Juízo final (WSU: Lucy, Livro 2) escrita por Natália Alonso, WSUniverse


Capítulo 1
Prólogo


Notas iniciais do capítulo

A história será atualizada a cada três dias. Agradecimentos especiais a Daniel Elias, Maurício Lex e Jorge V. Veiga.



 

 

“Conhece-te a ti mesmo, torna-te consciente de tua ignorância e serás sábio. ” — Sócrates.

 

 

 

Madri, 1568

 

 

É noite. Chove torrencialmente e o breu é interrompido momentaneamente por relâmpagos na noite quente. A chuva caindo quase abafa o som de alguém esmurrando a porta. Eu corro para abrir para aquele que me avisaram que viria. Antônio entra carregando sua esposa grávida nos braços. Ela sangra muito, sua e chora de dor quando a colocamos no chão. Às pressas, eu coloco os tecidos fervidos e a bacia de água no chão próximo às suas pernas.

Afasto os seus joelhos dobrados e a toco, sinto as costas da criança, ela está virada em seu ventre. Encosto minha cabeça na barriga da gestante, eu não preciso fazer isso, afinal, posso ver o pulsar de ambas. Mas eles não sabem que sou uma vampira e prefiro que continuem não sabendo. Eu vejo o pulsar do coração da mãe cada vez mais fraco, assim como do bebê, ele quase não se move em seu útero cansado das contrações.

— Foi por isso que não veio ainda. — falo pensativa.

— O quê? As freiras disseram que ela era uma amaldiçoada e por isso iriam morrer. — O pai de primeira viagem se desespera.

— As freiras é que são.

— O que disse?

— Nada. Preciso pegar outra coisa.

Vou até a cozinha e jogo a faca no forno a lenha, coloco o atiçador também enquanto procuro a agulha de ferro e desfio um lenço.

— O que é isso?

— Eu terei que abrir, mas a Eleonor pode se tornar estéril.

Ele me olha confuso com minha afirmação.

— Nem sempre conseguimos manter o útero intacto. Eu posso salvar a criança, pois se continuar desse jeito, ambas morrerão. 

— Mas por quê? — O marido está aflito.

— A criança está virada, não pode nascer assim. — falo enquanto tiro a faca e o atiçador já vermelho-brilhantes — As freiras mal sabem alguma coisa do corpo humano e acham que quando está virado é por que fora amaldiçoado.

— Eu juro que nunca fizemos nada para...

— Eu acredito. Há amaldiçoados que nunca fizeram nada para receber isso, coisas ruins acontecem, para os puros ou impuros.

É claro que sei muito bem disso. Por mais que eu tivesse seguido os mandamentos, mesmo assim me tornei o que sou. Mas agora, posso usar esses poderes para algo bom. Viro-me e vejo que Eleonor já desmaiara de cansaço. Entrego o atiçador brilhando em brasa para a mão do pai, ele treme com seus olhos grandes e arregalados, de medo e incerteza.

— Eu vou precisar que me ajude. — digo, puxando-o para perto de mim e sua esposa.

 

 

 

New Orleans, atualmente

 

No galpão, alguns homens de Nikolai, estão se organizando para uma nova carga de mulheres. Garotas muito novas, pobres e ignorantes, iludidas com oportunidades de emprego em uma terra distante. Mas quando são aprisionadas nos contêineres e veem um balde e algumas garrafas d’água, logo percebem que os homens do leste europeu não estavam contratando para trabalhos fabris. Interessa a eles roubar seus corpos e juventude, escravas sexuais e trabalhos forçados serão seus destinos.

O problema do tráfico internacional de mulheres é que ele faz muitas vítimas, mas nenhuma famosa para chamar atenção da mídia. Por isso é pouco investigado, ninguém liga para uma latina morta na valeta ou uma negra pobre desaparecida.

Uma mulher está presa do lado de fora da jaula, algemada em um pilar do galpão. Outras estão em uma jaula para animais no canto. Cerca de dez homens armados, bêbados e cheios de más intenções estão se divertindo com o medo da escolhida. Um deles tem um AK-47, é já uma arma antiga, mas eficiente. Os outros têm canivetes e pistolas automáticas 48mm. Sinto o cheiro característico de pólvora e explosivos de uma bazuca escondida em um dos inúmeros caixotes em torno. Eles não vendem apenas mercadorias vivas, mas também armas e drogas. Um deles se aproxima e bate com a costas da mão no rosto da algemada.

— Olha, você é um tanto velha para a mercadoria, mas daria um ótimo uso essa noite para a gente. — fala o homem louro, de camisa branca dobrada até os cotovelos, ele tem uma faca na cintura e uma pistola na parte das costas.

— Eu juro que não vi nada! Eu só estava procurando o meu cachorro que escapou... — diz a mulher. Quando o homem lhe dá um soco em seu estômago, ela se curva sem ar.

— Fica quietinha, piranha... — Ele vira para outro ao telefone. — Você confirmou a entrega com ele?

O homem ao celular faz um gesto indicando para esperar. Ele escuta por mais alguns instantes, afirma alguma coisa em russo, tenta falar baixo, desliga o aparelho e finalmente responde:

— O navio chega amanhã, o pagamento já foi feito, o mesmo comprador.

— Aqueles caras me dão arrepios. — retoma o homem enquanto passa a mão na barriga da mulher algemada na pilastra.

Cada capanga está espalhado por todo o galpão, um deles olha para o abusador, mas vira o rosto em repugnância. Parece que nem todos são tão nojentos. Eu posso ver cada um, sei exatamente onde se posicionam e já penso em meu ataque. Tenho que manter vivo o homem do telefone, ele não pode escapar, é o meu alvo.

— Vai querer fazer alguma coisa hoje à noite? — O abusador fala ao negociante que desliga o notebook e começa a guardar os aparelhos.

Antes de responder, ele olha para a mulher, para o colega subindo as mãos em seus seios e para o rosto cheio de lágrimas da vítima.

— Depois de você, não gosto quando brigam muito.

— Ah... eu gosto — O homem está com a mão por dentro de sua blusa. — Adoro quando gritam, adoro ficar sem sentir minhas pernas depois...

— Seu desejo é uma ordem! — Levanto o olhar para ele, me apoio na pilastra enquanto abraço sua cintura com minhas pernas.

Meus tornozelos se cruzam em suas costas e com um apertão de força sobrenatural pode-se ouvir sua coluna estalar. Ele grita. Dou uma cabeçada, fazendo-o cair para trás. O negociante saca uma arma, atira junto de outros dois enquanto eu subo na pilastra de costas. Tentam me acertar até eu chegar no alto, quebro o meu pulso fazendo com que minha mão passe pela algema, salto para o chão bem à frente de um deles. Uma cabeçada em sua barriga, um chute transversal e pronto, chamei a atenção do resto que começam a atirar.

Corro para o outro lado do galpão rolando em cima das caixas de madeira. Assim que estou do outro lado pego uma adaga presa na parte interna de minha coxa e ponho a máscara que estava escondida nas costas da blusa. É simples, uma máscara de cerâmica lisa e branca, no estilo vienense, elegante e prática.

Eles atiram muito, gastam muita munição, logo há menos tiros quando estão recarregando. É nesse momento que aproveito, chuto uma caixa na cara do mais próximo, escalando pela pilha de encomendas e atacando os mais distantes. Agarro um, viro o seu corpo no chão e prendo sua cabeça em minhas pernas, uso o seu fuzil para atirar no outro. Um me acerta no ombro, muito perto de meu pescoço, perto demais para o meu gosto. Atiro em sua cabeça, acerto um no peito, mais dois homens no ombro e peito. Termino o movimento quebrando o pescoço do homem usando a base de seu fuzil.

Ao soltar o homem, vejo o idiota que estava ao telefone abrir o galpão para fugir. Atiro minha adaga no seu joelho e começo a ir em busca do meu informante. Enquanto me aproximo do fujão, passo pelo boçal rastejante que estava passando a mão em meu seio a poucos instantes atrás.

— Sua bruxa! — Minha bota atinge seu queixo, o agarro pela gola e o arrasto até ele ficar em cima da mesa.

Ele se debate como pode, arranha meu rosto com uma das mãos, eu puxo a faca de sua cintura aproximando de seu rosto, então escuto:

— A polícia foi acionada, você tem dois minutos. — Hidekki fala em meu ouvido pelo comunicador.

— Entendi, só preciso de um. — Me viro para o molestador em minha frente. — Vocês gostam de sentir o poder não é mesmo? Gostam dessa sensação de superioridade e dominação. Eu também.

Corto sua garganta, o sangue jorra para fora cobrindo seu rosto, ele agoniza por um instante, eu perco a concentração ao ficar assistindo ele se afogar. Aqueles longos segundos me deixam em um transe, como se eu fosse um animal faminto observando um nascimento de uma nova presa. Eu testemunho o alimento se esvair e escorrer até o chão. Olho, não bebo. Fico apenas na vontade, no desejo não saciado.

O silêncio na mesa quebra meu delírio. Solto-o deixando escorregar no chão fazendo o barulho surdo de um saco de batatas. Vou atrás do fujão que, a essa altura, tirou minha adaga do joelho, péssima escolha. Agora ele sangra e mal tem ligamentos para se mover, ele manca tentando inutilmente fugir.

— EU NÃO VI O SEU ROSTO! EU NÃO CHEGUEI PERTO DE VOCÊ! — Ele berra recuando enquanto segura a minha adaga contra mim, como se isso me ameaçasse. A bala de meu ombro cai no chão enquanto caminho, ele vê o projétil quicar no asfalto e me olha assustado. — Que tipo de demônio é você? É daqueles corrompidos? É aquela que falaram na TV?

Eu sorrio para ele, mostrando minhas presas pela meia máscara. Ele aponta a adaga, eu seguro seu pulso e torço dando um soco em seu peito e ombro. Ele cai de joelhos.

— O que você quer?

— Quem é o comprador? De onde ele é?

— Eu não sei, só sei que ele paga em diamantes para o Nikolai. Ele sempre pede mulheres jovens e bonitas.

— Isso não me ajuda.

— E-eu não... — Dou um chute em seu peito fazendo-o deitar, piso em cima de seu ombro e com a outra perna apoio em sua rótula cortada, ele grita em desespero.

— Onde será a troca?

— No porto! Sempre é no porto! Mas o número da plataforma só sabemos na hora, o comprador manda uma mensagem falando um pouco antes da entrega.

Ouço as sirenes policiais chegando.

— Onde Nikolai está? — Ele balança a cabeça negando. Eu torço seu braço fazendo uma fratura exposta no cotovelo, ele grita abafado pela minha mão na sua boca. Me abaixo e chego muito próximo ao seu rosto.

Onde está Nikolai ... — sussurro em seu ouvido.

— Está no White Cat, ele se esconde lá, mas o lugar é uma fortaleza!

— Tudo bem, não quero nada fácil mesmo. — Eu o solto, empurrando seu rosto contra o chão. Os ossos de seu braço espirram sangue na sua camisa. Corro para o prédio ao lado, subindo pela parede lateral entre as sombras.

 

 

 

*********

 

Assim que chego em casa de moto encontro Hidekki no meu porão.

— E aí? Conseguiu informações? — Ele está de regata, é possível ver uma grande cicatriz do óleo quente que fora jogado em seu ombro direito.

Desço os meus olhos ao longo de seu braço esquerdo e vejo sua prótese metálica. Um gancho duplo que segura um cigarro. Ele levanta o braço e dá uma tragada profunda enquanto olha para mim, seu olhar é vago, frio.

— Algumas, a maioria não sabia muita coisa, não pude perguntar a todos.

— Tá. Você precisa de mais alguma coisa? — fala secamente.

— Não, pode ir pra casa, Hidekki. Você tem faculdade amanhã ainda.

— Não se preocupe, você sabe que durmo pouco. Boa noite, Lucy. — Ele fala, enquanto toma mais um gole do energético que estava na mesa. Passa por mim atirando a latinha no cesto de lixo, joga o cigarro ainda aceso no copo de café da mesa e vai embora.

Em um ano Hidekki mudara muito, ele perdeu aquela leveza, sempre penso em o que ele pode ter passado durante os três dias em que ficou preso com Clinton. Eu pedi que ele fosse a um terapeuta, mas ele sempre desvia do assunto. Preciso pensar em algo que o faça se sentir melhor com isso.

Penso enquanto olho para o meu porão que fora todo mudado. Antes tinham todas minhas antiguidades, uma grande adega cobria a parede, um tonel de fermentação e um de curtição.

Agora só sobrou uma geladeira muito mais moderna frost-free, a boneca de Laura ainda está na caixa de vidro. Mas todo o resto são mesas cobertas de computadores, eletrônicos e um emaranhado de fios coloridos. Coisas que Hidekki faz, como trabalhos de sua faculdade.

— Foi uma noite agitada hoje. — Manson interrompe meus pensamentos no pé da escada.

— Sim, foi divertida. — digo sem muito entusiasmo.

— Era necessário tantos cadáveres?

— Se você estivesse lá, saberia que sim.

— É por isso que estou perguntando. Dois que levaram tiros estão estáveis no hospital, o com o joelho furado e braço quebrado falava assustado de você.

— Ele me perguntou se eu era a mulher da televisão.

— É, você foi o assunto do mês. Afinal, não é todo dia que uma mulher atira um homem do outro lado da loja... Você ainda vai naquela mercearia?

— Todas as semanas. — falo enquanto limpo os restos de cigarros e encontro outras latas de energéticos perdidas no chão. — Frequentemente eles me dão descontos agora.

— Eles sabem quem você é? — fala com seu charmoso tom investigativo.

Eu paro, olho para ele, admirando eu lindo rosto negro de barba rala, a cicatriz na lateral acima da orelha é bem discreta.

— Só me conhecem de rosto, lá não aceita cartão, então, nem dados eles têm.

— Câmeras?

— Já não funcionavam hà muito tempo. E fora que se tivessem, com a pressão que a imprensa fez, teria aparecido alguma coisa.

— É bom, é mais seguro para você e para eles também. Você tem feito muitos inimigos ultimamente. — Eu rio com um pouco de desdém. Subo as escadas e quando estou próxima ele me abraça pela cintura, damos um beijo quente e suado.

— Preciso de um banho. — falo enquanto solto a trança embutida do cabelo que já cresceu até os ombros.

— Ótimo, eu também preciso de um. — Seu hálito quente acaricia meu pescoço.

 

 

 

*********

 

No dia seguinte, o pequeno consultório está muito abafado, o ar-condicionado, meio amarelado, luta para vencer o calor. O sol passa pela vidraça da janela fechada emanando um mormaço na área. Ainda é silencioso quando Manson tosse mais uma vez no punho antes de perguntar novamente.

— Então, que tratamento temos?

— Acho que você ainda não entendeu. — O médico fala calmamente.

— Quimioterapia? Rádio?

— Sargento Manson, o estágio é bastante avançado já. Se você tivesse vindo aqui antes talvez...

Manson para incrédulo por alguns segundo e fala em tom revoltado em seguida:

— Talvez o quê? Tá me falando que eu vou morrer?

— A quimioterapia é de um mês de ataque, a remissão só se inicia em três meses...

— Então! Se quiser eu começo hoje!

— Eu não faria planos para mais de três ou quatro meses, Sargento.

Manson se encosta novamente na cadeira, olha para o lado vendo as placas de formatura do Oncologista. Ao lado, as chapas de raio-X de seu peito manchado estão ainda no suporte luminoso. Quase como um pôster macabro, lembrando do seu hábito de fumar desde os catorze anos de idade. O silêncio em seus olhos negros é cortado pela fala do médico.

— Entenda que você já está na fila de transplante, mas é preciso encontrar alguém compatível, você sabe que isso é quase uma roleta russa. — fala o médico de forma mecânica, quase de forma ensaiada.

Manson permanece em silêncio, olha para o bloco de receituário do médico na parte superior da mesa. O médico pega o bloco e anota com sua letra disforme vários medicamentos.

— Esse deve aliviar os sintomas, já esse outro é um antidepressivo que você só deve tomar quan...

O policial não tem certeza do que o médico estava falando nessa hora. Ele não estava prestando atenção, só olhava o movimento da caneta que parecia fazer um som maior do que a voz do homem de jaleco branco. Ao destacar as quatro folhas do bloco, o especialista estende as folhas e completa:

— Tente não desanimar, por hora é melhor correr menos atrás de bandidos, certo? — O médico tenta ser animador, e fracassa miseravelmente.

O ex-militar sai do consultório ainda desnorteado, o brilho do sol o incomoda como se tudo fosse mais irritantemente colorido. Ele enfia a mão no bolso e pega o maço amassado de cigarros, se aproxima de uma lixeira. Ele e para por um momento, lembrando do que o médico lhe dissera. Que diferença isso vai fazer agora? Novamente o silêncio é quebrado pelo celular, uma mensagem minha:

 

 

L — Você vem hoje à noite?

M — Sim, vamos comer alguma coisa.

L — Está bem, te espero em casa então.

 

 

Ele bloqueia a tela do celular, coloca no bolso da calça, passa a mão no suor do rosto e limpa na lateral da camisa. Bate duas vezes no maço de cigarros amassado até um deles saltar pela abertura, leva a boca, acende com os fósforos e dá uma tragada profunda.

 

 

 

*********

 

Um rapaz sentado no banco da rua lê um livro, folheando as páginas e puxando a ponta superior direita delicadamente antes de virar. Passa a mão sobre a folha recém virada para marcar suavemente o livro. O conto de Mary Shelley o fascina, como alguém pode ver a criatura de Frankenstein como algo ruim? Ela não havia nascido ruim, apenas teve más influências. Sente pena da criatura a cada parágrafo, havia ouvido falar do conto, assistiu a um filme antigo recentemente, mas ainda não tinha lido o original.

Ele aproveita a leitura nessa tarde de calor. Tenta se refrescar na sombra de uma árvore enquanto às vezes estende o braço e toma mais um gole do milk-shake que comprara da esquina. Então ele abaixa o livro por um instante, rosto esguio, deve ter pouco mais de vinte anos, olhos e cabelos castanhos claros, pele clara. Suas pernas no jeans estão cruzadas, tem uma pequena bolsa lateral no banco e usa uma camiseta verde com alguns desenhos na manga. Ele olha ao longo da rua e se distrai com as pessoas passando.

— Com licença. — fala a mulher com o carrinho de bebê.

— Ah sim, claro. — Ele responde enquanto tira a bolsa do lado e a coloca sobre o colo e o livro sobre ela.

A mulher se senta no banco e ajeita o carrinho de bebê, o som baixo do gemido de uma criança escapa do carrinho. Ela tira da grande e pesada bolsa cor-de-rosa um tecido fino e cobre a abertura do carrinho, do sombreiro até os pés do bebê, assim consegue fazer sombra na criança.

— Esse calor deixa todos incomodados. — Ele fala para a cansada mãe.

— Sim, ela não tem dormido bem à noite, mas o balanço do carrinho ajuda muito. — responde a mulher de cabelos ruivos, curtos na altura das orelhas. Pode-se perceber suas olheiras, mas ela solta também um sorriso.

Os dois ficam em silêncio novamente, ele pega seu livro e o abre para reiniciar a leitura. Ela observa a capa e pergunta.

— Nunca li, tenho medo de filmes e livros de terror. É bom como falam?

Ele olha para a capa antes de responder.

— Eu estou gostando muito, na verdade, nem acho assustador.

— Não? — fala um pouco surpresa e instigada.

— Não, eu tenho um pouco de pena da criatura, ela não teve quem desse amor e carinho. Por isso tem uma ideia distorcida desse sentimento, acaba fazendo coisas ruins por conta disso.

— A criatura que você fala é aquele morto-vivo? — Ela fala balançando as mãos a frente do corpo, imitando a caminhada de um zumbi.

— Sim, esse mesmo... — Ele ri um pouco com o gesto da mãe.

— Não parece ser muito longo e se diz que não é assustador, quem sabe eu consiga ler.

— Eu recomendo.

Eles sorriem cordialmente enquanto um homem tromba em um ciclista na calçada. Uma discussão é iniciada por um acidente tão casual. Do banco, os dois observam cuidadosos enquanto outros transeuntes param próximos tentando acalmar os que estão nervosos.

— Acha que eles vão brigar? — pergunta a ruiva, preocupada.

— Eu não sei. — Ele olha em volta em busca de um guarda ou segurança por perto, deveria haver algum por lá.

Finalmente os dois brigões xingam alto seus palavreados chulos e se contentam em apenas se ofender. Se afastam tomando seus rumos iniciais. O leitor e a mãe observam aliviados ainda do banco, ainda bem que não houve violência. Um pequeno toque de celular sai da bolsa pequena da mãe, ela tenta alcançar o objeto, mas é atrapalhada pela grande bolsa de bebê. O rapaz se oferece e segura a bolsa rosada enquanto a mulher consegue finalmente pegar o aparelho.

— Obrigada.

— Não foi nada.

Ela olha rapidamente o celular e depois olha em volta, assim que avista o carro do marido que chegara ela guarda o celular de volta na bolsinha.

— Obrigada pela recomendação, vou indo agora.

Assim que se levanta percebe que o carrinho ficou com a roda presa no buraco do asfalto.

— Eu te ajudo. — O rapaz coloca o livro rapidamente na sua bolsa lateral, se levanta e segura o carrinho de bebê para ajudar a empurrar.

— Desculpe, não queria atrapalhar a sua leitura. — fala a mãe enquanto arruma a pesada bolsa infantil.

— Não tem problema, são só alguns metros. — responde sorrindo para mãe, ele apoia com o pé uma das rodinhas e consegue desatolar o carrinho. Suja um pouco seu tênis all star vermelho, mas pouco se importa com isso. Eles caminham até o carro do marido que estacionara mais à frente.

— Conseguiu um ajudante? — fala o marido para a mulher, ela apenas ri.

— É, parece que sim. — diz o rapaz sorrindo ao homem de cabelos pretos e robusto, um homem alto e forte, pode-se notar em sua camiseta um pouco justa no peito.

— Que bom então! — Os dois se entreolham simpaticamente.

Finalmente a mulher pega a criança do carrinho e a coloca no bebê-conforto, preso no banco de trás do carro. Dá a volta e entra pela outra porta traseira se ajeitando com a grande bolsa infantil. Os homens colocam o carrinho no porta-malas e o pai aperta a mão do rapaz agradecido, eles trocam um rápido tapa nos ombros de forma gentil. Quando o pai já está no carro, preparado a dirigir, a mãe fala do banco de trás.

— Muito obrigada pela ajuda e pela sugestão de livro.

— Por nada. — responde ele voltando à porta. Ele para um pouco pensativo antes de voltar a falar. — Você sabe que horas são?

O pai pega rapidamente o celular e reponde.

— São 16:42.

— Ah sim, muito obrigado. Ah! — O rapaz se apoia na janela do motorista. — Eu quase ia me esquecendo.

Nesse momento, o leitor atinge a têmpora do pai com um martelo. O som oco do crânio quebrando é seguido pelo grito de horror da mãe no banco de trás. O homem ao volante convulsiona com as mãos trêmulas no painel, enquanto o rapaz o atinge mais uma vez, agora no maxilar. Ao se quebrar, seus dentes se exibem espirrando o sangue no vidro frontal. O movimento se repete mais uma vez, tirando o martelo e batendo novamente, sempre na cabeça do homem.

O rapaz se apoia na porta para auxiliar o movimento, a mãe pega a criança que já chorava no cesto de segurança. O movimento continua, enquanto outras pessoas tentam segurar o braço do magro rapaz. Quando finalmente conseguem afastá-lo, depois de muitos golpes, o rosto do pai está totalmente ausente, sobrara apenas algumas partes dele sobre o painel e em seu dorso.

 

 



Notas finais do capítulo

Este livro faz parte do WSU, para maiores detalhes do universo compartilhado de escritores entrar na página do facebook.com/wsuniverse



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