Ele Não Está Tão a Fim de Você escrita por Ewerton


Capítulo 17
Capítulo 17




Estava com Kyle, sentado no meio da sala de estar, assistindo um filme quando recebi uma ligação. Era de noite e meu melhor amigo estava em casa. Me perguntei mentalmente se ele iria dormir aqui novamente. Esperava que sim. Gostava quando isso acontecia.

Olhei para a tela do celular, era a Lilly. Kyle olhou por cima e esticou a mão no sofá para pegar o controle, querendo pausar a cena em que se passava. Neguei com a cabeça, ao mesmo tempo que levava o aparelho até a orelha.

— Tudo bem, essa parte é chata.

— Não quero ver sozinho.

Sorri, abaixando os olhos ao ouvir a voz de Lilly por trás da transmissão.

— Alô?

Mudanças de planos. Vamos à formatura.

— O quê?

Foi isso que eu disse, vou com você pra formatura. Não me faça repetir.

Abri a boca, querendo dizer algo. Mas não conseguia. Tive de olhar para Kyle, que deu de ombros. Ele não escutava o que Lilly falava, então olhou novamente para a televisão, pra imagem congelada.

— E por que mudou de ideia? Assim, do nada?

Acontece que um cara está super afim de mim. E eu, querendo sair dessa, acabei dizendo que iria pra formatura com você. Meu namorado.

Puta merda. Fechei os olhos, abaixando a cabeça para cobrí-la entre as pernas. Assim que contei até cinco, levantei o rosto. Respirei fundo.

— Você não fez isso, Lilly.

Fiz, sim. Relaxa, nem sabe que você existe. Apenas disse que iria com o meu namorado. Não especifiquei que era você.

— Mas porra, Lilly. Logo eu?

Não fique bravo comigo. Eu sou a única opção para o baile da formatura que você tem.

Olhei novamente para Kyle, ele analisava o controle.

— Tá, e funcionou?

Não. Ele ainda teve a audácia de dizer que não é ciumento.

— Aonde você conheceu ele?

Em um clube, na internet. Acontece que ele mora a quilômetros daqui, mas que iria vir me visitar. Eu estava sem desculpas, então soltei essa. Me desculpe.

Engoli em seco, fechando os olhos.

— Tudo bem, Lilly. Desde que a gente não se beije, seria estranho.

Kyle virou, com o rosto franzido. Neguei com a cabeça, em sinal de que não era nada demais.

Bom, agora que você concordou com o meu plano maquiavélico, vamos para a parte dois.

Fiquei esperando que dissesse algo. Mas não, a linha ficou muda, até imaginei que tinha desligado. Então percebi que queria que eu dissesse algo.

— E qual é?

Comprar o meu vestido.

— Okay. Amanhã vemos uma loja em que podemos dar uma olhada.

Amanhã não, agora.

— Não posso, estou vendo filme.

Com seu namorado?

— Não. E ele nem é meu namorado. — nem me atrevi a olhar para Kyle. Fiquei vermelho na hora. — É apenas o Kyle.

Ah, então o chame para ir com a gente. Duas opiniões sobre vestidos é muito melhor do que um.

— Não dá, Lilly. Estamos no meio de um filme.

O filme dá pra esperar, só apertar o maldito pause.

— Você também pode esperar.

Sou sua única salvação, pequeno Quentin.

Mordi os lábios, olhando para Kyle.

— Eu te odeio, fique ciente disso. — falei pra Lilly, logo abafei o bocal na minha camiseta, enquanto encarava o meu melhor amigo. — Lilly quer comprar um vestido para a formatura. E quer que a gente vá com ela. Agora.

Kyle concordou, desligando a tv com o outro controle.

— Então vamos. Estou cansado mesmo desse filme, entendo nada.

 

De carro, andamos pela cidade a noite. Para mim, parecia que todas as lojas de vestidos eram iguais. Mas para Lilly, era diferente. Quando paramos em um posto de gasolina, Kyle ficou do lado de fora do carro, com o frentista. Me virei no banco para olhar atrás, onde Lilly encarava a tela do celular.

— Lilly.

Lilly levantou o rosto.

— Oi.

— Se você odeia vestidos, como conhece as sete lojas da nossa cidade?

Não foi uma acusação. Estava apenas incomodado, porque ela tinha dado essa desculpa quando a convidei para ir ao baile comigo, agora, está indo em todas elas. Parecia até que antes tinha inventado apenas uma desculpa, como sempre faz.

— Perguntei pra minha prima, ela é o oposto de mim. Me mandou uma lista no celular. Com cada nome da loja e o local.

Concordei com a cabeça, virando para encarar Kyle novamente. Lilly respirou, se aproximando do banco do passageiro. Com a mão direita, tocou em meu ombro.

— Quentin. Não ir para o baile não era por sua causa. Você, mais que ninguém, seria o par ideal de uma valsa. É que… Isso tudo é demais pra mim. Acho fútil, sabe?

Segurei em sua mão, mesmo olhando para o frentista.

— E então por quê não arrumou uma outra desculpa?

Lilly tirou a mão, voltando a se sentar normal. Ela tinha dado de ombros.

— Eu sei que se não for, estarei perdendo um dia extraordinário. Não é sempre que usamos um vestido, dançamos em um salão com vários de nossos amigos e que sentimos um orgulho por estar ali. É mágico, se não fosse pela purpurina, é claro. Mas é algo que se eu não fizer, daqui uns anos vou parar e pensar “Por que não fui a formatura quando Quentin me convidou?” E logo os meus filhos vão me perguntar isso e eu não vou saber responder. Porque estarei ocupada demais me lastimando por ter feito essa cagada de querer faltar nesta noite de festa.

Tive de me virar para encará-la. Lilly olhava para o celular, segurando com a mão fechada. Ela estava nervosa. Dava para ver pelo jeito, encolhida.

— Ei, está tudo bem. Estou aqui para entrar naquele salão e arrasar com você.

Lilly riu, semicerrando os olhos.

— Você acabou de dizer “arrasar”?

Dei de ombros, me recusando a repetir. Nisso, Kyle entrou no carro. Ao olhar para nós, percebeu que tinha perdido algo, mas se recusou a tentar. Tinha em mente que o que acontecia entre os dois ficariam entre os dois. Nada era compartilhado.

— Muito bem, para onde iremos agora?

— É meia-noite. — lembrei, olhando de Kyle para Lilly. — Será que alguma loja estará aberta nesse horário? Porque só visitamos duas, até agora.

Lilly olhou para o celular de novo.

— Duas lojas estão fechadas agora, há apenas uma aberta, até as duas.

Kyle enrugou o nariz.

— Que tipo de loja de vestidos fica aberto até as duas?

Lilly deu de ombros.

— Emergência de moda?

— “Aí, estava dormindo e no sonho usava um vestido azul super lindo e fashion. Tenho que ir agora mesmo atrás e ver se encontro.” — Kyle imitou uma voz fina de garota. Então todos caímos na gargalhada. Isso que estávamos à cem por hora em uma estrada escura.

— Você não presta, Kyle.

Kyle deu de ombros.

— É o que eu imagino nessas horas.

Meu celular vibrou. Olhei para a tela. Era Daniel. O meu coração disparou. Na mensagem dizia: “Se não te conhecesse, diria que está tentando me evitar. Fiz algo de errado? Algo de que não gostou?” Olhei para a paisagem escura por trás do vidro do carro. O que diria? Não era um bom momento para isso. Mas, querendo ou não, ele merecia uma resposta.

Ou poderia desligar o celular.

Não, não faria isso.

Não é você, sou eu…” Não, apaguei. “Muita coisa vem acontecendo comigo…” Apaguei a mensagem de novo. O que iria dizer? Martelando o celular na mão, Lilly chamou minha atenção.

— Quentin, está escutando?

Pisquei os olhos, tentando encontrá-la através do retrovisor.

— O quê?

— Está nas nuvens. Anda pensando no namorado?

— Ele não é meu namorado, já disse.

— Tanto faz. Você está aério. Acabei de falar com Kyle, ele concordou.

— Ah, me deixem.

Quando pensei em pegar no celular, Lilly se aproximou de mim e esticou a mão para pegar o aparelho. E conseguiu. Aos meus protestos, começou a ler em voz alta. Queria jogá-la para fora do carro, mas o Kyle quase se atrapalhou na estrada ao ver uma sombra passar na frente. Tinha jurado que era um alce trotando.

— Lilly, pare. Me dá meu celular.

— Não, espere. — e começou a rir. — Ele está com saudades de você, Q.

— Eu sei. — consegui pegar o celular de volta, desligando a tela. — Só não sei o que responder, ainda.

Lilly deu de ombros.

— Simples: Vá embora. Não quero você.

— Ele te incomoda?

Foi Kyle quem perguntou. A voz de Kyle me alarmou, ao ponto de encará-lo. Ele me encarava de volta, então encolhi os ombros.

— Não. Ele é legal. Perfeito, na verdade. Mas… Não sei. É muito cedo para falar algo, nem sei o que isso vai dar.

— Não está criando expectativas.

— Não estou criando expectativas. Arrumar um namorado é a última tarefa dos meus planos.

Desviei o olhar para a janela de novo. Cadê o restante desta cidade? E por que uma loja de mulheres ficaria tão longe?





Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Ele Não Está Tão a Fim de Você" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.