Hello There 2 escrita por Weirno


Capítulo 2
S02EP02 - Did You Miss Me?


Notas iniciais do capítulo

Sentiu Minha Falta?

No dia do retorno das sobreviventes, a cidade torna-se um circo. As notícias correram rápido, e tudo fica mais difícil quando três corpos são encontrados.



"Velho amigo, o que você procura?
Depois de tantos anos fora você volta
Com as imagens que cultivou
Sob céus estrangeiros
Longe de sua própria terra."
— George Seferis

 

A decisão começou um ano antes da coisa realmente acontecer. O quarto dos dormitórios foi um companheiro muito bom durante os cinco anos que passaram juntas, dormindo e vivendo nele. Mas assim que o quinto e último ano começou a se aproximar, as garotas perceberam que teriam de começar a organizar a vida quando saíssem da universidade. Por isso, a ideia de se mudar para o Michigan surgiu, pensando, cada uma, que teriam melhores chances de emprego lá. E realmente tiveram, pois moraram lá por um ano e sete meses.

Uma delas seguiu dando aulas eventuais em escolas de ensino médio, procurando, se adaptando, aprendendo e crescendo no cargo para tornar-se uma professora de física, como estudou para ser. Os olhares dos mais jovens eram inevitáveis. Todos sabiam, mesmo que muito pouco, quem ela era. Isso foi crescendo e crescendo. Demônios do passado foram surgindo e lhe apavorando 24hrs por dia. Ela precisava se ver livre daquilo, e foi quem teve a ideia de enfrentar esses demônios, percebendo que sua companheira e amiga também estava sendo assombrada por essas imagens e lembranças.

A outra estudou medicina veterinária, aprimorando e deixando seu amor por animais crescer. Com ela não foi diferente. Os olhares de estranheza lhe percorriam no local de trabalho. Imaginava se acontecia o mesmo com os outros, mas nunca conseguiu ligar para eles ou voltar a contatá-los – talvez tivesse medo do que descobriria, e sentia que devia se distanciar daqueles eventos. Então, em vez de fugir ou se esconder, tomaram a decisão de enfrentar.

Agora, Jordana Brammall e Emily Hayes estavam sentadas nos bancos do carro alugado por quinhentos dólares, o mais barato encontrado, seguindo a quarenta quilômetros por hora pela rodovia que as levaria de volta para Oakfield, a sede de seus pesadelos e ruínas.

Nunca pensaram que algum dia voltariam para lá. A ideia que tiveram quando se livraram da cidade, sete anos antes, era de que sairiam sem olhar para trás, abandonando lá todas as desgraças que aconteceram durante aquelas semanas de outono.

Já haviam imaginado que tudo seria diferente quando se foram. O massacre de Oakfield foi reconhecido em toda a América do Norte, expandindo-se principalmente para o noroeste do país. Alguns continuavam a lamentar pela vida dos mortos e agradecer por quatro sortudos continuarem vivos, já outros, os sem um pingo de consciência, jogavam a culpa dos falecimentos em cima dos ombros deles. Principalmente sobre os de Emily.

Nos primeiros anos de faculdade, ela pensou que não aguentaria. O vestibular foi um desafio e tanto, e os colegas de classe, que se diziam colegas, eram, na verdade, falsos que queriam se aproveitar da fama das garotas. Foi difícil encontrar alguém em quem realmente confiar, mas no fim conseguiram, e esse ciclo voltou a acontecer quando a lecionação foi concluída. Mas amizades não eram mais o principal objetivo de Emily e Jordana, muito menos ser quem os outros queriam ser. Sete anos se passaram, sete anos foram acrescentados à idade delas. 17 anos de garotas do ensino médio passaram a ser 24 anos de mulheres adultas e confiantes de si. Não deviam se transformar em meras figuras criadas pelas notícias falsas da internet, deviam continuar sendo elas mesmas.

Não sabiam o que aconteceria quando chegassem lá. Talvez fossem acolhidas de forma boa, talvez de forma ruim. Não tinham planos, também. Nunca chegaram a pensar no que fariam. Pensavam em, talvez, até se mudar para lá, mas nada concreto foi decidido. Entrariam na casa alugada, paga com o dinheiro recolhido durante todo esse tempo, e tentariam descobrir uma forma de se verem livres de vez desse peso. As pessoas não percebem o quanto palavras e olhares machucam, e a ferida que havia começado a cicatrizar foi raspada com uma lixa, liberando o sangue do horror vivido tempos antes.

No volante, Jordana mantinha-se estática, perdida em pensamentos e prestando atenção no caminho ao mesmo tempo. Não queria olhar para Emily, sabia que a amiga também tinha o olhar, e sabia que se enterraria em ainda mais medo de seguir em frente. Hayes, jogada no assento com os óculos de sol tampando os olhos cansados, observava as árvores e arbustos passando tão rápidos do lado de fora que ao menos conseguia identificar seus formatos. Vultos verdes e marrons tão rápidos quando a faca do assassino que as aterrorizou anos antes.

O trajeto todo foi estranho: coisas estavam voltando à mente de Emily, lembranças surgindo tão claras e tão rápidas que era assustador. A sensação era de que alguém tinha ligado uma escavadeira em sua cabeça e começado a remexer em um cemitério mental que ela nem sabia que existia. Só que eram nomes em vez de corpos que surgiam, nomes dos quais ela não pensava havia anos: George Smith, Susie Weigert, Colby Ross, Patrick O'Reilly, Emma Farinacci, Hannah Barclay, Elishia McKellar, Trevor Pinnick, Andrew Dennehy, Connor McGrath… Julia Moss.

Nomes… Lugares… Coisas que tinham acontecido.

Sentindo frio e calor alternadamente, ela se lembrou das vozes gritando… E do sangue. Ela gritara também, mas acabou sobrevivendo do massacre feito por dois assassinos. Connor… Julia…

Lágrimas ameaçavam surgir… E então a placa de Oakfield passou ao seu lado, rápida, mas não o bastante para não ser identificada. Um pedaço de metal marrom com as escrituras “OAKFIELD” em branco. Foi tão fortemente sentida que foi capaz de fazer Jordana exclamar:

— É isso aí, garota! Estamos de volta! – Era claro o falso divertimento da albina na tentativa de alegrar Hayes e a si mesma um pouco. Emily apenas olhou para o lado com um sorriso no rosto. A outra sorriu também.

Tornaram-se mulheres adultas, renovadas. Pensamentos mudaram, sentidos mudaram. Até mesmo a aparência mudou. Jordana foi a que menos sofreu alterações no visual, continuando com o cabelo chanel branco acima dos ombros, lisos e brilhantes. O corpo continuava magro, os lábios vermelhos e os olhos tão azuis quanto o mar. Emily sofreu mais alterações. Primeiramente, trocou os óculos por lentes de contato, que às vezes incomodavam um pouco e quase saíam quando chorava, mas muito melhores do que o objeto pendurado sobre o nariz. Os cabelos longos, lisos e negros tornaram-se levemente cacheados e castanhos, igualmente brilhantes como antes.

Ambas ficaram mais altas e sofreram mudanças hormonais, mas tais mudanças ficavam mais evidentes em Hayes, que agora era mais encorpada, mais parecida com uma mulher adulta, deixando de lado a inocência da adolescência.

— Foi realmente uma boa ideia voltar para cá – comentou Brammall quando as construções começaram a se fundir dos lados e substituir as árvores. – Acho que foi a escolha certa.

— Concordo – respondeu, sem tirar os olhos do exterior. Oakfield havia mudado bastante durante sete anos. Novas casas e prédios formavam as ruas. Escritórios e até um teatro haviam sido construídos. – Foi idiotice ter evitado por tanto tempo. Eu senti saudades, e percebo isso agora.

E realmente sentia. Emily, naquele exato momento, conseguia sentir toda a energia voltando para si. A adrenalina das perseguições e o medo no peito a acertaram em cheio. Mas não era disso que queria se lembrar, e forçou sua mente a procurar outras lembranças. De repente, Patrick e Sean surgiram em sua mente, rindo com ela em uma das aulas de informática. Emma passeava ao seu lado pela praça agora, e depois Hannah papeava pelo telefone com ela. Era disso que ela queria se lembrar, e começaria a se esforçar para tal, percebendo que não deveria evitar a cidade toda por uma única coisa ruim que surgiu em sua vida repentinamente. Aliás, não podes evitar uma rosa apenas porque uma lhe espetou o dedo.

O carro parecia arrastá-la de volta para toda aquela confusão.

 

1

 

O automóvel parou em frente a uma grande residência toda feita de madeira. As garotas surpreenderam-se, a casa não parecia tão grande nas fotos vistas, e o surpreendente foi que era a mais barata encontrada. Sentiram-se satisfeitas, felizes. De um momento para o outro, ficaram alegres, sorrindo abobadas, sem um motivo certo para tal. Jordana abriu a porta e saiu, voltando a fechá-la atrás de si. Olhou de um lado para o outro. Outras casas quase idênticas tomavam a rua. Algumas árvores cresciam na calçada. Carvalhos. Ela inspirou fundo, sentindo o ar puro. O lugar era quieto, calmo. Brammall sorriu e olhou para trás quando Emily saiu.

A casa era grande. Até grande demais para duas garotas como elas. De dois andares, era toda feita de madeira polida, provavelmente carvalhos também, com duas grandes janelas na frente e uma varanda as acompanhando. Uma grande porta mesclava-se às paredes entre as janelas. Na parte de cima, o telhado descia inclinado em direção ao chão, e acima dele duas outras janelas, tão grandes quanto as de baixo. Em frente a casa, um quintal com grama verde e uma grande árvore cresciam. Do lado de dentro, como dizia o site em que a alugaram, haviam dois quartos, duas suítes, dois banheiros, uma cozinha e uma sala de estar, além do porão e do sótão.

Hayes aproximou-se de uma placa que até então não havia sido percebida por Jordana. Um pedaço de madeira pendendo por duas correntes ao lado de uma estaca presa ao chão. Nela, a escritura “ALUGADA” tampava o logo de uma empresa de gerenciamento de aluguéis. Emily a observou com afinco e sorriu ao encarar a amiga. Depois, correu até ela e a abraçou com força. Coladas uma a outra, elas riram juntas, não se importando com as pessoas que passavam ao redor e estranhavam os risos estéricos vindos delas. Estavam felizes demais e mal acreditavam que realmente estavam ali de novo.

— É… É aqui que recomeçaremos a nossa vida – disse Emily ao se soltar, continuando ao lado da amiga. – Vamos entrar? – perguntou, estendendo a mão com as chaves pegas minutos antes no escritório onde alugaram a residência. Elas balançaram e tilintaram à frente da garota risonha.

— Eu estou louca pra isso!

Então, correram juntas até a porta da frente.

 

2

 

Assim que terminaram de deixar as malas nos quartos, Emily saiu para organizar algumas coisas econômicas e aproveitou para dar uma volta por Oakfield. Era de se esperar a curiosidade da garota, que cresceu lá e deixou de visitar a cidadezinha por sete anos.

De modo geral, era quase o mesmo lugar. As pessoas andavam de um lado para o outro, jovens, dos quais um dia foi igual, riam e conversavam alto nos bancos dispostos na calçada e vendedores observavam o exterior de suas lojas com grande curiosidade. As únicas coisas que mudaram foram alguns lugares que foram substituídos por outros, mas as ruas em si pareciam ter o mesmo formato e seguiam nas mesmas direções de antes. Perguntava-se se a casa na rua Neibolt ainda existia ou se já havia desmoronado com o tempo.

Hayes não procurava um lugar certo para ir, apenas esperava encontrar algum ponto conhecido ou que lhe trouxesse lembranças boas. A praça em que um dia Colby Ross foi morta estava logo ao seu lado, o playground maldito reinando ao fundo, quase no centro do lugar, dessa vez com novos brinquedos, pois nenhuma mãe deixaria seu filho brincar em um lugar onde uma garota foi morta. O pensamento lhe trouxe um arrepio repentino, e foi quando, ao desviar os olhos do local, encontrou, à esquerda, uma nova loja/construção. Os quadros bem-feitos e pintados na vitrine lhe chamaram a atenção de imediato, com traçados leves e graciosos. O letreiro sobre eles nomeava o lugar como Galeria Winters. Optando por conhecer o interior, entrou pela porta.

Era de vidro, e de imediato um sininho ressoou pelo ambiente. O interior era frio e reconfortante. A galeria era pequena, com quadros de vários tamanhos e cores estendendo-se pelas paredes. As vitrines provavelmente mostravam os melhores, mas os que haviam lá dentro eram tão bonitos quanto, aos olhos da menina. À esquerda, um balcão carregava uma caixa registradora e um computador, e do outro lado a parede estava cheia das obras. Então, para a surpresa de Emily, uma figura se movimentou ao seu lado.

Virou o rosto e se deparou com um homem alto, sorridente, moreno e careca vindo em sua direção. Com seus trinta e poucos anos, o rapaz atraente se aproximou de Hayes, estendendo-lhe a mão.

— Boa tarde, em que posso ajudá-la?

Emily sorriu para ele e respondeu:

— Ah… Eu só estou olhando mesmo. Seu trabalho é muito bonito, parabéns. – Olhou ao redor enquanto o homem ria.

— Não são meus – disse. Emily virou-se para ele. – É da minha noiva ali. – Ele apontou para um lugar um pouco ao fundo, onde Hayes não tinha tido vista anteriormente. Lá, sentada sobre uma cadeira, de frente a um quadro, uma moça esguia e alta estava pintando o que seria sua próxima obra de arte. Os cabelos loiros da mulher caíam em cascatas pelas costas eretas, os olhos verdes irradiavam a concentração feita ao manusear o pincel sobre a tela. – Eu sou Lincoln, por sinal. Se precisar de alguma ajuda, é só me chamar.

Lincoln, então, deu meia volta e voltou para o lado de trás do balcão. Ao fundo, a mulher loira, como se tivesse voltado à realidade com as últimas palavras do noivo, virou o rosto e saiu de seu transe. Ao encarar Emily, ela sorriu. Hayes ainda estava parada ao lado da porta, e se manteve ali enquanto a moça levantava-se e ia em sua direção.

— Oi – disse a loira, estendendo a mão educadamente. – Sou Samantha. Samantha Winters. Mas pode me chamar de Sam.

— Oi… Emily – respondeu, apertando a mão de Sam. – Esses quadros são lindos, meus parabéns.

— Oh, você não sabe o quão gratificada eu fico com isso. Obrigada, Emily.

De repente, o olhar de Winters mudou. O sorriso quase foi desfeito, ficando pendurado entre os dentes brancos dela. Os olhos da loira cerraram-se em curiosidade enquanto encarava uma Emily tímida e que estranhava a situação sem mover um músculo. Mas Hayes sabia o que era aquele olhar. Já havia o recebido vezes o bastante para se acostumar.

— Você não é… Não é aquela sobrevivente do massacre que teve aqui? A que resolveu voltar para a cidade? – Emily não obteve tempo para responder e, como se levada por um tapa na cara, Sam aquiesceu, percebendo que foi mal-educada e nada cordial em desferir as palavras daquele jeito. Ela abanou a cabeça para se livrar do assunto e voltou a colocar o sorriso no rosto, enquanto Hayes continuava séria. Ela não gostava de ser reconhecida daquele jeito. – Me desculpa… Bem, você já deve ter conhecido o meu noivo, Lincoln, não?

Diferente de Samantha, que queria sair daquele estranho clima que pendurou por sua pergunta anterior, Emily sentia-se curiosa demais para trocar de assunto.

— Como você sabe quem eu sou? – tornou a sobrevivente com o cenho franzido, perguntando-se se a notícia havia se espalhado tanto assim e como havia se espalhado.

— As notícias correm rápido em cidades pequenas. – Winters estava obviamente envergonhada. Ao fundo, Lincoln tentava esconder um sorriso que surgia em seus lábios ao ver a noiva daquele jeito.

— Bem rápido, por sinal. Acabamos de chegar.

— Então você não veio sozinha?

— Não… Minha amiga Jordana veio comigo. Ela também… Também sobreviveu. – Engoliu em seco.

— Bom, de qualquer jeito, sejam bem-vindas de volta à Oakfield. – A loira voltou a sorrir alegremente, e Emily forçou um sorriso também. – Sinta-se à vontade.

Acenando com a cabeça, Hayes deu passos rápidos para o lado, indo na direção dos quadros. Em um deles, cores distintas espalhavam-se pela tela branca. No outro, uma figura mais formada tomava forma, uma casa de campo beirando um lago azul. Ao encalço da morena, Sam a acompanhava de forma ansiosa, esperando que ela fizesse alguma pergunta sobre as obras, esperando ganhar novos elogios sobre o seu trabalho. O som do teclado do computador era o único, cortando o ambiente, e além dos três, a galeria estava vazia.

Para a sorte de Samantha, Emily tornou a perguntar, apreciando os quadros:

— Vocês dois são pintores?

— Eu sou. Meu marido cuida dos negócios da galeria… – Ela deu uma pausa. – Além de ser corretor de imóveis nas horas vagas.

— Na verdade é ao contrário – ouviram a voz falar ao fundo, virando a cabeça para encarar Lincoln, sorridente. – Sou corretor de imóveis, e cuido da galeria nas horas vagas.

Sam riu com o comentário. Emily encarou com animação o casal, sorrindo para os dois.

 

3

 

Sentados de frente um para o outro, o casal conversava animadamente em uma das mesas da lanchonete. Após o desastre ocorrido em Springwood Dinner, o lugar favorito dos dois para tomar café da manhã, tiveram de se sustentar com o que havia perto da pracinha. Tommy Howard bebericava uma xícara de café, enquanto seu namorado, Logan Bates, comia de forma porca um misto-quente. As pessoas ao redor iam de um lado para o outro, o movimento na cidade era grande nos últimos dias.

De forma quase reclusa, Howard – loiro, mais novo e de cara limpa – escutava o que Logan – com uma barba rala, alguns anos mais velho e de cabelo moreno – dizia, sem muita vontade de dar a sua opinião, sabendo que o namorado o contradiria imediatamente e acabariam fugindo do assunto. O assunto em si era o que mais estava sendo comentado em Oakfield: a volta das sobreviventes.

— Nossa… – exclamava o mais afeminado, limpando a boca com um guardanapo. – Mas será que elas ficaram marcadas?

— Tipo… É claro, né? – respondia Tommy, olhando ao redor. Ele, diferente do namorado, sentia-se um pouco desconfortável ao falar dos outros pelas costas dos mesmos, e sentia medo de que, a qualquer momento, as garotas aparecerem para tomar providências. – Uma coisa assim não é normal. Elas vão ficar traumatizadas pelo resto da vida.

— Não, bobo! – Logan quase gritou, gargalhando alto e chamando a atenção das pessoas ao redor. Outra diferença entre os dois: enquanto Bates adorava, em todos os sentidos da palavra, ser o centro das atenções, Tommy sempre preferia manter-se recluso de todos. Uma verdadeira prova de que os opostos podem sim se atrair. – Eu tô falando de marcas de facadas!

Howard quase expeliu café ao rir junto, percebendo-se um pouco tolo com o comentário errado. Depois, parou, percebendo que era algo um tanto mórbido de se falar, rindo da desgraça alheia.

— Ah, com certeza – continuou Howard. – Acho que nenhum deles saiu ileso do que aconteceu.

— Deles? – questionou o namorado, desentendido.

— É. Além das garotas, Emily e Jordana, teve dois meninos. Não lembro os nomes, mas teve.

— Nossa, foi pior do que imaginava…

— Preferia que estivessem mortos?

— Não, não é isso. É que mais pessoas sofreram aquilo tudo. – Logan olhou ao redor, pela primeira vez ficando sério. Tommy percebeu que alguma coisa séria sairia da boca dele. – Acho que se eu estivesse passando por tudo aquilo que aqueles adolescentes passaram, preferiria morrer logo, em vez de ficar sofrendo por tanto tempo.

Howard, sem saber exatamente o que dizer, bebericou do café e manteve contato visual com o namorado, elaborando um comentário bom para se fazer contanto ao último vindo daquele à sua frente.

— Não sei se concordo… – disse, por fim. – Eu provavelmente lutaria até o final, até ver que não teria outra escolha, sabe?

— Sei… – Bates sorriu. – Respeito isso. Respeito a sua coragem.

— Imagina, amor. – Tommy estendeu uma das mãos e apertou a de Logan por cima da mesa, sorrindo para ele. O outro fez o mesmo, encarando o namorado.

De repente, o olhar de Bates mudou quando a porta atrás de Howard, a algumas mesas de distância, se abriu. Uma corrente de ar passou e por alguns segundos o som do exterior preencheu a lanchonete. Então, voltou ao normal assim que a porta se fechou, deixando apenas as conversas e copos sendo postos em mesas como plano de fundo. Contudo, o olhar de Logan continuou fixado acima da cabeça do namorado, o sorriso se desfazendo em sinal de choque. Tommy, ao perceber isso, desfez o sorriso e se virou lentamente para trás, deparando-se com Emily Hayes.

A garota entrou pela porta e foi direto para o balcão a alguns metros dos dois, agora com ambos a encarando da mesma forma que encarariam um grande nome de Hollywood ou coisa assim.

— Fala sério… – exclamou o moreno, estático.

Howard não sabia exatamente o que fazer ou como reagir, mas Logan tinha uma ideia na cabeça, e quando o outro virou-se de frente a ele, provavelmente para falar como estava chocado, percebeu no olhar do namorado qual seria o próximo passo dele. Um sorriso largo tomou o rosto do mais velho, que encarou o loiro de forma ansiosa.

— Não… Logan, não. Não faz isso, pelo amor de Deus… – tentou Tommy, vendo o homem se levantar animadamente. Puxou-lhe o braço, impedindo que continuasse a ação. – Você só vai envergonhar a garota, para! – Mas Bates não dava a mínima para o loiro, continuando a sair do banco, vendo, ao fundo, Emily fazendo seu pedido para uma garçonete. – Logan!

O mais velho levantou a mão, acenando de forma animada. Para a surpresa de seu companheiro, ele gritou:

— Ei!

Por algum motivo, Emily virou a cabeça, pensando que talvez o chamado pudesse ter sido para ela. Ao fazê-lo, percebeu o homem alto e rechonchudo que estava meio em pé, meio sentado em uma mesa, com uma das mãos levantadas acenando para si e um sorriso grande no rosto. Na frente dele, outro homem mais jovem puxava-o pela outra mão com uma face de desespero, obviamente não concordando com a escolha do outro.

Hayes olhou ao redor, para ter certeza de que o moço estava lhe chamando, e não alguém próximo a ela.

— Você mesma! – tornou Logan da mesa, fazendo Emily se virar para ele e apontar para si mesma com o indicador. – É, você!

Era de se esperar que a garota estivesse um pouco envergonhada. Todos os olhares se voltaram para si enquanto o maluco acenava e gritava no meio da lanchonete. O outro homem ainda o repreendia. Logo, sem escolha nenhuma, caminhou na direção da mesa. O loiro deixou de repreender e quase se recolheu em um canto dela, envergonhado, enquanto o outro sentou-se novamente, sorridente. Assim que chegou até eles, sem dizer uma palavra, escutou:

— Me desculpe pelo circo todo – foi Logan quem disse. – É que ficamos tão extasiados com a sua presença, e queríamos muito te conhecer pessoalmente.

Ótimo, pensou Hayes, mais pessoas que sabem quem eu sou. Ela apenas sorriu.

— Ah, sim… – disse, sem jeito.

Foi quando Bates se levantou da mesa, assustando Emily de leve, e colocou a mão nos ombros da garota, aproximando-se dela de repente. Despreparada, a sobrevivente não percebeu quando um beijo atingiu sua bochecha, e riu quando se separou do homem.

— Sente-se, vamos… – disse Logan, forçando-a a se sentar. Sem escolhas e não querendo rejeitar o pedido para não parecer mal-educada, sentou-se ao lado do loiro, que até então não havia dito uma palavra.

— Não se preocupe com o meu namorado – expeliu Howard, sorrindo para ela. – Nem comigo. Não vamos te sequestrar ou coisa assim.

— Imagine, eu não pensei nessas coisas. – A garota riu, e Logan sentou-se em frente aos dois, mandando um olhar repreendedor para Tommy, que riu daquilo.

— Eu me chamo Logan, e esse é o meu namorado, Thomas.

— Pode me chamar de Tommy.

— Muito prazer. – Emily estendeu a mão para o mais jovem, que a respondeu com o mesmo gesto.

— E eu só te conheço… – continuou Bates de forma inocente. – Achamos que você não conhece ninguém aqui ainda, então nos parece justo que lhe apresentemos o lugar.

— Não me meta no meio – disse Howard. – Eu não quero te deixar desconfortável com isso.

— Está tudo bem, rapazes…

Os três riram juntos, e, de fato, a garota estava um pouco desconfortável com aquilo. Não era comum ser tratada daquele jeito, e mesmo que estivesse acostumada a ser reconhecida por ter sobrevivido ao massacre, ninguém nunca havia chamado-a e se apresentado da mesma forma que o casal.

— Bom, já que vocês se voluntariaram a me guiar nessa Oakfield de hoje… – Pelo menos tentaria tirar algum proveito da situação. – Tem alguém que eu deva manter distância?

Os dois se encararam, pensando. Então, em um estalo, no qual olhou ao redor, Logan reparou em alguém. Alguém muito peculiar, para falar a verdade. Encarou na garota de imediato e ficou claro para ele que aquela pessoa se encaixaria perfeitamente no quesito “manter distância”.

— Ela – disse, estalando os olhos. – A garota no balcão.

Emily se virou, levemente curiosa, junto de Tommy. Virados no banco, os dois encararam a mulher sentada em um dos bancos altos do longo balcão. Ela tinha cabelos castanhos, quase da mesma cor dos de Hayes, e vestia um vestido rosa, aberto nas costas, com mangas longas que iam até os pulsos e deixava as pernas expostas. Algumas tiras deixavam a mostra as costelas. O cabelo castanho caía em cascatas brilhantes pelas costas, os lábios grandes e os olhos igualmente grandes e negros deixavam claro que era uma moça muito bonita.

— April? – perguntou Howard, curioso com a resposta do namorado. – Ela não tem nada de mal.

— Nada de mal?! – Bates bufou contra o companheiro, virando-se para Emily. – Aquela é April Green. Fique longe se quiser ser uma pessoa normal.

A menina olhou mais uma vez, percebendo que April agora agarrava o celular e preparava-se para tirar uma foto de um grande milkshake rosa que acabava de ser posto em sua frente por uma das garçonetes. Ela ajeitou o canudo, os enfeites e até mesmo o chantili com um garfo e posicionou o celular na frente do rosto, tirando uma selfie.

— Por que? – perguntou, animada.

— Ela é bem irritante e um pouco metida – explicou Tommy. – Mas o Logan exagera, ela não é de todo o mal. – Sob o olhar reprovador do outro, continuou: – O problema é que ela é incrivelmente egoísta e está sempre querendo ser o centro das atenções. Principalmente nas redes sociais, querendo ser uma Selena Gomes do Instagram ou coisa assim.

— Pobrezinha… – O mais velho fingiu pena. – Só tenta, porque ser, de fato, o centro das atenções, é só nos sonhos dela. Ninguém ao menos sabe quem ela é nas redes sociais.

Emily sentiu um pouco de pena de April, mas decidiu não julgar. Talvez ela realmente fosse o que os novos amigos estavam dizendo, talvez fosse alguém totalmente diferente. Decidiu não tirar conclusões precipitadas, mas concordou com um aceno de cabeça para que não fosse repreendida.

— Ela se passa por outra pessoa, alguém que não realmente é. – Agora, Tommy compartilhava do mesmo dó, falando de forma séria. – Tudo para conseguir seguidores e coisas assim.

— Mas por que ela faz essas coisas? – tornou a sobrevivente.

— Ela estudou teatro, atua em algumas peças que acontecem aqui na cidade – respondeu Logan. – Deve ser algum tipo de marca registrada de quem segue essa profissão.

— Entendi… – Ela olhou para os dois, que ficaram, de repente, vidrados em seus próprios mundos mentais. – Bom, eu tenho que ir. – O casal levantou os olhos. – Tenho que fazer algumas coisas ainda… Mas foi bom conhecer vocês, Tommy e Logan.

— Nós que dizemos isso, querida. Tchau, tchau – despediu-se Logan.

— Tchau, Emily – disse Tommy.

Então, a menina se levantou dali, seguindo na direção da bancada, esperando que seu pedido já estivesse pronto, e mal percebendo o olhar que recebeu de April ao passar ao lado dela. Green, assim como todos, a reconheceu e estranhou, farejando o mal que perseguia a sobrevivente.

— Você enlouqueceu? – gritou Tommy, tentando sussurrar. – Coitada da menina, agora a gente parece dois loucos!

— Ai, amor… Eu só queria saber como ela era. Só isso! – respondeu o outro de forma inocente e cínica.

 

4

 

O último livro acabava de ser posto na estante, e a albina esticou os braços, despreguiçando-se e respirando fundo. Emily ficou encarregada de lidar com alguns assuntos do aluguel da casa, enquanto Brammall manteve-se na organização do ambiente. Para a sorte das garotas, a mobília já veio incluída na casa, e elas só tiveram o trabalho de enfiar todas as suas coisas pessoais em caixas e transportar em um furgão pequeno – não tinham muitas coisas, por isso não foi preciso um caminhão todo –, que acabou chegando quinze minutos depois delas próprias.

Olhou ao redor, reparando mais uma vez no cômodo. Estava na sala de estar, carregadora de uma grande janela retangular que dava visão para o quintal da frente e para a rua. Era grande, com paredes, chão e teto feitos de madeira polida – na verdade, era o único material presente na casa, com exceção do porão. Dois sofás formavam um L, estendendo-se pelo lugar, com uma mesinha de centro no meio. Uma TV grande estava acoplada à parede de frente a ele, ao lado da estante na qual Jordana colocava os livros. A passagem para o outro cômodo ficava do outro lado da TV, levando a um hall de entrada que ligava todos os cômodos do andar inferior da casa.

Estava silencioso, vazio e frio. Foi quando o som da campainha ressoou pelo ambiente, chamando a atenção da garota, que se virou na direção da passagem, apressando-se até a porta da frente. Após o hall de entrada, que mantinha a porta, um corredor surgia. Nele, outras passagens apareciam. Havia uma na frente da que dava para a sala levando à cozinha, e a seguinte, do lado direito, trazia até um banheiro. A próxima à esquerda levava até a sala de jantar, que também tinha ligação com a cozinha. A escadaria surgia mais ao fundo, contendo, nela própria, uma porta que levava até o porão e ficando ao lado da porta dos fundos.

Brammall agitou-se ao chegar na porta, e nem olhou pelo olho mágico, abrindo-a de forma rápida. Do outro lado, uma garota lhe encarava com um sorriso no rosto e um par de olhos ansiosos. Por algum motivo, a menina trazia uma alegria repentina para o ambiente. Jordana sorriu para a figura de cabelos negros presos em um rabo de cavalo e olhos cor de mel. Nas mãos, a moça trazia uma grande cesta de páscoa coberta por um plástico transparente, que continha diversos alimentos, desde chocolates a até cereais.

— Oi – disse a garota. – Eu sou a Molly Merriman. Sou sua vizinha. – Ela apontou para o lado com o indicador, para a casa ao lado à da albina. Com o comentário, a sobrevivente teve um estalo. Por algum motivo, o nome da mulher lhe despertou uma sensação de que já havia a visto antes. Optou, no entanto, em não dizer nada.

— Ah, oi. Eu sou a Jordana. – As duas se cumprimentaram com um aperto de mãos.

Percebendo o esforço de Molly para carregar a cesta, que provavelmente pesava muito, Brammall disse:

— Vamos, entre.

— Muito obrigada… – A moça passou ao lado de Jordana quando esta deu passagem, seguindo pelo hall enquanto a outra fechava a porta. – Eu trouxe uma cesta para lhe desejar boas-vindas. Fiquei sabendo que havia outra garota com você…

— Sim… Ela foi na cidade resolver algumas coisas. – Molly concordou com as sobrancelhas, esperando que a anfitriã lhe mostrasse o caminho.

Jordana passou ao lado dela, seguindo para a cozinha. O cômodo tinha duas bancadas, uma que dividia o lugar ao meio e outra que separava a cozinha da sala de jantar, logo ao lado. Outra janela grande dava para o quintal da frente, prateleiras feitas de pinheiros espalhavam-se juntas dos outros móveis comuns de uma cozinha. Mais madeira cobria as paredes. Merriman colocou a cesta em cima da bancada do meio, enquanto a albina ia para o outro lado, ainda curiosa com a estranha sensação de reconhecimento vinda da garota.

— Como você disse que se chama mesmo? Tenho a impressão de já ter te visto em algum lugar…

— Pois é… Eu sou amiga do Sean. – Isso fez Jordana erguer as sobrancelhas, surpresa. – A gente estudou junto na universidade, e nós duas já nos vimos por chamadas de vídeo, provavelmente.

— Nossa, é verdade… Agora eu me lembro. – Jordana ainda estava meio surpresa, se perguntando o que ela fazia em Oakfield. Mais uma vez, decidiu não proferir a questão em voz alta, respeitando a privacidade de Molly.

— Aliás, trouxe essa cesta só porque conheço vocês duas… Normalmente não presenteio os vizinhos com coisas assim. – As duas riram juntas.

— É bom ter alguém conhecido aqui, então.

Pelo comentário feito pela visitante, a albina começou a se relembrar, mais uma vez, de Sean. Nunca obteve a coragem necessária para contatá-lo, ou até mesmo Robin, mas naquela conversa viu a chance perfeita de tocar no assunto e se atualizar de forma discreta.

— Bom… E como vai o Sean?

— Faz uns cinco meses desde a última vez que eu falei com ele… – dizia Merriman, apoiando-se na bancada. – Pelo que eu me lembro ele tá morando em Chicago.

Uma certa felicidade invadiu Jordana. Ela ficava feliz em saber que o nerd estava tendo, talvez, uma boa vida e seguindo em frente. Mas, ao mesmo tempo que isso aconteceu, a tristeza também a invadiu. Tristeza e arrependimento. Após tudo o que passaram, durante quatro ou cinco anos, ela não manteve contato com ninguém exceto Emily. Os quatro passaram por todo aquele horror juntos, e agora ao menos falavam uns com os outros. Era lamentável que uma estranha estivesse lhe atualizando sobre a vida de alguém que foi muito importante em sua vida.

Naquele momento, mantendo um sorriso forçado no rosto, Brammall só queria voltar no tempo.

 

5

 

Alguns minutos haviam se passado, e Molly havia sido convidada a ficar para o almoço. Sem nada para fazer no dia, a mulher aceitou, e agora estavam Jordana e ela picando alguns vegetais. O papo foi ficando tão bom que elas ao menos percebiam o passar do tempo. Falaram de pessoas da cidade, pontos turísticos, Jordana lembrou-se dos lugares mais visitados e Merriman contou se eles ainda existiam. Para a sorte da albina, sua companheira era uma boa fonte de informações locais, sendo que morava ali já fazia um ano e meio, depois de ter se formado em Advocacia e ter fracassado em um emprego em Nova York.

Por fim, a conversa do momento havia embarcado nesse mesmo assunto: faculdade.

— A Emily se formou em Letras – contou Brammall, picando uma cenoura ao meio. – Mas… Ela não aguentou todos os olhares, sabe? – Molly a olhava com uma expressão triste, cortando um pepino. – Ela disse que era coisa demais, que não se sentia respeitada… Foi quando decidimos nos mudar para cá.

Merriman suspirou profundamente, dizendo:

— Posso imaginar como deve ter sido… Fico feliz que tenham tomado essa decisão. Foi uma coisa bem esperta de se fazer…

— Pois é… Obrigada.

Após alguns segundos de silêncio, tentando deixar o ambiente menos monótono, Molly lembrou-se de uma coisa.

— Aliás, já que ela se formou em Letras, existe uma professora ótima que mora no final da rua.

— Sério? – Jordana mostrou interesse.

— Sim… É Linda Sammuels o nome dela. Trabalha em Oakfield High School.

O nome da escola fez um arrepio passar pelo corpo da albina, que se lembrou de tudo o que aconteceu no interior daquele prédio. Ela apenas sorriu em resposta.

— Talvez a Emily deva falar com ela. Linda tem um cargo grande lá, é reconhecida. Talvez possa arranjar um emprego para a Emily.

 

6

 

— Tudo bem, vocês estão dispensados – dizia Linda, sua voz se projetando sobre o sinal agudo que ressoava por todo o prédio escolar. – Não se esqueçam da prova de semana que vem.

A professora parou diante da mesa, vendo a multidão de adolescentes saindo em direção à porta. Colocou o monte de folhas em cima da madeira em ordem, formando uma pilha, e empurrou a cadeira para se sentar. Teria de corrigir os trabalhos da semana, e depois, para sua sorte, o dia todo seria de folga. Sentou-se na cadeira, esperando que todos estivessem fora da sala, esperando que estivesse sozinha e no silêncio. Colocou o cabelo cor de mel para trás da orelha, arrumando a franja com os dedos, e apoiou a cabeça nas mãos, sorrindo para a última garota que saiu pela porta.

Estava sozinha, enfim. Começou a remexer nas folhas, e foi quando três toques se deram na porta. Sammuels olhou para a esquerda, deparando com a porta aberta e o garoto que ali estava parado com uma expressão tensa. Ela própria ficou um pouco desconfortável com a presença do jovem, que carregava nas mãos uma folha de papel. Os nós dos dedos dele ainda estavam encostados na porta quando a mulher se levantou, indo na direção dele.

— Owen… Oi… – disse, se aproximando.

— Oi, professora… Vim entregar o trabalho de física. – O menino de olhos azuis e cabelos castanhos, alguns centímetros mais baixo do que ela por conta dos saltos usados pela mulher, estendeu a mão em direção a ela, entregando o trabalho. Linda pegou-a e a segurou em frente ao peito. Os dois engoliram em seco, nervosos. Aquela sensação de estranheza era bem normal entre Owen Campbell e Linda.

— Obrigada – agradeceu.

Suspirando profundamente, pronto para dar a volta e sair dali, sair daquele momento constrangedor, Owen foi surpreendido por um braço, que passou ao redor de seu pescoço de forma desleixada, dando um tranco no corpo do garoto, capaz de fazê-lo quase cair para o lado de dentro da sala de aula. Linda recuou um passo, assustada pela aproximação repentina, achando que Campbell despencaria sobre si. O outro menino que agora estava atrás de Owen era o seu melhor amigo, Max Langdon, que mantinha um sorriso largo no rosto, abaixo do topete pontudo.

— E aí, Owen, tá pronto? Já entregou? – perguntou Langdon, chacoalhando o amigo.

Owen ainda estava estático, constrangido pela aproximação de Max, que ainda o prendia com um braço ao redor do pescoço. Linda sorriu de forma desajeitada para os garotos, achando graça. Langdon percebeu o constrangimento entre os dois, franzindo o cenho enquanto dava meia volta, saindo dali na companhia de Owen, deixando Sammuels para trás.

— O que foi? – perguntou, largando o amigo.

— Ahm? – Campbell virou a cabeça para ele, avulso. – O que disse?

Max riu alto, seguindo pelo corredor, em direção a porta de saída.

— Perguntei se aconteceu alguma coisa? Você tá estranho, cara.

— Não, tá tudo bem…

— Beleza, então. – Como em um estalo, Langdon se lembrou de dar uma notícia ao melhor amigo. Animado, o garoto pulava e sorria animadamente. – Se liga, tá a fim de ir no cinema com umas garotas da aula de filosofia? São as maiores gostosas!

Owen engoliu em seco, ainda nervoso pelo encontro com a professora, e sorriu de forma insegura, fingindo um divertimento.

— Claro, vamos sim.

Com um tapa nas costas, Max agarrou o amigo e o acompanhou até a saída da escola.

 

7

 

Emily, agora, voltava do encontro inesperado com Logan e Tommy. Estava morrendo de fome. A sede havia se esvaído após o café, mas o estômago roncava a cada cinco segundos. Esperava chegar em casa e ter um belo banquete lhe esperando. No meio do caminho, no entanto, enquanto afastava-se para o lado e jogava o recipiente vazio de café em uma lata de lixo, sentiu-se trombar com uma pessoa. O ombro vibrou e quase perdeu a estabilidade das pernas. Escutou o som de algo atingindo o chão e pensou ser derrubado o indivíduo, mas ao se virar percebeu apenas uma pasta preta caída no chão e algumas pernas lutando para manterem-se estabilizadas.

— Presta atenção, garota! – escutou uma voz feminina gritar. – Tá com a cabeça aonde, merda?!

— Me desculpa! – implorou, levantando os olhos para encarar uma mulher bem-vestida, com um terninho preto colado ao corpo e saltos pretos nos pés. Os cabelos castanhos lisos dela batiam na altura dos ombros. A face da moça expressava a raiva sentida. – Perdão!

— Quase me derrubou!

A mulher saiu andando, deixando a pasta caída para trás. Emily se abaixou para recolhê-la e, provavelmente, correr atrás da morena para devolver seu pertence, e foi quando um par de mãos apareceu diante de si, impedindo a passagem até a pasta.

— Não, não se preocupe. – Emily levantou os olhos, deparando-se com um homem igualmente bem-vestido, com um terno cinza e cabelos penteados com gel. Mas diferente da moça de segundos antes, ele sorria de forma desajeitada para Hayes. – Me desculpe, aliás… Por ela. – O homem apontou para a mulher que seguia adiante no meio-fio com o celular colado à orelha.

— Tem algum problema com ela? – perguntou Emily, ficando ereta. O moço pegou a pasta e segurou-a em frente ao corpo.

Ele riu.

— Me pergunto isso todos os dias – respondeu. – Mas é só o jeito dela. É bem esquentadinha. Depois de um tempo você se acostuma. – Os dois riram de novo. – Aliás, eu sou o Peter. E aquela lá é a Megan, minha chefe. – Eles se cumprimentaram com um aperto de mãos.

— Emily Hayes.

Peter expressou surpresa.

— Você é a…

— Sim, essa Emily mesma.

— Ah, de qualquer jeito, muito prazer, Srta. Hayes. – Peter Cambridge ficou obviamente constrangido com a cortada recebida pela garota.

— Obrigada.

— Desculpe pelo que aconteceu, de novo. A Megan é advogada, então tem muita pressão em cima dela todos os dias, sabe. Fica um pouco difícil para ela manter a calma.

Estranhando a forma protetora de Peter sobre Megan, Emily percebeu que, de alguma forma, o rapaz sentia alguma coisa pela advogada. Não perguntou se eram irmãos ou coisa assim, mas era claro a forma como Cambridge mantinha uma certa aura protetora em cima da mulher.

— Sem problemas, eu entendo perfeitamente.

Ficaram se olhando por alguns segundos, e foi quando um grito estridente ressoou:

— Peter! – Os dois olharam para o lado, vendo Megan acenando de forma brava para o rapaz. – Tá esperando o que?!

— Bom, tenho que ir. Até mais!

— Até mais, Peter.

O garoto correu na direção de sua chefe, que bufava de forma impaciente.

 

8

 

Andando de forma calma na direção do estabelecimento, a japonesa começava a estranhar a movimentação. Já usava o habitual traje de garçonete, faltava-lhe apenas o avental. Olivia já estava sentindo-se irritada por Clary não ter respondido suas mensagens, e pretendia dar uma coça na amiga quando chegasse à Springwood Dinner. As notícias ainda não haviam chegado para ela, que compareceria ao seu primeiro turno, logo após o horário de almoço.

Primeiramente, um amontoado de pessoas surgiu. Ree percebeu os olhares mistos que vinham em sua direção, alguns demonstrando pena, outros medo, e alguns poucos indiferença.

Demorou um pouco para a garota avistar as primeiras viaturas, após passar pela multidão de curiosos, ouvindo os murmúrios próximos de seus ouvidos. Cerrou os olhos já quase fechados pela descendência oriental ao perceber a faixa amarela que separava o estacionamento da fachada da lanchonete. De forma quase automática, o coração de Olivia começou a bater mais rápido. A palavra “desgraça” brilhou em sua mente, e ela ficou com medo do que descobriria ao perguntar o que estava acontecendo.

Via meia dúzia de policiais vagando à frente, alguns barrando a passagem de algumas pessoas para o outro lado, outros apenas tendo certeza de que nenhuma infração fosse cometida. Sentia os ombros de desconhecidos esbarrando nos seus, torsos empurrando-a para frente. Quase perdia o equilíbrio em cima dos saltos vermelhos. A faixa amarela roçava em sua barriga. Não via nenhum rosto conhecido no interior do estabelecimento, apenas mais um punhado de oficiais fazendo uma espécie de busca. A grande vidraça dava uma visão privilegiada do que acontecia ali dentro.

Levada pela curiosidade e um certo medo, Ree levantou a faixa com uma das mãos e se inclinou para passar por baixo. Assim que atingiu o outro lado, sendo arrebatada pelos olhares da multidão, uma policial veio correndo em sua direção. Olivia não viu, e continuou dando passos rápidos na direção da porta de entrada.

— Ei, moça! – gritou a oficial. – Mantenha distância, essa é uma cena de crime!

A oriental olhou para o lado, a tempo de ter um de seus braços agarrados pela mulher, que começou a forçá-la para a direção oposta. Com um olhar de incredulidade pelo aperto, e o braço levantado na altura do pescoço, Olivia respondeu:

— Não… Eu trabalho aqui!

— Parece que não por enquanto. – A policial parecia calma, ainda a arrastando para fora dali. – Houve um acidente durante a madrugada.

— O quê?! Que tipo de acidente?!

Antes da mulher respondeu, Ree foi surpreendida por uma voz grossa que atingiu seus ouvidos, vinda de trás.

— Olivia!

Ela virou o rosto, caçando com os olhos o locutor da palavra. Então, reconheceu o rosto jovial no meio de todas aquelas pessoas, com uma das mãos levantadas para chamar sua atenção. Olivia, que estava a beira da loucura com a falta de informações, parou de relutar contra a policial e caminhou rapidamente na direção de Tommy.

— Thomas? – Ela passou por conta própria para o outro lado da faixa, ficando ao lado de Howard. Ele mantinha um olhar calmo, singelo. Estava com dó da garota, e não sabia como expressar isso com palavras.

— Eu sinto muito, Olivia – disse, sendo espremido no meio das pessoas, segurando-a de forma calma pelos ombros. – Sinto muito mesmo…

— Sente muito pelo quê? – tornou a menina, desesperada. – O que está acontecendo?

Tommy demonstrou mais pena ainda, e um pouco de angustia por não saber como prosseguir com a situação. Olhou ao redor, procurando uma saída.

— Você ainda não sabe o que aconteceu… – afirmou ele.

Ree concordou com a cabeça.

 

9

 

A noite já havia chegado. Grilos crocitavam ao fundo. Estava quente o bastante para Emily ter deixado as janelas abertas enquanto preparava o jantar. Como Jordana tinha feito o almoço, a garota ficou encarregada da janta. Ao fundo, conseguia escutar a TV da sala ligada, e pela passagem que levava ao cômodo via os pés da amiga apoiados na mesinha de centro. Colocou um copo de água na panela fervente e limpou o suor da testa. A casa estava em silêncio, os poucos postes da rua iluminando o quintal da frente. Nenhuma alma viva parecia habitar as redondezas.

Passou por tanta coisa naquele dia que mal cabia na memória, conheceu tantas pessoas novas que mal lembrava-se de cada uma delas. Foi quando, tirada de tais aventuras ocorridas no dia, o telefone tocou. Era o toque habitual de um telefone, ecoando pela casa toda, multiplicando-se. Vinha do hall de entrada, de uma mesinha alta posta a alguns metros da porta de entrada, logo ao lado da passagem para a sala de estar. Ficava na vista de Hayes, que observava o pontinho vermelho em uma das extremidades piscando freneticamente.

Olhou para a comida e foi até ele, antes mesmo que Brammall pudesse se mover no sofá.

— Eu atendo! – avisou.

— Obrigada… – escutou a voz gritar em resposta, vinda da sala de estar ao lado.

Entrou no corredor e tirou o aparelho branco do gancho em cima da mesinha, posicionando-o na orelha. Não havia fio, e por isso ela caminhou de volta para a cozinha, levemente desinteressada, mas também curiosa.

— Alô? – questionou, dando a volta na bancada.

Hello there, Emily – disse a voz de forma lenta e cortante, capaz de fazer Hayes parar, estática, ao lado da bancada, prendendo a respiração subitamente, os olhos perdendo o foco. Foi como um tiro no peito. – Sentiu minha falta?

Não esperou ou hesitou, apenas tirou o aparelho da orelha e apertou o botão de desligar. A chamada se silenciou, e a voz agora permanecia apenas em sua mente. Hello there, Emily. Não escutava isso a muito, muito tempo. Trotes vieram durante a vida, mas aquilo não parecia um trote. Era sério demais, não ouve riso ou coisa assim. Foi uma facada certeira logo em sua cabeça. A têmpora chamuscou, sentiu-se nauseada. Colocou o telefone na bancada e se apoiou com os braços, fechando os olhos. Sentia-se muito mal, a pressão abaixando. Estava obviamente abalada e assustada. O coração acelerava cada vez mais no peito, os sons se transformaram em murmúrios.

Abriu os olhos de uma vez, deixando a luz entrar neles. O telefone continuava silencioso, e ela quase não percebeu os chamados vindos do cômodo ao lado.

— Emily? – pergunta a albina da sala. – Quem era?

Engoliu em seco, respondendo:

— Ninguém. Ligaram errado…

Virou para trás, sentindo o vento vindo da janela aberta batendo em si. Percebeu que precisava de uma volta. Desligou o fogão e foi até a porta de entrada, tentando parecer o melhor possível nos olhos da amiga, que agora tinha visão de si.

— Eu vou no mercado… – mentiu. – Preciso de cebola.

— Okey… Quer que eu vá junto? – perguntou a outra, pronta para se levantar do sofá.

— Não! – respondeu, quase gritando. – Eu vou, pode ficar aqui. – Forçou um sorriso, abrindo a porta.

Em seguida, virou para o lado de fora, saindo da casa e fechando a porta atrás de si, desfazendo o sorriso e voltando a ter a face abalada. O coração ainda palpitava no peito, e se não fosse tão jovem juraria que estava tendo um ataque cardíaco. Olhou de um lado para o outro na varanda, vendo a rua vazia. Sentiu um arrepio passar por seu corpo ao ver aquele ambiente. Talvez não fosse a melhor coisa a se fazer, mas no momento era a única opção que lhe veio a mente, a única coisa capaz de tirá-la de tal estado de pânico.

Desceu os poucos degraus da varanda e sentiu uma corrente fria lhe arrepiar os pelos. Chegou à calçada e passou reto pelo carro. Esperava que Jordana não percebe que o veículo continuava ali, e que não perguntasse, caso acontecesse, onde ela havia ido realmente. Não queria envolver a amiga nisso. Talvez os traumas do passado estivessem voltando, e algum engraçadinho resolveu aproveitar a volta das sobreviventes para mexer com a sanidade delas, não percebendo o quão sérios pareceriam para quem viveu e presenciou as mortes dos amigos e a sensação de traição.

Cruzou os braços, respirando fundo, andando em linha reta pela calçada. Pelo menos era o que Emily pensava, pois em pouco tempo se viu no meio da rua, andando no centro dela. As casas passavam ao seu lado, os carros eram deixados para trás. A luz dos postes refletia na garota enquanto ela cruzava a rua, lentamente voltando ao seu estado normal. Hayes mal percebeu quando a casa foi se afastando cada vez mais. Tanto que, se olhasse para trás, não conseguiria vê-la.

Agora, andava por uma descida. A vista estava voltada para a rua de concreto, a luz amarelada vinda de cima formando círculos. Sua própria sombra sumia e aparecia a cada poste que passava, ficando maior e menor gradativamente.

Escutava os grilos crocitando e os sapatos batendo no asfalto, apenas. O vento forte retumbava seus cabelos. De forma quase repentina, enquanto ainda olhava para o chão, Emily mal percebeu quando outra sombra se juntou à sua. Foi perceber somente quando o segundo poste foi deixado para trás, e observou-a com atenção antes de fazer qualquer movimento. Pela forma como ela ficava sempre no mesmo lugar, não se movendo para mais perto, Hayes constatou que o indivíduo andava no mesmo ritmo que o seu, apenas a alguns metros atrás, à sua esquerda. O que a faz virar a cabeça e encarar a pessoa, no entanto, foi o formato pontudo da cabeça de seu companheiro.

Parou onde estava, descruzando os braços. Olhou para trás lentamente, deparando-se com seu pior pesadelo. O corpo de Emily estremeceu. Era o mesmo traje de carrasco, o sobretudo, a máscara, as luvas, o coturno, tudo. A garota parou, o torso virado para trás, estática, e a figura fez o mesmo. Os dois ficaram parados, separados por uns dez metros, encarando um ao outro. Vítima e vilão, um reencontro retirado de um filme de terror. O Carrasco não se movia, a sombra projetando-se no chão, quase oculto pela negritude da noite.

Hayes nada fez. Engoliu em seco e, com os últimos esforços de sua mente e de sua sanidade, disse para si mesma que não era sério, que era apenas uma brincadeira feita por algum adolescente desocupado. Por isso, voltou-se para frente, andando, agora com um pouco mais de pressa, para a mesma direção de antes. O corpo parecia estar duro, mesmo que caminhasse, as mãos balançando frias ao lado do corpo. Sentia-se imersa em um pesadelo. A presença também voltou a andar, seguindo seus passos, no mesmo ritmo, o sobretudo esvoaçando com o vento. Emily sentia o peso do olhar do Carrasco em suas costas, o medo do inesperado nas entranhas.

Deixou de andar e se virou de supetão mais uma vez quando não aguentou a situação. Tentando não gaguejar, vendo que o mascarado havia, mais uma vez, parado junto de si, gritou:

— Você não é engraçado, sabia? – Tentava manter a calma, impor alguma superioridade, mesmo que sua voz deixasse claro que estava repleta de medo. – Você é só… Doente.

Segundos de silêncio se prosseguiram. A rua nunca pareceu tão vazia. O silêncio predominou. O corpo de Emily estava tão quente que o vento frio ao menos parecia existir. Então, de um segundo para o outro, o Carrasco se moveu. As pernas do perseguidor se lançaram para frente e os braços balançaram ao lado do corpo quando ele começou a correr na direção da sobrevivente.

Hayes hesitou por alguns segundos, vendo a figura se aproximar, ultrapassando as luzes dos postes. A garganta trancou, as pernas pareciam ter se fundido ao chão. E então, em um impulso repentino, vendo o Carrasco chegando mais perto, virou-se e começou a correr para longe.

Déjà vu.

Os instintos de sobrevivência foram ligados. Emily não sabia se ainda era uma brincadeira, mas não pararia por nada. Os pés batiam com força no chão, os coturnos pesados ressoando ao fundo. Via as coisas passando como vultos ao lado do corpo. O coração quase saía pela garganta, a respiração apitava com o esforço, ofegando. Olhou para trás, apenas para ver o mascarado chegando mais perto, incansável, indestrutível, imbatível.

Os cabelos entravam na frente do rosto, a garganta ainda trancada não cooperava com a situação e nenhum pedido de ajuda saía de seu corpo. Hayes apenas queria sair dali, seguindo pela rua deserta, correndo no centro dela, entre os carros e as casas, os postes iluminando seu caminho, a velocidade aumentando a cada passo dado. Não se lembrava da sensação de estar sendo perseguida, mas agora percebia que se tratava de uma sensação horrível, e que jamais gostaria de senti-la novamente. Conseguia sentir a presença atrás de si, a sombra do perseguidor projetando-se no chão.

Nenhuma pessoa via aquilo, todos estavam no interior de suas casas, aconchegados nos sofás, sem perceber que uma garota corria de sua provável morte logo à frente. Não havia tempo para Emily engolir a saliva, muito menos para parar de correr. Mais uma olhada para trás, e o maníaco estava mais próximo, correndo na mesma velocidade de si, a máscara voltada diretamente para Hayes, os olhos ilegíveis vidrados em seu alvo. Voltou sua atenção para frente. A rua parecia não ter um fim. Correu e correu, rezando para que o maldito parasse de lhe perseguir.

Chegava ao ponto de não ter ar nos pulmões, e foi nesse momento que uma olhada para a rua provou que o mascarado havia desaparecido. A sombra não estava mais lá. Nem por isso parou, observando o asfalto, a procura de alguma prova de que seu perseguidor continuava atrás de si. Nada. Encarou as calçadas ao lado e encontrou-as vazias. Seus pés eram os únicos que batiam freneticamente no chão.

Desnorteada com a situação e não prestando atenção no caminho, Emily se sobressaltou quando chocou-se contra alguma coisa. Bateu com o ombro direito, liberando um grunhido ao impacto. O mundo girou e os pés saíram do chão por dois segundos, batendo de encontro a ele de novo e perdendo a estabilidade. Os braços foram de frente ao rosto para amenizar a queda. Por sorte, funcionou, e Hayes sentiu apenas o ralado do concreto de encontro a pele.

Entre grunhidos e urros de dor, tentou voltar a ficar de pé e começar a correr novamente, mas foi impedida quando uma mão lhe segurou o ombro.

— Sai! – gritou, virando-se com os olhos esbugalhados e a face cheia de suor. – Não!

Ergueu o olhar e encarou Lincoln, o rapaz da galeria de artes. Ele mantinha uma face preocupada, e recuou dois passos quando ouviu as ordens de Hayes, erguendo as mãos em sinal de rendição. Emily olhou para a rua à frente, percebendo que ela mantinha-se vazia, sem sinal algum de seu perseguidor de segundos atrás. Ainda deitada no chão, voltou o olhar para Davis.

— O que aconteceu, Emily? – perguntou o homem.

— O que você está fazendo aqui? – tornou ela, curta e grossa, gritando.

— Eu moro aqui. – Ele apontou para o lado, onde uma casa de portas abertas estava posicionada. Na varanda da frente, Hayes conseguiu ver Sam, igualmente preocupada, longe o bastante para que não ouvisse a conversa dos dois. – Aconteceu alguma coisa?

A menina olhou para a rua de novo, ainda sentindo a adrenalina da perseguição percorrendo o corpo, um arrepio cruzando a espinha. Engoliu em seco. Havia sido perseguida pelo Carrasco, o mesmo Carrasco que derrubou o sangue de seus amigos sete anos antes. Ela não estava louca, aquilo havia realmente acontecido. Tentando encontrar uma desculpa boa o suficiente para dar à Lincoln, ela não sentia a dor dos ralados nos braços, anestesiada pelo medo.



Notas finais do capítulo

Oi, de novo! Bom, esse capítulo foi mais focado na apresentação dos novos personagens da trama (que foram bastante, mas não todos!). Mais alguns serão acrescentados no decorrer da história hehe Me digam se já gostaram de algum, o que acharam da mini-perseguição do final, o que acham que vai acontecer daqui em diante, etc... Adoro saber a opinião de vocês, e é ótimo interagir com meus leitores haha Até mais!



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