O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 54
Retorno


Notas iniciais do capítulo

Ei, capítulo bem grande, bem rápido!

Banzai, crises de inspiração! Banzai!



ERA DOURADA, VOCÊ DIZ? – Murmurou Robert com alguma dificuldade. Falar não era algo muito fácil enquanto sentia uma força tão grande quanto aquela lhe empurrando contra o chão, mas ainda conseguia fazer isso de alguma forma... o que era muito bom para alguém como ele, já que não tinha a menor intenção de ficar em silêncio diante daquela mulher. – Tch... você acha que isso deve significar algo para mim, garota? Você tem alguma noção de quem eu sou? Acha que eu me dou ao trabalho de aprender o nome de cada grupinho de bosta que aparece por aí?

Aquele era um blefe, e sabia bem disso, mas a garota não tinha nada que saber o mesmo. Realmente não prestava muita atenção nos nomes de grupos emergentes e tudo mais, mas era atento a informações sobre os seus alvos. Sempre que recebia uma missão relacionada a uma pessoa em específico Robert tomava o cuidado de pesquisar tudo o que podia dessa pessoa. Nunca assumiu que um de seus possíveis oponentes poderia ser uma verdadeira ameaça para ele e o S.O.M.B.R.A., mas sabia que seria uma grande estupidez da sua parte se partisse para uma batalha sem ter noção de quem era seu oponente e do que ele podia fazer. No caso, havia aprendido um pouco sobre Kastor e a “guilda” que ele havia formado antes de partir para o ataque. Essa mulher... pelo que ela disse, ela é Kyanna Aoki, certo? Havia lido sobre ela, embora não muito. Verdade seja dita, havia meio que a ignorado, a descartado como uma possível ameaça. Pelo que eu havia lido ela era fraca. Uma maga que participou de um torneio que houve há algum tempo atrás em uma cidade chamada Valhala, do qual parecem ter saído a maioria dos membros da guilda de Kastor, se não todos. O que havia lido sobre ela não havia sido nada particularmente impressionante, considerando que ela havia sido derrotada por Kastor na primeira rodada e não tinha um histórico particularmente impressionante antes disso... e no entanto, ela estava exibindo toda aquela força agora. Não fazia sentido. Será que Kastor pagou os jornais para omitirem alguns grandes feitos dos seus subordinados? Isso poderia fazer sentido. Talvez ele já imaginasse que iria entrar em confronto com o Olho Vermelho e por isso ele pagou pessoas para esconderem um pouco a verdade e divulgarem apenas informações que sugerissem que sua guilda era mais fraca do que realmente é para que ele tivesse uma vantagem quando o inimigo viesse. Se fosse esse o caso... bem, então ele aparentemente tinha tido sucesso.

– Há, nem vem com essa merda, seu saco de bosta! – Quem disse aquilo não foi a voz de Kyanna, nem tampouco a voz do homem que estava ao lado dela. Não, foi uma voz mais bruta e grossa que disse aquilo, o tipo de voz que você esperaria de um soldado ou de um criminoso, de alguém que estava sempre no meio de uma briga. – Eu não sei direito quem você é, mas se eu entendi as coisas bem você é meio que um mercenário de alto nível, certo? Um mercenário de alto nível simplesmente não pode se dar ao luxo de sair por aí fazendo missões sem ao menos pesquisar um pouco sobre quem são os seus oponentes. E além do mais, mesmo deixando esse fato de lado, temos a minha presença aqui! O meu nome alcança os céus, e todo homem nessa terra já ouviu ele! E se você me conhece, bem, então você certamente conhece também a guilda da qual faço parte!

Graças a pressão que sentia constantemente sobre ele, até mesmo os menores movimentos eram consideravelmente complicados para Robert, mas fez o esforço para virar sua cabeça na direção daquela voz mesmo assim. Viu com o canto dos olhos que tanto Kyanna quanto Maoh faziam o mesmo de cima do prédio no qual estavam, e teve a ligeira impressão de que seus olhos caíram sobre ele ao mesmo tempo que os deles faziam o mesmo.

– Duke – disse a voz de Kyanna, alegre. – Gostei da barba. Ela combina com você.

Um sorriso de orelha a orelha surgiu no rosto do que chamavam de Titã ao ouvir aquilo. Duke Graham, eu me lembro dele. Essa era um dos quais Robert havia chegado mais perto de considerar com um desafio, alguém que supostamente era um dos mais fortes membros da Era Dourada. Pelo que podia ver dele e pela força que sentia emanando do homem, não tinha dificuldades em compreender o porquê disso. O porte do sujeito era imponente; grande e musculoso, Duke parecia um brutamontes, uma aparência que ficava ainda mais reforçada pelo braço de aço que ele tinha e pela escolha de roupas leves que ele tomava. O que cobria seu torso era uma camiseta branca bem leve e barata, aparentemente feita de nada mais do que pano, e por cima dela ele apenas usava uma jaqueta preta aberta também bem leve, com gola erguida e sem mangas. Seu rosto era um rosto que você tipicamente associaria a algum marmanjo de rua, e novamente, essa era uma imagem com a qual o próprio Duke contribuía; a barba que Kyanna havia elogiado realmente caia bem nele, mas isso era porque ela se trava de uma clássica barba rala e descuidada que você esperava ver em um vagabundo por aí, ligada ao seu bigode e as suas costeletas. Além disso, Duke agora trazia também uma cicatriz, algo que não se lembrava de ter ouvido falar nele; da sua bochecha esquerda vinha o que parecia ser um corte grosso que passava sobre o seu nariz até chegar à sua bochecha direita, dando-lhe uma cicatriz que fazia com que ele parecesse ainda mais feroz e formidável do que ele já parecia normalmente. Seus cabelos negros eram curtos mas volumosos, levemente jogados para trás embora ainda assim tivessem algumas mechas que caiam para frente, sobre a testa de Duke.

– Graham – disse calmamente Maoh de onde estava, parecendo levemente surpreso, não necessariamente por ver o homem, mas sim por outra coisa. – Só você... aonde está Soulcairn? Foi ele que ficou responsável pelo seu treinamento, não é?

Soulcairn?! Você quer dizer, Soulcairn do Salão Cinzento?! Aquele homem ainda estava vivo?! Isso é mal, muito mal! Eu ouvi que o Olho Vermelho havia derrotado o Salão Cinzento e por isso assumi que eles haviam matado os mais perigosos dos cavaleiros, mas maldição, o que eu devo fazer se Soulcairn está aqui?! Aquele era um dos Ascendentes, bem como provavelmente uma das figuras mais lendárias de todo o Salão Cinzento – talvez fosse capaz de enfrenta-lo de alguma forma se tivesse seu grupo junto de si, mas sozinho... não via chances muito boas. Maldição, maldição! As coisas estão ficando piores a cada minuto!

– Aquele velhote? Ele decidiu vir sozinho. Disse que tinha “algumas coisas a fazer” e me mandou seguir para a cidade – foi o que Duke respondeu, dando de ombros enquanto falava como se não se importasse realmente com aquilo. – Eu não tenho a menor ideia do que ele queria fazer, mas acho que entendo agora o porquê de ele ter me mandado vir para a cidade na frente. Esse bosta aí está nos atacando, hein?

Viu os olhos de Duke repousarem sobre ele ao dizer aquelas, e isso já foi suficiente para que engolisse em seco. Merda... esse cara parece estar bem furioso. Aquilo não era um bom sinal, aquilo definitivamente não era um bom sinal. Maldição... como se já não bastasse estar cercado de inimigos, eu ainda estou sujeito aos efeitos dessa maldita força estranha dessa mulher. Estava tentando o máximo de si para conseguir colocar-se novamente de pé e fazer alguma coisa que pudesse lhe ser útil na batalha, mas não importava o quanto tentasse, era incapaz de fazer qualquer coisa mais do que mover alguns dedos.

– Ei, Kyanna – disse a voz de Duke de forma bem calma. – Dê um tempo nos seus poderes, por favor. Deixe ele se mover.

Seus olhos dispararam para Duke imediatamente ao ouvirem aquilo, completamente confusos. Mas o quê? Por quê? Por que ele está fazendo algo assim? Eles lhe tinham a mercê deles naquele momento, se quisessem fazer qualquer coisa com ele tudo o que tinham de fazer seria aproximarem-se e golpearem-no tanto quanto quisessem. Por que ele está mandando a mulher me libertar? Ele é um daqueles idiotas que se recusam a bater em alguém em nada menos do que uma “luta justa”? Nunca havia compreendido qual era o valor de ater-se a um tipo de “honra” tão problemático quanto aquele, mas se isso podia lhe dar alguma chance de sobreviver a tudo aquilo, então não ia reclamar.

Demorou alguns instantes antes que mais alguma coisa acontecesse, e pode imaginar bem o motivo disso. Não conseguia ver o suficiente para confirmar se estava certo, mas supunha que a mulher e o homem deviam estar se encarando naquele momento, debatendo um com o outro silenciosamente se deviam realmente fazer aquilo. Aparentemente Duke foi o vencedor desse embate, no entanto, tendo em vista que logo Robert sentiu a pressão sobre seu corpo desaparecer.

Assim que isso aconteceu ele não perdeu tempo algum em disparar para longe dali tão rápido quanto pôde. Hah... hahahahaha! Bando de otários! Acham mesmo que eu vou lutar contra algum de vocês?! Não era nenhum idiota; sabia que lutar quando cercado por tantos inimigos seria uma sentença de morte. Seria bom se eu pudesse me infiltrar nas sombras e fugir com elas, mas eu não entendo completamente o funcionamento das habilidades dessa mulher! Só sei que ela já me tirou das sombras uma vez enquanto eu corria antes, e não estou disposto a deixar que isso aconteça de novo!

Graças a sua reação rápida e a sua velocidade natural, estava bem confiante que sua corrida seria o suficiente para despistar rapidamente seus oponentes, e foi exatamente por isso que ficou tão surpreso quando suas esperanças foram frustradas rapidamente. Nem bem havia conseguido correr por mais de um segundo antes que visse Duke surgir subitamente no seu caminho, o corpo do Titã já revestido pelo que parecia ser uma camada do mesmo tipo de aço que fazia seu braço. Ele não disse nada; com uma mão já fechada em punho Duke lançou um ataque direto no estômago de Robert. Sentiu o punho de Duke empurrar sua barriga para trás muito rapidamente com uma força tremenda, mas também não sentiu isso por muito tempo; um instante foi todo o tempo que o golpe precisou para que o punho de Duke atravessasse completamente a carne e os músculos de Robert, abrindo um grande rombo em seu estômago pelo qual metade do braço do Titã passou.

Duke não teve hesitação em retirar seu braço depois daquele golpe, fazendo isso de forma bem casual, apenas observando de canto de olho a queda do mercenário ao chão. Impossível... completamente... impossível. Havia sentido uma força formidável emanando de Duke, era verdade, mas aquilo era absolutamente impossível. Tão rápido... tão forte... com tanta... facilidade... Era um dos mais poderosos mercenários do mundo, raios partam! Sua reputação – criada por meio dos seus méritos e de suas ações – dizia assim! Não era possível que ele fosse derrotado totalmente por alguém como Duke. Simplesmente... não é possível.

– Esse é o troco pelo que você fez, seu merda – resmungou Duke, literalmente cuspindo em Robert para acentuar suas palavras, pura repugnância ressoando em sua voz. – Eu vi o que você fez, sabia?! Breath... você arrancou um braço do maldito garoto! E um olho também! Quando eu encontrei ele, ele estava abraçando o corpo desacordado da sua amiga com o braço que lhe restava enquanto chorava como uma criança e choramingava sobre treinar para se tornar mais forte e não deixar que algo assim voltasse a acontecer! Acha que eu não sei que foi você que fez isso, miserável?! Hein?! Você acha que tem algum direito de fazer isso com as pessoas, seu monte de merda?!

Não pode ver já que tinha a sua cara enfiada na terra naquele momento, mas sentiu e ouviu os movimentos de Duke. Não tinha uma noção exata do que ele estava fazendo, mas sabia o bastante para dizer que naquele exato momento ele havia acabado de erguer uma de suas pernas. O que ele planeja fazer? Esmagar a minha cabeça? Francamente, aquilo não lhe parecia tão ruim naquele momento. Sentia dor. Estava cercado de inimigos. A sua situação era desesperadora, não importava como olhasse para ela. Talvez eu simplesmente devesse deixa-lo acabar comigo. Acabar logo com isso.

Foi esse o pensamento que passou por sua mente, mas se arrependeu logo dele. Não, não. Isso não pode acontecer, não vou deixar. Não queria morrer, não ainda. Eu não quero morrer, não quero morrer nunca. Eu... tenho medo.

De alguma forma conseguiu tirar forças de algum lugar para empurrar seu corpo para o lado quase que no último momento, fazendo com que ele se movesse o suficiente para evitar o golpe de Duke pouco antes que o pé do Titã caísse. A força por trás daquele golpe criou um buraco no chão com o formato do pé de Duke, bem como liberou uma onda de impacto forte o suficiente para jogar Robert pelos ares e quebrar e rachar todo o chão ao seu redor. Os dentes de Duke rangeram ao ver que seu alvo havia escapado, e dobrando as pernas ele não perdeu tempo em saltar contra seu oponente, avançando contra ele novamente em meio ao ar.

Mas para a surpresa de tanto Duke quanto todos os outros ali, ele não conseguiu concluir seu ataque, pois no último momento o seu avanço foi interrompido pela lâmina branca de uma espada.

A essa altura, Robert já não via nada do que estava acontecendo ali, mas isso não impedia que tudo estivesse acontecendo. Tanto Duke quanto a figura que havia defendido Robert aterrissaram no chão meros momentos depois daquilo, um encarando o outro, com os olhos do Titã demonstrando uma quantia igual de irritação e confusão.

– Mas por mil diabos, o que raios que você pensa que está fazendo, Bryen?! – Exclamou ele furioso, praticamente rosnando para a mulher, embora apesar de sua clara irritação ele não demonstrasse nenhum sinal de verdadeira agressividade nem nada do tipo.

– Eu poderia fazer a mesma pergunta para você, Duke – retrucou a ruiva, cruzando os braços a frente de seu corpo. – O que você pensa que está fazendo, tentando matar esse cara? Ele é um líder inimigo, alguém que pode ser útil para nós vivo. Decidir se ele vive ou morre ou o que fazemos com ele é uma escolha que cabe ao líder da guilda, não há você ou a qualquer outra pessoa.

Em resposta a isso Duke grunhiu, mas Bryen continuou firme aonde estava, encarando-o firmemente sem demonstrar o menor sinal de medo. Haviam ficado longe um do outro por uma semana durante o seu período de tempo, mas os corpos de cada um ali haviam amadurecido muito mais. Enquanto para eles era uma semana, para seus corpos a distância era de três meses, e isso fazia com que eles tivessem se desenvolvido bastante, principalmente devido ao treinamento duro que tiveram. No caso de Duke isso era perceptível graças a aparência mais desleixada e a cicatriz que ele havia ganhado; no caso de Bryen, entretanto, isso se notava simplesmente a forma como o corpo dela se desenvolveu. Suas pernas haviam crescido mais, se tornando mais longas e ágeis, mais poderosas e trabalhadas, capazes de movê-la ainda mais rápido de um ponto ao outro. Da mesma forma, músculos eram agora visíveis em seus braços, ainda que nada comparado aos músculos que alguém como Duke havia ganhado. Da ponta dos pés até o seu pescoço, seu corpo era coberto por peças de uma armadura de aço e vestes leves, balanceadas de forma a lhe conceder uma mobilidade excelente enquanto simultaneamente lhe garantiam um certo nível de proteção. Do lado esquerdo de sua cintura repousava a bainha de sua espada, a mesma arma que ela brandia em suas mãos naquele momento.

– E por que raios deveríamos esperar o parecer de Kastor antes de acabarmos com esse cara? – Questionou Duke, erguendo uma de suas sobrancelhas enquanto alterava entre encarar a mulher a sua frente e dirigir seu olhar furioso ao oponente que agora estava distante. – Vamos lá, Bryen, não me venha ser cabeça agora; você conhece Kastor tão bem quanto eu, é óbvio que ele vai querer matar esse cara assim que o ver! Além do mais, não é como se ele tivesse pedido previamente para que consultássemos ele antes de tomarmos decisões como essa, e eu dificilmente acho que ele vai ficar irritado por termos matado um otário por aí.

– Não é uma questão de ele ter pedido ou de ele ficar irritado ou não, Duke. Não entende isso? – Um suspiro cansado escapou dos lábios da mulher enquanto ela continuava a segurar sua espada. Seus olhos se fecharam, e quando eles tornaram a se abrir eles fitaram Duke com uma expressão bem clara de cansaço neles. – Eu já disse; esse cara não é uma pessoa qualquer, mas sim o líder de um dos grupos que estão trabalhando direto em prol dos nossos oponentes. Você consegue imaginar o quanto de informação que ele deve ter disponível para nós. Muita coisa Duke, muita coisa. Informações que podem salvar vidas quando formos enfrentar o Olho Vermelho. Matá-lo certamente é algo que você quer, e não me entenda mal, eu também não tenho problemas algum em atravessar o peito dele com uma espada... mas essas informações que podemos obter são muito mais úteis do que o corpo morto dele, e não estou disposta a simplesmente jogar elas fora assim só porquê não posso controlar as minhas emoções.

– Espera, então você está disposta a deixar esse merda vivo?! – Exclamou Duke, tão perplexo quanto furioso.

– Não, seu maldito idiota, eu estou disposta a esperar – retrucou Bryen, deixando também que um pouco da sua própria ira temperasse suas palavras. – Eu não sei o que devemos fazer com esse homem. Matá-lo, questioná-lo... as duas escolhas têm seus méritos, suas razões e são válidas na minha mente. Eu francamente não sei o que eu faria, ou o que quero fazer. Mas mesmo que soubesse, isso não importa. O destino desse cara jaz nas mãos de Kastor. É Kastor que deve decidir o que faremos com ele, Kastor ou Hozar, um dos líderes da guilda. Não eu ou você ou Kyanna ou qualquer outro de nós, mas eles. Entende? Nós somos uma guilda, ou ao menos é isso que afirmamos ser. Se somos realmente uma guilda, então já está mais do que na hora de começarmos a agir como tal.

Ouvir aquelas palavras fez com que Duke recuasse por um momento. Por um instante uma expressão diferente cruzou seu rosto, uma expressão que sugeria que ele não estava mais certo do que estava fazendo e que ele via algum tipo de razão nas palavras de Bryen. A irritação permaneceu nele, seu sorriso agressivo, mostrando seus dentes como se fosse uma besta selvagem, até por fim ele dar de costas e se afastar dali, colocando suas mãos nos bolsos e chutando o chão no seu caminho como se fosse uma criança frustrada. Era claro que ele não estava satisfeito com aquilo..., mas ao menos ele havia ouvido e respeitado o que a mulher tinha dito, e ao menos na concepção de Bryen, aquilo já era um progresso considerando a personalidade dele.

– Bryen – chamou outra voz masculina, muito mais calma e controlada do que a de Duke. De onde estava a espadachim ergueu seus olhos para olhar para o alto, fitando a figura de Maoh que lhe olhava com ligeiro interesse. – Duke disse que Soulcairn mandou ele vir sozinho na frente pois ele tinha de lidar com algumas coisas. O mesmo aconteceu com Titânia? Não a vejo perto de você.

– Então você pode querer olhar um pouco mais, Maoh – respondeu uma voz feminina que não pertencia nem a Bryen nem a Kyanna, uma voz mais séria e forte do que as das duas outras mulheres, mais madura e mais experiente do que ambas juntas. – Não limite sua visão apenas ao que está a sua frente. Isso é pura ignorância e faz com que você perda coisas valiosas de vista.

Os olhos de Maoh moveram-se na direção da qual vinha aquela voz assim que começou a ouvir aquelas palavras. Sentada no segundo andar de uma casa quase que completamente destruída há cerca de trinta metros à sua direita, com a lança forjada do Sangue dos Deuses cravada no chão ao seu lado, Titânia se restringia a simplesmente observar o que se desenrolava entre os membros da Era Dourada com apenas uma vaga sugestão de interesse em seus olhos. Seus cabelos um dia haviam sido longos, mas aparentemente ela havia escolhido por cortá-los enquanto treinava Bryen, fazendo com que o que sobrasse não fosse mais do que um monte de mechas pontudas que mal alcançavam os seus ombros, caindo no máximo em minúscula quantidade sobre sua testa.

– Você escolheu ficar em um lugar estranho, Titânia – comentou o Demônio Chifrudo, embora não sem respeito; não era alguém que tratava ninguém sem o devido respeito, independente de quem fosse essa pessoa, e definitivamente não iria cometer o erro de desrespeitar alguém tão temível quanto Titânia. – Sinto por não ter lhe notado antes, mas minha atenção estava em outros.

– Não se desculpe por coisas que não quererem pedidos de desculpa. Eu não queria que você me notasse de qualquer forma, e não dou a mínima para coisas assim – disse ela, dando de ombros. – Quanto ao lugar que eu escolhi... bem, eu não tenho intenção nenhuma em participar dessa luta. A melhor coisa que posso fazer, nesse caso, é ficar fora do caminho.

– Do contrário, você pode acabar chutando a bunda de alguém por lançar acidentalmente um ataque na sua direção, não é, Caçadora de Corações? – A voz que disse aquilo era uma um tanto quanto preguiçosa e despreocupada, falando de forma meio-séria, meio-brincalhona. Enquanto Titânia estava ao lado de Maoh, Shell se mantinha sobre o telhado de um prédio do outro lado deles, sentado de pernas cruzadas na beira do prédio. A maioria das pessoas teria medo de ficar num lugar como aquele, medo que algo ou alguém pudesse derrubá-las do alto em direção a uma morte sangrenta no chão, mas Shell não era alguém que tinha de temer coisas assim, e mesmo se fosse, ele era despreocupado e descuidado demais para se importar com isso. Seus cabelos um dia haviam sido longos, mas aparentemente ele havia tomado algum tempo em meio ao seu treinamento para cortá-los ao ponto de fazer com que eles parassem no nível de suas orelhas. Suas vestimentas haviam mudado também, ou, melhor dizendo, ele havia resolvido os seus problemas de falta de roupas... parcialmente. Aonde antes ele andava por aí sem camisa o tempo todo, agora ele andava por aí usando uma camisa festiva roxa decorada por palmeiras douradas e com a frente aberta, deixando seu peito a mostra. Nada demais por padrões comuns, mas tal como era o caso com Duke, uma grande evolução para os padrões pessoais de Shell.

– Não vá irritando uma mulher que pode te matar com um dedo, Shell – censurou a voz do irmão do mago de gelo ao lado dele. Ao contrário de seu irmão, Ex não trazia nenhuma mudança particularmente notável em sua aparência, apesar de o mesmo não poder ser dito da sua personalidade. Um único olhar rápido sobre ele foi o suficiente para que Kyanna fosse capaz de dizer que ele estava bem mais bem-humorado e menos irritadiço do que antes, dada a postura dele e a forma como ele havia respondido. – Eu não vou te ajudar a sair de uma encrenca que você arranjou com suas próprias mãos.

– Eu sei, eu sei. Calma, calma. Eu só estou brincando um pouco, ok? – Gemeu Shell, coçando uma orelha com o indicador da mão direita enquanto falava, deixando bem claro que ele não se importava muito com aquilo tudo. – Além do mais, eu sou um aliado. Titânia não iria fazer algo contra mim só por ter feito uma brincadeirinha, não é, Titânia?

Toda a resposta que a ruiva lhe ofereceu a isso foi um simples olhar, duro e mudo, e um lento movimento negativo com a cabeça.

– Acho que esse é um “não” – murmurou a divertida voz de uma mulher alegre, surgindo acompanhada do som de passos que vinham em direção aos outros. – Não se preocupe, Shell; se qualquer coisa acontecer, vamos estar aqui para te proteger. Ou, mais provavelmente, apanhar junto de você.

Quem disse aquilo foi uma mulher ruiva de cabelos longos que chegavam quase que até a sua cintura, falando enquanto trazia um sorrisinho astuto no rosto. Há um bom tempo atrás, em uma luta que a maioria da guilda não havia nem sequer visto, um dos braços de Anabeth havia sido perdido; o espaço vazio que ele deveria ocupar era bem perceptível em suas roupas, uma lembrança eterna do que havia ocorrido. Entre a guilda, o pensamento geral era de que haviam falhado com ela ao deixar que uma de suas companheiras adquirisse um ferimento como esse, sendo que o único que não se sentia incomodado com aquilo Shell – o mais recente dos membros da Era Dourada – mas apesar disso, a própria Anabeth não demonstrava sentir falta de seu braço, e dada a força que conseguiam sentir emanando dela, parecia que isso também não havia sido capaz de impedi-la de ficar forte. Exalando uma força que era pelo menos três vezes maior do que a que ela exibia da última vez que haviam a visto e vestida em uma armadura de leve de couro que lhe cobria da cabeça aos pés, a arqueira parecia preparada para lutar a qualquer momento. Ela vinha de uma das ruas próximas – uma das várias ruas que haviam sofrido a batalha entre o Salão e o Olho, com vários buracos presentes em diversos trechos dela – e ao seu lado vinha a mulher que havia sido responsável por lhe treinar; Valery Alcaheim, uma das Primeiras Cavaleiras do Salão e parte dos poucos cavaleiros que haviam saído da batalha em condições boas o suficiente para poderem enfrentar novamente o Olho Vermelho.

– Ei, Anabeth! – Kyanna não hesitou em acenar alegremente com uma de suas mãos ao ver a ruiva, feliz por rever sua amiga. Gostava de todos os seus companheiros da guilda, mas Anabeth em particular ocupava um lugar especial no seu coração já que ela também era uma mulher e era a que tinha a personalidade mais próxima da de Kyanna, o que fazia com que as duas se dessem muito bem. – Bom ver que você voltou também! E parece que você também ficou bem mais forte! Isso é ótimo!

– É, é ótimo, mas mesmo assim eu não posso deixar de me preocupar – comentou Duke, mais cético, olhando para a arqueira com uma sobrancelha erguida, seus olhos fitando abertamente o espaço que deveria ser ocupado por um dos braços dela. – Anabeth, você tem certeza que você tem de participar das batalhas que estão por vir? Não me entenda mal, eu consigo sentir que você ficou bem mais forte e eu não te subestimo de forma alguma, mas, bem, você é, ou era, uma arqueira. Eu não sei você, mas eu nunca vi um arqueiro com um só braço por aí.

– E nem vai ver, não considerando que eu sou uma mulher – retrucou ela de forma um pouco seca, sua expressão sorridente se fechando em chateação e lançando um olhar repreendedor para Duke. – Você me decepciona, Duke. Eu sempre pensei que todos os membros da guilda eram grandes pessoas de mente aberta, e aqui me vêm você, agindo como se eu fosse indefesa. Eu treinei, sabe? Posso me virar muito bem sem você do meu lado, seu machista.

A expressão de Duke mudou da água para o vinho quase que de imediato ao ouvir aquilo. Antes ele ainda trazia traços da irritação que havia sofrido antes no rosto e parecia um tanto quanto inseguro em relação à questão de Anabeth, como se estivesse quase certo de que aquela era uma boa ideia. Assim que ouviu aquelas palavras, no entanto, sua expressão logo se tornou a de uma pessoa que acaba de perceber que cometeu um grave erro. Sua boca se abriu, suor frio começou a correr pelo seu rosto e o Titã entrou claramente em pânico, ao ponto de que foi surpreendente que ele não começasse a tremer em puro nervosismo.

– E-ei, relaxa, você sabe, eu não queria dizer, ou sugerir, algo assim, certo? Foi mal, foi mal mesmo! – Desculpou-se ele, suas bochechas corando de vergonha enquanto falava, parecendo por um garoto encabulado com metade da sua idade ao invés do homem vivido e um tanto quanto malandro que ele era. – É só que, bem, você sempre lutou com as duas mãos, cê sabe, atirando flechas e tudo mais, e considerando que você agora não tem mais uma dessas mãos eu não sabia se você poderia lutar, ou se seria tão boa lutando, ou se você não teria dificuldades com isso ou coisa do tipo, sabe? Eu realmente, realmente não quis passar a impressão de estar de subestimando, ou pensando pouco de você, ou te menosprezando, nem nada disso. Sério, se eu passei essa impressão, me desculpe, sim? Essa realmente não foi a intenção.

O pedido de desculpas de Duke foi algo que surpreendeu a praticamente todos ali. Com sua personalidade expansiva e sua tendência a dizer o que queria enquanto mandava um grande “foda-se” para qualquer consequência, o que a maioria das pessoas havia imaginado era que ele iria bater-cabeças com Anabeth depois de ouvir aquilo. Para eles, ver Duke desculpando-se daquela forma foi algo completamente inesperado, principalmente considerando o quão profundamente sincero ele soava ao fazer aquilo. E ainda assim, apesar de todas aquelas desculpas, o olhar de Anabeth continuava sobre ele, duro, chateado, irritado.

E foi assim que ele continuou por alguns momentos – todo o tempo que a mulher aguentou antes que suas bochechas inchassem, sua feição dura fosse completamente quebrada e, sem conseguir controlar-se, ela começasse a gargalhar alto abertamente.

– Hahahaha, haha, hahahahahahaha! Você tinha que ver a sua cara, Duke! Hahaha, ela é ótima! – A risada de Anabeth ressoou pelo ambiente, uma risada gostosa, alegre e satisfeita. Ao verem aquela risada, muitos dos que haviam se surpreendido com as ações dela compreenderam o que estava acontecendo, mas alguns ainda continuavam claramente confusos (Duke principalmente), e para esses ela ofereceu uma resposta enquanto tentava de alguma forma controlar o riso. – Isso era uma brincadeira, Duke, uma simples brincadeira. Eu não estou irritada por você estar preocupado comigo. Raios, eu teria de ser insuportável para estar nervosa com alguém por essa pessoa estar preocupada com o meu bem-estar. Eu apenas fingi estar irritada como uma brincadeira. Francamente, eu esperava que você ficasse irritado com isso e me xingasse em resposta, mas acho que prefiro isso. É muito mais divertido assim... e muito mais adorável, também. – A gargalhada finalmente morreu, e assim que isso aconteceu ela não perdeu tempo em inclinar seu corpo para frente, olhando para Duke com as bochechas ainda um pouco coradas pelas suas gargalhadas. – Sabe, Duke... por trás de toda essa sua faceta de um cara durão, machão e nervosinho, você é um doce de homem. Não falo por outros, mas eu gosto disso em você.

A forma como todo o rosto de Duke ficou vermelho ao ouvir aquilo foi no mínimo cômica. Ele não era nenhum tipo de jovem inocente – havia passado muitas noites acompanhado de mulheres no passado, tanto mulheres cuja companhia ele conquistou quanto mulheres que ele pagou para passarem uma noite com ele – mas a forma como Anabeth conduziu toda aquela situação e a forma como ela falou com ele fez com que ele fosse pego completamente despreparado. Seu rosto vermelho fez com que mais uma risada escapasse dos lábios da ruiva – uma mais controlada e feminina –, bem como fez com que Bryen suspirasse enquanto observava a cena com um sorriso fino em seu rosto enquanto Kyanna, por sua vez, olhava aquilo com um meio sorriso.

– Ah, que lindo – comentou sarcasticamente uma outra voz feminina, trazendo um certo tom metálico misturado em meio a ela, como se uma máquina estivesse funcionando ao mesmo tempo em que sua dona falava. – Por favor, digam-me que eu cheguei a tempo de ver o beijo. Deve ter um beijo depois de algo assim, não é?

– Eu sinceramente espero que não – retrucou a voz grossa de um homem, seca e aparentemente um tanto quanto incomodada por tudo aquilo. – Beijos... eu nunca vi o que todo mundo parece achar nesse tipo de coisa. Como colocar sua língua dentro da boca de alguém e trocar um monte de saliva e cuspe pode ser algo além de nojento? Bah. Se quiserem realmente fazer isso, vão em frente, mas tenham alguma consideração e façam isso longe da minha vista.

Ambas as vozes que falaram eram vozes já conhecidas pelos que estavam ali. Shell, Duke, Bryen, Anabeth, Kyanna; todos moveram seu foco imediatamente para o beco das quais elas estavam vindo ao ou ouvi-las, já em espera por aqueles que iriam sem dúvida aparecer.

A primeira que se mostrou foi Teigra, embora ela estivesse tão mudada que era quase impossível reconhece-la caso não soubessem que aquela era ela. Tal como Anabeth e Bryen, ela vestia algo que lhe cobria da ponta dos pés até o pescoço, mas ao contrário das vestes das outras duas isso não parecia uma armadura, mas sim se mostrava tão justa e fixa ao seu corpo que mais parecia que aquilo era uma verdadeira parte do seu ser. Suas vestes eram de algum metal brilhante como cobre muito bem trabalhado, sendo justas o suficiente para adequarem-se a cada contorno da figura de Teigra perfeitamente, sendo que a única coisa que fazia com que aquilo ainda parecesse um adendo a ela era a pura grossura das camadas de metal que lhe envolviam. E isso não era a maior mudança. Seu rosto agora estava mais branco, não ao ponto de se tornar pálido, mas definitivamente mais branco do que o ela era antes, como se ela tivesse perdido um pouco da sua cor, e em seu pescoço – próximo ao seu queixo – estavam visíveis várias... “linhas negras”, por assim dizer. Era difícil definir se aquelas coisas eram veias sanguíneas ou algo mais, mas pelo que podiam ver elas pareciam estar por baixo da pele de Teigra, e pela forma como elas pareciam seguir para baixo em direção a sua “armadura”, a impressão que ficava era que essas linhas conectavam a cabeça de Teigra ao metal que a cercava. Mas ainda mais marcante que isso era como a aparência da mulher havia mudado; seu cabelo havia sido cortado tal como o de Titânia e Shell, ficando agora apenas grande o bastante para cobrir sua nuca, mas o mais estranho era que ele havia se tornado branco. De alguma forma as cores originais de Teigra pareciam ter sido perdidas durante a semana que passaram separados dela, fazendo com que seu cabelo se tornasse branco e com que seus olhos se tornassem vermelhos... e apesar disso, ela parecia bem calma com as mudanças que seu corpo havia sofrido; naquele exato momento ela estava olhando para sua mão calmamente, como se estivesse analisando-a, com olhos completamente indiferente.

Hozar veio logo atrás dela, e felizmente o Deus da Fúria não havia mudado tanto quanto a Alquimista. Vestido em uma grossa armadura de corpo inteiro de aço cinza, Hozar avançava calmamente passo após passo, com cada pisada dela vindo carregada de força o suficiente para fazer com que o chão abaixo de seus pés se quebrasse e com que ele afundasse um pouco com cada passo. Seus cabelos nunca haviam sido realmente longos, mas tal como grande parte dos outros Hozar havia escolhido por cortá-los, fazendo com que eles agora ficassem reduzidos a um corte em estilo militar que ficava justo a sua cabeça, sem nada desnecessário. Como que para compensar por isso uma barba havia surgido em seu rosto também – não uma barba rala e curta como a que Duke tinha, mas uma grossa e espessa que cobria seu rosto com uma intensidade muito maior do que a do Titã. Mas mais marcante do que isso era o martelo que ele trazia com uma mão, apoiado em seus ombros; ninguém tinha a menor ideia de onde exatamente ele havia tirado aquilo, mas de alguma forma Hozar havia arranjado um grande martelo de batalha com pelo menos duas vezes o tamanho do que ele havia usado durante o Torneio de Valhala, completo com uma aparência muito mais ameaçadora do que a de seu antecessor, com o que pareciam ser “veias” de pura lava derretida correndo pela sua extensão e uma “cabeça” brutal, feita de uma forma similar à de um martelo de moer carne, só que com suas proporções tão exageradas que chegava a parecer que ele tinha dezenas de ponta de lança colocadas ali, prontas para perfurar e quebrar o corpo de qualquer um que fosse azarado o suficiente para ser atingido por um golpe dele até que não sobrasse nada.

– Ou, uou, Teigra?! – Tudo o que havia acontecido momento antes com ele em relação a Anabeth pareceu desaparecer da mente de Duke num único instante quando ele viu a nova aparência de Teigra, fazendo com que os olhos do homem ficassem tão arregalados que parecia até que eles haviam se expandido de alguma forma. – Ei, ei, o que aconteceu com você, mulher? Eu sei que faz algum tempo desde a última vez que nos vimos, mas eu não me lembro de você tendo cabelos brancos naquela vez. Ou olhos vermelhos. Ou uma roupa de metal. Ou uma voz metálica que faz parecer que você é uma daquelas atrizes de teatro e peças cujo único ponto forte é o fato de ter um rostinho razoavelmente bonito.

– Coisas acontecem, Duke – respondeu ela de forma simples, sem nem olhar o Titã enquanto o respondia. – Tínhamos de ficar mais fortes para a batalha que está por vir, todos nós. Isso, no entanto, não funciona da mesma forma para todos nós. Eu não sou como Hozar ou Bryen, não possui um corpo superpoderoso que pode ser treinado para obter capacidades ainda mais sobre-humanas, nem tampouco sou como você ou Kyanna, capaz de ficar mais poderosa através de um treinamento e aperfeiçoamento das minhas habilidades mágicas. Sendo assim, eu recorri a métodos alternativos, os meus próprios métodos. Não se preocupe. Isso muda um pouco a minha aparência e a minha voz, mas a personalidade e o coração ainda são os mesmos. Ainda sou a mesma Teigra que vocês conhecem. Mesmo que não pareça ser esse o caso.

A sobrancelha direita de Duke se ergueu ao ouvir aquilo, ao mesmo tempo que a sua esquerda se franzia. Pela sua expressão era claro que ele no mínimo tinha lá as suas suspeitas sobre aquilo, mas de qualquer forma ele decidiu por não seguir com seu questionamento. Ao invés disso o que ele fez foi mover seus olhos para Hozar, dirigindo seu olhar para o Cavaleiro Cinzento, avaliando com um olhar a arma que ele trazia consigo.

– E você, Hozar? Onde raios foi que você arrumou esse Martelo de Batalha? – Questionou ele, observando a cabeça da arma e o desenho brutal que ela apresentava, um desenho que parecia ser feito especialmente para destruir seus inimigos da forma mais dolorosa possível. – Presentinho do seu tutor?

– Tch. Você fala como se aquele bosta fosse me dar alguma coisa, ou como se eu fosse aceitar o que quer que ele me oferecesse – resmungou Hozar, fechando uma de suas mãos. Quando ele tornou a abri-la, um charuto havia magicamente se manifestado nela, e ele não perdeu tempo em levar esse aos seus lábios e acendê-lo com a ajuda de seus poderes. – De qualquer forma, como obtive esse martelo não é importante. O importante é que eu tenho o martelo, não concorda?

Pela feição azeda que surgiu no rosto de Duke podia-se entender que o homem não concordava com isso – ou ao menos que ele não gostava de ter pessoas se negando a responder decentemente as suas perguntas. Ainda assim, nem mesmo isso foi o suficiente para fazer com que ele procurasse encrenca; grunhindo e rugindo, ele limitou-se a apenas cuspir no chão e se afastar um pouco para sentar-se em um monte de escombros próximos. Hozar observou isso em completo silêncio, depois moveu seus olhos para Robert, o líder inimigo que ainda jazia ali, jogado um canto. Ele estava sangrando bastante e não parecia poder se mover, mas apesar disso ainda era claro que ele estava vivo. A questão, pensou Hozar, tirando o charuto da boca e assoprando pra fora a fumaça dele, é por quanto tempo ele vai continuar assim.

– Algum de vocês viu Kastor? – Perguntou ele, apesar de que já podia imaginar qual era a resposta para isso.

– Sem sorte com isso – respondeu Bryen, acenando com a cabeça. – Kastor é nosso líder e o mais rápido de nós, mas parece que ele também é o mais atrasado. A ironia disso não se perde em mim.

– Bom, eu tenho certeza de que ele deve estar chegando a qualquer momento, não é? – Disse Kyanna, sempre sorridente. – Quero dizer, ele é o nosso líder... e além do mais, não consigo deixar de pensar que ele deve estar bem ansioso por reencontrar todo mundo.

– Ele vai vir, eu não duvido disso – disse Hozar, coçando sua barba com sua mão livre enquanto ainda trazia o charuto entre seus dedos. – O problema é quando ele vai chegar. – Com sua cabeça gesticulou em direção ao corpo de Robert. – Com esse buraco no peito, eu não consigo imaginar que esse cara vai durar muito tempo. – Moveu seu rosto até que seus olhos pousassem novamente sobre Duke, prestando atenção em particular ao braço ensanguentado do Titã. – Você foi o responsável por isso, não foi, Duke?

A resposta de Duke a isso foi rosnar de forma irritadiça.

– Hozar, eu estou me controlando e tentando ser um pouco mais calmo aqui. Não confunda isso com complacência, meu chapa. – Disse ele, tentando (e falhando em) manter sua voz em um tom mais ou menos amigável. – Eu estou me segurando até então, mas eu vou quebrar a cara de qualquer um que insistir em ficar me enchendo o saco, e isso inclui você.

Uma das sobrancelhas de Hozar se franziu no momento em que ouviu isso. Por um momento ele parou completamente com tudo o que fazia, focado completamente em encarar Duke. O Titã respondeu a isso com um olhar firme, e lentamente o ar ao redor dos dois foi ficando pesado pela tensão emanada dos dois.

– Ei, Hozar, você e o Kastor são ambos alguns dos líderes da guilda, não é? – Questionou Anabeth, em parte para tirar um pouco da tensão dos dois e mudar o foco da situação antes que as coisas começassem a se desenvolver de uma forma negativa. Felizmente ela teve sucesso nisso, fazendo com que Hozar parasse de encarar Duke para voltar-se para ela. Com um movimento da sua cabeça ela fez sinal para Robert quando obteve a atenção dele. – Você não poderia decidir o que fazemos com esse cara? Seria bom se Kastor também pudesse participar disso, mas se não podemos conta com a companhia dele então temos que trabalhar com o que quer que tenhamos disponível.

– Tem razão, eu poderia decidir – concordou Hozar, acenando afirmativamente com sua cabeça – mas, francamente... eu simplesmente não sei que decisão devo tomar aqui. Matar esse inimigo seria uma coisa bem lógica e simples de se fazer, mas não vejo qual o ponto em dedicar algum tipo de esforço em derrota-lo se podemos simplesmente esperar e deixar que ele morra graças a sua hemorragia. Sem falar que isso me parece um grande desperdício; ele deve ter muitas informações que podem ser úteis para nós, e não me sinto confortável com o pensamento de simplesmente perder tudo isso. Por outro lado, alguém como ele deve ser treinado para controlar sua língua, o que significa que precisaríamos de alguma forma bem criativa e especial para podermos arrancar alguma informação dele, e não acho que temos tempo o suficiente para recorrer a algo assim quando ele tem um buraco no peito. Sem falar que provavelmente teríamos de recorrer a algum tipo de tortura pesada para conseguirmos algo dele, e você pode me chamar de mole, mas não gosto do pensamento de termos que recorrer a sistematicamente arrancar dentes ou cortar dedos de alguém para conseguir algo. O ponto que temos ao lutar meio que será perdido no momento em que recorrermos a alternativas tão monstruosas assim. – Suspirou, cansado, e apoiou-se de costas em um prédio próximo, recolocando o charuto na boca. – Em outras palavras, eu vejo validez em qualquer uma das alternativas e consigo entender o porquê de alguém possivelmente recorrer a uma delas, mas não estou decidido sobre qual devemos seguir ou como deveríamos seguir com ela. Por isso eu gostaria que consultássemos Kastor e deixássemos que ele decidisse como procedermos aqui, mas se ele não vai chegar, então eu suponho que devo tomar uma deci-

– Você supõe errado meu amigo, porque você não vai precisar fazer nada! – Declarou uma voz masculina, alegre e jovial, bem divertida e animada. Uma voz que todos ali conheciam muito bem, a de quem todos eles esperavam. Bryen, Duke, Kyanna, Teigra, Anabeth, Shell, Hozar, Maoh, Valery... um sorriso surgiu no rosto de cada um deles ao ouvir aquilo, e imediatamente todos eles voltaram-se na direção da qual a voz havia vindo.

Tal como era de costume dele, Kastor apareceu com um largo sorriso de orelha a orelha no rosto, de braços abertos e erguidos para cima, como se quisesse abraçar cada um ali. Ao invés de antes em que ele andava praticamente só usando a sua armadura, Kastor agora trazia um casaco de pele branco com detalhes em dourado dessa vez, sendo que sua tradicional armadura azul agora jazia por baixo dele, em plano secundário. Seus cabelos castanhos haviam crescido bastante no tempo em que haviam ficado separados; agora eles eram grandes o suficiente para que ele os organizasse em uma fina trança enorme que ia até abaixo de sua cintura, altura no qual o verdadeiro resto de seu cabelo se mostrava, livre de uma forma que fazia com que ele lembrasse os pelos do fim da cauda de um leão. Algumas mechas espetadas caiam sobre seu rosto, cobrindo sua testa, apesar de não serem realmente o suficiente para atrapalhá-lo em nada. No entanto, o que mais se destacava no Azul era o seu próprio corpo; ele era um dos que o corpo havia mais claramente se desenvolvido durante o período de treinamento, surgindo agora mais alto e musculoso do que antes. Ele ainda não tinha músculos tão desenvolvidos quanto os de pessoas que se focavam em aumentar sua força física acima de tudo – como Hozar ou Duke – mas ainda assim, aquilo era mais do que o bastante para deixar claro que Kastor havia se tornado bem mais forte nesse meio tempo... claro, isso considerando que a pura força que era emanada dele não fizesse isso. Até mesmo Titânia – famosa por sua força extrema e alguém que não havia reagido com nada mais do que indiferença perante às melhorias de todos os outros – não pode deixar de erguer uma sobrancelha ao ver o quanto a força de Kastor havia se desenvolvido, simplesmente pelo que ela podia sentir.

– Finalmente... – resmungou Duke entre dentes, sorrindo abertamente enquanto falava, claramente feliz em rever seu amigo. – Você certamente tomou o seu tempo antes de voltar a aparecer, hein, seu maldito bosta azul!

– Hahahaha, foi mal, foi mal! – A desculpa de Kastor veio acompanhada de um fino sorriso acanhado e apologético, como o de um garoto travesso depois que os adultos descobrem a sua última travessura. – Eu acho que fiquei um pouco atrasado com meu treinamento, mas em minha defesa eu aprendi um monte de coisas legais nele!

– Coisas úteis? – Perguntou Anabeth com um sorrisinho no rosto, como se ela já soubesse a resposta pra isso.

– Bom, eu aprendi a disparar rajadas de chamas-fantasmas superconcentradas a uma intensidade capaz de derreter praticamente qualquer coisa nesse mundo imediatamente graças ao seu calor que ainda contam com a capacidade de explodir em uma explosão azulada poderosa o suficiente para apagar toda uma vila do mapa em um único instante, então... coisas legais – respondeu Kastor, dando de ombros como se aquilo não fosse nada demais e fazendo com que os olhos de alguns dos seus companheiros se arregalassem ao ouvir aquilo, algo que Kastor pareceu não notar (ou, mais provavelmente, ignorar). – Mas, além de causar destruição em massa, eu também aprendi a fazer outras coisas! Tipo... isso!

Quase que imediatamente após aquelas palavras forem ditas, Kastor desapareceu da vista de todos. Não era segredo para ninguém que o Cavaleiro Azul do Salão Cinzento era alguém tremendamente rápido, mas enquanto ele antes era bem rápido, essa era uma velocidade que eles ainda conseguiam acompanhar de certa forma. Esse não foi o caso naquele momento. A velocidade dos movimentos de Kastor foi tão alta que foi quase como se ele tivesse se teletransportado de um lugar para o outro; nem mesmo Bryen conseguiu ver exatamente o momento em que ele surgiu ao lado de Robert, e ela tanto estava próxima do mercenário derrotado como também se tratava de uma guerreira com um foco na velocidade.

– Ei, você deve ser o cara que causou todo esse caos por aqui, certo? – Perguntou Kastor, agachado, olhando para Robert por cima com certo interesse expresso em seus olhos. – Belo buraco no torso. Eu não sabia que estão fabricando torsos furados agora, isso definitivamente vai ajudar a resolver muitos problemas chatos como quando você quer ver alguma coisa mas tem um bastardo alto na sua frente. Isso, ou alguém fez um bom estrago em você. Provavelmente a primeira opção, hm? – A esse ponto, Robert não tinha forças nem para gemer pateticamente em resposta a isso; tudo que ele pode fazer foi erguer seus olhos quase completamente ofuscados pela perda de sangue e fitar o cavaleiro a sua frente com eles. – Hm, sem forças, não é? Entendo, entendo. Você está numa situação problemática, meu chapa. Mas não se preocupe; vou te dar uma ajuda aqui.

Tanto Duke quanto Bryen ergueram uma sobrancelha ao ouvirem aquilo, enquanto os outros limitaram-se a observar atentamente o que ocorria em silêncio, curiosos quanto ao que exatamente Kastor planejava fazer. O cavaleiro ergueu sua mão direita e pousou-a calmamente sobre as costas do moribundo, como que em um gesto para reconforta-lo... mas logo ficou bem claro que ele não planejava fazer algo tão simples assim. Um olho não-treinado jamais seria capaz de ver algo assim, mas os olhos de pessoas tão experientes quanto as que estavam reunidas por ali conseguiram ver uma fina camada de energia se tornando visível ao redor do braço de Kastor, seguindo por ele em direção à sua mão e indo da sua mão para o corpo de Robert. E foi então que o que era realmente fantástico começou a acontecer; diante dos olhos de todos ali, a grande ferida no corpo de Robert foi se fechando rapidamente. Não era como se ela estivesse meramente cicatrizando ou parando de sangrar, não; a carne remanescente ao redor do buraco em Robert foi literalmente se multiplicando rapidamente em um ritmo estrondoso, e em menos de dez segundos todo esse buraco simplesmente não existia mais, completamente regenerado ao ponto de parecer que ele nem havia existido um dia. E não era só isso; os olhos de Robert antes estavam quase que mortos devido a intensa perda de sangue que ele havia sofrido, mas da mesma forma que sua ferida se regenerou o mercenário pareceu recuperar suas forças, ao ponto de que ao fim daquilo ele só se mantinha no chão porque estava abismado demais para levantar-se, seus olhos fixos em Kastor, absolutamente incrédulos.

– Uou, uou, uou, uou, uou! Mas o que diabos você pensa que está fazendo, Kastor?! – Exclamou Duke, se levantando com um salto e esbravejando como era de costume dele, nem um pouco satisfeito com aquilo. – Ei, você tem alguma ideia do que esse cara fez? Tem alguma ideia do que as pessoas sofreram graças a ele? Qual a grande ideia, curando ele?

Kastor não se preocupou com aquilo. Ignorando completamente os protestos de Duke ele se levantou, tudo isso enquanto era o foco do olhar de todos ali. Uma vez em pé ele estalou seu pescoço e braços como se estivesse se despreguiçando, antes de parecer notar que Robert continuava no chão e, sem pestanejar, oferecer uma mão a ele.

– Ei, você precisa de ajuda para se levantar? – Perguntou com gentileza o azul, sem nenhum tipo de troça ou sarcasmo presente em sua voz. – Eu aprendi a fazer isso, mas não sei se a regeneração funciona tão bem nos outros quanto funciona em mim.

– Ei, você está... você está me ignorando, seu filho da puta?! – A fúria de Duke provinha das ações de Kastor e de ser ignorado, isso era claro o suficiente. O difícil, no entanto, era determinar qual o que mais irritava o Titã no momento; dado o seu rosto vermelho, parecia que ele estava mais frustrado do que irritado, mas isso podia facilmente ser um erro. – Não me ignore, Kastor! Está me ouvindo?! Não me ignore, seu filho da puta arrombado!

Kastor continuou a ignorar Duke depois daquilo, sem um pingo de remorso por isso.

– E-Ei, eu normalmente não questionaria coisas assim, mas por que você está me ajudando? – Quem perguntou isso foi Robert, acenando com a cabeça que não precisava de ajuda enquanto colocava-se em pé sozinho. Seus movimentos eram cuidadosos, no entanto; ele podia acabar de ter sido ajudado por ninguém menos do que aquele que parecia ser o seu alvo, mas não iria abaixar a guarda só por causa disso... em parte pelo fato de que ainda havia pelo menos uma pessoa ali que iria alegremente tornar a abrir um buraco em seu estômago como também pelo fato de que, bem, a pessoa que havia lhe ajudado era provavelmente a pessoa ali tinha bons motivos para lhe querer morto. – Eu sei que não se olha um cavaleiro dado como presente nos dentes, mas ainda assim... eu sinto em afirmar que não entendo o porquê de você estar fazendo isso, e isso é algo um pouco perturbador para mim, bem como algo bastante confuso, você há de concordar.

– Porque eu acredito que você merece uma segunda chance – respondeu Kastor de forma simples, cruzando ambos os braços a frente de seu corpo ao falar isso, e se Robert já estava achando estranhas as ações dele antes, aquilo fez com que elas se tornassem completamente absurdas. – Isso é algo justo, não concorda? Quero dizer, pelo menos no seu caso. Você, corrija-me se eu estou errado, não é exatamente um criminoso. É um mercenário que está trabalhando para uma guilda criminosa, sim, mas francamente, existem muitos aqui que possuem passados até mais sujos do que isso, e esses passados não impediram que essas pessoas se redimissem.

– Você quer que eu me redima, então? – Perguntou Robert, tendo de lutar para manter um sorriso fora de seu rosto a medida que ouvia aquilo. Haha... hahahaha! Isso é incrível! Absolutamente incrível! Cara, esse é realmente o meu dia de sorte. Quando havia pesquisado sobre Kastor ele havia, obviamente, ouvido os rumores sobre como o garoto não parecia ser alguém lá muito esperto, mas não havia rumor nessa terra que pudesse lhe preparar para tanta estupidez. Ele acredita nisso? Ele realmente acredita nisso? Sério mesmo? Aparentemente, apesar de todo o ensino e o treinamento que haviam concedido a ele no Salão Cinzento, Odin e os outros haviam falhado em ensinar ao garoto que o mundo não era um conto de fatos.

– Eu quero que você faça muito pouco. Eu espero que você se redima, mas francamente, eu só tenho duas condições que quero que você cumpra para poupar sua vida – disse o Cavaleiro Azul, erguendo dois dedos de uma das mãos ao dizer isso. – Número um: você deve cancelar, aqui e agora, seu contrato com o Olho Vermelho. Você não irá continuar a nos amolar, nem aqui nem nunca mais. Se eu te encontrar no campo de batalha novamente, não espere que eu lhe mostre clemência de novo. Número dois: você deve cancelar qualquer possível negócio que você tem com guildas ilegais, quaisquer que sejam elas. Você não vai mais fazer nenhum trabalho como esse, ouviu bem? Eu não posso realmente te punir por esse trabalho considerando que só te conheci depois que você já havia feito ele, mas não quero ouvir nada no futuro sobre você estar colaborando com alguma guilda ilegal de novo, ouviu bem?

– Claro, claro. Isso faz sentido. – E realmente, fazia... embora esse tal de Kastor fosse um tolo colossal se ele realmente esperava que Robert fosse concordar de verdade com aquilo. Bom, talvez eu realmente não colabore mais com o Olho Vermelho. Não acho que Balak vá ficar lá muito satisfeito ao ouvir que falhei em concluir o serviço, principalmente considerando que eu exijo por metade do pagamento adiantado, e eu também não tenho muito interesse em enfrentar monstros como os que estão aqui. Mas quanto aos trabalhos com outras guildas ilegais... bom, o garoto está sonhando se ele acha que eu vou abrir mão disso. Será que ele tem a menor ideia do quão lucrativos são esses trabalhos? Essas coisas são praticamente minas de ouro ao meu dispor! Isso dito, não podia expressar claramente os seus pensamentos por motivos bem óbvios, então quando Kastor abriu um sorriso e estendeu sua mão, apertou-a com firmeza e mostrou o seu sorriso mais convincente para ele. – Você tem minha palavra, Kastor. Eu prometo que irei respeitar essas condições.

E então, de uma vez, o sorriso de Kastor morreu, sua feição se tornou uma descontente, e institivamente Robert compreendeu que havia feito merda.

Tentou saltar para trás numa tentativa de se afastar, mas Kastor havia apertado com força sua mão – a única forma de se afastar com a força daquele aperto lhe segurando seria se cortasse seu próprio braço. Tentou entrar nas sombras para escapar, mas como que se previsse isso Kastor não perdeu tempo em mover sua outra mão, segurando Robert pelo pescoço e erguendo-o bem acima do chão como se ele não fosse nada. Os dedos dele eram quentes, tão quentes que parecia até que eles estavam queimando sua pele, e quando tentou se debater e olhou para eles Robert viu que o que lhe segurava no ar não era a mão de Kastor, mas sim a garra azul do que parecia ser um dragão de forma humanoide, poderosa e repleta de escamas, com unhas grossas e longas que poderiam facilmente rasgar uma pessoa ao meio caso ele quisesse. Ah, merda! O que foi que eu fiz dessa vez?!

– ...tira... – as sílabas vieram dos lábios de Kastor como que em um sussurro, Robert mal sendo capaz de ouvi-las. Da posição em que estava, a franja espetada de Kastor fazia uma sombra que cobria os olhos do cavaleiro, mas apesar de não ver seus olhos Robert conseguia dizer que alguma coisa estava mudando nele, simplesmente pela tonalidade diferente que sua voz havia assumido. – Você acha que sou estúpido, Robert? Hm? Você realmente pensou que você conseguiria me enganar assim tão facilmente?

– O... quê? – Um sorriso amarelo, nervoso e trêmulo, surgiu no rosto de Robert ao ouvir aquelas palavras, à medida que o mercenário se dava conta do que exatamente havia feito para despertar toda aquela fúria. Mas como é que esse idiota pode ter se dado conta de que eu estava enganando ele? Ele é um otário, pelo amor dos Deuses! Eu engano pessoas dez vezes mais espertas do que ele diariamente! – E-Ei, Kastor, se acalma. Eu não sei o que te deu essa ideia, mas eu não estava te enganan-

NÃO MINTA PARA MIM, MORTAL! – O susto que Robert sofreu foi quase que o suficiente para que seu coração parasse de bater instantaneamente. De uma única a voz de Kastor mudou, tornando-se muito mais grossa, alta e até um tanto quanto etérea, soando como se uma multidão de pessoas estivesse falando em sincronia cada vez que ele dizia uma palavra. Apesar de que isso não era nem de longe o pior. O que realmente assustou Robert foram os olhos de Kastor; ao dizer aquilo o cavaleiro ergueu seu rosto, e quando pôde vê-lo Robert viu que os olhos de Kastor haviam sido consumidos por um azul intenso, um azul que parecia queimar dentro deles, como se fosse uma grande chama aprisionada dentro do cavaleiro. – O DONO DESSE CORPO, KASTOR, CRIOU UMA PARCERIA COMIGO, CRIATURINHA ESTÚPIDA! UMA PARCERIA, UM PACTO, UM CONTRATO DE CAMARADAGEM. COMO MINHA PARTE NESSE CONTRATO, EU FORNEÇO A ELE O MEU PODER, AS MINHAS HABILIDADES. E ENTRE AS MINHAS VÁRIAS HABILIDADES, UMA DAS QUE ESTÁ SEMPRE DISPONÍVEL PARA ELE É O OLFATO. NÃO UM OLFATO INÚTIL COMO O QUE A SUA RAÇA TEM, MAS UM OLFATO DE VERDADE, A CAPACIDADE DE DISTINGUIR CHEIROS DO QUE É FÍSICO E DO QUE NÃO É, A CAPACIDADE DE INDENTIFICAR A PODRIDÃO. MEDO, INVEJA, GANÂNCIA... EU CONSIGO SENTIR O CHEIRO DE TODAS ESSAS COISAS E IDENTIFICAR CADA UMA DELAS. E, CLARAMENTE, EU TAMBÉM CONSIGO SENTIR O CHEIRO DAS SUAS MENTIRAS, VERME. ELE É QUASE TÃO INSUPORTÁVEL QUANTO O DA SUA ALMA PODRE E MINÚSCULA!

Não estava entendendo absolutamente nada do que estava acontecendo ali, mas não precisava entender tudo para saber que estava em grande perigo ali. Maldição, maldição! Isso não é bom, nada bom! Tentava se debater desesperadamente, mas Kastor lhe segurava com firmeza e força sobre-humanas, muito mais do que o que o próprio Robert tinha a sua disposição. Olhou ao redor para ver se havia algo ali que podia usar ao seu favor, mas não só não encontrou nada como também se lembrou por isso que estava cercado pelos membros do grupo de Kastor. Merda, merda, MERDA!

– Sabe... eu estava disposto a poupá-lo – tão rápido quanto ela havia mudado para aquele tom quase que demoníaco, a voz de Kastor retornou ao normal. Quando olhou de novo para ele Robert viu que os olhos do garoto haviam retornado ao normal também, embora ele mantivesse uma certa agressividade que era mais do que perigosa neles enquanto encarava Robert. – Se você me mostrasse que você tinha algo de bom no seu coração, eu iria alegremente te poupar e me certificar de que você pudesse deixar essa cidade em paz. Tudo que você precisava era ao menos considerar as condições que eu estabeleci. Mas, obviamente, isso não aconteceu. Você não tem interesse algum em mudar o seu caminho, não é, Robert? – A boca de Kastor se abriu e ele bufou por ela, mas ao invés de ar, o que saiu da sua garganta foi nada menos do que chamas; estranhas chamas azuis com uma aparência estranhamente fantasmagórica, chamas que definitivamente não pareciam ser nada desse mundo. – Muito bem então. Se é assim, então você terá o destino que merece.

Sem lhe dar tempo para que dissesse qualquer coisa em resposta a isso, Kastor arremessou Robert ao ar, deixando-o cair em queda livre. Mais do que rapidamente o mercenário se focou em ajeitar-se de alguma forma em meio ao ar para que conseguisse controlar ao menos um pouco a sua queda. Há... Hahahahahaha! Eu tenho sorte, tanta sorte! Seu oponente certamente parecia ser bem poderoso, mas por mais poderoso que ele pudesse ser, ele era um grande tolo. Essa é minha chance! Minha grande chance! Contanto que conseguisse chegar até o chão, poderia entrar dentro das sombras, e uma vez ali ele teria pelo menos uma chance de escapar. Eu vou ter que tomar cuidado com essa mulher, Kyanna. Ela demonstrou capacidades o suficiente para poder me tirar das sombras. Mas não tem problema. Só preciso tomar cuidado com ela e a liberdade será minha! Só precisava evitar aquela mulher, e poderia escapar dali para nunca mais ver os rostos feios daqueles perdedores!

Mas foi então que algo chamou sua atenção. Ao longe, com o canto do olho, viu um brilho azul – um brilho que parecia, de alguma forma, ao mesmo tempo fraco e intenso. Sem que se desse conta do porquê, sua atenção foi atraída a ele... e qual não foi sua surpresa quando viu que esse brilho azul não era nada menos do que Kastor Strauss com a boca aberta e o que parecia ser uma esfera azulada de pura energia e chamas azuis brilhando no meio dela. No momento em que viu aquilo, Robert lembrou-se de algo:

“Bom, eu aprendi a disparar rajadas de chamas-fantasmas superconcentradas a uma intensidade capaz de derreter praticamente qualquer coisa nesse mundo imediatamente graças ao seu calor que ainda contam com a capacidade de explodir em uma explosão azulada poderosa o suficiente para apagar toda uma vila do mapa em um único instante”.

Uma gota de suor frio escorreu por seu rosto. Ah não... ah, NÃO! NÃO!

O disparo veio em questão de instantes. Tentou se mover, tentou sair da área de alcance dele, mas simplesmente não conseguiu. Por mais que tentasse, por mais que se esforçasse, a velocidade do disparo azulado de Kastor era absurda, e sua área de alcance era simplesmente grande demais. Instintivamente cruzou os braços a frente de seu corpo, como que se preparando para um impacto, mas já sabia bem que isso não seria nem de longe o suficiente. Lágrimas escorreram de seus olhos, movidas por puro temor e completo desespero. NÃO, NÃO, NÃO! CLEMÊNCIA, POR FAVOR! MISERICÓRDIA!

Mas já era tarde demais, e Robert já havia perdido sua chance. O disparo lhe acertou em cheio, e envolvido pelas chamas e a energia de Kastor, o corpo do que um dia foi o líder do S.O.M.B.R.A. foi desintegrado sem deixar rastros.

=====

Seus olhos correram pela área destruída, procurando por algo em meio aos escombros. Aonde está? Droga, aonde é que eu a deixei? Antes de voltar a investir e retornar a batalha, Hadvar havia se dado ao trabalho de esconder Neshka em algum lugar em que ela ficaria razoavelmente segura. Prevendo que poderiam sofrer uma possível derrota ali, ele havia se antecipado e tomado o cuidado de colocar Neshka em meio aos escombros de forma que ela fosse ocultada por eles – algo não muito difícil, considerando o tamanho da maga. Isso deveria servir para evitar que eles a achassem caso fossemos derrotados, uma espécie de último mecanismo de defesa para ela. É irônico que isso agora esteja dificultando as coisas para mim. Irônico, e irritante. E o pior era que não podia se dar ao luxo de ficar desperdiçando seu tempo; os oponentes que estava enfrentando antes haviam lhe deixado fugir, mas nada lhe garantia que os outros iriam fazer o mesmo. Se o Salão vencer, os mercenários e cavaleiros dele provavelmente irão querer a minha cabeça. Se Robert e Flavent vencerem, eles provavelmente irão querer a minha cabeça. Estou correndo contra o relógio aqui; tenho que ir embora antes que seja tarde demais e que um desses tenha a chance de me encontrar... e só para melhorar a situação, eu não acho o raio da garota! Aquilo era ótimo. Simplesmente ótimo!

– Ei, se você está procurando por Neshka, devo dizer que eu movi ela um pouco de lugar. Escondê-la foi uma boa ideia, meu chapa, mas um pedaço de escombro estava quase caindo sobre a cabeça dela. Não me parece uma boa coisa, despertar ao ser esmagado.

Ouvir aquela voz fez com que todos os movimentos de Hadvar parassem de imediato, seu corpo se tornando tenso, suor frio escorrendo por ele quase que imediatamente. Essa voz... não é possível.... Naquela situação, qualquer tipo de voz seria o bastante para lhe deixar tenso já que qualquer um significava problemas para ele, mas aquela voz em particular... ela pertencia a um homem que Hadvar conhecia, um homem com o qual ele até tinha uma certa amizade..., mas também um homem deveria estar morto pelo que sabia. Seu rosto moveu-se lentamente na direção da qual aquela voz veio, e quando viu o que estava ali, seus olhos se arregalaram completamente.

– Ei, ei, qual o problema, Had? – Para um homem morto, Zaniark Grimmweather falava de forma bem-humorada e divertida. Um dos largos sorrisos tradicionais do mercenário que chamavam de “Raio Dourado” brilhava em seu rosto, suas ações sendo tão expansivas e amigáveis como Hadvar se lembrava. Seus cabelos dourados ainda brilhavam com a mesma vida que ele exibia antes, e seus olhos vermelhos pareciam ter ganhado até mais força e intensidade no tempo em que não havia tido contado com ele. – Você parece estar vendo um monte de fantasmas agora!

Um ruído de escárnio veio da garganta de outro homem ao ouvir aquilo. Enquanto Zaniark estava sentado de pernas abertas em cima de alguns pedaços quebrados de concreto, um dos homens que o acompanhavam havia decidido por apoiar suas costas no pouco que havia restado de uma das paredes do que um dia havia sido uma casa, uma das poucas coisas que haviam permanecido de pé naquela área depois das batalhas que haviam acontecido no Salão... batalhas nas quais ele havia participado.

– Esse cara está fugindo da batalha – resmungou Harclay Steelex, um mercenário que Hadvar já conhecia, alguém que aparentemente estava sendo visado para se tornar um dos novos membros do Olho Vermelho de Balak. – Não deveríamos estar conversando com ele. Deveríamos estar cortando sua cabeça.

Imediatamente os olhos de Zaniark caíram sobre ele, irritados. Esse pequeno gesto foi o suficiente para que soubesse que ao menos o Raio Dourado permanecia como seu amigo, o que certamente era algo bom. Principalmente se eles decidirem me matar.

– Calma, Harclay. Antes de tomarmos qualquer decisão, temos que primeiro nos conscientizar das circunstâncias que causaram tal ato – murmurou outro zumbi, outra pessoa que Hadvar conhecia mas que supostamente deveria estar morta. Com a sua calma de sempre, Byron Cromwell afastou o cachimbo e soprou a fumaça que havia reunido em sua boca. Sem pressa ele virou seu rosto em direção a Hadvar, algo que deu força a teoria particular do Terror Celeste de que as faixas que cobriam seus olhos tinham algum outro uso secreto. Ele certamente não é cego. – E então, Hadvar? – Perguntou ele, recolocando seu cachimbo nos lábios enquanto falava. – Você se importa em nos explicar exatamente o porquê de estar fugindo?



Notas finais do capítulo

FATOS INTERESSANTES:

*Originalmente eu planejava fazer esse capítulo bem mais longo. Eu planejava mostrar totalmente essa última cena, desenvolvê-la por completo, e planejava ainda mostrar uma outra cena depois dela. Mas conforme fui fazendo o capítulo eu vi que ele ficou muito grande, e por isso decidi separar as coisas.

*Originalmente o meu plano era de reintroduzir Zaniark e Byron apenas no confronto final contra o Olho Vermelho, em Pandemonium. Isso dito, eu imaginei que as coisas ficariam muito "jogadas" se esses personagem apenas retornassem ali, e por isso decidi reintroduzi-los aqui.

*Parte do meu plano original era o de envelhecer as personagens femininas da Era Dourada um pouco mais com esse treinamento. Elas possuem, em sua maioria, na faixa de 15-16 anos, e a minha intenção era a de deixá-las consideravelmente mais velhas depois disso para justificar o aumento da força delas como o fim do seu desenvolvimento. Entretanto, isso faria com que eu tivesse de adiantar o corpo de todo mundo em alguns anos, e seria bem over se esse treinamento fizesse algo assim, então eu reduzi o período para três meses.

*O meu plano original na reintrodução era fazer com que Hozar aparecesse já tentando matar Robert, usando de suas habilidades para criar um Cerberus flamejante (como ele fez na luta contra Dwyn), para que então Shell surgisse, congelando esse Cerberus com um gesto e mandando-o ter calma. Essa cena foi descartada já que a considerei inconsistente com a personalidade dele, e a "tarefa" de atacar Robert foi passada para Duke.



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