O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 31
A Ira dos Cavaleiros


Notas iniciais do capítulo

Existem poucas emoções mais fortes do que a raiva, a fúria, a ira. E poucas coisas mais destrutivas que ela, também.



REPULSÃO! – gritou Maoh, a palma da mão aberta do cavaleiro chocando-se com o punho fechado de Jiazz. Pura energia e força bruta bateram de frente, criando uma onda de choque forte o suficiente para que o chão abaixo deles fosse quebrado em migalhas e as casas ao seu redor fossem reduzidas ao pó. Enquanto o cavaleiro do Salão Cinzento exibia um semblante completamente sério e compenetrado em seu rosto, Jiazz por sua vez apenas sorria, tremendamente divertido por tudo aquilo.

O choque dos poderes apenas parou quando Maoh subitamente desapareceu de onde estava, sumindo de uma vez da frente do guerreiro para surgir logo em seguida atrás dele. Sua perna brilhou por um momento, envolta por uma espécie de armadura quase transparente feita de energia, e sem pensar duas vezes ele lançou um chute no pescoço de seu oponente, atingindo-lhe em cheio com seu golpe.

E no momento em que esse golpe acertou, o som de ossos se quebrando ressoaram.

A mão de Jiazz passou por seu ombro, tentando segurar a perna de seu oponente, mas elas só encontraram ar. Com um sorriso no rosto, Jiazz virou-se para ver Maoh ao longe, ajoelhado no chão, segurando com ambas as suas mãos sua perna direita, os ossos dela quebrados e sangue banhando-a por completo. O cavaleiro estava mordendo seus próprios dentes com força, e a careta que tomava conta de seu rosto para impedir que ele expressasse dor fazia com que ele parecesse verdadeiramente intimidador quando somada aos chifres que tinha, mas nada disso parecia afetar Jiazz. O sorriso continuou brilhando no rosto dele, parecendo até se alargar mais, como se ele estivesse divertido por aquilo.

– Ei, ei, ei! Isso é tudo que você pode fazer, Primeiro Cavaleiro? Se esse for o seu melhor, você não vai conseguir me derrotar! – afirmou o Juggernaut, abrindo ambos seus braços e inchando seu peito, colocando seu corpo a dispor para ser alvo dos ataques de seu oponente. – Eu já entendi seu poder, sabe? É um poder bem útil esse! Manipulação de energia! Pelo que eu vi, você pode basicamente controlar sua energia de várias formas, fazendo com que ela envolva seu corpo como algum tipo de armadura para lhe proteger e aumentar o dano que seus golpes causam, ou pode entrar em contato direto com meu corpo para fazer com que sua energia passe por minha pele e ataque diretamente o meu interior. Esse é uma habilidade com grande potencial! ... Mas corrija-me se eu estiver errado, o potencial da sua habilidade não importa de merda nenhuma se você não consegue me ferir!

Maoh não deu resposta alguma àquilo, apesar de que seu rosto se tornou ainda mais negro, sua feição ainda mais irritada. O sorriso no rosto de Jiazz azedou um pouco com isso – o guerreiro mantendo claramente as expectativas de ter uma pequena discussão ali – mas ele não pareceu se importar muito com aquilo de qualquer forma. Colocou uma mão no bolso e calmamente começou a caminhar em direção ao seu oponente enquanto com sua outra mão alcançava uma das suas espadas bastardas, puxando-a da bainha e mostrando pela primeira vez aço ao seu oponente. O sorriso de Jiazz por um momento pareceu consumir todo o seu rosto. Seu avanço veio de uma só vez, correndo contra seu oponente como um lobo faminto corre contra sua presa.

E a resposta que Maoh deu a isso foi juntar suas mãos, paralelas uma a outra, abertas porém com os dedos levemente curvados, de forma que fazia com que elas lembrassem o rosto de um animal feroz. E entre esses dedos, no meio das mãos de Maoh, algo podia ser visto. Uma pequena esfera branca de energia pura tão condensada e concentrada que se tornava visível ao olho nu.

Rugido do Leão.

O avanço do guerreiro foi detido, Jiazz tendo que subitamente parar de focar-se em correr para firmar seus pés com força no chão e aguentar de alguma forma o ataque que veio contra ele. Seu peito se distorceu, parte dele afundando para dentro de seu corpo, amassado como uma placa de ferro ficaria depois de receber uma pancada forte, tudo isso devido à força que energia de Maoh exerceu quando foi disparada contra o Juggernaut com um poder de fogo que rivalizava com os grandes canhões de Carcino.

A onda de choque gerada pelo choque do golpe de Maoh contra o peito de Jiazz foi algo absurdo; um ruído que só podia ser classificado como o som de estática e energia tomou conta de todo o ambiente, e da mesma forma os destroços próximos começaram a se mover sozinhos, influenciados por toda a energia que agia livremente ali. O impacto era como o das balas de um canhão contra uma fortaleza... uma fortaleza que, em meio a tudo aquilo, não cedia ou parecia sofrer dano algum, mas apenas sorria e ria cada vez mais.

Quando o golpe lhe atingiu, Jiazz foi arrastado para trás, apesar de que apenas levemente, não mais do que um centímetro. Depois disso, o ataque simplesmente não pareceu fazer mais nada a ele. A energia era visível, era claro como o dia que ela estava atingindo diretamente Jiazz, e isso fazia com que as roupas do guerreiro fossem rasgadas em pedaços, mas ele simplesmente não afetado por aquilo. Ainda recebendo o ataque, Jiazz dobrou seus joelhos e ergueu seus olhos, e no momento em que viu a expressão selvagem neles, Maoh compreendeu o que estava prestes a acontecer.

O Juggernaut saltou, cobrindo toda a distância que separava os dois em não mais do que um instante, e sua espada de moveu com a mesma velocidade de um relâmpago. Um pedaço de pura pedra do tamanho de um palácio foi cortado limpamente pelo golpe de Jiazz, arremessado aos céus como se não fosse nada, e a pura pressão de ar que o golpe do homem exerceu foi o suficiente para destruir completamente tudo até aonde se podia ver; casas, corpos, uma pequena praça, a escultura de um cavaleiro que um dia foi grande, bancos, prédios comerciais... todos os que estavam diante de Jiazz foram destroçados ao pó por nada mais do que um movimento do Juggernaut.

E ainda assim, ele não atingiu seu verdadeiro alvo.

O rosto de Jiazz olhou para cima ainda sorridente, fitando a figura de Maoh que planava acima dele, tão alto que o cavaleiro poderia parecer uma mosca a olhos normais. A espada girou nas mãos de Jiazz, a expressão no rosto do guerreiro deixando claro que ele estava satisfeito por seu oponente ter conseguido evitar seu golpe. Em meio ao ar, os olhos de Maoh caíram sobre o Juggernaut, nervosos e hesitantes, sem saber como deveria seguir em frente, sem saber o que deveria fazer. Havia tentado várias coisas, mas nenhuma delas havia sido capaz de fazer um arranhão a Jiazz – nem mesmo o seu primeiro ataque havia sido capaz de causar algum tipo de dano a ele, e esse havia sido um ataque que havia lhe atingindo diretamente no interior do corpo. Aquela era uma situação preocupante, preocupante o suficiente para que Maoh simplesmente não soubesse mais o que fazer ali.

Mas eu sei o que eu não posso fazer, pensou o Primeiro Cavaleiro, cruzando seus braços à frente de seu corpo de forma a formar a imagem de um “X”, olhando para seu oponente com uma determinação fria em seus olhos. Eu não posso desistir.

Seu corpo se endireitou em meio ao ar como se fosse uma flecha, apontando para Jiazz de forma retilínea. Com seus poderes ele criou uma armadura transparente de energia ao redor de seus braços, ao mesmo tempo em que também concentrava energia na sola de seu pé. Com apenas uma das suas pernas inteiras, Maoh sabia que que iria ser difícil controlar-se bem, mas isso não mudava nada; se todos os seus outros ataques não haviam feito nada, então aquilo era tudo que lhe restava, sua última cartada.

Kamikaze... – liberou toda a energia que havia concentrado em seu pé de uma única vez em uma poderosa explosão que lhe jogou direto contra Jiazz com uma velocidade absurda. Movia-se tão rápido que mal conseguia manter uma visão coerente do que aconteceu diante de seus olhos e sentia como se todo o seu corpo estivesse tremendo, trepidando... como se ele e seu corpo pudessem se destroçar em pedaços a qualquer momento devido a nada mais do que a pressão do ar que parecia lhe afetar de todos os cantos, mas não vacilou. Não fraqueje. Mostre sua força. Mostre sua determinação! Era um dos primeiros cavaleiros do Salão Cinzento. Sabia bem que não tinha chance de derrotar Jiazz em uma batalha um a um, a diferença de poderes já havia ficado óbvia. Mas como um cavaleiro, não iria cair gentilmente. – QUEDA LIVRE!

O Juggernaut então gargalhou.

A gargalhada do guerreiro foi alta, forte o suficiente para que mesmo enquanto em uma queda em velocidade tão grande quanto aquela Maoh conseguisse ouvi-lo perfeitamente. Por um instante seus olhos conseguiram fixar-se sobre a figura dele à distância, e quando o viu, Jiazz estava cercado por algo estranho. Algo que parecia ser... chamas douradas.

ISSO MESMO, GAROTO! – gritou o Juggernaut a plenos pulmões, rindo inconsequentemente enquanto falava. – Essa coragem que você está demonstrando, essa determinação, essa força de vontade, esse fogo! Isso é importante! Essa é a força que separa reis de plebeus, Deuses de humanos, homens de garotos! Gosto disso, garoto! Você tem meu respeito! E por isso... vou queimá-lo nas chamas de um Deus!

O guerreiro jogou um de seus braços para trás, e quase que imediatamente esse braço foi envolvido por chamas dourados. O que... o que raios é isso? Não compreendia aquelas chamas douradas, mas sentia algo vindo delas. Um poder... não, uma presença. Algo que dizia-lhe com todas as palavras que aquilo era extremamente perigoso.

Chamas Divinas... – as chamas douradas que envolviam o braço pareceram se reunir na palma de sua mão conforme as palavras vinham da garganta do Juggernaut, formando o que parecia ser uma pequena esfera dourada ali. Normalmente ver aquilo não assustaria Maoh nem um pouco, mas ele havia visto antes qual era a extensão das chamas daquele homem, e isso significa que ele conseguia imaginar quanto poder estava contido naquela pequena esfera. – GRANDE NOVA!

A esfera dourada foi lançada contra Maoh naquele momento, e quando isso aconteceu, o mundo simplesmente se tornou completamente dourado. Seu rosto virou-se para outros lados, procurando ver se via algum tipo de saída daquilo, mas não adiantava; para onde quer que olhasse, tudo que via era um mar de chamas douradas que envolvia não só Maoh, mas toda uma parte do céu.

Toda uma parte do céu que queimava.

=====

O corpo de Maoh caiu ao chão não muito depois das chamas de Jiazz se dissiparam, e o guerreiro sorriu ao ver aquilo.

Apesar de ter sido atingido em cheio pela sua Grande Nova, o corpo de Maoh estava ileso, perfeito, com até mesmo a perna quebrada do cavaleiro totalmente recuperada como se fosse nova. Isso. Ainda bem que deu certo.

Em uma situação normal, a Grande Nova de Jiazz iria reduzir Maoh às cinzas sem dificuldade alguma. Nem mesmo se o homem estivesse em pleno estado, cheio de energia, e usasse todo o seu poder para criar uma armadura ao redor do seu corpo Maoh teria a mínima chance de resistir ao poder destrutivo da sua técnica.

Mas a verdade era que ele simplesmente nunca havia almejado matar Maoh com aquilo.

As chamas divinas de Jiazz eram chamas únicas por muito mais do que apenas a cor dourada que tinham. Quando usadas da mesma forma de qualquer outro tipo de chamas normais, como nada mais do que fogo, elas se destacavam por ter uma potência muito maior do que a maioria das outras chamas... apesar de que, pelo que Jiazz sabia, supostamente existiam tipos de chamas com um poder destrutivo maior. De qualquer forma, não é esse o trunfo dessas chamas. Uma das maiores habilidades que suas chamas tinham era a flexibilidade delas. Em suas mãos, chamas douradas não eram diferentes de um monte de argila. Podia manuseá-las, da forma a elas como bem queria, e até mesmo alterar suas propriedades. Podia fazer, por exemplo, com que suas chamas alcançassem uma constituição quase que sólida, o suficiente para que ele pudesse bloquear espadas de aço com ela... bem como para cortar facilmente através de qualquer coisa se decidisse lhes dar forma, com a dureza e o calor que as espadas de fogo das lendas supostamente possuíam.

Mas nem mesmo essa era a verdadeira habilidade de suas chamas divinas.

A verdadeira habilidade delas era fazer com que Jiazz fosse imortal.

Sorriu com aquele pensamento, um pouco envergonhado por ele ter cruzado sua mente. Bom, nem tanto assim. Sabia que existiam habilidades no mundo que eram capazes de fazer com que um homem se tornasse imortal a tudo exceto a idade, Aloeiris poderosas e lendárias que heróis de tempos passados haviam possuído ou manifestado, e supostamente haviam também artefatos e magias capazes de causar o mesmo efeito. Não era esse o poder que suas chamas tinham, mas elas atuavam de forma similar. As habilidades de Jiazz na manipulação de suas chamas incluía manipular as propriedades delas, e isso significava que ele podia fazer com que elas parassem de queimar, assim como ele podia fazer com que elas curassem. Elas não funcionavam como um verdadeiro tratamento ou coisa do tipo – não removiam a dor, por exemplo, o que lhe deixava com a estranha sensação de estar ferido quando seu corpo já está curado por algum tempo – mas estancavam sangramentos, fechavam cortes e limpavam seu sangue de impurezas, o que fazia com que elas fossem mais do que úteis. Ter uma habilidade como essa que pode ser usada tanto no ataque quanto na defesa por si só já é algo muito útil, mas pra alguém como eu, isso é simplesmente perfeito. Jiazz era forte, ele sabia bem disso, mas de longe o seu maior poder era a dureza de sua pele. Era raro que um inimigo simplesmente conseguisse feri-lo, como o jovem Maoh descobriu ao tentar enfrenta-lo, o que significava que para que eles conseguissem fazer alguma coisa contra Jiazz eles tivessem de usar uma quantia absurda de força e energia para lhe causar um dano pequeno... e ele imediatamente podia curar-se desse dano como se não fosse nada, usando apenas uma pequena parcela de sua própria energia.

Logicamente, se suas chamas eram capazes de curar tanto quanto de queimar, então não havia nada que impedisse Jiazz de fazer ambos com um ataque.

Achar uma balança entre os dois foi algo um pouco difícil, não ia negar isso. Teve de manipular as chamas separadamente, como se estivesse penteando seus cabelos ao passar o pente por cada fio individualmente, tudo isso para garantir que suas chamas agissem de forma correta. Isso valeu a pena, no entanto. Enquanto parte das chamas queimavam o corpo de Maoh, outra parte delas curavam as feridas do homem, e como a cura não removia a sensação de dor, isso significava que Maoh havia sentido uma dor atrás de dor, amontoando-se uma sobre a outra, até que isso fosse simplesmente demais. Sentiu o momento em que as junções daquelas dores fizeram com que que Maoh entrasse em choque e perdesse sua consciência, e quando isso aconteceu, não hesitou em fazer com que tudo o que restava das suas chamas servissem apenas para curar o corpo do homem de todas as suas feridas.

Ajoelhou-se ao lado dele, olhando para o rosto do cavaleiro. Pacífico o suficiente, supunha ele, embora tivesse algo estranho ali. Não sabia dizer exatamente o quê, mas isso fazia com que Maoh parecesse estar envergonhado ou arrependido de algo. Provavelmente algo relacionado ao fato dele ter perdido. Isso era uma pena de várias formas, mas não é como se pudesse jogar-se no chão e dizer que ele havia ganhado.

– Não seja muito duro consigo mesmo; você teve coragem o suficiente para me enfrentar e fez um bom trabalho, mesmo que não tenha conseguido me ferir – disse Jiazz para ele, apesar de saber que o cavaleiro muito provavelmente não estava ouvindo suas palavras. – Você tem habilidade, potencial, e mais que isso; bolas. Bolas de aço. Gosto disso, meu chapa. Respeito isso. – tornou a se erguer, girando sua espada em suas mãos e guardando-a de volta em sua bainha. – Com tempo, você se tornará forte o suficiente para me dar um verdadeiro desafio, eu acho. Vamos ver agora se o destino quer que isso aconteça. Eu lhe curei, Maoh, mas não irei lhe proteger. Vou lhe deixar aqui aonde você está, e deixar que o destino decida o que fazer de você. Se for pra você morrer, alguém vai te matar. Mas se não for esse o caso, então viva, torne-se forte... e me desafie de novo depois.

=====

– EI! CHAPPA! – a voz de Dayun pareceu até mesmo ecoar pela cidade, forte como o som de um trovão, embora Chappa não pudesse realmente dizer que isso lhe surpreendia. Me pergunto exatamente os quão fortes são os pulmões desse cara. Eles devem ser feitos de titânio ou coisa do tipo para que ele consiga gritar dessa forma tanto quanto faz. Virou seu rosto para o lado e viu o cavaleiro correndo pelas ruas da cidade com uma velocidade tão grande que nem sequer conseguia acompanhar os movimentos de suas pernas. Estava em cima das ruínas de uma padaria destruída pela batalha, uns bons metros acima do chão, mas isso não foi problema nenhum para aquele homem; com saltos rápidos ele pulou a um pequeno destroço, deste para o telhado de uma casa menor, e dessa ele alcançou a padaria. Suas roupas estavam manchadas de vermelho, sangue que deveria ser em sua maioria de seus oponentes, apesar de que pelos pequenos cortes que conseguia ver espalhados no corpo dele, ele também não havia saído ileso de suas batalhas até agora. – CHAPPA! AONDE ESTÁ VAEN?! VOCÊ VIU ELE?!

– Vaen?! – a pergunta lhe pegou de surpresa. Não, não havia lhe visto há um bom tempo, desde que haviam se separado antes, mas não havia pensado que isso fosse algo preocupante ou coisa do tipo; Vaen era o Primeiro Cavaleiro dentre os três, um dos guerreiros de elite do Salão Cinzento; ninguém deveria ser capaz de fazer mal a ele, principalmente não se nenhum dos oponentes que havia encontrado até agora tinham sido capazes de ser um verdadeiro desafio para ela. Mas aquelas palavras de Dayun, soando tão desesperadas quanto soaram, foram mais do que o suficiente para se questionasse se isso realmente estava certo. – Eu... não vi ele. Aconteceu alguma coisa? Aconteceu alguma coisa, Dayun?!

Dayun não lhe deu uma resposta pra isso, mas a forma como ele rangeu os dentes, mordeu seu lábio inferior e desviou o olhar foi o bastante para ela. Quando viu aquilo ela simplesmente enlouqueceu. Abandonou sua arma sem pensar duas vezes, e armas as suas mãos foram direto para o pescoço dele, apertando-lhe com tanta força que seus dedos poderiam facilmente perfurar a carne dele. Os olhos de Dayun caíram imediatamente sobre ela, como se estivessem perguntando o que ela pensava que estava fazendo, mas não deu atenção alguma pra isso. Estava irritada e agitada demais para parar. Isso motivou Dayun a erguer suas próprias mãos, fechando-as ao redor dos pulsos de Chappa. Ele puxou-a com força e brutalidade, como quem puxa um animal selvagem de alguém que ele está atacando, e tal como um animal selvagem Chappa resistiu. Em geral, Dayun era normalmente mais forte do que ela, mas tinha a vantagem ali de ter começado com tudo e estar apertando seu pescoço, e além disso, suas emoções atuais lhe davam mais força do que um ano de treinamentos puxados poderia lhe proporcionar. O homem ainda continuou tentando por um bom tempo, procurando de alguma forma superar a força dela e livrar-se de seu aperto, mas quando começou a ficar sem ar e teve a certeza de que não iria conseguir afastá-la, foi forçado a lhe dar a resposta que ela buscava.

– EU NÃO SEI AO CERTO, ESTÁ BEM?! – gritou ele, aproveitando-se do susto que Chappa tomou ao ouvir aquilo para desvencilhar-se de suas mãos. Dayun já falava naturalmente como se estivesse gritando, então quando ele resolvia realmente gritar, sua voz soava tão alto que ela tinha a impressão de que podiam ouvi-lo do outro lado do mundo. Isso definitivamente não era algo bom quando estavam em uma cidade sob ataque, mas não se importou com isso no momento. – EU VI ALGUMA COISA ANTES, NADA CONFIRMADO NEM NADA DO TIPO, MAS ALGO QUE ME CHAMOU MUITO A ATENÇÃO. EU VI UMA MULHER LOIRA MONTADA NAS COSTAS DE UM BRUTAMONTES GIGANTE, COM UMA MULTIDÃO DE HOMENS A SEGUINDO, E APARENTEMENTE VAEN ESTAVA ENTRE ELES. EU NÃO TENHO CERTEZA DISSO, POR ISSO EU VIM TE PERGUNTAR, MAS SE VO-

O QUÊ?! – a fúria de Chappa havia se acalmado (ainda que apenas um pouco) quando ela começou a ouvir o homem falando, começou a ter as respostas que queria, mas no momento em que ouviu aquilo sobre uma mulher a fúria reacendeu-se com toda a força. – Vaen... com uma mulher?! Que tipo de mulher?! Qual é o nome da sirigaita?!

– ... Sirigaita? – em uma situação normal, provavelmente teria notado o fato de que por uma vez Dayun estava falando de forma normal, sem sair gritando por aí, e provavelmente iria reagir a esse fato de forma exagerada, mas ali, com o que havia ouvido, ela nem notou isso. – Chappa, acho que você está compreendendo a situação um pouco mal-

COMO ELA OUSA?! – toda a raiva contida em seu corpo chegou ao seu máximo naquele instante. Seus olhos desapareceram, sendo substituídos por orbes dourados, e sua pele tornou vermelha, tão quente que seu suor derretia instantaneamente, fazendo com que fumaça saísse dela como se estivesse exalando vapor. Segurou firmemente sua arma com ambas as mãos, girou acima de sua cabeça e bateu de uma só vez o cabo dela no chão a sua frente, abrindo um buraco no teto da padaria destruída e causando uma violenta explosão com aquilo. Dayun, vendo o que acontecia, tomou a mais sábia decisão que um homem podia tomar em uma situação como aquela; afastou-se dela e de seu caminho, e mentalmente decidiu que, independentemente do que ela falasse ou fizesse, ele iria manter sua boca bem fechada. – Vaen é meu! Meu, meu, meu! Ele é meu futuro marido, futuro pai dos meus filhos! Como uma mulher qualquer ousa pensar em seduzi-lo?! Isso é inaceitável! Irei matar aquela vadia com minhas próprias mãos, e depois irei matar ele... com amor!

De uma vez, toda a expressão de Chappa mudou. Antes a mulher estava a um grau de diferença do que você esperaria em um demônio, faltando apenas um par de chifres em sua cabeça, mas subitamente ela se transformou em uma versão quase que angelical de si mesma, seus olhos brilhando puramente, seu rosto e feições parecendo tornarem-se ainda mais leves e macios. Seus dedos soltaram sua arma, deixando que ela repousasse contra seu ombro, e suas mãos acariciaram seu próprio rosto com ternura.

– Ah, sim ~♥ eu vou chutar a bunda dessa lambisgoia ladra-de-homens, e depois que eu fizer isso Vaen vai compreender seu amor por mim ♥ ele vai dizer algo como “Chappa, por favor, me perdoe, eu nunca deveria ter olhado para mulher alguma além de você” e eu vou responder com “hum, eu não deveria te perdoar, mas fazer o quê? Sou uma boa pessoa”. Aí ele vai me abraçar, me carregar no colo, me vestir de branco e vamos nos casar, e vamos passar nossa lua de mel numa praia e vamos fazer gêmeos nessa noite que vão nascer e vão ficar chamando ele de “mamãe” e eu de “papai” e vão ser adoráveis só que também vão encher o saco e vão começar a brigar entre si e depois vamos fazer mais gêmeos só que dessa vez mulheres e nossos gêmeos anteriores vão ficar com ciúmes dos novos mas vamos dizer pra eles que o nosso amor por eles é maior do que tudo e eles vão ficar felizes e vamos nos abraçar e ai vamos ter algum tempo livre que eu passarei deitada no colo de Vaen enquanto ele coloca uvas em minha boca ♥ ah, isso vai ser perfeito! ~♥

E depois de dizer aquelas palavras a mulher subitamente voltou a ter seu rosto tomado pelas feições demoníacas de antes, como se aquilo não tivesse acontecido. Dizer que Dayun estava confuso com tudo aquilo, começando a compreender o porquê de Vaen não gostar de ficar muito perto dela e começando também a se arrepender de ter decidido falar com ela em primeiro lugar seria atenuar demais a situação, mas novamente, Chappa não notou isso.

– Dayun! Guie-me! – gritou ela energeticamente, saltando para a beirada do prédio enquanto segurava sua arma acima de sua cabeça, seus olhos parecendo queimar em chamas de fúria e determinação. – Guie-me para que eu possa cortar a cabeça dessa serpente e me reunir com meu amado!

=====

Do topo de uma das poucas torres que continuava intacta naquela cidade, Cleus Jombaek observava a destruição que sua guilda havia trago até o Salão Cinzento. Pra onde quer que olhasse, o Pássaro de Fogo conseguia ver sangue, fogo e os corpos mutilados de homens mortos durante a batalha. Eu... suponho que isso é necessário. O Salão Cinzento está protegendo um dos demônios, afinal, e se não impedirmos a ressureição dos demônios, irão morrer tantas pessoas que o que está acontecendo aqui parecerá brincadeira de criança diante daquilo. Sabia disso e se mantinha consciente de tal, mas mesmo assim... simplesmente não era fácil aceitar aquilo. Me pergunto o que meu pai pensaria disso. Julain Jombaek sempre foi um homem muito honrado pelo que Cleus se lembrava, e aquilo definitivamente não era nada honrado, mas por outro lado, ele era alguém que havia aceitado de bom grado a morte para se ver livre do fardo de carregar nas costas a linhagem de um clã que um dia foi grande mas que agora havia caído em decadência. Era... difícil dizer o que ele pensaria sobre muitas coisas.

– O que está fazendo, Cavaleiro de Fogo? – questionou subitamente uma voz feminina atrás de Cleus, fazendo com que os outros do guerreiro se afiassem quase que imediatamente. Uma inimiga, compreendeu ele imediatamente.

Virou-se rapidamente para trás, bem a tempo de ver a mulher movendo uma espada contra seu rosto, e isso lhe deu apenas tempo o suficiente para que ele conseguisse reagir. Saltou para trás rapidamente, sentindo seus pés deixarem o chão e ficarem livres no ar; sabia que com aquele salto havia deixado o chão firme para ficar completamente no ar, mas não se importava com isso. Com suas habilidades, podia criar asas de fogo se assim quisesse, o que significava que ele não somente podia se safar de qualquer podia queda sem danos como também podia manobrar livremente mesmo ali, uma vantagem valiosa em um combate.

Ergueu seus olhos para fitar sua oponente, e por um momento ele a viu; uma cavaleira em armadura com cabelos prateados e um olho faltando, sorrindo de forma feliz e satisfeita enquanto olhava Cleus... apenas para que logo em seguida seu corpo parecesse se transformar em pura fumaça e se desvanecesse com o simples soprar do vento. Seus olhos se arregalaram ao ver aquilo, mas não teve tempo nem sequer para tentar entender o que havia acontecido; seus ouvidos captaram o som de um ruído, fazendo com que ele olhasse para cima bem a tempo de ver aquela mesma mulher em queda-livre na sua direção, sua espada erguida, pronta para cortá-lo em dois.

– Tch! – grunhiu o guerreiro das chamas, ativando os efeitos de Flamberge apenas a tempo o suficiente para que pudesse conjurar sua lâmina de fogo. Ergueu-a em sua defesa, e aço e fogo sólido colidiram com tanta força que o som desse choque ecoou em seus ouvidos. Seu corpo foi pressionado para trás com força, caindo em uma velocidade assombrosa, rápido demais para que Cleus pudesse tentar se controlar. Não tenho tempo para criar minhas asas... droga! Se tivesse suas asas de fogo disponíveis naquele instante, lidar com aquela mulher seria fácil, mas sem elas ele era forçado a controlar sua agressividade. Criou e concentrou chamas nas solas de seus pés ao mesmo em que esticava suas pernas tanto quanto podia, e só então usou aquelas chamas; liberou-as de uma vez em uma rajada de fogo que serviu para propulsioná-lo para longe, afastando-o daquela mulher. Essa é minha chance! Mesmo no ar, concentrou sua energia para criar suas asas de fogo novamente ao mesmo tempo em que girava em meio ao ar. Quando voltou a aterrissar, tinha suas asas ardendo às suas costas, sua lâmina queimando em seu braço e olhos afiados, prontos para encontrar e eliminar sua oponente.

E mesmo assim, ele não pode fazer isso. Simplesmente porquê, no momento em que seus olhos caíram sobre ela, pôde apenas ver um sorriso arrogante brilhar no rosto da mulher por um momento antes que uma leve brisa tornasse a soprar, e o corpo poeira e pó.

Dessa vez sua reação foi muito mais rápida do que antes. Deixou que seus instintos agissem antes da racionalidade, e foram eles que fizeram com que ele colocasse sua lâmina de fogo às suas costas, bem a tempo de bloquear com ela a espada da mulher. Virou levemente seu rosto em direção a ela, sério, e pela primeira vez viu o rosto da mulher completamente sério quando os olhos dela caíram sobre ele; aparentemente, havia deixado-a um tanto quanto desapontada ao bloquear seu golpe triunfal sem grandes dificuldades. Mas isso é culpa dela, e unicamente dela.

– Não me subestime, mulher – alertou ele, deixando que uma pequena parcela da irritação que havia sentido com tudo aquilo soasse em sua voz. – Você já usou esse truque contra mim... quantas vezes acha que ele funcionaria? Um truque repetido não vai funcionar contra mim.

O rosto da mulher ficou um pouco mais mal-humorado ao ouvir aquilo, uma veia saltitante surgindo na testa dela... mas isso não durou muito. Logo a expressão naquele rosto começou a subitamente mudar, alternando do mal humor para uma aparentemente satisfação em um instante. Ver aquilo foi o bastante para que soubesse de imediato que algo estava errado ali, mas já era tarde para isso.

Sentiu uma força estranha atuar seu corpo, empurrando-o pelo lado, exercendo uma pressão inacreditável sobre seu corpo. A própria armadura que cobria aquele lado de seu corpo pareceu dobrar e se entortar perante a esse poder, afundando para dentro e perfurando a carne do guerreiro fazer isso, fazendo com que ele sentisse como se dezenas de adagas estivessem lhe perfurando. Merda! Seus dentes estalaram, tamanha a força com a qual os mordeu, e antes de muito ele firmou seus pés no chão com toda a força para tentar manter-se firme. Não funcionou. Por mais que tentasse lutar, Cleus foi jogado para longe com facilidade, sendo lançado contra uma casa arruinada em chamas próxima.

Uma das partes em chama da casa caiu sobre seu rosto, ameaçando queimá-lo, mas afastou-a rapidamente com seus braços, rangendo os dentes quando as chamas tocaram a armadura e seus ferimentos. Ergueu-se de um salto, e seus olhos foram imediatamente para analisar os danos causados pelo ataque. Em sua perna e na lateral de seu corpo eles não eram tão severos; o aço e o ferro haviam se quebrado, é verdade, e parte desses havia sido empurrado pela força contra ele, fazendo com que eles perfurassem seu corpo de forma dolorosa, mas isso ainda era muito pouco se comparado ao que realmente era problemático.

Porcaria. Havia notado que havia sentido mais dor do que deveria quando usou seu braço, e agora sabia bem o porquê. O destino do membro não foi tão simples ou gentil quanto o das outras partes de seu corpo – nele, a armadura havia não apenas sido quebrada, mas sim empurrada, deformada. Se um homem cobrisse seu braço em aço e o colocasse no fogo, o aço iria aquecer, tornar-se moldável, e eventualmente se tornaria um com a carne. O que havia acontecido não era muito diferente, só que feito a partir de força pura ao invés de calor.

Nesse estado, esse meu braço está praticamente inutilizado. Mal conseguia movê-lo com aqueles ferimentos sem que sentisse dor correr por todo o seu corpo, e isso não era nada bom. Pelo menos esse não é o meu braço de espada. Se fosse esse o braço no qual uso Flamberge, minha capacidade de luta cairia drasticamente. Ainda assim, esse agora era um ponto fraco dele. Sem meu braço, todo um lado do meu corpo está exposto, sem que eu possa me proteger de forma efetiva. Continuar lutando em um estado como aquele seria estúpido, mas ao mesmo tempo, Cleus não podia simplesmente abandonar a luta; seu orgulho e seu senso de dever lhe impediam de fazer isso.

Felizmente, ele tinha uma alternativa que resolvia seus problemas.

Sem pensar suas vezes, cravou sua lâmina de fogo no chão e deixou que as chamas dela se espalhassem, formando um círculo do fogo ao redor de seu corpo, envolvendo-o como que em um campo ritualístico. Saco, pensou ele, franzindo um pouco o cenho.

Eu odeio essa parte, foram as palavras que passaram por sua mente no momento em que as chamas que lhe cercavam avançaram contra ele, engolindo seu corpo e todo o interior da casa.

=====

Assobiou, levemente impressionada pelo poder ofensivo que seu companheiro havia demonstrado com aquele ataque. Nada mal, nada mal mesmo. Virou seu rosto para fita-lo, e viu que ele sorria para ela. De pele negra com cabelos prateados, Goa era um dos cavaleiros menos respeitados e mais temidos em todo o Salão Cinzento. Não devido a motivos tolos como a sua cor de pele ou a cor invertida dos seus olhos, lógico, mas por outras questões; sua preferência à magia sobre as artes físicas de luta, sua presença sempre calma, simpática e controlada independentemente da situação, e mais do que tudo, a forma desconcertante como ele podia arrancar os ossos de um homem com um sorriso no rosto e a frequência assustadora com a qual ele o fazia. Podem não gostar dele... mas certamente não podem dizer que ele é fraco, também. Havia visto vários dos Primeiros Cavaleiros em batalha, e pelo que Goa havia demonstrado ali, ousava dizer que ele era um dos mais fortes.

– Valery “a Miragem” – disse o mago-guerreiro, curvando seu corpo para ela de forma respeitosa, sempre mantendo um fino sorriso em seu rosto, quase que invisível. – Peço-lhe desculpas se lhe incomodei com isso. Não era minha intenção roubar seu oponente, mas me pareceu que você poderia usar um pouco de ajuda, e estando sob ataque como estamos, dificilmente temos tempo para duelos.

– Sem problemas com isso – talvez isso fosse devido ao fato de ter passado mais tempo fora do que dentro do Salão Cinzento, talvez isso fosse por ela ter uma mente um pouco mais aberta do que a da maioria de seus companheiros ou talvez isso fosse devido ao fato de não conhecer Goa tão bem quanto poderia, mas não tinha problemas com ele como os outros tinham; era um pouco estranho, sim, mas nada sério demais. – Não sou uma mulher egoísta, Goa. Divido as coisas com meus companheiros. E além do mais... eu não acho que nosso oponente foi derrotado com apenas isso.

Não sabia dizer se aquilo havia realmente acontecido devido ao fato de Goa parecer estar perpetuamente sorrindo, mas teve a impressão de que o sorriso no rosto dele alargou-se um pouco mais no momento em que ele ouviu aquelas palavras. O rosto do cavaleiro se moveu levemente, virando-se em direção à casa para na qual o guerreiro havia sido arremessado, observando-a com um interesse claro.

– Não – disse ele, simplesmente. – Eu não acho que foi.

Sorriu levemente ao ver isso. Bom, essa vai ser certamente uma batalha interessante. Era raro que dois dos Primeiros Cavaleiros trabalhassem juntos por um motivo qualquer, e o oponente deles parecia ser forte o suficiente para conseguir ao menos aguentar alguns momentos de luta. Voltou seus olhos para a casa também, sempre segurando firmemente sua espada com ambas as mãos para poder reagir rapidamente a qualquer coisa que ele tentasse... mas mesmo preparada para tudo como estava, não pode deixar de se surpreender quando a casa simplesmente desapareceu em uma explosão de chamas puras vindas do nada.

Recuou um passo para trás, não sabendo o que havia provocado aquilo. Isso foi um ataque? E se sim, de quem? Dele? De algum outro inimigo? De algum aliado? Haviam contratado mercenários, sabia disso, mas desconhecia as habilidades deles, algo do qual estava se arrependendo amargamente. Droga, isso não é bom! Tinha de partir do princípio de que aquilo havia sido feito pelas mãos de algum inimigo, mas mesmo isso não lhe dava muito com o que trabalhar – de que adiantava saber que um inimigo havia feito aquilo se ela não tinha a menor ideia de como combater aquilo, ou de onde estava o inimigo em questão?

Não teve muito tempo para pensar no que fazer; para sua surpresa, seus olhos notaram algo rapidamente em meio a explosão, como se algum tipo de corpo estranho estivesse sendo lançado para fora dela. Não teve dificuldades em entender o que deveria ser aquilo, mas isso não significava que teve tempo para reagir à isso; antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, um grande pássaro de fogo emergiu do meio das chamas, batendo suas asas enquanto cortava o ar com facilidade, avançando contra Goa com uma velocidade alucinante.

Teve tempo apenas o suficiente para virar seu rosto em direção ao cavaleiro e ver o que se desenrolou. Viu o momento em que o pássaro de fogo transformou-se no guerreiro que enfrentavam antes, e viu bem o momento em que o punho desse guerreiro – intacto, como se Goa nunca tivesse lhe atingido – acertou um gancho em cheio bem na boca da barriga do cavaleiro, erguendo o homem do chão com facilidade, a força por trás do golpe sendo tanta que a simples onda de impacto que ele gerou foi o suficiente para que o chão sob os pés do guerreiro se quebrasse em pequenos pedaços e a própria Valery sentisse essa mesma onda de impacto empurrando seu corpo, ameaçando arremessa-la longe.

E então, como se tudo aquilo não fosse o bastante, chamas irromperam do punho do guerreiro, fazendo com que um brilho vermelho viesse dos dois e com que Goa, o famoso como mais cruel dos cavaleiros do Salão Cinzento, gritasse em dor.

Seu corpo foi arremessado ao ar com o manto que antes ficava preso a sua armadura queimado quase que até as cinzas, a armadura que antes envolvia a sua barriga estando quebrada, um buraco aberto nela pela força do soco do guerreiro ao mesmo tempo em que uma marca vermelha e ardente brilhava, criada pelas chamas de seu adversário. Como ele fez isso? Como ele fez tudo isso? Não só ele havia de alguma forma se transformado num pássaro de fogo e se movimentado com uma velocidade absurda, ele também havia golpeado Goa com um braço aparentemente ileso que deveria estar severamente danificado com uma força bruta capaz de fazer com que muitos dos cavaleiros do Salão parecessem crianças perto dele, incluindo até mesmo Primeiros Cavaleiros. Ele não deveria ter tanta força assim! De onde foi que ele tirou toda essa força? Como foi que ele se curou?! Não entendia nada disso, e isso lhe deixava mais do que confusa.

Tão absorta estava em seus pensamentos, nem sequer viu seu oponente preparando-se para lançar um ataque contra ela. Apenas se deu conta de que isso estava acontecendo quando o brilho da lâmina de fogo incomodou seus olhos, e mesmo isso lhe deu pouco mais do que um instante para reagir. Saltou para o lado apenas a tempo de evitar a onda de fogo que foi liberada da lâmina de seu oponente, cortando o chão em dois como se fosse uma faca quente e queimando tudo ao seu redor com um calor insuportável; havia conseguido evitar seu ataque por completo, ainda que por pouco, mas mesmo assim sentia-se como se toda a sua perna tivesse sido consumida pelas chamas.

Mal aterrissou, virou-se imediatamente para o homem, séria, preparada para defender-se ou desviar-se de algum tipo de ataque surpresa dele, mas nenhum veio. Aparentemente, por algum motivo seu oponente decidiu apenas ficar parado aonde estava, observando-a calmamente e sem muito interesse aparente, enquanto Goa girava no ar e aterrissava em bom estado no chão do outro lado, o sorriso fino ainda presente em seu rosto apesar de ter sido atingido por um golpe tão forte como aquele, embora ele parecesse de alguma forma um pouco mais hostil e irritado depois do que havia acontecido. Isso colocava o oponente deles em uma posição complicada, com Goa a sua frente e Valery à sua direita, mas apesar disso ele parecia bem confortável, como se aquela situação não lhe incomodasse nem um pouco.

Os olhos do guerreiro moveram-se entre ela e Goa com calma e parcimônia, sem demonstrar preocupar nenhuma com nenhum de seus oponentes. As chamas que constituíam suas asas e lâmina pareciam mais fortes agora, mais selvagens, brilhando e dançando ao redor dele como se ameaçassem consumi-lo por inteiro, mas sem nunca tocar sua pele. O que ele está fazendo? Havia imaginado que, tendo se recuperado dos danos anteriores como ele aparentemente havia feito, o homem iria prontamente concentrar-se em dar um fim a eles, mas não aparentava ser esse o caso ali. Na verdade, apesar de tudo, ele parecia... desligado, de certa forma. Como se sua mente estivesse em algum outro lugar. Em uma situação normal, eu estaria me aproveitando disso nesse instante para cortar a cabeça dele, mas não sei se essa seria uma boa ideia. Sentia-se tentada a fazer isso, sim, mas não sabia se aquilo era apenas uma armadilha feita propositalmente pelo homem para que ele obtivesse vantagem... e francamente, apesar de tudo, simplesmente não sentia que seu oponente havia abaixado sua guarda.

– Faz muito tempo desde a última vez que usei este... recurso – disse subitamente o guerreiro, chamando a atenção de ambos os cavaleiros. Sua voz veio tão calma quanto a aparência dele sugeria que ele estava, mas ao mesmo tempo, soou estranha. Aos ouvidos de Valery e provavelmente aos de Goa também, ela soou estranhamente... melancólica. – Até hoje não me acostumei com isso. É algo útil, sim, muito útil... mas algo que eu preferiria nunca ter de usar.

Seu olhar então moveu-se para a lâmina de fogo que dominava um de seus braços, observando-a de forma melancólica com um olhar longínquo que fazia parecer que ele estava mais olhando o seu próprio passado do que as chamas sólidas. Eu... eu oficialmente não estou entendendo mais nada aqui. Sentia-se tão confusa quanto se tivessem lhe jogado em uma ilha deserta sem um mapa ou bússola, tentando achar uma saída dali.

E então, subitamente, a outra mão do guerreiro se fechou em um punho, seu olhar mudou de longínquo e melancólico para sério e duro e seus olhos voltaram a fita-la, prometendo batalha. Em um instante ele havia passado de um grande guerreiro para um homem melancólico, e em menos que isso ele voltou ao seu estado original.

– Meu nome é Cleus Jombaek, o Pássaro de Fogo do Olho Vermelho – anunciou ele com apenas a mais simples das cortesias; o tipo de cortesia destinado apenas a oponentes que você planejava matar. – Minha Aloeiris é “Fênix”. Uma Aloeiris bem simples; praticamente tudo que ela envolve é o domínio, criação e manipulação do fogo... mas existe uma habilidade secreta dela, uma habilidade importante. Vocês são familiares com o mito da fênix, cavaleiros?

Trocou um olhar com Goa naquele momento, e pelo que pode ver, o que estava passando na mente do outro deveria ser o mesmo que passava pela sua. Fênix, ele diz? Conhecia o mito da fênix, sim, a ave flamejante, mas não via aonde ele queria chegar com aquilo. A não ser que... não, não é possível. Eu não posso acreditar que alguém assim existe.

– A fênix é uma ave feita de puro fogo, chamas que sempre queimam com um calor que rivaliza o próprio calor do sol – explicou Cleus, com um tom de voz que fazia parecer que ele estava dando uma lição de história a um bando de crianças. – Isso por si só já é algo fantástico, creio que podemos concordar nisso, mas a verdadeira questão que trouxe a fênix ao mundo dos mitos era a habilidade especial que essa ave possuía. Quando ferida, a fênix cometia suicídio; ela se matava, usando suas próprias chamas para se queimar até que não existisse nada. Vocês conhecem o Ouroboros, a serpente que come a própria cauda? É isso que a fênix fazia; ela consumia a si mesma.

“E era isso que fazia com que ela fosse tão forte.

Uma fênix não morre nas chamas. Ela nasce nas chamas. Muitas pessoas acham que o mito da fênix é que ela é uma ave imortal, algo que sempre retornará a vida ao morrer. Esse não é o caso. O suicídio da fênix é, na verdade, seu renascer. As chamas lhe consumem porque é a partir delas que a fênix irá nascer, e é por isso que ela sempre retornava em perfeito estado. Fênix nunca morre; ela simplesmente fica nascendo de novo e de novo, completamente curada de seus ferimentos anteriores, mais forte do que antes.

O mesmo princípio funciona comigo.”

As chamas de Cleus cresceram com aquelas palavras, queimando ainda mais forte, e lentamente o guerreiro ergueu sua lâmina de fogo a frente de seu corpo.

– Cada vez que meu corpo é consumido por chamas, eu renasço, completamente curado e mais forte do que antes. Isso não é algum tipo de imortalidade, eu morro como qualquer outro homem se uma lâmina perfurar meu coração... mas deixe-me lhe avisar disso; se vocês planejam me matar, façam isso com um único golpe. Se falharem, eu vou renascer, e cada vez que isso acontecer, eu estarei em um nível completamente diferente do meu anterior... desse jeito!

Chamas envolveram o corpo de Cleus de uma só vez, tão fortes que mesmo de longe Valery conseguiu senti-las como se estivessem queimando seu corpo, e um instante depois a mesma ave flamejante de antes irrompeu delas, vindo dessa vez em direção à própria Valery. Oh, não, porcaria, não! Afastou-se tão rápido quanto pode sem nunca tirar os olhos da ave, mas isso foi inútil. A velocidade que o homem atingia era muito além do que qualquer coisa que podiam fazer. Em um instante a ave estava sobre ela, e dessa ave emergiu Cleus , envolto por chamas, sua espada de fogo descendo contra ela.

E quando a lâmina ardente cortou ao meio sua miragem, Valery sorriu.

=====

Estalou seus dedos e observou sem muito interesse as cabeças dos cavaleiros que tentaram avançar contra ele explodirem em milhares de pedacinhos.

Suspirou e passou as mãos por seus cabelos, sentindo-se mais cansado do que sabia que estava, simplesmente pelo fato de que seu trabalho estava sendo terrivelmente entediante. Balak se preocupou demais. Ele tratou todo esse ataque como algo extremamente sério e perigoso, dizendo que os cavaleiros do Salão Cinzento seriam oponentes poderosos e perigosos. Até então, no entanto, J havia falhado em ver qualquer perigo em seus oponentes.

– Nossa, que baderna hein? – disse subitamente uma voz estranha, alegre e animada, fazendo com que seu rosto se movesse preguiçosamente em direção a ela. – Parece que você esteve bem ocupado aqui, membro do Olho Vermelho.

O homem que falava era uma figura estranha. Seu cabelo parecia dividido em duas partes principais; a primeira – localizada na frente e tingida de verde – estava espetada para baixo, formando uma franja que caia sobre os seus olhos, enquanto que a segunda – localizada atrás e aparentemente tingida de branca – era espetada para cima, de uma forma que lembrava um pouco um abacaxi. Aquele homem não trazia armadura; ao invés disso, o que ele vestia era um robe branco bem limpo com mangas longas e o símbolo do Salão Cinzento cosido no lado esquerdo de seu peito. Em geral, ele pareceria alguém sério – ainda que um pouco excêntrico – não fosse pelo fato de que ele estava em cima de uma casa arruinada, montado no que parecia ser pouco mais do que um cabo de vassoura com uma sacola verde na ponta como se isso fosse um cavalo.

... Beleza. Que porra é essa?

– Você se pergunta quem sou eu, não é, vilão? EU SEI QUE VOCÊ SE PERGUNTA! – com um sorriso no rosto, o dedo do estranho cavaleiro apontou para cima, e sem nem saber bem o porquê disso, J acompanhou esse dedo. O cavaleiro aproveitou-se disso para saltar ao chão, aterrissando perfeitamente, e como que em comemoração à isso ele fez algo que J só pode identificar como uma rápida “dancinha da vitória”, jogando seu “cavalo” de lado ao fim disso. – Eu, meu bom vilão terrível, sou o herói dessa história! O homem pelo qual as donzelas choram, o herói pelo qual os oprimidos clamam! Meu nome é Kazegami, Primeiro Cavaleiro da quinquagésima oitava leva do Salão Cinzento, chamado de “Cavalo Verde”!

Eu não tenho a menor ideia de quem você deve ser, e francamente, eu também não dou a mínima. Pelo pouco que já havia visto até ali, aquele cara era completamente louco, e francamente, não tinha paciência alguma para lidar com loucos naquele momento. Melhor acabar com isso de uma vez. Sua mão esquerda se ergueu lentamente, preparando-se para estalar seus dedos...

Mas antes que sua mão sequer terminasse de se erguer, sentiu uma dor fulminante correr por todo o seu corpo e ouviu o som de seu braço cair ao chão.

Seus olhos se arregalaram e imediatamente foram para o membro decepado, fitando-o com uma incredulidade impossível de colocar em palavras. Logo em seguida eles foram para o cavaleiro, e o que viram pareceu algo completamente diferente de antes. A franja verde de Kazegami cobria seus olhos por completo, fazendo com que o cavaleiro ganhasse um ar sinistro, e ao redor dele soprava um leve vento, sacudindo suas roupas e cabelos, concentrado especialmente ao redor de sua mão direita.

– Embora, creio que eu também deva me apresentar pelo meu outro título – disse ele, sua voz soando muito mais ameaçadora do que antes agora. Seus olhos brilharam por trás das mechas de seu cabelo, e o sorriso que ele mostrou ia literalmente de orelha a orelha, o sorriso de um homem louco, de um psicopata insano. – Kazegami “do Vento do Desespero”. Prazer em lhe conhecer, J do Olho Vermelho. Eu sou o homem que vai te fazer chorar como uma garotinha!

E ao dizer aquelas palavras, Kazegami imediatamente começou a agir. Seus joelhos se dobraram, seus braços foram jogados para trás e depois moveram-se para frente em ângulos abertos, como se fossem foices, e o vento que J havia visto antes acompanhou seus movimentos como se fossem extensões de seus membros. Casas a direita e esquerda foram cortadas limpamente em duas por lâminas de ar concentrado em alta velocidade, e para impedir que seu corpo tivesse o mesmo destino, J teve de saltar rapidamente. Mas que tipo de força insana é essa?! Mal podia acreditar no que via. Ninguém além dos melhores do mundo deveria ter algum tipo de força tão monstruosa como essa, e pensar que esse homem teria uma força dessas em mãos... isso é absurdo!

Tentou olhar na direção do homem para poder usar sua habilidade sobre ele, mas foi frustrado ao ver que ele simplesmente não estava mais ali. O quê?! Como ele desapareceu assim tão rápido?! Moveu seus olhos rapidamente ao redor, tentando encontrar seu oponente, mas não teve sucesso.

– Ei, psiu – o som daquele sussurro em seu ouvido fez com que calafrios corressem por seu corpo imediatamente, e foi com hesitação que moveu sua cabeça para ver Kazegami planando calmamente no ar acima dele, sua mão erguida e cercada por ventos violentos. – Você não viu? A previsão do tempo de hoje prevê ventos fortes!

E sem que pudesse reagir ou dizer nada em resposta a isso, a mão do Vento do Desespero desceu, cortando suas costas.



Notas finais do capítulo

ÁREA OESTE:

Enderthorn VS Octo Gall (Vencedor: Enderthorn)
Enderthorn VS Raptor (Em andamento)
Vaen VS Lilybell (Vencedora: Lilybell)
Jiazz VS Maoh (Vencedor: Jiazz)

ÁREA SUL

Kuman VS Fera (Vencedor: Fera)
Skylar VS Fera (Vencedor: Skylar)
Skylar VS Cleus (Vencedor: Cleus)
War e Coralina VS Nicholas (Vencedores: War e Coralina
Trevor VS Maverick (Em andamento)
War, Coralina, Ogre, Ekhart e Clone das Sombras VS Agnes, Ibur e Dokurei (Em andamento)
Bokuto VS Zodwik (Vencedor: Bokuto)
Bokuto VS T.I.T.A.N. (Em andamento)
Valery e Goa VS Cleus (Em andamento)

ÁREA LESTE

Alexander VS Goliath (Vencedor: Alexander)
Alexander VS Steelex (Vencedor: Steelex)
Zephyr VS Balak (Em andamento)
Kazegami VS J (Em andamento)



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "O Olho Vermelho" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.