Eu Ainda Estou Aqui escrita por Isah, WSUniverse


Capítulo 3
Arcanjo


Notas iniciais do capítulo

Aviso: esse capítulo contém uma cena envolvendo abuso sexual, se de alguma forma isso te afeta e você não se sente confortável lendo, siga por sua conta e risco



 

Onze anos atrás

 

Há onze anos atrás, meus pais eram casados, mas o divórcio não estava longe. A razão? Meu pai não era muito bom em ser um marido fiel, e não precisa ser casado para saber que confiança e fidelidade são coisas muito importantes em um casamento. 

 

 

Não sei muitas histórias de bichos de estimação que eles tiveram antes de eu nascer, mas lembro que quando eu tinha três anos, meu pai levou um cachorro para casa. Minha mãe ficou brava com ele no começo, mas acabou dando o braço a torcer. Quanto a mim e meus irmãos, fiquei feliz por ter um bichinho para brincar, assim como a Mayara. Entretanto, Vinicius nunca foi fã de bichinhos de estimação.

Naquela época eu tinha três anos de idade, Mayara tinha nove e Vinicius onze. Mesmo eu tendo três anos eu ainda não sabia falar. Eu falava algumas poucas palavras sem sentido, mas nada comparado as crianças da minha idade. Como consequência, eu não tinha amigos da minha idade (o que era bastante solitário, ainda é). Provavelmente deve ter um nome para isso, mas meus pais nunca me levaram a um especialista, talvez por medo de ter uma filha diagnosticada com alguma condição mental na qual os outros veriam apenas como “essa criança é retardada”. O que quer que fosse, provavelmente nunca vou saber o que era (ou é).

O meu pai colocou o nome do cachorro de Rambo. Sim. Rambo. Não posso dizer que não colocaria um nome parecido. Qual o sentido de colocar um nome como Rex no cachorro se você pode chama-lo de Stallone, por exemplo?

 

 

Um dia, eu e Mayara brincávamos no quintal quando minha mãe chamou a Mayara para varrer a cozinha porque o almoço estava quase pronto. Como eu sempre fazia, segui a Mayara porque estávamos praticamente sempre grudadas.

Minha irmã ficou varrendo a cozinha e eu, sem entender nada, peguei a pá para ajudá-la. Quando terminamos, o almoço estava pronto. Mamãe mandou chamar o papai (que estava no quarto mexendo nas fitas cassetes antigas dele) e o Vinicius (não sabíamos onde ele estava).

Procuramos Vinicius pela casa toda até chegarmos a varanda onde Rambo deveria estar, mas tudo o que encontramos foi uma varanda vazia e um portão aberto. Algum idiota havia feito aquilo.

Eu e Mayara corremos para a calçada e nos deparamos com Vinicius idiota vindo em nossa direção.

— Cadê o Rambo? — Minha irmã pergunta.

— Por que eu deveria saber?

Mayara dá um tapa muito merecido no idiota do Vinicius.

Para manter seu orgulho masculino de quem jamais poderia apanhar da irmã, ele devolve o tapa e os dois entram em uma briga que só para quando meu pai chega e os separa.

— Que zona é essa aqui?! — Meu pai grita.

— O idiota do Vinicius deixou o portão aberto e o Rambo fugiu!

Meu pai dá um tapa da parte de trás da cabeça do meu irmão, um pescotapa. Continuo achando que foi merecido.

— Quantas vezes já avisei para não deixar o portão aberto?

— Desculpa — Meu irmão abaixa a cabeça.

— Vão para dentro, eu vou dar uma andada e ver se acho o Rambo.

 

 

 

Fevereiro de 2017

 

 

Início do ano letivo, primeiro dia de aula. Estou tããão empolgada (ironia, isso foi uma ironia). Quem não ficaria empolgado em acordar seis horas da manhã para ficar cinco horas sentado em uma cadeira sem entender o  que está acontecendo com a sua vida?

Esse ano faço o 9° ano, a última etapa do ensino fundamental antes do ensino médio, mais uma etapa no inferno que chamamos de adolescência.

Naquele dia, após acordar, eu tomo banho, escovo os dentes e coloco o uniforme, branco com uma listra verde horizontal (fazendo alusão a bandeira da cidade) o atravessando e dentro dela escrito “Prefeitura de Campo Verde – Secretaria Municipal de Educação”. O uniforme é padrão na cidade inteira, o que significa que todas as escolas municipais usam esse mesmo uniforme, só as estaduais que tem cada uma o seu próprio uniforme que tem que ser comprado pelo aluno, enquanto o das escolas municipais é dado gratuitamente pela Prefeitura. O uniforme está ficando um pouco justo na região dos peitos. Como se eu já não tivesse preocupações o suficiente. Uniforme idiota! Puberdade idiota!

Como é manhã e está frio, eu coloco uma jaqueta vermelha, além de uma calça jeans rasgada no joelho, não por charme ou estilo, mas porque eu tropecei, cai de joelhos e rasgou bem naquela região (isso acontece com muita frequência, não sou uma pessoa muito atenta quando o assunto é olhar por onde ando).

Penteio meus cabelos, louros escuros. Eles acordaram especialmente armados e não querem ficar quietos, então preciso amarra-los em um rabo de cavalo. Odeio o resultado, mas não há nada que eu possa fazer. Talvez eu devesse passar alguma maquiagem da Mayara... não, da última vez que fiz isso fiquei parecendo um palhaço.

 

 

Enfim, saio do quarto e vou para a mesa, minha irmã acaba de comprar pão de queijo (amo pão de queijo, melhor invenção humana), ela também está arrumada. Ela tem faculdade e trabalha de tarde. Minha mãe também se aproxima arrumada, ela vai sair para trabalhar.

Por um milagre, meu irmão acordou cedo e decidiu se sentar a mesa com nós. Pego um pão de queijo para mim e coloco perto de mim, também coloco leite quente em um copo, misturo o achocolatado. Meu café da manhã, um pequeno pedaço de Paraíso.

— Cuidado, Emily, você já tá um pouquinho cheinha — Meu irmão comenta e acaba com o paraíso, maldito idiota.

Apenas abaixo a cabeça constrangida. É tão difícil comer em paz?

— Eu não acho — Mayara intervém. — Ela só tá ganhando corpo, quatorze anos na cara, uma hora isso tinha que acontecer.

— Só penso que ela precisa tomar cuidado, ninguém vai querer ela se ficar gorda.

— Ela é novinha demais pra se preocupar se alguém quer ou não ela.

— Mas é bom ela se cuidar já desde novinha — Dessa vez é minha mãe quem intervém. — Pela saúde dela.

Olho a hora e vejo que mais um minuto e ficarei atrasada, é uma desculpa para que eu possa sair desse constrangimento. Me despeço de todo mundo e pego o caminho para a escola, que fica a cinco minutos da minha casa.

 

 

 

Dias Atuais

 

Já fazem três dias que estou no hospital, ainda em estado grave, sem previsão de melhora, sem poder receber visitas e com três fantasmas de companhia. Não é exatamente bom, mas podia ser pior, eu poderia estar morta (talvez isso não fosse tão ruim também).

Já voltou, Zé? — Marcelo pergunta ao ver o poltergeist na entrada.

— Sim, já tenho que partir para o próximo agente.

— O que aconteceu com o último?

Zé me olha com uma cara feia antes de responder. Ele não gosta de mim, também não gosto então o ódio é mútuo e recíproco. Não sou obrigada a gostar de um poltergeist que me atacou.

Ouviram da família que demoliu a casa porque estavam sendo assombrados por uma entidade maligna? Aquilo fui eu — ri. — Mal sabiam eles que o problema era o pirralho. 

— E por que você sempre faz isso?

— Isso o quê?

— Isso de agentes e assombrar?

— Tédio... só tenho isso para fazer enquanto não me levam para o inferno.

Sim, estou falando com um poltergeist que algum dia vai para o inferno. Mais um dia normal. Mesmo assim, podia ser pior, como por exemplo, meu algoz poderia estar aqui. Maldito idiota, está andando como se nada tivesse acontecido, enquanto eu nem sei se algum dia vou acordar. Isso é injusto!

 

 

Eis que vejo senhor Detetive Enxerido entrando pela recepção, ele vem aqui todos os dias, não tenho nada contra ele, mas é um fato que ele é um tonto idiota. Por que ele não vê as pistas? Elas são tão óbvias.

— Xeroque Rolmes voltou — comenta Zé.

— Ele tá perto de resolver? — Marcelo pergunta.

— Tão perto quanto Tóquio e Rio.

 

 

Oito anos atrás

 

 

O primeiro dia de aula de toda a minha vida aconteceu há oito anos atrás, eu estava bastante nervosa, animada e com medo ao mesmo tempo, como se estivesse a entrar na montanha-russa mais assustadora de todas. Aquela sensação de que você quer ir, mas está com medo, o seu coração bate mais rápido e parece que vai sair do peito, uma mistura de medo e ansiedade, não exatamente a sensação mais agradável.

A maioria das crianças aos seis anos de idade já foram para a pré-escola antes, mas eu não tinha. Como eu poderia ter ido? Só fui aprender a falar mais ou menos quando eu tinha seis anos então antes disso eu não poderia ir a nenhum tipo de escola, o que me impedia de conviver com outras crianças e por consequência, nunca tinha tido um amigo da minha idade (primos não contam). Já contei sobre isso antes, era solitário, as vezes ainda é, mesmo eu tendo amigas atualmente.

 

 

No meu primeiro dia de aula, na escola municipal do bairro, sou deixada lá pela minha mãe, acompanhada da Mayara que também estudava lá, mas no outro prédio, o dos alunos mais velhos (onde atualmente estudo), já que ela estava no sétimo ano (antiga sexta série para os mais velhos). Minha irmã me ajudou a achar a sala do Primeiro ano, e lá nos despedimos  (já que só nos veríamos na saída, afinal nossos recreios eram em horários diferentes, o meu era às 08:40 e o dela às 09:30).

Entrei na sala e sentei na primeira mesa da fila porque não sabia onde sentar, estava sempre perdida... não... ainda estou perdida. Agora estou mais perdida do que nunca.

Aquela aula foi apenas de apresentação, já que os alunos que estavam ali nunca tinham estado no ensino fundamental  (ou em uma escola, como é o meu caso). A professora decidiu formar duplas para que todos os alunos se enturmassem. Como a maioria das crianças ali não sabiam escrever (ou o faziam de maneira pífia), a professora anotou todos os nossos nomes, colocou-os em potes e fez um sorteio.

— Brenda Castanho.

Uma menina do outro lado da sala levanta a mão. Ela tem uma pele que é negra, mas clara, os olhos são um pouco claros e os cabelos castanhos anelados presos em ‘maria-chiquinha’. Ela parece hesitante, tímida.

— Emily Santoro.

Em dúvida, eu também levanto a minha mão.

Eu e a menina juntamos nossas mesas, pode parecer estranho, mas eu e a Brenda viramos melhores amigas.

Por quê? Eu não sei, talvez porque fôssemos duas crianças estranhas em um mar de crianças que mais pareciam cópias umas das outras? Brenda sempre foi mais inteligente que as crianças da nossa idade, e sempre foi bastante quieta também. Eu também era considerada uma criança quieta, não por vontade própria, mas porque eu não sabia bem o que fazer para se enturmar com as crianças da minha idade. Eu ainda tenho dificuldades para me enturmar com as pessoas da minha idade, se bem que a maioria das pessoas da minha idade parecem ser retardadas.

Além disso, até alguns anos atrás, eu e Brenda tínhamos gostos parecidos. Gostávamos de brincar de bonecas, fingíamos que elas eram princesas, médicas, soldados, alienígenas, crianças têm uma imaginação muito fértil. Gostávamos de ler, de filmes parecidos, como os da Barbie, por exemplo, músicas parecidas, e sempre gostamos de entender como as coisas funcionam, mas a pré-adolescência mudou um pouco isso.

Eu perdi o meu interesse por bonecas enquanto a Brenda passou a coleciona-las. Ela começou a ler livros de romance enquanto eu me interessei por ficção científica. Ela começou a gostar de pop e indie, enquanto eu comecei a curtir rock e músicas esquisitas. Ainda gostamos de entender como as coisas funcionam, mas ela faz isso de maneira mais científica, observando, testando, anotando, enquanto eu sou uma pessoa mais contemplativa.  Mesmo com tudo isso, continuamos sendo melhores amigas e nos entendemos melhor do que o resto do mundo.

 

 

Fevereiro de 2017

 

 

Naquele primeiro dia de aula, como costumo fazer em todos os dias de aula desde que a minha mãe teve confiança o suficiente para me deixar ir sozinha para a escola, encontro a minha melhor amiga, a Brenda, no portão do Colégio que já estava se abrindo. Seus cabelos castanhos são ondulados atualmente, com luzes nas pontas. Ela usa uma blusa de frio listrada por cima do uniforme e uma calça de moletom azul.

Andamos juntas até a parede onde ficam aqueles papéis que dizem em que sala cada aluno está. Por sorte, mais uma vez, eu e Brenda saímos na mesma sala, que fica no terceiro andar do prédio dos alunos maiores. Subimos as escadas e entramos na sala, a última do corredor (passar o resto do ano subindo as escadas para a última sala do último andar, bem animador).

Entramos na sala e nos sentamos nas primeiras mesas da fila, ela é a nerd e eu sou a amiga esquisita da nerd. Os outros alunos também vão chegando, a maioria já são conhecidos dos outros anos, praticamente crescemos todos juntos.

Noto um em especial, Luis Felipe, sempre saímos na mesma sala, mas só agora parei para notá-lo. Ele deu uma crescida nas férias, tá até bonitinho. Incrível como a Puberdade pode ser cruel com algumas pessoas, mas incrível para outras.

Nunca troquei mais que duas palavras com ele, a maior interação que já tivemos foi uma vez no 4° ano quando alguns meninos esconderam a mochila dele e ele veio me perguntar onde estava, e eu não sabia. Ele perguntou para todas as meninas da sala que, penalizadas com a situação, resolveram ajudá-lo a achar a mochila, até eu e Brenda a procuramos.

No final, Samara, a menina mais bonita da sala na época, encontrou a mochila escondida debaixo do bebedouro. Luis parece ter ficado feliz e eles passaram os minutos que faltavam para dar o sinal conversando e dando inveja aos outros meninos da sala, que se matariam para ter a atenção da Samara. É uma pena que ela tenha mudado de cidade depois do 6° ano. Quanto ao Luis, ele parece mais bonito do que nunca.

Viro o rosto antes que ele perceba que estou olhando para ele, já sou considerada esquisita o suficiente, não quero que pensem que sou algum tipo de maníaca. Lembro que no 5° ano fiquei encarando a cabeça do professor de educação física por causa do cabelo esquisito dele, os outros alunos perceberam e começaram a me zoar com coisas do tipo “Emily tá apaixonada pelo professor”. Também teve uma vez no 6° ano em que os alunos tinham que apresentar um trabalho na frente da sala, eu fiquei tão nervosa que troquei as palavras e todos riram de mim e lembraram disso o resto do ano. Prometi a mim mesma que faria de tudo para ser invisível em sala de aula porque antes invisível do que notada e humilhada.

 

 

Logo a primeira professora chega, ela é nossa professora de português por dois anos seguidos. Como sempre faz em todo começo de ano, ela pede que cada um, quando chegar sua vez, se levante, fique ao lado da carteira e diga o nome, se já estudava ali e o que quer ser quando crescer.

A primeira é Brenda, que levanta e respira fundo.

— Meu nome é Brenda Castanho, tenho 13 anos, já estudava aqui e quero ser médica quando crescer.

Não é como se a Brenda sempre tenha tido esse sonho, nem é um sonho. O fato é que ela sempre foi muito inteligente, a mãe dela quer garantir que ela tenha um futuro brilhante então incentiva que a Brenda tenha alguma profissão que dê muito dinheiro.

Minha vez, faço o mesmo que ela.

— Meu nome é Emily Santoro, tenho 14 anos, já estudava aqui e não sei o que quero ser quando crescer.

Eu nunca soube a resposta para essa pergunta para falar a verdade. Não tenho uma mãe como a da Brenda, que pensa em mim como a futura melhor médica do país... se bem que as vezes a Mayara age assim. Mas não quero ser médica, Medicina parece muito difícil e eu não saberia lidar com as pessoas ou com algum sangue. Também não teria paciência para Direito. Não tenho nenhum grande talento extraordinário, tirando talvez o desenho, mas sei que é melhor eu não seguir esse caminho, posso acabar como professora de artes ou vendendo minha arte na praia. O problema é que odeio lidar com as pessoas da minha idade ou com crianças e aqui não tem praia.

Então, aluno depois de aluno vai falando, Luis Felipe é o sétimo aluno nessa ordem.

— Meu nome é Luis Felipe, tenho 13 anos, já estudava aqui, quero ser jogador de futebol.

Todos os outros anos ele respondeu que queria ser cientista, ou astronauta, mas mudou a resposta esse ano, provavelmente quer se enturmar. Não posso julga-lo, talvez eu fizesse o mesmo caso eu não tivesse a Brenda.
E depois de mais alunos, vem a vigésima.

— Meu nome é Maria Eduarda, tenho 14 anos e sou nova aqui, quero ser atriz.

— Você veio de onde, Maria Eduarda? — A professora pergunta.

— Eu vim de São Paulo — Ela diz antes de se sentar.

A aluna nova com certeza é bastante diferente do resto das garotas da sala. Para começo de conversa, ela não está usando uniforme, embora provavelmente seja porque ela é nova aqui e não tenha ganhado o uniforme ainda. Seus cabelos castanhos claros estão presos em um coque alto, ela usa uma jaqueta jeans e uma calça rasgada (que no caso dela, com certeza é por estilo). O olho é destacado por um marcador preto, que ressalta os olhos verdes dela. E para completar, ela está usando uma bota de cano curto, não do tipo que se vai a escola, mas do tipo que se vai ao shopping. Ela é simplesmente tudo o que eu nunca poderei ser, mas queria.

 

 

 

Dias Atuais

 

Aqui no hospital, cada momento é um filme de terror diferente, uma notícia pior que a outra, tenho cada vez menos esperanças de que algum dia eu consiga sair dessa. Quer saber qual é a mais nova notícia ruim? Continue lendo.
— Ela precisará de uma transfusão de sangue — O médico anuncia e minha mãe fica em choque.

Hospital, agulhas, sangue... coisas que eu amo odiar.

 

 

— Qual seu tipo sanguíneo? — Zé pergunta.

— A Positivo, eu acho.

— Que bom, não vai ser tão complicado quanto foi com o Diego.

— Quão complicado?

— O Diego é O negativo — É Marcelo quem diz.

— Foi uma merda para achar um doador compatível — Diego completa.

— Mas e os familiares?

— Nenhum estava apto para doar.

 

 

Fevereiro de 2017

 

 

Recreio do primeiro dia de aula, é o dia que você vai sair mais cedo então o lanche é uma droga, leite e bolacha de água e sal.

Entro na fila, que está pequena, pego apenas o leite (porque não gosto da bolacha de água e sal) e sento no canto de uma das mesas do refeitório, juntamente da Brenda. Então avistamos a garota nova sozinha no canto de uma mesa do outro lado do refeitório. Por mim, ficaríamos ali apenas conversando, mas Brenda quer ser legal e se enturmar. Assim, nós duas vamos até a garota nova e nos sentamos perto dela.

— Maria Eduarda? ;— Brenda pergunta.

— Pode me chamar de Duda.

— Bom, Duda, eu sou a Brenda, e essa é a Emily.

— Oi.

Forço um sorriso, não me sinto confortável, não perto da garota nova que veio de sei lá onde. Ela é tão diferente das garotas que geralmente conheço, ao mesmo tempo, tão perfeita que é até um pouco desconfortável ficar perto dela.

— Bom, olá...

Ficamos conversando durante o resto do recreio. Apesar de tudo, a garota nova é legal, o tipo de garota que se dá bem em qualquer lugar, ou seja, perfeita. Ela é boa em tudo o que eu sou ruim e melhor do que eu nas coisas que sou boa. Ao mesmo tempo, somos completos opostos, ela é um espírito livre, eu sou mais fechada em mim mesma. O mais estranho, nosso aniversário é no mesmo dia. Não parece grande coisa, mas acredite, é um pouco raro achar alguém que tenha nascido justo no dia 2 de novembro.

Ainda não consigo entender porque alguém como a Duda sairia de um lugar como São Paulo para morar no fim de mundo que é a minha cidade. Geralmente, é o contrário, as pessoas mal podem esperar pela oportunidade de se mudar para uma grande metrópole. Mesmo minha cidade não sendo tão pequena, em comparação as vizinhas, tudo nela é tão confinatório que as vezes parece uma prisão gigante.

 

 

Dias Atuais

 

 

Detetive Enxerido está aqui de novo. Ele está fazendo perguntas, lendo papéis. Não consigo entender qual é a dele, qual é o ponto, o objetivo. Não parece ter descoberto nada útil até agora.

Esse cara vai acabar com o  estoque mundial de gel para cabelo — Zé comenta.

— Em compensação, ele não parece ser fã de escovar os dentes — Marcelo comenta.

— Ou de lavar as roupas — Diego completa.

— Criados por avós não fazem ideia de como lavar uma roupa — comento, mas não com o Enxerido na cabeça.

Sei de criados por avós que não conseguem nem lavar a própria cueca.
— Nem diga, eles são capazes de explodir uma casa tentando fritar um ovo – Zé então olha para Diego. — Não é mesmo?

— Foi só uma vez — resmunga envergonhado.

Sim, eu acredito em você

 

 

Fevereiro de 2017

 

 

O sinal toca avisando que o recreio acabou. Eu, Brenda e Duda subimos as escadas até chegarmos a porta da nossa sala, onde nos deparamos com Luis Felipe.

— Cê é a Maria Eduarda, né?

— Duda.

— O que cê tá achando daqui?

— Legal, bem de boas — Ela força um sorriso.

— Bom, precisando eu tô aqui — Ele sorri desajeitado.

Um sorriso tão fofo... Droga, ele está interessado nela. E por que não estaria? Ela é tão bonita quanto eu nunca serei. Ela é perfeita, bonita, esperta, competir com ela seria até injusto.

 

 

Algum tempo depois, fim do primeiro dia de aula. O sinal toca e os alunos correm desesperados em direção a saída, tão desesperados que parecem estar fugindo de um incêndio. Eu, Brenda e Duda saímos no meio dessa bagunça, tentando não nos perder uma da outra. Elas me acompanham até a esquina da minha casa, onde nos despedimos e cada uma segue um caminho.

Vou para casa, espero algumas horas para esquentar a comida que a mamãe deixou na geladeira e bato na porta do quarto do idiota que chamo de irmão, já que ele passa o tempo todo lá. Ele prometeu para a mamãe que iria parar de fumar, mas o cheiro de cigarro diz o contrário. Não é da minha conta, não falo nada.

Ele coloca quase todo o conteúdo da panela, até que lembra que eu também preciso comer e coloca um pouco de volta. Depois, é a minha vez de colocar a comida no prato. A propósito, se quer saber o que almocei, arroz, feijão, batata com carne moída e salada de alface com tomate, tudo misturado.

— Como foi seu dia? — Ele pergunta.

— Normal — respondo de boca cheia.

— Normal como?

— Os professores se apresentaram, eu e Brenda sentamos perto uma da outra, o lanche foi uma droga.

Ele ri.

— Pelo visto é igual para todo mundo.

— É — concordo e lembro de Duda. — Bom, chegou uma garota nova.

— Sério?

— É, ela é Paulista.

— Ah — resmunga desanimado. — Cuidado, Paulista é tudo um bando de convencido.

— Entendi — novamente, respondo de boca cheia.

— Cuidado, você tem que se cuidar se não quiser ficar gorda.

Estava demorando para ele ser desnecessário.

Claro que a barriguinha saliente dele não grita “hipócrita”. Idiota, como consegue enganar todo mundo? Como conseguiu me enganar?

 

 

Dias Atuais

 

 

No hospital, hora do almoço. Mais uma vez, a audácia e a cara de pau do meu irmão são enormes. Ele logo chega, entrega a vasilha com comida e pergunta como estou. Idiota. Como ele tem coragem  de estar aqui depois do que fez? Como alguém consegue fazer algo tão terrível e depois viver normalmente como se nada tivesse acontecido?

Mas quem também está aqui é o Detetive Enxerido, que finalmente decide fazer algo útil.

— Você é Vinicius Santoro Martins?

— Sim, sou eu.

— Se não tiver problemas, gostaria de perguntar algumas coisas sobre domingo a noite.

— E você é quem?

— Detetive.

— O que quer saber?

— Onde estava no domingo?

— Entrevista de emprego na AltecInternet.

Por incrível que pareça, isso é verdade.

— E depois da entrevista?

— Eu não consegui a vaga então fui beber na casa do Cassio, meu amigo.

Você está se esquecendo de uma parte importante, idiota, uma pequena parte que faz toda a diferença, o que você fez entre esses dois “eventos”.

 

 

— Quanto disso é verdade? — Marcelo pergunta.

— Noventa por cento.

— Temos um vencedor, senhoras e senhores — Zé ironiza.

 

 

Apenas me afasto incomodada, não quero continuar a ver aquilo, não quero ver ou ouvir aquele hipócrita maldito. Não quero estar perto do meu algoz. Como alguém consegue ser tão... nem sei como descrever isso.

Ei, novata.

Olho para trás e vejo que Zé está me seguindo.

— O que quer agora?

— Diego mandou eu pedir desculpa, se bem que considero isso uma revanche pelo que você fez.

Me viro e o ignoro, estou cansada de tudo isso, do idiota do meu irmão, de não poder acordar, do Zé idiota.

Espera —  Zé continua a me seguir.

Ele é irritante e inconveniente, não acho que alguém consiga superar ele, vivo ou morto.

— O que quer?

Se quiser, dou um susto bem sinistro naquele idiota.

— Quem?

— O seu irmão, notei que está com raiva, bom, sinto o que os outros estão sentindo então não me acuse de invasão.

— Não precisa fazer nada.

Certeza?

— Não adiantaria nada, eu ainda estou morrendo.

 

 

Fevereiro de 2017

 

 

Após o almoço, uma surpresa inesperada. Brenda bate no meu portão, pedindo para que eu vá com ela ver algo. Estou cansada, mas fico curiosa. O que poderia ser tão interessante para que a Brenda não passe a tarde estudando como sempre faz ou lendo algum daqueles romances água-com-açúcar?

A sigo até uma casa, por alguma razão, um desenho no portão me chama a atenção. Não tenho tempo de pensar sobre aquilo, pois logo Duda nos atende e nos leva até uma área isolada do quintal, onde finalmente vejo o que Brenda queria me mostrar. Uma gata, com alguns filhotes, dentro de uma casinha de cachorro forrada com tapetes.

A gata é cinza e bastante peluda, os filhotes são três: uma cinza e peluda como a mãe, ela parece ser a líder dos filhotes, pois logo sai para explorar o quintal e fica brincando com a própria sombra. A outra sai um pouco receosa e nos cheira, aparentemente, ela assume que somos confiáveis e fica lambendo a mão da Brenda e tenta se aninhar ali, ela é preta com manchas brancas.

— Ela teve eles assim que chegamos — Duda explica.

— Quantos meses eles tem?

— Três.

— Vou ver se a minha mãe deixa eu levar um — diz Brenda.

— Mas você não tem cachorro? — pergunto.

— A Lady ainda é filhote, dá para acostumar ela e um gato.

Não tenho certeza se isso vai dar certo. Lady é uma típica filhote, destrambelhada e brincalhona, isso pode assustar o pequeno gato.

 

 

De repente, um terceiro gato sai de dentro da casinha, o menor filhote da ninhada, ele é todo preto e tímido. Ele anda até mim e me cheira hesitante antes de miar e bater a patinha na minha perna, mesmo com medo, parece confiar em mim, por alguma razão esquisita.

Confusa, faço carinho nele que começa a ronronar e se aninha nas minhas pernas. Ele é a criatura mais fofa e incrível desse mundo e ele me escolheu. Não importa o que aconteça, sinto que preciso levar ele para a minha casa.

 

 

¥¥¥

 

 

Mais tarde, espero minha mãe e irmã chegarem e todos estarem reunidos no jantar. Um pedido tão especial e complicado não pode ser feito de qualquer jeito. Desde o Rambo, não me lembro de termos tido nenhum outro animal de estimação, então não sei qual será a reação da minha mãe.

No meio do jantar, finalmente crio coragem.

— Mãe, Mayara.

Elas me olham.

— Tem uma menina nova na escola, o nome dela é Duda.

— Emily — Mayara me encara, ela sabe que estou enrolando, ela sempre sabe. — Vá direto a assunto.

— A gata dela teve filhote e ela disse que posso ficar com um.

— De jeito nenhum — Meu irmão logo diz, é óbvio que meu irmão não gosta da ideia,  acho que ele não gosta de nada que tenha patas.

— Mas ele é tão mansinho, é um anjinho, eu prometo cuidar.

— Gato vai fazer sujeira — Vinicius diz.

Um gato faz menos sujeira que o idiota.

— E tem que ter responsabilidade — diz minha mãe.

— Eu vou ser responsável – Tento arregalar meus olhos de forma pidona.

— Talvez isso seja bom — Mayara se manifesta. — Vai ensinar ela a ser responsável e ela vai ter companhia.

Minha mãe respira fundo e olha para mim.

— Você quem vai cuidar — diz minha mãe.

— Eu sei.

— Você vai ensiná-lo a fazer as necessidades na caixa de areia, e vai ter que limpar toda a bagunça.

— Sim.

— Você vai cuidar, alimentar, levar no veterinário.

— Sim.

— E quando morrer é você quem vai cuidar.

— Pode deixar, mãe.

 

 

 

Dias Atuais

 

É noite, Vinicius, Mayara e minha mãe estão aqui no hospital, o médico está para dar uma notícia.

— ...teremos que fazer testes com familiares para a doação de sangue, sabem quem estão aptos?

— Bom, o pai dela está doente e não pode doar, a irmã mais nova é menor de idade — Conta minha mãe. — Sobra eu, Vinicius e Mayara.

Prefiro morrer do que receber sangue dele!

— Então nós teremos que fazer os testes? — Mayara pergunta apreensiva.

— Sim.

Está estampada a preocupação de Mayara, a revelação que esse exame pode trazer muda tudo.

 

 

— Uma hora eles iam descobrir — digo baixo.

Descobrir o quê? — Zé me assusta com sua pergunta repentina.

Olho para ele e me viro cansada.

— Vá para o inferno!

Já tentei, não me querem lá.

 

 

 

Fevereiro de 2017

 

No dia seguinte, após a aula, levo o filhote para minha casa, ainda não pensei em um nome, as possibilidades são infinitas. Brenda também levou uma filhote para a casa dela, a mais dócil da ninhada. Ela quer tentar adaptar ele e um filhote de cachorro que ela tem lá.

Logo que chego, meu irmão mal olha para mim, está com raiva de eu ter levado o gato, ele não vai esquecer tão cedo.

Falando em esquecer...

 

 

Dias Atuais

 

 

Se eu estou no hospital, minha mãe e minha irmã estão aqui boa parte do tempo... significa que... MEU GATO ESTÁ SOZINHO COM O MONSTRO DO MEU IRMÃO. COMO PUDE NÃO PENSAR NISSO? Eu sou a pior pessoa do mundo. E se ele tiver feito alguma maldade com ele? Eu nunca vou me perdoar.

Ando para a saída e percebo que Marcelo e Diego estão me seguindo.

Para onde vai? — pergunta Diego.

— Preciso ver se o Arcanjo está bem.

Quem?

Tento lembrar qual o caminho de volta, nunca vim aqui sozinha, mas preciso tentar, meu gato precisa de mim. Tomei um caminho que conhecia, consegui chegar em casa quando estava próximo de dar meia noite.

Entro em casa e procuro por Arcanjo, não há sinal dele, parece ter sumido. Cheguei muito tarde. Eu sou uma idiota.

 

 

Fevereiro de 2017

 

 

Meu irmão ficou com cara feia o dia todo, está bem claro que ele odiou ter um gato aqui, mas ainda não se manifestou.

Já são 19:00, Mayara pode chegar a qualquer momento. Decido que vou colocar ração para o gato e por isso, me distraio por alguns instantes.

De repente, ouço um miado agudo e meu irmão gritando.

— Desgraça de gato!

Vejo meu irmão chutá-lo.

— Qual é o seu problema? — grito enfurecida.

Vou até o filhote e vejo que ele está bem, não está machucado. Vinicius idiota!

— Essa desgraça de gato me fez tropeçar!

— E precisa chutar ele?

— A casa é minha, eu faço o que eu quiser!

— Essa casa não é sua, é da mamãe!

Ele se aproxima, ameaçando me bater, mas o filhote se coloca entre nós e começa a rosnar para o meu irmão. Acho que o filhote está tentando me proteger, como se fosse um anjo da guarda.

— O que está acontecendo? — Vejo minha irmã entrar.

— Ele chutou o gato!

— Eu tropecei nele, falei que ia dar merda trazer esse gato para cá!

— A mamãe deixou, porque ao invés de reclamar você não olha por onde anda?

— Chega! — Minha irmã grita.

Meu irmão, frustrado, entra no quarto dele e bate a porta.

É quando penso em um nome para o gato, meu protetor, meu anjinho da guarda.

Arcanjo.

 

 

Dias Atuais

 

 

Saio de casa desesperada. Ele matou o Arcanjo. É tudo culpa minha. Eu só faço tudo errado.

— Garota, espera!

Percebo que Marcelo  está atrás de mim. Não só ele como também Diego e Zé.

— Vão embora!

Vão embora — Zé diz em deboche. — O mundo é tão cruel!

— Me deixa em paz!

Me deixa em paz! — Ele me imita.

Irritada, o encaro e ele faz o mesmo, acabo gritando, como um desabafo, tentando soltar tudo o que está preso dentro de mim. Quando me calo, outro grito. Ficamos em silêncio e procuramos pela origem do som, parece vir de uma igreja, mas igrejas não ficam abertas a essa hora.

Seguimos até lá, assim que entramos, vemos uma menina tentando sair da igreja com um homem a perseguindo, o pastor. A ironia óbvia, o pastor que tenta comer as ovelhas mais novas.

Você o conhece? — Diego pergunta.

— Eu não vou na igreja.

— Mas conhece?

— Devo ter visto alguma vez pelo bairro.

Ele continua a perseguir a menina, um hipócrita idiota em um mundo de hipócritas e idiotas. Provavelmente, amanhã estará agindo como se não tivesse feito nada.

As luzes começam a piscar, elas estouram e um raio atinge o hipócrita nos olhos, que cai gritando em agonia.

Vejo os outros olharem surpresos para Zé, que parece apático.

— Não vão se acostumando, não gosto de bancar o herói.

 

 

Onze Anos Atrás

 

 

Eu tinha três anos, mal sabia palavras, levei anos para entender o que foi dito nessa conversa, mas sempre soube que significa algo ruim.

Estava atrás da porta, ouvindo tudo sem entender nada.

— Estava em um terreno... todo destruído...

— Quem faria algo assim?

— Não sei... coitado... cão tão bonzinho.

— As meninas não podem saber.






 

 

 

 





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