Play escrita por Inial Lekim


Capítulo 1
Tradição




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Tradição é uma palavra com origem no termo em latim traditio, que significa "entregar" ou "passar adiante". A tradição é a transmissão de costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças, lendas, para pessoas de uma comunidade, sendo que os elementos transmitidos passam a fazer parte da cultura.

 

 Shiro sempre gostou de admirar a decoração desordenada de sua casa, aquela na qual estava vivendo durante os últimos cinco anos... e na qual pretendia continuar a morar nos anos que ainda viessem.

Ele gostava da sensação de diferença que tinha ao entrar em cada quarto, da explosão de cores e estampas dos papéis de parede e a variedade de quadros que, a qualquer outra pessoa, aparentariam não ter qualquer lógica. Sempre havia alguma visita que em algum momento acabava questionando a um dos moradores se a escolhe de cores e objetos haviam sido ao acaso... mas é claro que eram apenas aqueles que não os conheciam. Qualquer pessoa que passasse mais de duas horas com Lance saberia que havia sido ele exclusivamente a decorar a sala de estar, Keith havia decorado a cozinha e Shiro o escritório. Lance havia escolhido as flores do jardim, Keith a cor que decorava a casa pelo lado de fora e Shiro os azulejos e os móveis que mobilhavam o banheiro. Entretanto não havia sido uma divisão fácil... houve um sorteio duvidoso, muito suborno e fantasias – que ele esperava repetir mais vezes – antes que finalmente definissem quem faria o quê.

O único local que os três haviam decorado em conjunto, havia sido o quarto que pertencia a eles. E, de fato, o local era uma verdadeira mistura das três personalidades de seus habitantes.

E Shiro adorava isso.

Adorava chegar em casa e se sentir sendo recebido por Lance, mesmo que ele ainda estivesse na floricultura... adorava acordar no meio da noite e sentir que Keith estava ao seu lado, apesar de saber que ele estava de plantão no hospital veterinário.

E não havia uma única peça que ele mudaria de lugar, nem mesmo os pôsteres de bandas de rock independente que Keith adorava e decoravam cada parede da cozinha.

E hoje era quarta-feira.

E, como toda família, eles tinham suas próprias tradições.

Todo primeiro domingo de cada mês, eles passavam o dia com a família de Lance – e eram tão bem alimentados que Shiro lamentava que o trabalho e os horários inconstantes de Keith os impedisse de ir mais vezes.

A cada sábado, o único dia em que mais se coincidia as folgas e maior tempo livre, eles revezavam em suas fantasias – e nessa semana, Shiro mal esperava para ver Keith e Lance nas roupas que havia comprado para eles.

Às sextas-feiras, sempre possível, eles iam jantar na casa de um de seus amigos – e talvez conseguissem ir à casa de Hunk essa semana, se Keith conseguisse trocar seu plantão.

E as quartas-feiras, eles assistiam a um filme, enrolados em uma manta decorada de estrelas e leões bordados em vermelho, preto e azul, que a mãe de Lance havia dado a eles de presente, logo que passaram o primeiro dia naquela casa. Eles compravam cerveja e faziam baldes de pipoca, escolhiam a um filme na Netflix e passavam as próximas horas abraçados sob o cobertor. E para Shiro, as quartas eram suas favoritas, pois, para qualquer outra pessoa, esse poderia ser um simples programa para se ficar em casa, mas ele sentia como uma das coisas mais íntimas em seu relacionamento.

Shiro pode ver Lance sentindo-se deslumbrado por histórias de amor em preto e branco, apesar de dizer o quanto achava as cenas “sem cor”. Ele viu Keith tentar esconder as lágrimas, enquanto assistiam a Frozen, e Elza cantava Let it go. E sabia... de nenhuma maneira eles deixariam passar a emoção de Shiro enquanto assistiam a Moana.

Era um momento em que mostravam o mais íntimo de sua personalidade, aquilo que jamais deixavam que qualquer outra pessoa presenciasse.

E essa era uma das maiores provas de amor e confiança que poderia existir em seu relacionamento. Não havia vergonha ou medo... e eles eram apenas eles.

Por isso ele havia estado animado todo o dia.

E, ao estacionar em frente a pequena casa pintada em um tom de azul celeste, sorriu como fazia todos os dias ao se recordar de que Keith havia escolhido aquela cor por ser a preferida de Lance. Não que ele o tenho dito em volta, mas essa era uma daquelas coisas que são perceptíveis depois de se conhecer alguém por tanto tempo.

Conforme se aproximava da porta, o som da voz de David Bowie tornava-se cada vez mais compreensivo, enquanto cantava Starman. Assim, não foi uma surpresa quando, ao entrar em casa, encontrou Keith de toalha, ainda molhado pelo banho, indo de um cômodo a outro aparentando estar em busca de algo... Shiro não via desde o dia anterior, quando ele havia saído para mais um plantão. Ele era tão bonito...

Então Keith parou e olhou para ele. Houve o ranger suave da porta abrindo e se fechando atrás de sim e o já conhecido cheiro adocicado de jasmins. Lance havia chegado. Os olhos de Keith se estreitaram, focados em um ponto atrás de si... e então Shiro soube o que ele tanto parecia procurar.

“Você está com a minha camiseta, Lance!”, acusou, cruzando os braços em frente ao peito.

*

Shiro adorava as quartas-feiras.

Mas precisava admitir que era uma verdadeira batalha escolher qual seria o filme assistido... e talvez isso fizesse parte dessa pequena tradição entre eles. Pelo menos... hoje era ele quem estava com o controle remoto na mão.

Ele finalmente havia tirado a prótese do braço direito que o incomodou durante todo o dia e agora estava deitado no sofá extravagantemente grande que Lance havia escolhido, com Keith deitado com a cabeça em seu colo e Lance com a cabeça deitada em seu ombro direito e a mão fazendo pequenos círculos em sua barriga, sob a camiseta. A qualquer um que visse, pareceria uma bela cena, apenas três homens que se amavam e gostavam de desfrutar dos momentos que tinham em conjunto... exceto que...

“Não vamos assistir Star Trek!”, Shiro tinha certeza que Lance olhava para Keith tentando dar-lhe seu “olhar ameaçador”. “É um tédio! Se eu quisesse dormir, ia pra cama!”.

“Star Wars é um porre! Cheio de roupão, soldados idiotas e personagem sem sal”, Keith se levantou, tirando o cobertor de si para que pudesse se apoiar nas mãos e encarar Lance. “Semana passada já assistimos La la land porque você queria! Hoje vamos ver um filme que seja bom!”.

“E em que universo Star Trek pode ser considerado bom?”

“No mesmo em que Star Wars é uma merda!”

Eles estavam a quase meia hora nessa discussão.

Claro, Shiro deveria ter adivinhado que isso aconteceria no momento em que Lance surgiu vestindo uma enorme camiseta com a máscara do Darth Vader e Keith com uma camiseta verde com os dizeres Vida longa e próspera”. Também, não era como se eles escondessem seus desgostos um do outro.

“Podemos ver Os caçadores da arca perdida”, sugeriu, pensando que assim conseguiria dar um fim à discussão de Keith e Lance.

O que se sucedeu, foi o oposto. Com Lance se afastando e o encarando com um olhar traído.

“Como assim você acha que Indiana Jones é melhor que Star Wars?”, Lance cruzou os braços, à espera de uma resposta que Shiro realmente não queria dar.

“Aceita que qualquer coisa é melhor que Star Wars”, provocou Keith. “Aqueles seus velhos de roupão são um tédio”

Pela expressão de Lance, Shiro soube que ele nunca deixaria Keith esquecer que havia pronunciado essa frase pelo resto de suas vidas...

“Espero que a força esteja com você e o tire desse caminho sombrio”.

Assim, passaram-se 45 minutos até que o play fosse apertado, e Shiro sentisse os dois voltassem a se aconchegar a si.

No final das contas, eles acabaram fazendo uma maratona dos episódios de Power Rangers: Megaforce... e levaram quatro episódios até que Keith e Lance chegassem a um acordo que quem era qual ranger.

E Shiro mal poderia esperar pela próxima quarta-feira.


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