O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 41
O Inquisidor


Notas iniciais do capítulo

26 mil palavras...

26. Malditas. Mil. Palavras!

Cara, meus dedos pedem demissão.



SEU ÚNICO OLHO FITAVA O CAFÉ ESCURO EM SUAS MÃOS, suas feições carrancudas de uma forma que não era nada normal para ele. Que sensação é essa?, pensou Odin Wynthers consigo mesmo, tentando decifrar seus sentimentos de alguma forma. Há um dia e meio estava sentindo aquela sensação estranha, como se fosse um mau presságio, uma premonição de que alguma coisa ruim estava acontecendo, ou prestes a acontecer. Mas o quê? E por quê? Será que alguma coisa aconteceu com Kastor ou Hozar durante as missões deles? A espera estava lhe deixando angustiado. Sabia que não podia ficar assim – havia sido dele a ideia de que os três grupos se reunissem novamente naquela estalagem antes de seguirem juntos para o Salão Cinzento afim de discutirem suas descobertas com maior privacidade e viajarem com maior segurança, e não havia passado tanto tempo assim para justificar que pensasse que alguma coisa havia acontecido com eles, mas mesmo assim... com as sensações que estava tendo, tinha medo disso, muito medo. Será que eu fiz algum erro? Eu deixei que eles escolhessem seus próprios grupos já que estavam mais acostumados com seus companheiros, mas talvez eu devesse ter tomado as rédeas e usado a minha experiência para formar um grupo melhor. Talvez eu devesse ter enviado alguns dos meus mercenários com eles. Talvez eu... merda, o que foi que eu fiz?

Foi enquanto estava pensando nisso que ouviu o som de portas se abrindo, e isso fez com que seu rosto se erguesse imediatamente para ver o que passava por elas. Havia feito isso múltiplas vezes no tempo que passou naquela estalagem, sempre ansioso pela chegada de seus estudantes, sempre pensando que quem quer que estivesse chegando podia ser eles agora.

Dessa vez ele estava certo nesses pensamentos.

Hozar liderava seu grupo com imponência e uma forte presença, sua cabeça erguida e seus olhos sérios. Ele faz um bom líder, pensou Odin consigo mesmo, sorrindo abertamente ao ver um de seus filhos voltar são a salvo. É uma pena que ele tenha um pavio curto e não seja o mais carismático dos homens. Se ele tivesse características como essas, ele seria o líder perfeito. Apesar de que, supunha que era exatamente isso que fazia com que Kastor e Hozar fossem uma dupla tão boa. Nenhum dos dois é perfeito individualmente, mas ninguém no mundo é perfeito, de qualquer forma. E apesar de suas imperfeições, os dois conseguem usar sua amizade e companheirismo para compensar por suas falhas. Kastor é carismático e mais emotivo – ele atrai as pessoas, tem facilidade em fazer amigos e consegue fazer com que completos estranhos gostem facilmente dele. Ele não possui a seriedade ou a postura de um líder, entretanto, mas é aí que entra Hozar. Hozar é menos emotivo e tem uma maior dificuldade em atrair pessoas, mas ele é muito bom nas áreas em que Kastor peca, assim como o inverso. Nenhum deles é perfeito sozinho, mas juntos eles alcançam essa perfeição como líderes.

Assim que abriu as portas, os olhos de Hozar imediatamente correram pelo ambiente, não demorando nem um segundo para pairarem sobre Odin. Assim que o viu, Royes não perdeu tempo em ir para ter com ele, caminhando a passos largos, apressados. Havia ficado mais relaxado assim que o viu, mas agora que via a forma como ele se portava, não conseguia deixar de sentir-se ficando um pouco mais nervoso de novo. Aconteceu alguma coisa. Ele está nervoso, consigo ver isso. Mas o que lhe deixou nervoso?

Ainda estava pensando se poderia ser esse o caso quando viu outra pessoa passar pela porta. Hozar havia sido seguido prontamente por Duke e Teigra – o que não era de se estranhar já que esses haviam sido aqueles selecionados para acompanhar-lhe em sua missão – mas o que realmente surpreendia era a quarta pessoa que seguia com eles, atrás dos outros três, mas ainda perto o bastante para ser associada ao grupo. Uma bela mulher de cabelos negros e pele branca, vestindo roupas largas, sorrindo enquanto parecia divertir-se jogando uma moeda para cima e para baixo, verificando a todo momento se ela dava cara ou coroa. Eu não me lembro dessa mulher. Será que esses dois possuem outros agentes que trabalham fora de Valhala? Ou ela é alguma mercenária que ele contratou para lhe ajudar? Pela forma como ela agia e se portava, supunha que era a segunda opção. Bom, não importa. Vou descobrir isso agora.

– Hozar. Bom te ver de novo – murmurou Odin, acenando levemente com sua cabeça para seu filho enquanto falava. Logo em seguida moveu seus olhos para a mulher que lhe acompanhava, fazendo com que o olhar do cinzento seguisse o seu. – Arranjou uma namorada?

Almejava irritar um pouco Hozar com aquilo ou deixa-lo um pouco encabulado, apenas para descontrair um pouco, relaxar um pouco o ambiente, mas nem isso conseguiu. Hozar fez uma pequena careta ao ouvir aquilo, mas nada demais, e ela não durou muito. Surpreendentemente, a reação mais interessante não veio dele, mas sim de sua companheira. Os olhos da jovem estavam pelo ambiente antes, mas as palavras de Odin chamaram sua atenção, fazendo com que ela apanhasse a moeda no ar e focasse-se nele. Por alguns momentos ela pareceu um pouco confusa, como se estivesse tentando compreender quem ele era, até que subitamente ela pareceu entender isso, e imediatamente seu rosto se abriu em um largo sorriso.

– Ah! Você deve ser o que chamam de Odin, hm? – disse ela de forma energética, dobrando parcialmente seu corpo. Em uma situação normal, fazer isso seria visto como educado e respeitoso, mas a forma animada e o fato de que ela obviamente não levava isso tão a sério quanto outros fazia com que isso parecesse até mesmo desrespeitoso, meio que uma zombaria. Muitos se sentiriam ofendidos por algo assim, mas ele sabia que ela provavelmente não intencionava mal algum com aquilo, e por isso não se importou. – Prazer em lhe conhecer, Cavaleiro Negro. Meu nome é Blair, Blair White. Fui contratada por seu amigo, Soulcairn, para ajudar você... ou aliados seus.

– Isso é secundário, não importa agora! – interrompeu Hozar, estalando a língua de forma impaciente enquanto falava. Isso surpreendeu Odin mais ainda. Hozar... interrompendo uma conversa minha? Isso realmente não é característico dele. O que quer que tivesse acontecido, isso devia ser bem sério para deixar o cinzento tão agitado assim. – Odin, nós precisamos agir rápido! Kastor já chegou?

– Kastor? Não. – a cada segundo que passava ficava mais e mais intrigado com o que deveria ser aquilo. Eu pensei que era algo relacionado a Kastor, mas se Hozar está falando dele assim, isso quer dizer que eu estava enganado... ou talvez ele tenha me perguntado sobre ele exatamente para ver se o azul estava seguro. – O que aconteceu, Hozar? Isso envolve Kastor de alguma forma?

– O que tem eu? – questionou subitamente uma nova voz, mais jovial do que as dos dois outros homens, embora não tão animada quanto ela normalmente soava.

Os olhos de todos moveram-se simultaneamente na direção das portas uma vez mais, bem ao tempo de vê-las sendo abertas por Kastor Strauss... e a visão que teve assustou Odin, assustou-o muito. O que aconteceu?! O que raios aconteceu?! Lembrava-se de Kastor, lembrava-se bem de como o cavaleiro azul era alegre e ativo, sempre fazendo alguma coisa, sempre com um sorriso no rosto. Quando havia se reunido com ele e Hozar na sede da guilda deles em Valhala, havia visto o cavaleiro se irritar depois de lhe dar as notícias sobre Lancelot e Titânia, mas mesmo um Kastor irritado não se comparava ao que via agora. O sorriso havia desaparecido completamente do rosto do azul sem deixar traços de sua existência, e isso – somado aos traços mais duros que ele parecia ter agora – faziam com que seu rosto parecesse estar preso em uma eterna carranca. Olheiras negras haviam surgido ao redor de seus olhos, deixando claro que ele não havia tido uma boa noite de sono por pelo menos os últimos dias. A própria postura do cavaleiro em si entregava isso; a forma como ele parecia menos energético, como sua cabeça estava meio que afundada entre seus ombros, como estes estavam mais baixos. Ele parecia cansado, exausto, derrotado.

Não demorou a compreender o porquê disso.

Atrás de Kastor, vieram outras pessoas. A primeira delas foi um homem – algo que por si só já era curioso, já que Odin se lembrava bem que Kastor havia partido apenas na companhia de mulheres –, e o Cavaleiro Negro só fez ficar ainda mais surpreso quando viu exatamente quem era esse homem. O que ele está fazendo aqui?! Ele não pertencia a sua jurisdição nem nunca havia lhe dado algum tipo de problema no passado, mas Ex Glace do Colégio Branco era conhecido, famoso por ser um dos seis magos mais poderosos que constituam as forças de elite do Colégio. O que um mago do nível dele está fazendo aqui? Por que alguém como ele acompanha Kastor? Não entendia isso, mas não se focou nisso também... principalmente não quando as companheiras de Kastor começaram a entrar também, uma após a outra, sendo que a uma delas – a arqueira ruiva – faltava um dos braços.

Levantou-se imediatamente ao ver aquilo, seu coração pesado. Merda. Merda, merda! Eu sabia que eu havia feito algo errado, eu sabia! Não devia ter confiado no julgamento de Kastor, devia ter interferido nas escolhas dele e enviado mais algumas pessoas para ajuda-lo, ou talvez simplesmente misturar um pouco os times de forma a deixá-los mais eficazes. Kastor está longe de ser alguém incompetente, mas ele não é um especialista em liderança, nem tão pouco tem a experiência necessária nesse tipo de coisa. Ele não estava preparado para fazer escolhas tão importantes como essas, mas eu deixei que ele o fizesse, e uma de suas companheiras perdeu o braço por isso. Compreendia como ele deveria se sentir com aquilo – havia se sentido o pior homem do mundo quando cometeu seu primeiro erro que custou algo a um subordinado seu – e queria com todas as suas forças consolar seu filho... mas não teve a chance de fazer isso antes que a situação piorasse ainda mais.

Quando havia entrado junto de Hozar, o rosto de Duke Graham da Era Dourada não estava necessariamente solene ou sério – pra ser sincero, o Titã parecia mais entediado do que tudo, pela sua postura e modo de agir. Quando ele ouviu o som da voz de Kastor e as portas se abrindo, um sorriso surgiu em seu rosto de imediato e ele voltou-se prontamente na direção de seu líder, aparentemente feliz por ter uma chance de falar com ele de novo. Esse sorriso coalhou quando seus olhos caíram sobre a expressão no rosto do azul, fazendo com que uma de suas sobrancelhas se erguesse levemente em confusão, para que logo em seguida todo o seu rosto se transformasse em fúria pura quando seus olhos flagraram o que havia acontecido com Anabeth. Ele se moveu tão rápido que nem mesmo Odin pode fazer algo para impedi-lo; num piscar de olhos ele havia cruzado a distância que os separava, e com sua mão direita ele facilmente erguia o corpo de Kastor no ar pelo pescoço, seus dedos apertados ao redor desse com tanta força que parecia que a qualquer momento ele poderia perfurar a carne abrir a garganta do azul.

– Seu miserável azulado... – resmungou ele, sua voz saindo como a de uma besta, com fúria perceptível em cada palavra. Seus olhos caíram novamente sobre Anabeth, como se para conferir que não havia se enganado, e ao rever o coto dela ele balançou Kastor com brutalidade, irado. – Ei, Kastor! Por que Anabeth está sem um braço, seu pedaço de merda? Você estava com ela, não estava? Você é o líder dela, não é? Que tipo de líder de merda deixa uma de suas subordinadas perder a porra dum braço diante dos seus olhos?!

Kastor não deu resposta a isso. Seus olhos e seu rosto continuavam sérios, sem demonstrar nenhuma alteração perante as ações de Duke, como se elas não tivessem acontecido. Foram as pessoas que estavam com ele que se manifestaram; Kyanna se moveu para a direita deles, tentando afastar os dois com suas pequenas mãos sem ter muito sucesso nisso, enquanto Anabeth tentava ajuda-la fazendo o mesmo da esquerda. Bryen, por sua vez, mantinha-se um pouco mais distante, a direita dos dois. A expressão da ruiva estava sombria, seus olhos focados em Duke, demonstrando seriedade e irritação, sua mão direita apalpando a empunhadura de sua espada, pronta para sacá-la a qualquer momento. Opa, isso não é nada, nada bom. Kyanna e Anabeth pareciam querer resolver aquilo de forma pacífica, acalmar os ânimos para evitar uma luta entre companheiros, mas Bryen por sua vez parecia pronta para resolver aquilo através da força bruta, preparada para lançar um ataque contra Duke assim que isso se provasse necessário.

– Duke, o que você pensa que está fazendo?! – censurou Anabeth, rangendo os dentes, parecendo tão irritada pelo que estava acontecendo quanto pelo fato de que aquilo havia sido causado pelo seu estado. – Eu não sou uma criança, não preciso que Kastor fique tomando conta de mim. Meu braço foi perdido devido ao meu descuido, por minha culpa. Você está sendo estúpido em ficar revoltado assim!

– E mais importante que isso, vocês simplesmente não deveriam brigar! – exclamou Kyanna, a voz da garota soando agoniada. Desde que havia pousado os olhos sobre ela, Odin imediatamente compreendeu que ela era a mais gentil e bondosa das mulheres no grupo de seu pupilo, a mais... “feminina” delas, por assim dizer. Não era difícil ver o porquê dela estar tão afetada assim por aquilo. – Vamos lá, Duke! Você e Kastor são companheiros, não são? Amigos! Vocês não deveriam lutar! Eu entendo como você deve se sentir, Duke, eu sei que você deve estar frustrado, mas por favor, por favor... pare com isso!

As palavras da maga pareceram afetar Duke de alguma forma. Por um instante a postura do Titã vacilou um pouco, seu aperto sobre Kastor relaxou de forma quase imperceptível, e mesmo de onde estava conseguiu ver que Duke havia hesitado por um momento. Mas infelizmente, por apenas um momento. Não demorou para que a dúvida que Kyanna havia colocado nele fosse empurrada para longe pela fúria do mago-guerreiro, e prontamente ele voltou a apertar sua mão ao redor do pescoço do cavaleiro azul com tanta força quanto antes, ou talvez até mais.

– Eu sinto muito, Kyanna, mas eu não posso simplesmente ignorar essa merda! – grunhiu o Titã, chacoalhando novamente Kastor. – Esse idiota é o nosso líder! Ele fundou nossa guilda, ele reuniu pessoalmente cada um de nós! Essas batalhas, todos esses problemas que estamos tendo, estão relacionados a ele, são problemas dele! Como seus subordinados, é nosso dever ajuda-lo no que ele precisa, e nós todos fazemos isso; nenhum de nós reclamou ou manifestou nenhum tipo de má vontade nisso, mas ao mesmo tempo em que um subordinado tem o dever de prestar suporte ao seu líder, o líder também tem o dever de zelar pelo bem de seus subordinados! E ainda assim esse miserável me aparece ileso, sem nem um único arranhão, enquanto um de nós perdeu o raio do braço! Eu não posso simplesmente aceitar algo assim!

Estaria mentindo se dissesse que não compreendia a fúria de Duke. Eu... eu já vi fúrias como essa na vida. Várias e várias vezes. Esse tipo de reação era o que Odin via nos olhos de vários cavaleiros quando saia em alguma missão junto de um grupo e voltava ileso enquanto os que lhe acompanhavam traziam ferimentos. E da mesma forma, esse era o tipo de reação que ele tinha quando jovem, quando via os grandes cavaleiros do Salão retornarem ilesos de uma missão, enquanto os que haviam lhes acompanhado voltavam feridos, por vezes até mortos. Essa raiva é algo natural, parte do ser humano... mas não é algo correto. Depois que havia se tornado um líder, Duke havia compreendido o que exatamente acontecia em relação a isso; quando alguém via um líder voltar ileso enquanto seus companheiros traziam ferimentos, a impressão que essa pessoa tinha era que o líder havia usado seus companheiros como peças de xadrez, que ele havia os colocado de frente para o perigo enquanto se retirava e observava-os fazer seu trabalho, que havia usado seus aliados – aqueles que ele deveria proteger – como escudos... mas na maioria das vezes, não era isso que se passava. Existiam “líderes” que eram assim no mundo, “líderes” estúpidos e covardes, mas a grande maioria dos líderes se esforçava para proteger seus subordinados. Muitas vezes, nossos subordinados não são apenas nossos subordinados. Eles são nossa família, nossos pupilos, nossos amigos. Nós não queremos que eles sofram, queremos protege-los com todas as forças, zelar por eles. Mas isso simplesmente não é possível. Salvo algumas raras exceções, o líder era quase que invariavelmente mais forte que seus subordinados, e essa era a questão principal que fazia com que ele voltasse ileso enquanto os que lhe acompanhavam colecionavam novas cicatrizes depois de cada batalha. Um inimigo que pode enfrentar o subordinado de um líder de igual pra igual – ou até em uma certa condição de superioridade – muitas vezes não é forte o bastante para fazer nada ao líder em questão. Isso, no entanto, não significa que o líder pode proteger seu subordinado dele. Quando no campo, as coisas rapidamente se tornam caóticas – você não tem o tempo ou a oportunidade para ficar se focando no que está acontecendo com cada subordinado seu, quanto menos para protege-lo de cada perigo que vier em sua direção. É por isso que os líderes geralmente selecionam assim tão bem os seus subordinados. Eles não podem ficar tomando conta deles, e por isso eles escolhem como companheiros apenas aqueles que eles sabem que podem cuidar de si mesmos.

Mais uma vez Duke chacoalhou Kastor, resmungando entre dentes qualquer coisa sobre exigir uma resposta, e mais uma vez Kastor não demonstrou reação. Olhando para ele, parecia a Odin que o cavaleiro não tinha forças... não, que ele não queria reagir, que ele não tinha vontade o suficiente para reagir. Parece que Kastor acha que ele merece isso. Se fosse realmente esse o caso, então a situação estava rapidamente indo de mal a pior. Um dos piores tipos de líder é o que fica absorto demais em seus erros para seguir em frente. Preso nas sombras de seu fracasso, esse líder não prossegue, não cresce. Ele só vai se destruindo, bem como destrói tudo ao seu redor.

Antes que a situação entre Kastor e Duke pudesse piorar ainda mais, alguém finalmente tomou ação para separar os dois. A mão direita de Hozar fechou-se com força ao redor do ombro de Duke, e o mago só teve um instante para senti-la ali antes de ser jogado para trás com força. Pelo que havia visto e pelo que havia ouvido, Odin sabia que Duke era alguém de alto nível – provavelmente um dos membros mais poderosos da guilda de Kastor – mas por mais forte que ele pudesse ser, Hozar era famoso por sua força bruta, e Odin atrevia-se a dizer que ele era alguém comparável a Kastor, mesmo com todas as habilidades que Coração Azul concedia ao cavaleiro. O corpo de Duke foi arremessado no ar por alguns bons metros antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, mas a reação do Titã foi rápida: a feição de surpresa e confusão em seu rosto foi rapidamente substituída por seriedade, e sem perder tempo em forçou seu corpo para baixo ainda no ar, aterrissando brutalmente no chão, cravando de imediato sua mão de aço no solo para firmar-se ali. Seus olhos se ergueram para fitar Hozar, a fúria que ele antes sentia sobre Kastor sendo agora redirecionada para o cinzento. Em resposta a isso, tudo que Hozar fez foi encarar seu companheiro silenciosamente de forma sério, movendo seu corpo de forma a ficar à frente de Kastor como se fosse uma muralha de pedra. Ele não pretende ceder, compreendeu Odin, alternando olhares ao seu discípulo e ao Titã. Se Duke tentar avançar contra Kastor de novo, Hozar e ele irão lutar. Se a situação chegasse a esse ponto, teria de intrometer-se. Até agora havia deixado que eles resolvessem aquilo entre si, mas se as coisas começassem a piorar ainda mais, então teria de ajeitá-las o melhor que podia da sua maneira.

– O que você pensa que está fazendo, Hozar? – questionou Duke, sua voz surpreendentemente baixa, o que apenas fez com que ela soasse ainda mais ameaçadora, como o rosnado de um animal selvagem, um aviso do perigo próximo. – Você não pode estar realmente satisfeito com isso, não é? Um de nós perdeu o braço enquanto sobre o comando desse idiota! Isso pode significar várias porcarias, desde negligência até pura incompetência! Você não espera que eu apenas dê de ombros e fale “eh, tenho certeza que ele fez seu melhor” ou coisa do tipo, né?!

– O que eu penso disso é irrelevante. O que você pensa disso é irrelevante. O relevante no momento é o que você está fazendo, e o quão errado isso é – retrucou friamente Hozar. Uma veia nervosa surgiu na testa de Duke ao ouvir isso, mas o cavaleiro não se afetou. Lentamente ele ergueu uma de suas mãos, apontando com seu dedo indicador revestido de aço para o Titã. – Você antes falou sobre os deveres de um líder e de seus subordinados, censurando Kastor por faltar com o dele. Mas você está faltando com o seu nesse exato momento. Diga-me Duke, em que mundo ameaçar e humilhar publicamente seu líder em resposta a um suposto erro dele é a resposta correta? Dois erros não fazem um acerto. Você aceitou trabalhar sob Kastor, você tomou esse homem como líder. Você deve a ele respeito, mesmo quando expõe alguma reclamação.

– Eu devo-lhe respeito? O miserável deixou que Anabeth perdesse seu maldito braço! – esbravejou Duke em frustração.

– Ficar irritado vai trazer o braço dela de volta? – questionou Hozar, inclinando sua cabeça para o lado. – A própria Anabeth não está irritada com Kastor pelo que ele fez, Duke. Entendo a sua irritação e seus sentimentos, mas você está exagerando demais em sua reação. O que você faz aqui não ajuda ninguém com nada, e apenas envergonha você, seu líder e seus companheiros. Controle-se. Você é melhor do que isso.

Duke rangeu os dentes, irritado. Por um momento Odin pensou que ele iria avançar contra Hozar, e já estava preparado para reagir e impedi-los caso as coisas chegassem a esse ponto, mas isso provou-se desnecessário. Era óbvio que Duke não estava satisfeito com aquilo, claro como o dia que ele ainda estava tremendamente irritado, mas apesar disso o Titã fechou os olhos e respirou fundo. Viu-o fazer isso uma, duas, três vezes, antes que ele finalmente voltasse a abrir os olhos. Quando levantou-se depois disso, Duke já parecia bem mais calmo, embora nada satisfeito. Sem emanar mais hostilidade nenhuma, tudo o que ele fez foi cruzar os braços. Impressionante. Estou orgulhoso, Hozar. O Cavaleiro Cinzento nunca havia sido conhecido por ter um jeito com as pessoas – era sério demais, bruto demais e tinha um humor muito seco para fazer amizade com as pessoas, o que era em parte um dos motivos pelo qual ele era tão próximo de Kastor – mas o que ele havia feito agora demonstrava uma quantia surpreendente de tato e bom-senso em relações sociais. Além disso, é importante manter em mente que Duke ouviu o que ele tinha a dizer, e apesar de não estar satisfeito com isso, ele acatou seus desejos. Isso é algo muito importante, principalmente considerando que quem fez isso é alguém que parece tão indomável quanto Duke. Duvidava que isso significava que Duke havia sido “domesticado” por alguém, mas isso certamente indicava que o Titã tinha um certo grau de respeito por Hozar e pela palavra dele, o que já era impressionante o bastante.

Uma vez que aquilo foi resolvido, Hozar acenou com a cabeça de olhos fechados, satisfeito... e então, subitamente e sem aviso, ele moveu-se bruscamente, girando em torno de si mesmo com velocidade, seu punho erguido e fechado. Atingiu um soco em cheio com força brutal bem no meio da cara de Kastor, os olhos do azul praticamente saltando para fora de suas órbitas em surpresa um momento antes do punho colidir. O golpe foi tão forte que a onda de impacto que ele gerou foi poderosa o suficiente para explodir as janelas, copos e garrafas de bebida espalhadas por toda a estalagem, e a pressão exercida por Hozar era tão absurda que o cinzento afundou um pouco no chão ao desferir aquele golpe. Um grande estalo ressoou pela estalagem, e um instante depois o corpo de Kastor foi lançado pelos ares, abrindo um grande rombo aonde antes ficava a porta de entrada da estalagem e sendo jogado voando para trás, girando em meio ao ar, tamanha a força com a qual havia sido atingido. Ele foi apenas atingir o chão depois de ter voado por uns dez metros, e assim que isso aconteceu Hozar começou a caminhar em direção a ele sem dizer nada, seus olhos fixos sobre a figura de seu amigo, sangue ainda pingando de seu punho. Todos – sem exceção nenhuma – estavam surpresos com aquilo, fitando Hozar de olhos arregalados, sem poder acreditar no que viam, mas mesmo assim foram rápidos em segui-lo quando ele começou a se afastar, curiosos por ver o que iria acontecer agora.

– Ei, ei, ei! Pera um pouco aí, porra! – gritou Duke, esbaforido, correndo para o lado de fora atrás de Hozar enquanto o Deus da Fúria avançava silenciosamente contra Kastor, que estava agora ocupado em levantar-se do chão enquanto simultaneamente tentava ajustar sua mandíbula com uma das mãos. – Ei, Hozar, que raios tu pensa que ‘tá fazendo maluco? Você não acabou de me chamar a atenção por estar irritado com Kastor? Por que tu logo em seguida resolve bater nele?

Você não pode bater em Kastor por várias razões, incluindo entre elas o fato de você ser um subordinado dele e o fato de que você quer bater nele como forma de extravasar sua fúria, o que não gera nada de bom para nenhum de nós – disse Hozar, seu tom de voz completamente calmo apesar das suas ações e do fato de que ele estava chegando cada vez mais próximo de Kastor a medida que falava. – O mesmo não vale pra mim, entretanto. Eu não sou um subordinado de Kastor, mas sim um sócio dele, um dos líderes da guilda com os mesmo direitos e poderes que ele, e eu não estou fazendo isso para dar vazão a minha raiva ou coisa do tipo. – o cavaleiro cinzento parou diante de Kastor, e o azul ergueu seu rosto para fitar o seu amigo nesse momento. A figura de Hozar se erguia colossal sobre ele, sua sombra cobrindo-o por completo; parado daquela forma enquanto estava uma mão na outra como fazia, Hozar parecia mais do que apenas um pouco intimidador. – Eu estou disciplinando esse idiota.

Pelo que pode ver do rosto de Kastor daquela distância, o cavaleiro azul não parecia entender o que Hozar queria dizer com aquilo. Não podia culpa-lo por isso; havia criado Hozar e se tornado uma das pessoas mais importantes da vida do cinzento – um dos que melhor conhecia Hozar no mundo – mas nem mesmo ele entendia aonde Hozar queria chegar com tudo aquilo.

Mas essa dúvida também não durou muito.

– Por quanto tempo mais você planeja continuar a agir assim, Kastor? Quando é que você pretende assumir suas responsabilidades e começar a agir como o líder que você é? – uma das sobrancelhas de Kastor se ergueu ao ouvir aquilo, sem entender, mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa Hozar lhe interrompeu, sua voz tão forte quanto um trovão. – Diga-me, você acha que o que aconteceu agora há pouco foi sem razão? Acha que isso foi algo imprevisível, desmotivado? Não! O que aconteceu agora foi algo que está para acontecer a muito tempo, algo provocado por você, por suas ações! Kastor, você juntou essas pessoas e formou essa guilda, mas você não leva nada a sério! Raios, sou eu quem tem que lidar com a maior parte das questões políticas e jurídicas da guilda, tanto porque você não sabe fazer isso quanto porque você não tem vontade de fazê-lo! Você formou essa guilda e se colocou como líder dela, mas você tem pouco interesse na liderança em si. Isso faz com que você seja irresponsável, faz com que você se torne relapso e relaxado, e isso é algo simplesmente inaceitável. Quando você pretende assumir suas responsabilidades? Quando um de nós morrer?

Qualquer argumento que Kastor estivesse preparado para apresentar foi quebrado de imediato naquele momento perante as palavras de Hozar. O cavaleiro azul tinha erguido sua cabeça para falar com seu amigo antes, mas depois daquilo ele prontamente voltou a abaixá-la, claramente envergonhado e pensativo quanto ao que Hozar havia dito. O cinzento, por sua vez, suspirou, como se tivesse retirado um enorme peso dos ombros com aquilo. Uma de suas mãos foi para seu bolso, fuçando ali por um tempo para retirar um maço de cigarros. Colocou um nos lábios, e usando sua habilidade acendeu-o. Tragou profundamente do cigarro, depois retirou-o da boca com o pai-de-todos e o indicador da sua mão direita, e só então tornou a falar.

– Eu não tenho nada quanto a sua forma bobona e hiperativa e ser, Kastor. Ela não é realmente ruim. Se você gosta disso, continue a ser bobão, hiperativo e alegre. Isso até que é bom, dependendo de como você olhe para isso. Mas ser bobão e ser irresponsável são coisas muito diferentes. Você formou esse grupo, você juntou essas pessoas, você assumiu a liderança. Sendo assim, você tem deveres que você tem de cumprir. Sinta-se livre para continuar com seu modo alegre de ser, mas a partir de agora você vai começar a agir como um líder, você vai começar a aceitar sua responsabilidade.

Kastor apenas fez acenar com a cabeça em acordo a isso, ainda cabisbaixo. Isso pareceu ser o suficiente para seu amigo. Hozar tornou a colocar o cigarro nos lábios, e logo em seguida estendeu sua mão direita para seu velho amigo. Mesmo cabisbaixo como ele estava, conseguiu ver o sorriso que surgiu no rosto de Kastor; sem pensar duas vezes ele apertou a mão do outro, e com a ajuda de Hozar, tornou a se erguer. Odin fitou tudo aquilo em silêncio, seus braços cruzados, um sorriso em seu rosto e orgulho em seu coração. Esses dois cresceram. E amadureceram muito. Tinha sempre muito orgulho de ambos, dos homens que eles se tornaram, do que conquistaram com suas mãos. Eram em momentos como esse que era lembrado do porquê disso.

Mas apesar do que sentia, ainda havia algo ali que lhe incomodava.

– Hozar – chamou ele, e seu filho adotivo virou-se prontamente, fitando Odin de forma expectante. – Antes, quando você chegou, você estava prestes a me dizer alguma coisa, mas então Kastor chegou e você nunca terminou realmente seu pensamento. O que era?

Ao ouvir aquelas palavras os olhos de Hozar se arregalaram, como se só então ele tivesse se lembrado de algo importante. O cigarro escorreu de seus lábios e caiu ao chão, e ele rapidamente virou-se completamente em direção a Odin, sério. Aproximou-se alguns passos de forma rápida e então começou a falar.

– Verdade, eu estava me esquecendo disso... Odin, nós precisamos voltar ao Salão Cinzento o mais rápido quanto possível. Se minhas informações estão certas, o Sa-

ESPEREM AÍ, TODOS VOCÊS! – trovejou subitamente uma voz velha e feminina de dentro da estalagem aonde estavam momentos atrás. Ouviu passos atrás de si, muitos passos, e pelo simples número deles já conseguia ter uma ideia do que ia acontecer. Ah, mexilhões, pensou Odin, suspirando.

Meio a contragosto ele se virou na direção da voz, e o que viu não foi nada que lhe surpreendeu. A dona da estalagem na qual estavam era uma velha pequena e franzina que mais parecia um anão do que tudo, minúscula como era e ainda andando sempre de forma muito curvada, como se seus ossos fossem todos se quebrar caso endireitasse a postura. Para qualquer um que olhasse para ela normalmente, ela pareceria uma velha completamente indefesa que não representava perigo para ninguém, mas Odin sabia o suficiente para não deixar que aquela ilusão lhe enganasse. Aquela velha era a única pessoa que possuía uma estalagem naquela área, e tinha um bom motivo para isso. Os sulistas dificilmente viajavam para as Terras Velhas, e por boas razões; além do ar mais pesado que aquela terra tinha devido as características adquiridas com as batalhas que haviam sido travadas ali no passado, existia também o fato de que a influência das grandes nações do mundo não chegava até ali. Norte e Sul eram governados por nortenhos e sulistas, mas as Terras Velhas estavam entre esses dois pontos, dividindo-os sem pertencer a nenhum deles. As únicas organizações que exerciam influência naquela área eram o Salão Cinzento e o Colégio Branco, mas mesmo a influência desses era limitada, menor do que o necessário. Muitas áreas – principalmente em partes que serviam de fronteira entre as terras velhas com o norte ou com o sul – estavam simplesmente fora da esfera de influência dessas organizações também, e por isso elas eram “campos livres”, áreas habitadas e “governadas” por bandidos e criminosos dos mais diferentes tipos, bem como por remanescentes de bestas e monstros de muito tempo atrás. A estalagem na qual estavam agora se encontrava na parte sul das Terras Velhas, nessa fronteira, e isso fazia com que ela estivesse em um local muito perigoso. Não havia mais lugar nenhum na estrada por um bom tempo além daquilo, todos os que tentavam se firmar sendo prontamente expulsos por ataques de bestas ou bandidos.

“Mas se esse é um local tão perigoso, então como essa velha conseguiu fundar seu negócio aqui?”, era o que alguém poderia perguntar diante daquilo. A resposta estava bem diante dos olhos de Odin naquele momento. Quando estava na estalagem, reparou que várias mesas estavam ocupadas por homens e mulheres de porte marrento, musculosos, armados com aço e couro, cheio de cicatrizes e marcas de uma vida dura. Inicialmente havia imaginado que aqueles eram outros viajantes que faziam a travessia de forma cuidadosa e que estes seriam os que sustentavam a velha naquela terra dura, mas pela forma como eles se erguiam atrás dela agora, como se fossem um exército particular aos seus serviços, começava a acreditar que estava bem enganado na sua assunção.

– Você, velho cavaleiro – chamou a velha de forma severa, como se estivesse repreendendo um garoto desobediente, encarando Odin enquanto falava. Por que todas as velhas me tratam como se eu tivesse cinco anos? Eu sou um homem adulto, raios! – Você achou mesmo que poderia vir até a minha estalagem, ficar tanto tempo nela quanto ficou, comer da minha comida, beber da minha bebida, ter seus amigos começando uma briga nela, quebrar parte da minha propriedade... e sair daqui assim?!

No momento em que a velha disse aquilo, como se fosse combinado, todos os que haviam se reunido em apoio a ela agiram; com movimentos rápidos alguns deles sacaram navalhas, canivetes e adagas das suas roupas, enquanto outros retiraram verdadeiras armas que traziam em seus cinturões, como espadas curtas e machados de uma mão. Todos seguraram firmemente essas armas com ambas as suas mãos e encararam firmemente Odin e seu grupo, parecendo prontos para uma briga a qualquer momento. Ah, droga, não, isso não é bom. Não queria encrenca; sabia que era mais do que poderoso o bastante para derrotar o exército particular daquela velha sem muitas dificuldades se quisesse, mas isso não seria vantajoso de forma alguma. Essa é a única estalagem na fronteira com o sul. Se eu derrotar esse pessoal todo, a velha pode facilmente decidir que esse lugar é perigoso demais para manter seus negócios aqui e resolver ir embora, e isso não só prejudicaria todos os viajantes como também iria ser uma grande mancha negra sobre o Salão Cinzento.

– Err... não, não, claro que não – respondeu Odin, abanando rapidamente suas mãos em um gesto pacificador a frente de seu corpo, mostrando um sorriso amarelo para a velha enquanto ria sem graça quase que consigo mesmo. – Desculpe por tudo isso, senhora. As coisas... err... elas saíram um pouco do controle, sabe? As pessoas se exaltaram, ânimos se elevaram, a senhora entende, não entende? Isso dito, eu obviamente não espero sair daqui sem lhe recompensar por seus serviços e paciência de alguma forma. Diga-me uma quantia que acha justa, senhora, e eu lhe pagarei conforme desejar. Ouro e prata não são coisas que me faltam.

Esperava tranquilizar um pouco a velha com aquilo, mas seu efeito foi justamente o contrário. Ao invés de parecer satisfeita pela promessa de recompensa de Odin, a velha pareceu mais ficar de alguma forma ofendida com tudo aquilo. Ela segurava em suas mãos uma pequena bengala que usava para ajudar-lhe a se locomover, e não hesitou em bater com força aquela bengala no chão ao ouvir as palavras do cavaleiro, fazendo com que Odin se surpreendesse e engolisse em seco.

NÃO! – a mera força da palavra não foi o suficiente para colocar medo no velho cavaleiro. A velha a disse de forma calma (embora severa) sem aumentar muito seu tom de voz, mas da forma como Odin sentiu a palavra, ela podia muito bem estar rugindo aquilo na frente dele como se fosse um grande animal selvagem. – Você acha que pode me pagar por tudo isso com dinheiro? Que... que... insultante! Isso é definitivamente, completamente, absolutamente insultante! Como ousa me insultar tanto assim?!

– Mama não precisa do dinheiro de vocês, cavaleiros de mer-

Quem havia começado a dizer aquilo era um dos vários homens que havia se reunido em apoio a velha, dando passos ameaçadores para frente enquanto dizia aquelas palavras ao mesmo tempo em que cuspia como um porco babão, mas essa postura dele não durou muito. Enquanto ele falava, os olhos da velha arregalaram-se de uma vez, e com uma rapidez fora do sério ela moveu sua bengala, golpeando o joelho do homem com a ponta dela, fazendo com que ele interrompesse imediatamente sua fala a fim de liberar gemidos de dor enquanto segurava a perna atingida e pulava de forma desajeitada para longe dali.

– Robert! O que foi que eu já lhe disse? Sem palavrões! Eu criei bons homens e mulheres, indivíduos exemplares da sociedade, e indivíduos exemplares da sociedade não dizem palavrões, caralho! Pare com isso, do contrário serei forçada a puxar essa sua língua pra fora dessa sua boca babona e lavá-la com água e sabão, seu filho da puta! – censurou a velha, aparentemente tão severa com seus filhos quanto estava sendo com Odin.

– Mas... eu sou seu filho... – murmurou ainda Robert em voz chorosa, apoiado na parede da estalagem enquanto massageava seu joelho em uma tentativa de afastar a dor.

Você quer que eu te acerte de novo, mocinho?! – questionou subitamente a velha, seus olhos parecendo arder em brasas enquanto ela apontava sua bengala de forma ameaçadora para o homem, fazendo com que ele mais do que rápido começasse a balançar veementemente sua cabeça de um lado pro outro, quase que desesperado. Em uma situação normal, estaria rindo à beça de um homem tão velho como aquele que era tão facilmente intimidado por uma pequena velha como aquela, mas sabia que se risse iria ser atingido também, e por isso teve a sabedoria de manter seus lábios bem fechados e seu rosto bem sério.

– Nossa Mama não precisa do seu dinheiro, cavaleiro – disse outro dos homens, aparentemente agradando muito mais a velha com sua escolha de palavras, uma vez que era prontamente começou a acenar positivamente com sua cabeça para cima e para baixo a medida que ia ouvindo o que ele tinha a dizer, tudo isso enquanto mantinha um sorriso satisfeito em seu rosto. – Nossa Mama fatura mais do que o suficiente através do nosso negócio principal. Existem várias bestas nessa região, então nós e a Mama caçamos essas bestas, matamos elas e vendemos sua carne, couro e ossos para mercados do sul. Dinheiro não nós falta. O que Mama quer não é seu dinheiro. É algo mais profundo, algo mais valioso.

– ... Que seria? – estava sendo bem cauteloso ao falar, tanto porque já havia percebido que aquela velha era um tanto quanto sensível a determinada palavras quanto porque, a bem da sinceridade, estava claro como o dia que aquela velha e os que a acompanhavam eram no mínimo pessoas incomuns, e com esse tipo de pessoa era impossível saber o que poderia fazer com que explodissem em uma crise de raiva.

– O que Mama quer... – disse a velha, aparentemente referindo-se a si mesma na terceira pessoa, seus olhos fitando seriamente Odin, toda a sua postura rígida, firme como uma estátua. – É que você lhe agradeça pelos serviços prestados!

Por um longo momento, todos ali ficaram imersos no mais completo silêncio. Isso... não é possível. Ela tem de estar brincando comigo, certo? Sabia que a velha era meio louca – isso não era segredo nenhum – mas mesmo assim, ela não poderia realmente estar querendo apenas algo assim, certo? Isso seria estúpido. Estúpido, estúpido, estúpido além da conta. Não, não, ela não pode estar querendo algo assim. Isso é completamente impossível. Mas mesmo assim... não custava tentar, supunha.

– Muito obrigado por seus serviços! – disse Odin da forma mais convincente que pode, curvando a metade superior de seu corpo em um gesto de agradecimento para a velha, tudo isso enquanto tentava ocultar o que realmente sentia sobre tudo aquilo. Permaneceu curvado por um segundo ou dois antes de tornar a endireitar seu corpo para ver qual seria a reação da mulher... e o que viu não deixou de lhe surpreender.

Aparentemente, nos poucos instantes que ele passou curvado, toda a postura da mulher e dos que lhe acompanhavam havia mudado em 180º graus. Antes ela e os outros pareciam todos ameaçadores, sérios e perigosos como agiotas, fazendo com que Odin sentisse como se eles fossem capazes de lhe rasgar em pedaços caso lhes desagradasse. Agora, no entanto, todos sorriam para ele de orelha a orelha de uma forma extremamente feliz, como se fossem bons amigos do cavaleiro e adorassem sua presença. Lançou um rápido olhar ao redor para ver a reação dos outros, buscando algum tipo de confirmação de que aquilo realmente estava acontecendo, e pelo que viu nos rostos deles, soube que era esse o caso. Bem, é oficial. Essas pessoas são retardadas.

Tornou a virar-se para Hozar, fazendo um esforço pra ignorar os olhares (agora amistosos e amigáveis) da velha e dos outros, bem como os sorrisos alegres que eles traziam nos rostos. A bem da verdade, sua vontade era de virar-se de volta para eles e xingar todos pela angústia que lhe fizeram passar, mas isso não faria nada mais do que satisfazê-lo e traria problemas, então não valia a pena. Então, ao invés disso, decidiu por fazer algo mais útil e que já devia ter feito a algum tempo.

– Então, Hozar... – começou Odin, um pouco encabulado em falar com seu discípulo depois de ter sido intimidado daquela forma por uma velha como aquela diante dos olhos dele. Coçou o lado direito de seu rosto com um dos dedos enquanto falava, seus olhos olhando para o lado, evitarem olhar direto para o rosto de seu filho adotivo. – O que é o problema? Sobre o que você queria falar?

Esperava que, o que quer que fosse isso que Hozar tinha de falar sobre, fosse algo bem sério. Pela forma como Hozar havia tratado esse assunto e a necessidade que ele tinha antes de falar daquilo com Odin, esse era certamente o caso. Porém, apesar de todas as suas expectativas, nada pôde lhe preparar para o que ouviu.

– Sobre isso... bem, me desculpe por ser tão direto, Odin, mas eu realmente não sei como dizer algo assim de forma suave – disse Hozar, o tom apologético e surpreendentemente gentil da sua voz chamando a atenção de Odin, fazendo com que erguesse seu rosto para ele, bem a tempo para que os olhos do cavaleiro olhassem dentro dos seus. – Pelas informações que descobri durante minha missão, estou convencido de que o Olho Vermelho se pôs em movimento. Eles planejavam lançar um ataque contra o Salão Cinzento, Odin. E a essa altura, esse ataque provavelmente já ocorreu.

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Seus olhos se arregalaram quando viu o estado do Salão.

Desde o momento em que Hozar havia falado sobre o suposto ataque que havia sido lançado ao Salão, havia preparado-se para ver destruição. Tinha fé em seu coração que as forças do Salão tinham vencido – era tolice, afinal, imaginar que pessoas como Gwynevere, Ezequiel, Soulcairn, Senjur ou Bokuto podiam ser derrotadas por um grupo como o Olho Vermelho... mas ao mesmo tempo ele sabia que aquela seria uma batalha de grandes proporções, e era muita ingenuidade imaginar que uma batalha desse nível podia terminar sem sérias casualidades para ambos os lados. Por isso ele se preparou, endureceu seu coração e fez com que esperasse por mortes e destruição.

Mas nada naquela proporção.

Quando ainda estavam distantes, a primeira coisa que lhes recebeu foi o Portão do Sul. O que um dia foi um gigantesco e imponente portão, um dos símbolos da glória e da força do Salão Cinzento, agora jazia em ruínas. Uma grande parte de sua estrutura simplesmente não existia mais, deixando a mostra um grande rombo pelo qual as forças inimigas certamente invadiram a cidade. Mesmo nas partes que restavam daquele portão a situação não era nada melhor; enquanto estavam distantes aquelas coisas eram estranhas – pontos pretos distantes no horizonte – mas conforme se aproximavam, podiam ver melhor. Aqueles eram milhares de sacos-prestos, cada um contendo o corpo de um morto, estendendo-se até aonde os olhos podiam ver e ainda mais além.

– Tantos mortos... – as mãos de Kyanna ergueram-se até sua boca, cobrindo-a enquanto a maga fitava aquele mar negro com uma expressão de puro horror no rosto. – Isso é... horrível.

– Ei, ei, isso está certo mesmo? – até Duke parecia incomodado por aquilo, olhando nervosamente ao redor, uma gota de suor frio escorrendo pela lateral de seu rosto. – Esse é o Salão Cinzento, certo? Lar da elite dos guerreiros. O Salão não deveria sofrer tanto dano pelas mãos de ninguém... mas ao mesmo tempo, eu não consigo imaginar que o Olho Vermelho trouxe tantas pessoas assim.

Assentiu com a cabeça de forma quase que imperceptível, concordando com Duke. A bem da verdade, Kastor estava tão surpreso quanto o Titã por aquilo. O que aconteceu aqui? Esses corpos, essa destruição... não me diga que o Salão perdeu? Não, isso não era possível, não podia ser o caso... mas ainda assim... Como Odin está diante de tudo isso? O pensamento cruzou sua mente naquele instante, e ele fez com que Kastor imediatamente virasse seu rosto na direção de seu mestre. A situação não era boa para ele. Odin estava olhando na direção daqueles corpos, mas de uma forma mais do que estranha. Apesar de olhar na sua direção, os olhos de Odin não pareciam fita-los, mas sim olhar através deles. Seus olhos estavam longínquos, distantes, perdidos... mortos. Naquele momento, Odin parecia completa e totalmente miserável.

Sentiu um aperto no coração ao ver aquilo. Droga... droga! Isso é uma bosta, uma grande bosta fedorenta! De início havia ficado tão abismado com o que havia acontecido com o Salão que nem sequer havia se lembrado de Odin, e agora sentia-se um bastardo ingrato por isso. Havia sido afetado pela destruição que via no Salão, afinal de contas aquele era o lugar aonde havia sido criado, o lugar aonde boa parte de seus amigos viviam. No entanto, qualquer dor, choque ou desespero que ele pudesse sentir com aquilo não era nem de longe comparável ao que Odin devia sentir. Kastor conhecia aquele lugar há vinte anos. Odin conhecia-o há, no mínimo, o triplo disso. Para Kastor, o Salão Cinzento era o lugar aonde ele havia passado quase toda a sua vida. Para Odin, o Salão Cinzento era a sua vida. Ele deve estar arrasado com isso... principalmente considerando que ele não estava aqui para proteger o Salão quando ele foi atacado. Olhando para ele infeliz daquele jeito, Kastor sentia vontade de fazer alguma coisa, de consolar seu mestre de alguma... mas simplesmente não tinha ideia do que fazer. Droga, eu nunca fui bom nesse tipo de coisa. Consolar pessoas, fazer com que elas se sintam melhor com alguma palavra delicada ou esperta... eu nunca fui um cara bom nisso.

Mas felizmente para ele, embora Hozar fosse em geral ruim com as pessoas por ser muito grosso e rude, ele sabia o que dizer em situações como aquela.

– Há muitos sacos aqui para que esses sejam corpos de um único lado. Por simples número, eles sugerem que a batalha não foi unilateral – disse Hozar, correndo os olhos por todos aqueles sacos pretos. – Além disso, devemos considerar uma coisa importante: os corpos estão em sacos, e não são poucos mortos. Isso pode parecer algo ruim, mas isso também sugere coisas boas. Eu duvido muito que o Olho Vermelho fosse se preocupar em colocar os mortos em sacos depois de atacar a cidade, o que sugere que isso foi feito por membros do Salão. Em outras palavras, esses sacos confirmam que há uma boa quantia de sobreviventes da batalha.

– Ah, sim, realmente há uma boa quantia de pessoas que sobreviveram – disse subitamente uma voz feminina, irrompendo no ambiente de surpresa, fazendo com que todos olhassem ao redor em busca ela, alguns como Ex e Duke imediatamente assumindo uma posição de batalha, temendo tratar-se de um inimigo. Kastor não fez o mesmo, no entanto. Essa voz... ela me é... familiar. – O Salão não saiu bem dessa, mas acho que o Olho Vermelho também não fez tanto estrago quanto imaginaram. O que, francamente, não me surpreende. Seria uma grande decepção para mim se o Salão fosse destruído assim tão facilmente.

Rostos se ergueram para cima assim que aquelas palavras foram ditos, finalmente compreendendo de onde veio a voz. Isso aconteceu no mesmo momento em que a dona dela aparentemente decidiu agir; viram um ponto peculiar no céu, distante demais para poderem dizer exatamente o que era aquilo, caindo rapidamente em direção ao chão. Apesar da destruição que havia sofrido, a estrutura do portão ainda era tão grande quanto antes, o que fazia com que aquela mulher estivesse caindo de uma altura gigantesca, mas isso não pareceu importar para ela. Chegou ao chão com uma força monstruosa, criando uma cratera no lugar que atingiu, aterrissando de joelhos, apoiada ao chão por um punho fechado. Ela não ficou assim, entretanto; sem nem um único momento de preparação a mulher se ergueu novamente, jogando seu cabelo vermelho e preto para trás com uma gargalhada e um sorriso. Botas de bom couro cobriam os pés dela, enquanto longas calças justas de couro negro deixavam bem delineadas as longas pernas que a mulher possuía. Usava uma camiseta branca leve e colada ao corpo, deixando suas curvas e seios bem delineados, mas pela própria postura daquela mulher parecia que ela se vestia assim não para exibir seus dotes, mas por pura conveniência e vontade. Os olhos dela correram rapidamente pelo grupo até chegarem sobre Kastor; quando fizeram isso, ela abriu um largo sorriso que fez com que a cicatriz em seu rosto se contraísse.

– Ei, garoto! – chamou Ylessa Farcry, bem humorada, acenando para Kastor com uma de suas mãos de forma alegre, ignorando os olhares sérios e inquisidores que os companheiros do azul lançavam a ela. Sem saber exatamente como ele deveria responder a algo assim Kastor ergueu sua mão também, acenando para a mulher de alguma forma, mantendo sempre no rosto uma feição confusa. Mas que diabos? – Haha, eu sabia que ia te encontrar aqui garoto! Sentia isso nos meus ossos, sabe como é. Bom te ver de novo! Me parece que você é um cavaleiro, certo? Isso é excelente! Uma chance de pagar minha dívida ao mesmo tempo em que cumpro meu trabalho, que mais posso pedir?

... Cumpre seu trabalho? As palavras chamaram a atenção de Kastor. Espera um pouco... se ela disse que isso dá a ela a chance de pagar sua dívida e cumprir seu trabalho... isso quer dizer que ela é uma mercenária contratada pelo Salão, algo como Breath e os outros? Aquilo era... surpreendente, pra ser sincero. Isso explica muitas coisas. Se ela é uma mercenária contratada pelo Salão, isso deve ter acontecido há algum tempo. E se foi realmente esse o caso, isso explica o porquê dela ter insistido em não nos ajudar quando a libertamos – ela queria seguir logo para o Salão. Fazia sentido.

– Kastor, quem é essa? – questionou Hozar, os olhos do cinzento afiados de forma desconfiada enquanto ele encarava a mulher, sem abaixar a guarda por nem um momento, mesmo sem que Ylessa demonstrasse hostilidade alguma. Ah, verdade, ele não sabe sobre ela. Haviam se separado em grupos antes para cumprirem cada um uma missão diferente, e isso significava que Hozar não havia se encontrado com Ylessa; considerando a personalidade dele e o que havia acabado de ocorrer, não era surpreendente eu não confiasse na mulher.

– Eu não sei quem é ela... – disse Duke a direita de Kastor, olhando desavergonhadamente direto para os seios de Ylessa, um sorriso bobo em seu rosto. – Mas eu vejo duas grandes razões para dizer que ela é amiga. – disse aquilo e de imediato gargalhou, achando graça de sua própria piada. Kyanna, no entanto, não pareceu achar muita graça disso, e aproveitando-se de que estava bem do lado de Duke a maga não hesitou em pisar com força no pé dele, fazendo com que a gargalhada do Titã fosse interrompida por um grito indigno e que esse começasse a pular em pé só enquanto gemia e praguejava de dor.

– O nome dela é Ylessa Farcry – apontou Odin, praticamente confirmando as suspeitas de Kastor com suas palavras. Agora que ele tinha a mulher em que se focar, o cavaleiro não parecia exatamente tão miserável quanto antes, apesar de que ele também estava muito longe de parecer feliz como ele geralmente era. – Ela é uma mercenária de alto-nível, conhecida como “Besta Rubra”, forte o suficiente para equivaler a uma guilda de qualificação mediana por si só. E pra deixar claro; a guilda de vocês, Kastor e Hozar, é classificada como “mediana” diante aos nossos padrões de medição. Essa mulher é literalmente forte o suficiente para se comparar a vocês sete juntos.

– Espera, eu sou? – normalmente alguém ficaria feliz ao ter sua força elogiada daquela forma, mas olhando para Ylessa, era quase possível acreditar que ela se sentia ofendida por aquilo. Não, não necessariamente ofendida, mas... desapontada. Sim, pelo que o rosto dela exibia, pela forma como ela havia franzido as sobrancelhas, encolhido os ombros e feito um beiço, era possível concluir que ela não estava satisfeita com isso. – Que droga. Eu esperava mais deles. Imaginei que esse garoto era forte, estava quase lhe desafiando pra uma luta.

– É claro que estava – concordou Odin com um aceno de cabeça, não parecendo minimamente surpreso por aquilo. – Eu conheço você, Ylessa. Se você não estivesse ao menos pensando em provoca-los para uma luta, eu estaria seriamente preocupado.

– Ah, sim? – questionou ela, abrindo novamente um largo sorriso em seu rosto ao ouvir isso, uma chama queimando em seus olhos como se a esperança voltasse a arder em sua alma. – Se você sabia que eu iria desafiá-los, abre a possibilidade de que você tenha dito que eles são fracos justamente para que eu não lutasse com eles, Odin. Talvez eu não deva confiar muito em você, hein, bonitão de um-só-olho? – disse a Besta Rubra, apesar da forma como ela jogou a cabeça para trás depois daquilo e gargalhou de forma satisfeita sugeria que ela não acreditava realmente que Odin estava mentindo, ou que ao menos não se importasse honestamente com isso. – Seja franco agora: eles são um desafio pra mim?

– Um desafio? Talvez – concedeu Odin, balançando sua cabeça. – Não posso falar por todos já que não tive a oportunidade de ver todo o grupo de Kastor em ação, mas sou capaz de lhe garantir que Kastor, Hozar e Duke são todos de alto nível, capazes de lhe dar uma boa luta. Permita-me deixar algo claro; o que eu disse antes é que você é mais forte do que os sete juntos, não que eles são fracos. Eles são fortes, mas mesmo assim, em uma luta entre você e os sete, você seria a vitoriosa até onde eu sei.

– Sabe, por algum motivo eu sinto que você está nos subestimando, velhote – comentou Duke, tornando a apoiar seu pé no chão. O rosto do Titã se ergueu de forma lenta e ameaçadora, seus olhos indo direto fitar Odin. – Eu não sei o quão forte essa mulher é, mas você não acha que está nos subestimando demais ao dizer assim que seriamos derrotados por ela?

Tais palavras atraíram a atenção de Odin. O Cavaleiro Negro voltou seu rosto para Duke ao ouvir aquilo, seu único olho fitando o guerreiro de forma séria, neutra, imparcial, sem expressar nada do que passava em sua mente. Um momento tenso se passou, um momento em que todos ali seguraram a respiração enquanto observavam aquilo com uma expectativa crescente, cada um se perguntando exatamente o quê iria acontecer...

E então, sem mais nem menos, Odin voltou novamente seu rosto para Ylessa e continuou a falar com ela como se nada tivesse acontecido.

– Ylessa, tal como vocês podem imaginar, é uma mercenária de alto nível que eu já conheço – disse calmamente o Exército de Um Só Homem, fingindo-se de surdo aos protestos e gritos enfurecidos de Duke que vieram do guerreiro ao seu ignorado daquela forma.

– É bom que conheça mesmo – comentou a mulher, sempre sorridente, jogando o corpo pro lado de forma divertida. – Afinal de contas, você é responsável pela minha cicatriz. Seria um tanto quanto inconsiderado da sua parte se esquecer de mim depois de algo assim.

– Sim, sim – murmurou o cavaleiro sem se focar naquilo, ansioso por fazer seu ponto – continuando, considerando quem Ylessa é e o fato de que conheço ela, não deve lhes surpreender saber que eu a contratei para ajudar na nossa batalha. O que me surpreende aqui, no entanto, é o fato de você estar Ylessa quando a cidade está destruída, Ylessa, bem como o fato de você aparentemente conhecer Kastor.

– Ei, ei, qual é a dessas acusações camufladas? Relaxa, Odin, relaxa; você me conhece! – apesar das suas palavras, a mulher não parecia nada preocupada com as acusações levemente camufladas de Odin, rindo a todo momento, parecendo mais divertida por elas do que tudo. – Bom, deixe-me lhe explicar de forma resumida o que aconteceu: eu aceitei o seu contrato. Depois, um dia enquanto eu estava fazendo meu caminho até o Salão, fui abordada por um mago estranho cujo nome desconheço. Esse mago me fez a proposta de me juntar ao Olho Vermelho, e quando eu a recusei, ele me perguntou se eu havia aceitado um contrato com o Salão Cinzento. Respondi que sim, e então ele me atacou. Eu perdi. Quando acordei de novo eu estava de volta ao sul, aguardando para ser leiloada como uma escrava. Esse garoto que você chama de Kastor me comprou e libertou, e assim que fui libertada eu vim pro Salão tão rápido quanto pude, mas quando cheguei ele já estava destruído assim. – quando a explicação finalmente chegou ao seu fim Ylessa apoiou suas mãos na cintura, inclinou o corpo para frente e olhou para Odin esperando uma resposta, uma de suas sobrancelhas levemente erguida. – Eu acredito que isso explica o porquê de eu estar ilesa desse jeito, assim como explica o porquê de eu conhecer o garoto, hum?

Odin não respondeu a isso. Uma das mãos do cavaleiro ergueu-se até seu queixo, coçando-o levemente enquanto ele parecia perdido em pensamentos. Isso pareceu surpreender um pouco Ylessa, fazendo com que ela recuasse para trás e lançasse um olhar para os outros, questionando silenciosamente o que ele estava fazendo. Talvez o resto do grupo não entendesse, mas Kastor (e certamente Hozar também) sabiam no que Odin estava pensando... e no caso de Kastor em particular, ele sabia a resposta para isso.

– Odin – chamou ele, dando um passo na direção de seu mestre, fazendo com que o olho de Odin movesse-se na sua direção, apesar de que a feição e postura do Cavaleiro Negro não ter mudado. – Eu provavelmente deveria ter dito isso mais cedo, mas com tudo que aconteceu eu esqueci de mencionar essas coisas... informações importantes e cruciais para nós. – aquilo conquistou toda a atenção, não só de seu mestre como de todos que estavam ao seu redor. Sentiu todos os olhos repousarem sobre ele, e não pode deixar de sentir-se um pouco nervoso com isso. Respirou fundo, procurando se acalmar tanto quanto possível, e então começou a falar. – Primeiramente... em minha missão, eu obtive coisas muito importantes para nós. Consegui um mapa que indica a localização da base do Olho Vermelho, algo que aparentemente se trata de uma espécie de fortaleza voadora que eles chamam de “Pandemonium”. Supostamente essa fortaleza é protegida por uma barreira mágica especial que a torna invisível ao olho de qualquer um que não pertença ao Olho Vermelho, mas eu também obtive uma chave dourada em minha missão, e pelo que sei, essa chave seria capaz de “abrir” essa barreira e mostrar Pandemonium ao mundo. E além disso... durante minha missão, eu me encontrei com o líder do Olho Vermelho. Ele se apresentou como o Tecelão do Tempo, mago de elite do Colégio Branco, Balak Hauss.

A reação dos que lhe cercavam ao ouvir isso foi o que esperava. Surpresa, espanto e medo surgiram nos rostos de cada homem e mulher ali, exceto no de Ex – que já sabia disso – e no de Ylessa – que parecia simplesmente não se importar. Logo múrmuros começaram a correr entre o grupo, e por mais que não conseguisse distinguir as palavras sem si para saber exatamente do que eles estavam falando, tinha uma imaginação fértil o suficiente para que conseguisse imaginar o que deveriam estar dizendo. “Balak Hauss, um dos grandes magos do Colégio Branco?”, “O que alguém como ele faz liderando um grupo como o Olho Vermelho?”, “Isso significa que o Colégio Branco é aliado do Olho Vermelho?”, “Olhe pro Kastor, ele é tão másculo com esse queixo dele e tão bonito com esses seus cabelos castanhos e tão forte com esses seus músculos trabalhados, eu amo ele! ” e “Batata, batata, batata, batata, TOMATE!”. Esses são os pensamentos que devem estar passando pela mente deles.

– Balak Hauss, hum? – murmurou Odin em um tom de voz extremamente baixo, fazendo com que suas palavras soassem como pouco mais do que um sussurro, o que só fazia ajudar a fazer com que ele parecesse mais assustador ainda. Odin não fazia esforço nenhum para tentar manter sua raiva escondida, e considerando que ele agora tinha um alvo no qual concentrar toda a raiva e frustração que havia sentido ao ver o estado do Salão, Kastor chegava até mesmo a sentir um pouco de pena de Balak. – Faz sentido... isso realmente faz sentido. Para serem capazes de causar uma destruição tão grande ao Salão Cinzento, o Olho Vermelho precisa ser liderado por alguém tremendamente poderoso. Um dos Seis Tecelões é poderoso o suficiente para liderar uma guilda como essa, principalmente se estamos falando do gênio dentre eles. Além do mais, sendo um mago, Balak se encaixaria como aquele que derroto Ylessa, explicando o porquê de sua derrota. A única questão em aberto importante que isso deixa é a possibilidade do Colégio Branco estar colaborando com o Olho Vermelho, mas eu francamente duvido disso.

– Foi você que me disse uma vez para nunca subestimar uma possibilidade, não é, Odin? Lembro-me bem de suas palavras. “Nunca descarte uma possibilidade com base em tão pouco como ‘ela parece improvável’. É melhor que você se prepare demais e desperdice parte do seu esforço do quê que você se prepare de menos e desperdice a vida de seus seguidores”. – a voz que disse aquilo era uma voz forte, imponente... familiar. Viu o olho de Odin se arregalar ao ouvir aquilo, e o rosto dele virou-se na direção da qual a voz veio juntamente com o de Kastor e dos outros. – Isso dito, você não está errado nisso. O Colégio Branco não está apoiando o Olho Vermelho. Eu vi isso com meus próprios olhos.

A primeira coisa que notou naquele homem foi a falta de um braço; isso era bem perceptível pelo coto que ele tinha até a altura do ombro, tendo este agora enrolado por faixas brancas que balançavam com o vento. Apesar disso, entretanto, a postura dele ainda era tão formidável quanto Kastor lembrava. Soulcairn do Salão Cinzento poderia não ter um braço, mas ele ainda parecia um grande monstro de homem, forte o suficiente para quebrar o pescoço de alguém com uma mão nua. Ao ver seu rival de volta, Soulcairn abriu um curto sorriso, ao mesmo tempo em que o olho de Odin brilhou, suas mãos tremendo, antes que um sorriso satisfeito surgisse no rosto dele também. Depois Soulcairn moveu seus olhos, dando uma olhada em todos que haviam vindo com Odin, observando um pouco melhor Kastor, Teigra e Hozar, mas parando apenas ao chegar a Blair.

– Ah. Blair. Bom te ver de novo – disse ele, colocando a mão que lhe restava em um dos bolsos de sua calça. – Quando Syd chegou, eu lhe perguntei sobre você, mas ele não soube responder muito. Disse que você provavelmente estava viva, mas também disse que vocês haviam se separado durante a batalha, e que por isso ele não sabia ao certo qual era o seu destino. Fico satisfeito em que você continua no mundo dos vivos; alguém com as suas habilidades vai ser bem útil nessa guerra.

– Espera aí, você está dizendo que Syd está vivo? – questionou a mulher, sem se dar ao trabalho de tentar disfarçar sua surpresa, erguendo abertamente uma de suas sobrancelhas. – Isso é... bom, eu acho. Aquele velho nunca tornou a aparecer depois que nos separamos para atacarmos inimigos diferentes, então pensei que ele havia morrido em batalha?

– Syd? Morrer em batalha? Há! – só pela resposta de Soulcairn já havia ficado bem claro o que ele pensava disso. – Syd é provavelmente a última pessoa que morrerá em um campo de batalha. Assim que ele ver que a situação está perigosa demais, ele não hesitará em sair correndo tão rápido quanto suas pernas puderam lhe levar.

– Espere um pouco – interrompeu Hozar, parecendo incrédulo no que havia acabado de ouvir. – Você contratou um covarde para lutar pelo Salão Cinzento.

– Sim, filho de Odin, e contrataria de novo se fosse o caso – retrucou imediatamente Soulcairn, afiando um pouco os olhos e direcionando toda a sua atenção para Hozar ao ouvir aquilo, aparentemente não muito satisfeito em ter sua decisão questionada daquela forma. – Syd é um covarde, mas um covarde esperto. Ele não se sacrifica e foge quando a situação fica muito perigosa, mas isso não o impede de mostrar um bom desempenho no campo, e além do mais, ele é um excelente estrategista. Tem noção do quão importante estrategistas são em uma guerra como essa? Pois se não, creio que vai descobrir isso em breve.

– Soulcairn, o que aconteceu com seu braço? – perguntou apressadamente Kastor. Não estava particularmente curioso pela perda do braço de Soulcairn, considerava óbvio que ele havia o perdido em algum ponto durante a batalha do Salão Cinzento, mas Soulcairn e Hozar não eram necessariamente pessoas que se davam bem um com o outro, e aquela não era uma boa situação para que eles entrassem em conflito.

– Eu o perdi durante a batalha – informou o cavaleiro, fazendo com que Kastor sentisse vontade de bater sua cabeça no chão. Bem, eu imaginava que era exatamente isso que aconteceu, mas você poderia fazer um esforço pra deixar isso um pouco mais dramático, hein? Que forma casual de falar algo assim! – Por falar nisso... Odin, você e os outros deveriam ver uma coisa. Venham comigo.

Ninguém entendeu bem o que Soulcairn quis dizer com isso, mas ele também não ofereceu resposta a ninguém. Simplesmente virou-se e começou a andar em uma direção, fazendo com que os demais não tivessem muitas opções além de segui-lo. Liderados por Soulcairn, o grupo seguiu pelas ruas do Salão Cinzento, o que lhes permitiu ver ainda mais da destruição causada pelo Olho Vermelho... embora Kastor fosse forçado a admitir que pelo menos naquela área a situação não era tão ruim. Ainda haviam sacos pretos em alguns pontos, e era difícil que passassem por alguma casa que não estivesse ao menos parcialmente destruída pela batalha, mas isso era bem menos se comparado ao que haviam visto quando chegaram. Bom. Isso significa que, por mais que o Salão Cinzento tenha sofrido com essa batalha, as coisas não foram tão ruins quanto imaginei de início. Apesar de que, mesmo assim, tinha de manter em consideração que essa era apenas uma das áreas do Salão Cinzento. Além da Área Sul, temos também as Áreas Norte, Leste e Oeste, bem como o próprio Salão em si. Se essa área está tão destruída assim e já tem tantos mortos, eu não quero nem imaginar qual deve ser o estado das outras.

Ficaram assim, vagando pelo Salão Cinzento por um bom tempo antes que finalmente chegassem até o local pra onde Soulcairn queria lhes levar; um prédio maior que antes servia como um armazém que havia por algum motivo saído quase que ileso da batalha, bastante espaçoso. Soulcairn parou em frente a esse e não disse nada; apenas virou brevemente seu rosto para ver se eles estavam realmente lhe seguindo, e em seguida ele abriu a porta e seguiu adiante. Seguiram-no de perto.

Dentro do armazém, o que vieram foram inúmeras macas nas quais as mais diferentes pessoas estavam. Pelo que pode ver de onde estava, algumas delas incluíam pessoas conhecidas e poderosas: Chappa, Dayun, Vaen, Goa, mais ou menos meia dúzia do que pareciam ser mercenários, sem deixar de lado vários cavaleiros menores feridos ali. Sobre outra delas estavam Maoh sem camisa, seu peito enfaixado enquanto o homem-demônio esticava seus braços e pernas para tornar a jogar o sangue pros seus membros. Em outra maca, mais distante, o que parecia ser uma mulher tinha problemas em segurar a figura de alguém que se debatia, tentando sair dali a qualquer custo. Além disso, pelo grande espaço também estavam outras pessoas: sentada em uma cadeira no canto, por exemplo, estava uma jovem de pele levemente dourada pelo sol, cabelos avermelhados e seios moderadamente grandes, uma mulher que qualquer um iria chamar de atraente e sensual em uma situação normal que parecia completamente infeliz ali, fitando uma adaga que segurava entre as mãos de forma desinteressada. Perto de outra maca, aparentemente usando de algum tipo de magia de água para curar alguém, estava um garoto magro de estatura mediana, com cabelos negros meio repicados e uma cicatriz de queimadura que marcava a parte esquerda de seu corpo. Um pouco mais distantes e isolados estavam dois homens conversando entre si, um moreno alto com cabelos pretos-azulados, trajando armadura, enquanto o outro era um homem menor de cabelos um pouco longos, presos em um rabo de cavalo. Do lado da entrada estava outro homem, apoiado na parede: um de pele queimada pelo sol, cabelos pretos muito curtos e uma barba negra cerrada, usando uma faixa na cabeça e trazendo tanto uma lança quanto um escudo às suas costas. Foi esse homem em particular o primeiro a dirigir a palavra, erguendo uma de suas sobrancelhas ao ver a chegada do grupo.

– Opa, chefe! E Blair! Parece que você sobreviveu, hein? Boa garota, boa garota – disse o velho, acenando positivamente com sua cabeça enquanto dizia aquilo. – E pelo visto, parece que os que estávamos esperando também chegaram, hm? Odin, líder do Salão Cinzento... bem como seus discípulos, Kastor e Hozar. Bom conhecer vocês – disse ele, curvando levemente o corpo para frente em sinal de respeito, o que ficou visualmente muito estranho já que ele não se afastou da parede pra fazer isso, mas sabia que o clima em um lugar no qual feridos estavam sendo tratados era sério, e por isso Kastor fez um esforço para segurar o riso.

– Syd – resmungou Soulcairn, olhando em direção ao velho e confirmando a suspeita que Kastor havia tido desde que viu o homem se referir primeiro a Blair. – Qual a situação atual? O que aconteceu enquanto estive fora?

– Hm, nada demais – murmurou Syd, dando de ombros. – A maioria das pessoas estão estáveis, não piores ou melhores do que antes. O que está dando um pouco de trabalho aqui é Bokuto. – moveu seus olhos um pouco ao dizer isso, direcionando-os ao homem que brigava com a outra figura para levantar de sua maca. – O garoto acordou enquanto a tal médica de Ekhart estava cuidando dele, e por algum motivo ele agora decidiu que não precisa de tratamento e está tentando ir embora. Ela está lutando para contê-lo.

– Ele está em condições de sair andando por aí? – perguntou Soulcairn.

– Só se quiser que as feridas abram e ele sangre até a morte – respondeu prontamente Syd.

– Então, por quê você não está ajudando-a a imobilizá-lo? – questionou o cavaleiro, afiando seus olhos ao dizer aquilo e fechando suas mãos em punhos, deixando a ameaça bem clara.

– Err... porque eu confio nas habilidades dela e quero evitar a fadiga? – tentou ainda Syd, embora a própria forma como o homem disse aquilo deixou claro que nem mesmo ele acreditava realmente no que estava dizendo. Quando o olhar de Soul permaneceu sob ele, o velho acabou por afundar sua cabeça entre os ombros, claramente insatisfeito. – Tá, tá... pelos Deuses, eu juro que devia ter cobrado mais por esse trabalho.

Praticamente arrastando seus pés pelo chão, Syd começou a se mover em direção aos dois, mas para a felicidade dele, sua presença ali não foi necessária. Com um empurrão um pouco mais forte, o ferido conseguiu jogar a pessoa que estava tratando dele para trás o suficiente para que os dois ficassem visíveis. Ela – Kastor notou – era uma linda mulher de cabelos cor-do-mel lisos e curtos, meio repicados, cortados de uma forma bem útil e prática, dando a ela uma beleza diferente que era apenas complementada pelos belos olhos azuis que possuía. Infelizmente, uma careta de irritação impedia o rosto dela de reproduzir toda a beleza que ela tinha, mas Kastor conseguia imaginar o quão radiante ela deveria ser quando sorria. Mas em contrapartida...

Bokuto, por outro lado, jazia sentado sobre a cama, uma feição em seu rosto que parecia tão irritada quanto a da mulher, embora Kastor também conseguisse ver frustração nas feições dele. Seu peito estava enfaixado, indicando que ele era um dos feridos do Salão Cinzento durante a batalha – o que era algo bem surpreendente, verdade seja dita, mas ao mesmo tempo algo que não incomodava Kastor tanto quanto o azul sabia que deveria. Não posso dizer que fico necessariamente feliz em ver que um companheiro do Salão Cinzento apanhou, mas francamente, Bokuto precisava mesmo levar uma surra pra aprender algumas coisas. Não era segredo para ninguém que ele e o Ascendente nunca se deram bem; durante a sua estadia e treinamento no Salão Cinzento, foram inúmeras as vezes em que Kastor e Bokuto entraram em atrito devido a personalidade rude, grosseira e marrenta que o Ascendente tinha. Por várias vezes tentou dar uma lição a ele com suas próprias mãos, mas foi derrotado em todas elas, humilhado pela força superior de Bokuto. Não posso dizer que fico feliz em ver um cavaleiro do Salão Cinzento ferido... mas também não posso dizer que saber que Bokuto apanhou não me alegra um pouco.

– Seu maldito, teimoso, homem idiota e estúpido! – esbravejou a mulher, jogando sua cabeça pra trás e urrando em frustração antes de jogar subitamente seu corpo para frente, apoiando-se com ambas na maca em que o cavaleiro estava, encarando-o nos olhos, os rostos deles distantes por pouco mais que um palmo. – Eu já te falei, você não está bom! Eu não vou deixar que um paciente meu saia por aí pra morrer! Deixe de ser cabeça dura e deixe-me te curar!

– Eu não preciso dos seus serviços, mulher! – rosnou Bokuto em resposta. Isso chamou a atenção de Kastor, não por ele ter rosnado (isso era algo bem tradicional dele), mas pelo fato de que o rosto de Bokuto estava vermelho enquanto ele dizia aquilo. Há! Quem diria! O grande cavaleiro Bokuto, temido por muitos e um dos mais formidáveis guerreiros do Salão Cinzento, tímido perante a uma mulher! Supunha que aquilo era apenas natural; com sua personalidade desagradável, Bokuto não deveria ter muita experiência com mulheres, se alguma. Ao contrário de mim. Sendo uma pessoa agradável e carismática como era, Kastor havia tido várias namoradas em seu período no Salão. Nenhum dos relacionamentos durou muito, entretanto, e assumia que a culpa disso era sua; não havia traído nenhuma das suas namoradas, mas mulheres exigiam tempo e atenção, e francamente, Kastor simplesmente não tinha vontade de dedicar nenhum dos dois a elas. Seu foco sempre foi nos treinamentos, nas amizades e nas aventuras, e por isso ele acabava deixando suas namoradas de lado, o que fazia com que elas eventualmente se cansassem do azul e terminassem o relacionamento. Nunca fui bem sucedido com mulheres, mas ei, eu consigo ficar sem corar se uma se aproxima de mim! Isso já me coloca em uma situação melhor do que a sua, Bokuto! – Você acha que eu serei detido por feridas como essas? O Olho Vermelho... esses miseráveis causaram tanta miséria, mataram tantas pessoas! Homens e mulheres que eu conhecia e via diariamente estão mortos agora de forma indigna devido a esses malditos, e você acha que eu ficarei deitado em uma cama enquanto eles ficam rindo do mal que causaram?! Pro inferno com isso! Eu vou matar cada membro do Olho Vermelho, e não tente me impedir disso mulher!

A mulher grunhiu em resposta a isso, um som nada atraente – e portando indigno de uma mulher tão bela. Estava prestes a gritar contra Bokuto de onde estava, chamar a atenção do homem e censurá-lo por irritar tanto assim uma donzela tão formosa, mas não teve tempo nem de abrir sua boca direito antes que a mulher agisse de uma forma... inesperada. Ela lançou-se para frente de forma súbita, surpreendendo todos com aquilo, principalmente Bokuto. Os olhos do cavaleiro se arregalaram até ficarem do tamanho de bolotas quando os dentes da mulher se cravaram em seu pescoço; ela havia o mordido, e com força pelo que o gemido de dor do cavaleiro sugeria – embora Kastor não visse sangue escorrer da mordida. A surpresa não continuou sobre Bokuto por muito tempo, entretanto; logo os olhos dele se afiaram e se dirigiram direto para a mulher, e suas mãos começaram a mover-se para retirá-la a força de cima dele... mas antes que pudesse fazer isso, ele simplesmente pareceu perder toda a força de seu corpo. Suas mãos caíram, seus olhos se fecharam, e guiado pelas mãos da mulher, o corpo de Bokuto foi repousado de volta na cama.

– O que você fez, mulher? – grunhiu Hozar ao ver aquilo, dando um passo ameaçador em direção a mulher, seus punhos fechados, seus dentes serrando uns nos outros. Apesar de Kastor nunca ter se dado bem com Bokuto, este e Hozar eram bons amigos; sabia, por exemplo, que Bokuto havia treinado Hozar um pouco e lhe dado dicas para aperfeiçoar seu estilo, o que provavelmente era um dos motivos pelo qual Hozar havia conseguido obter uma posição maior do que a de Kastor. Não entendia como os dois haviam se tornado amigos tão bons assim, mas isso era mais do que o suficiente para compreendesse o porquê da fúria de Hozar. – Responda!

Lentamente a mulher virou-se na direção do cinzento, e quando ela fez isso, Kastor pode ver que ela havia mudado. Seu rosto – mais especificamente, seus olhos – haviam ganhado um estranho tom reptiliano, fazendo com que parecesse que em certos pontos sua pele era substituída por escamas e dando a mulher em si uma aparência que mais lembrava a de uma cobra. E mantendo-se a esse estilo de cobra, a mulher abriu um pouco a boca, mostrando que seus caninos eram muito mais elevados do que deveriam ser, parecendo mais presas, assim como mostrando que sua língua era surpreendentemente longa e ia se afunilando até terminar em uma ponta bifurcada... e que, de alguma forma, a mulher podia mover tanto a língua quanto a ponta desta como bem quisesse, sem grandes dificuldades. Eeee... devo dizer, isso tira alguns pontos do quesito “atraente” e os move pro quesito “assustadora”.

– O que parece? Eu injetei veneno nele – disse a mulher, apoiando as mãos na cintura enquanto olhava para o cavaleiro cinzento como se estivesse dizendo “que tem você a ver com isso?”. – Veneno paralisante, antes que você comece a rasgar sua calcinha. Não faz sentido que eu mate um paciente para impedir que ele morra, afinal de contas. Eu tentei dialogar com esse cabeça-dura, mas ele não queria ouvir a razão, então tive de recorrer a métodos... diferentes.

– Com “diferentes” presumo que devo assumir “extremos”, não é? – questionou Hozar, franzindo o cenho. A mulher riu ao ouvir isso.

– Se fossem “extremos”, eu teria me enrolado ao redor do corpo dele e quebrado seus olhos com um “abraço” – declarou ela, parecendo achar graça da acusação de Hozar, para logo em seguida voltar a encará-lo seriamente. – Acredite em mim: pelos meus padrões, fui extremamente gentil com esse idiota. Não costumo ser boazinha assim.

As respostas da mulher foram ousadas, e definitivamente não foram do agrado de Hozar. Mesmo a uma certa distância de seu amigo, Kastor podia sentir a raiva nele, a forma como seus músculos estavam tensos, como se ele pudesse disparar contra sua oponente a qualquer momento e acertar um soco direto na cara dela. Odin pareceu notar isso também, e por isso ele se pronunciou.

– Acalme-se, Hozar – disse o velho cavaleiro, olhando para seu discípulo. O mero som da voz de Odin já foi o bastante para fazer com que o cinzento se acalmasse bastante, voltando-se para seu mestre e pai. – Não sinto hostilidade dessa mulher. Não sou ousado o suficiente para dizer que ela é uma aliada, não ainda, mas vejo muitos feridos que necessitam de cuidados... e pelo que parece, ela é a única médica que temos disponível.

– Você está certo quanto a isso – concordou a mulher, acenando com a cabeça. – O Olho Vermelho em geral não se focou muito em atacar os civis, tanto que muitos desses conseguiram escapar vivos, mas eles se certificaram de matar tantos médicos quanto possível... ou qualquer pessoa que tivesse conhecimentos medicinais, pra ser sincera. Eu não diria que estão todos mortos, mas os sobreviventes devem ter fugido para as florestas e montanhas próximas, e eu duvido que estes tenham algum interesse em voltar para o Salão.

– Um momento – interrompeu Teigra, dando um passo a frente também, ficando ao lado de Hozar. – Você está dizendo que você está cuidando de todos os feridos dessa cidade? Não quero subestimar as suas habilidades medicinais, mas mesmo assim... me parece difícil acreditar que uma única pessoa seria capaz de cuidar de toda uma cidade.

– Não há necessidade de se desculpar, Teigra Blacktiger. Você está certa. Em uma situação ordinária, isso seria completamente impossível – a voz que disse aquilo era suave, refinada, educada, calma, amistosa, amigável. Olhos voltaram-se na direção dela no momento em que uma das portas de salas separadas do armazém se abriu. Dessa porta passou um homem de pele escura e cabelos prateados lisos, aparentemente recém-cortados, repicados e um pouco espetados por isso, caindo-lhe sobre as orelhas e suavemente sobre a testa. Ele se vestia em robes arroxeados de fina qualidade que pareciam feitos para ele e para ele apenas, mesclando-se naturalmente a figura dele como se fossem parte de seu corpo. Em sua mão direita ele segurava delicadamente uma taça de vinho tinto, enquanto que com a esquerda ele gesticulava. Seus olhos estavam fechados, mas ele logo os abriu, exibindo ao mundo a cor deles: vermelhos como sangue. Esses olhos fitaram imediatamente Kastor, ignorando todos os demais como se eles não existissem, e logo um fino sorriso se abriu no rosto do homem... e no momento em que olhou nos olhos dele, mesmo à distância, Kastor sentiu imediatamente algo agitar-se em seu interior. Bosta..., pensou o cavaleiro azul, recuando um passo para trás. Eu sabia que não deveria ter comido aqueles cogumelos! – Isso dito, minha médica está bem longe de ser ordinária. Na mitologia, a serpente Orochi possui nove cabeças. Sendo assim, não é de se estranhar que Orochi aqui possa manifestar-se através de nove corpos simultaneamente.

– Orochi? Essa mulher tem o nome da Serpente-Deus da mitologia antiga? – pela voz de Bryen, era claro que ela não colocava muita fé naquilo, mas felizmente ela teve bom senso o suficiente para não questionar isso abertamente. – De qualquer forma, quem é você? O que faz aqui?

Os olhos do homem brilharam ao ouvir aquilo, como se essas fossem exatamente as palavras que ele queria ouvir. Seus joelhos se dobraram imediatamente com uma velocidade e graça que deixava claro que aquela não era a primeira vez que ele fazia algo assim, sua mão livre movendo-se respeitosamente ao seu peito ao mesmo tempo em que sua cabeça se abaixava para completar a reverência.

– Ekhart Grimm é o meu nome – disse ele, erguendo novamente um pouco seu rosto para que pudesse olhar para Bryen. – Ekhart Grimm, mestre da guilda conhecida como “Coração Negro”. E você, eu suponho, deve ser a sobrinha do Rei Callen, hm? Ouvi sobre você, Bryen Hardying.

Não soube como reagir diante daquilo. Foram muitos os pensamentos que passaram por sua mente simultaneamente ao ouvir aquilo. Ele... o que o líder de uma das maiores guildas do mundo está fazendo aqui? Por que ele fica me olhando dessa forma estranha? E o que raios ele quer dizer com isso sobre a Bryen? Moveu seus olhos até a mulher, disposto a pedir-lhe mais informações sobre aquilo, mas a expressão que viu em seu rosto foi o suficiente para que soubesse que essa seria uma péssima ideia. Bryen não dizia nada, mas o rosto da espadachim ruiva havia se transformado em uma máscara de pura fúria. Seus dentes rangiam uns nos outros com uma força assustadora, seus olhos estavam afiados e selvagens, repletos de ódio, e veias nervosas pulsavam por todo o seu rosto. Kastor quase podia sentir a força da fúria dela sobre seu corpo, e não tinha a menor dúvida de que, se irritasse Bryen naquele momento, a reação dela não seria nada boa. Como um líder, eu não devo temer meus subordinados... mas isso não muda o fato de que seria bem estúpido da minha parte insistir nisso nesse momento.

– Soulcairn – a voz de Odin ressoou de forma tão súbita que chegou até mesmo a surpreender Kastor, fazendo com que o cavaleiro e boa parte dos demais presentes se voltassem para ele. – Você disse que tinha que me mostrar algo. Era isso?

– Sim – respondeu o rival de seu mestre, voltando sua atenção para Odin novamente. – Você já teve ter analisado isso a essa hora Odin, mas caso não tenha, deixe-me lhe informar; temos cerca de uma a duas centenas de feridos contidos nesse armazém, espalhados nessa área e em várias outras. Não há civis dentre os feridos, e essa mulher que Ekhart trouxe, a tal de Orochi, está dando orientações aos civis que se voluntariaram para que eles a ajudem a cuidar dos outros.

– Não fale de mim como se eu não estivesse aqui – censurou a mulher, cruzando os braços e olhando para Soulcairn de forma chateada. Ela foi completamente ignorada.

– Além disso, temos mais oito campos de cura como esse espalhados pelo perímetro do Salão Cinzento, coordenados por voluntários e clones dessa mulher. Cada um desses campos deve ter, aproximadamente, a mesma quantia de feridos deste. Esses são todos os sobreviventes. O único cavaleiro do Salão que saiu ileso da batalha foi Senjur... e Titânia, talvez, mas essa escolheu fugir do Salão com seu namoradinho quando a luta começou, então não conto com ela. – pelo desprezo na voz de Soulcairn quando ele falou de Titânia, não era difícil para Kastor compreender que ele estava bem irritado pelo que ela havia feito, apesar de que não parecia disposto a discutir sobre aquilo naquele momento. – Isso significa que temos cerca de novecentos a mil e oitocentos soldados ainda vivos, e só. Perdemos muita gente nessa batalha, incluindo guerreiros de elite. Zephyr, Alexander, Bernaz, Kazegami e outros simplesmente desapareceram por completo, e para efeitos atuais estamos considerando-os como mortos. Além disso, alguns de nossos feridos estão fora de condições de batalha, mesmo depois de se recuperarem; Chappa, por exemplo, perdeu uma de suas pernas, enquanto Dayun perdeu um de seus braços, e Goa... os ferimentos de Goa são tão severos que eu nem sei se ele vai escapar da morte. Os únicos cavaleiros que estão em um estado bom o suficiente para voltarem ao campo de batalha são Enderthorn, Maoh e Valery, além da minha pessoa e Senjur.

– ... Eu estou notando que existem alguns nomes que você não está citando, e não posso deixar de pensar que isso é de propósito – apontou Odin, inclinando um pouco sua cabeça para trás de forma a olhar melhor para seu rival, de forma mais direta. Seu único olho estava obscuro, sério de uma forma quase que mortal, totalmente fora dos padrões de Odin. – O que aconteceu com Ezequiel e Gwynevere, Soulcairn? Diga-me.

O rival do Cavaleiro Negro devolveu o mesmo olhar. Não sabia tanto da história dos dois quanto podia, mas sabia o suficiente para poder dizer que Soulcairn era o mais antigo e melhor dos amigos de Odin, tal como seu rival. Ele era o que melhor conhecia o pai adotivo de Kastor, e pelo que os rumores diziam, era a única pessoa que tinha coragem e disposição o suficiente para se erguer mesmo contra o Cavaleiro Negro quando os pontos de vista de ambos se desentendiam, como aconteceu várias vezes no passado. Aquilo não foi diferente, e mesmo perante a toda a seriedade de Odin, Soulcairn manteve-se firme. Mas mesmo assim o Destruidor de Mundos respondeu a pergunta de seu rival.

– Os corpos deles foram queimados em uma pira funerária anteontem – anunciou seu rival, em uma voz tão calma quanto ele podia usar. – Pensamos em enterrá-los, mas... isso seria impossível. Seus corpos estavam em estados precários demais para que fizéssemos isso. Cremá-los era a única opção viável.

Essa foi a última marretada. Quando havia visto Soulcairn, Odin havia se alegrado um pouco, aparentemente tendo esperanças de que a sobrevivência de seu amigo significasse que outros deviam ter sobrevivido. A partir do momento em que havia visto os feridos, parte dessa alegria foi-se embora, e uma outra parte maior dela se foi também no momento em ouviu a notícia sobre os feridos de Soul. A afirmação de que os outros líderes haviam morrido foi o fim, o suficiente para tirar todo o resto de alegria que Odin podia sentir e fazer com que ele se sentisse extremamente miserável de novo, talvez até mais do que antes. Ele acenou levemente com a cabeça, parecendo distante ao fazer isso, como se sua mente estivesse em outro lugar, e com um suspiro Odin começou a se afastar, gesticulando para que Soulcairn lhe seguisse enquanto caminhava para fora dali. Nenhum dos outros foi chamado por ele, mas estavam todos curiosos e preocupados demais para simplesmente continuarem ali, e por tal todos lhe acompanharam – incluindo o estranho homem dos cabelos prateados.

Quando chegaram do lado de fora, Odin respirou fundo, como que para tentar se acalmar de alguma forma. Depois, com as mãos no bolso e sem se virar, ele falou com seu velho amigo.

– Soul – disse ele, chamando seu rival pelo apelido pela primeira vez desde que haviam se reencontrado, algo muito raro. Isso durou apenas um instante, mas Kastor tinha bons olhos, e por isso ele pode notar a forma como o rosto de Soulcairn se abalou momentaneamente ao ouvir aquilo, para logo em seguida voltar ao normal como se nada tivesse acontecido. – Quando chegamos, Ylessa estava vigiando o Portão do Sul, ou o que sobrou dele. Foi por isso que ela nos recebeu, não foi? Suponho que você é o responsável por isso; com a minha ausência e a morte de Ezequiel e Gwynevere, você seria colocado no comando do Salão devido a sua posição e experiência. Presumo que você também colocou guardas nos outros portões?

– Sim – respondeu prontamente Soulcairn. – O Portão do Norte é o que representa o maior perigo para nós já que temos de vigiar as fronteiras para caso Ember descubra sobre o que aconteceu no Salão de alguma forma e resolva lançar um ataque. Leste e oeste são de menor preocupação já que as duas principais rotas pelas quais nossos inimigos podem surgir são norte e sul, mas de qualquer forma coloquei Valery e Enderthorn neles para não deixarmos pontos-cegos. Para que não fiquemos exaustos demais, estamos sempre revezando entre outros membros do Salão, aliados ou mercenários, mas estou em geral me certificando de que os mais fortes de cada turno fiquem no norte e sul.

– Entendo – murmurou Odin, balançando a cabeça. – Faz bem com isso. O Salão Cinzento... ele ainda está de pé?

– A maior parte, sim – disse Soulcairn, sua feição se modificando ao dizer aquelas palavras, como se a pergunta de Odin tivesse lhe lembrado de algo ruim. – O Salão em si não foi atacado, por isso ele ficou intacto pela maior parte da batalha, mas pelo que eu entendo, uma luta entre Bokuto e um... indivíduo problemático acabou por destruir uma parte do Salão. Ninguém ficou ferido no processo, entretanto, e o que resta ainda é mais do que o suficiente para que consigamos continuar a usá-lo como base de ações.

– Bom – disse Odin, finalmente se virando. As feições do Cavaleiro Negro estavam sérias, duras, mas apesar disso, Kastor podia ver muito bem que aquela era apenas uma frente que ele estava colocando. Ele está fingindo lidar com isso calmamente, mas eu consigo ver que ele está muito incomodado. O Salão é a vida dele, Ezequiel e Gwynevere eram pra ele como irmãos, e os demais... uma vez Odin me disse que eu e Hozar éramos obviamente especiais para ele, mas que a verdade era que cada homem e mulher que podia chamar o Salão de “lar” era como um filho pra ele. – Kastor, Hozar e os outros... sintam-se livres para fazer o que bem quiserem por aí. Soulcairn, vou precisar voltar para o Salão junto de você. Temos muito o que conversar. Vou precisar de todas as informações que você possui sobre nossos inimigos e nossos recursos, para que então possamos trabalhar em um plano para reagir.

– Se vamos planejar, então tem alguém que devemos levar conosco – observou Soulcairn, movendo seu rosto, correndo seus olhos por entre todos aqueles que haviam vindo para fora do armazém com eles. Não demorou muito para que eles se fixassem sobre alguém em especial. – Syd. Venha.

O velho mercenário estava apenas observando tudo aquilo enquanto coçava levemente sua barba antes disso, e ao ouvir seu nome ele de imediato se manifestou, não parecendo particularmente surpreso por aquilo. No entanto, ele não se moveu de imediato.

– Se eu te ajudar – começou ele, em um tom negociador como o de alguém que tentar pechinchar com um comerciante – eu vou ganhar extra?

– Não – respondeu prontamente Soulcairn, sem nem pensar naquilo.

– ... Plano de saúde?

– Não.

– ... Seguro desemprego?

– Não.

– Então, por que raios eu faria isso? – questionou enfim o mercenário.

– Porque se não o fizer, você vai receber a minha bota na sua bunda – esclareceu Soulcairn, encarando firmemente o mercenário.

– Ah. Hm. – mesmo depois de ouvir aquilo, o mercenário ainda parecia estar pensando no que fazer. Seus olhos estavam olhando para cima, indecisos, e seu dedo indicador batia levemente no queixo. Demorou ainda alguns instantes (e Soulcairn começar a perder a paciência e andar em direção a ele) para que ele finalmente tomasse uma decisão. – Muito bem, muito bem, seu argumento foi muito bom meu caro! Em frente, vamos para o planejamento! Com Syd aqui, não há nada a temer dos terríveis detalhes logísticos!

E dizendo aquilo, Syd começou a caminhar alegremente em direção ao Salão Cinzento com passos largos, como se estivesse liderando os outros para lá. Soulcairn emitiu um grunhido de irritação e balançou a cabeça, mas começou a segui-lo logo, e Odin nem disse nada, simplesmente acompanhando os outros dois. Talvez exatamente por isso Kastor não conseguiu tirar os olhos dele enquanto ele se movia. Isso está errado. Muito errado. Por mais que Odin parecesse estar tentando convencê-los do contrário, era claro que seu mestre não estava bem com tudo que havia acontecido. Sentia que não podia simplesmente deixar que ele fosse embora assim, sentia que tinha de falar com ele, dizer alguma coisa, consolar ou alegrar Odin de alguma forma... mas como?

– Pai, espere.

Hozar surpreendeu todos ali com aquelas palavras. Dezenas de pares de olhos caíram sobre o cinzento, curiosos. Não é pra menos, pensou Kastor. Até mesmo eu estou curioso. O cinzento caminhou em direção a Odin com passos fortes, seu corpo ereto, seu rosto sério... apesar de que, em meio a toda a seriedade característica de Hozar, Kastor também podia notar que ele parecia... tenso, por algum motivo. O que ele planeja, afinal? Syd, Soulcairn e Odin, todos viraram-se para o cavaleiro, curiosos por saber o que ele tinha a dizer – Odin mais do que todos, dado o que Kastor conseguia tirar do fato da sobrancelha dele estar claramente erguida.

Essa curiosidade logo se transformou em pura surpresa no momento em que Hozar inesperadamente abriu seus braços e abraçou o velho cavaleiro com força.

– Eu estou aqui por você, pai. Se você precisar. – as palavras de Hozar foram ditas em um sussurro, mas o ambiente havia se tornado tão silencioso com a surpresa que as ações dele causaram que elas foram ouvidas claramente por cada pessoa ali.

O rosto de Odin ficou engraçado perante a isso. De olhos arregalados bem como boca e braços abertos, era claro que que estava abismado por aquilo, sem saber como reagir... e francamente, Kastor compreendia bem o porquê dele estar assim. Hozar... Hozar não é alguém que faz coisas assim. Ele não gosta de expressar seus sentimentos dessa forma, tanto porquê isso não é seu feitio quanto porque ele não é bom nesse tipo de coisa. Para Hozar fazer algo assim... Tinha de admitir, estava bem surpreso pela ação que seu amigo havia tomado, mas logo compreendeu o porquê dela, e isso fez com que um sorriso viesse ao seu rosto. Entendo. Agora eu entendo tudo isso. Hozar, por mais que você tente não parecer, você tem um coração bem mole, meu chapa. Com sua velocidade, Kastor não teve dificuldades em mover-se rapidamente até os dois, e sem hesitação ele juntou ao abraço, abraçando seu amigo com o braço direito e seu pai com o esquerdo.

– Nós somos seus filhos, pai – murmurou o azul, sorrindo. – Da mesma forma que você sempre esteve aqui por nós, nós estamos aqui por você. Nunca se esqueça disso.

Aquilo fez com que Odin ficasse ainda mais confuso e emocionado. Ele tentou falar, mas seus lábios tremeram e as palavras lhe falharam. Por fim, quando ele viu que não ia conseguir falar não importa o quanto tentasse, ele desistiu completamente disso e se concentrou apenas em abraçar os dois com todas as suas forças. Forte como ele era, o aperto de Odin parecia até ser o suficiente para quebrar sua coluna em duas, mas não reclamou: por mais que aquilo doesse um pouco, aquela era... uma dor gostosa, se é que existe isso. Era uma sensação boa, uma sensação de ser amado.

– Os Deuses realmente foram bondosos para mim – murmurou o velho cavaleiro, abraçando seus filhos com força, amor e ternura, como se fossem crianças. Sua voz era claramente emocionada, e seu corpo tremia um pouco, deixando claro que haviam mexido com ele com aquilo... de uma forma positiva, muito positiva. – Eles me agraciaram com dois filhos tão maravilhosos como vocês. Kastor, Hozar... vocês não conseguem nem começar a imaginar o orgulho que tenho de vocês, o quanto vocês me fazem feliz. Vocês são os melhores filhos que um homem poderia ter. É uma honra ser chamado de pai por homens como vocês.

Sorriu ainda mais ao ouvir aquilo, mas ficou em silêncio, apenas curtindo o momento junto de Odin e Hozar. Permaneceram abraçados daquela forma por bastante tempo antes que por fim Odin sinalizasse que tinha de ir. Largaram-no, e ele se afastou dos dois de forma um tanto quanto relutante, mas muito melhor do que antes. Suas feições pareciam mais alegres agora, e o único olho que ele tinha brilhava; lágrimas de emoção queriam escorrer por ele, mas Odin ainda estava diante de outras pessoas, e por isso ele lutou para segurar essas lágrimas. Virou-se rapidamente antes que perdesse o controle de suas emoções, e junto de Syd e Soulcairn, ele começou a sua longa caminhada até o Salão Cinzento. Seus dois filhos observaram-no se afastar até que ele desaparecesse depois de uma curva, e só então Hozar suspirou.

– Bem, isso foi... hum... embaraçoso. – murmurou o grande cavaleiro cinzento, suas bochechas rosadas de vergonha, coçando sua bochecha direita com o indicador, sem graça. Kastor não pode deixar de rir com gosto ao ouvir aquilo.

– Hahaha, eu imagino! – gargalhou ele, dando dois tapinhas nas costas de Hozar, para em seguida passar seu braço pelos ombros de seu amigo. – Eu devo dizer, fiquei bem surpreso pelo que você fez. Você nunca me pareceu gostar de fazer esse tipo de coisa.

– E não gosto. Devo parecer bem ridículo quando faço algo assim – resmungou Hozar. – Mas Odin precisava de consolo e apoio, e ele merece isso e muito mais. Não gosto de fazer esse tipo de coisa, mas não me arrependo de ter feito algo assim agora.

Sorriu novamente ao ouvir aquilo. É, eu sei o que você quer dizer com isso, Hozar. Deu mais um tapinha em seu amigo antes de virar-se novamente para o grupo, e quando o fez pode ver que muitos dos que antes estavam com eles já não estavam mais. Ylessa havia desaparecido – provavelmente tendo retornado seu posto – e o mesmo valia para os mercenários – provavelmente tendo ido fazer... alguma coisa. O único que restava ali além dos membros do seu grupo era o estranho homem de cabelos prateados, justamente a pessoa que mais intrigava Kastor. Acho que já está na hora de fazer alguma coisa quanto a ele, não é?

– Ei, você! – disse o azul, usando de sua velocidade para aproximar-se rapidamente do homem. Surgiu do lado dele quase que instantaneamente, mas ao contrário do que acontecia com a maioria das pessoas, ele não pareceu minimamente surpreso por tal, como se estivesse esperando por algo assim desde o início. – Quem é você?

– Ekhart Grimm – respondeu ele, abrindo um fino sorriso. Um rápido olhar ao redor por parte de Kastor foi o suficiente para revelar que, tal como suspeitava, seu grupo compartilhava as mesmas suspeitas dele; todos, sem exceção, estavam olhando para aquele homem de forma cautelosa, sem ousar abaixar a guarda enquanto próximos dele. – Eu já disse isso antes, não disse?

– Sim, você já disse seu nome – concordou Kastor, olhando seriamente para o que supostamente era o líder do Coração Negro. – Mas eu não perguntei seu nome. Eu perguntei quem você é.

Isso só fez com que o sorriso de Ekhart se alargasse ainda mais, mas mesmo assim ele não manifestou-se para dar alguma resposta ou elaborar alguma coisa quanto àquilo... e isso estava começando a irritar Kastor. Esse cara... ele está realmente mexendo com meus nervos. Em suas mãos, seus dedos se remexiam constantemente, e começava a sentir vontade de simplesmente sacar uma de suas espadas e cortar a cabeça dele. Qual é a dele, afinal de contas?

Subitamente, a cabeça de Ekhart virou-se uma única vez para a direita, e o sorriso em seu rosto alargou-se um pouco mais, até quase tocar suas orelhas.

– Ora, finalmente você chegou, Mefisto. Está atrasado.

Mefisto? Virou seu rosto na direção pra qual esse homem olhava, e então pode ver a pessoa com a qual ele falava. Por uma das ruas do Salão Cinzento seguia um único homem, uma figura de cabelos prateados e terno branco, trazendo aos lábios um cigarro acesso. Sua cabeça inicialmente estava abaixada, mas logo ele tornou a erguê-la para ver o que estava a sua frente, e no momento em que ele fez isso, Kastor pode ver que seus olhos eram vermelhos. Vermelhos como os de Ekhart.

– É, eu sei. Desculpe-me por isso, mestre – murmurou o homem de forma um pouco preguiçosa... para em seguida desaparecer.

Sentiu uma onda de ar passar rapidamente ao seu lado, agitando seu cabelo, e um instante depois um grito feminino ressoou pelo ambiente. Virou-se tão rápido quanto pode, e o que viu fez com que seus olhos se arregalassem.

Em um instante, Mefisto havia cruzado uma distância de mais de vinte metros, passando até mesmo por Kastor sem que o cavaleiro pudesse acompanhar seus movimentos. Agora, naquele mesmo instante, ele estava parado a frente de Duke. Seu braço direito havia sido lançado contra o Titã, e a força e velocidade de seu golpe mostraram-se tão grandes que ele abriu um grande rombo no peito de Duke, cobrindo parte do seu terno de vermelho e fazendo com que sangue respingasse sobre seu rosto. Sua mão emergia pelas costas de Duke, e nela Mefisto segurava algo vermelho, pequeno e pulsante, algo que Kastor não demorou a compreender se tratar do coração de Duke.

– Como um pedido de desculpas, irei acabar com isso bem rápido – sussurrou Mefisto com um sorriso demoníaco coberto de sangue no rosto, fechando sua mão e esmagando o coração de Duke nela.

Avançou de imediato contra ele. Em um único movimento trouxe uma espada de sua dimensão paralela à sua mão direita e saltou contra Mefisto, mas quando o alcançou já era tarde demais – o homem já havia evitado seu ataque. De onde estava, tudo o que teve foi uma visão privilegiada dos últimos momentos de Duke; com um gigantesco buraco no peito e os olhos arregalados, ainda confuso e incrédulo quanto ao que havia acontecido, o Titã colapsou, caindo ao chão enquanto uma poça de sangue formava-se abaixo dele.

O som de movimento chamou sua atenção, e moveu rapidamente o rosto para o lado. No momento em que viu que Mefisto estava agora avançando contra Hozar, desesperou-se. Lançou-se a correr contra ele ao mesmo tempo em que seu amigo erguia um punho para golpear seu oponente... mas era tarde demais.

Ambas as mãos de Mefisto lançaram-se contra Hozar como se fossem projeteis, perfurando facilmente sua armadura e atravessando a carne do cavaleiro. Hozar cuspiu sangue com aquilo, mas Mefisto não havia acabado. Suas mãos haviam abrido uma única ferida larga em Hozar, e foi ela que ele usou; cada uma de suas mãos infiltrou-se tanto quanto pode no corpo de Hozar e segurou um dos lados da ferida, e de uma única vez ele puxou. Com a facilidade com a qual alguém rasga papel, o corpo de Hozar foi rasgado em dois sem que o cinzento pudesse fazer um único movimento em sua própria defesa, seus pedaços sendo jogados para o lado como se fossem lixo enquanto Mefisto sorria, parecendo tremendamente divertido com aquilo.

O corpo de Kastor ficou dormente. Sabia que estava correndo, mas não sentia mais suas pernas. Sabia que segurava uma espada, mas não sentia o peso do aço também. Não sentia nada. Não. Não, não, não. Aquilo não podia estar acontecendo. Não podia compreender algo assim – não podia aceitar algo assim! Não, não, não! Seus amigos... Duke, Hozar... eles haviam sido mortos de forma tão brutal e tão facilmente assim por um homem desconhecido, bem diante dos olhos de Kastor? Aquilo era impossível, completamente impossível. TINHA DE SER IMPOSSÍVEL! NÃO, NÃO, NÃO!

De uma única vez, sua visão mudou. Não viu mais cores, o branco do terno de Mefisto, o cinza da armadura de Hozar, o vermelho do sangue. Não viu mais nada, não. Tudo que viu foi o azul. Um azul diferente do azul do mar ou do céu; um azul brilhante que parecia vivo, um azul reluzente. Energia, compreendeu Kastor. NÃO, EU NÃO ACEITO ISSO! EU NÃO ACEITO!

Nos confins de sua mente, uma gargalhada ressoou. FINALMENTE!, ressoou uma voz que nunca antes soou tão demoníaca.

=====

Cobriu seus olhos com seu braço para proteger sua visão. Maldição... o que raios está acontecendo aqui?! De uma hora pra outra, tudo havia virado um caos completo; aquele homem estranho que Ekhart havia chamado de Mefisto surgiu como se do nada, e com uma facilidade absurda ele matou Duke e Hozar tão rapidamente que ninguém conseguiu fazer anda contra ele. E agora que Hozar havia morrido, alguma coisa havia acontecido com Kastor. O azul foi consumido pelo que parecia ser uma espécie de casulo ou esfera de energia azulada brilhante, tão forte que Bryen sentia que se tentasse olhar diretamente para ela seus olhos iriam derreter. O que está acontecendo com Kastor? Por que esse tal de Mefisto está nos atacando? O que merda está acontecendo aqui?! Não entendia nada, e isso estava lhe deixando cada vez mais irritada.

Subitamente, no entanto, o calor emanado da energia que cercava Kastor desapareceu como se nunca existisse, e mesmo enquanto cobria seus olhos Bryen foi capaz de notar que o brilho havia morrido. Assim que percebeu que isso havia acontecido a espadachim não perdeu tempo em voltar a ver o que acontecia, e fez isso bem a tempo de ver Mefisto sendo atingido em cheio no rosto pelo punho de Kastor, seu corpo sendo arremessado para o lado como se fosse uma boneca de pano, destruindo uma grande seção de prédios arruinados naquela direção com facilidade, quebrando concreto com seu corpo como se ele fosse papelão molhado.

Exceto que... aquele não era Kastor.

Teve a impressão de que se tratava de Kastor em uma primeira instância, mas nem mesmo a própria Bryen pode compreender o porquê disso. Aquela criatura era completamente diferente do cavaleiro azul. Uma espécie de dragão humanoide com mais de dois metros e meio de altura, com seu corpo coberto por escamas de um azul escuro como as profundezas do mar, mas ainda assim reluzentes, refletindo a luz do sol como se fossem dela. Uma longa cauda de cerca de um metro e sessenta de comprimento e trinta centímetros de diâmetro protundia-se da traseira daquele dragão, movendo-se constantemente de forma selvagem, arrancando grandes pedaços de concreto cada vez que se chocava com o chão. Em suas mãos e pés aquele dragão tinha garras que pareciam afiadas como espadas, capazes de dilacerar qualquer coisa em seu caminho, e ao invés de orelhas ele possuía dois buracos que pareciam servir para captar os sons que lhe cercavam. Das costas do dragão se erguiam duas as estranhas, parecendo ao mesmo tempo serem mais uma estrutura óssea do que tudo, com apenas uma fina camada de pele e algumas escamas ligando um osso ao outro das asas... mas ao mesmo tempo parecendo também ser extremamente duras e poderosas, algo que foi demonstrado claramente para Bryen no momento em que o dragão bateu suas asas, gerando uma ventania tão forte que mesmo distante como estava a espadachim sentiu como se pudesse ser jogada pelos ares. Seus olhos eram de um azul puro e brilhante, sem íris ou pupila, parecendo concentrarem apenas pura energia, e ao redor de sua boca e narinas concentravam-se sempre chamas azuis fantasmagóricas, como se essas fossem resultado da sua respiração, mas mesmo através da cortina que essas chamas criavam Bryen conseguia ver os dentes da criatura; milhares de ossos brancos afiados, como se tivessem lhe dado mil navalhas. Essa coisa... ela está no lugar de Kastor. O azul havia sumido completamente dali no momento em que aquele dragão surgiu, e considerando a forma como a besta estava furiosa e a forma enlouquecida como ela agia, Bryen só pode chegar a uma resposta. Essa coisa... isso é... Kastor?!

O corpo daquele dragão se moveu para o lado – na direção na qual Mefisto havia sido arremessado – e de imediato um rugido furioso veio da garganta dele, tão poderoso que o chão abaixo dele literalmente se quebrou devido a mera força da sua voz. Sua boca se abriu imensamente como se fosse a de um crocodilo, e de onde estava Bryen teve uma boa visão do que ocorreu; toda a energia ao redor do dragão – toda a mana presente no ambiente como também a sua própria mana pelo que estava entendendo – estava se concentrando em um só ponto, fluindo na forma de vários feixes azuis em direção a um ponto, formando uma concentração que rapidamente começou a tomar a forma de uma esfera azulada de energia. Não entendeu exatamente o que o dragão pretendia fazer com aquilo – apesar de toda a energia que havia acumulado naquela esfera, ela era incrivelmente pequena, do tamanho de uma laranja – mas essa compreensão chegou até ela bem rapidamente no momento em que toda a energia acumulada foi disparada de uma única vez na forma de uma incrível rajada. O chão, os prédios ao redor, as ruínas, até mesmo o próprio ar... tudo ao redor do disparo de energia do dragão foi completamente obliterado pela força por trás da rajada, sem deixar nem mesmo pó pra trás.

Mas mesmo com todo o poder destrutivo por trás daquele golpe, o dragão falhou em alcançar seu objetivo.

Antes que a rajada de energia pudesse atingir Mefisto, o que parecia ser uma cortina de pura escuridão surgiu diante do homem. A rajada disparada era poderosa o suficiente para reduzir tudo o que tocava ao nada instantaneamente, e grande o suficiente para que suas dimensões fossem facilmente maiores do que qualquer prédio do Salão, mas mesmo assim aquela cortina negra engoliu toda a energia facilmente como se aquilo não fosse nada. A rajada ainda persistiu por algum tempo em uma tentativa de superar aquilo, mas isso foi em vão; eventualmente toda aquela energia chegou ao seu fim, e o brilho azulado que a rajada emitia desapareceu do mundo ao mesmo tempo em que essa se desfez.

Sucesso ou fracasso, uma coisa inegável era que o poder daquela rajada era muito maior do que qualquer coisa que Bryen havia visto antes em sua vida. Por onde ela havia passado restava apenas um rastro de destruição agora, tudo o que havia ficado em seu caminho tendo sido completamente aniquilado. Se aquele ataque tivesse atingido ela, ou Duke, ou qualquer outro membro do grupo, eles teriam sido completamente destruídos por ele. Raios, até mesmo Dwyn – o guerreiro imortal do Olho Vermelho que os atacou durante o Torneio de Valhala – teria sido aniquilado por aquilo; imortalidade servia muito pouco pra alguém que não tinha corpo, afinal. E se isso é realmente Kastor... que tipo de poder ele esconde? Ou uma pergunta melhor... que tipo de poder é capaz de deter algo assim?

– Impressionante... deveras impressionante, Kastor Strauss. – a voz que disse aquilo foi inegavelmente a de Ekhart, o líder do Coração Negro, mas ao mesmo tempo em que Bryen tinha certeza de que era ele o que falava... ela não pode deixar de notar que sua voz soou diferente. O timbre dela, seu tom... parecia que eram múltiplas pessoas falando ao mesmo tempo, e ela também parecia mais grossa, mais profunda, mais rouca... mais... demoníaca. – Esse certamente é o poder do Coração Azul. Vejo que meu irmão não perdeu seu poder durante os anos que se passaram.

Voltou seus olhos na direção daquela voz, e o que viu fez com que seus olhos se arregalassem e que seu corpo tremesse. Diante de Mefisto, servindo como uma espécie de protetor dele, estava um grande demônio negro. Era uma criatura alta, tão grande quanto o dragão, mas enquanto o dragão tinha um porte pesado e musculoso o demônio contava com um porte esguio, até mais refinado. Em seu rosto estava uma espécie de máscara negra que o cobria por completo, por exceção dos olhos que ficavam amostra, duas poças de escuridão que pareciam ser capazes de engolir a alma de quem olhasse dentro deles. Nas laterais de sua cabeça se encontravam dois chifres negros como os de um touro, dando uma aparência como que satânica ao demônio, e de suas costas se estendiam duas asas como as de um morcego, grandes o suficiente para que uma delas individualmente fosse maior do que o corpo de um homem normal e ambas fossem juntas o bastante para envolver todo o corpo do demônio. Por um momento – um único momento – perguntou-se de onde havia vindo aquela criatura... mas então lembrou-se da voz que havia ouvido, e virou rapidamente sua cabeça para o lugar aonde Ekhart antes estava. Quando viu que o homem não estava mais ali, entendeu de imediato o que havia acontecido.

Sua atenção foi chamada novamente pelo som que ouviu, o som de vidro se quebrando ou rachando. Virou de imediato sua cabeça na direção daquele som, apenas para ver que ele vinha de ninguém menos do que o dragão... ou melhor dizendo, de Kastor. Antes a figura dele parecia forte e imponente e viva, mas não podia dizer que o mesmo ainda valia agora. Naquele momento, o dragão estava completamente imóvel, como se tivesse congelado, e suas escamas haviam perdido todo o brilho e cor... e mais importante que tudo, elas estavam começando a se rachar do nada. Mais e mais rachaduras começaram a seguir naquela figura rapidamente, como se tudo estivesse ruindo, e de repente aquele dragão simplesmente se quebrou em pedaços como se não fosse um espelho ou uma casca de ovo. Dentro dele revelou-se a figura de Kastor, que não demorou nem um segundo para cair de joelhos sobre o chão. Seu corpo estava ileso, sem sinal de ferimentos, mas ele estava coberto em seu próprio suor, e pelo que Bryen podia ver ele parecia exausto como se tivesse se exercitado sem parar por um dia inteiro. O suor pingou de seu rosto ao chão em gotas gordas, a expressão de Kastor oculta pelos seus cabelos – ela apenas foi revelada quando ele teve de erguer seu rosto, no momento em que tanto Mefisto quanto o Demônio Negro surgiram diante dele, pairando como duas sombras obscuras.

– Infelizmente, parece que você ainda não domina os poderes de meu irmão, Strauss – observou Ekhart de forma calma. – Foi necessário que dois de seus amigos morressem bem diante dos seus olhos para que os poderes do Coração Azul se manifestassem, e mesmo isso só durou por alguns momentos antes que você perdesse todas as forças e a transformação fosse desfeita. Que pena. – o demônio balançou negativamente sua cabeça ao dizer aquilo, e nesse momento Bryen pensou que ele iria aplicar o golpe de misericórdia sobre Kastor. Segurou firmemente sua espada e moveu-se tão rápido quanto pôde nesse instante, surgindo ao lado do demônio, e não hesitou em mover sua arma contra ele. Seu golpe foi defendido facilmente por um dos dedos do demônio sem que o mesmo se dignasse a sequer olhar para ela, como se fosse uma formiga diante dele. Ao invés de se focar na mulher que o atacava, o que o demônio fez foi virar seu rosto para seu companheiro. – Mefisto, acho que isso já é o suficiente. Faça-o.

O homem do terno branco apenas acenou com a cabeça ao ouvir aquilo, e sem oferecer explicações ele estalou seus dedos. No momento em que aquilo foi feito, tudo instantaneamente mudou. Toda a área que havia sido destruída pelos golpes de Kastor ressurgiu num instante como se nada nunca tivesse acontecido com ela, e distante, entre Teigra e Kyanna, Bryen viu Duke se levantar do chão com um susto, seus olhos arregalados, uma expressão assustada e temerosa em seu rosto. Mas... o que diabos?! Olhou para o rosto de Kastor e viu que seu líder parecia tão confuso quanto ela, e ambos viraram seus rostos simultaneamente para trás. Hozar Royes jazia de joelhos no chão, suando frio, mas tanto seu corpo quanto sua armadura estavam completamente ilesos, como se nada tivesse acontecido com ele. Pela sua expressão, ele não parecia entender o que havia acontecido melhor do que ela. Mas... eles tinham morrido! Como isso é possível?! Voltou seus olhos para seus oponentes, e para sua surpresa o que viu foi o corpo normal de Ekhart segurando a lâmina de sua espada com Mefisto do seu lado, o terno desse homem estando novamente impecavelmente branco, sem nenhum rastro de sangue.

– Mas... o que foi isso? – questionou Kastor, sem fôlego, olhando incrédulo para os dois a sua frente.

– Minha habilidade, Coração Azul – disse Mefisto de olhos fechados, em tom de explicação. – A minha Aloeiris se chama Negação. Tal como o nome sugere, ela permite que eu negue um fato ou acontecimento, desde que ele seja relativamente recente e eu esteja próximo dele. Se um acontecimento é negado, ele nunca acontece, o que significa que tudo que resultou dele simplesmente não existe. Nesse caso, por exemplo, eu neguei todos os últimos acontecimentos exceto a sua transformação, o que fez com que todos eles simplesmente não ocorressem... o que fez com que as estruturas destruídas voltassem ao seu estado original, bem com que aqueles que morreram voltassem a vida. Ou, melhor dizendo, não morressem em primeiro lugar.

– Uma habilidade bem útil, como tenho certeza de que você deve ser capaz de imaginar, Kastor – disse Ekhart, gesticulando com sua outra mão enquanto falava. – Principalmente em situações como essa, nas quais somos forçados a fazer coisas no mínimo desagradáveis para alcançar um determinado objetivo.

– Desagradáveis?! – repetiu Kastor, rangendo os dentes em fúria. Apesar da volta de Duke e Hozar ter aparentemente lhe tranquilizado bastante, era claro que o azul não estava calmo com o que havia acontecido, e Bryen não o culpava por isso. – Você matou meus amigos!

– Apenas porque eu podia trazê-los de volta à vida depois e porque a morte deles era necessária – respondeu Mefisto, balançando sua mão como que para afastar as preocupações quanto a isso. – Pense dessa forma; você prefere que dois de seus amigos sejam mortos agora e voltem a vida em menos de um minuto, ou que o Olho Vermelho mate todos eles pra sempre?

– ... Isso provavelmente poderia ser dito de forma mais... sutil... mas o que Mefisto disse é verdade, Kastor – apontou Ekhart. – Desde o momento em que meus olhos pousaram sobre você eu sabia que você não tinha dominado os poderes que Coração Azul lhe concede. Na verdade, você provavelmente ainda nem conversou decentemente com ele. E isso é uma grande perda. Além do mais, seu grupo está totalmente despreparado para o que está por vir. O Olho Vermelho derrotou e matou dezenas de pessoas tão ou mais fortes que você na batalha que ocorreu aqui, incluindo dois dos líderes do Salão Cinzento. Acha que seu grupo tem condições de bater de frente com eles? Eu não. E na minha opinião, a melhor maneira de mostrar isso é através do que acabamos de fazer.

– Sigam pro campo de batalha como estão agora, e o destino de vocês não será muito diferente do que eu acabei de fazer – complementou Mefisto, dando de ombros.

– E é por isso que iremos treinar vocês – disse alegremente Ekhart com um sorriso no rosto.

Quando ele disse aquelas palavras, imediatamente os olhos de todos do grupo se moveram em direção a ele, fitando-o de forma interrogativa. Ele não parece está perguntando. Ele está afirmando que iremos ser treinados. Por mais que os treinos fossem necessários, Bryen não se sentia bem com o pensamento de que alguém estava tomando decisões que a envolviam pelas suas costas.

– Ora, não me olhem assim – murmurou ele entre dentes, sua cabeça afundando entre os ombros como se ele tivesse subitamente ficado desanimado. – Vocês obviamente precisam de treinamento, e isso é algo que eu já havia previsto. Discuti isso com nosso bom amigo Soulcairn, e ele deve estar passando isso para Odin agora. Não acho que ele irá negar isso. Cada um de vocês terá um tutor particular, escolhido de acordo com o estilo de cada um de vocês. Eu irei treinar você, Kastor, e irei lhe ensinar a usar seus poderes demoníacos. Mefisto irá treinar você, Hozar, e aprimorar suas habilidades. Soulcairn irá pessoalmente treinar Duke, enquanto Titânia será a responsável pelo treinamento de Bryen. Syd treinará Teigra, Maoh treinará Kyanna e Valery treinará Anabeth, e assim todos ficarão felizes e satisfeitos. Parece um bom plano, não concordam?

Ergueu uma sobrancelha ao ouvir aquilo, e um rápido olhar confirmou suas suspeitas de que Kastor também havia feito o mesmo. Isso me parece... muito bem combinado. Não conhecia metade das pessoas das quais o demônio havia acabado de falar, mas considerando que ele parecia saber bastante sobre eles – dado a forma casual como havia mencionado sua relação com Callen, algo que não havia mencionado para ninguém do grupo – não duvidava que ele havia estabelecido as relações de mestre-aprendiz de forma a trabalhar as habilidades principais de cada um. Francamente, não gosto do pensamento de que alguém por ai sabe tanto assim sobre nós... mas se isso está realmente ocorrendo, posso ao menos tirar um pouco de tranquilidade do fato de que isso está sendo útil pra nós no momento.

– Claro, nada disso está... “escrito em pedra”, por assim dizer. Nada disso é definitivo ainda. Caso você queira, sinta-se a vontade para discutir comigo, Odin ou Soulcairn depois e tentar arranjar uma mudança para casos com os quais você não concorde, Kastor. Só peço que, caso o faça, faça-o depois. Pelo que parece, tem uma última pessoa que necessita da sua atenção ainda hoje.

Ficou ainda mais confusa com aquilo, mas Ekhart não manifestou-se para dar resposta alguma. Aos seus pés, o que parecia ser uma poça de pura escuridão surgiu, alastrando-se lateralmente até que envolvesse também os pés de Mefisto, e sem dizer uma única palavra, ambos afundaram de uma única vez para dentro dessa poça, mergulhando na escuridão como se ela fosse um lago, para que essa desaparecesse completamente assim que os corpos de ambos se foram. Isso foi... estranho. Confuso, estranho, inesperado, perturbante e interessante, tudo ao mesmo tempo. Francamente, depois de tudo que havia acontecido e tudo que havia visto e ouvido sobre aqueles dois... Bryen não sabia bem o que devia pensar sobre eles, se eram aliados ou inimigos ou alguma coisa entre os dois pontos.

– Carinhas legais esses, não? – disse subitamente uma voz, seu tom cansado e preguiçoso soando familiar aos ouvidos de Bryen. – Meio bizarros e meio assustadores, mas gente boa. Gosto deles. Mais ou menos.

Os rostos dos membros do grupo se viraram simultaneamente ao ouvirem aquela voz, todos eles reconhecendo imediatamente a quem ela pertencia. Não pode ser... o que ele está fazendo aqui? Em cima do telhado de uma das várias casas parcialmente arruinadas pela batalha estava um homem de longos cabelos azuis, desprovido de camisa, com uma expressão tranquila e preguiçosa em sua face, sentado em cima de suas pernas cruzadas. Com um fino sorriso no rosto e olhos calmos, Shell Glace fitava de cima todo o grupo de Kastor... e seu irmão, também.

– Shell?! – a voz de Ex saiu da forma mais emotiva que Bryen já havia visto naquele momento, soando calorosa tanto com surpresa, quanto com irritação e alívio. – Mas o que... o que raios você está fazendo aqui?!

Ao ouvir a voz do mago, a cabeça de Kastor se moveu de forma súbita. Os olhos do cavaleiro correram para Ex, fitando o mago com um interesse fascinado, e a pergunta que ele fez deixou bem claro os pensamentos que passavam por sua mente.

– Ex? – disse ele, parecendo tremendamente confuso. – O que você está fazendo aqui?

– Do que você está falando, cavaleiro? – respondeu o Tecelão, impaciente, virando seus olhos na direção de Kastor. – Eu sempre estive aqui. Estou te seguindo a um bom tempo já.

– Espera, você sempre esteve aqui?! – até então Kastor estava de joelhos ainda no chão, mas ao ouvir aquelas palavras ele mais do que rapidamente se pós em pé com um salto, balançando sua cabeça e caminhando de forma marrenta em direção a Ex. – Se você esteve sempre aqui, então por que raios você não fez nada quanto Mefisto começou a nos atacar?

– Eu não senti nenhuma real hostilidade vindo dele – retrucou Ex, o corpo do mago ficando progressivamente mais tenso a medida que Kastor ia se aproximando, bem como a irritação ia lentamente tomando conta de seu rosto. Ele não parecia estar nada satisfeito com as ações do azul, e isso fez com que Bryen ficasse atenta. Eu não vou deixar mais nada acontecer com ninguém, pensou a espadachim, segurando com força sua espada. Se ele tentar alguma coisa, corto sua garganta num golpe limpo. – Além do mais, ele estava atacando o seu grupo, sem fazer nada a mim. O problema não era meu.

Aquilo, por sua vez, lhe irritou. Miserável, então é assim que as coisas são?! Ex havia se juntado a eles no Mercado de Escravos, e desde o início ele havia deixado claro que estava colaborando pois tinha seus próprios interesses no que dizia respeito ao Olho Vermelho, mas isso não mudava o fato de que – nas palavras dele – eles eram aliados; aliados ajudavam um ao outro sempre, não apenas quando lhes convinha. E aparentemente, Kastor e alguns dos outros – como Hozar e Duke – haviam ficado tão indignados por aquilo quanto ela. Mas antes que as coisas pudessem piorar, Shell surgiu subitamente no chão entre eles, suas mãos no bolso, sua postura tão preguiçosa como sempre... mas seus olhos estavam sérios, bem como sua voz.

– Parem com isso. Não há porquê arranjarmos uma briga aqui, ao menos não assim tão cedo – disse Shell, lançando um lento olhar para Kastor, seguido de um lento olhar para Ex. Depois, suspirou pesadamente e começou a andar em uma direção, retirando uma mão do bolso para gesticular com ela enquanto o fazia. – Venham comigo, Kastor, o grupo de Kastor e Ex. Os outros não. O que temos a tratar não diz respeito a vocês, mercenários.

Foi só então que notou que, além deles, os três mercenários que haviam sido contratados por Odin também estavam ali, observando tudo o que acontecia. Denis, Breath e Zetsuko observavam tudo de lado, e apesar das palavras de Shell, eles manifestaram-se para seguir o mago do gelo quando ele começou a se mover, sendo apenas detidos por um olhar irritado de Ex que deixou bem claro o que aconteceria se eles insistissem naquilo. Temos assuntos com Shell também, então? Bem, creio que isso era inevitável. Tinha muitas coisas que o mago tinha de responder, e Bryen planejava obter uma resposta para cada dúvida que tinha.

A Era Dourada e Ex seguiram Shell por bastante tempo, acompanhando o mago enquanto ele dava voltas e mais voltas pelo Salão Cinzento. Chegou a ficar um pouco irritada quando viu-o fazendo isso, mas logo compreendeu que ele estava dando tantas voltas assim para despistar qualquer um que estivesse lhes seguindo. Aparentemente ele havia tido sucesso com isso; Kastor, Hozar e Teigra eram cavaleiros que haviam passado anos no Salão Cinzento, e até mesmo eles pareceram confusos a certo ponto. E foi então que que Shell parou; sentou-se sem aviso em um empilhado de escombros de pernas abertas, seus braços apoiados de forma displicentemente sobre seus joelhos. De olhos fechados ele jogou sua cabeça para trás, encheu os pulmões, e finalmente começou a falar.

– Então, vamos lá! – disse ele de forma surpreendentemente energética para alguém como ele. – Primeiras coisas primeiro, acho que devo lhes dizer quem eu realmente sou, não é? Meu nome é Shell Glace realmente, isso não é mentira. Eu sou o irmão mais novo de Ex também, então a mentira também não reside nisso. A mentira, no caso, é que ao contrário do que vocês podem pensar, eu não sou simplesmente um mago independente que sai por aí fazendo o que quer. Seria bom se fosse esse o caso, mas alguém tem de ganhar o pão de cada dia, e as pessoas fazem isso trabalhando. No meu caso, o meu trabalho é ser um Inquisidor.

– Inquisidor? – repetiu Kyanna, virando sua cabeça de lado, sem entender.

– Deveríamos saber o que é isso? – perguntou Teigra, erguendo uma sobrancelha. Shell balançou negativamente a cabeça.

– Se vocês soubessem o que é um Inquisidor, alguém estaria fazendo um péssimo trabalho – respondeu o mago do gelo calmamente. – Permitam-me explicar: esse mundo, como vocês devem saber, não vê magos com bons olhos. Nós que nascemos com um dom pra magia sofremos muito preconceito e somos vistos como aberrações pela maioria das pessoas; graças ao que Medo e Mentira fizeram no passado, magos são imensamente odiados. Pessoas como vocês, Kyanna e Anabeth, devem saber bem do que eu estou falando. O Colégio Branco reuniu os magos, ensinou-nos a nos defender, nos organizou e nos deu trabalho, uma reputação, uma certa proteção. O Colégio Branco melhorou muito as coisas pra nós, mas é importante notar que nem todos os magos operam sob a jurisdição do Colégio... e existem magos que não colaboram com essa questão do preconceito. E é pra isso que existem os Inquisidores como eu.

– Hmm... – aonde estava, Duke remexeu-se desconfortavelmente. Muitas pessoas esqueciam-se disso, mas o Titã também era um mago, e por isso Shell estava tocando justamente num assunto bem pertinente a ele. – Prevejo sangue nessa história.

– Boa predição – disse Shell, sem humor. – Os Inquisidores são magos... peculiares. Nós somos parte do Colégio Branco, mas não uma parte conhecida. Não contamos em nenhum registro, e se você perguntar pra alguém deles, eles provavelmente responderão que nunca ouviram falar de nós. A maioria não está mentindo. Alguns dos magos de elite do Colégio ouviram falar sobre a nossa organização e o que ela faz, mas são poucos os que realmente conhecem um de nós. Por exemplo, eu só conheço dois outros Inquisidores além de mim, e os únicos que sabem que sou um Inquisidor são Ex, meu irmão, e o líder do Colégio Branco, o Grande Panda.

– ... “Grande Panda”? – repetiu Hozar, incredulidade bem clara em sua voz. – Espera, eu devo ter entendido isso errado. Vocês apelidaram o seu líder de “Grande Panda”?

– Não – respondeu prontamente Shell, balançando negativamente sua cabeça. – Grande Panda é literalmente o nome dele. É uma longa história o porquê dele ter esse nome, mas tudo que importa a você saber é que esse nome faz jus a ele. Se você olhasse praquele velho, iria confundi-lo com um Panda mesmo.

– Fascinante, mas a maior pergunta de todas ainda não foi respondida – apontou Teigra, parecendo ligeiramente impaciente enquanto falava. – O que vocês, “Inquisidores”, fazem, afinal de contas?

– Calma, calma, eu estava chegando lá – murmurou Shell, resmungando baixinho e entre dentes qualquer coisa sobre mulheres serem impacientes. – Bom, vejam assim; existem magos fora do Colégio Branco que fazem coisas não muito boas. Matam pessoas. Escravizam vilarejos. Fazem experimentos de necromancia. Cantam alto de madrugada. Coisas verdadeiramente terríveis. Da mesma forma, também temos pessoas entre o Colégio Branco que ficam fazendo muita, mas muita merda. Tudo isso afeta negativamente a reputação dos magos, e vocês devem saber bem disso, é muito mais fácil que alguém te julgue por uma má ação do quê que alguém lhe elogie por uma boa ação. O mal reflete muito mais do que o bem, e com muito mais força. Esses magos são muito problemáticos... e nós Inquisidores existimos para eliminarmos problemas. Em termos leigos; Inquisidores são magos que existem para caçar outros magos. Uma força secreta do Colégio Branco que tem o objetivo de eliminar os magos “maus” para que esses não fodam com tudo. Esses somos nós.

– Uh, que foda! – sentiu-se franzindo o cenho ao ouvir aquelas palavras de Kastor. A animação do cavaleiro era óbvia e gigantesca, tanto que o cavaleiro chegou ao ponto de pular alto em alegria perante a isso, praticamente batendo palmas. – Então, vocês são como... sei lá, um Serviço Secreto!

– ... Sim, meio que – murmurou Shell coçando a cabeça, obviamente não tendo pensado muito nisso. – A única diferença é que somos competentes. Um Serviço Secreto não é muito bom se todo mundo e sua vó sabe dele.

– E no entanto, aqui está você, nos contando abertamente sobre essa organização e sua função nela – apontou Bryen de braços cruzados, olhando para Shell com uma sobrancelha erguida. O mago soltou uma risadinha sem graça quando isso foi apontado.

– Sim, sim, a ironia não é perdida em mim senhorita Coração de Pedra, mas em minha defesa, existe um bom motivo para que eu esteja lhes dizendo isso. – com o indicador e o pai-de-todos Shell bateu na própria testa, bem no centro dela. – No Torneio de Valhala, eu estava a trabalho. Meu objetivo ali não era ganhar o Torneio, mas sim investigar algo. Não posso lhes revelar muito sobre isso, até porque eu só sei o que necessito saber, mas o Grande Panda achou motivos para acreditar que um dos magos do Colégio Branco, ou mais especificamente falando, um de seus Tecelões, podia estar envolvido com assuntos ilegais que poderiam arruinar a reputação tanto dos magos quanto do Colégio. Por ordens dele eu comecei a investigar em segredo os Tecelões, procurando algum podre neles. Eventualmente eu descobri que Balak Hauss, o Tecelão do Tempo, estava em Valhala e pretendia assistir ao torneio da cidade, e então eu tomei a ação mais lógica possível. Me infiltrei no torneio como um dos competidores dele para que assim pudesse investigar Balak. Claro, se um mago aparentemente vagabundo e independente como eu mostrasse um nível muito alto de poder eu chamaria muita atenção, então o que fiz foi simplesmente reduzir o meu próprio poder até um determinado nível, o suficiente para não chamar atenção.

– Miserável... – os dentes de Hozar rangeram com força uns nos outros ao ouvir aquilo, o cavaleiro cinzento parecendo subitamente furioso. – Bem que eu pensei que alguma coisa parecia errada naquela luta... você não estava lutando a sério!

– Obviamente – concordou alegremente Shell, balançando sua cabeça. – Se eu estivesse lutando a sério, eu teria lhe derrotado. Você é forte, Hozar, mas ao menos naquela época o seu poder não se comparava ao meu. – de certa forma, aquilo fez com que Bryen se sentisse um pouco humilhada. Pelo menos você ganhou, Hozar, pensou ela, mal-humorada. Eu não posso acreditar que fui derrotada por alguém que estava usando apenas parte do seu poder. E por uma bobagem, ainda por cima! – Bom, indo em frente... eventualmente com minhas investigações eu descobri que Balak era quem eu procurava, e isso me levou a tomar as ações necessárias. Número um: enviar uma mensagem para o Grande Panda lhe avisando que Balak era a ovelha negra da família. Algo esperto e do qual eu me orgulho... embora, considerando que aparentemente o Colégio Branco não tomou ação quanto a ele, eu presumo que a minha mensagem foi interceptada de alguma forma, o que, bem, é uma droga. Número dois: confrontar Balak. Balak. Balak Hauss. Também conhecido como “Tecelão do Tempo”, famoso por ser um gênio e, conforme eu havia acabado de descobrir, o líder de uma das guildas mais poderosas do mundo. Não vou mentir, confrontá-lo definitivamente não foi a melhor das minhas ideias. Para encurtar uma história longa, eu fui derrotado, e depois disso Balak usou magias para ler minha mente e me colocar sobre seu controle, fazer de mim um escravo da sua vontade. É por isso que estou lhes contando tanto sobre mim, sabem? Ele sabe disso, e pelo que eu sei, todo o resto do Olho Vermelho pode saber o mesmo. Eu prefiro contar a vocês por livre e espontânea pressão isso agora do que ficar calado e ter vocês descobrindo disso no meio da batalha para começarem a se questionar se eu sou ou não seu aliado.

– Espera aí, tem uma coisa errada nisso – intrometeu-se Anabeth, gesticulando com a mão que lhe restava enquanto falava. – Você disse que Balak escravizou sua mente, não é? Se é esse o caso, como você se libertou do controle dele? Ou melhor, como podemos confiar em você?

– Ah, uma boa pergunta essa! – comentou Shell, batendo as mãos de forma excitada. – A resposta dessa pergunta é bem simples, e uma das que mais me alegro em dar. Magias de controle mental não são simples. Elas não são fáceis de se aprender ou aplicar, e isso só fica mais complicado conforme o tempo vai passando. Um dos maiores erros que Balak cometeu foi não me matar depois de ler minha mente. Mesmo depois de ter me controlado, eu estava de certa forma consciente de tudo que eu fazia, apesar de não poder interferir nisso. Como se eu estivesse olhando tudo por alguma janela, mas sem conseguir abrir essa janela, sabe? Isso significa que eu ouvi e vi várias coisas sobre o Olho Vermelho e acabei me familiarizando com elas. Claro, quando a magia foi aplicada, ela era forte demais para que eu pudesse quebra-la, mas com o passar do tempo ela foi se enfraquecendo, e eu fui aprendendo mais sobre ela. Eventualmente as coisas chegaram ao ponto em que eu literalmente podia me libertar dela quando bem entendesse, e então eu simplesmente passei a esperar pelo momento ideal para me libertar.

– Então, você sabe sobre o Olho Vermelho? – apesar do tom neutro de suas palavras a feição de Hozar demonstrava certo ceticismo para com aquela ideia. Com uma sobrancelha erguida, era claro que o cavaleiro cinzento não estava completamente convencido da sinceridade de Shell. – Isso significa que você vai compartilhar essas informações conosco?

– Sim, isso é justamente o que eu planejo fazer – concordou Shell, balançando a cabeça. – Mas depois, não agora. No momento, o meu foco é outro. – sorrindo, os olhos de Shell moveram-se para Kastor, pousando sobre o cavaleiro azul enquanto ele trazia um brilho misterioso no olhar. – Kastor, posso me juntar a sua guilda?

Dizer que aquilo pegou todos desprevenidos seria atenuar as coisas. Mas o quê?! Aquele pedido havia literalmente vindo do nada, e de uma forma bem casual. Não sabia exatamente como deveria responder a algo assim. Eu nem sei com certeza se ele pode se juntar a uma guilda enquanto fazendo parte de uma organização como esses Inquisidores aparentemente são, mas considerando que ele está pedindo para se juntar a nós, isso deve ser possível... embora também seja possível que ele simplesmente não saiba que não pode. Preguiçoso como ele é, isso não me surpreenderia.

– Por quê? – foi a pergunta que veio de Kastor, em um tom sério. Virou seu rosto na direção de seu líder, e o que viu lhe surpreendeu; ao invés da feição bobona e alegre que ele normalmente tinha, Kastor agora estava completamente sério, de uma forma que até lembrava Hozar um pouco. – Por quê você quer se juntar a nós?

A reação de Shell a isso foi curiosa. Pela feição em seu rosto fitou claro que ele não esperava por algo assim, mas ao mesmo tempo ele também não pareceu ser realmente abalado por ela, seguindo logo para dar uma resposta.

– Bom, razões bem simples pra ser sincero, sabe? – murmurou ele, esticando seu corpo enquanto falava. – Apesar dos Inquisidores serem principalmente, acima de tudo, caçadores de magos, nós também somos membros do Colégio Branco. Por isso, uma das coisas que fazemos é representar os interesses do Colégio Branco e defende-los, o que inclui repassar qualquer informação de interesse desses que possamos obter em nossas viagens para a base. E uma dessas informações de importância é sobre você ser... como eu posso dizer... um demônio lendário que colaborou no massacre dos Deuses e quase exterminou a humanidade alguns séculos atrás? Sei lá, estou chutando no escuro aqui, mas acho que isso é bem relevante. Da mesma forma, também consigo o Grande Panda me mandando ficar de olho em você depois disso, e pensei “bem, já que eu tenho de ficar de olho nele, então por que não ajudo ele também?”. Unir um pouco as coisas, trabalharmos em conjunto sabe?

– Espere aí – interrompeu Hozar, dando um passo pra frente ao ouvir aquilo. – Você está dizendo que planeja revelar a... condição de Kastor ao Colégio Branco? O que eles fariam ao saberem que ele é o que é?

– Eu sei lá – respondeu Shell, dando de ombros. – Eles poderiam não se importar muito. Eles poderiam tentar mata-lo. A lista é bem longa.

– ... Exatamente o que eu suspeitei. – uma careta surgiu no rosto de Hozar, e o Cinzento não perdeu tempo em cruzar os braços. Por alguns momentos ele pareceu pensativo, como se estivesse considerando toda a situação, e quando finalmente voltou a falar, sua voz veio mais séria ainda do que vinha normalmente, parecendo até mesmo um pouco ameaçante. – Shell. Não seria possível que você não revelasse a condição de Kastor para eles?

– Não. Absolutamente fora de questão – retrucou o mago do gelo, balançando negativamente sua cabeça. – Eu devo muito ao Grande Panda para agir com falsidade perante a ele assim. Sinto muito, Hozar, mas a única coisa que me impediria de dizer a verdade pra ele, toda a verdade, seria a minha morte.

– ... Entendo... – murmurou o Cinzento. Os olhos de Hozar se afiaram ao ouvir aquelas palavras, e seus braços se afastaram... apenas para que logo em seguida suas mãos se fechassem em dois punhos sólidos como rochas, sendo prontamente envolvidas por chamas ardentes. – Isso pode ser arranjado, se for o caso.

Aquilo foi imediatamente seguida por uma sensação súbita de queda de temperatura. Que... frio. A essa altura, a mão de Bryen já estava sobre a empunhadura de sua espada, preparada para sacá-la caso isso se mostrasse necessário, mas a sensação do frio foi o suficiente para que sua atenção fosse pra outro lugar. Virou seu rosto pro lado imediatamente, na direção que aquele homem estava. Ex havia se mantido mais afastado dos demais devido a sua postura, mas não distante o suficiente para não ouvir o que Hozar havia dito. Naquele exato momento, os olhos azuis dele estavam gélidos, fitando Hozar com uma terrível fúria fria.

– Cuidado com o que fala, Cavaleiro Cinzento – advertiu ele, sua voz fria como gelo. – Shell é meu irmão. Se você planeja fazer alguma coisa contra ele, vai ter de passar por cima de mim.

– E você acha que nos assusta com isso, seu pedaço de merda?! – quem respondeu a isso não foi Hozar, mas sim Duke, que avançou dois passos em direção a Ex, seu corpo já começando a ser revestido por aço. – Eu já estou irritado com você por aquela gracinha que você fez antes, e não planejo deixar que seu irmão saia simplesmente fazendo o que quer e coloque a gente em risco. Se ele insistir nessa merda eu chuto a bunda dele, e se você quiser se intrometer eu chuto a sua também!

Rangeu os dentes ao ouvir isso. Merda, Ex não é tão fraco quanto você imagina, Duke. Era fácil esquecer disso, mas a classificação de Ex era a mesma de Balak entre os magos do Colégio Branco, e a demonstração de Mefisto e Ekhart ainda estava fresca em sua mente. Droga, a situação está deteriorando muito, muito rápido. As coisas não podem continuar assim!

Em meio a tudo aquilo, todo o caos que estava começando a surgir ali, Shell se mostrava tranquilo. Com um sorriso em seu rosto o mago reclinou para trás e falou de forma alegre, relaxada.

– Sabe, Kastor, quais são as piores pessoas do mundo? – perguntou ele, sem esperar por resposta antes de voltar a falar. – As que não assumem o que fazem. Acredite em mim, o mundo é cheio dessas pessoas. Na nossa vida temos inúmeras escolhas. A maioria delas são neutras, algumas são boas, mas outras são ruins. E por vezes, temos de fazer escolhas difíceis em situações complicadas, sabe? Mas mesmo nessas situações, todos fazem uma escolha. Mesmo que sua escolha seja apenas algo como “não fazer nada”, ela ainda é uma escolha. Mas a maioria das pessoas se recusa a aceitar isso. A maioria das pessoas se recusa a aceitar que fizeram uma escolha, ou se a fazem, tentam afastar as consequências dessa escolha com frases como “eu tive de fazer isso” ou “eu não tinha escolha” ou coisa do tipo. E não há nada no mundo que eu odeio mais que isso, sabe? Se você faz uma escolha, principalmente uma escolha difícil, o mínimo que você deve fazer é assumir a escolha que fez. Quem não é capaz de fazer ao menos isso, pra mim, é o pior lixo possível.

Uma das sobrancelhas de Kastor se ergueu ao ouvir aquilo. Shell, por sua vez, apenas fez inclinar-se para frente, ainda sorrindo.

– O que quero dizer com isso, Kastor, é simples. O difícil na nossa vida não é fazer uma escolha, mas sim viver com a escolha que você fez, entende? – murmurou ele, seu sorriso ardiloso brilhando no rosto. – Tendo isso em mente, Kastor, diga-me... qual a sua escolha?



Notas finais do capítulo

Bom, e aqui está o capítulo em questão! Tarde, mas aqui! E, tal como prometido, esse capítulo tem escolhas!

O QUE KASTOR FARÁ COM SHELL?

(A) Aceitará o pedido dele e permitirá que ele se junte a guilda
(B) Rejeitará o pedido dele, mas não o matará
(C) Matará Shell

Muito bem, muito bem! A, B, ou C, galera! Não se esqueçam de votar nos comentários! Para dar tempo a vocês, lhes darei uma semana para lerem esse capítulo e comentarem com suas escolhas! Ou seja, até sexta feira que vem, dia 27 de março, sintam-se livres para votar!

Bem, é isso. Até a próxima!

Btw, tive de remover apressadamente 1000 palavras do capítulo. Valeu, Nyah! ¬¬