O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 90
Abominação




Segundo Andar do Pandemonium, “Labirinto Eterno”...

DE JOELHOS NO CHÃO, tendo que usar a lâmina de sua espada como apoio para se conseguir se sustentar, Enderthorn ainda mantinha um olhar desafiador no rosto enquanto encarava seu oponente. Seus cabelos negros haviam ficado desarrumados pela batalha, e graças ao seu suor eles agora estavam colados ao seu rosto. Sua respiração estava descompassada devido a pura exaustão do seu corpo, e sua visão estava turva tanto devido a essa exaustão quanto devido aos danos que havia sofrido. A parte superior das suas vestes simplesmente não existia mais, e seu torso estava todo banhado em seu próprio sangue. Bosta... a situação não está muito boa...

– Qual o problema, Enderthorn? Cansado? Em dor? Por favor, permita-me te ajudar! Qualquer que seja o problema que o aflige, eu posso dar um jeito nisso se você apenas aceitar a minha ajuda. – Um largo sorriso maldoso brilhou no rosto de Octo Gall, abrindo-se de orelha a orelha de forma doentia. – Você pode perguntar a eles se quiser, e eles irão concordar. Meus zumbis não sentem nada.

Hunf... como se eu precisasse perguntar algo assim. A insensibilidade dos zumbis era algo bem lógico, bem como algo que Enderthorn havia comprovado rapidamente nos primeiros momentos da batalha. Foi isso que fez com que eles fossem tão problemáticos, embora ironicamente tenha sido também exatamente o que lhe deu a chance perfeita de derrota-los. Zumbis não sentem nada. Como eles já estão mortos, eles são incapazes de sentir coisas como dor, e embora isso faça com que eles possam se mostrar um exército implacável, isso também é uma grande fraqueza. A dor era algo desconfortável e distrativo, algo que muitos guerreiros lutavam para controlar e ignorar enquanto em batalha, mas ela também era um dos mais primordiais e principais recursos com os quais guerreiros contavam em lutas. A dor te informa da situação do seu corpo. Se você sente dor, isso é porquê tem algo errado com o seu corpo. Sem ela nós seriamos incapazes de saber desses problemas, e isso significa que não teríamos forma nenhuma de reagir a esses perigos. Graças a insensibilidade dos zumbis, havia sido capaz de derrota-los até que com certa facilidade. Seja fazendo com que um ardesse em chamas com seus raios ou usando os seus poderes elétricos para queimar os nervos de outro, ou quebrando os ossos de um terceiro com chutes e socos enquanto cortava os membros dum quarto com sua espada, todos aqueles zumbis haviam sido derrotados no fim das contas, e agora eles podiam fazer pouco mais do que grunhir e se debater no chão enquanto tentavam sem sucesso avançar contra Ender.

E isso fazia com que o último que restasse ali fosse seu principal oponente, Octo Gall.

– Hum... você não acha que está agindo de forma muito arrogante para alguém que perdeu seus brinquedinhos, Octo Gall? – Seu corpo todo doía como o diabo, mas suportou e escondeu essa dor da melhor forma possível. Não estou em bom estado, mas ele não precisa saber disso. Para que seu plano funcionasse corretamente, iria precisar de algum tempo. Para ter esse tempo, iria ter de convencer Octo Gall que ainda representava uma ameaça considerável para ele afim de força-lo a agir com cautela, e não iria conseguir isso se ficasse gemendo de dor pelos cantos. – Seus zumbis são inúteis agora. Eles não vão mais te defender. Somos só eu e você agora... e você sabe como essa luta terminou da última vez.

– Sim, sim, eu perdi. Sei disso. Pretende viver agora de glórias passadas, Thorn? – A forma como Octo reagiu a isso foi algo que surpreendeu Ender, e de forma bem negativa. Tamanho autocontrole... isso não é bom. Normalmente, ao ser lembrado que estava enfrentando uma pessoa que já havia o derrotado antes, a maioria dos oponentes ou tomava aquilo como afronta e ficava irritado (o que fazia com que se tornassem estúpidos e facilitassem o trabalho dos que os enfrentavam), ou tomava aquilo como um aviso e se tornavam cautelosos (o que fazia com que eles se mostrassem hesitantes em atacar com tudo e tomar riscos durante a batalha, o que também facilitava o trabalho dos que os enfrentavam). Aquela reação de Octo Gall era uma das mais raras, e uma das piores que Ender poderia esperar; ela indicava que ele estava confiante em relação a luta, e isso por sua vez indicava que ele sabia o verdadeiro estado de Enderthorn. – O resultado da primeira luta não importa, simplesmente porque essa não é a primeira luta. E como você está vendo, o desenvolvimento dela está sendo bem diferente até agora. Lembro-me que quando a primeira luta chegou ao seu fim eu estava ferido e sem um braço, enquanto você estava ileso, sem um único arranhão. Um tanto quanto irônico, considerando a situação atual. E também, algo que demonstra claramente tudo que mudou de lá pra cá. Falando de forma direta... eu sou muito mais forte do que você agora, Enderthorn, e você não possui chance nenhuma de me derrotar. E além do mais... você cometeu um pequeno erro em sua afirmação. – Sorrindo malevolamente, Octo Gall ergueu uma de suas mãos e estalou seus dedos, e ao som desse estalo os corpos dos zumbis se liquefizeram. Não apenas os que estavam no chão, mas também os vários corpos que pareciam estar armazenados por aquela sala, os corpos que serviam como cobaias de experimentos para Octo Gall. Ao som do estalar de seus dedos, todos eles se transformaram em uma espécie de líquido que fedia à carniça e escorreu para o chão, pastoso, viscoso e gosmento. – Meus zumbis não são inúteis.

O cheiro dos líquidos aos quais os corpos dos zumbis haviam sido reduzidos era insuportável, um cheiro podre e forte que fazia com que seu estômago revirasse e lhe dava uma ânsia de vômito quase que incontrolável. Esse cheiro... é como se eu estivesse cercado por dezenas de corpos apodrecidos. O que diabos esse maníaco deturpado pode estar planejando com tudo isso?

Teve logo sua resposta.

Diante dos seus olhos, aqueles vários líquidos começaram a se misturar e ganhar forma. Orientados por movimentos da mão de Octo Gall, esses líquidos foram ganhando solidez a medida que iam ganhando uma constituição firme, formando primeiro pés, depois pernas, e seguindo para o tronco. De onde estava, Enderthorn só podia observar aquilo de olhos arregalados, incapaz de acreditar no que via. Isso é.… não é possível, ele está... ele está criando algum tipo de aberração? Uma enorme massa do que mais parecia com carne podre formou o torso da criatura, com tumores doentios espalhados por praticamente cada canto dela, cada um deles inchado e visivelmente cheio de pus ao ponto de parecer que poderiam explodir a qualquer momento. Dois braços emergiram de dentro desse torso, surgindo acompanhados de sons que se assemelhavam ao de ossos se quebrando e empapados em sangue tão sujo e podre que ele havia se tornado negro. E então, quatro rostos surgiram no torso da criatura. Quatro rostos esculpidos em carne, tão agarrados um ao outro e confinados a um espaço tão pequeno que eles eram quase indistinguíveis. Mas Enderthorn foi capaz de distingui-los.

Ele foi capaz de identificar que eles eram os rostos dos quatro zumbis que havia enfrentado momentos atrás, e eles pareciam estar gritando em agonia.

– O que você acha, Enderthorn? Lindo, não é?! – Os braços de Octo Gall se abriram e um sorriso maníaco tomou conta de seu rosto, ficando apenas ainda mais largo quando o golem de carne que ele havia criado se posicionou protetoramente atrás dele, como um guarda-costas. Cada braço da criatura tinha três vezes o tamanho do corpo inteiro de Enderthorn, e suas pernas eram proporcionais a ele. O monstro era tão grande que enfrentá-lo com uma espada parecia o mesmo que tentar matar um leão com uma agulha. Que aberração é essa... que tipo de abominação esse doente criou?! Ao ver a expressão de fúria e desprezo no rosto de Enderthorn o sorriso sumiu por um momento dos lábios de Octo Gall. O mago jogou sua cabeça para trás, olhando para sua criatura, e voltou a sorrir antes de tornar a jogá-la para frente. – Ah, quem estou enganando, essa coisa é feia como o pecado! Mas eu lhe digo, isso é bem, bem forte. Muito mais do que qualquer zumbi normal. Eu chamo isso de... “Amalgamação”.

– Isso é um monstro... – resmungou Enderthorn, movendo seu olhar irado para Octo Gall. Ao mesmo tempo que odiava aquela criatura e queria apagar aquela aberração da face da terra, sentia outra coisa também. Medo. Pela primeira vez dez que se tornou um cavaleiro, Enderthorn tremia e suava frio. Olhar para essa abominação... só olhar para ela faz com que eu queira correr, fugir daqui o mais rápido possível. – E você... como você pode criar algo assim? Você não tem o menor respeito pelos corpos dos mortos?!

– Não, respeito nenhum – retrucou Octo Gall, sorrindo divertidamente. – Talvez você não seja esperto o suficiente para entender isso por si mesmo, então deixe-me deixar algo bem claro, Enderthorn: os mortos e os seus corpos são brinquedos na minha mão. Massa de modelar. Eu os quebro quando quero, e moldo seus pedaços ao meu bel prazer.

Ouvir aquelas palavras fez com que Enderthorn mordesse seus próprios dentes com uma força descomunal. Sentiu-os ameaçarem se quebrar diante daquela pressão, mas foi simplesmente incapaz de parar. Maldito... miserável... isso não é um homem! Não existe homem que consiga ser tão vil! Esse sujeito só pode ser um demônio, um monstro mil vezes pior do que a aberração que ele criou! Como um guerreiro, Enderthorn era alguém famoso por ser frio e até mesmo sem-coração. Não poupava oponentes derrotados, e não hesitaria por um momento se tivesse de sacrificar vidas – até mesmo as de inocentes – para alcançar um objetivo desde que este fosse um objetivo digno e justo. Mas ele mostrava um mínimo de respeito pelos que caiam em batalha. Inimigos ou aliados, Enderthorn acreditava que os que caíram em uma batalha deveriam ser tratados com algum respeito, e por isso nunca pilhava os mortos e sempre que possível se assegurava de que eles tivessem ao menos a chance de ter um enterro decente, se recusando a queimar os corpos deles a menos que isso fosse estritamente necessário. Ver alguém como Octo Gall, que tratava os mortos com tanto desrespeito enquanto zombava deles... aquilo lhe irritava ao ponto de fazer seu sangue arder em suas veias.

Cavaleiro do Trovão! – Disse Ender, e no momento em que ele disse aquelas palavras o teto daquela sala se abriu. Mesmo dentro de uma fortaleza mágica voadora como Pandemonium, Enderthorn ainda tinha o céu do mundo acima de sua cabeça, e enquanto esse existisse, ele podia invocar seus poderes. O raio que chamou caiu diretamente sobre as suas costas, e a sua energia fluiu pelo corpo de Enderthorn, envolvendo-o em uma camada de eletricidade que o protegia como se fosse uma armadura. Aquilo era doloroso, doloroso ao ponto de fazê-lo querer gritar, e foi isso que fez, mas não liberou um grito de dor.

O que veio da sua garganta foi um grito enfurecido, um rugido que fazia com que um dragão parecesse um filhote de gato diante dele, tão forte que a potência da sua voz fez com que rachaduras se espalhassem pela sala, e o sorriso doentio no rosto de rosto de Octo Gall se desfez, dando lugar a olhos arregalados e uma expressão de medo e confusão em seu rosto. Uma expressão que se tornou ainda mais predominante quando Enderthorn se colocou de pé como se não fosse nada e firmou ambos os pés no chão com todas as forças, fazendo com que uma onda de energia viesse seu corpo, poderosa o suficiente para fazer com que Octo Gall vacilasse para trás e caísse de bunda no chão, forçando até mesmo a abominação criada por ele a recuar um passo.

– Mas... o quê? O que é isso? O QUE DIABOS É ISSO?! – Tal como no Salão Cinzento, a compostura de Octo Gall se quebrou, revelando um homem desesperado por trás dela. Só que enquanto no Salão Cinzento ele havia exibido uma fúria sem fim, o que ele exibia agora era um medo incontrolável. – O QUE DIABOS É VOCÊ, ENDERTHORN?

– Retribuição Divina – respondeu Enderthorn de forma simples. Ao contrário do que deveria estar passando na mente de Octo Gall naquele exato momento, ele não havia se curado, nem muito menos havia se tornado imune a dor. Ele ainda sentia ela, por todo o seu corpo, tentando forçar-lhe ao chão. O que lhe mantinha firme em pé daquela forma não era nenhum poder especial ou alguma magia mística. O que lhe mantinha de pé era sua pura força de vontade, sua determinação em fazer aquele monstro sofrer por suas ações. – Você enfureceu os Deuses, Octo Gall, e eu sou o Enviado Deles. Hora de pagar pelos seus pecados.

No momento em que disse aquilo, seus olhos foram preenchidos pela luz inconstante e violenta da eletricidade que imbuia seu corpo, e por um instante ele pareceu realmente o que havia declarado ser; um Emissário Divino, armado com o poder e a autoridade dos Deuses, vindo para espalhar a justiça Deles pela terra.

E, no momento seguinte, ele dobrou suas pernas e avançou com tudo.

A distância que o separava de seu oponente foi cruzada num instante. A espada de Ender foi envolvida pela mesma eletricidade que cobria seu corpo e moveu-se com uma velocidade que fez com que ela mais parecesse um raio em miniatura do que tudo. Mas mesmo com toda aquela velocidade, o que cortou não foi o seu alvo. Não viu exatamente quando ou como aquilo aconteceu, mas de alguma forma a aberração criada por Octo Gall havia sido rápida o suficiente para colocar seu braço no caminho, usando-o como um escudo para proteger seu criador. Essa coisa... ela tem consciência própria? Pela expressão embasbacada que ele tinha no rosto era óbvio que Octo não podia ter comandado a aberração a fazer aquilo, mas ainda assim, isso não deixava de ser curioso. Eu pensei que as criações dele funcionavam através de algum tipo de “mente de colmeia”. Pensei que nenhuma delas tinha capacidade de raciocínio ou julgamento próprio, mas que todas recebiam comandos diretos de Octo Gall sobre o que fazer e quando fazer. Aparentemente, eu estava enganado.

Apesar de que, enganado ou não, aquilo estava longe de ser o suficiente para salvar seu oponente. O grande pedaço de carne do golem foi cortado limpamente pelo golpe de espada de Enderthorn, e quando ele caiu ele revelou também o corpo de Octo Gall. Um corte profundo havia surgido em seu peito, cortando através de um de seus corações visíveis e esguichando sangue para todos os lados, fazendo com que o necromante parecesse ainda mais pálido e com que seu corpo fosse manchado em vermelho.

– Como? Como você me feriu?! – Os olhos do necromante estavam tão arregalados que eles ameaçavam saltar para fora de suas órbitas a qualquer momento, tudo isso em descrença. Uma das suas mãos se moveu com dificuldades até o seu peito, tocando o sangue que escorria de sua ferida, e no momento em que ele ergueu essa mão ensanguentada até o seu rosto ele desabou de joelhos, como se estivesse completamente drenado. – Você não me tocou... você não chegou nem perto de me tocar! Como eu fui cortado?!

– Eu não preciso te tocar para te cortar – respondeu Ender em um tom neutro. Normalmente não se daria ao trabalho de responder a uma pergunta dessas de qualquer oponente, mas aquela era uma exceção. Sabia que seu oponente estava com medo dele, e queria cultivar esse medo tanto quanto possível, não tanto pelos benefícios que isso lhe daria em batalha quando pela sua simples vontade de ver aquele monstro tremendo de medo. – Cada movimento que fazemos reflete no ar a nossa volta, fazendo com que ele se mova de acordo com esse movimento. Se você desfere um soco que passa ao lado do rosto de alguém, essa pessoa ainda poderá sentir o movimento do ar causado por esse soco. Quanto mais forte e rápido é o seu movimento, mais forte e rápido é esse movimento do ar, e dependendo do que você está usando para gerar esse movimento e da forma como você usa isso, você pode até mesmo controlar o movimento do ar causado pelo seu próprio movimento. Em outras palavras... balance uma espada com força o suficiente e a pura pressão exercida pelo seu movimento será o suficiente para fazer com que o próprio ar corte o seu alvo. Desse jeito!

Avançou novamente e jogou sua espada para trás, preparado para cortar a cabeça de seu oponente ao meio com um golpe, mas uma sombra pairou sobre ele e acabou tendo de parar seu avanço e saltar para trás para evitar o soco que o golem de carne lançou contra ele. Tch, vou ter que acabar com essa aberração antes de me focar em Octo Gall? Bosta. Não queria alongar o seu tempo naquele modo, mas pelo que estava vendo, essa não seria uma escolha sua. Principalmente considerando que as coisas estavam ficando mais complicadas diante dos seus olhos naquele exato momento.

O braço mutilado da aberração sofreu espasmos diante dos seus olhos, sua forma vacilando e tremendo e se modificando de uma forma que parecia extremamente dolorosa, a carne se misturando em uma espécie de transformação, parecendo sugar parte da carne excessiva do torso da criatura para obter a massa necessária para o que estava fazendo. Em questão de instantes se reconstruído por completo, regenerado a parte cortada perfeitamente como se nada nunca tivesse acontecido, mas não era isso o preocupante. O preocupante era que o pedaço que havia decepado também estava sofrendo espasmos, se transformando por conta própria diante dos olhos de Enderthorn, deixando de ser apenas um punho de carne para se transformar no que ela literalmente uma versão em miniatura da criatura maior. Ah, merda, era só o que me faltava.

Não teve nem tempo para lamentar o seu azar antes que a aberração em miniatura dobrasse suas perninhas ridículas e disparasse contra Ender. Menos de um segundo depois de tê-la vista saltar o cavaleiro foi surpreendido pela aberração já ao seu lado, em posição perfeita para um ataque, girando no ar para lançar um chute giratório contra ele. Esses nanicos são rápidos! Por sorte ele conseguia ser ainda mais rápido, e com um movimento ágil colocou sua espada no caminho, bloqueando de alguma forma o chute da criaturinha com sucesso, embora sentisse a pressão por trás do golpe em seus ossos. E não são nada fracos, também. Embora estejam longe de serem fortes o suficiente.

O som de um grunhido estúpido e gutural foi o único aviso que teve antes que o punho gigante da aberração caísse contra ele, apesar de que nem mesmo um ataque surpresa como aquele conseguiu chegar perto de lhe atingir. Colocou um pouco mais de força nos seus braços para empurrar o nanico para longe e ainda teve tempo de sobra para saltar e desviar do golpe de Amalgamação sem problema algum. Hum. Parece que enquanto o pequeno é rápido e fraco, o grande é forte e lento. Era bom que seus inimigos tivessem pontos fortes e fracos tão claros e simples assim, mas aquilo ainda podia se mostrar bem problemático. É fácil lidar com os golpes deles quando estão atacando um de cada vez desse jeito, mas isso pode ficar complicado facilmente se resolverem realizar ataques em conjunto. Além do mais, tem o problema de que aparentemente a cada cor-

Seus próprios pensamentos foram interrompidos no momento em que o segundo braço de Amalgamação se moveu, em uma velocidade mil vezes maior do que a que ele havia demonstrado até então, acertando Enderthorn com uma força monstruosa em meio ar e o arremessando instantaneamente até a parede do outro lado da sala.

A cratera que seu corpo formou nessa parede foi profunda. Não sabia ao certo, mas supunha que havia afundado ao menos cerca de cem metros para dentro dela. Francamente, se surpreendia em não ter sido simplesmente lançado até outra sala pela força daquele golpe... embora não achasse que podia se julgar exatamente “sortudo” por isso considerando o seu estado. Merda... eu não posso me dar ao luxo de levar golpes como esse. De joelhos dentro da cratera, Enderthorn tentava se recuperar o melhor que podia enquanto sentia o sangue escorrer de seu corpo, formando uma poça vermelha abaixo de si. Por todo aquele tempo ele havia mantido controle de seu corpo para impedir um sangramento considerável das feridas já abertas, mas aquele último golpe havia acabado completamente com isso. Sentia toda a dor dele, somada com toda a dor que havia tentado suprimir dos seus ferimentos anteriores, e só essa sensação era o suficiente para fazer com que quisesse gritar e se debater como um bebê chorão. E ainda tinha a sua habilidade por cima disso, para complicar ainda mais as coisas. Esse modo me deixa bem mais forte, mas ele também exige muito do meu corpo. Cada minuto que passo usando essa eletricidade drena a minha energia e me causa danos cada vez maiores. Era só uma questão de tempo para que seu corpo fosse simplesmente incapaz de seguir em frente, e Ender sabia bem disso. Eu tenho que ser rápido. Tenho que acabar com isso de uma só vez!

E para isso, ele tinha um plano.

Lutando para ignorar sua dor o tanto quanto possível, forçou seu corpo a se levantar e segurou sua espada com ambas as mãos à frente de seu corpo, mantendo-a reta como se estivesse preparando-se para lançar uma estocada contra seus oponentes. Isso não vai ser nada fácil, mas é a única alternativa na qual consigo pensar. Dois golpes. Iria precisar de dois golpes, mas aquilo devia ser o bastante. Dois golpes. Se eu conseguir atingir esses dois golpes, então a vitória é minha. Se eu fracassar neles, então temo pelo destino que meus restos terão ao fim disso tudo. Não era um pensamento muito animador, mas era uma motivação para que continuasse vivo.

A eletricidade que cercava seu corpo brilhou intensamente por um momento, concentrando-se em seus pés para lhe dar a velocidade que precisava, e quando começou a correr, Enderthorn era um raio.

ASURA!

Em um piscar de olhos ele já havia alcançado o fim da cratera e saltado para o ar, e imediatamente ao verem a figura cercada de eletricidade de Enderthorn os seus oponentes não perderam tempo em agir. Amalgamação moveu seu punho direito como uma grande marreta contra Enderthorn, a pequena aberração saltou contra ele como uma besta feroz com suas garras amostra – até mesmo Octo, que estava antes aterrorizado, se juntou ao ataque, lançando caveiras de chamas arroxeadas em sua direção. Viu todos esses ataques se movendo contra ele em alta velocidade, e ignorou todos. A eletricidade que cercava seu corpo lhe impulsionou para frente, e um momento depois Enderthorn estava aterrissando de joelhos no chão, seus cabelos molhados de suor cobrindo seu rosto e suas feridas todas sangrando intensamente, enquanto atrás dele seus oponentes estavam todos cortados, retalhados em pedaços, em exatos mil pedaços que se espalhavam pelo ar.

Banasura, o Rei dos Mil Braços! – Declarou o Vampiro, virando-se para olhar a carnificina que havia feito. Tal como havia imaginado, Amalgamação era o que havia recebido a maior parte dos golpes pela dimensão de seu corpo, enquanto a pequena aberração havia sido também cortada em várias partes e por fim Octo Gall se mostrava o que havia sofrido menos com seus ataques, provavelmente em virtude de ser o que foi mais difícil de alcançar no momento. Isso dito, nenhum deles havia saído ileso. Sangue se espalhou a medida que os pedaços retalhados de seus corpos caíram ao chão.

Mas aquilo estava longe de ser o suficiente. Viu cada um dos pedaços da Amalgamação começarem a se transformar enquanto caia, e o mesmo estava acontecendo com a pequena aberração. Eles ainda estão se multiplicando, não é? Considerando que são criaturas criadas a partir dos poderes de Octo Gall, suponho que isso significa que ele também está vivo. Não que isso fizesse muita diferença. Eu tinha dois ataques em mente, refletiu Enderthorn, transferindo toda a eletricidade que cobria seu corpo para sua espada, fazendo com que ela fosse envolvida por isso ao ponto de brilhar em uma luz azul-esbranquiçada, mais relâmpago do que aço.

Eu nunca pensei em terminar essa luta sem qualquer coisa além desse ataque.

O Som do Trovão! – Gritou Enderthorn, batendo com força a ponta de sua espada no chão em direção aos seus inimigos e liberando todo o seu poder de uma vez. Uma onda de energia elétrica foi libertada violentamente, uma onda que consumiu toda a sala por exceção da seção aonde Enderthorn estava. Um clarão branco envolveu tudo ali, mas dessa vez ele não cobriu os olhos. Ele era forte e intenso, mas de alguma forma não incomodava Ender. Suportou todo aquele brilho sem vacilar, mantendo-se completamente imóvel enquanto apreciava os sons dos raios estalando e o cheiro de seus inimigos queimando. Nada mais justo do que isso, não é? Foi essa técnica que tirou um dos seus braços, Octo Gall... e é ela também que tirou a sua vida.

Ficou olhando na mesma direção pacientemente até que o brilho do clarão morresse e pudesse ver os corpos de seus oponentes. Aquela foi uma visão maravilhosa. Nunca antes ficou tão feliz em ver corpos retalhados carbonizados quanto quando viu os de Octo Gall e suas criações. Finalmente... você finalmente está morto, necromante. A satisfação que sentiu ver aquilo foi tão grande que quase abriu um sorriso, mas a sua dor e o estado de seu corpo lhe impediram de o fazer.

Ao invés disso, o que fez foi deixar com que seu corpo caísse para trás, desabando no chão como um saco vazio, finalmente podendo se dar ao luxo mesmo por apenas alguns instantes.

Acabou, pensou Enderthorn, fechando os olhos. Finalmente, acabou. Aquela havia sido apenas uma batalha, mas pelos Deuses, sentia-se como se tivesse lutado a guerra toda sozinho de tão exausto e acabado que havia ficado. E pensar que o Olho Vermelho possui várias pessoas do nível dele ao seu emprego... não, pensar que o Olho Vermelho possui pessoas mais fortes que ele lutando ao seu lado. Se não tivessem pessoas extremamente poderosas do seu lado como os Ascendentes, Odin e Ylessa, estaria seriamente preocupado com as suas chances de vitória. Ainda assim... mesmo com eles do nosso lado, não podemos vacilar. Por mais que quisesse ficar apenas deitado aonde estava descansando e se recuperando, tinha que fazer um esforço para ajudar os outros. Seus companheiros poderiam estar precisando dele naquele exato momento.

Miserável...

Ouvir aquela voz novamente fez com que seus olhos se abrissem instantaneamente, e movido por puro impulso ele se apoiou nos cotovelos para erguer seu rosto o máximo possível. Há alguns metros de distância dele, queimado e mutilado, mas de alguma forma ainda vivo, Octo Gall estava lhe encarando com um ódio mortal. Ele havia sido cortado ao ponto de que tudo que havia sobrado dele era a metade superior do seu corpo do estômago para cima, sendo que até mesmo um dos seus braços havia sido cortado ao ponto de não deixar nem um cotoco para trás, mas mesmo assim ele se sustentava com apenas o seu último braço restante, forçando seu corpo para cima e seus olhos a encararem Ender. Fumaça subia de sua carne queimada, espalhando um cheiro podre que simplesmente não podia ser apenas causado pela queima de coisas como pele, sangue, músculos e nervos. Ele... ele está vivo...? Como? Como ele está vivo?! Octo era apenas um mago, sem qualquer tipo de habilidades de combate corpo-a-corpo ou qualquer treinamento físico conhecido. Eu o cortei em pedaços e depois o queimei com uma onda de eletricidade com a força de um relâmpago. Qualquer um – até mesmo um guerreiro do mais alto nível – deveria ter sido morto por algo assim!

– Seu miserável... filho da puta... cavaleiro de merda! A ira na voz de Octo era impossível de se ignorar, tão intensa que mesmo com o mago parecendo mais um cadáver do que tudo ele ainda conseguiu fazer com que Enderthorn se sentisse um pouco intimidado... embora o seu próprio estado deplorável provavelmente também estivesse contribuindo para essa preocupação. – Isso é imperdoável... absolutamente imperdoável! Esses seus ataques... graças a eles, tudo que eu fiz quase foi arruinado! Toda a minha pesquisa, todo o desenvolvimento de anos... tudo foi por água abaixo, e tudo por culpa sua! – Até àquela altura o braço restante de Octo Gall estava dobrado, incapaz de sustentar o peso total do mago naquele estado fragilizado, mas a sua raiva pareceu lhe dar forças, fazendo com que ele se levantasse completamente ao mesmo tempo em que os pedaços da aberração queimada sofreram espasmos e tremeram. Ao ver aquilo acontecer com eles Ender compreendeu imediatamente o que estava prestes a acontecer, e isso fez com que seus olhos se arregalassem. Ah, não. Isso não é possível!

Os vários pedaços de carne queimadas saltaram ao ar como se tivessem vida própria, todos eles seguindo em uma única direção. Caíram sobre Octo Gall, um após o outro, e imediatamente eles começaram a espumar, a se dissolver, a serem absorvidos. As carnes queimadas das aberrações foram se juntando à carne do corpo de Octo Gall, dando massa a ele, fazendo com que seu torso minúsculo se expandisse monstruosamente e lhe dando membros novo nos lugares dos que haviam sido perdidos.

Eu nunca irei lhe perdoar, Enderthorn! – A voz de Octo se tornou grossa e monstruosa, quase a um ponto ininteligível, à medida que o necromante ia se erguendo no corpo de uma aberração. O que se ergueu foi um gigante de carne queimada que fedia e esfumaçava, pedaços dele chegando a parecer serem carvão de tão gravemente que haviam sido queimados. A única coisa que deixava claro que aquele se tratava de Gall era o rosto do necromante que se erguia acima do torso gigante dele, mas mesmo esse estava cada vez mais próximo de se tornar irreconhecível pela forma como o aumento de massa fazia com que ele se alargasse e a aparência cancerígena que tudo aquilo estava lhe dando. Que.… que tipo de aberração é esse homem. Você morre agora, Enderthorn!

O punho gigante da aberração na qual Octo Gall havia se transformado foi lançado contra Ender com tudo, e ao ver ele se movendo o cavaleiro já soube que aquele era o seu fim. Tentou se mover ainda, mas seu corpo não respondeu, tal como ele havia imaginado. Estou muito ferido e cansado para fazer qualquer coisa. Mesmo que eu conseguisse forçar o meu corpo a se mover novamente, eu não teria velocidade o suficiente para desviar desse ataque. A medida que via o punho de seu oponente se aproximando mais e mais, a frustração dele aumentava, fazendo com que mordesse seus dentes com cada vez mais força. Maldição, é assim que as coisas acabam? Depois de todo aquele esforço e tudo que eu fiz para tentar ganhar, eu serei morto por esse monstro de forma tão patética?! Maldição!

Sua boca se abriu para gritar uma praga ao mundo, mas foi silenciada muito antes que pudesse fazer isso. No último momento, quando o punho de Octo Gall estava prestes a atingi-lo, uma figura havia surgido em sua frente e bloqueado o golpe com sua espada. Uma figura feminina, esguia, com longos cabelos rubros que caiam sobre as suas costas.

– Você lutou bem, Enderthorn do Salão Cinzento – disse Bryen Hardying, movendo sua espada com força para afastar o punho do monstrengo. Octo Gall foi forçado a recuar para trás, seu único olho que lentamente estava começando a ficar vermelho e inchado com sangue se arregalando enquanto fitava intensamente a espadachim, como se tentasse descobrir de onde diabos ela havia vindo. Bryen deu dois pequenos passos à frente em direção a ele, apoiou sua espada nos ombros e se colocou a fitar mortalmente seu oponente com uma fúria tranquila visível em seus olhos. – Eu não intenciono nenhum desrespeito – murmurou ela, estalando seu pescoço – mas deixe que eu acabe com essa abominação.





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