

Miguel e Eloá chegavam lá e nos obrigávamos a conversar sobre coisas leves. Tiveram alguns dias piores que outros, onde a dor era tão grande que eu não conseguia fazer muito a não ser chorar e implorar pra aquilo parar. Mas também tiveram dias bons e conversas agradáveis.

E conversas não tão agradáveis.

 — Yuri perguntou de você — Miguel falou.

 Eu, que me sentia bem melhor, sentei na cama, pelo susto.

 — O que você disse?

 — Nada. Eu disse pra ele falar com você.
  

— Eu nem peguei no celular ainda! — me justifiquei.

—Eu sei. Falei pro Yuri que você não estava bem ainda, mas não quis contar.

Balancei a cabeça, aquela não era uma hipótese que passava pela minha mente.
 

— Não conta. De jeito nenhum, conta pra ele.

 — Ele vai me pressionar pra explicar o que tá acontecendo uma hora ou outra.

 —Eu vou falar com ele — prometi. — Só não agora.

Era o décimo dia e eu, finalmente, peguei meu telefone. Me sentia melhor, depois de muitas e muitas transfusões, e era quase como se eu estivesse... Saudável.

Tinham muitas mensagens de Yuri. Muitas. Em dias e horários diferentes.

16/01

12:35
E aí, Rafael. Tava ouvindo uma música e lembrei de você.


13:22
Acho que você não chegou do trabalho ainda. Quando chegar, me chama.


17/01

18:12
Miguel me falou que você tá doente. Se precisar de alguma coisa, tipo uma companhia pra ficar agarradinho assistindo TV, só me chamar.

18/01

12:15
Eu to ficando realmente preocupado. Pelo menos tenho Miguel pra me dar notícias de você. Vou te encher de carinho pra você ver quando estiver melhor.

E então uma selfie dele cheia de corações em volta. Eu ri, mas meu coração estava apertado.

19/01

07:02
Bom dia. Acordei agora e estou desenhando! Depois você precisa me contar o que andou fazendo esses dias todos.

22:36
Boa noite. Espero que você esteja dormindo bem.

22/01

22:45
Okay, eu tô começando a achar que você não quer falar comigo. Miguel ficou todo sem graça quando eu pedi notícias, isso tá tudo muito estranho.


E a última mensagem:

23/01

22:30
Tudo bem, Rafa. Eu acho que já entendi. Não esperava que você fosse simplesmente sumir, mas tudo bem. Não vou te perturbar mais.

 — Não... — falei, alto, mesmo que estivesse sozinho. — Merda!

Confesso que não pensei muito em Yuri durante esse tempo. Não tinha visto as coisas do ponto de vista dele: eu fiquei com ele e depois simplesmente sumi.  E proibi Miguel de dar notícias porque eu estava com medo. Mas agora ele pensa que eu sou um babaca que não o quer, e eu não sabia como consertar aquela situação. Eu tinha o magoado.

Abri nas conversas de novo e comecei a digitar.

Yuri, me desculpa. Eu estava no hospital,  é claro que eu ainda quero falar com você. Senti saudades. Vamos nos encontrar e eu prometo que explico tudo direitinho, tá bom?

Ele viu a mensagem assim que chegou. Mas eu não recebi nenhuma resposta. Fiquei o dia inteiro com o telefone na mão, olhando as notificações. Era uma sensação doída, frustrante, de ter perdido alguém. E se agora ele que não quisesse falar comigo?

Já era de noite quando a notificação chegou no meu telefone. Olhei a tela: Yuri. Antes que eu abrisse a mensagem, Doutora Lilian entrou no meu quarto.

 — Boa noite, Rafael. Como você está? Acho que chegou a hora da gente conversar sobre a quimioterapia.

 





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