O Olho Vermelho escrita por Igor L S C Oliveira


Capítulo 26
Os Cavaleiros do Salão Cinzento


Notas iniciais do capítulo

Yo!

Esse aqui é um capítulo bem maior que o normal, hein?

Bem, originalmente esse capítulo era, na verdade, dois capítulos. Isso dito, decidi que seria melhor simplesmente unir ambos em um único super-capítulo e postá-los juntos para dar o início merecido a esse arco.

A Batalha do Salão Cinzento.



– Odin está demorando – o pé de Gwynevere batia constantemente no chão, da mesma forma que seus dedos batiam na armadura que protegia seu braço. Ela estava impaciente, isso era claro, e francamente, era difícil culpa-la por isso. – Maldição, eu não devia ter deixado ele ir sozinho. Para alguém tão velho e forte, ele é incrivelmente fácil de distrair e inconfiável para missões assim. Eu deveria ter ido com ele, mantido ele nos eixos.

– Ei, ei, não acha que está subestimando o pouco nosso líder assim, Filha do Sol? – questionou Soulcairn, o velho cavaleiro que trazia o título de “Destruidor de Mundos”. Apesar de ser alguém que havia passado em sua leva como apenas um Segundo Cavaleiro, Soulcairn era poderoso e comandava muito respeito dentre todos aqueles que formavam o exército do Salão Cinzento. Era velho, no entanto. Ele vinha da décima-sétima leva, a mesma leva que trouxe Odin aos cavaleiros, e Odin era o único homem que havia lhe superado algum dia. E, tal como Odin, a aparência dele não demonstrava tanto sua idade; apesar de ter mais de sessenta anos, o corpo dele era definido e musculoso como em sua juventude, forte o suficiente para fazer com que a maior parte dos cavaleiros musculosos parecessem moleques magricelas ao seu lado. Cada braço dele era tão grosso quanto o de um gorila, e o rosto másculo com traços retos e duros que ele tinha, a cicatriz sobre seu olho esquerdo e seus cabelos organizados em um moicano grisalho faziam com que ele parecesse ainda mais intimidador... algo em contraste com Odin, que apesar de também ter uma aparência cheia de vida e um corpo musculoso, também tinha uma aparência muito mais relaxada e simpática do que a de Soulcairn. Acho que essa é a apenas mais uma das diferenças deles... ou talvez uma das coisas na qual eles competem. A relação entre os dois era... engraçada, de várias formas. Eram rivais, mas ao mesmo tempo, melhores amigos, e os poderes de um realmente conseguiam bater de frente com o do outro, embora Gwynevere estivesse convencida de que, no fim das contas, Odin era o mais poderoso dos dois. Ainda assim, com a sua experiência e poder, Soulcairn era alguém que poderia facilmente tornar-se um dos líderes do Salão Cinzento, mas apesar disso, ele havia recusado completamente todas as ofertas de promoções que haviam feito a ele. Pelo que ele diz, se tornar um líder faria com que ele deixasse o campo em favor das mesas, e ele quer evitar isso. Enquanto Gwynevere, Ezequiel e Odin reinassem como os líderes do Salão, Soulcairn não se juntaria a eles... mas isso não fazia dele alguém menos influente. – Relaxa, Gwyn. Odin é um idiota, sim, mas não tão idiota assim. Ele sabe a hora de brincar e a hora de agir seriamente, e considerando que estamos em guerra aqui, ele vai agir seriamente.

– Ah, sim? – questionou ela, em um tom que deixava claro que não estava tão convencida daquilo. Mesmo quando irritada Gwynevere era linda, ele não pode deixar de observar; seu rosto era delicado, seus cachos dourados brilhantes, seus olhos verdes reluzentes. Ela já era consideravelmente velha, passando dos quarenta, mas ainda possuía o físico e a beleza de uma mulher ao seu primor, nos vinte. Alguns diziam que isso era devido à alguma estranha habilidade regenerativa que ela tinha, outros diziam que se devia graças à sua relação com o sol. Não sabia qual era certo ali, mas isso também não importava. Ela era linda de qualquer forma. – Se é assim, então, diga-me porque ele está demorando tanto assim. Sua missão deveria ser mais rápida que isso.

O som de madeira batendo em carne fresca chamou a atenção de todos ali. Quatro pares de olhos viraram-se imediatamente para fitar o causador daquilo, o homem que sentava-se mais isolado de todos. Bokuto “da espada de madeira” era alguém que Senjur normalmente chamaria de tímido, não fosse a forma desimpedida e direta com a qual ele falava com qualquer um que caísse sobre seu olhar. Do jeito que ele é, acho que a melhor palavra para descrevê-lo é “antissocial”. Bokuto em geral não gosta das pessoas, e a recíproca é verdadeira em muitos casos. Não podia culpar as pessoas por aquilo, entretanto; além da personalidade do homem, haviam outros problemas que afastavam as pessoas dele. Sua aparência também não era nada amigável; seus cabelos curtos, levemente repicados caiam sobre seu rosto de forma a ameaçarem cobrir seus olhos, e considerando que seu rosto parecia estar sempre distorcido em uma feição raivosa ou no mínimo de poucos amigos, isso só fazia com que ele parecesse mais assustador. E tem, claro, o fato de que ele sempre está trazendo essa arma dele consigo. A espada de madeira estava no momento sendo segurada pelo braço que as roupas dele cobriam – um sinal de que Bokuto não planejava usá-la em batalha no momento – mas mesmo assim, a fama que essa arma havia conquistado com o uso dele era mais do que o suficiente para que a maioria das pessoas sentissem-se no mínimo desconfortáveis próximas dela.

– Eles podem muito bem ter encontrado problemas no caminho. Isso é algo completamente dentro do reino das possibilidades, e pode ser o responsável por seu atraso – disse ele, batendo novamente sua espada de madeira no próprio ombro nu. – Qualquer que seja o caso, não devemos nos preocupar com isso. Odin é forte, e Kastor e Hozar são membros da quinquagésima-nona leva, famosa por ter várias pessoas do nível de um Primeiro Cavaleiro. Eles podem lidar com qualquer problema que surja em seu caminho, e o atraso não é assim tão grave. Você está fazendo chuva em copo d’água, Gwynevere. Só porque sua discípula foi derrotada, não significa que o mesmo acontecerá com eles.

Os olhos de Gwynevere se reduziram e afiaram ao ouvir aquilo, fazendo com que a mulher encarasse firmemente Bokuto. Nenhum gesto ofensivo ou agressivo foi feito por ela, mas mesmo assim Senjur pode praticamente ver a energia se reunindo ao redor de seu corpo, poderosa o suficiente para fazer com que até mesmo ele se sentisse desconfortável com aquilo. Mas nem isso foi o suficiente para fazer com que Bokuto cedesse; o olhar do cavaleiro continuou da mesma forma, insubmisso, retribuindo o olhar de Gwynevere como um igual.

– Acalmem-se, vocês dois – advertiu Ezequiel, em uma voz calma e autoritária. A pele negra daquele homem brilhava com o suor que cobria seu corpo; havia vindo pra lá direto depois de sua sessão diária de treinamentos, e isso fazia com que os músculos de seu corpo se destacassem ainda maior. O Terro dos Dragões era um homem monstruosamente grande e monstruosamente forte, e embora não tivesse a agilidade ou habilidade que Gwynevere e Odin possuíam, conseguia comparar-se aos dois através de pura força bruta. – Isso não é hora de ficarmos criando rixas assim um com o outro. Não vamos resolver o problema de Odin com isso e também não vamos ficar mais próximos de derrotar o Olho Vermelho assim. Parem com isso.

– Ezequiel tem razão – concordou Senjur, manifestando-se ali pela primeira vez, gesticulando com as mãos enquanto falava. – Além de ser algo triste e ruim de se ver em qualquer situação, essa realmente não é uma boa hora para termos problemas internos. Quero dizer, temos todos os mesmos problemas e um inimigo em comum, certo? Não seria melhor simplesmente colocarmos nossas diferenças de lado por alguns minutos e cooperarmos pelo bem comum?

– Eu nunca me manifestei contra fazer isso – apontou Bokuto, fechando os olhos e reclinando-se em sua cadeira. – Minha determinação em cooperar com vocês em fazer isso é clara; vocês sabem melhor do que ninguém que não gosto de estar junto de tantas pessoas assim, e isso deve deixar mais do que claro que eu não estaria aqui se não estivesse disposto a ajudar. A única coisa que fiz foi dizer que Gwynevere deve parar de agir de forma tão emocional. Ela está irritada e frustrada pelo fato de sua discípula ter sido derrotada, e eu compreendo isso, mas não vai fazer bem algum deixar que suas emoções reinem sobre suas ações e fazer besteira depois de besteira. Se ela planeja lidar com o inimigo, ela precisa controlar suas emoções, do contrário teremos muitos corpos em sacos ao fim disso tudo, e garanto que eles não serão dos nossos inimigos.

– Meus sentimentos estão sobre controle, Bokuto. Não preciso da sua preocupação – cuspiu Gwynevere em resposta, sem fazer esforços em esconder a agressividade em sua voz.

– Posso ver isso – foi a resposta que ele deu a isso. O fato de estar de olhos fechados apenas fez com que isso soasse ainda mais irônico, mas apesar disso, ele não pareceu estar disposto a continuar com tudo aquilo.

Gwynevere rangeu os dentes ao ouvir aquilo, irritada pela ironia dele, mas por alguma graça divina ela pareceu disposta a parar com aquilo também. Graças aos céus, suspirou Senjur mentalmente, coçando sua cabeça com uma das mãos. Se os dois começassem a lutar aqui, estaríamos em uma situação realmente complicada. O que não fazia com que a situação atual deles fosse melhor, entretanto. Temos que manter o problema que esse atraso do Odin representa em mente. Em uma situação normal, o atraso dele não seria algo realmente problemático (ou inesperado, vindo dele), mas me uma guerra como a que estavam travando, isso era preocupante. Muito preocupante.

Um momento de silêncio reinou por aquela sala, antes que Gwynevere abrisse a boca para voltar a falar, parecendo prestes a retornar o assunto para seu rumo original... mas antes que ela tivesse a chance de fazer isso, foi interrompida.

A porta daquela sala se abriu com um grande estrondo, como se estivessem tentando arrancá-la. Quando olharam para lá, o que viram foi um jovem cavaleiro branco de cabelos loiros cor-de-palha caídos sobre eu rosto, ofegante, parecendo que havia corrido sem parar por um dia inteiro. O simples fato de alguém ter sido ousado o suficiente para fazer aquilo quando estavam em uma reunião era algo surpreendente, mas o fato de estarem vendo Jack Branco sem que Jack Negro estivesse por perto dava uma dimensão completamente diferente àquilo.

– O que significa isso? – questionou Gwynevere em um tom de voz autoritário, voltando-se para ele. – Jack Branco! Estamos em uma reunião aqui! Qual é a urgência?

– Uma reunião? Ah, sim, uma reunião! – o homem falava de forma entrecortada, intercalando entre falar e respirar, parecendo não conseguir fazer ambos simultaneamente; algo compreensível, considerando o quão cansado ele parecia. – Desculpem-me por isso. Eu... eu sei que sou meio maluco, mas eu não ousaria fazer algo assim se não fosse importante. Algo... algo grave aconteceu, senhores.

– Obviamente – concordou Gwynevere, acenando impacientemente com sua cabeça. – A questão é: o quê? O que aconteceu para causar todo esse desespero, Jack?

Esperava ouvir algo grave para justificar aquilo. Talvez sobre a chegada de Odin. Talvez algo mais grave. Mas nunca esperou ouvir algo assim.

– O Portão do Oeste – disse Jack, respirando pesadamente, parecendo mortalmente sério para um homem tão relaxado quanto ele normalmente era. – Ele caiu.

=====

9 minutos atrás...

Ergueu seus olhos e fitou o céu a sua cabeça, e então franziu o cenho. Droga. Nunca gostei do céu desse lugar. Fazia anos que vivia ali, servindo em seu posto como guarda depois de ter se formado como um dos cavaleiros do Salão, mas ainda não havia se acostumado com aquele céu. No sul, quando você olhava para cima, você via um lindo céu azul, tão belo que parecia até mesmo que você estava olhando para uma pintura; não era por menos que alguns chamavam o céu de “tela dos Deuses”. Apesar de que, se aquela é a tela dos Deuses, essa seria a tela dos Demônios. Ao contrário de no resto do mundo, o céu nas Terras Velhas era vermelho, rubro como sangue, e isso fazia com que o ar parecesse muito mais pesado ali. Pelo que sabia, esse céu não causava realmente nenhum tipo de efeito diferente sobre a terra ou as pessoas que viviam nela, mas isso não fazia com que se sentissem mais confortáveis com ele. Pelo que os rumores dizem, o céu daqui é assim devido a Guerra dos Grandes, centenas de anos atrás. As Terras Velhas foram o cenário principal das grandes batalhas dessa guerra, e isso fez com que milhões morressem aqui. O sangue que jorrou fez com que tanto o céu quanto as águas dessa terra assumissem uma coloração avermelhada como sangue permanentemente. Faziam ao menos duzentos anos desde o fim da Grande Guerra, e ainda assim, as coisas não pareciam ter ficado nem um pouco melhores por ali.

– Um céu desses é interessante, não concorda? – comentou uma voz masculina ao seu lado. Suspirou e acenou com sua cabeça em concordância, e então o homem prosseguiu com suas palavras. – Um céu vermelho... você não vê isso em lugar nenhum além das Terras Velhas, e francamente, eu gosto disso. Esse céu é bom, ele é único. Ele te mostra que esse é um lugar especial, um lugar com uma história importante e um passado recheado. E além do mais... isso gera um excelente clima! Um céu vermelho é algo que indica a guerra e a luta, e isso é algo que cai como uma luva em uma situação como essa, não acha?

Indica guerra e luta? ... Bom, eu acho que ele tem alguma razão no que fala. Aquilo era meio estranho, mas sim, um céu vermelho lhe lembrava realmente de guerra, mais por lembrar-lhe de mortes e sangue e o fato dessas serem coisas que faziam parte da guerra do que tudo, mas supunha que isso valia, e aparentemente eles estavam em guerra com aquela guilda ilegal, o Olho Vermelho. Acho que, tudo considerado, isso realmente combina... apesar de que não sei o porquê desse cara parecer tão animado com isso. Cada louco com sua loucura.

– Ei, uma pergunta pra ti, meu chapa – perguntou a voz masculina de novo, amistosa. – Quais as dimensões desse portão?

– Hein? – fez o guarda, sem entender aquela pergunta, até que subitamente uma ideia lhe veio à mente. – Ah. Você deve ser algum tipo de novato aqui ou coisa do tipo, não é? Bem, não se preocupe novato, você vai se acostumar com o trabalho em breve. Não precisa se esforçar assim para fazer amizade, isso vai surgir naturalmente, afinal de contas, vamos ter muito tempo livre em mãos para gastarmos juntos aqui, considerando que nada nunca acontece. E quanto ao portão, bem... ele tem trezentos metros de altura por duzentos de... largura? Comprimento? Sei lá. Nunca sei qual é essa medida. O fato é, ele se estende por duzentos metros, beleza? Claro, isso é o portão todo, ou seja, o conjunto completo. Cada uma das portas dele tem cem metros de extensão. E, como você pode imaginar, é bem complicado abrir esse portão. Temos um sistema todo preparado para isso, mas mesmo assim, apenas abrimos ele um pouquinho, só o suficiente para que alguém passe. Na minha humilde opinião, fazer um portão tão absurdamente grande quanto esse é uma besteira, um ato de arrogância e grandiosidade, mas ei, quem sou eu pra questionar? Só é importante que você mantenha isso em mente; já que estamos em guerra, eles recentemente têm mandado pessoas verificarem as coisas aqui de tempos em tempos, e eles cobram isso de você.

– Entendo – respondeu a voz, em um tom que era meio divertido e meio apologético. – Felizmente pra mim e infelizmente pra você, não vou ter de me preocupar com isso. Trezentos por duzentos, e revestido por magias defensivas pelo que posso dizer... esse portão certamente é algo bem durável, uma boa barreira defensiva. É fácil entender o porquê dele resistir tanto ao tempo. Mas isso acaba hoje. Vou explodir essa coisa em pedaços num instante!

Se antes as palavras daquele homem já haviam sido o suficiente para deixar-lhe confuso, aquelas foram o suficiente para lhe darem a mais absoluta certeza de que tinha algo muito errado ali. Sacou a espada que trazia em sua cintura em um único movimento rápido e virou-se prontamente em direção a voz, já abrindo a boca para perguntar quem era ele.

Mas nem uma única palavra veio de seus lábios no momento em que ele viu quem era o homem diante de seus olhos.

Nunca havia o visto pessoalmente, mas tinha visto várias fotos dele em diversos jornais, e vários rumores sobre a aparência desse homem e as habilidades dele já haviam chegado aos seus ouvidos. Não havia dúvidas. Seu queixo caiu e seus joelhos bambearam, o que aparentemente só fez com que o homem sorrisse, como se ele achasse divertido tudo aquilo divertido.

– O homem mais forte do sul... – murmurou ele, quase sem poder acreditar no que seus olhos viam. A espada escorregou por entre seus dedos, caindo e quicando no chão. – Jiazz, o Juggernaut.

O sorriso do homem se alargou um pouco mais ao ouvir seu nome, mas ele não deu resposta a isso. A mão direita dele se ergueu de forma vagarosa, sem pressa alguma, e o olhar que ele mantinha sobre o guarda enquanto fazia isso sugeria que ele queria ver qual seria a sua reação, se ele tentaria detê-lo. Não o fez. Sabia que devia ao menos tentar fazer alguma coisa, e queria tentar fazer alguma coisa... mas simplesmente não podia. O que eu posso fazer? O que eu devo fazer? Ele é Jiazz! Pelo que eu sei, ele é um verdadeiro monstro! Os cavaleiros numerados deveriam ser aqueles a lutar com ele, não eu! Na verdade, se os rumores que ouvia eram verdadeiros, nem mesmo os cavaleiros numerados deveriam ter poder o suficiente para deterem aquele homem. Odin... Gwynevere... Ezequiel... precisamos de alguém realmente forte aqui!

Vendo a inatividade do guarda, o rosto de Jiazz azedou um pouco, como se ele estivesse desapontado por isso. E então, sem nem um pouco da demora que havia tido antes, a mão do Juggernaut fechou-se em um punho e desceu com força e velocidade, acertando em cheio o chão abaixo dele, quebrando-o com facilidade e penetrando as defesas lendárias do Salão Cinzento como se não fossem nada.

A muralha e os portões que protegiam a Cidade dos Cavaleiros eram quase que tão lendários quanto o próprio Salão Cinzento. Havia sido o próprio Herói Cinzento o responsável por erguer suas defesas, e por todos os anos que haviam se passado elas nunca tiveram de ser reformadas. Através das décadas, várias vezes times de cavaleiros e construtores vasculharam a extensão da muralha, analisando sua construção, verificando se havia alguma falha estrutural ou se algum desgaste havia ocorrido devido ao tempo. Isso nunca aconteceu. Por várias vezes eles passaram, e em tudo isso, nem uma única falha foi vista. O simples fato daquele homem ter conseguido causar um estrago como aquele à uma estrutura tão forte assim tão facilmente já era por si só algo surpreendente, mas isso não foi nada diante do que se seguiu. Primeiro sentiu uma leve alteração na temperatura ambiente, como se o sol tivesse se tornado subitamente muito mais quente, e logo depois o braço do homem que havia golpeado a muralha brilhou por um momento; não teve nem sequer um instante para pensar no que isso significava antes que uma súbita explosão lhe jogasse para trás, arremessando-o mais de cinco metros para trás como se não fosse nada.

Rolou no ar e conseguiu de alguma forma aterrissar de pé, e seus olhos logo buscaram novamente Jiazz, sentindo uma forte necessidade de mantê-los sobre o homem, ver o que ele estava fazendo. A partir do punho dele – ainda dentro da muralha – o que pareciam ser chamas douradas fluíam livremente, espalhando-se pelo ambiente ao redor deles, tomando conta do ar e fazendo com que a visão que tinha daquilo ficasse até um tanto embaçada e inconstante, como se o próprio ar estivesse derretendo perante ao calor que elas exalavam.

Aloeiris! – exclamou alegremente Jiazz, gargalhando abertamente sem se importar com quem lhe ouvisse. – CHAMAS DOS DEUSES!

Essas palavras aparentemente serviram como algum tipo de canalizador. No momento em que elas foram ditas, todas as chamas que antes agiam de forma incontrolada pareceram se concentrar em um único ponto – o punho de Jiazz. O que ele está fazendo? Qual o plano dele? Não entendia nada, mas sabia de uma coisa; o que quer que fosse, aquilo era algo péssimo.

E foi então que aquilo veio.

O som de uma grande explosão fez com que ficasse surdo por um momento, e isso foi seguido prontamente por um terremoto absurdo, como se a terra abaixo de seus pés estivesse sendo jogada pra cima e pra baixo enquanto era chacoalhada para um lado e para o outro. Isso, junto da sua súbita surdez, foi mais do que ele podia suportar; caiu ao chão, e com o terremoto ainda ocorrendo, seu corpo rolou e caiu da muralha. Quase teve um ataque cardíaco quando viu isso acontecendo, quando viu a imensa distância que o separava do chão, e mesmo sem poder ouvir ele teve a mais absoluta certeza de que gritou com todas as forças quando aquilo aconteceu, mas felizmente esse temor não durou muito; mal chegou a cair antes que sentisse algo se fechar ao redor de sua perna. Seu corpo foi erguido como se fosse feito de papel de cabeça para baixo, e logo teve a chance de ver o rosto de seu salvador; Jiazz lhe fitava com uma estranha curiosidade e fascínio, coisas que ele simplesmente não compreendia. Viu os lábios do gigantesco guerreiro moverem-se, mas não ouviu nada – só depois de um instante foi que se lembrou que o som daquela explosão havia lhe deixado meio surdo. Jiazz pareceu pensar nisso também logo, dado a forma como uma das sobrancelhas dele se ergueu, e isso fez com que o homem desse de ombros e subitamente arremessasse o guarda longe subitamente, jogando-o em outro canto da muralha como se ele fosse um saco de lixo.

Bateu sua cabeça com força e quicou, sentindo como se todos os ossos de seu corpo tivessem se quebrado com aquilo. Aí! O que raios ele está fazendo, afinal? Primeiro aquele homem falava calmamente com ele, depois ele aparentemente causava um terremoto, então ele lhe salvava quando estava prestes a cair da muralha e por fim ele lhe arremessava com brutalidade. Eu não entendo esse cara, não entendo o modo dele agir, não entendo nem o que ele quer! E isso lhe frustrava, lhe frustrava muito.

“Vou explodir essa coisa em pedaços num instante!”

No instante em que as palavras de Jiazz ecoaram em sua mente, se deu subitamente conta do que havia acontecido. A explosão... o tremor... não pode ser! Seu corpo todo doía depois da forma como o homem havia lhe arremessado, mas isso não importava; juntou todas as suas forças e determinação e rastejou da melhor forma que pode em direção a beirada da muralha, esticando sua cabeça apenas o suficiente para que pudesse olhar para baixo.

O que viu foi uma das últimas coisas que um dia imaginou que veria; o Portão do Oeste simplesmente não existia mais. Um grande rombo tomava conta do lugar no qual ele antes estava, as bordas deste ainda queimadas, deixando claro que haviam sido as chamas douradas de Jiazz que haviam feito aquilo. E por esse grande rombo avançavam pessoas – centenas, milhares, um exército. Um exército invasor.

– Bom, lidar com esses portões foi bem mais fácil do que imaginei – disse a voz de Jiazz. A audição do guarda ainda estava ruim, afetada pelo som da explosão de antes, mas ele conseguia ouvir o suficiente para pelo menos reconhecer a voz do homem. Virou seu rosto em direção a ela e viu que Jiazz estava parado do seu lado, ainda sorrindo, com chamas douradas concentradas na ponta de seu dedo indicador. – Vou ser sincero com você; se esse é o lendário portão do Salão Cinzento, se essa é a lendária muralha, então o motivo pelo qual elas nunca foram derrubadas só pode ser que vocês nunca foram atacados!

Nem sequer pode pensar em uma resposta para dar a zombação do homem, tão abismado que estava com o que tinha acabado de acontecer. Estamos sendo invadidos. Estamos sendo invadidos! O que eu estou fazendo parado aqui?! Eu deveria correr! Eu deveria alertar os outros! Eu deveria... eu deveria...

O que eu deveria fazer?...

Suas mãos foram a sua cabeça, envolvendo-a entre os dedos, puxando seus cabelos com tanta força que ameaçava arrancá-los. Não sabia, não sabia o que fazer, e isso lhe deixava frustrado, lhe deixava louco! Deveria ir lá pra baixo e lutar contra os invasores? Deveria correr pela cidade e avisar aos Líderes? Deveria buscar seus colegas e montar uma resistência? E como eu devo fazer qualquer coisa? Independentemente do que quer que ele escolhesse fazer, Jiazz continuava ali do seu lado; não podia simplesmente ignorar o homem, e não era tolo o suficiente para pensar que ele lhe ignoraria.

Olhou novamente pela muralha, e dessa vez viu algo diferente. Os invasores continuavam a passar pelo rombo sem parar, mas três figuras não o faziam. Esforçando um pouco sua vista, conseguia ver três figuras aparentemente paradas, inicialmente pequenas como formigas, mas cada vez ficando maiores e maiores. Não demorou muito para que compreendesse o que estava acontecendo ali. Essas pessoas... elas não estão paradas! Elas estão vindo pra cá! Elas estão correndo pela muralha! Elas estão...

Não teve tempo de concluir seu pensamento. As figuras ainda eram indiscerníveis para ele, avançando rápido demais para que pudesse realmente ver quem eram, e no momento em que elas passaram diante de seu rosto o susto que levou com aquilo fez com que ele quase saltasse para trás, tropeçando em seus próprios pés e caindo de bunda pra trás. Em questão de momentos depois disso, ouviu o som das figuras aterrissando, e isso fez com que seu rosto imediatamente se voltasse em direção a elas.

– Yo, vocês demoraram um pouco! – disse Jiazz para as três pessoas, olhando para cada uma delas enquanto falava, seu eterno sorriso alargando-se ainda mais em sinal de que ele estava bastante satisfeito com aquilo. – Ei, Reivjak! Por que vocês demoraram assim?

Uma das figuras – a que supunha ser o tal de Reivjak – suspirou ao ouvir aquilo e coçou sua cabeça, balançando-a como se já esperasse por aquilo. Ele era um homem com uma aparência no mínimo diferente do normal; um grosso casaco cinza fechado cobria todo o corpo dele, deixando apenas suas botas e luvas negras a mostra, enquanto que o capuz do homem cobria seu rosto, fazendo com que apenas uma pequena parte desse fosse visível. Pelo que conseguia ver, Reivjak tinha cabelos negros como carvão, com uma consistência que fazia parecer que eles estavam constantemente molhados, caídos sobre o rosto dele como se estivessem umedecidos. Fora isso, Reivjak parecia bem normal; seus olhos claros e seu rosto aparentemente delicado faziam com que ele tivesse feições um pouco afeminadas, mas nada demais, e de qualquer forma, o cigarro acesso entre seus lábios lhe dava uma pose um pouco mais masculina para contrabalancear isso.

– Nós não demoramos ou coisa do tipo, Jiazz – resmungou Reivjak, falando com um tom de preguiça claro em sua voz, embora isso pudesse muito bem ser simplesmente cansado ou entediado. – Nós estamos aqui no momento em que deveríamos estar aqui, nenhum minuto mais cedo ou mais tarde. Suas orientações foram que nos encontrássemos apenas depois da destruição do portão, lembra?

Pela expressão de seu rosto, se atrevia a dizer que o homem não se lembrava.

– Hum, eu disse isso? – perguntou Jiazz a si mesmo, inclinando o rosto para um lado como se estivesse pensando naquilo, forçando a mente para tentar lembrar-se disso. Não demorou muito para que ele parecesse desistir de tal, entretanto, e logo seu olhar caiu sobre outra das figuras ali. – Ei, Saber. Eu realmente disse isso?

A pessoa a qual ele se referiu dessa vez era... uma mulher? Um homem? Não sabia dizer, francamente. A aparência era androginia, muito mais do que a de Reivjak. A pessoa em questão vestia-se com roupas que lembravam-lhe trajes militares, com patentes em seus ombros e um quepe militar em sua cabeça, encobrindo a maior parte de seus cabelos negros lisos e bem arrumados, razoavelmente longos. As feições de seu rosto eram finas, mas isso não definia nada até onde podia dizer, já tendo vistos muitos homens com aparências similares ou até mais femininas do que aquela. O que lhe chamava a atenção, no entanto, era o fato de que aquela pessoa não possuía sinais propriamente femininos, como a presença de curvas ou o volume de seios. Deve se tratar de um homem, então... foi o que ele pensou, até a pessoa em questão falar com uma voz que remetia mais à de uma mulher do que a de um homem.

– Temo que sim, líder – disse ela... ou ele... apalpando a empunhadura do sabre que trazia pendurado em sua cintura enquanto olhava para a cidade do Salão Cinzento. Uma coisa que não pode deixar de notar nessa pessoa, homem ou mulher, era que ela tinha um certo ar nobre ao redor dela; cada uma de suas ações parecia cheia de elegância, como se fossem coreografadas, algo que você normalmente só via em nobres que foram treinados para aquilo por toda a sua infância. – Suas ordens foram que nos encontrássemos com você apenas depois da destruição. Se não me engano, suas palavras exatas foram “esperem aí um pouco que quero dar uma olhada em algumas coisas lá em cima. Venham até mim apenas depois que eu destruir o portão. E tragam rum.” – e dizendo isso, Saber enfiou uma mão na parte de trás de sua vestimenta, e de lá retirou uma garrafa cheia. – Aqui está o rum, por sinal.

O sorriso que Jiazz mostrou no instante em que viu aquela garrafa parecia dizer “eu adoro esse cara!”; apanhou a garrafa de rum das mãos de Saber com uma alegria como a que alguém via em uma criança que acabou de ganhar um brinquedo novo, e removendo rapidamente a tampa da garrafa ele começou prontamente a entornar a bebida em sua boca aberta de forma desleixada, deixando que parte dela escorresse pelos seus lábios e pingasse ao chão. E enquanto ele bebeu, a terceira pessoa começou a falar.

– Então... estamos aqui... e temos uma cidade cheia de cavaleiros ao horizonte. Cavaleiros que provavelmente estão bem putos conosco a essa altura, tudo considerado – disse em tom de contemplação um homem de curtos cabelos negros, com costeletas avantajadas e uma barbicha escura em seu queixo. O homem em questão era alto, embora perto de Jiazz ele parecesse ser do tamanho de uma criança, mas ao invés de seu aparente líder ele não tinha um corpo musculoso; ao invés disso, sua musculatura era quase inexistente, seu corpo sendo mais esguio do que tudo. Não usava camisa, e isso deixava dezenas de tatuagens que lhe cobriam; de imediato imaginou que aquelas eram tatuagens tribais, vários símbolos estranhos que cobriam todo o seu corpo, mas logo notou que não era esse o caso. Aquelas tatuagens eram na verdade vários desenhos de correntes negras, uma ligada a outra, com seus olhos espalhados por todo o torso do homem, parecendo adaptarem-se as formas do corpo dele, tornando-se maiores ou menores de acordo com a parte em que estavam e parecendo variarem levemente de desenho dependendo da área. As calças que o homem usava pareciam ser pouco mais do que um pedaço de pano amarrado a sua cintura, leves, mas ao mesmo tempo parecendo suficiente grossas para cobri-lo e protege-lo. Não usava botinas ou coisa do tipo, estando de pés nus ali, e da mesma forma ele também não parecia trazer arma nenhuma consigo. – Chefe, acho que é melhor começarmos a agir logo, não concorda? – questionou ele, voltando-se para Jiazz. – Quero dizer, nada contra os cavaleiros da minha parte, mas se escolhemos ir contra ele, então é melhor para nós que eles sejam derrotados aqui.

– Os cavaleiros não representam perigo para nós, Alcatraz, sendo derrotados aqui ou não – apontou Saber, apontando para a cidade. A muralha era consideravelmente afastada da zona urbana a cidade graças à um bom planejamento por parte dos líderes do Salão Cinzento, mas mesmo assim, ele estava começando a conseguir ouvir alguns sinais de caos se espalhando: gritos, destruição, sons de batalha. – Mesmo caso eles sejam vitoriosos aqui, é uma certeza de que eles sofrerão graves danos nas mãos do Olho Vermelho. Estarão enfraquecidos demais para focarem-se em nós ao fim de tudo isso. E mesmo que não seja esse o caso, eles não vão querer desafiar alguém como Jiazz, não com Ember voltando seus olhos para o sul.

– Concordo com isso, Saber, mas acho que Alcatraz também tem um bom ponto aqui – disse Reivjak, voltando-se para ambos. – É verdade que o Salão Cinzento provavelmente não vai querer encrenca conosco mesmo caso sejam vitoriosos, mas isso não significa que é uma boa ideia deixarmos que eles saiam vitoriosos daqui. Fomos contratados pelo Olho Vermelho. Estamos servindo o Olho Vermelho. Estamos do lado do Olho Vermelho. Em minha opinião, nunca é uma boa coisa se seus aliados são derrotados. Nós temos o poder para evitar isso, no entanto, e estamos ganhando pra isso. Ajudar nessa batalha me parece ser a escolha a fazer.

Então, eles realmente são inimigos? Aquilo não lhe surpreendia realmente, havia imaginado que esse era o caso desde que Jiazz começou a agir... mas o que eles estavam discutindo era algo muito mais interessante. Pela discussão deles, eles parecem não estar certos sobre ajudar ou não o inimigo. Aquilo era algo muito bom pra ele; havia imaginado desde o início que eles estavam completamente do lado de seus oponentes, e isso significaria que eles eram seus adversários, mas talvez eles tivessem apenas sido contratados para abrirem um buraco nos portões. Se for esse o caso, isso significa que eu posso tentar convencê-los a não persistirem em uma briga conosco! Não tinha muita confiança quanto as suas habilidades de fazer isso – era um cavaleiro e guarda, não um diplomata – mas aquela era uma chance boa demais para que simplesmente a ignorasse e deixasse-a passar. Tenho de tentar algo! Tenho de...

– Partam para o ataque quando quiserem – as palavras de Jiazz foram ditas de forma simples, como se não fossem nada importante, mas ao mesmo tempo elas foram todo o suficiente para quebrar todas as esperanças que tinha em arranjar uma solução razoavelmente pacífica para aquilo. O homem jogou a garrafa de rum por cima de seu ombro sem se importar com onde ela caia enquanto com as costas de sua outra mão limpava o rosto de forma porca e desleixada. – Fomos pagos para lutar, e é isso que vamos fazer. Além do mais, seria bem broxante vir para uma batalha tão grande quanto essa e sair sem bater em ninguém. – um sorriso perturbador abriu-se em seu rosto, como se ele estivesse ansioso por entrar na batalha. – Pretendo tirar bastante diversão disso, ah, sim. Sintam-se livres para fazer o mesmo.

– Lutar não é realmente o meu passatempo favorito – reclamou Reivjak, esticando seu corpo, seus ossos estalando com seu movimento. – Isso dito... bem, estou sendo pago pra isso, certo? Seria no mínimo inconsiderado da minha parte não fazer isso.

– De acordo – concordou Saber, ajeitando seu quepe com a ponta dos dedos. – Não tiro tanta satisfação em uma luta quanto você, Jiazz... mas se a sua ordem é que eu lute, irei fazer isso e farei um bom trabalho.

– Eu francamente não me importo – comentou alegremente Alcatraz, sorrindo de forma jovial. – Quero dizer, com as minhas habilidades, não é como se eu realmente lutasse ou coisa do tipo. Ou, ao menos, eu não chamaria isso de luta.

– Só tem uma coisa que eu quero que vocês mantenham em mente – advertiu Jiazz, pela primeira vez parecendo sério desde que havia o visto, voltando-se para os três com um rosto focado e compenetrado e assumindo uma voz mais firme também. – O Olho Vermelho quer que saiamos por ai matando todos que encontrarmos. Não façam isso. Somos mercenários, não assassinos. Somos pagos pra lutar, não pra matar. Se tivessem de matar alguém, se essa pessoa fazer algo que os motive pessoalmente a matá-la ou se ela simplesmente morrer durante a batalha, não tem problema, mas não saiam de seus caminhos pra matar alguém simplesmente por uns trocados a mais. Estou disposto a tirar dinheiro do meu pagamento e passar pra vocês se for o caso, mas não quero que vocês se tornem matadores de aluguel.

O trio olhou para ele ao ouvir isso, e nem mesmo o guarda pode deixar de fazer isso. Ele... quer pagá-los para que eles não matem por dinheiro? Aquilo era... nobre. Surpreendentemente nobre da parte de um mercenário. Não demorou muito para que um deles reagisse, sendo Saber o primeiro, puxando seu quepe de forma a cobrir seus olhos.

– É isso... – disse ele, quase que em um sussurro, um sorriso fino surgindo em seu rosto. – São momentos como esse que justificam o fato de eu lhe seguir, Jiazz. Momentos como esse que justificam minha lealdade. Você, definitivamente, é um homem que merece meu respeito e minha lealdade; nunca antes vi uma alma tão nobre e humilde quanto a sua, líder!

– Menos, menos; se você vai babar as bolas dele, Saber, faça isso quando estiverem em privacidade – censurou Alcatraz, conseguindo quase que imediatamente um olhar enfurecido de Saber por suas palavras, algo que apenas fez com que ele gargalhasse um pouco mais. Só depois voltou a focar sua atenção em Jiazz. – Isso dito, o que ela falou não é mentira, Jiazz. Não se preocupe com isso de dinheiro, não me importo com coisas assim.

– Pra ser sincero, chega até a ser um pouco ofensivo o fato de você achar que eu poderia me preocupar tanto assim com dinheiro. Nós nos conhecemos há um bom tempo, Jiazz, mais do que o suficiente para que você saiba que isso não influencia em nada pra mim. Estou aqui por que você é alguém que eu respeito e você pediu minha ajuda, não por algumas moedas brilhantes.

– Sério? – questionou Alcatraz, erguendo uma sobrancelha. – Eu nunca imaginaria isso considerando como você estava falando de dinheiro antes.

– Eu sou bipolar, cale a boca – foi a resposta de Reivjak.

Jiazz apenas fez rir diante de tudo aquilo, enquanto o guarda não pode deixar de se surpreender. Esses caras... eles são estranhos. Muito estranhos. Não se referia apenas a questões como o fato das ações deles terem aparências estranhas e personalidades no mínimo únicas, mas também ao fato deles estarem falando daquela forma com Jiazz. Isso é estranho. Ele é o líder deles, se não me engano, e mesmo se não fosse, ele é alguém poderoso e famoso. Eles não faltaram necessariamente com respeito a ele pelo que eu sei, mas mesmo assim, essa não é a forma como você esperaria que alguém agiria diante de um homem assim. E no entanto eles o faziam, e Jiazz não parecia minimamente incomodado por aquilo.

– Muito bem, agora que isso está decidido, sintam-se livres para partir pra batalha! – disse o Juggernaut, estalando o pescoço. – Apenas cuidem-se e certifiquem-se de não morrerem! Sério, se algum de vocês ousar morrer aqui eu juro que arranco sua alma do inferno!

Eles não demoraram a agir depois de ouvir aquilo. Saber foi o primeiro deles, partindo a correr imediatamente após ouvir aquelas palavras, saltando da muralha em direção a cidade sem medo, ignorando a altura dali. Pior que ela foi Alcatraz, que simplesmente deixou-se cair da beira da muralha com os braços abertos e um sorriso no rosto, como se estivesse sugerindo que iria criar asas e voar... ou zombando desse pensamento, o que por algum motivo parecia ser o mais provável para o guarda. Foi apenas Reivjak que teve uma solução mais... “racional” àquilo, e mesmo assim, essa foi bem surpreendente e fora do normal. O homem encapuzado olhou para a cidade, suspirou, abaixou sua cabeça... e no instante em que ele fez isso, correntes de escorreram pela manga de seu casaco como se fossem cobras. Viu os olhos do homem brilharem com um azul forte e sobrenatural por um instante, e logo em seguida as correntes agiram como se tivessem vida própria, disparando para a cidade, esticando-se por mais do que os olhos podiam ver. Não chegou a ver o que exatamente elas fizeram, mas no fim, julgou que isso não importava; de uma só vez o corpo de Reivjak foi puxado por elas, e em questão de instantes ele desapareceu.

Ainda estava tentando entender o que havia acontecido ali quando sentiu uma presença em suas costas, e nem sequer precisou se virar para saber quem era o dono dela. A mão de Jiazz caiu sob sua cabeça, pesada, e por mais que sentisse que Jiazz não estava realmente colocando força em sua mão, simplesmente não pode deixar de curvar sua cabeça diante do peso dela.

– Quanto a você, eu sugiro que procure um bom lugar no qual se esconder – disse o gigante, chamando a atenção do guarda com suas palavras inesperadas. – Essa vai ser uma batalha bem brutal pelo que posso ver, e você não é forte o suficiente para fazer alguma diferença aqui. O melhor é que você simplesmente corra, mas mesmo isso provavelmente culminaria na sua morte. Então apenas esconda-se e espere pelo fim.

Espere pelo fim? Aquelas normalmente eram palavras que soavam ameaçadoras quando um inimigo as dizia, mas da forma que Jiazz havia o feito, elas pareciam mais tranquilizantes do que tudo. Ele está me dando a chance de fugir... ele está dando ordens diretamente para que seus subordinados não matem pessoas desnecessariamente... afinal, ele é realmente meu inimigo? As linhas estavam ficando confusas ali. Confusas demais.

Abriu sua boca para dizer alguma coisa quanto àquilo, mas não teve tempo o suficiente para que nem uma única palavra saísse de seus lábios. Antes que pudesse dizer algo, Jiazz já havia desaparecido; só pode ter uma breve visão de relance do casaco dele antes que todos os traços de Jiazz desaparecessem por completo. E tão rápido quanto tudo aquilo havia acontecido, viu-se sozinho.

Olhou ao redor. Não há guardas. Nenhum. Alguns já deveriam ter chegado até ali a essa hora, se não por uma simples rota de patrulha, devido ao estrondo da explosão do portão. Se não existem guardas aqui... isso significa que o inimigo fez alguma coisa com eles? Não sabia, mas supunha que isso não importava. Tenho uma escolha a fazer agora. Olhando para o Salão Cinzento, já conseguia ver algumas das casas da cidade começando a queimar, fumaça subindo aos céus. Uma batalha vai acontecer aqui. Ou melhor... uma batalha está acontecendo aqui. Uma batalha que envolve Jiazz, os companheiros dele, e aparentemente até o Olho Vermelho pelo que ele falou. Uma batalha na qual, pelo que Jiazz havia dito, ele não podia fazer diferença... e isso era algo no qual acreditava, com toda sinceridade. Afinal, era só um guarda; o que ele poderia fazer contra pessoas como Jiazz?

Mas mesmo assim... Seus olhos caíram sobre sua espada no chão, caída no lugar aonde ele estava no início de tudo. Eu... eu não posso simplesmente abandonar essa cidade! Era ali que moravam seus companheiros, seus amigos, sua família. Não podia simplesmente virar as costas e abandonar aquele lugar. Para ele – não, para todos os cavaleiros – o Salão Cinzento era a sua vida.

Correu, tomou rapidamente a espada em mãos, e antes que tivesse tempo para começar a hesitar, partiu correndo para juntar-se a batalha.

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Área Sul, 4 minutos após a queda do Portão do Oeste...

A taverna estava bem animada pelo que podia ver, e os curiosos olhos de Skylar corriam por toda a sua extensão, analisando cada pessoa ali. Isso é incrível. Nunca vi tantas pessoas diferentes reunidas em um único lugar. Sendo um rastreador, estava constantemente trabalhando com diversos grupos para um objetivo, e isso já havia lhe colocado junto de vários grupos que chamariam de estranhos ou extravagantes, mas nenhum deles reunia tantas pessoas diferentes como aquela taverna; cavaleiros, mercenários, cidadãos... até mesmo algumas crianças estavam ali, acompanhando seus parentes. Em uma mesa, um homem e uma mulher brincavam e conversavam com sua filha, uma pequena menina que não deveria ter mais de oito anos, enquanto mantinham as mãos dadas e por vezes trocavam olhares. Em outra, um grupo de mercenários de aparência rude bebiam e contavam anedotas entre si, por vezes olhando para outras mesas nas quais estavam algumas mulheres. Em uma terceira, um grupo que chamava a si mesmo de “clã Potentia Aurae” parecia estar discutindo alguma coisa entre si, seu líder – um homem de um metro e oitenta com cabelos preto-azulados curtos, um pouco espetados na parte da testa – sendo o mais falante entre eles, mas apesar disso, estava longe demais para realmente ser capaz de entender o que eles diziam. E em uma quarta mesa, uma mulher que aparentemente era membra do Potentia Aurae com cabelos cor de âmbar presos em um rabo de cavalo falava com outras duas mulheres, e apesar de não conseguir ouvir o que ela dizia também, Skylar podia ver o suficiente para chutar que ela estava tentando recrutá-las ou coisa do tipo. E, claro, além dessas mesas em específico também haviam várias outras que estavam ocupadas, cada uma delas com tipos diferentes de pessoas. O Salão Cinzento realmente não se restringiu aqui, pensou Skylar, olhando para tudo aquilo. Eles recrutaram várias pessoas diferentes, o que me sugere que eles estão sendo bem cuidadosos agora. Isso chamava sua atenção. Havia sido informado quanto a situação, sabia que eles estavam em guerra com uma guilda ilegal chamada “Olho Vermelho”, mas considerando que se tratava do Olho Vermelho, havia imaginado que eles iriam contratar poucos mercenários por simples falta de necessidade. Se eles contrataram tantos mercenários assim para agirem em adição aos cavaleiros dos quais eles dispõe, então eu não consigo deixar de imaginar que a situação é bem séria.

Averteu seus olhos por um momento para saborear um pouco de sua bebida – suco de laranja, já que era fraco com álcool – e quando voltou a erguê-los tomou um susto tão grande com a mulher que subitamente havia surgido a sua frente que quase caiu pra trás levando cadeira, mesa e tudo consigo.

Foi só depois do susto e de se acalmar um pouco que pode realmente ter calma o suficiente para reparar naquela mulher de forma decente, ver como ela realmente era. Jovem e bonita, foram os primeiros pensamentos que passaram por sua mente quando os olhos caíram sobre ela; a pele dela parecia levemente dourada pelo sol, e os cabelos avermelhados que ela tinha eram ondulados, caindo até mais ou menos o meio de suas costas. Os olhos dela eram verde-oliva, e os lábios coloridos por um batom vermelho se destacavam em meio as suas feições. Suas roupas pareciam leves e traziam decotes, que apesar de não serem assim tão grandes, eram suficientes para que coisas como o busto levemente avantajado dela chamassem a atenção de seus olhos. Engoliu em seco quase que instantaneamente, sentindo-se intimidado pela presença dela, principalmente quando ela sorriu. O-o que ela quer aqui? Por que ela veio até mim? Sabia que devia fazer essas perguntas em voz alta, mas era difícil fazer perguntas como essa quando aquela mulher estava ali, lhe olhando daquela forma.

– Parece que eu estava certa; você me parece ser bem tímido, não é? – comentou ela, em um tom de voz divertido, fazendo com ele prontamente sentisse seu rosto começar a corar. – Isso explica muitas coisas. Bem que estranhei que um garoto bonitinho como você estivesse sozinho em um lugar como esse.

Sentia-se como se um grande bolo estivesse travando sua garganta, segurando sua voz. Queria dar alguma resposta aquela mulher, mas simplesmente não conseguia fazer isso, não conseguia dizer nada. Eu nem sei qual é o nome dela, pra começo de conversa! ... Apesar de que, isso pode ser útil. Teve algum trabalho para isso, mas no fim das contas conseguiu exprimir algumas palavras pra fora.

– Quem.... – começou ele, censurando-se imediatamente ao notar o que exatamente ele esteve prestes a dizer. Eu já ia perguntar “quem é você”! Isso é péssimo! Você não fala assim com uma mulher que você acabou de conhecer! Limpou sua garganta, respirou fundo para tentar se acalmar um pouco e tentou de novo. – Err... qual é o seu nome, senhorita...?

– Coralina Carter – respondeu prontamente ela, sorrindo amavelmente para ele ao dizer isso. O sorriso dela fez com que Skylar sentisse seu rosto corar mais um pouco, mas pelo menos dessa vez ele não foi tomado por um desejo de sair correndo dali e enfiar sua cabeça no primeiro buraco que surgisse em sua frente, o que pra ele era um bom progresso. – E você, garoto? Qual o seu nome?

– Skylar – respondeu ele, sentindo-se um pouco mais confortável. Bom, ao menos agora não estamos falando mais sobre minha timidez, então acho que as coisas devem ser um pouco melhores de agora em diante. – Só Skylar. Não tenho nome de família ou coisa do tipo.

Isso fez com que uma das sobrancelhas da mulher se erguesse em curiosidade.

– Não tem? – perguntou ela, intrigada. – Isso tem alguma história, não tem? Chuto que alguma história relacionada a essa sua cicatriz – disse ela, apontando calmamente para a cicatriz em sua face esquerda.

Uma história? ... Bem, creio que sim. Ainda lembrava-se do fogo que havia lhe dado aquela cicatriz, mesmo depois de tantos anos... mas essa não era necessariamente uma história que queria dividir com alguém que acabou de conhecer, e por isso decidiu mudar de assunto.

– Então, você também é uma mercenária? – perguntou ele, subitamente. – O Salão Cinzento parece estar contratando bastante mercenários recentemente.

Sua pergunta foi estúpida, sabia bem disso, mas foi o melhor que ele pode pensar em um momento. E de qualquer forma, isso pareceu ser o suficiente; mesmo com sua pergunta estúpida, a mulher pareceu entender que ele não queria falar daquilo, e ela não objetou quanto a isso.

– Sim. Eu e metade da taverna, pra ser sincera – comentou ela, correndo rapidamente os olhos ao seu redor. Depois deixou-os pousar novamente sobre Skylar, fitando o jovem com certo interesse. – Você não é? Digo, eu pensei que era um mercenário também, mas pelas suas palavras, esse não deve ser o caso. E, sem ofensas, mas você não me parece um cavaleiro também.

– Não, não sou nenhum dos dois, realmente – concordou ele, acenando com a cabeça. – Eu... acho que sou o que você poderia chamar de um “rastreador”. Eu... rastreio.

– Só rastreia? – questionou ela, erguendo novamente uma sobrancelha. – Isso é difícil de imaginar. Você deve saber lutar decentemente também, certo? É difícil pra mim imaginar que alguém que não sabe se defender seria contratado para participar de um trabalho como esse, independentemente de quais outros talentos essa pessoa possa ter.

– Bem, eu sei lutar um pouco com um bastão. Considero-me bom o suficiente com um – admitiu Skylar, balançando a cabeça. – Além disso, também tem a questão da magia. Não sei usá-la ainda, mas pelo que eu pude descobrir com magos que encontrei em minhas viagens e tudo mais, eu pareço ter o dom pra elas. Imagino que com um pouco de treino eu possa us-

EI! – o grito veio do nada, surpreendendo tanto ele quanto Coralina e metade do bar. Várias cabeças voltaram-se na direção dele, apenas para encontrarem um homem olhando pela janela do sul da taverna, quase que grudado nela, sinalizando para que viessem até ele com uma das mãos. – Ei, venham ver! Tem alguma coisa acontecendo com o Portão do Sul!

Trocou um olhar com a mulher ao ouvir, isso, confuso, e esse olhar foi o suficiente para que soubesse que ela estava tão confusa quanto ele. Mesmo assim, apressou-se a caminhar até lá, tendo a sorte de chegar antes que o resto do bar se aproximasse, o que lhe deu uma posição para ver a cena.

E quando viu aquilo, mal pode acreditar em seus olhos.

O Portão do Sul era um dos quatro portões de acesso ao Salão Cinzento. Cada um desses portões era gigantesco, com trezentos metros de altura por duzentos de comprimento, maciços, monstruosos. Eles haviam sido feitos ainda na era do fundador do Salão Cinzento – o Herói Cinzento – e nunca haviam caído desde então, ou sequer sido ameaçados.

E no entanto, com seus próprios olhos Skylar estava testemunhando o Portão do Sul derretendo, sendo corroído por um estranho líquido escarlate.

A comoção na taverna foi imediata, e quase que ensurdecedora também. Não podia culpar as pessoas por aquilo, no entanto; ele mesmo estava tão surpreso quanto eles. O que está acontecendo? O Portão... o que está acontecendo? Não entendia aquilo, não entendia nada daquilo.

E foi então que, subitamente, ele viu alguma coisa passar pelo portão. Inicialmente pensou que isso havia sido apenas impressão, mas logo provou-se que não era algo tão simples assim quando o ponto vermelho que ele pensou ter visto passando pelo portão ficou progressivamente maior, aproximando-se cada vez mais dele em uma velocidade assustadora. Isso... isso é uma pessoa! Alguém está vindo contra nós!

Tentou se afastar da janela, mas não teve sequer tempo pra isso. A pessoa – quem quer que fosse – atravessou-a com brutalidade em uma explosão de fogo que arremessou Skylar e outros próximos direto para uma das paredes laterais da taverna. Bateu na parede e escorreu ao chão, mas teve uma reação rápida; sacudiu sua cabeça para não permanecer confuso por aquilo e logo moveu seus olhos para a figura no centro da taverna.

Um homem alto e corpulento estava ali, claramente forte, com um físico guerreiro pronunciado. Tinha cabelos negros curtos e espetados e uma barba que vinha de suas suíças até o queixo. Seus olhos eram duros, inflexíveis, e uma armadura feia de ferro cobria todo o seu corpo, por exceção do braço direito. Esse era coberto por algo também, mas por algo diferente; o que parecia ser uma mistura entre uma armadura e uma grande lâmina, ambas do que parecia ser fogo solidificado, eram o que cobria o braço direito do homem, e de forma semelhante, asas de fogo saiam de suas costas, provavelmente as responsáveis pelo avanço rápido dele. Os olhos do homem correndo rapidamente pelo ambiente, antes que um leve resmungo viesse de sua garganta, um momento antes de ser seguido por palavras.

– Cleus Jombaek – disse ele, esticando seu braço com a lâmina de fogo. Foi só quando ele fez esse movimento que Skylar notou algo; abaixo de seus pés estavam os restos do crânio do homem que havia lhes chamado antes, o homem que estava bem do lado de Skylar. Ele matou-o em sua chegada, compreendo o jovem, algo que lhe deixou apreensivo. Droga... eu podia facilmente estar no lugar dele. Esse cara é perigoso. Muito perigoso. – Mantenham meu nome em mente, membros e aliados do Salão Cinzento. Eu sou Cleus Jombaek, o Pássaro de Fogo do Olho Vermelho. Digam esse nome ao Deus da Morte quando ele perguntar quem lhes matou.

As palavras do homem foram um estopim para todos que estavam ali. No momento em que elas ressoaram, dezenas dos clientes da taverna avançaram contra ele. Homens, mulheres, velhos, jovens, mercenários, cavaleiros, todos avançaram como um, sacando e erguendo suas armas alto no ar. Skylar não se juntou a eles, entretanto. Algo lhe disse que aquilo não seria assim tão fácil assim, e logo viu a sabedoria em ter se mantido longe.

Por um instante os olhos de Cleus brilharam com a cor da chama, e antes que qualquer um pudesse fazer alguma coisa, a lâmina de fogo do guerreiro moveu. A lâmina girou em um ângulo de trezentos e sessenta graus, e por onde ela passou chamas selvagens seguiram, gerando uma explosão vermelha que engoliu todos os que haviam tentado avançar contra ele. Só por estar mais distante foi que Skylar não foi engolido por essas chamas, apesar de ainda conseguir sentir como se seus ossos estivessem derretendo. Cruzou os braços a frente de seu corpo para tentar suportar um pouco melhor a força da explosão, mas nem mesmo isso foi o suficiente. Sem que pudesse estabelecer uma verdadeira resistência aquilo, seu corpo foi arremessado longe, quebrando parte do teto da taverna e sendo jogado ao ar.

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Área Leste, 3 minutos após a queda do Portão do Sul

– Como eu disse, as coisas não são tão simples assim, Titânia! – enquanto falava com a mulher, Alexander não conseguia deixar de coçar sua cabeça e perguntar-se o porquê das coisas serem tão complicadas assim. Era um homem alto, com dois metros de altura, e seu corpo musculoso estava coberto por sua grossa armadura branca, revestida principalmente no que dizia respeito à área de seus braços, mas não era estúpido o suficiente para achar que isso era nem de longe o suficiente para arriscar um confronto contra aquela mulher. Tenho confiança na minha força, mas ela é uma Ascendente! O nível dela está mais próximo do de um monstro do que do de um humano! – Eu sei que você está preocupada e tudo mais, mas você tem de manter em mente que-

– Saia do meu caminho – interrompeu ela, fitando-lhe com olhos duros. Ela não estava armada com Gáe Bolg, e Florian e Behemoth estavam ali para lhe apoiar se tivesse algum problema, mas mesmo assim não pode deixar de sentir-se intimidado por aquilo. – Deixe-me ver Lancelot. Se insistir em me atrapalhar, vou ter de mata-lo.

Ah, maravilha, isso não poderia ser melhor! Não havia feito parte da leva de Titânia, mas havia falado com ela uma ou duas vezes e ouvido rumores o suficiente para saber bem que era já era uma pessoa difícil de se lidar em situações normais, mas ali ela estava particularmente irritada, e isso tornava-a muito mais perigosa. Oh, droga, droga, droga! Kazegami, saia de onde quer que você esteja e me ajude aqui, maldição!

Foi isso o que ele pensou, e no entanto, arrependeu-se disso quase que imediatamente quando o Primeiro Cavaleiro da quinquagésima oitava leva se mostrou.

A franja de seus cabelos – tingida de verde, como sempre – praticamente ocultava por completo os olhos dele, e no entanto, seus cabelos brancos que normalmente ficavam espetados para cima estavam caídos para baixo, simplesmente para que não atrapalhassem na utilização do grande sombreiro extravagante que ele usava em sua cabeça, colorido com tantas coisas que ele poderia facilmente passar por um pequeno arco-íris. Mas... que diabos? Sabia bem que Kazegami era louco – isso não era segredo para ninguém – mas não imaginava que ele era tão louco assim. E além do mais, a aparência dele com isso é ridícula!

PARE AONDE ESTÁ, MULHER VERMELHA! – exclamou ele com todas as forças de suas cordas vocais, saltando da sala aonde estava com Lancelot e fechando a porta atrás de si rapidamente enquanto colocava-se dramaticamente na frente de Titânia, de braços abertos como se fosse algum tipo de barreira ou muralha ou coisa do tipo. – PELA AUTORIDADE CONCEDIDA A MIM, EU LHE PROÍBO DE SEGUIR ADIANTE!

Por um momento, não só Titânia quanto todos ali ficaram completamente parados ao ouvir aquilo, apenas fiando a bizarrice de Kazegami sem saber que resposta deveriam dar a algo assim, tão absurdo. Eventualmente foi Titânia a primeira a reagir, e sua reação não foi realmente algo que alguém podia dizer não esperar. Com uma velocidade que mal conseguiram acompanhar, a mulher passou por Alexander direto para Kazegami, saltando contra o homem e acertando um chute poderoso direto no rosto dele, esmagando-o contra a parede sem o mínimo de misericórdia. Francamente, considerando a ação que o homem havia acabado de ter, não sabia nem se ele merecia algum tipo de misericórdia.

– Saiam do meu caminho, todos vocês – repetiu mais uma vez Titânia, o tom de voz dela estando claramente alterado por sua irritação, soando ameaçador aos ouvidos de todos ali. – Eu não vou tornar a me repetir. Continuem me atrapalhando e eu irei ter de lidar com vocês.

Maldição, ela parece bem séria, observou Alexander, voltando sua cabeça para olhar pra ela. Seus braços tremeram, e teve de usar toda a sua força de vontade para não erguer-se em posição de combate. Se eu me erguer em combate, então ela certamente vai lutar... mas ouvindo as ameaças de alguém como ela, o meu único instinto que tenho é o de me defender ou fugir. Afinal de contas, existia alguém no mundo que ficava tranquilamente parado diante de um leão que rugia?

Foi algo estranho que lhe fez se acalmar. Um som que ele não esperava ouvir. O som de chocalhos. Todos ali se voltaram imediatamente na direção desse som, e de certa forma, o responsável por ele não lhe surpreendeu. O rosto de Titânia era de longe o mais severo, e ao mesmo tempo o mais próximo dele; moveu-se lentamente, virando-se até que seus olhos fitassem intensamente Kazegami, ainda com seu rosto sendo pressionado com força contra a parede pela perna de Titânia. Isso não parecia incomodar o Cavalo Verde, no entanto; apesar disso e do fato de que Titânia claramente estava colocando força por trás de seu ataque, o homem de alguma forma havia conseguido retirar um par de chocalhos coloridos e agora balançava-os, fazendo um barulho irritante que estava claramente enfurecendo cada vez mais Titânia.

– Maldito... – resmungou ela, erguendo um punho em preparação para ataca-lo. – Não se atreva a zombar de mim!

Ei, isso é sério?! Viu a perna de Titânia se afastar, deixando que o corpo de Kazegami começasse a escorrer de volta para o chão, e ao mesmo tempo em que isso aconteceu ela também moveu seu punho contra ele. Como se eu fosse deixar isso acontecer! Antes que ela conseguisse concluir seu ataque, precipitou-se e agarrou o braço dela com sua mão, conseguindo detê-lo apesar disso não ser nada fácil. Tanta força! Ela planejava acertar Kazegami com esse tipo de poder? Ela iria esmagar a cabeça dele se fizesse isso, no sentido mais literal possível da palavra! Aquilo lhe deixava preocupado; Titânia sempre foi de poucos amigos e um tanto quanto agressiva, mas aquela era a primeira vez que via a mulher agindo assim, como se realmente quisesse matar alguém simplesmente por ter lhe irritado um pouco. Se ela está tão instável assim, então a questão de Lancelot deve estar realmente a afetando.

Isso dito, nenhuma dessas coisas lhe preocupou tanto quanto o olhar enfurecido que Titânia dirigiu a ele depois daquilo.

Por um momento pensou que a fúria de Titânia iria se voltar contra ele depois daquilo, mas felizmente ou não, isso não chegou a acontecer, não teve a chance de acontecer. Antes que qualquer um ali fizesse alguma coisa, um súbito som ecoou pelo ambiente chamando a atenção de todos, um som muito mais alto e mais sério do que o dos chocalhos de Kazegami. Um som de destruição, como se alguma coisa estivesse sendo quebrada em pedaços.

– Esse som... – ouviu ele, sabendo que aquela era a voz de Florian. Um grunhido de raiva foi captado por seus ouvidos, um instante antes que Florian gritasse. – Isso veio de fora, da direção do portão! Venham comigo! Temos de descobrir do que trata isso!

Do portão? Você quer dizer, do Portão do Leste? Isso é impossível! Aquele som era o de alguma coisa sendo destruída, e simplesmente não podia acreditar que essa coisa fosse o Portão do Leste. Os portões do Salão Cinzento nunca foram sequer danificados em toda a sua existência! Tem de ter algum erro nisso! Porém, certo ou errado, aquilo conseguiu lhe distrair, e isso deu a chance perfeita que Titânia esperava; a mulher puxou seu braço com força, tirando-o da mão de Alexander, e antes que ele pudesse esboçar alguma reação a isso ela foi rápida em correr para dentro do quarto de Lancelot, fechando a porta atrás de si. Ora, saco! Precipitou-se em segui-la, mas antes que o fizesse a voz de Florian chamou sua atenção de novo.

– Deixe-a! – disse ele, agitado. – Titânia está hostil demais agora; tentar entrar em seu caminho é problemático demais no momento! Podemos nos focar nela depois, mas ao menos por hora nossa atenção deve estar concentrada em averiguar o que aconteceu e reagir de acordo!

Grunhiu os dentes ao ouvir isso. Maldição... Havia sido comandado diretamente por Soulcairn para tomar conta de Lancelot, da mesma forma que Florian e Behemoth haviam sido comandados a tomarem conta dela. Não gostava nada do pensamento de abandonar seu posto, mas simplesmente não via algo melhor que pudesse fazer naquela situação. Droga, pro inferno com tudo! Não estava ainda totalmente certo disso, mas mesmo assim, correu atrás de Florian e os outros.

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Salão Cinzento, 10 minutos após a queda dos três portões

Respirou fundo em uma tentativa de se acalmar. Como a situação ficou assim tão ruim em tão pouco tempo? Em questão de minutos depois da chegada de Jack Branco, Jack Negro e Maoh também chegaram, cada um deles trazendo uma notícia pior do que a do anterior. Não só o Portão do Oeste como também o Portão do Sul e o Portão do Leste. Três dos quatro portões caíram assim tão rapidamente. Não tinha dúvidas de que aquilo era algo feito pelo Olho Vermelho, mas saber disso não lhe ajudava muito ali. Feito pelo Olho Vermelho ou não, isso não muda o fato de que algo assim é extremamente problemático. Não estava simplesmente lidando com uma invasão; os portões eram um dos orgulhos do Salão Cinzento, um dos maiores monumentos dos cavaleiros. A queda deles possibilitava que o inimigo lhe atacasse, sim, mas isso era meramente algo menor se comparado ao impacto que causava a moral de suas forças. É por isso que preciso me acalmar, pensou ela, rangendo os dentes. Em tempos como esse, precisamos de uma líder que saiba pensar com lucidez e calma, não de uma mulher raivosa e descontrolada.

– Jack Branco, Jack Negro, Maoh – disse ela, lentamente, deixando que os nomes de cada um dos cavaleiros caíssem bem em seus ouvidos. – Seus relatórios estão completos. O que vocês me disseram é toda a informação atual?

– Sim, Gwynevere – informou solenemente Maoh, bem depois dela ter acabado de fazer sua pergunta. Deixou que seus olhos caíssem sobre ele por um momento. Primeiro Cavaleiro da quinquagésima quinta leva do Salão Cinzento, Maoh era possivelmente o mais belo dos cavaleiros do Salão Cinzento, ao menos dos atuais. Seus cabelos castanhos eram razoavelmente longos, vindo até a metade de suas costas, mas o que realmente fazia com que eles se destacassem era o fato de serem extremamente volumosos e selvagens, cobrindo por completo a parte de trás de sua cabeça, deixando uma longa franja cair sobre sua testa e ocultando até mesmo as orelhas do homem por completo... bem como pelo fato de que um par de chifres saia do meio desse cabelo, similares aos de um touro. Não sabiam o que isso era, e nunca se deram ao trabalho de perguntar; Maoh provavelmente tinha ao menos uma ideia, mas se ele não comentava era porque ele não tinha vontade de falar disso, e o que importava para eles era a alma, o caráter e a força dele, não sua aparência. E de qualquer forma, não é como se isso o prejudicasse de alguma forma. Apesar de sua aparência inusitada, Maoh era extremamente popular, tanto com homens quanto com mulheres, e isso era algo merecido. O “Demônio de Chifres”, como ele era chamado, era um homem absurdamente poderoso, sim, e alguém que estava quase sempre sério e aparentemente não contava com nenhum senso de humor, mas ele era também prestativo e até um pouco altruísta pelo que sabia, saindo de seu caminho para ajudar os outros quando isso se provava necessário. Um cavaleiro estranho e curioso, mas que me parece tremendamente eficiente e bastante honesto. Era bom que tivessem cavaleiros como ele presentes no Salão Cinzento agora; eles seriam muito uteis. – Os três portões do sul, oeste e leste foram destruídos, e forças inimigos estão atacando a cidade nesse momento. Faz pouco tempo desde que o ataque começou, mas aparentemente alguns de nossos cavaleiros já estão contra-atacando, fazendo com que o inimigo sangre um pouco também... embora não o suficiente.

– Alguém desertou? – questionou ela. Seria problemático se sim, mas não inesperado. Do Salão aonde estavam ainda não haviam sido realmente afetados pela batalha, mas podia imaginar que as coisas deveriam estar um verdadeiro inferno lá fora.

– Ainda não, embora eu tenha notado uma quantia preocupante de medo nos olhos de alguns enquanto vinha pra cá – respondeu Maoh, sem demonstrar emoção em seus claros olhos azuis. – Se as coisas continuarem nesse ritmo, logo estaremos tendo desertores, e cada desertor irá incentivar outros guerreiros a desertarem.

– Não, isso não vai acontecer. – as palavras de Gwynevere não foram arrogantes ou uma promessa de que ela não deixaria isso acontecer. Foram muito mais simples do que isso, o simples apontar de um fato. Talvez exatamente por isso ela conquistou um olhar intrigado não só de Maoh quanto de ambos os Jack, mas não se deu ao trabalho de explicar o que quis dizer a eles. Eles vão entender isso logo, de qualquer forma. Ao invés disso, o que fez foi virar-se para Ezequiel. – Ezequiel, estarei usando aquilo agora. Algum problema com isso?

– Nenhum – foi a resposta solene do homem, de braços cruzados. – Aquilo foi feito para ser usado em situações como essa, de qualquer forma. Vá em frente, Gwynevere.

Não precisou ouvir isso duas vezes. Assim que o homem deixou claro que não se incomodava com isso ela não perdeu tempo em retirar sua lança das costas de uma vez, sempre sob o olhar atento de todos ali, e sem hesitação ela cravou-lhe no chão a sua frente. Depois, sem perder tempo, deixou que a sua energia fluísse por seu corpo, passando pela lança e alcançando o próprio chão do Salão, fluindo para ele e para mais fundo ainda, para os confins do Salão.

Para o lugar aonde aquele feitiço estava.

Ative-se, Feitiço de Comunicação em Massa! – entoou ela, sentindo através de sua energia que suas palavras haviam tendo o efeito que deveriam, que elas estavam ativando o feitiço. – Conferência de Guerra!

Tão logo aquelas palavras foram ditas, teve a sensação que lhe deu a certeza de que isso tinha dado certa. A sensação de união. Sentiu como se todos estivessem bem ao seu lado, não apenas pessoas como Soulcairn ou Bokuto, Senjur ou Ezequiel, Maoh ou os Jack. Sentiu como se cada cavaleiro do Salão Cinzento na cidade naquele momento estivesse bem ao seu lado, sentiu-se interligada a eles. E tendo essa sensação, ela não hesitou em falar.

Cavaleiros do Salão Cinzento! – disse ela, tendo plena noção de que, naquele momento, todos os cavaleiros podiam ouvi-la perfeitamente, como se estivesse falando do lado deles. – Nós estamos sob ataque! Nesse exato momento, o inimigo marcha adentro de nossa cidade, queimando e quebrando tudo que encontra em seu caminho. Três dos nossos lendários portões foram quebrados pelo inimigo, e apesar de não sabermos quantos são eles, podemos facilmente dizer que seu número está na casa dos milhares.

“Mas mesmo assim, não há o que temer!

Nós somos os cavaleiros! Eles são o Olho Vermelho e seus afiliados! Nós somos guerreiros testados e provados, homens e mulheres que passaram por anos de treinamento mental e físico para sermos grandes na batalha. Por todo o mundo, homens e mulheres ouvem das nossas façanhas e duvidam delas, simplesmente porque o que fazemos é incrível demais para que acreditem nisso. Nós vivemos de quebrar os limites humanos! Digam-me; que chance um grupo de criminosos possui contra nós?

O efeito surpresa deu a eles uma vantagem no primeiro momento, mas isso não define nada! Uma luta termina apenas quando um não pode mais lutar, não quando você arranca o primeiro sangue de alguém, e eu prometo-lhes isso, antes do fim dessa luta iremos fazer com que o Olho Vermelho sangre três vezes mais do que nós!

Avancem para a batalha, cavaleiros do Salão Cinzento! Mostrem ao nosso inimigo nossa força, ensinem a eles que os nossos portões nunca foram derrubados não por serem muito fortes, mas sim porque nossos inimigos sabiam que depois que os derrubassem eles teriam de lidar com os homens atrás deles! Desse momento em diante, eu, Gwynevere do Salão Cinzento, autorizo o uso de força total, e ordeno que todos os cavaleiros aqui destruam por completo nosso inimigo!”

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– Hahahahaha.... HAHAHAHAHAHA! – a risada quase que louca dele pareceu ecoar pela rua, e sabia que isso iria chamar a atenção de seus inimigos, mas simplesmente não pode se conter. – Permissão para usar toda a nossa força, Gwynevere? Você está realmente apelando com isso! Se usarmos toda a nossa força, ao fim de tudo não restará mais “Salão Cinzento”!

Jogou sua cabeça para trás e gargalhou mais, abertamente. Sentado em uma caixa de madeira no meio da rua, rindo daquele jeito, Zephyr Yvolheim estava aberto a qualquer inimigo que o encontrasse e resolvesse trazer sua cabeça, mas ele não poderia se importar menos com isso. Era um homem de aparência jovem, ele, com seus cabelos castanhos em sua maioria jogados para trás, apesar de contar com algumas mechas um pouco espetadas deste caindo sobre testa e olhos como franja. Um sorriso de orelha a orelha estava sempre em seu rosto, exibindo dentes brancos mais afiados do que o normal, o que fazia com que este mesmo sorriso parecesse sempre um tanto quanto intimidador. Usava uma armadura leve negra típica dos cavaleiros do Salão Cinzento, mas estranhamente, não trazia nenhuma arma consigo; lança, espada, machado... nenhuma delas eram visíveis naquele homem.

– Hahahahaha, hahahahaha, hahahahaha-oi – disse subitamente Zephyr, parando sua gargalhada em um único momento. O sorriso em seu rosto morreu instantaneamente no instante em que ele virou seu rosto para trás, fitando os inimigos que haviam acabado de chegar. Dez guerreiros envoltos em mantos negros que cobriam todo o corpo deles, deixando apenas as suas armas a mostra. – Ei, ei, soldados de infantaria? Qual é! Eu mereço mais que isso! Vão embora, vocês! Xô! Vaza! Não tenho tempo pra desperdiçar com peixe tão pequeno assim!

No que dizia respeito a mentalidade de Zephyr, seus oponentes deveriam sentir-se felizes por aquilo. Estava poupando a vida deles, dando-lhes a chance de fugir dali ao invés de morrerem lutando contra um oponente muito superior. No entanto, seu modo de pensar e o modo de pensar de seus inimigos não eram o mesmo. O que para ele era uma gentileza e misericórdia da sua parte, para seus inimigos era uma humilhação. Um rápido e quase imperceptível olhar foi trocado pelas figuras, e sem pensar duas vezes os dez avançaram correndo contra ele.

E isso só fez com que Zephyr sorrisse como um demônio traiçoeiro.

– Ei, se eu fosse vocês, eu não faria isso – advertiu ele, de forma sarcástica, em um ponto em que aquele aviso já vinha tarde demais.

Assim que suas palavras foram ditas a primeira das figuras sofreu seu efeito. Ela avançava bravamente contra ele, sua espada brilhando, tão limpa e pura que ela até mesmo chegava a refletir o rosto de Zephyr, quando subitamente seu corpo caiu no chão. Não teve aviso disso, não teve nada que pudesse alertar ninguém daquilo; ele estava bem em um instante e morto no outro. Vendo aquilo, os demais que lhe acompanhavam ficaram assustados, mas já era tarde demais para a maioria deles; sem que pudessem deter, cada uma das figuras foi caindo no chão, uma após a outra. O sorriso de Zephyr voltou a reinar em seu rosto, tão afiado e zombador quanto o de uma hiena... apenas para voltar a desaparecer no instante em que o cavaleiro percebeu que uma figura dentre as dez ainda estava viva e de pé, aparentemente olhando para ele.

– Oh, por essa eu não esperava – comentou ele, em um tom de voz que tornava difícil identificar se ele realmente estava elogiando seu oponente ou simplesmente sendo sarcástico. – Aparentemente, existe alguém com alguma habilidade entre vocês para conseguir parar antes de morrer. Surpreendente, surpreendente!

A figura não deu resposta a isso. Apesar de seu corpo estar coberto pelo manto, era visível que sua respiração estava descompassada pela simples forma como seu corpo movia-se debaixo dos panos e os sons que ela emitia. Zephyr não podia se importar menos com isso. Levantou-se da caixa aonde estava com calma, batendo palmas claramente sarcásticas com suas mãos, e voltou a olhar para a figura com o mesmo sorriso de hiena de antes.

– Isso dito, acho que você logo perceberá que sobreviver a isso não vai fazer diferença alguma – disse ele, como quem esclarece um fato. Seus olhos brilharam com arrogância e malícia, e sem pensar duas vezes o homem abriu os braços, deixando todo o seu corpo a mostra como um alvo para seu oponente. – Não importa quão forte você seja, não importa quem te proteja, não importa quais habilidades que você tenha! Independentemente de tudo isso, se você é meu oponente, você vai cair diante a minha Aloeiris! Pois nesse mundo, não existe poder maior que o meu: a Lei de Dez.

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– Permissão para lutar com tudo, não é? – as palavras saíram dos lábios da Miragem em tom um tom divertido, e não era pra menos; a mulher estava divertida com aquilo. – Isso não é realmente algo que me afeta, mas vai ser certamente algo que tornará as coisas bem mais interessantes. Pessoas como Zephyr, Goa, Maoh, Alexander, Kazegami e outros... elas possuem poderes com uma capacidade bem destrutiva. Vai ser interessante ver eles lutando com tudo.

Os olhos dela olharam em frente bem a tempo de fitarem um grupo de guerreiros encapuzados que seguiam contra ela. Em suas mãos brilhavam sabres e machados, e a velocidade e postura que cada um deles tinha deixava claro que não eram um grupo qualquer, mas sim guerreiros experientes e acostumados a lutar em grupo.

E ver isso fez com que Valery Alcaheim sorrisse em satisfação.

O olho direito daquela mulher não existia, coberto por um tapa olho em forma de caveira, simplesmente porque ela gostava dessa forma. Seus cabelos cor de platina eram longos e estavam presos em uma longa trança que caia sobre suas costas, alcançando até a cintura dela. Seu corpo era belo e voluptuoso, mas isso não era um motivo de orgulho para aquela mulher, e por tal placas grossas de aço protegiam-no e ocultavam-no dos olhos de outros. Com uma capa negra caindo-lhe sobre suas costas, ela transmitia um ar de realeza de nobreza de alguma forma, algo tanto natural dela quanto obtido através de vários trabalhos. Era uma cavaleira há sete anos, e nesse tempo havia feito várias missões como guarda-costas de nobres e mercadores ricos, um trabalho que requeria tanta elegância e diplomacia quanto talento com a espada. Era experiente, seus trinta e um anos de vida tendo lhe dado um bom conhecimento sobre batalhas e pessoas, e ainda assim, não era uma Ascendente. Sabia o motivo disso, entretanto. Apesar de todo o seu poder, nunca havia feito missões tão complicadas e perigosas quanto as de Titânia, Bokuto, Senjur e Soulcairn, nunca havia se destacado tanto quanto os outros.

Aquela era uma boa chance de mudar isso.

A primeira das figuras a atacar foi ousada, movendo seu sabre diretamente contra o rosto de Val em um corte horizontal, tentando cortar o crânio dela em dois. De certa forma, teve o que queria. Realmente cortou o rosto dela em dois, ou ao menos o que parecia ser o rosto dela. O golpe não encontrou nenhum tipo de resistência, e como se fosse uma miragem o rosto e corpo da mulher desapareceu com o vento, grãos de areia espalhados pelo ar.

A figura nem sequer teve tempo de manifestar sua surpresa diante daquilo antes que Val agisse. A espada dela cortou limpamente o rosto dele a partir de metade de seu nariz, deixando que a metade superior da sua face escorregasse e caísse sobre o chão. Uma ironia em relação ao seu ataque, mas Val apreciava ironias. Outra das figuras tentou lhe atacar ao ver aquilo, lançando uma estocada em direção ao coração dela, e essa estocada foi tão efetiva quanto o último ataque que seus inimigos lançaram; por um momento ela pareceu ter lhe atingido, antes que uma leve brisa soprasse e fosse revelado que a espada apenas estava parada no ar. Em resposta a isso, Val atravessou o coração daquele homem com sua própria espada, sorrindo e rindo em voz baixa em frente a ironia que reunia ali.

Os olhos dela caíram sobre as demais figuras, essas agora claramente hesitantes em tentar lhe atacar depois de verem o destino de seus aliados. Isso apenas fez com que ela se divertisse mais.

– Acho que Gwynevere está sendo um pouco exagerada aqui em permitir o uso de nossa força total – comentou ela, fitando seus oponentes. – Se nossos inimigos são tão fracos assim, não vamos precisar de nem um terço da nossa força para derrota-los!

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Em um beco, um homem se debatia com todas as forças de seu corpo.

Ele estava erguido e pressionado contra a parede. Quem fazia isso a ele usava meramente uma de suas mãos, mas apenas isso era mais do que o suficiente para tirar qualquer possibilidade que o outro tivesse de se soltar. E enquanto ele era pressionado contra a parede, o seu agressor mordia seu pescoço. Sangue empopava o pescoço de um e o rosto do outro, fluindo a jatos fortes, e o homem que era atacado a cada minuto parecia mais fraco. No início ele se debatia com força e energia, mas não demorou muito para que essa energia sumisse até que por fim ela parecesse simplesmente não existir mais. Seu corpo, completamente imóvel e frio como gelo, escorreu pela parede e caiu ao chão, enquanto seu agressor ocupava-se em apreciar as últimas goladas de seu sangue.

Uma vez isso feito ele jogou sua cabeça para trás, limpando sua boca com a manga de sua jaqueta azul. Enderthorn era seu nome, o homem que muitos apelidavam de “Vampiro” entre o Salão Cinzento devido a suas habilidades. Apesar do apelido, não trazia nada da beleza mística que vampiros supostamente tinham. Seus cabelos negros eram duros e quebradiços como fios de carvão, e seu rosto queimado pelo sol tinha uma aparência que parecia ao mesmo tempo doente e assustadora aos olhos de qualquer um que olhasse para ele, sendo bem ressecado, fazendo com que os olhos do homem parecessem uma gota de água em meio a um mar de óleo. Usava uma camisa branca, embora essa quase não ficava visível graças a jaqueta azul fechada que ele usava sobre ela, e suas calças eram negras, grossas e largas, ocultando parcialmente as botas de ferro que ele usava. Sua arma de escolha era uma katana, fina, afiada, ideal para cortar fora membros... o que era exatamente o que ele planejava fazer ali.

– Patético – resmungou ele, saindo calmamente do beco. Havia acabado de beber o sangue de um dos aliados do Olho Vermelho, e embora o sangue de alguém tão desprezível tivesse gosto de mijo, ele ainda era sangue. Ele continha a força da vida, e essa força dava energia a Enderthorn. – Acham mesmo que vão conseguir nos matar com uma força tão patética como essa, Olho Vermelho? Não nos subestimem! É melhor que mandem pessoas fortes para serem nossos oponentes, do contrário irei cortar a cabeça de todos vocês, um após o outro!

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As figuras envoltas em mantos avançaram contra o homem com um grito de guerra, mas aquilo não lhe intimidou. Um sorriso arrogante brilhava no rosto de Vaen “Olho de Falcão” Hoves, e de uma única vez o homem moveu seu bardiche contra eles. Nem chegou a atingir todos com um golpe direto, mas isso não era necessário de qualquer forma. A simples força por trás de seu ataque foi capaz de gerar uma onda de choque, fazendo com que o chão ao seu redor se rachasse e quebrasse ao mesmo tempo em que seus inimigos eram arremessados para o ar, sendo derrotados em um único golpe.

– Oi, oi, oi, oi, oi! – exclamou Vaen, o sangue fervendo em suas veias. Girou seu bardiche acima de sua cabeça e bateu a lâmina dele no chão, um desafio a qualquer outro oponente que pudesse estar oculto pelas redondezas. – Não pode ser só isso! Venham, Olho Vermelho! Eu, Vaen Hoves, irei derrotar cada um de vocês! Enfrentem-me!

Ninguém ergueu para responder seu chamado. Manteve sua postura por alguns momentos, sentindo-se progressivamente mais embaraçado por tudo aquilo, antes de pôr fim decidir assumir uma postura mais relaxada, seu rosto vermelho.

Com vinte e oito anos, Olho de Falcão era um dos mais experientes guerreiros da nova geração do Salão Cinzento, sendo sagrado Primeiro Cavaleiro da quinquagésima quarta leva. Tinha cabelos castanhos cor-de-terra espetados, longos e selvagens, e justamente por isso ele muitas vezes preferia prendê-los em um rabo de cavalo, deixá-los um pouco mais comportados para não incomodarem-no em batalhas. Não tinha seu olho esquerdo, tendo perdido esse há muito tempo em um acidente de sua infância, mas também não tinha a menor intenção de cobrir seu rosto com um tapa-olho, e por isso simplesmente andava por ai com um olho perpetuamente fechado. Sua armadura era da mesma cor de seus cabelos, grossa e dura, feita para resistir à altos impactos e golpes poderosos. Por força do hábito o homem invariavelmente mantinha um palito de dentes em sua boca, brincando com este mesmo enquanto lutava, e aquela situação não era uma exceção para isso.

– Merda, é só isso? – comentou ele, sem esconder o fato de que estava desapontado com o que havia visto até então. Considerando que aquilo se tratava de uma invasão, havia esperado encontrar oponentes poderosos capazes de lhe dar uma boa luta, mas até agora tudo o que havia encontrado eram fracotes e covardes. Isso não lhe agradava nem um pouco. – Ei, ei, não pode ser só isso! Gwynevere não liberaria o uso de força total para eliminarmos merdinhas como esses. EI! SE TEM ALGUÉM MAIS FORTE POR AÍ, APAREÇA! EU QUERO UMA LUTA DECENTE, SEUS MERDAS!

– Uau, você já derrotou todos eles? – a voz feminina, tola, meio infantil e irritante entregou quem era a dona dela, e no momento em que a ouviu, Vaen sentiu toda a sua empolgação morrer como se tivessem jogado água no fogo. – Isso é incrível! Absolutamente incrível! Você é realmente forte, Vaen!

Para quem olhasse o rosto daquele homem, era fácil ver a veia nervosa surgindo em sua testa a medida que a mulher falava. A voz dela irritava Vaen, a presença dela irritava Vaen, absolutamente tudo relacionado a ela irritava Vaen... e mesmo assim, ela parecia lhe seguir para todo canto. Seu rosto se virou lentamente afim de fita-la, como se ele temesse que se demorasse o bastante ali era fosse desaparecer. Isso não aconteceu.

Chappa era uma garota eternamente alegre, usando sempre um vestido laranja comportado e um chapéu também laranja grande demais para sua, cobrindo tudo acima de suas sobrancelhas, o que fazia com que os cabelos castanho-avermelhados dela escorressem pelos lados. Sua grande naginata estava em suas mãos, a lâmina negra dela brilhando enquanto a garota a segurava alto com facilidade, aparentemente ignorando o peso anormal que a arma tinha. Ela tinha vinte e dois anos pelo que ele sabia, mas se você apenas olhasse para ela acabaria pensando que ela tinha quinze ou coisa do tipo, e se ela abrisse a boca enquanto perto de você, sua impressão seria de que ela tinha oito. Ela não era necessariamente uma mulher ruim nem nada do tipo, mas era infantil, tola e hiperativa, e toda essa combinação era mais do que o suficiente para fazer dela tremendamente irritante e incentivar todas as pessoas a afastarem-se dela tanto quanto possível. Infelizmente, essa não era exatamente uma possibilidade para Vaen.

– Chappa – disse ele, grunhindo o nome como se ele fosse algum tipo de praga, falando entre dentes. No início ele não se sentia tão irritado assim quando a via, obviamente, mas Chappa tinha um dom em irritar as pessoas ao seu redor, e eventualmente a irritação simplesmente se tornava algo natural assim que olhasse para ela. – O que você está fazendo aqui? Você não deveria ter trabalho a fazer? Sei lá, matar alguns inimigos, talvez?

– Eu já matei! – declarou ela alegremente, sorrindo de orelha a orelha enquanto saltitava em uma perna. – Matei vários, pra ser sincera! Cortei alguns ao meio no horizontal, cortei outros ao meio na vertical, cortei terceiros na diagonal! Eu matei muita, muita, muita gente!

– ... Fascinante – respondeu ele, sem o mínimo de interesse em tudo aquilo. – Então, por que você não vai continuar a fazer isso, hein?

– Ah, eu não posso continuar fazendo isso! – retrucou ela em uma voz exageradamente adocicada que só fazia irritar ainda mais Vaen. – Por mais divertido que seja matar essas pessoas, eu tenho de me focar em outras coisas! Como em tomar conta de você! Afinal de contas, é dever de uma mulher tomar conta do homem que ela am-

CALADA, MULHER! – gritou a plenos pulmões uma voz, ao mesmo tempo em que a ponta de um bastão de aço atingia em cheio um golpe na cabeça da mulher, arremessando-a violentamente pra frente, jogando-a direto para uma casa próxima. Vaen reconheceu aquela voz.

Virou seu rosto – bem mais satisfeito dessa vez – e viu-o de pé no lugar em que Chappa antes estava, com uma postura firme e forte. Dayun estava vestindo apenas com panos brancos leves que serviam como calças para ele e tiras brancas amarradas aos seus antebraços, mas isso era tradicional dele. O Terceiro Cavaleiro da quinquagésima sétima leva do Salão Cinzento era de certa forma famoso por seus hábitos um pouco nudistas. Os músculos trabalhados do homem já estavam banhados no que parecia ser sangue de inimigos, demonstrando que ele havia se ocupado um pouco com trabalho antes de chegar ali. Seus olhos verdes estavam afiados, prontos para a batalha, e seu cabelo negro ainda mantinha o mesmo topete que sempre viam nele. Em seus dedos girou o bastão de aço, arma que ele havia usado para acertar Chappa.

CHAPPA! – gritou ele, novamente usando toda a força de seus pulmões. Esse era um dos pontos baixos de Dayun. Ele era um bom homem, mas ainda assim, tinha a péssima mania de sempre colocar tudo de si no que fazia, o que quer que fosse isso, e aquilo fazia com que ele sempre falasse como se estivesse dando ordens para um exército. – O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, MULHER ESTÚPIDA?! ESSE É UM CAMPO DE BATALHA, NÃO UM LUGAR PARA VOCÊ FICAR CORRENDO ATRÁS DE HOMENS! SE VOCÊ TEM TEMPO PARA PERSEGUIR ALGUÉM, PERSIGA O INIMIGO!

– Você está falando alto demais – comentou Vaen, franzindo as sobrancelhas. Seu amigo foi inabalado por aquilo.

– HOMENS DE VERDADE SEMPRE FALAM ALTO! – declarou ele, estufando o peito e fazendo pose como se o que ele acabara de falar fosse algo do qual se orgulhar, e não uma completa besteira.

– Ai, ai, ai! – resmungou Chappa, saindo caminhando da casa na qual foi arremessada enquanto coçava a cabeça. Apesar das reclamações da mulher, ela não parecia ferida, o que francamente não era algo que surpreendia Vaen. Ela sempre foi terrivelmente resistente para alguém com uma aparência tão frágil quanto a dela, e de qualquer forma, sabia que Dayun nunca seria estúpido o suficiente para realmente ferir um aliado com um ataque seu. – Ei, Dayun! Qual foi a ideia? Por que você me bateu?!

– TIVE VONTADE! ­– respondeu ele sem hesitação e de cara dura, aparentemente sem notar que aquele era um motivo extremamente fútil para fazer algo assim.

COMO ASSIM “TIVE VONTADE”, SEU MALDITO COM CARA DE DELINQUENTE?! – rugiu Chappa, as feições (supostamente) adoráveis da mulher parecendo se transformarem nas feições enfurecidas de um demônio por um momento ao ouvir aquilo. Ver isso já foi o suficiente para fazer com que Vaen suspirasse. Conhecia os dois há algum tempo, e aquela não era a primeira vez que via algo assim acontecendo. Já sabia o que iria acontecer, e aquela era uma péssima hora para que eles começassem a brigar entre si.

Felizmente, foram salvos disso de alguma forma. Ao horizonte, um grupo de figuras armadas avançava contra eles, empunhando suas armas alto enquanto seguiam sem medo, aparentemente sem notar ou se importar com o destino que havia caído sobre seus companheiros. Sorriu ao ver aquilo. Com um puxão retirou seu bardiche do chão, chamando a atenção de ambos os seus companheiros enquanto ele começava a seguir em frente.

– Ei, se vocês quiserem lutar entre si, sintam-se livres pra isso – disse ele, tranquilamente – mas antes disso, não seria melhor lidarmos com essas pestes?

Os olhos dos dois seguiram a direção para a os dele olhavam, e lentamente, um sorriso surgiu no rosto de ambos.

Aquilo era algo com o qual os três concordavam.

=====

Corpos de cavaleiros mortos cobriam aquela rua. Seus assassinos – várias figuras encapuzadas, seus rostos grandes incógnitas – estavam naquele momento dando um fim aos sobreviventes do ataque, vasculhando entre os corpos por qualquer um que demonstrasse algum sinal de vida para rapidamente acabarem com esses. Quinze figuras estavam concentradas ali, quinze figuras que haviam abatido mais de trinta cavaleiros. Com a vantagem do elemento da surpresa, não havia sido difícil para eles conquistarem a vitória; prova disso era o fato de que nenhum deles havia caído.

– Não temam os de coração bondoso que enfrentam os impuros. Homens de coração negro podem cortar sua carne e quebrar seus olhos, mas suas almas pertencem aos Deuses, e Eles são bondosos. Mesmo que você caia em batalha, um mundo de paz e alegria lhes espera do outro lado dos portões dourados.

Quase que simultaneamente todas as figuras pararam o que estavam fazendo para focarem-se naquilo. Olharam umas para as outras, perguntando-se por gestos se alguém sabia de onde vinha aquela voz, mas ninguém tinha uma resposta para isso. Alguns começaram a olhar ao redor, procurando ver se isso vinha de alguma casa ou de algum inimigo que se aproximava.

– Pela mesma regra, os impuros devem tremer. Seus corações são corrompidos, cheios de maldade e crueldade, e isso deixa os Deuses tristes. Não encontraram paz, não nessa vida nem em nenhuma outra. Serão caçados por cães espectrais e anjos alados, e em cada canto da terra os homens desprezaram e cuspiram em seus nomes. Aos que dobraram seus joelhos à maldade e as trevas, não resta nada mais do que uma eternidade de sofrimento.

Avistaram o que falava aquilo em breve. Um único homem, parado em um dos lados da rua em que estavam, envolto em uma grossa armadura branca pura, imaculada, com uma capa branca como neve tremulando ao vento atrás dele. Usava um elmo branco de aço fechado, mas apesar disso, o que escapava dele deixava à mostra que os cabelos daquele homem eram de um ouro pálido. Em seu braço esquerdo estava um grande e grosso escudo branco de aço, grande o suficiente para cobrir quase todo o corpo do homem se ele assim quisesse, e em sua mão direita ele trazia uma espada bastarda.

– Sendo assim, sendo os de coração negro condenados ao sofrimento – prosseguiu ele em sua estranha oração. Quando havia começado, sua voz era como a de algum tipo de padre ou missionário religioso, serena e sábia, mas cada vez mais a serenidade sumia dela para dar lugar à uma fagulha de fúria, um perigo crescente – Deus nenhum há de condenar aquele que lhes fizer sofrer.

De uma única vez a espada bastarda foi cravada ao chão, e no instante em que ela fez isso toda a figura do homem pareceu mudar. Não, ela não mudou realmente, continuou a ser a mesma, a mesma figura de um sacro guerreiro envolto em sangue. Mas ao mesmo tempo, uma vontade assassina passou a ser emitida pelo homem, e essa simples vontade era tão forte que uma ou duas das figuras imediatamente caíram de joelhos diante dela.

TREMAM DE MEDO, HOMENS MAUS! – entoou ele, seu tom agora não sendo mais o de uma oração, mas sim o de uma promessa de sangue e dor. – Seus corações corrompidos, seus corpos distorcidos, seu sangue apodrecido... livrarei o mundo de tal lixo! Sua pele será arrancada de sua carne, seu sangue ferverá e seu coração imundo será esmagado em pedaços e queimado as cinzas! Vocês, homens que se afastaram do caminho dos Deuses e derramam o sangue de inocentes, são as mais despicáveis das criaturas que já pisaram na Terra Santa que os Criadores nos deram! Como um cavaleiro e um guerreiro santo, é dever meu, Eldigan Bernaz III, Segundo Cavaleiro da quinquagésima oitava leva do Salão Cinzento, livrar o mundo das suas carcaças apodrecidas! Venham, crias da puta de útero podre, venham me enfrentar e conheçam sua perdição!

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Em meio a uma das várias praças do Salão Cinzento, vários corpos desmembrados, desfigurados e ensanguentados davam uma aparência macabra a área. Braços e pernas, homens com o peito estourado ou o pescoço quebrado, essas eram as coisas que alguém imediatamente via ao olhar para aquele lugar.

Uma coisa que chamava a atenção, no entanto, era o fato de que nenhum desses corpos pertencia a um cavaleiro ou um familiar de cavaleiro. Os mantos estavam rasgados, partidos em pedaços, mas mesmo assim, era claro que todos esses eram aliados do Olho Vermelho, chacinados por uma única pessoa.

O corpo de mais um dos aliados da guilda ilegal erguia-se alto no centro da praça, como se estivesse flutuando em meio ao ar. Isso dito, uma visão mais atenciosa revelava melhor o que estava acontecendo ali; a garganta do homem estava comprimida, com se uma mão estivesse fechada ao redor dela, erguendo-o como se fosse um saco de lixo. Da mesma forma, as mãos desse homem estavam fechadas ao redor do que aparentemente era um braço invisível, tentando puxar-lhe dali, livrar-se dele, mas aparentemente sem ter muito sucesso com isso.

– Vamos ver se você se revela um pouco mais útil – disse uma voz masculina, profunda e calma, ressoando por todo o ambiente, ao mesmo tempo em que o som de passos começou a ser ouvido. – Seus companheiros foram um grande desapontamento, peões sem conhecimento algum dos planos de seus superiores. Tenho maiores esperanças para você.

As palavras de Goa foram calmas e educadas, mas cada uma delas trazia uma ameaça velada. Dentre todos os cavaleiros do Salão Cinzento, ele era provavelmente o mais diferente dos demais; apesar de ser um mago guerreiro, o homem preferia muito mais o uso da magia do que o da força bruta em suas batalhas, e além do mais, seus hábitos e modo de agir faziam com que ele fosse muito mais hostil e brutal do que os demais cavaleiros. Mas isso dito, o poder que ele possuía era inegável. Goa “Terror Negro” era provavelmente o mais poderoso dos Primeiros Cavaleiros que mantinham-se longe da classe dos Ascendentes, e pelo que os rumores diziam, isso só acontecia devido a brutalidade dele. Sua pele era negra como carvão, o que entrava em contraste com os cabelos brancos como neve que caiam sobre seu rosto. Sua armadura também era branca, e ao contrário da que a maior parte dos cavaleiros usava, seu desenho e seus materiais visavam mais a estética do que a proteção; tinha formas arredondadas e runas desenhadas nela, e de várias partes dela curtos panos brancos saiam, interligando uma seção da armadura a outra, tal como ligando uma capa cor-de-neve as suas ombreiras. No entanto, se havia algo que realmente chamava atenção nele erma seus olhos; algo bizarro acontecia neles, algo que fazia com que a esclera do homem fosse escura como ônix, enquanto sua íris era branca como leite. Uma mudança estranha que facilmente perturbava a alma de todos que olhavam para ela.

– Então, diga-me, senhor peão do Olho Vermelho – murmurou ele, parando dois metros à frente do homem que flutuava, olhando-o calmamente com ambos os braços cruzados a frente de seu peito. – Quais são os planos dos seus líderes? Qual o propósito desse ataque? Aonde eles pretendem atacar? Quantos são? Qual o nível de seus soldados? – inclinou sua cabeça para o lado ao dizer isso, como se estivesse analisando o homem à sua frente. – Eu poderia assumir que o nível natural deles é mais ou menos o seu e o de seus colegas, mas isso significaria que o Olho Vermelho é fraco e constituído por um bando de idiotas, e não acho que esse é o caos.

– Vo... você acha que eu vou responder, seu idiota?! – cuspiu o homem através de sua garganta fechada, o espírito de luta ainda presente em sua alma. – Vá a merda!

Goa só fez suspirar ao ouvir a resposta do homem. Lentamente deixou a postura que antes tinha, passando a levantar sua mão direita vagarosamente, sem pressa alguma.

– Essa, meu caro – disse ele, olhando diretamente nos olhos do homem flutuante – foi a resposta errada.

Estalou seus dedos, e no momento em que fez isso seu poder começou a agir. Primeiro a mão de seu oponente abriu-se a força, deixando seus dedos a mostra. O pai-de-todos foi o escolhido entre eles; uma aura arroxeada cercou-o num instante, e no outro ele se dobrou com força. O homem gritou de dor ao sentir aquilo, e seus gritos apenas fizeram piorar quando seu próprio dedo do meio perfurou a palma de sua mão, atravessando-a diretamente como se não fosse nada. Depois, o pulso do homem torceu-se brutalmente para trás, arrebentando seus vasos sanguíneos e deixando que seus ossos ficassem a mostra, e logo em seguida esses mesmos ossos foram puxados forçosamente para fora do braço do homem pelo buraco, alargando-o ainda mais e rasgando a carne de seu oponente, tudo isso enquanto esse chorava e implorava.

Foi só depois de tudo aquilo feito que Goa voltou a falar, com a mesma calma e tranquilidade de antes.

– E então? – questionou ele, reprimindo um sorriso. – Será que agora posso contar com sua cooperação, meu bom, caro, adorável peão.

=====

Puxou sua lança do chão com força, liberando-a de uma só fez, e girou-a entre os dedos antes de encaixá-la no suporte em suas costas. Pronto. Isso deve bastar. Não se julgava particularmente boa em discursos, mas aquilo deveria ser o suficiente para restaurar um pouco da moral dos cavaleiros, e permitir o uso de força total deixaria que os mais fortes dentre eles lutassem livremente, o que certamente faria uma diferença ali. Muito bem, agora, o que devo fazer? Seus olhos correram pelos que lhe cercavam; Maoh, os Jack, Bokuto, Soulcairn, Senjur e Ezequiel. Todos cavaleiros de alto nível, todos poderosos. Todos capazes de fazer toda a diferença ali... se ela soubesse usá-los bem.

– Maoh – chamou ela, sabendo que aquele era o provavelmente o mais bem informado dentre todos. – Diga-me, a Área Sul é o lugar aonde estão concentrados os mercenários que temos contratado para nos ajudar na guerra, não é?

– Sim, Gwynevere – confirmou ele, acenando com a cabeça. – Não estou completamente certo se todos eles estão ali, mas posso lhe garantir que uma grande parcela deles se ocupa nessa área da cidade. Cerca de oitenta por cento, no mínimo.

– Excelente – respondeu ela. Se a maioria dos mercenários está concentrada ali, então isso significa que ela é provavelmente a área mais bem defendida que temos no momento, o que significa que não preciso me focar tanto nela. – Nesse caso, Maoh, siga para a Área Oeste. Jack Negro, Jack Branco, quero que ambos sigam para a Área Leste. Essas devem ser as áreas menos protegidas no momento, e por tal, as que mais necessitaram de apoio.

– Isso deixaria a Área Sul desprovida de homens – apontou Bokuto, aparentemente sem poder perder a chance de criticar sua decisão. – É tolice esperar que apenas um grupo de mercenários pagos com ouro e pedras preciosas segurem nosso inimigo. Você realmente planeja abandonar a Área Sul assim, Gwynevere?

– Ora, certamente que não – respondeu ela, sorrindo de orelha a orelha. Você caiu direitinho em minha armadilha, Bokuto. – É por isso que estarei mandando você pra lá.

Por alguns momentos Bokuto ficou no mais completo silencio, como se ele não tivesse entendido o que ela havia acabado de dizer. Foi só depois que seu cérebro processou aquilo que sua resposta veio, seca, sem graça e séria, mas ao mesmo tempo surpresa, ou ao menos tão surpresa quanto uma resposta dele podia ser.

– ... O quê?

– Exatamente isso que você ouviu – retrucou Gwynevere, decidida. – Infelizmente não contamos com Titânia aqui, mas ainda temos três dos Ascendentes disponíveis, e coincidentemente temos três áreas da cidade sobre ataque. Isso não lhe parece quase que destino? Pois parece pra mim. – virou-se para os demais Ascendentes, dirigindo agora a palavra a todos eles. – Senjur, você vai pra Área Oeste, junto com Maoh. Soulcairn, quero que você acompanhe os Jack para a Área Leste. Bokuto, tal como eu acabei de dizer, você irá para a Área Sul. Isso vai assegurar a segurança dessas áreas. Ah, sim, e certifiquem-se de enviar todos os civis e feridos pra cá, para o Salão. Esse provavelmente é o local mais seguro da cidade, ao menos no momento, e com a nossa presença aqui, eles estarão protegidos.

Todos acenaram em concordância e submissão com suas cabeças ao ouvirem aquilo, por exceção de Bokuto que permaneceu de sobrancelhas franzidas, mas nem mesmo ele foi contra suas ordens. Um momento foi todo o tempo que os seis tomaram para se levantarem, e um instante depois todos haviam desaparecido, partido para cumprir suas ordens. Ezequiel era o único que permanecia ali, de braços cruzados, apenas aguardando por privacidade para falar com ela.

– Gwyn – disse ele de forma serena. – Você é uma mulher esperta. Provavelmente notou o mesmo que eu, não é?

– Sim, acho que sim – concordou ela, movendo sua cabeça em concordância. – Área Oeste, Área Sul, Área Leste... todas elas foram atacadas... e ainda assim, nada na Área Norte. Não consigo imaginar que isso seja por falta de homens ou de atenção. Me parece um tanto quanto... proposital. Ataque três áreas para concentrar as forças inimigas ali, e enquanto a guarda inimiga na quarta área fica debilitada, um assassino se esgueira e assassina os líderes. Essa me parece uma boa estratégia, e algo que pode muito bem estar acontecendo agora.

– Hm – fez o Terror dos Dragões em concordância. – Exatamente. E, diga-me, o que vamos fazer em relação a isso, Gwyn?

Não pode deixar de sorrir ao ouvir isso.

– Você vai ficar aqui e proteger os civis e feridos, bem como comandar nossas tropas – disse ela, olhando para Ezequiel. – Eu, por outro lado, vou proteger a Área Norte.



Notas finais do capítulo

Por sinal: oi.



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