O Lado Bom De Ser Invisível escrita por Maga Clari


Capítulo 11
Capítulo 11 - Revelações e encontros


Notas iniciais do capítulo

Desculpa se estiver meio confuso, espero que gostem :]



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22 de Outubro de 1991

Querido amigo,

Primeiramente, deixa eu lhe dizer que você é a pessoa mais importante na minha vida! Olha... No fundo no fundo, eu sabia que você existia em algum lugar distante da minha imaginação, e mais próximo de mim. Ou não. Afinal, eu não faço ideia de onde você mora.

Ontem de noite, quando eu voltei da casa do Craig - calma que já te explico o que aconteceu -, fui recebida com um amontoado de cartas jogadas debaixo da minha porta, no tapete. Resolvi ler, claro. Minha curiosidade era tamanha que esqueci até de comer, naquela noite. Peguei todas e li uma por uma, ficando emocionada a cada linha.

Por que nunca me respondeu antes? Cara, eu ficaria empolgadíssima se você me escrevesse desde o início; pra quê tanto mistério? Eu estou começando a achar que a doutora Minerva me mandou parar de te enviar cartas justamente porque ela não quer que a gente seja amigo. Será? Talvez tenha sido ela quem sempre impediu as cartas de chegarem a pessoa certa, não acha? Afinal de contas, foi ela que começou essa história toda de "escrever vai te fazer melhor". Talvez EU tenha te deixado pior. Será?

Eu li nas suas cartas que você trocou o seu nome e o nome dos seus amigos para evitar que eu descobrisse quem você era e fosse te procurar. Engraçado porque eu também fiz o mesmo. Eu não sei o seu motivo, mas o meu é que... bom, eu tenho vergonha de me apresentar, sabe. Acho que um amigo por correspondência é uma forma de segurança; como se eu soubesse que você gosta de mim pelo que eu sou.

Uma vez, meu amigo Charlie me disse que a garota que ele gosta sentia o mesmo que eu. Já te contei sobre ela, a Sam. Nos duas sabemos como é essa coisa de sair com todo mundo e mesmo assim sentir-se sozinha, como se a presença dos outros não dissesse nada, sabe. E eu tenho a impressão de que você também é do tipo que lê e entende e não tenta dormir com a pessoa depois daquela festa. Sinto lhe desapontar, amigo, mas eu já fui esse tipo de garota; hoje mais não.

Em todo o caso, eu quero que você saiba que eu amo a ideia que é você. Você me ajudou mais do que todas essas pessoas que convivem comigo, e olha que você nunca olhou na minha cara!

Então, se você já estiver emocionalmente preparado, eu gostaria muito de te ver. Foram três longos anos de amizade... Já passou até da hora, não? Por favor, como prova dessa nossa amizade, venha me encontrar em dois dias no GreenWich Village 116, em frente a uma casa com flores roxas. Apareça lá pelas sete da noite. Se você furar, vou demorar muito de te perdoar.

PS: Nós ganhamos o concurso! Eu entrei para a Broadway, acredita? E adivinha quem foi me ver? Isso mesmo! Craig! Mas isso é história para outro dia, preciso mesmo ir agora.

Com amor,

Noelle

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24 de Outubro de 1991

Querido amigo,

São exatamente 11am e eu estou escrevendo diretamente do banheiro da escola. Estava simplesmente difícil de suportar o papo irritante da mesa do refeitório. Tudo está em torno do tal baile idiota que Sam e o namoradinho dela vão juntos. Parece que o imbecil nem quer ir, mas ela está insistindo. Não sei se ele vai, mas Sam está animadíssima e me dói muito não fazer parte da alegria dela.

Para evitar aquela cara de "estou pouco me lixando para qualquer coisa", eu tomei a melhor decisão da minha vida: vim almoçar no banheiro, como nos velhos tempos. É estranho, porque eu já tinha esquecido como era a sensação, e não é das melhores, acredite. Mas tudo é mais agradável do que sentar naquela mesa, isso eu tenho certeza!

Escuta, eu recebi sua última carta. Ainda estou confuso em relação a tudo isso porque... Como que nossas cartas chegam tão rápido assim, hein? E quem será que pega elas? Confesso que estou completamente surpreso de que tenha recebido as minhas no mesmo dia que eu recebi as suas. Estranho, né? Tudo bem, eu já me conformei com o fato de você ter mudado os nomes, mas por que continua sem assinar? Você ainda não me respondeu...

Quanto ao seu convite, preciso deixar clara uma coisa: talvez eu vá, talvez não. Prometi que ia com minha amiga Noe até a casa do namorado da Sam espioná-lo. Noe disse que suspeita que ele está com outra e seria legal se a gente tirasse uma foto e mostrasse a Sam. Eu não perderia isso por nada, você entende, né?

Mas eu juro que tento ir te encontrar de qualquer jeito, nem que você espere um pouquinho, sei lá. Mas eu vou. Estou curioso para te conhecer e com medo também. E se você não for como eu pensei? E se não gostar de mim? Você não me desapontou, amigo, porque a garota que eu gosto já teve um passado desses e isso não me diz nada. Na realidade, todos os meus amigos e familiares tiveram um passado ruim e eu não posso julgá-los, eles não merecem.

Preciso terminar essa carta logo porque o Patrick está gritando meu nome na porta do banheiro e parece que ele sabe que eu estou aqui. Patrick acabou de colocar o rosto pela fresta da portinha do box e está me chamando de nomes feios que eu não me orgulharia de escrever.

Até mais tarde.

Com amor,

Charlie

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24 de Outubro de 1991

Querido Charlie,

São quase meia noite e eu não consigo pregar os olhos. Eu estou no meio da rua, num quase silêncio, apenas com uma companhia do lado, que eu não vou te dizer quem. É para o seu próprio bem.

Como boa observadora que sou, resolvi imitar os hábitos de duas pessoas que eu vejo no meu cotidiano; se funcionou para elas, por que não para mim? Olha, eu ainda não me decidi se vou por esta carta no seu correio, mas caso eu resolva por, quero que fique bem claro que não há a mínima chance de algum dia termos algo juntos. Estarei livre, sem compromissos com ninguém, por tempo indeterminado.

Talvez eu parecesse feliz e satisfeita diversas vezes, mas as aparências enganam e acho que você sabe bem disso, não é? Eu... Eu só não quero ser a paixonite de ninguém. Quero que gostem de mim de verdade, entende? Oh, Charlie, odeio ser dura com você... Mas às vezes é necessário, sabe? Eu quero que você entenda que você não é o único a ter seus dias ruins e problemas consigo mesmo, e talvez isso nos tenha tornado amigos.

Hoje, depois da aula, recebi na secretária eletrônica uma mensagem de uma pessoa falando que viajaria por um mês. Eu já desconfiei logo de cara, porque ele costuma fazer isso com frequência. Telefonei e nada. No fundo, eu sabia que ele tinha feito isso para não ir num compromisso que tinha estabelecido comigo. Mas eu resolvi vir hoje à noite conferir.

Não é que eu esteja com inveja, Charlie, mas eu já estava ferida demais para ter duas cenas daquelas de uma só vez. Quando me aproximei da casa dessa pessoa, peguei ela se agarrando com outra garota. Eu vi tudo de fora, pela janela. Daí eu resolvi sentar na calçada, atrás dos arbustos, e esperar um pouco eu me acalmar.

E então eu te vi. Você apareceu de trás de um muro, rindo às gargalhadas com aquela sua amiguinha. Vocês conversaram uns dois minutos e fizeram algo que eu realmente não imaginava - nem estava preparada. Vocês se beijaram. Oh, Charlie, me desculpa por ser tão egoísta, mas entenda o meu lado: eu fui passada a perna duas vezes na mesma noite! E isso me fez lembrar de situações do passado do qual eu não me orgulho e que me doem muito lembrar.

Não quero que se sinta culpado, afinal, nunca tivemos nada. Somos só amigos. Mas é que eu me acostumei tanto com a ideia de que você já pensou em mim daquele jeito que acabei machucando a mim mesma. E foi pensando nisso que eu resolvi tomar a decisão certa: eu vou me mudar por uns tempos, é. Voltarei para minha formatura ano que vem, mas prefiro concluir o semestre em outro lugar. Meus pais já falaram com a escola e tudo o mais. Não tem mais jeito, Charlie.

Fiquei escondida nesse mesmo lugar até dar o horário do meu irmão vir me buscar. Ele se assustou tanto com o meu estado que resolveu ficar aqui abraçado comigo até a minha dor passar. Eu estou deitada no colo dele enquanto recebo cafuné. De repente, começo a me sentir criança de novo. Talvez eu seja mesmo uma criança. É isso que eu sou, Charlie. Imatura. Por favor, me desculpa... Mas eu preciso ficar sozinha por um tempo, de verdade.

Espero que entenda.

Com amor,

Uma amiga que já te amou muito.

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