Collide escrita por Allie Próvier


Capítulo 27
27. A Festa


Notas iniciais do capítulo

Capítulo dedicado à Mary Victorianna, que recomendou a fic no último capítulo! ♥
Espero que gostem, amorecos. :3




CAPÍTULO 27

 

Logo o sol irá parar de brilhar e você será escuridão na minha vida.

Sim, você terá ido, é tão simples quanto mudar de ideia.

Mas eu não pensarei no futuro.

Kodaline - Love Like This

 

   Respire e expire, Allison. Respire e expire.

   E depois mate Daniel.

  Eu juro que tentei manter a calma, porque veja bem: não somos namorados. Somos quase isso, somos uma coisa entre amigos e namorados, mas não somos realmente namorados e essa merda está me matando. Mais do que antes. Imaginei o motivo de Louise ter ido lá, imaginei o que ela poderia ter falado para ele, que artimanha ela usou – a separação dos pais? A tristeza? A falta do pai? Alguma desavença com a mãe? A solidão? – e tentei entender o motivo de Daniel ser tão idiota de ter caído na conversa dela e ter aceitado sair com ela, e desmarcar comigo. E o pior: não me contou.

   O filme que passava era “Como eu era antes de você”, e enquanto até Eve se emocionava com ele, eu me via comendo chocolates com uma voracidade irreconhecível. Geralmente era eu quem chorava com filmes de romance, não Eve. Mas dessa vez ela estava aos prantos no ombro de Jack. Provavelmente chorava por mim e pela minha miséria amorosa. Obrigada, Eve.

   Quando o filme acabou, fomos todos para a cozinha. Vanessa já havia ido deitar porque estava com dor de cabeça. Sentei à bancada e Jack sentou ao meu lado, enquanto Eve olhava a geladeira aberta à procura de algo que eu não fazia idéia.

— Eu nunca te vi tão irritada. – Jack disse. – Calma, Ally.

— Não estou irritada. – resmunguei.

   Eve olhou para nós dois com ar de riso.

— Ela está irritada. – ela confirmou.

   Revirei os olhos e ela tirou uma torta de frango da geladeira, levando-a até o microondas para aquecer.

— Eu apenas não entendo o motivo de ele não ter me contado. – cruzei os braços.

— É tão óbvio. – Eve revirou os olhos. – Ele sabia que você ia se irritar e ia mandá-lo à merda. O que realmente devia ser feito.

— De repente ele pensou em te contar depois, Ally. – Jack disse. – Ele não parecia muito a vontade com ela. Eu vi a hora em que ele iria entrar no carro sozinho, mas ela insistiu em falar com ele e entrou no carro também. Ele não deve ter tido escolha.

— Todo mundo tem escolha, Jackson. – Eve resmungou, cruzando os braços enquanto se apoiava com a cintura no balcão. – Se fosse eu no lugar dele, tinha colocado ela pra fora do carro e ainda passava com ele por cima dela. Garota insuportável.

— Credo, Eve. – eu ri. – Você não faria isso.

— Duvida?

   Suspirei, dando de ombros. Tanto faz o que Eve faria. O que importava era o que Daniel fez. E eu não ia deixar barato.

— A festa de manhã será que horas? – perguntei.

    Eve e Jack sorriram.

(...)

   Talvez eu estivesse sendo infantil, mas não arrancaria pedaço eu ter uma noite de adolescente normal antes de terminar a escola. Eu teria bastante disso na faculdade também, mas o clima seria outro. Eu queria experimentar o que desse nesse tempo antes de ir para outro lugar e me despedir das pessoas daqui. Por isso, não ligava mais se levaria duas horas até Carmel. Seria divertido.

   Daniel não falou comigo até a tarde do dia seguinte. Meu sábado começou com Eve gritando para eu acordar. Não havia nem uma mensagem de Daniel, nem uma ligação, nada. Meus dedos coçaram para eu procurá-lo, mas Eve me deu um tapa na nuca que doeu tanto que eu larguei o celular como se ele estivesse pegando fogo e esqueci de sua existência até a hora em que terminamos de nos arrumar para a festa. Ela começaria às 19:00 da noite, mas como a viagem era um pouco longa e o dono da festa era um amigo de anos de Jack, resolvemos ir mais cedo. Saímos da casa de Eve às 16:30 da tarde e o céu já começava a atingir alguns tons bonitos de laranja e rosa.

   Jack dirigia seu carro e Eve ia ao seu lado. Eu me joguei no banco de trás, com a janela aberta e o vento empurrando meus cabelos para trás, e olhei o celular diversas vezes durante o caminho, esperando algum sinal de vida dele. Acabei olhando algumas redes sociais e entrei no Instagram. Rolei a tela, curtindo uma foto ou outra de gatos e coisas bonitinhas que apareciam, até que apareceu uma em especial.

   Louise havia acabado de postar uma foto dela com Daniel ao fundo, à beira do Píer 39. Aparentemente eles estavam andando e ele não sabia que estava sendo fotografado, já que olhava em direção ao mar distraidamente e ela estava do seu outro lado, tirando a foto toda sorridente sem ele saber.

   E para eu ver. Porque era isso que Louise queria, era esse tipo de garota que ela era.

   Fechei o aplicativo e joguei o celular dentro da bolsa. Respirei fundo e pedi para Jack aumentar o volume da música que tocava. Fechei os olhos, encostado a cabeça na janela e cantarolando Use Somebody, do Kings of Leon.

(...)

   Quando chegamos na festa, o sol já havia desaparecido. Pretendíamos chegar um pouco mais cedo, mas acabamos chegando às 20:00 porque paramos duas vezes no caminho para botar gasolina e comprar biscoito. A noite estava estrelada e fria, tentei me encolher dentro da jaqueta para fugir do vento, mas era impossível.

   Jack cumprimentou alguns amigos quando chegamos. A casa era bem grande e com uma vista espetacular para o mar, era bem alto. Ela tinha um ar vitoriano e parecia recém reformada, gostei do lugar rapidamente. Na frente da casa havia uma área gramada mais alta do que o nível da entrada da garagem, onde algumas pessoas já estavam sentadas bebendo e conversando umas com as outras. Eve e eu íamos atrás de Jack, olhando tudo e cumprimentando os amigos dele que nos cumprimentavam.

   Logo encontramos o dono da festa na piscina, atrás da casa. Ele já estava um pouco bêbado, mas ainda tinha um ar de lucidez. Abraçou Jack animadamente, parecendo realmente feliz por nos ver ali. Ele cumprimentou Eve enquanto eu desviava de dois amigos que passavam escandalosamente, quase me derrubando na piscina.

— Essa é a Ally, melhor amiga da Eve. – ouvi Jack dizer.

   Virei-me rapidamente para eles e dei de cara com o amigo de Jack sorrindo para mim. Ele veio me abraçar e eu retribuí, um pouco perdida.

— Eu sou Logan, muito prazer. – ele disse, beijando meu rosto antes de se afastar de mim. – Em São Francisco as garotas são realmente mais bonitas.

   Ele me olhava bem nos olhos e eu olhei para Eve e Jack, pedindo socorro. Jack riu e deu dois tapinhas no ombro de Logan, puxando algum assunto qualquer sobre a festa. Eve sorriu maliciosamente para mim e eu revirei os olhos.

— Não começa. – resmunguei. – Que cara idiota.

— Idiota, sim. Mas olha esses braços. – ela cochichou, e nós duas olhamos para Logan, que conversava com Jack. – E olha esse pescoço de boxeador. E olha esses olhos azuis como o mar do Tenerife. E olha...

— Cala a boca, Eve. – eu ri. – Eu vou contar para o Jack.

— Ele sabe que eu o amo. – ela deu de ombros. – Mesmo com essa cara de bobinho que ele tem.

   Sorri automaticamente com o que ela disse. Foi tão natural. Ela não pareceu perceber o que havia acabado de dizer para mim, então eu preferi fingir que também não havia percebido para ela não se sentir envergonhada. Mas aquilo, para mim, significou o mundo. Senti vontade de abraçá-la, mas me contive.

— Vocês podem ir pegar bebidas e voltar para ficar aqui comigo. – Logan sorriu para nós duas. – Jack já sabe onde as bebidas estão. Daqui a pouco eu e alguns caras começaremos uma competição de ping-pong.

   Eu e Eve assentimos e eu agarrei na mão da minha amiga quando passamos por Logan, sentindo os olhos dele sobre mim. Automaticamente levei uma mão até a barra do vestido que usava. Com certeza era por causa dele, era culpa de Eve. Eu iria de short ou calça jeans, mas ela insistiu para que eu usasse o bendito vestido.

   Pegamos algumas bebidas e voltamos para a beira da piscina, para ficar com Logan e alguns outros amigos dele no deck de madeira coberto que havia ali. A maioria do pessoal que estava lá eram casais, mas tentei ignorar esse fato. Acabei entrando no jogo de ping-pong também, mas era absurdamente ruim. Arranquei risadas de todos com minha coordenação motora precária, e percebi Logan me olhando com um sorriso de orelha em orelha diversas vezes. Por fim, desisti daquilo, já sentindo a bebida subir minha cabeça. Não daria mesmo para eu continuar jogando.

   Falei para Jack que iria ao banheiro, - já que Eve estava jogando uma partida contra outra garota – e ele assentiu, falando para eu ligar caso eu me perdesse. Sorri, achando aquilo absurdo. A casa nem era tão grande assim. Quero dizer, era bem grande, devia ter uns cinco quartos, mas não era o suficiente para eu me perder.

   Rodei tudo procurando por um banheiro e finalmente encontrei um no segundo andar que não estava com uma fila tão grande. Havia apenas duas meninas na minha frente, então foi ali mesmo que fiquei. Encostei as costas na parede, respirando fundo para me manter de pé. Eu não havia bebido muito, mas era fraca para álcool. Três copos e eu já sentia meu corpo totalmente leve e algumas tonturas. Apesar disso, ainda tinha um copo pela metade na mão.

   O lado bom era que estava com Jack e Eve, então estava segura. Sorri ao lembrar que o meu primeiro porre também foi com eles, no início no ano anterior, antes de Eve terminar com Jack. Os dois me levaram a uma festa de um conhecido e eu saí de lá desmaiada. Nem lembro como cheguei em casa, mas Eve jura que eu dei uns beijos em um cara muito bonito. Duvido muito, porque não lembro ter visto nenhum cara muito bonito naquela festa. Acho que ela inventou isso para eu me sentir menos pior.

    Uma garota saiu do banheiro e a primeira da fila entrou. Finalmente, quase a minha vez. Senti meu celular vibrar dentro da bolsa, pela primeira vez naquela noite, e eu o peguei. Semicerrei os olhos para tentar enxergar melhor, já que estava com a visão levemente turva.

   Era uma mensagem de Daniel.

   “Aonde você está? Jack acabou de postar uma foto com você e Eve. Está em uma festa?”

   Ah, que bonitinho. Ele quer saber onde eu estou e o que estou fazendo. Tentei escrever com uma mão só e depois de um século, a mensagem foi enviada e visualizada no mesmo instante.

   “Você viu, é? Onde? No mesmo lugar onde Louise postou aquela foto com você?”

   Bebi mais um gole da minha bebida, sentindo-me incrivelmente incrível. Não consegui conter umas risadinhas enquanto via que ele estava escrevendo uma mensagem. O que será que ele diria? Que aquela foto não era real? Era montagem?

   A menina na minha frente entrou no banheiro. Logo eu seria a próxima. Daniel respondeu.

   “Nós precisamos conversar. Me diz onde você está.”

   Nem fudendo.

   Joguei o celular dentro da bolsa novamente, sentindo uma leve irritação, e resolvi ignorá-lo. Virei a bebida que segurava de uma vez só, sentindo um baque na cabeça. Fechei os olhos com força e joguei a cabeça um pouco para trás, me apoiando na parede. Ai, Allison. Você só faz merda.

   Logo o torpor passou e eu suspirei. A menina saiu do banheiro e eu entrei correndo. Joguei o copo vermelho no lixo e fiz xixi, me sentindo aliviada instantaneamente. Tentei ignorar a sensação de que havia feito xixi na roupa, porque isso seria o cúmulo da precariedade. Quando dei descarga, o celular tocou alto na bolsa. Sobressaltei, assustada. Atendi a ligação correndo sem nem ao menos olhar o nome de quem ligava.

Me diz onde você está.— Daniel falou no outro lado da linha, curto e grosso.

   Ah, me poupe.

   Revirei os olhos, segurando o celular entre a orelha e o ombro, enquanto lavava minhas mãos na pia de mármore super bonita. A casa estava realmente bem nova, onde estavam os pais do Logan que o deixavam fazer uma festa daquela cheia de adolescentes esquisitos numa casa tão bonita assim?

— Estou bem longe. – falei, tentando controlar a língua enrolada. – Por quê?

Você bebeu?

— Não, tô bebendo só água. – revirei os olhos. – Não enche, Daniel.

   Ele bufou no outro lado e eu sorri para mim mesma. Era ótimo confrontá-lo, era maravilhosa a sensação de deixá-lo irritado e desnorteado, porque era assim que ele me deixava.

Está irritada comigo por causa da Louise?— ele perguntou. – Eu posso explicar.

— Explique pra quem se importa. – falei, secando a mão na toalha e voltando a segurar o celular normalmente. – Tchau.

   Desliguei o celular e o botei na bolsa novamente. Saí do banheiro um pouco zonza, mas de pé. Peguei outra bebida na cozinha e revirei os olhos ao ver um casal que se beijava enlouquecidamente bem ao lado. E quando me virei para sair do cômodo e voltar à piscina para encontrar meus amigos, dei de cara com Logan. Quase esbarrei e derrubei bebida nele, mas no último minuto consegui dar um passo para trás.

— Opa, calma. – ele riu. – Você está bem?

— Sim. – assenti, sorrindo fracamente. – Você me assustou.

— Desculpe. Eu estava te procurando, você sumiu. – ele dizia enquanto passava por mim e pegava uma garrafa de cerveja em sua geladeira. – Está se divertindo?

— Bastante. – eu falei, exagerando descaradamente, mas tentando ser simpática.

— Quer que eu te mostre a casa? – ele perguntou, bebendo um gole da sua bebida em seguida.

   Respirei fundo, olhando ao redor discretamente e tentando achar uma saída para aquela sugestão, mas acabei assentindo. Quando vi, Logan tinha uma mão em minha cintura e me levava em um tour pela sua grande casa. Ele me mostrou cada cômodo, a maioria cheios de gente que a todo momento o paravam para falar algo aleatório. Por fim, ele me levou até uma parte mais isolada do jardim, na lateral da casa. Dava para ouvir o som da música que vinha do outro lado, onde estava a piscina e a maior parte dos convidados, mas bem baixo.

   Apertei os olhos para conseguir enxergar onde andava. Aquela parte era um pouco mais escura, já que apenas a luz do interior da casa refletia ali, mas ainda dava para enxergar um pouco do chão. Logan sorriu, provavelmente vendo a minha cara patética de bêbada e míope, e segurou em minha mão enquanto me guiava pelas pequenas escadas de pedras que levavam até o gramado. Só então percebi que havia uma árvore com um balanço ali, igualzinho ao que tinha na casa da Eve quando éramos crianças. Logan me guiou até o balanço e me pôs sentada nele, enquanto sentava-se em uma grande pedra que havia praticamente ao lado, sob as raízes da árvore.

— Então, por que a menina bonita está com uma expressão tão triste? – ele perguntou de repente, arqueando uma sobrancelha para mim e com um sorriso convidativo se formando em seus lábios.

   Esse cara é realmente bonito. Desviei o olhar do rosto dele e bebi um gole da minha bebida, sentindo a garganta arder um pouco e a cabeça rodar. Estava na hora de eu parar, definitivamente.

— Porque a menina bonita é bem idiota. – respondi, arrancando uma risadinha dele e de mim mesma. – Não estou triste. Apenas bêbada. – dei de ombros.

— Quer que eu jogue o copo fora? – ele perguntou, indicando meu copo. – Eu posso...

— Não, ele é meu melhor amigo. – gemi, abraçando meu copo levemente contra meu peito. – Aliás, desde quando você conhece o Jack?

— Desde a quarta série. – Logan sorriu, com o olhar perdido na casa. – Crescemos praticamente juntos, mas há um ano eu me mudei para Carmel e não conseguimos nos ver muito.

— Sente falta de São Francisco?

— Bastante. – ele suspirou. – Mas meus pais precisavam mudar os ares, então aceitei vir para cá.

   Assenti diante da sua resposta e ficamos em um silêncio confortável por alguns minutos. Vez ou outra eu o pegava me observando, e quando ele percebia que havia sido pego, dava um sorrisinho e desviava o olhar. O que ele tinha de bonito, tinha de cafajeste. Eu mal o conheço, mas sei só de olhar o modo como ele sorri. O tipo de cara que qualquer garota beijaria se ele desse uma chance – e se não desse também. E eu percebi que ele estava achando que eu era uma presa. Não hoje, Logan.

— Bom, acho melhor eu ir. – falei. – Eve e Jack devem estar loucos atrás de mim.

   Fiquei de pé e ele me acompanhou, parecendo querer dizer algo, mas antes que eu desse o primeiro passo senti tudo rodar ao meu redor. Agarrei em uma das cordas do balanço e Logan se aproximou rapidamente, firmando suas mãos em minha cintura.

— Ally? – ele me chamou, mas eu sentia sua voz se distanciando. – Ally, abre os olhos...!

   E em seguida, tudo escureceu.

(...)

   Aos poucos os sentidos iam voltando.

   Pude ouvir vozes distantes e certa movimentação ao meu redor. Sussurros. Alguém xingando. Eve, era Eve. E em seguida alguém sentou ao meu lado. Me remexi um pouco, sentindo minha boca totalmente seca. Tentei umedecer os lábios sem sucesso e abri os olhos lentamente. O lugar era escuro, mas tinha uma luz fraca vindo de algum lugar.

   Olhei para o lado e vi que havia uma porta entreaberta, e era de lá que vinha a luz. Céus, eu morri? Estou no purgatório e aquela é a porta que leva ao paraíso? Por que ainda estou aqui penando nas sombras, sem encontrar um caminho? Oh, Deus.

— Acho que ela acordou. – uma voz disse. – Depois eu falo com vocês.

   A porta foi aberta e eu vi uma figura escura entrando no quarto, fechando a porta atrás de si. Será Deus ou o Diabo?

   A luz acendeu e eu fechei os olhos com força, colocando as mãos na frente do rosto rapidamente. Olhei por entre as frestas dos dedos e vi que estava deitada em uma cama, em um quarto totalmente estranho.

   Pisquei rapidamente e finalmente consegui enxergar com clareza. E quando a pessoa se aproximou, eu pude ver quem era.

   Não era Deus e nem o Diabo, era apenas Daniel. O que é quase a mesma coisa, se pensarmos bem. Gemi de frustração e me virei para o lado, afundando o rosto em travesseiros macios e perfumados. Que porra de lugar é esse? Me apoiei em meus cotovelos, sentindo meu estômago embrulhar enquanto olhava ao redor e tentava reconhecer o local.

— Allison... – Daniel começou e pude senti-lo sentar na cama ao meu lado. – Olha para mim.

— Onde eu estou? – perguntei, finalmente olhando para ele totalmente confusa. – Você me sequestrou?

— O que? – ele me olhou confuso. – Não, garota. Estamos em Carmel, na casa do tal Lucas.

Logan. – corrigi, tendo um lapso de memória. – Ah, sim. Logan.

— É, Logan. – ele resmungou, parecendo incomodado. – Jack me disse onde vocês estavam e eu vim até aqui. Quando cheguei, você já estava desmaiada. Drogaram você?

— Claro que não. – resmunguei, voltando a deitar de barriga para cima e respirando fundo, tentando espantar o enjoo. – Acho que bebi demais. Você dirigiu por duas horas até aqui?

   Daniel assentiu fracamente, desviando o olhar de mim e voltando-o ao meu rosto algumas vezes, parecendo um pouco desnorteado. E cansado. Havia algumas olheiras fraquinhas debaixo de seus olhos verdes.

— Uma hora e vinte minutos, na verdade. – ele disse baixinho. – Não havia muitos carros na estrada, então eu pude correr.

   Suspirei, balançando a cabeça levemente. Ele era inacreditável. A última coisa que eu imaginaria era Daniel aqui, sentado na minha frente, em Carmel. Isso me fez pensar que horas seriam. Eu ainda conseguia ouvir a música que tocava na festa, sinal de que ainda havia pessoas aqui.

— Que horas são? – perguntei.

   Daniel olhou em seu relógio de pulso.

— Três e quarenta. – ele respondeu. – Acho melhor eu te levar para casa.

— Onde estão Eve e Jack? – perguntei, ignorando o que ele disse, enquanto sentava na cama lentamente. Meu estômago estava me matando.

— Eles estavam aqui até eu chegar, mas desceram há alguns minutos para nos esperar.

   Assenti fracamente. Daniel ficou me observando e eu tentei não olhar muito para ele. Encontrei minha bolsa em cima da mesa de cabeceira e verifiquei para ver se meu celular e carteira estavam dentro dela. Depois que vi que estava tudo certo, calcei minhas botas. Daniel ficou em silêncio enquanto esperava eu me ajeitar.

   Eu ainda sentia meu corpo muito leve, mas meu estômago revirava dentro de mim. Se eu fizesse algum movimento brusco, com certeza vomitaria. Respirei fundo, finalmente ficando de pé. Daniel me olhava cuidadosamente.

— Quer que eu te leve no colo? – ele perguntou. – Você não parece bem.

— Não. – murmurei. – Vamos.

   Ele foi na minha frente e eu o segui. Atravessamos um longo corredor e chegamos na escada. Daniel segurou em minha mão e eu não tive forças para afastá-la dele. E nem queria. Engoli em seco, sentindo um aperto incômodo no peito. Tontura, enjoo e vontade de chorar – minha noite está sendo realmente muito boa.

   Ele tinha minha mão entre seu aperto firme e me tinha por inteira. Eu odiava e adorava esse garoto com a mesma intensidade.

   Encontramos Eve e Jack largados em um dos sofás da sala. Estava estava encostada no braço do sofá, com as pernas esticadas sobre o colo do namorado, que falava algo baixinho com ela. Havia alguns outros convidados na sala, mas todos conversando tranquilamente. A música ainda alta e o som de vozes vinham do lado de lado, o interior da casa estava incrivelmente tranquilo.

   Assim que me viu, Eve ficou de pé num pulo e veio até nós, me olhando com os olhos cinzas arregalados.

— Você está bem? – ela perguntou rapidamente. – Eu tentei te acordar de todas as formas, mas você continuou desacordada e eu não sabia o que fazer. Pelo amor de Deus, não faça mais isso, eu achei que você tinha morrido ou entrado em coma alcóolico e a minha mãe me mataria e a sua mãe também me mataria e...

— Eve, calma! – pedi, sorrindo um pouco. – Eu estou bem. Só preciso de água.

   Ela assentiu rapidamente e correu para a cozinha. Jack se aproximou, sorrindo carinhosamente para mim.

— Não devíamos ter te deixado sozinha. – ele disse. – Como está se sentindo?

— Tonta e enjoada. – dei de ombros. – Mas está tudo bem. O que houve, afinal?

— Não lembra de nada?

   Apenas neguei com a cabeça, tentando prestar o máximo de atenção ao que Jack dizia, e não no aperto quente de Daniel ainda em minha mão.

— Alguns amigos de Logan vieram até nós desesperados, dizendo que você estava desmaiada e Logan não sabia o que fazer. Quando encontramos vocês, ele estava te levando no colo para um dos quartos de hóspedes. – Jack explicou, e eu senti o aperto de Daniel mais forte em minha mão. – Se não fosse por ele, não sei o que aconteceria com você. Essa casa é enorme, se você passasse mal em algum lugar vazio seria difícil para encontra-la. Desculpe, Ally.

   Sorri levemente para ele, balançando a cabeça. Não era culpa dele e de Eve. Eu havia saído para ir ao banheiro e acabei desviando o caminho e indo ver a casa com Logan. E eu é que não soube a hora de parar de beber, afinal. A culpa era inteiramente minha.

   Eve retornou afoita, com um copo de água gelada em mãos. Bebi todo o líquido, sentindo meu corpo vibrar de felicidade. Me senti um pouco melhor. Eve me fez sentar no sofá enquanto Jack procurava por Logan para se despedir, e nós esperávamos. Daniel finalmente soltou minha mão e se manteve em silêncio ao meu lado, com o olhar perdido no chão da sala. Três minutos depois Jack apareceu com Logan logo atrás. Seu olhar encontrou o meu e ele sorriu, parecendo aliviado.

— Você me deu um susto! – ele disse, enquanto eu ficava de pé. – Se sente bem? Vocês podem passar a noite aqui. Está muito tarde para irem agora.

— Não, nós precisamos ir. – Jack disse, e eu percebi ele olhar rapidamente para Daniel. – Valeu, cara.

   Eles apertaram as mãos e meio que se abraçaram, um daqueles gestos que garotos fazem para cumprimentar e se despedir dos amigos. Eu nunca vou entender o motivo de eles não se abraçarem de uma vez. Logan me abraçou apertadamente e eu dei dois tapinhas em suas costas, meio desnorteada. Aquilo não acabaria bem.

   Quando Logan me soltou, percebi o olhar cortante de Daniel sobre ele. Eve pigarreou e resolvemos ir embora de uma vez. Daniel não se manteve muito próximo de mim até chegarmos na rua, onde todos os carros estavam estacionados. Fui seguindo Eve e Jack, mas Daniel segurou-me pelo pulso, me parando no meio da calçada.

— Você vem comigo. – ele disse. – Já falei com eles.

   Olhei confusa para Eve e Jack, que nos observavam. Eve deu de ombros, meio que me pedindo desculpas com o gesto. Suspirei, assentindo. Eles acenaram e eu acenei de volta. Daniel me guiou até seu carro, que estava no outro lado da rua e um pouco mais distante. Entramos no veículo em silêncio e Daniel o pôs em movimento.

   Em certo momento, ele esticou um braço até o banco de trás e puxou uma jaqueta de lá. Colocou-a sobre o meu colo e eu suspirei, pegando-a cuidadosamente. Estava realmente frio e eu tentava esquentar um pouco os meus braços com as mãos.

— Obrigada. – falei baixinho.

   Pude vê-lo assentir fracamente, com o olhar focado na estrada à nossa frente. Abri sua jaqueta e a coloquei sobre mim. Respirei fundo, ficando inebriada com o cheiro do perfume dele que estava na roupa inteirinha. Sorri fracamente, me sentindo uma idiota. Meu peito ainda doía, meus olhos ainda ardiam e se eu abaixasse a guarda, choraria como uma criança. Não sei se por culpa da bebida – que me deixava milhões de vezes mais emotiva – ou se devido ao fato de que ali, naquele momento, com a jaqueta de Daniel me cobrindo, ele ao meu lado me levando para casa após ter dirigido por quase duas horas para me buscar e a música tocando baixinha no carro, enquanto passávamos pela estrada totalmente vazia e calma... Eu desejava que nada de ruim nos atingisse.

   Mas isso dificilmente acontece. As bolas de neve continuariam chegando, eu sei disso. Nada parece tão simples quando se trata de Daniel e eu.

   Eu adormeci no meio do caminho. Acordei com o toque de Daniel em meu ombro e rosto. Abri os olhos lentamente e o vi na minha frente, cutucando minha bochecha levemente. Ele sorriu um pouco quando nossos olhares se encontraram e eu estiquei os braços, olhando ao redor. Estávamos estacionados na frente do meu prédio. Suspirei, voltando a olhá-lo.

— Eu posso subir com você? – ele perguntou, receoso.

   Subir comigo. Talvez passar a noite para ficar de olho em mim. Eu conhecia Daniel; conhecia o olhar e gestos preocupados. Ele dirigiu de São Francisco à Carmel para me buscar. E depois me trouxe de volta para casa. Eu só não entendia o motivo – o motivo de merda – de ele agir dessa forma e depois ir atrás de Louise.

   Tentei não pensar nisso, senão acabaria me estressando novamente e agora não era hora. Eu sentia cada parte de mim implorar por cama. Estava muito, muito cansada. Então me resumi a concordar com seu pedido e saímos do carro. O caminho até meu apartamento foi silencioso. Daniel tamborilava os dedos levemente nas chaves do carro em sua mão, enquanto eu permanecia encolhida debaixo de sua jaqueta como se fosse meu cobertor.

   Quando entrei em casa, me senti melhor instantaneamente. Zona segura. Fui até a cozinha e bebi dois copos d’água. Observei por sobre o balcão da cozinha Daniel ir até o sofá e sentar, retirando seus tênis e deixando suas chaves e carteira sobre a mesa de centro. Em seguida, encostou suas costas no sofá macio e ficou olhando para o alto, pensativo.

   Deixei o copo na pia e fui até a sala. Seu olhar caiu sobre mim. Ele parecia exausto e confuso. Eu não devia estar muito diferente disso.

— Pode dormir no quarto da minha mãe. – falei, num fio de voz. – E fique à vontade para beber ou comer o que quiser.

   Ele assentiu fracamente. Eu murmurei um “boa noite” e fui para o meu quarto, me jogando na minha cama com a jaqueta sobre mim. Encostei meu rosto no tecido macio, respirando fundo o cheiro que ele tinha. E enquanto tentava imaginar o que Daniel estaria fazendo ou pensando no cômodo ao lado, eu adormeci.



Notas finais do capítulo

Ai, esses dois. 3
O que acharam do capítulo? O que acham que o Daniel vai dizer no próximo? Ele deve explicações, hahaha. Vou falar pouquinho hoje porque estou morrendo de sono agora, mas espero que tenham gostado.
Logo trarei o próximo! ♥
Bjbjbjbbbj



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