O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 29
A Honra de Um Cavaleiro


Notas iniciais do capítulo

Existem várias coisas que um verdadeiro cavaleiro nunca irá fazer.

Um verdadeiro cavaleiro nunca via roubar. Um verdadeiro cavaleiro nunca vai mentir. Um verdadeiro nunca vai ser desonesto, tal como um verdadeiro cavaleiro nunca vai ser injusto.

Mas acima de tudo, um verdadeiro cavaleiro nunca vai desistir.



Ergueu seu braço tão rápido quanto pôde, e de alguma forma conseguiu bloquear o punho de Steelex com ele. A terra abaixo de si tremeu com aquilo, e por um momento ou seus olhos encontraram os de seu oponente; duros e negros como pedras de ônix. Esse cara... ele é muito forte! Sua força física era um dos pontos mais fortes de Alexander, uma das coisas das quais ele mais se orgulhava, mas mesmo assim ele mal era capaz de bloquear o golpe dele. Meu pressentimento estava certo. Esse vai ser um oponente difícil. Mas de certa forma, isso era bom. Um desafio é bom de vez em quando. Ele mantém um homem afiado.

Havia bloqueado o soco de seu oponente com um de seus braços, o que deixava seu outro braço livre para uso. Seu punho moveu-se rapidamente, lançando um soco direto em direção ao homem de aço, mas antes que que seu golpe lhe atingisse Steelex desapareceu em pleno ar. A explosão veio ainda assim, e mesmo não sendo dessa vez forte o suficiente para jogar Alexander pra trás, ela ergueu uma cortina de poeira e fumaça que lhe deixou praticamente às cegas ali. Merda, merda! Seus olhos dispararam pra esquerda e pra direita, tentando achar seu oponente, captar qualquer traço dele. Isso é mal! Isso é mui-

Um chute poderoso na lateral do seu estômago arrancou-lhe de seus pensamentos, fazendo quase com que Alexander sentisse o início de um refluxo quase que imediatamente. Tentou ainda segurar a perna de seu oponente com sua mão para poder contra-atacar, mas não teve chance. Antes que sequer pudesse realmente tentar fazer isso, sentiu Steelex sumir das suas costas, apenas para tornar a aparecer bem à sua frente, lançando um poderoso chute direto no queixo do cavaleiro. Seu corpo foi arremessado para o ar pela força do golpe, mas nem isso foi o suficiente para satisfazê-lo; desferiu um soco na boca do estômago de Alexander que fez com que o Estouro se curvasse, e no momento em que ele fez isso teve a visão do punho de aço de Steelex seguindo novamente em direção ao seu rosto... só que dessa vez, ele não tinha chance alguma de bloquear ou evitar aquele golpe.

Gancho de Aço! – gritou Steelex, ao mesmo tempo em que seu golpe atingia o rosto de Alexander em cheio. Se o chute dele havia sido o suficiente para tirar os pés do Grande Estouro do chão, aquilo foi o bastante para arremessa-lo realmente ao ar; sangue veio de seus lábios rachados e dois ou três de seus dentes se quebraram, brilhando no ar. E não satisfeito por aquilo, ainda foi alvejado por Steelex enquanto estava no ar; de alguma forma o homem havia conseguido se mover terrivelmente rápido, planando no ar pouco acima do Terceiro Cavaleiro, e com um poderoso golpe de cotovelo ele tornou a jogá-lo ao chão, fazendo com que seu corpo fizesse uma pequena cratera ali.

Sentia como se todos os ossos de seu corpo tivessem se quebrado depois daquela sequência de ataques. Isso é... absurdo... Nem sequer havia sido capaz de acompanhar os movimentos de seu oponente. Steelex era tremendamente rápido e tremendamente forte, uma combinação que por si só era mortal. Cada um dos golpes dele é forte como se alguém estivesse me acertando com uma marreta, e a velocidade só faz com que eles sejam ainda mais eficazes. Naquele exato momento, com a cara afundada no chão, estava tentando pensar em alguma forma de lidar com tudo aquilo, mas não conseguia pensar em nada. Em primeiro lugar, eu preciso ser capaz de atingi-lo, o que, considerando o quão rápido que ele é, seria algo no mínimo improvável. Depois tenho de levar em conta que, considerando que as habilidades dele aparentemente são relacionadas ao aço, ele deve poder aumentar a resistência do seu corpo. Não conseguia pensar em nada efetivo contra um oponente como aquele.

– Isso é tudo que preciso para te jogar no chão, Terceiro Cavaleiro? – questionou a voz de Steelex, os passos do homem sendo ouvidos por aí. O mercenário, estava bem certo de que ele era um mercenário, parecia insatisfeito pela demonstração de Alexander, decepcionado com a facilidade com a qual ele dominava a luta. Não o culpo por isso. Eu também estou um tanto quanto decepcionado comigo mesmo. – Isso é patético. Erga-se, se não pelo seu orgulho, pelo do seu grupo.

Uma risada irônica e amargurada veio da sua garganta ao ouvir aquilo. Nunca pensei que um dia um oponente estaria mandando eu me erguer pelo meu próprio orgulho. Aquilo realmente era absurdo, absurdo demais... mas ele não iria negar-se a fazer algo assim. Teve alguma dificuldade, mas colocou-se de pé de alguma forma, e com seus joelhos tremendo um pouco, virou-se em direção a Steelex.

– Não me diga o que fazer, garo-

Sua frase foi cortada quando viu o punho de Steelex vindo novamente em sua direção, sem mal dar-lhe tempo de voltar a batalha. Reagiu a isso puramente à base de instintos; seu próprio punho foi contra o dele, e os dois se chocaram no centro. A explosão que acompanhava seus ataques normalmente não veio imediatamente, no entanto. Merda, será que esses golpes que eu levei danificaram os dispositivos de alguma forma? Isso parecia o mais provável, mas de qualquer forma não tinha tempo para pensar nisso. Mediu forças com seu oponente, um tentando empurrar o outro, e para seu desespero viu que ele estava perdendo, seu braço sendo forçado cada vez mais a recuar. Ah, não! De novo não! Enfurecido com o pensamento de continuar apanhando, concentrou todas as suas forças em seu punho e subjugou de uma só vez o punho de Steelex, lançando o braço do mercenário de volta para trás e acertando um soco em cheio direto no rosto dele.

E foi então que a explosão veio.

Ao contrário das anteriores – que ao menos tinham algum tipo de controle por parte de Alexander – aquela explosão foi muito mais forte, muito mais violenta, e isso fez com que ela fosse uma verdadeira faca de dois gumes. A força por trás dela foi o suficiente para que seu oponente fosse arremessado para longe quase que imediatamente, quebrando algumas casas com seu corpo enquanto voava, mas da mesma forma ela também custou ao Terceiro Cavaleiro; caiu de joelhos no chão, mordendo seus próprios dentes com tanta força que sangue chegava a sair deles, tudo para que não gritasse em dor. Seu braço direito havia se transformado em uma ruína; pedaços de aço e ferro estavam grudados na pele, e em vários locais ele tinha verdadeiros buracos causados pela explosão. Quase tudo o que se podia ver de seu braço estava queimado em carne pura, fedendo de uma forma que fazia com que o estômago de Alexander revirasse dentro de sua barriga. Merda, isso dói! Isso dói demais! Tentou segura-lo, mas não conseguiu; vomitou no chão, sangue e restos de alimentos misturados, e isso fez com que ele visse bem o quão miserável estava naquele momento. A que ponto cheguei. Um orgulhoso cavaleiro do Salão Cinzento aqui, caído de joelhos enquanto cercado por uma cidade que arde em chamas, seu vômito na sua frente e seu braço completamente fodido por seu próprio ataque. Aquilo parecia uma piada, uma piada de péssimo gosto.

– Esse foi um bom soco – comentou a voz de Steelex, soando completamente indiferente, apesar de que mesmo assim Alexander foi capaz de dizer que havia um certo senso de satisfação nela. – Parece que ele te custou caro, no entanto. Isso é uma grande pena. Se fosse capaz de manter o nível, você seria um oponente muito melhor. – ergueu sua cabeça ao ouvir aquilo, e no momento em que fez isso, viu o mercenário caminhando lentamente em sua direção, o braço esquerdo dele completamente negro, sendo que apenas a metade superior deste ainda lembrava algum tipo de braço; do seu cotovelo pra baixo, o braço de Steelex havia se transformado em uma pura lâmina negra, refletindo as chamas da cidade ardente enquanto se erguia ameaçadoramente, sua ponta apontando direto para seu pescoço. – Não importa, eu acho. Você morre agora, Alexander Malkov.

Rangeu os dentes ao ouvir aquilo, já sabendo estava por vir. Levantou-se tão rápido quanto pode, sabendo que precisaria de todas as vantagens possíveis para lidar com a velocidade de seu oponente, mas mesmo isso foi lento demais; nem sequer viu Steelex, mas sentiu o soco que seu adversário acertou em cheio em seu rosto, lançando-lhe direto contra a parede de uma casa próxima. Normalmente um impacto tão forte quanto aquele faria com que a parede se despedaçasse imediatamente em suas costas, mas aparentemente aquela era dura o suficiente para que isso não acontecesse, o que acabou indo contra Alexander. Um grito agoniado de dor escapou de sua garganta no momento em que o que parecia ser um pilar ou dardo de aço foi disparado da palma da mão direito de Steelex, atingindo seu braço ferido na área do cotovelo e prendendo-o por esse na parede. O sangue fluiu e a dor correu por todos os seus nervos, mas nem teve muito tempo para focar-se nisso; em um passe de mágica, Steelex estava novamente bem à sua frente, e com um movimento simples e rápido o mercenário perfurou o peito de Alexander com sua espada.

Sentiu seu corpo perder todas as forças de uma só vez no momento em que isso aconteceu. Seus olhos se arregalaram e depois se acalmaram, sua visão turva, como se ele estivesse embriagado. Estou perdendo a consciência, compreendeu ele, e tentou lutar contra isso com todas as forças, mas isso simplesmente era inútil. Antes seu corpo todo doía e ele odiava isso, mas quando começou a parar de sentir os membros de seu corpo... isso lhe deixou verdadeiramente com medo. Eu... eu... eu estou... morrendo...

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– Sua mãe, você disse? – perguntou Nicholas, ainda esticando as costas como que para afastar a dor das suas costas depois de ter recebido o seu golpe direto. Droga, eu pensei que faria mais com aquilo. Seu golpe havia sido lançado com a intenção de congelar e quebrar por completo as costas do homem, separar seu corpo em dois para que depois tivesse apenas de esmagar sua cabeça sob seu pé, mas aparentemente Nicholas era duro demais para que ele pudesse fazer algo assim... e isso, junto da habilidade regenerativa que o homem tinha, fazia dele um oponente muito complicado. Preciso mata-lo com um bom golpe, um único golpe fatal. Se eu lhe der meia chance, Nicholas se recupera, e voltamos pra estaca zero. Ou pior. Considerando que teria de gastar energia em seus ataques para ter uma chance de eliminar seu oponente, ele estaria ficando progressivamente mais fraco à medida que a luta fosse se estendendo. Se demorasse muito naquela batalha, seria eventualmente derrotado. – Sabe, acho que me lembro disso. Sim, me lembro bem. – um sorriso fino brilhava no rosto de Nicholas, como se ele estivesse se recordando de uma boa memória, e isso fez com que War começasse a sentir seu sangue arder em suas veias, apesar de lutar para manter-se sobre controle. – Quando eu estava estuprando aquela mulher, a que me levou pra cadeia, eu lembro que tinha um garotinho por perto, embaixo de uma mesa. Paralisado de medo, olhando tudo de olhos esbugalhados. Pensei em mata-lo, mas não consegui. Nunca fui brutal o suficiente para fazer mal a uma criança, sabe? – seus olhos então caíram sobre War com interesse, e uma leve risada veio de sua garganta, seca, mas satisfeita. – E agora, olhem só. Aquele garotinho miúdo se transformou num homem, e agora ele quer minha cabeça. Não é divertido isso?

Respondeu com um ataque. Dobrou rapidamente suas pernas e avançou agressivamente contra o estuprador, movendo primeiro seu punho direito em um direto, ventos gélidos cercando seu braço. Nicholas desviou facilmente disso movendo-se para o lado, apesar do ar frio ainda ser o suficiente para congelar um pouco a barba do criminoso, fazendo com que ele ficasse um pouco mais cuidadoso. Tentou acertar-lhe com um cruzado de esquerda, mas ele se abaixou muito antes que seu punho pudesse atingi-lo, e sem dar tempo ou chance para que War esboçasse algum tipo de reação a tudo aquilo, o punho do estuprador atingiu-lhe direto no umbigo com uma força tão grande que por um momento pensou que esse iria atravessá-lo. Seu corpo curvou-se para frente, seus olhos esbugalhados, e Nicholas aproveitou-se disso: segurou um punhado dos cabelos de War com uma das mãos e por eles puxou o corpo do homem de volta, forçando-o a ficar novamente ereto. Tentou aproveitar-se do impulso para acertar uma cotovelada no rosto dele, mas Nicholas previu seu ataque; com uma das mãos ele segurou o cotovelo de Nicholas, e com uma das pernas ele desferiu um forte chute direto nas costelas de War. Gemeu de dor ao sentir o impacto e por um momento perdeu o foco, e Nicholas aproveitou-se desse momento para desferir um poderoso tapão em cheio no peito de War, jogando-lhe imediatamente ao chão.

Um grito agonizado de dor começou a vir de sua garganta quando aquilo aconteceu, mas seu oponente não lhe deu a chance nem sequer de fazer aquilo. O pé de Nicholas pisou com força em sua garganta, pressionando-a contra o chão como se quisesse esmaga-la, e por um momento War chegou a realmente temer que seria isso que seu oponente faria, mas não aconteceu, e teve a razão para isso bem clara quando olhou para o rosto do estuprador. As feições dele eram falsamente calmas e controladas como sempre, mas um sorriso fino como o fio de uma adaga estava exposto de orelha a orelha em seu rosto, um sinal mais do que claro de que ele estava tirando muito prazer em tudo aquilo. Miserável... ele não pretende simplesmente me dar uma morte rápida ou coisa do tipo. Ele quer brincar comigo. E isso lhe fazia sentir ódio, mais ódio do que jamais sentiu antes em sua vida. Sua mão se ergueu, fechando-se ao redor do pé de seu oponente, e prontamente ele tentou usar de suas habilidades para congelar o pé de Nicholas, mas não teve chance; seu oponente ficou por apenas alguns instantes observando aquilo calmamente, parecendo até um pouco fascinado, antes de subitamente aumentar a pressão que exercia sobre o pescoço de War. Merda, ele está realmente esmagando meu pescoço agora! A dor que sentia com aquilo era incrível, estúpida, mas ele tinha de suportá-la. Do jeito que as coisas estão indo, eu não vou conseguir mata-lo. Isso já estava mais do que óbvio. Mas se eu não posso mata-lo, vou ao menos arrancar seu pé! Estavam em uma guerra ali, afinal de contas; as habilidades de cura de Nicholas eram realmente incrivelmente avançadas, mas nem mesmo elas eram avançadas o suficiente para regenerarem membros perdidos. Se conseguisse arrancar um braço ou uma perna de seu oponente, estaria enfraquecendo Nicholas o suficiente para que alguma outra pessoa pudesse concluir o trabalho por ele. Eu queria matar esse miserável com minhas próprias mãos, mas não me importo se isso não for possível. Desde que Nicholas estivesse morto ao fim do dia, estaria feliz.

E no entanto, falhou até mesmo nisso. Foi demais, mais do que podia aguentar. A pressão sobre seu pescoço lhe causou dor e lhe enfraqueceu demais, e com um movimento brusco Nicholas tanto livrou-se de sua mão como pisou com força em seu rosto, esmagando-o contra o chão com força o suficiente para fazer com que sentisse como que se o solo abaixo dele estivesse rachando e afundando.

– É essa a força com a qual você planejava me matar, War? Eu não sei se fico triste pelo fato de estar sendo tão subestimado assim ou se fico triste pelo fato de você ser um garoto tão tolo assim. Mas, bem, eu suponho que você não pode querer tudo. O simples fato de você ter me atacado já é algo pelo qual devo agradecer. Um desafio que me entreteve o suficiente e um grande peso que foi retirado das minhas costas. Não é realmente bom passar tanto tempo com uma pessoa que você sabe que te quer morta, sabia? – ficou surpreso ao ouvir aquelas palavras, e de alguma forma Nicholas pareceu perceber isso. Não conseguiu vê-lo, mas sentiu a postura do homem mudar acima de si, de forma que ficou claro para ele que o homem agora estava inclinado, falando mais próximo do seu rosto. – Você realmente acha que eu nunca pensei nisso, War? Realmente acha que eu nunca vi o quanto você me queria morto? Eu não sabia exatamente o porquê, obviamente, não sabia exatamente o que fazia você ter tanta raiva de mim, mas a sua vontade me matar? Ah, isso era claro, sem dúvida nenhuma. Você tentava disfarçar, eu sei, mas a sua vontade de me matar era tão grande, seu desejo assassino era tão forte... você não conseguia disfarçar isso completamente, e eu teria de ser terrivelmente estúpido para não notar aquilo.

Então... ele sabia do meu plano o tempo todo? E mesmo assim me mantinha por perto? Mesmo sabendo das minhas intenções ele não tinha medo do que eu podia fazer? Aquele pensamento fez com que ele rangesse os dentes, em raiva e frustração. Maldito seja! Esse modo de agir, a forma como ele me derrotou... ele nunca me considerou uma verdadeira ameaça! É por isso que ele sempre me manteve por perto; ele estava confiante de que, não importa o que acontecesse, eu jamais seria capaz de realmente fazer algo contra ele! Aquele pensamento lhe dava raiva, não tanto de Nicholas, mas de si mesmo; ele fazia com que se julga-se um tolo, um fraco, um fracassado.

– Bom, o bastante é o bastante, eu acho – comentou a voz de Nicholas, o homem aparentemente retornando a sua posição ereta de antes pelo que pode sentir dos movimentos dele. – Isso foi razoavelmente divertido, War, mas já passou da hora de dizer adeus, não concorda? Não se preocupe, isso não vai doer nada... não em mim, pelo menos.

O pé de Nicholas se ergueu quando essas palavras foram ditas, liberando o rosto de War por tempo o suficiente para que visse o estuprador acima dele, um sorriso sádico em seu rosto enquanto seu pé mantinha-se erguido, pronto para pisar com força e esmagar de uma vez sua cabeça. Então é aqui que eu morro? Em uma cidade que não conheço, como um criminoso, esmagado pelo pé do homem que matou meu pai e estuprou minha mãe? Isso é realmente patético. Como posso ser tão fraco...?

E no entanto, aparentemente os Deuses simpatizavam pelos fracos.

No momento em que Nicholas pareceu prestes a descer seu pé, algo lhe atingiu, algo que fez com que seu sorriso desaparecesse e fosse substituído por uma expressão de surpresa e medo. Não entendeu o que estava acontecendo de imediato... mas quando o corpo da mulher que Nicholas havia atingido antes se mostrou, sangue ainda escorrendo do lugar aonde ela havia sido atingida na cabeça, atrás do estuprador com sua adaga perfurando completamente a garganta dele, aí teve uma certa ideia do que se tratava tudo.

– Ei, uma coisa que você deveria saber, meu caro – disse ela ao ouvido de Nicholas, em um tom de voz completamente normal apesar da forma como ela falava passar a impressão de que ela estava sussurrando um segredo aos seus ouvidos. Subitamente os olhos dela se arregalaram, e as palavras que saíram de seus lábios a seguir vieram gritadas, ao mesmo tempo em que ela movia sua adaga e com ela rasgava metade do pescoço do homem. – EU ODEIO ESTUPRADORES!

O corpo de Nicholas pendeu pra frente quando aquilo aconteceu, sangue escorrendo de seu pescoço e seus lábios. Aquele golpe havia causado um ferimento grave, forte o suficiente para matar instantaneamente um homem normal, mas apesar de seu coração completamente corrompido, Nicholas era terrivelmente forte; a vitalidade daquele homem era muito além da compreensão humana, e a habilidade regenerativa que ele tinha já estava começando a surtir efeito, fazendo com que a ferida em sua garganta começasse a soltar fumaça e se fechar. Não teve dúvidas ou hesitação quando viu aquilo; antes que o homem se recuperasse por completo e pudesse fazer alguma coisa contra algum deles, ergueu a parte superior de seu corpo e lançou seu punho contra ele. O ar gélido ao redor de seu braço congelou um pouco previamente o peito de Nicholas, e isso fez com que o seu punho propriamente dito fizesse uma pequena cratera ali, espalhando ossos, carne e sangue congelado por todo canto ao mesmo tempo em que War sentia seu punho atingir diretamente o coração de Nicholas, arrancando-o de seu lugar e esmagando-o contra a parede do próprio corpo do homem. Os olhos de Nicholas se arregalaram, o homem vomitou sangue, olhou para War e tentou até mesmo erguer uma de suas mãos em vingança... mas o destino dele já estava selado.

Antes que seus dedos alcançassem War, seu corpo perdeu por completo toda a força que lhe restava, e de uma vez ele caiu morto pro lado.

=====

Os sons de passos chamaram a atenção de Steelex, fazendo com que o homem se virasse rapidamente na direção da qual eles vinham, apenas a tempo de ser recebido por um duro e poderoso soco direto no rosto que causou uma explosão forte o suficiente para arremessa-lo para trás como se não fosse nada.

Mordeu seus próprios dentes com força para dar um pouco de vazão a raiva que instantaneamente subiu por seu corpo com aquilo, e antes que acabasse colidindo contra alguma casa ou coisa do tipo Steelex girou em pleno ar, aterrissando de joelhos no chão ao mesmo tempo em que erguia seu rosto para fitar o responsável por aquilo.

O braço de Alexander que ele havia pregado à parede ainda estava lá, pregado da mesma forma que ele havia deixado, só que seu dono já não estava mais ao seu lado. Em algum momento Alexander havia separado seu corpo do braço para conseguir avançar novamente contra Steelex, e pelo que podia ver, isso havia sido feito na marra. Filho da puta... ele avanço contra tanta força que seu braço separou-se do corpo, a carne literalmente se rasgou! Era difícil imaginar que alguém fosse capaz de fazer algo tão brutal assim com seu próprio corpo, mas pensando de uma forma pragmática, aquilo provavelmente era o melhor que ele podia ter feito; graças a explosão de antes, o braço do cavaleiro estava severamente danificado, e considerando que ele estava preso justamente por esse braço, livrar-se dele para se ver livre fazia sentido. Só não sei se é realmente uma boa ideia libertar-se para isso. Teria alguma razão ali caso Alexander tivesse se libertado para fugir ou coisa do tipo, mas um único olhar para ele era o suficiente pra saber que não era essa a sua intenção; o rosto dele, a postura dele... tudo no homem dizia claramente que o que ele planejava era derrotar Steelex com suas próprias mãos. E isso faz com que ele seja mais estúpido do que eu havia pensado.

– Lhe parabenizo por ainda estar de pé, cavaleiro, tal como lhe parabenizo por ter toda essa determinação apesar do seu estado – disse Steelex, sendo sincero em suas palavras, apesar de ter certeza de que seu tom de voz não era nada congratulador. – Mas você, cavaleiro, é um grande idiota em insistir em querer lutar contra mim em seu estado atual. Quando você estava em boas condições, com ambos os braços, você não teve condição nenhuma de se opor aos meus ataques. O que lhe faz pensar que agora que você está aleijado as coisas vão melhorar?

Alexander sorriu ao ouvir aquilo, como se esperasse por palavras como aquelas e elas lhe divertissem, e esse sorriso irritou Steelex. Lentamente, deixou que sua Aloeiris – Alma de Aço – começasse a agir sobre seu corpo, fazendo com que carne se transformasse aço a partir dos dedos de sua mão, para depois seguir pra se espalhar pelo resto de seu corpo. Alexander viu isso – não foi necessariamente como se Steelex tivesse tentado manter sua transformação em segredo – mas mesmo assim ele não expressou reação, em momento algum tentou parar-lhe. Ele sabia o que Steelex estava fazendo, mas mesmo assim ele simplesmente deixava isso acontecer, como se não se importasse com aquilo... ou melhor, como se ele apenas se divertisse com tudo aquilo.

– Não me subestime, mercenário – disse o Terceiro Cavaleiro, quase que em um sussurro, parecendo estar às portas da morte pela forma que sua voz soava. Porém, as palavras que ele disse a seguir afastaram por completo essa ideia. Seu punho que restava se ergueu, fechado e duro como se fosse feito de pedra, o peito de Alexander se estufou e um grito forte ecoou da garganta dele, soando tão poderoso e intimidador quanto uma trovoada. – Meu nome é Alexander Malkov, Terceiro Cavaleiro da Quinquagésima Oitava leva do Salão Cinzento! Fui sagrado pessoalmente por Odin e recebi treinamento nas mãos de Ezequiel! Pela minha honra e orgulho eu jurei proteger todos, o que inclui essa cidade! Um mercenário como você, que mata pessoas simplesmente para ganhar algumas moedas sem pensar duas vezes, nunca vai me vencer! Como um cavaleiro do Salão Cinzento, eu não vou perder!

E dizendo aquilo, as pernas do homem se cruzaram em um rápido instante, e em um piscar de olhos o grande cavaleiro estava diante dele, não, acima dele, seu punho erguido, pronto para lhe acertar em cheio. Incrível. A velocidade dele parece ter aumentado bastante depois disso, contemplou Steelex, ligeiramente surpreso por aquela demonstração.

Mas não o suficiente.

Alexander era rápido, mas comparado ao Homem de Aço, ele ainda era muito lento. Enquanto ele pairava acima de Steelex, preparado para lhe atacar, o mercenário moveu para fora do caminho, saltou e, em um instante, era ele que estava acima de seu oponente. Seu pé atingiu a parte de trás da cabeça do cavaleiro e empurrou-o com força para baixo, enfiando a cabeça de seu oponente no chão e mantendo-a pressionada ali para que ele não pudesse se mover. Eu pensei que apenas prender o braço dele seria o suficiente antes, e obviamente estava errado quanto a isso. Sendo assim, só conseguia pensar em uma coisa que seria certamente eficaz.

Abriu uma de suas mãos e moveu-a, deixando-a pairando em cima das costas de seu oponente, e sem pensar duas vezes disparou estacas de aço de sua palma em diversos pontos, perfurando-os e cravando o corpo de Alexander ao chão. Mesmo abafados como estavam, os gritos de dor do cavaleiro ainda ressoaram pelos ouvidos de Steelex, mas ignorou-os em favor de observar o que estava acontecendo ali, e para sua grande satisfação, viu que por mais que o Terceiro Cavaleiro se remexesse e tentasse se libertar de todas as formas, as estacas ainda mantinham-no firme ao chão. Excelente. Nesse caso, posso agir.

Tirou seu pé da cabeça de Alexander, e imediatamente o cavaleiro ergueu seu rosto tão rápido quanto pode. Um grito começou a vir de sua garganta, mas não deu chance para isso. Uma estaca de aço veio de sua outra mão, e depois que essa atravessou o crânio de Alexander, o falecido Terceiro Cavaleiro da quinquagésima oitava leva do Salão Cinzento deixou seu rosto cair novamente em silêncio.

Depois daquilo, o silêncio que reinou pelo ambiente lhe pareceu desconfortável. Saiu de cima do corpo morto de Alexander rapidamente, afastando-se o suficiente para que pudesse olhar pro seu oponente. Isso foi bem brutal. Não gostava particularmente de ser brutal assim, principalmente não contra um oponente que havia sido honrado e orgulhoso como aquele, mas gostava mais de viver, e por isso foi a extremos como aquele. Alexander não era realmente forte o suficiente para se mostrar um verdadeiro problema à Steelex, mas ele ainda era um oponente consideravelmente decente, e eles estavam em uma zona de guerra. Por mais que ele por si só não fosse realmente um perigo, se outros oponentes surgissem e unissem suas forças as dele, então estaria com problemas. Matar Alexander era necessário, e matar ele rapidamente era uma preciosa vantagem. Eu teria preferido fazer isso de uma forma um pouco mais... digna... mas creio que isso no fim não importa. Os mortos estavam mortos, os vivos estavam vivos. E a batalha ainda não havia acabado.

Colocou suas mãos no bolso, cuspiu pra direita e, sacudindo sua cabeça, começou a seguir em frente. Espero que eu tenha outra luta. E espero que ela seja mais desafiadora.

=====

Ergueu seu bardiche e usou o cabo dele para bloquear os golpes que seus companheiros cavaleiros lançaram contra ele. Maldição, maldição! Isso não é nada divertido! Gostava de lutas e antes estava animado com o pensamento de ter algumas boas lutas em meio a tudo aquilo, mas lutar contra seus companheiros definitivamente não fazia parte dos seus planos... principalmente não fazer isso enquanto uma vadia ficava vendo tudo, sorrindo como se aquele fosse um grande espetáculo pra ela. Merda, essa mulher está fazendo com que eu fique mais nervoso a cada minuto que passa! Sua vontade era de ir direto contra ela e partir a mulher em duas com seu bardiche, mas toda vez que tentava fazer qualquer coisa várias das pessoas que a cercavam se moviam para sua defesa. A essa altura, não tinha dúvida nenhuma de que ela estava controlando-os de alguma forma, mas esse conhecimento fazia pouco para lhe ajudar ali. Não sentia piedade nenhuma dos que não conhecia ou dos que pareciam ser partes dos inimigos de qualquer forma, mas simplesmente não tinha um coração frio o suficiente para usar força letal com os que que conhecia. E a mulher aparentemente havia notado isso, pois cada vez mais eram esses que usavam seus próprios corpos como algum tipo de escudo para ela, fazendo com que os ataques de Vaen lhe deixassem cada vez mais frustrado. Maldição, como eu tiro eles do controle dela? Talvez aquilo fosse algum tipo de magia de controle mental ou coisa do tipo, mas se fosse esse o caso, estava ferrado; o Salão Cinzento era o lar dos cavaleiros, não dos magos. O único que tinha conhecimentos sobre magia avançados o suficiente para tentar fazer algo contra aquilo era Goa, e não sabia em que buraco ele havia se metido. Isso tudo é uma merda; uma grande, feia e fedorenta merda!

Empurrou os que lhe atacavam para trás com um pouco de força, fazendo com que eles fossem forçados a saltar para trás e aparentemente tropeçassem um pouco. Viu isso como uma chance, e sem pensar duas vezes ele avançou; saltou e pisou nos ombros deles para usá-lo como apoio, e a partir dele efetuou um segundo salto, maior, um salto que lhe permitiu cruzar a distância que o separava de sua oponente. O sorriso da mulher sumiu de seu rosto ao ver aquilo, e isso fez com que fosse a vez do próprio Olho de Falcão sorrir; ergueu seu bardiche alto, e sem perder tempo desceu o aço frio contra sua oponente.

Seu sorriso se transformou em uma expressão horrorizada no instante em que viu a lâmina de seu machado atingir o pescoço não da mulher em questão, mas sim de um de seus companheiros aparentemente enfeitiçados por ela; Jin, um homem de cerca de trinta anos que tinha uma esposa e filha que ele amava mais do que tudo, mas que agora sorria em sacrificar-se para salvar a vida de uma puta. Não... não é possível! Merda, não! Um sorriso maldoso achou seu caminho de volta ao rosto da mulher, e a forma condescendente com a qual ela entortou sua cabeça para olhá-lo fez com que Vaen desejasse profundamente poder quebrar o pescoço dela.

– Oh... tadinho, matou seu amiguinho – disse ela no tom infantil que pessoas geralmente usavam para falar com crianças ou bebês, conquistando ainda mais da ira de Vaen com aquilo. – Tsc, tsc... sabe, você deveria ser mais cuidadoso com esses seus brinquedinhos afiados, garoto. Eles são perigosos. Alguém pode sair... ferido.

– Sair ferido?! – o cinismo e a arrogância daquela mulher estavam fazendo com que ele ficasse cada vez mais irado, e sabia que isso era algo estúpido que poderia facilmente culminar na sua morte, mas não podia controlar esses sentimentos. Sentiu seu rosto se distorcer, transformando pela raiva em seu interior, tornando-se mais animalesco e bestial do que humano. – Ah, sim, alguém vai sair ferido. Você, depois que eu arrancar a porra da sua cabeça!

Sentia por Jin, mas o homem já estava morto depois de um ferimento como aquele, e essa era a melhor oportunidade que havia tido desde o início da luta. Colocou força em seus braços e a lâmina de seu machado separou a cabeça do cavaleiro de seu corpo... bem como seguiu em direção a mulher. Ela viu isso, entretanto. Ela evitou o golpe dando um passo para trás, de forma graciosa, um sorriso satisfeito crescendo em seus lábios, parecendo prestes a explodir em uma gargalhada. Murmurou pragas e girou novamente sua arma em outro golpe mirado no pescoço dela, mas novamente a mulher esquivou-se com facilidade, como se ela estivesse lidando com uma criança. Em seu interior, sabia o motivo daquilo; ela não era terrivelmente habilidosa ou coisa do tipo para evitar seus golpes, mas ele havia se tornado mais fraco. Não, não necessariamente mais fraco, mas sim... mais descuidado, por assim dizer. Seus ataques estavam cheios de aberturas, deixando vários pontos pelos quais a mulher podia se esquivar, e o fato de estar de cabeça quente estava fazendo com que ele deixasse sua guarda baixa demais. Sabia que esses eram grandes problemas e que ele deveria agir de forma mais esperta, mas simplesmente não conseguia se acalmar. A raiva que sentia daquela mulher, a raiva que sentia da forma como ela usava seus companheiros como se fossem apenas pedaços de carne... ele não conseguia controlar essa raiva.

E foi isso que lhe custou caro.

Ergueu seu bardiche alto, deixando que a lâmina dele brilhasse acima de sua cabeça, e sem pensar duas vezes desceu o machado como se fosse uma guilhotina contra a mulher. Tal como antes ela evitou facilmente esse ataque, dando passos rápidos para o lado como se pudesse prever cada movimento de Vaen, mas as ações dela foram diferentes de antes. Enquanto antes ela havia apenas se limitado a sorrir depois daquilo, dessa vez ela avançou contra o Olho de Falcão. Rangeu os dentes e tentou se afastar para trás, mas antes que pudesse o fazer ele sentiu um braço passar ao lado de seu rosto e uma mão delicada segurar a parte de trás de sua cabeça. Sua sobrancelha franziu-se por um instante em confusão, mas não teve a chance de tentar compreender nada daquilo antes que o rosto da mulher viesse até ele, e para sua surpresa, a mulher lhe beijou.

A pura surpresa que tudo aquilo lhe proporcionou foi o suficiente para que ele ficasse inativo por um momento, simplesmente sem que seu cérebro pudesse funcionar. Quando ele a ativa, seu primeiro impulso foi de imediatamente empurrar a mulher para longe e se afastar... mas não conseguiu fazer isso. No momento em que tentou erguer seus braços ele sentiu aquilo; dormência e fraqueza, como se estivesse doente ou coisa do tipo. O quê? Tentou ao menos inclinar sua cabeça para longe da dela, mas a mão da mulher lhe segurou no lugar enquanto ela aprofundava o beijo, e a cada minuto que aquele beijo durava ele sentia seu corpo ficando mais e mais fraco, como se ela estivesse drenando suas forças com aquilo. O que essa vadia está fazendo?!

Só pode ver livre dela quando ela se afastou, recuando um passo para trás e soltando-o. No momento em que ela se afastou, Vaen foi ao chão de joelhos. Minha força... Sentia-se como se estivesse prestes a desmaiar, algo que ele não compreendia e que lhe deixava imensamente furioso. Ergueu seus olhos, raivoso e desafiante, apenas para ver aquela mulher lhe olhando com um sorriso inocente e o dedo indicador de uma de suas mãos tocando seu lábio inferior.

– E então, garoto? – perguntou ela, sorrindo e piscando para ele de uma forma brincalhona, provocante. – O que achou disso, do beijo de uma mulher? Algo muito melhor do que ficar por aí brincando com aço e fogo como vocês homens gostam de fazer, não concorda?

Não tinha muitas forças graças a ela; mesmo estando de joelhos no chão, sentia-se exausto, como se seu corpo pudesse entrar em completo colapso a qualquer momento. Mas mesmo assim, se esforçou e conseguiu mostrar um sorriso sarcástico à mulher.

– Acho que vou gostar do beijo de uma mulher, sim... no dia em que eu beijar uma mulher. Mas você não é boa o suficiente para ser classificada assim, puta loira. Talvez uma lacraia... sim, creio que uma lacraia se adequa mais a você.

Planejava irritar a mulher com aquelas palavras, mas não teve nem sequer o gosto disso. Tudo que aquelas palavras pareceram fazer foi divertir a maldita, fazendo com que ela cobrisse delicadamente seus lábios com uma mão para esconder uma pequena risadinha. Os olhos dela fecharam-se por um instante, mas logo eles voltaram a cair sobre Vaen, cheios de malícia e más intenções.

– Sabe, se você realmente quer me irritar, você deveria tentar me afetar com algo que não fosse tão obviamente falso quanto isso – disse a vadia, sorrindo sugestivamente. – Você fala de mim e do meu beijo, mas olhe só pra você? De joelhos. Obviamente, eu posso estar enganada aqui, mas considerando tudo, acho seguro dizer que meu beijo aparentemente lhe afetou o suficiente para lhe deixar de joelhos. O que, francamente, não é surpreendente, considerando minha habilidade.

Habilidade? Havia imaginado desde o início que a mulher deveria ter algum tipo de habilidade oculta, considerando a forma como ela controlava os outros cavaleiros, mas pela forma que ela havia falado, parecia que essa habilidade estava de alguma forma relacionada ao seu beijo... e considerando o que ele sentia... ah, não. Bosta, não!

– O que você quer dizer com “habilidade”?! – questionou ele, esbaforido. Já tinha uma ideia do que seria essa habilidade da mulher, mas ao mesmo tempo ele simplesmente não queria acreditar nisso. Mas querer acreditar ou não fez pouca diferença depois que ela se explicou.

– O que eu quero dizer, meu caro brinquedinho, é que o meu poder já está agindo sobre o seu corpo – os dedos de uma das mãos da mulher se ergueram delicadamente, o indicador e o pai de todos apontando para Vaen. – Aloeiris; Parasita. Esse é o meu poder. A minha habilidade é bem simples, e bem eficaz. Colocando uma parte de mim dentro do corpo de alguém, eu posso controlar tanto o corpo quanto à mente dessa pessoa a minha vontade. Quando você é inexperiente com esse poder, você precisa de coisas que estabeleçam uma ligação mais forte entre você e seu alvo, como sangue ou até mesmo algo como verdadeiros pedaços de seu corpo, como pedaços de unha, por exemplo. Eu, no entanto, sou extremamente habilidosa, e por isso consigo controlar pessoas com coisas tão simples quanto fluídos meus. Sim, uma troca de fluídos é o suficiente para que eu possa controlar alguém... e diga-me, o que você acha que um beijo envolve? – pânico começou a correr pela mente de Vaen ao ouvir isso, e o homem começou a desesperadamente lutar contra os efeitos que sentia sobre seu corpo, mas era inútil; por mais que tentasse, não conseguia nem sequer erguer um de seus braços, sentindo como... como se ele não fosse seu. – Prazer em lhe conhecer, garoto. Meu nome é Lilybell Timberlight, conhecida como “Baronesa”, e de agora em diante, eu serei sua mestra.

=====

Avançava calmamente pelas ruas da cidade, sem pressa ou preocupação nenhuma, apesar de que a visão daquele cavaleiro segurando uma espada longa de forma desafiadora em suas mãos estivesse lhe incomodando um bocado. Ei, ei, o que ele planeja fazer com isso? Será que o cavaleiro planejava lhe atacar? Certamente parecia ser esse o caso, mas Jiazz duvidava bastante disso. Sendo um cavaleiro, ele deve ser treinado o suficiente para saber avaliar um pouco seus oponentes. Se ele tem qualquer coisa que lembra um cérebro em sua cabeça, ele deve saber que eu sou muito mais forte que ele. Não tinha nem sequer interesse em enfrentar aquele cara, tão gritante que era a diferença de poder entre eles, mas pelo que via, não parecia que ele iria simplesmente sair do caminho.

– Ei, cavaleiro! – gritou ele, gesticulando com sua mão para que o guerreiro vazasse dali. – Vai embora, vai? Você começa pescando trutas e salmões, não pula direto pros tubarões. Você vai fazer mais bem saindo daqui e procurando um oponente mais fraco que você pode enfrentar do que tentando me atrasar.

VAI PRO INFERNO! – retrucou o cavaleiro, e no momento em que ouviu sua voz, Jiazz soube que ele estava nervoso. Bem nervoso. – Quem você acha que é, seu maldito?! Esse é o Salão Cinzento, lar dos cavaleiros! Acha que você pode simplesmente sair andando por aí, destruindo tudo o que quiser?!

– Nah, não acho não – respondeu Jiazz desleixadamente, coçando seu queixo enquanto falava – isso dito, eu sei que não existe ninguém capaz de me impedir.

Suas palavras aparentemente irritaram o cavaleiro um pouco mais, o suficiente para que ele decidisse jogar fora o que restava de bom senso nele e avançasse correndo contra Jiazz. E lá vamos nós. Um grito de guerra veio da boca do homem e a espada que ele segurava em suas mãos girou, movendo-se em direção ao pescoço de Jiazz com uma intenção clara de decapitá-lo. Não amedrontou-se com aquilo.

Ignorou por completo o golpe, e no instante em que a espada encontrou sua carne, ela despedaçou-se em pedaços.

Por um instante os olhos do cavaleiro se arregalaram em surpresa, mas o jovem recuperou-se rapidamente quando viu Jiazz seguir em frente de forma inabalada; no primeiro passo do mercenário gigante, o cavaleiro saltou pra trás afim de criar uma distância entre eles. Ele é bem treinado, hein? Ele podia ser um fracote, mas estava claramente em um nível acima do da maioria de guerreiros do mundo, mesmo os treinados. Pra um simples soldado de infantaria, ele é terrivelmente forte. Se esse é o pior do Salão Cinzento, então eles realmente fazem jus a sua reputação.

Mas da mesma forma que ele era bem treinado, aquele cavaleiro também era teimoso demais. Enquanto a maioria das pessoas compreenderia a diferença de poderes e a inutilidade da teimosia em uma situação como aquela, o homem insistiu. Um novo grito veio de sua garganta quando ele voltou a avançar contra Jiazz, dessa vez lançando um ataque com seu próprio punho. Mais uma vez, o mercenário gigante não mostrou reação. O soco de seu oponente atingiu seu peito em cheio, quebrando-se quase que instantaneamente e espalhando sangue pelo peito de Jiazz ao mesmo tempo em que o cavaleiro caia de joelhos no chão a frente dele, gritando e chorando de dor.

Não deu atenção a isso. Ergueu uma de suas pernas, e de uma só vez pisou sobre a cabeça do cavaleiro, levando-a ao chão com força o suficiente para quebra-lo com o impacto. Cruzou os braços a frente de seu peito, olhando por cima para o guerreiro caído.

– Não reclame. Eu lhe disse para ir embora antes, não disse? Tu colhe o que tu planta, meu amigo, e você plantou muito mal. – colocou um pouco mais de força em seu pé, e isso foi o suficiente para que gritos abafados de dor começassem a vir do homem. – Agora, tenho um problema em mãos aqui. Eu não quero te matar, mas você obviamente não vai me deixar em paz se eu não fizer alguma coisa com você, e pelo que estou vendo, medir minha força para que eu consiga apenas te nocautear sem te matar vai ser algo bem complicado. Então, o que fazer...? – novamente coçou seu queixo, tentando pensar em alguma boa ideia ali. – Hmm... talvez eu devesse simplesmente mandar um “foda-se” pra isso e matar você de uma vez. Quero dizer, não é como se eu fosse ser realmente mal por fazer algo assim; eu lhe avisei e lhe dei a chance de evitar isso, afinal de contas.

– De fato, ninguém pode culpa-lo por matar um homem. Especialmente em uma batalha como essa. – a voz que disse aquilo surpreendeu Jiazz, não só pelo fato de estar falando propriamente quanto também pelo fato de que ela parecia ao mesmo tempo vir de todos os locais. Do chão aos seus pés, das suas costas, do céu vermelho acima de si, das casas em chamas ao seu lado. Olhou ao redor em uma tentativa de encontrar o dono dela, e foi só depois de alguns momentos que ele o viu, uma figura caminhando em sua direção a partir de uma determinada rua. – Mas, sendo um cavaleiro, não irei deixar isso acontecer. Não conheço esse homem, não sou amigo dele, mas ele traz o mesmo símbolo que eu cosido ao peito, e isso faz dele um companheiro. Por minha honra como um cavaleiro, não deixarei um companheiro morrer.

Apenas franziu o cenho ao ouvir aquilo, desinteressado... até sentir a força que emanava daquele homem. Ooooh! Ah, sim! Finalmente! Um sorriso animalesco surgiu em seu rosto, e com um pé ele chutou o cavaleiro, não com força para mata-lo ou nocauteá-lo, mas apenas para afastá-lo; mesmo isso fez com que ele fosse lançado contra a parede de uma casa próxima, e ao bater as costas nela ele caiu ao chão cuspindo sangue. Não deu a mínima pra isso. Apenas virou-se para seu oponente.

A aparência daquele cara era bem menos bruta e agressiva do que havia imaginado. Pela força que sentiu emanando dele, pensou que ele seria um monstro de homem, gigante e incrivelmente forte, com braços do tamanho de pilares. No entanto, o que encontrou foi um homem com uma aparência muito mais delicada, de cabelos longos, volumosos e selvagens, bem como também com um par de chifres aparentemente saindo do meio desses cabelos. Coitado dele, pensou Jiazz por um momento. Sua mulher deve ser uma verdadeira vadia.

– Meu nome é Maoh. “Demônio de Chifres” Maoh é como me chamam – informou o homem, parando há cerca de cinco metros de Jiazz, olhando sem medo para o mercenário. – E você, pelo que vejo, é Jiazz o Juggernaut.

– Haha! Então você sabe quem eu sou, não é? – divertiu-se um pouco com aquilo. Não era necessariamente alguém que tinha sede por fama ou coisa do tipo, e francamente ele gostava de ser desconhecido na maioria das vezes, mas o fato de não lhe reconhecerem por vezes lhe dava chateações, como o cavaleiro que tentou lhe atacar poucos momentos atrás. – E mesmo sabendo quem eu sou, você ainda pretende me enfrentar? O que te motiva a isso, cavaleiro? Estupidez ou arrogância?

– Eu já lhe disse, não disse? – questionou Maoh, calmamente. – Eu tenho honra como um cavaleiro. Parte dela me compõe a proteger meus companheiros. Outra parte dela me encarrega de matar meus inimigos!

No momento em que aquelas palavras foram ditas, Maoh desapareceu. Os olhos de Jiazz se arregalaram por um momento, surpreso por ter perdido o homem de vista, mas isso não durou muito. Logo sentiu algo tocar seu peito, e quando olhou para baixo, viu a palma da mão de Maoh espalmada sobre o seu peito, e antes que pudesse questionar o que diabos o homem queria com aquilo e afirmar que não jogava nesse time, uma palavra veio da boca de Maoh.

REPULSÃO!

No instante em que essa palavra soou em seus ouvidos, sentiu uma força absurda lhe arrastando, lhe empurrando, lhe forçando para longe. Uma força que concentrava-se em seu, mas não exteriormente. Era como se alguma coisa estivesse dentro do seu corpo e essa coisa estivesse lhe empurrando pra longe por dentro. Mas... que merda é essa?! Tentou resistir a força, mas a surpresa daquilo fez com que ele falhasse; seu corpo foi erguido do chão, e Jiazz o Juggernaut foi arremessado para trás.

Não foi longe. Foi arremessado por menos do que três metros antes que recuperasse-se o suficiente da surpresa para reagir decentemente. Colocou peso e força em seu corpo, e aproveitando-se de seu tamanho gigantesco, colocou ambos os pés no chão com firmeza o suficiente para parar-se. Esse golpe foi bom. Não havia sentido nada com ele – seria necessário um ataque muito mais forte que aquele para feri-lo – mas havia sido um ataque bom o suficiente para jogá-lo longe, e isso merecia algum respeito. Hahaha, bom ver que eu estava certo! Esse cara pelo menos parece ser um oponente decente! Ergueu seus olhos para fitar Maoh... e no momento em que fez isso ele se deu conta de que o homem havia desaparecido.

Ergueu uma sobrancelha por apenas um instante antes que sentisse a aproximação dele. Olhou para cima bem a tempo de ver Maoh no alto, caindo em direção à Jiazz, ambas as suas mãos rodeadas pelo que parecia ser uma estranha energia transparente que distorcia o ar, fazia com que este parecesse estar de alguma forma mais pesado ou coisa do tipo. Sorriu com aquilo. Pro ataque, é? É assim que eu gosto! Divirta-me, Maoh! As mãos do homem chifrudo moveram-se contra ele em ataque, mas as próprias mãos de Jiazz ergueram-se em sua defesa. Ambos os pares se encontraram quando os guerreiros estavam diretamente um acima do outro, e no momento em que elas colidiram o mundo se quebrou. O solo abaixo de Jiazz desfez-se, a pedra nele sendo imediatamente destroçada ao pó, criando uma cratera ali. Ao redor deles, solo e casas se quebraram em pedaços tamanha a pressão do choque de poderes, e o atrito entre as energias no ar foi tão forte que sons como os de trovões ecoaram pelo ambiente.

E quando Jiazz resolveu liberar um pouco mais do que cinco por cento de seu poder, o que era pressão e atrito se transformaram em uma grande explosão de energia, uma explosão que consumiu todo um quarteirão e que, por um momento, foi visível em todo o Salão.



Notas finais do capítulo

ÁREA OESTE:

Enderthorn VS Octo Gall (Em andamento)
Vaen VS Lilybell (Vencedora: Lilybell)
Jiazz VS Maoh (Em andamento)

ÁREA SUL

Kuman VS Fera (Vencedor: Fera)
Skylar VS Fera (Vencedor: Skylar)
Skylar VS Cleus (Vencedor: Cleus)
War e Coralina VS Nicholas (Vencedores: War e Coralina)
Trevor VS Maverick (Em andamento)

ÁREA LESTE

Alexander VS Goliath (Vencedor: Alexander)
Alexander VS Steelex (Vencedor: Steelex)



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