Os Guardiões do Tempo: Agentes da Ordem - Parte II escrita por R G Assis


Capítulo 16
Capítulo 14 - Dor além da perda




Arthur tinha de ser rápido, os saxões eram somente uma distração, uma maldita distração, o que preocupava Arthur era que a distração fora rápida demais, se eles quisessem teriam ficado mais tempo, mas não, foram rápidos, o que significava que o que quer que queriam fazer no castelo devia ser algo rápido, algo tão rápido que não perderam tanto tempo os distraindo e isso era ruim, muito ruim, pois Arthur podia sentir, ele sentia em seu âmago que não daria tempo.

Algo terrível estava acontecendo, não, algo terrível tinha acontecido.

Ben e seus soldados por estarem mais perto foram os primeiros a se voltarem e correrem para o castelo, deixando poucos homens de guarda, como Ben estava com Boris por perto, subiu habilmente e seguiu na frente de todos, Arthur foi o segundo a conseguir subir em sua montaria, seguiu Ben ultrapassando a todos pelo caminho.

Seu coração parecia vir à boca, não o sentia bater somente, o sentia pulsar em sua cabeça, tão forte quase como se quisesse estourar por dentro, Arthur ignorou as sensações ruins e continuou em frente.

Quando quase estava chegando teve um vislumbre da cauda do cavalo passando pela porta, Ben nem se deu ao trabalho de descer, galopou com Boris castelo adentro, Arthur seguiu seu exemplo, virou alguns corredores, mas logo teve de descer como Ben também o tinha feito, pois Boris relinchava como se reclamando do corredor pequeno que o haviam deixado, Arthur deixou Dama do mesmo modo apressando.

Correndo para alcançar Ben, Arthur sabia exatamente para qual quarto ele estava seguindo, o alcançou segundos antes de ele entrar pela porta.

"Nada."

Ben resmungou.

"É um bom sinal, certo?"

Arthur tentou ser otimista.

"Espero que sim. O que acha? Dividir?"

Arthur concordou acenando, seguiu então para os aposentos reais, enquanto Ben corria por outro corredor. Cauteloso Arthur andava rápido, mas devagar o suficiente para ver o corredor antes de virar, quando chegou aos aposentos reais, por um momento ficou aliviado por não ver de início nenhum sinal de luta, até que algo chamou sua atenção, um pequeno saquinho preto com uma fita prateada jazia na frente de sua porta.

"Não."

Quase gritou correndo até ele deixando sua espada cair pegando o pequeno embrulho de veludo que tanto via Melanie carregar, o abriu quase rezando para estar errado, infelizmente suas preses não foram atendidas, dentro o livro repousava inalterado, o livro de Melanie, o livro que nunca soltava, o livro que nunca perdia, o livro que nunca deixava para trás. Nunca.

Um grito de terror de repente o tirou de seus devaneios, sua mente voltou a funcionar assim que viu a espada caída ao chão, a pegou segurando firme, enquanto tinha o livro seguro na outra mão. Mais um grito. Ben, eu estou indo aguente firme, pensava enquanto corria freneticamente pedindo para chegar a tempo, a tempo de conseguir impedir que perdesse mais alguém.

Quando finalmente chegou ao local de onde tinha vindo os gritos, Arthur não entendeu a cena, não tinha nenhum inimigo, nenhuma luta, somente alguns soldados que já os tinham alcançado bloqueando sua visão, eles olhavam para algo a frente, um dos soldados notou sua presença abaixando a cabeça como que dizendo que sentia muito, seus olhos se arregalaram. Não Ben! Cheguei tarde.

Num segundo passou pelos soldados somente para descobrir que Ben estava vivo, vivo e debruçado sobre um corpo, ao redor dele corpos saxões jaziam mortos, Arthur se aproximou sem saber se queria mesmo fazer isso e pela segunda vez sua espada escorregou de sua mão caindo com um baque assustando Ben o fazendo olhar para ele.

Seu rosto era uma máscara distorcida de dor, seus olhos procuraram os de Arthur que estavam arregalados de choque, por um momento compartilharam o mesmo sentimento de perda. Tremendo Arthur se segurou para não ir ao chão com a visão, pois assim que Ben levantou o rosto, ele pode ter certeza de quem estava em baixo, pode ver o rosto inchado, surrado e manchado de sangue, de seu irmão mais velho, daquele que tinha uma esposa que o amava, daquele que teria um filho e uma família para cuidar, daquele ao qual fora tirado tudo isso, pois Dom estava morto.

***

Se perguntassem para ele como havia chegado a Távola Redonda, sentado em sua cadeira, encarando rostos que não pareciam mais familiares, Arthur não saberia dizer, depois de Ben encontrar o corpo de Dom e Arthur logo em seguida, um dos soldados voltou para avisar a Dario e ao seu pai, tudo passou que nem um borrão, o rei se ajoelhando ao lado do corpo do filho, Dario apertando forte o ombro de Arthur como se estivesse o apoiando, mas, na verdade, ele que parecia se apoiar tentando não cair, Ben se arrastando dali, depois alguém o conduzindo para algum lugar, não lembrava, nada parecia real, a única coisa que parecia ser verdadeira e não fruto de um pesadelo era o saquinho que continuava sendo agarrado fortemente por suas mãos, como se certificando de que realmente estava ali, que Arthur não ficara louco e estava tendo alucinações, mesmo que desejasse que aquele dia não passasse de um pesadelo.

A reunião fora convocada para contabilizar os danos, verificar como os inimigos invadiram tão facilmente o castelo e para decidirem o que fariam em seguida, o que sabiam até o momento era que, de fato, aquele não fora o ataque principal, foi um ataque com um único objetivo, um objetivo que todos já suspeitavam qual era, principalmente quando notaram que as cadeiras ao lado do rei, destinada a Merlin e a sua aprendiza, não se ocupariam tão cedo.

Merlin não fora encontrado para participar do conselho, ninguém o tinha visto após o ataque, esse fato por um momento os deixou intranquilos, mas se tratava de Merlin afinal, não era a primeira vez que ele sumia no meio de uma crise, aliás Merlin fazia muito disso, desde que Arthur podia se lembrar, nunca se envolvendo diretamente, além disso Merlin já poderia ter ido atrás de Melanie, mas ninguém ousou considerar essa hipótese.

Mesmo se esforçando para manter o foco no que o pai e alguns cavaleiros diziam ou reportavam sobre o que tinha acontecido a cada um em seu posto, a cabeça de Arthur viajava para longe, tentava entender, processar tudo aquilo, o ataque, o desaparecimento de Melanie, a morte de Dom, sabiam somente que Melanie não tinha sequer entrado em uma das salas secretas, ninguém a tinha visto, o que podiam imaginar pela trajetória dos corredores era que Dom encontrara Melanie e tentara sozinho protegê-la, Dom somente estava lá sozinho pois, assim que foram avisados do ataque ele mandou seus soldados se deslocarem para a frente e ele iria só depois de se certificar de que Marion estava em segurança.

Oh, Marion, Arthur nem sequer conseguia imaginar a dor, fora seu pai quem lhe deu a notícia e ele também que teve de contar para a irmã, Arthur não quis estar presente para ver as reações, o que não impedia sua imaginação de ser bem mais criativa e cruel.

Respirou fundo, tentou se concentrar, Melanie, sim eles já sabiam que era ela quem os saxões queriam, desde o início fora por sua causa, afinal o que sabiam era que Mordred estava no controle do exército saxão, por consequência da inutilidade de seus poderes causada por Merlin, ele ainda não tinha poderes suficientes, então tinha de mandar outros fazerem o trabalho por ele, Mordred queria ganhar a guerra antes que ela iniciasse, tirando do tabuleiro a única peça que poderiam usar contra ele.

Sim, estava claro para Arthur, eles teriam de resgatar Melanie e teriam de ser rápidos, ela não só era sua única chance quando Mordred enfim se erguesse totalmente com todos os seus poderes, como também era uma parte de Arthur a qual fora arrancada dele sem aviso, deixando um vazio que jamais sonhou em sentir, pior ainda que a perda de sua mãe, como poderia suportar aquele sentimento, como Ben continuava vivo? Por um momento esqueceu a própria dor e olhou para o amigo, aquele que tinha perdido tudo e muito mais agora e continuava firme, continuava de pé, Arthur não saberia dizer se teria a mesma força.

Ao perceber que Ben estava falando algo para todos, Arthur tentou sair daquela bolha sem som a qual se encontrava para ouvir o que estava acontecendo ao seu redor, pareciam que estavam tendo uma discussão, sobre, ah Melanie! Agora sim Arthur estava totalmente concentrado na conversa.

"Nós precisamos ir agora. Não há tempo, todos sabem o porquê dos ataques, o objetivo e se não fizermos nada agora eles terão conseguido."

Era para seu pai que Ben se dirigia. O rei, naquela sua máscara que disfarçava a dor e a fúria, de certa forma era assustador, nessas horas ele parecia para Arthur um rei, somente um rei, não o seu pai, mas um homem com um fardo imensurável para carregar.

"Eu compreendo, Benjamin, infelizmente não temos o que fazer por agora, logo anoitecerá e não teremos vantagem entrando às cegas no território inimigo. Sem contar que podem estar nos esperando, esperando para nos emboscar e assim diminuírem nossas forças, nos destruir antes mesmo que possamos travar uma verdadeira batalha."

Pela expressão de Ben, Arthur sabia que ele entendia o ponto de vista do rei, mas quando se tratava de pessoas as quais eles se importavam, não dava para simplesmente pensar racionalmente.

"Talvez não precisemos atacá-los, podemos tentar nos infiltrar com um pequeno grupo de resgate, nada que chame atenção, tentaremos chegar perto o suficiente para verificar qual a situação e se podemos fazer algo a respeito."

Dario interrompeu a discussão com um de seus comentários inteligentes e bem pensados, um sorriso aterrorizante surgia no canto da boca de Ben, que tinha gostado da ideia. Agora Arthur estava mais acordado do que nunca, seu olhar cruzou com o do irmão numa confirmação e o mesmo foi para o seu amigo Ben. O rei suspirou vencido, sabia que não conseguiria impedir seus garotos de se arriscarem, mesmo se os amarasse numa torre e jogasse a chave fora, sabia que como Dom eles protegeriam a quem amassem com todos as forças, mas como poderia não os deixar fazê-lo? Quando ele mesmo faria se pudesse, e como sentia orgulho dos filhos que tinha e sabia que sua amada esposa sentia o mesmo, onde quer que estivesse, agora reunida com um de seus filhos. Vencido o rei consentiu.

"Tudo bem, um pequeno grupo, em quantos homens está pensando?"

Dario encarou seus companheiros, todos já sabiam qual seria a resposta.

"Três."

"Três?"

Por que o rei ainda se surpreendia com seus filhos? Era claro que seriam somente os três, Dario, Arthur e Benjamin, que já deviam estar planejando tudo naquele mesmo instante, lamentou por um momento, sabia que se Dom estivesse entre eles, aquele número não seria três, mas sim quatro, infelizmente seriam somente os três de agora em diante.

"Certo, tem a minha benção, podem ir, mas tenham cuidado."

E não morram, pensou Arthur morbidamente, Ben foi o primeiro a se levantar, arrastou a cadeira e se dirigiu para a saída sem mais nenhum comentário, Dario foi logo após, Arthur foi em seguida, lançando um último olhar para o pai antes de sair, seus olhares intensos se encontraram, um aceno imperceptível fora feito e uma confirmação assentida, eles não só voltariam bem, como trariam Melanie com eles, aquilo era uma certeza, uma promessa.

Aquela pequena despedida, assim que o pai voltou o olhar novamente em direção ao seu conselho, lhe pareceu igual ao último momento em que Arthur vira Melanie, lembrou de seu olhar e depois de vê-la de costas pela última vez.

Apertou o livro em sua mão, definitivamente aquela não seria a última vez que a veria, não mesmo.

 





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