O Lado Bom De Ser Invisível escrita por Maga Clari


Capítulo 8
Capítulo 8 - O amuleto da sorte




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2 de Outubro de 1991

Querido amigo,

Estou exausta. Acabamos mais um ensaio faz exatamente meia hora. Minhas pernas ainda estão doendo, mas não é pra menos; Charlie me derrubou sem querer e caímos com força no chão da quadra haha. Tudo culpa do Patrick que inventou uns passos malucos pra gente fazer.

Sim, amigo, Patrick veio "ajudar" no ensaio. Quando ele soube que estávamos nessa, resolveu ajudar também. Patrick é um amor, gente, não existe tristeza quando ele está por perto. Foi realmente engraçado:

"Charlie, seu babaca, não é assim que se dança com uma garota", ele pôs as mãos na cintura e me tirou do lado dele, "Se for assim que pretende fisgar minha irmã, vai ser reprovado, com certeza"

Então ele pegou o discman e trocou de música. Colocou uma tal de September, do Earth Windy and Fire. Eu gostei. Ele pegou minha mão e começamos a pular para frente e rodar e rebolar; extremamente hilário.

"Putz, melhora isso aí, Noelle. Parece até que não tem bunda"

Enfim. Se tivermos o Patrick como professor, talvez até tenhamos alguma chance de vencer. Yaaaaaaaaaaay!

Você não tem ideia do quanto isso significa pra mim, sabe. Desde criança eu tenho esse sonho, mas ninguém nunca me incentivou. Principalmente por causa do meu histórico de desistência de coisas. Mas você vai ver, vamos ganhar esse negócio, vou esfregar na cara de todo mundo e vou mostrar para o Craig que já posso sair desse hospital.

E por falar nisso, a Doutora Minerva acha que eu estou muito melhor e mais alegre do que de costume. Ela disse que talvez suspenda metade da dose do meu remédio, acredita nisso?

Com amor,

Noelle

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3 de Outubro de 1991

Querido amigo,

Meu pai veio aqui ontem. Ele disse que sente minha falta e que queria que eu fosse com ele assistir o meu irmão jogar. Te falei que meu irmão estuda futebol na universidade? Pois é, meus pais ficam suuuuuper orgulhosos do filho maravilhoso-bonitão-bem sucedido-jogador que eles têm.

Não é inveja, entenda bem. Mas é chato ouvir eles se gabarem do meu irmão e nunca de mim. Para mim é sempre o Charlie doente e problemático. O Charlie das visões, o Charlie que desmaia na rua, o Charlie que está internado na reabilitação.

"Mas filho, você tem que ir comigo. Nunca mais vimos um único jogo juntos"

"Com 'juntos' você quer dizer com todo o resto da família, né? Nunca vimos só nós dois"

"Escuta, Charlie. E se de repente sua presença seja o amuleto do seu irmão, huh?"

Então ele bagunçou meu cabelo, sorriu e foi-se embora. O que ele quis dizer com isso, afinal? O time do meu irmão está tão ruim assim? Resolvi deixar para lá que quer que fosse e voltei a dormir, que era o melhor que eu fazia. Principalmente depois de um cansativo ensaio.

Hoje eu acordei e tive um sonho com a Sam. Droga! Eu juro que tento, mas até meu inconsciente me trai de vez em quando. Quando me dei conta, xinguei a mim mesmo mentalmente e comecei a me lembrar do acordo com a Noe. Eu preciso fazê-la ganhar, eu preciso daquele endereço. Eu ainda não sei o que vou fazer com ele, mas eu tenho que resolver minha história com a Sam sem presenças desagradáveis.

Mas espera um pouco, que merda eu estou pensando? Eu não estou me reconhecendo mais, eu não sei o que estou fazendo. Comecei a chorar ao me dar conta dos meus pensamentos, agora. Desculpa se o papel estiver um pouco manchado, sério.

Acho que vou procurar o Bob e ver se ele arranja pra mim alguma coisa que me acalme, porque cansei dos métodos daqui; preciso de algo mais rápido e forte. Outra hora te escrevo mais.

Com amor,

Charlie

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5 de Outubro de 1991

Querido amigo,

As coisas na escola estão indo relativamente bem. Depois daquela surra bem dada do Charlie nos garotos que implicam comigo, eles diminuíram bastante. Quero dizer, não que tenham parado, mas eles parecem mais cautelosos, entende? Acho que eles têm medo de serem expulsos, ou sei lá.

Aceitei a ideia de Patrick e Sam, e agora toda vez que eles aparecem, pego o discman deles e ponho o headphone. Mesmo que falem qualquer coisa, eu não vou ouvir. Ótima ideia.

Parece que a briga que houve entre o resto do grupo e Charlie nunca havia existido; todo mundo tem estado junto ultimamente e até me chamaram para ver o Horror Picture Show próximo fim de semana. Que eu irei, claro.

Fico feliz em ter pelo menos o Charlie de conhecido nas aulas, porque o resto já está no terceiro ano, então nem todas as classes fazemos juntos. Só algumas eletivas, tipo a marcenaria.

"Quem pintou toda a minha madeira de cor-de-rosa?!"

O professor urrou de raiva e a classe toda entrou numa espécie de crise de risos. Claro que foi Patrick, ele vive fazendo essas pegadinhas. Só que dessa vez, Patrick foi para Direção. Coitado... Vou rezar por ele! Haha.

PS: Parece que estou mesmo respondendo bem a redução dos medicamentos, acredita?

Com amor,

Noelle

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7 de Outubro de 1991

Querido amigo,

Me sinto muito mais calmo agora.

Ninguém - eu repito: ninguém - pode saber sobre o que eu ando comprando com o Bob. Tanto que prefiro até não escrever, você provavelmente deve ser mais esperto e mais inteligente do que eu e já deve ter entendido. Se bem que não é tão difícil ser mais esperto que eu, mas deixa isso pra lá.

Eu fiz minhas próprias pesquisas e descobri o que meu pai quis dizer. Parece que depois que vim "morar" no hospital, e por consequência parei de ver meu irmão jogar, eles só fazem perder. Ele acha mesmo que sou o amuleto dele, que piada! Não acredito nessas coisas, e pior: eles estão me usando, ninguém se importa de verdade comigo ou com a minha companhia. Aí é que eu não vou mesmo.

Quanto à Sam, não sei se continuo sonhando ou não com ela. Estou tão chapado esses dias que não me lembro de muita coisa. Ótimo! Era justamente isso que eu queria. Eu prometi que iria me esforçar e é o que estou tentando fazer.

Hoje mais cedo, a Noe e eu fomos para o nosso Q.G, lá no telhado, depois da oficina de artes. Sentamos encostados nas grades e então ela olhou para mim e disse:

"Vamos jogar?"

"O quê?"

"Eu costumava brincar disso direto, olha, é assim que funciona: eu faço uma pergunta, você responde se quiser. Mas sempre devolvendo outra pergunta. Pode ser?"

"Tudo bem, eu começo. Como é a sua família?"

"Somos eu, minha mãe e meu padrasto. Tenho um irmão fora do país. Já pensou em desistir de tudo?"

"Hum", pensei um pouco e respondi, "Já. Qual daqueles lá você pegou na escola, antes de vir pra cá?"

"Er...", ela sorriu e pulou a pergunta, "Charlie, tem certeza que é conjuntivite nos seus olhos?"

"Então, o que vamos fazer agora?"

"Ainda estamos brincando?"

"Não. Você está?"

Então, ela sorriu e deu de ombros. Saímos correndo escada abaixo e chamamos o Bobby - sim, o cara doente que é nosso amigo aqui, antes que confunda - para mais um daqueles passeios legais.

Adoraria que você estivesse com a gente, sabe. Às vezes me pergunto quem deve estar recebendo minhas cartas, embora eu saiba que eu mesmo guardo elas... Mas é legal imaginar que tem um destinatário de verdade. Enfim.

Com amor,

Charlie

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