For You escrita por Lux Noctis


Capítulo 1
Capítulo 1


Notas iniciais do capítulo

Música: For You - Tin Sparrow

Y'know... right? It's all for you rs
(Lara)



Embora os dias tenham transcorrido de forma calma, havia algo de diferente naquela noite de chuva. Algo que Peter jamais saberia identificar, apenas sentir, e não de forma superficial, sentia de fazer arrepiar os pelos e trazer um desconforto e uma altivez muito maior à sua mente. Sentia-se hiperativo e preso entre as quatro paredes que compunham seu quarto naquele apartamento do Queens. Sentia o coração acelerar a cada passo que ele dava, desgastando o encarpetado. Estava preso no loop, entre o ir e vir naquele centro minúsculo de seu quarto, ás vezes trombando contra a cadeira que ficava ali para nada mais que servir de cabide. Os relâmpagos clareavam tudo, menos sua mente abarrotada de pensamentos ruins sobre o que sentia no momento.

Jogou por fim na cama, apreciando o teto, por vezes virando o rosto para notar as gotículas de chuva que se derramavam ali, limpando o vidro pouco a pouco. Pegou o celular, que há muito jazia entre os lençóis emaranhados, desbloqueando a tela, notando (assim como o apontado por May) que ainda mantinha como descanso de tela a foto que havia tirado com Tony Stark dentro daquele carro. Isso já tinha… anos. Olhou para o sorriso do outro, notou também o arroxeado, embora discreto naquele rosto de pele levemente bronzeada, o que o fez lembrar de como tudo havia desandado. Os Vingadores estavam divididos, Tony e o Capitão América haviam trocado socos…

Respirou fundo, afundando a cabeça ao travesseiro, fechando os olhos, bloqueando a tela de seu celular, deixando-o ao peito, com as mãos à envolvê-lo. A inquietação não o havia deixado, mas estava agora ignorando tudo aquilo com mais afinco… estava. Até o toque de seu celular o despertar daquele transe. Vendo a foto de Tony Stark brilhar em seu visor, não deixando mais nenhum toque, atendendo de prontidão, sentando-se na cama o mais rápido possível.

Nada… só ruídos de uma respiração tão pesada, havia dificuldade ali. Ele conseguia notar, o que fez os pelos novamente se eriçarem em descontentamento àquilo. Sentindo a própria respiração seguir a dificuldade da do outro lado da ligação.

—  Senhor Stark? —  a voz baixa, chamando pelo bilionário.

—  Ligação de emergência.

A voz da IA chegou aos ouvidos de Peter, que sequer esperou mais informações, pulando da cama, pegando sua mochila e correndo para fora do apartamento, berrando para May que precisava sair, era urgente.

Os passos eram tão apressados, enquanto corria para o beco mais próximo, despindo-se para trajar seu uniforme e saltar de prédio em prédio, mesmo com a chuva que vinha de encontro ao seu corpo, fazendo molhar até mesmo as peças que ele agora jogava na mochila, e ao contrário do costumeiro, não a largou ali, colocou-a nas costas, lançando suas teias o mais alto no prédio, subindo de encontro à chuva e a noite. Direcionando-se à Torre Stark.

Por todo o percurso, perguntou-se o que poderia ter acontecido de tão grave, para que Friday lhe fizesse uma chamada de emergência, só conectando um ponto importante depois: a IA não simplesmente o selecionaria como esse tipo de contato. Oh não. Havia Virgínia Pepper Potts, James Rhodes e também Happy Hogan. Mas a IA ligou para ele, Peter Parker.

Provavelmente por um padrão adotado, mas qual? Tony não ligava para ele com frequência, tampouco se sujeitava a atender as ligações feitas por Peter. Era sempre assim com ele, um conglomerado de perguntas sem respostas, com isso Peter já havia se acostumado. Mas ali estava, sem titubear, sem esperar que qualquer informação extra fosse cedida por Friday. Bastou-lhe a respiração pesada e o alerta.

Não notou também que seus pelos estavam novamente eriçados, exatamente a mesma sensação que tinha antes da ligação. Era ele…

Usou de sua identificação para entrar, prontamente ajudado por Friday que lhe indicou o exato local onde encontraria por Tony Stark, ela só não o avisou sobre o estado que o encontraria. Havia tirado a máscara ao entrar, não precisava se esconder ali.

As luzes, como num estado de reserva de energia. Fraca, embora presente. Olhou ao redor, notando onde estava; o quarto de Tony. Olhou próximo à cama, nada além de lençóis e… algo tremendo. Jogou-se a frente, ajoelhando-se próximo ao homem que agarrava os joelhos como se evitasse ver o mundo diante dos olhos.

—  Senhor Stark…? —  a voz rompeu trêmula por sua garganta, então pigarreou antes de tornar a chamá-lo. —  Senhor Stark! — os joelhos estavam ao chão, apoiou então a canhota pouco mais a frente, levando a destra a tocar o rosto de Tony, buscando sua atenção. Parecia tão perdido, tão distante. Confuso. —  O que aconteceu?

A pergunta pareceu tão descabida. Ele tremia, suava frio e os olhos vidraram-se em nada, mas aparentemente em tudo ao mesmo tempo. A mão enluvada tocou o rosto do mais velho, buscando acalmá-lo da forma que podia. Sequer sabia se agia certo, não tinha o menor conhecimento quanto aquilo, mas estava disposto a ficar e ajudar. Seus olhos evidenciavam isso, assim como seus toques repletos de esmero.

Quando conseguiu chamar a atenção alheia, Peter sorriu, compassivo. Aproximando-se um pouco mais, sentindo a mão trêmula sobre seu braço, puxando-o com mais pressa, abraçando-o, para sua total surpresa. Fora instintivo envolvê-lo com ambos os braços, aninhando a cabeça dele ao seu peito, acariciando os fios, alegando em voz baixa que estava tudo bem, que ele estava seguro. Que precisava apenas se acalmar.

As palavras surtiram efeito também em si, fazendo o arrepio por fim dar-lhe trégua.

As mãos, agora um pouco mais firmes, de Tony agarravam-se ao material da roupa de Peter, como se temesse uma separação. Sua respiração aos poucos voltava ao normal, podendo retornar a pensar com clareza. Soltando o ar pelos lábios ao notar que a clareza o obrigava a soltar o moleque, olhando para ele como se fosse dono de toda a verdade, e que tal cena; jamais acontecera.

—  Melhor?

—  Como chegou aqui?

Uma pergunta com outra. Peter revirou os olhos, nunca conseguia as palavras certas.

—  Friday. Chamada de emergência.

Dava quase para ouvir as engrenagens daquele cérebro funcionando. Observou-o se afastar um pouco, soltando os lençóis que outrora segurava junto ao corpo.  

—  Hm —  monossilábico, pragmático. Ou como Peter achava: frustrante em alguns casos.

Não que ele estivesse muito longe de frustrar muitas coisas, pessoas. Mas sequer tinha conhecimento de tal. Olhou ao redor, enquanto Tony parecia se situar. Viu papéis amassados, o que não deveria estar ali. Notou a caligrafia fina de Tony, recordando-se da própria. Assim como as três palavras que mais tinha vontade de escrever, mas ali estava ele… frustrando a si, pela ausência de coragem.

—  Vou indo então, senhor Stark —  apontou com o polegar, a porta atrás de si, caminhando de costas, mordendo os lábios.

—  Espera garoto.

—  Sim! —  o sorriso não poderia ser maior.

—  Está chovendo, não deveria sair assim.

Tony talvez sequer tenha notado que a roupa de Peter estava molhada da chuva. Ele não havia visto o menor problema em se molhar para chegar até ali. Não veria nenhuma outras mil vezes se necessário.

—  Já estou com as roupas molhadas —  apontou, como se fosse óbvio. Olhando o chão logo após, vendo que havia pequenas poças de água onde havia ficado ajoelhado.

Tony por fim notou a molhadela em seu quarto, olhando o percurso que ele deveria ter tomado até ali, vendo as marcas de passos. Caminhou até o closet, abrindo a porta e retirando dali uma calça de moletom, que sequer havia usado na vida, e uma camiseta (essa sim, de seu acervo pessoal), entregando-a ao rapaz, basicamente quase empurrando as peças ao peito. Apontou logo em seguida para a outra porta, indicando o banheiro onde ele poderia se trocar. Estava em total silêncio, desconfortável por Peter tê-lo visto em tais condições. Embora alguma parte de si, agradecida pelo rapaz aparecer. Ah Friday…

Do banheiro, Peter se despia da roupa de Super-herói, para trajar as peças cedidas por Tony, vestindo a calça, notando ainda a etiqueta, esperando o mesmo da camiseta. Mas quando a trouxe frente ao rosto, sentiu o aroma amadeirado do perfume de Tony, inalando-a com mais afinco, trazendo-a para ainda mais perto, esfregando seu rosto no tecido de algodão.

—  Senhor Stark… por que sou sua chamada de emergência? —  Peter berrou do banheiro, a porta de vidro jateado deixava que Tony apenas visse o contorno da silhueta do rapaz, enquanto cheirava a camiseta, fazendo-o erguer a sobrancelha.

—  Por que está cheirando a camiseta?

Pergunta constrangedora versus pergunta constrangedora. Pontos anulados, perguntas não respondidas. Duas pessoas frustradas, ambas envergonhadas. Embora fosse óbvio que Peter estava muito mais, a face vermelha o entregava de bandeja. Mas isso Tony não podia ver sentado aos pés da cama de casal.

Ele esperou o calor de sua face se dissipar, para então voltar ao quarto, com as vestes de Tony.

Os fios úmidos caiam sobre o rosto, e na vergonha do momento, sequer queria passar a mão para lhes impor certa ordem, fazendo-o por puro reflexo.

—  Friday calcula as probabilidades de chegada em casos de emergência, padrões de rosto nos contatos… —  e fotos, e vídeos. Tudo isso ele deixou abafado. Nome mais citado por seus lábios também, mas ah, claro que isso ficaria em sigilo.

Peter aproximou-se, sentando-se na cama ao lado dele, apoiando os cotovelos às coxas, entrelaçando os dedos da destra com os da canhota, mantendo as mãos ocupadas.

—  Tem seu cheiro —  apontou para a camiseta, utilizando-se do rosto para tal, acabando por encarar o perfil de Tony. Perguntas respondidas, por fim. —  Crise recorrente?

—  Mais do que gostaria.

O silêncio prevaleceu, e Peter não queria mais interrogá-lo, sabia que certas coisas não adiantaria apenas perguntar e obter respostas. Algumas requerem tempo, e ele estava mais do que disposto a doar o dele.

Tony não voltou a se deitar, mas acomodou-se na cama, apoiando as costas à cabeceira, e passou boa parte da noite trocando informações com Peter, dizendo seus projetos, perguntando sobre os dele. Passaram horas assim, até o mais jovem cair no sono ali mesmo. Não demorou para que Tony fizesse o mesmo, deitado de barriga pra cima, um braço sob a cabeça, olhando o teto como se dali as respostas caíssem.

Deveria ser grato, deveria deixar isso claro quando Peter acordasse… mas por ora, ah, por ora apenas deixaria o sono lhe tomar. E se possível uma calma noite de chuva lhe embalaria em bons sonhos. Tão doces quanto o rapaz ao seu lado na cama. Tão zelosos quanto, ele esperava também.

 

Peter estava ali por ele, não havia dúvidas.





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