Love In Your Eyes escrita por GabiihBiiaNuuh


Capítulo 1
Capítulo único


Notas iniciais do capítulo

Olá meninas. Cá estou eu como prometido com a continuação de Just Close Your Eyes.
Sei que falei que é sobre a gravidez de Katniss. E realmente é. Porém com uma surpresinha e um algo a mais!
Narrada por Peeta!
Espero que gostem!



Love In Your Eyes

O vento gélido que chicoteava em meu rosto, denunciava a chegada de um inverno rigoroso. A friagem da madrugada, atingia-me de tal forma que, nem o aconchego de meus próprios braços ao meu redor, conseguia, de alguma forma, aquecer meu corpo. A nuvem esbranquiçada voava de meus lábios toda vez que soltava o ar de meus pulmões.

Mesmo com o incomodo que o frio causava-me, caminhava lentamente nas ruas do distrito 12, observando, minuciosamente, cada detalhe a minha volta. A falta de sono, que me despertara a noite, graças a um pesadelo, fez-me vaguear a esmo pelas ruas do distrito.

Tudo estava de regenerando. Como uma nação que se reerguia das cinzas. E era exatamente isso que estávamos fazendo. Ressurgindo das cinzas, da destruição, da devastação causada pela guerra. Reerguendo os pilares de sustentação. Reconstruindo nosso lar.

Casas, praças, ruas... O 12 estava voltando a ser o que era antes; entretanto, de uma forma melhor.

Quando saia de casa, ou da padaria —que havia reconstruído pouco tempo depois de voltar ao 12 —, não encontrava mais rostos tomados pelo medo e pavor. As pessoas não temiam mais que suas crianças fossem lhe tiradas; escolhidas para travar uma batalha selvagem e iníqua nos jogos; estes, por sua vez, já não existiam mais. A capital não existia mais. Aquela divisão entre distritos, a submissão de todos ao poder supremo de Snow. Nada daquilo era real agora.

De alguma forma, todos estavam voltando a suas vidas; não totalmente curados das feridas deixadas pela guerra. Talvez, nunca ficaremos totalmente sãos. Seriamos eternamente assombrados por algum tipo de lembrança traumática.

Uma pequena faísca de medo, de que todo aquele mundo em que vivíamos ressurgi-se, acendia constantemente em meu peito; porém, não o suficiente para começar um incêndio.

Ver um singelo sorriso formar-se no rosto de uma ou duas crianças, enquanto brincavam de uma forma inocente pelas ruas. Ou ver uma senhora ao lado de seu marido, numa cadeira de balanço na varanda, apenas lançando-lhe um agradecimento com o olhar. Era esse o balde de água fria que apagava aquela faísca. Esses eram os sinais que eu precisava para notar que nós vivíamos dias melhores agora, e não mais naquele mundo sangrento que conhecíamos. Ver aquelas pessoas era uma forma de me lembrar de que a vida poderia voltar a ser boa, e já estava sendo.

De vez em quando, conseguia arrastar Haymitch até a padaria, com a finalidade de entretê-lo por algum tempo, fazendo pães e bolos com ele, desviando, de algum modo, seu foco na bebida. Tinha de admitir, ele já não era mais aquele homem bêbado de antes. Claro que continuava a beber; todavia, qualquer diminuição do nível de álcool no organismo de Haymitch já era considerada uma evolução para mim.

Fazia a mesma coisa com Katniss, mas com ela as coisas eram um pouco mais difíceis.

Katniss nunca se virou muito bem na cozinha. Não era o tipo de atividade que lhe agradava; porém, sempre que pedia para ela me acompanhar até a padaria ela ia sem medir esforços. Sabia que não fazia aquilo por ela, mas sim por mim, no intuito de me agradar. Katniss sabia o quão importante à padaria era pra mim.

Lá era o lugar aonde ia quando tinha pesadelos que fugiam do controle. Era o lugar aonde ia quando tinha uma crise um pouco mais grave. Meu pequeno refúgio. Assim como a floresta era o dela.

Ela voltara a caçar nos últimos anos. Como eu, Katniss fazia aquilo para extravasar suas emoções, lamentar suas dolorosas perdas e simplesmente relaxar.

Nós tínhamos o nosso meio de escapar da realidade. Ela a floresta, eu a padaria.

Mas no fim, tínhamos um ao outro e, era ali que, verdadeiramente, mantínhamos nosso porto seguro.

Um no outro.

Isso tem feito com que Katniss melhorasse significativamente. Ainda tinha seus pesadelos, e, provavelmente, os teria para sempre, assim como eu; entretanto, ela não encarava mais a vida daquela maneira amedrontada, mas sim como uma vencedora. Ela não era mais aquela menina de dezessete anos. Agora ela já era uma mulher. Minha mulher.

Sorri com aquele simples pensamento. Aquilo tudo ainda era surreal demais para mim. Katniss e eu casados. Lembro-me das diversas vezes em que sonhei que isso aconteceria.

De vez em quando, tenho pesadelos, em que tudo aquilo que estava vivendo não era real; contudo,quando abro meus olhos e me deparo com seu corpo envolto por meus braços, inerte ao sono, não consigo refrear o sorriso de satisfação que toma conta dos meus lábios. Nesses momentos, consigo convencer a mim mesmo, que tudo aquilo era real. Real demais.

Lembro-me claramente da primeira vez que a tive em meus braços. Mil e uma sensações tomaram posse de meu corpo no momento em que nos fizemos um. Vê-la daquela maneira tão frágil em meus braços, tão entregue, com aquele seu jeito puro,o qual ela nunca perdera, reascendeu em mim aquele sentimento que me consumia, na primeira vez que fomos aos jogos. Tinha que protegê-la. Assim como havia feito nos jogos. Faria isso por toda a minha vida.

Aqueles pensamentos fizeram-me cair na realidade. Havia deixado Katniss sozinha. Se ela acordasse provavelmente ficaria assustada com minha ausência.

Acelerei o ritmo de meus passos, agora, com uma direção certa: Estava indo para casa.

Durante o trajeto, o distrito 12 nunca pareceu tão grande. Não sei de foi graças ao frio, que rachava-me os lábios e fazia todos os ossos de meu corpo latejarem,ou se foi pelo fato de estar preocupado com Katniss; porém,tinha impressão de que quanto mais andava, mais ficava distante de casa.

Uma estranha movimentação a minha direita, fez com que eu parasse imediatamente minha caminhada. De soslaio, olhei naquela direção. Nada. Não tinha absolutamente nada ali, a não ser um pequeno arbusto, repleto de folhas cor de musgo e coberto com uma fina camada de neve. Suspirei aliviado e continuei minha caminhada.

Foi então que a sensação de estar sendo seguido começou a assombrar-me. Tentei afastar aqueles pensamentos, mas era inevitável. Sentia algum tipo de presença ali. Sabia que era algo, ou alguém. Qualquer barulho já me deixava em alerta máximo. Uma hora ou outra, notava pequenas movimentações com o canto dos olhos. Porém, quando virava-me, me deparava com o vazio; todavia, eu não conseguia me livrar da incomoda sensação de estar sendo observado. Aquilo estava ficando terrificante demais.

Olhei para trás e contemplei uma rua enorme, deserta e escura, graças a pouca iluminação que a lua proporcionava esta noite, encoberta com densas nuvens. Não havia nada, nem ninguém ali. Soltei o ar de meus pulmões mais uma vez, sentindo toda minha musculatura relaxar naquele ato. Talvez fossem apenas coisas da minha mente cansada. Perder o sono e vaguear pelas ruas, em plena madrugada, não ajudava a mente a relaxar, como eu pensava.

Voltei meu corpo para frente, na tentativa de voltar a minha caminhada, mas a cena que vi, em seguida, fez meu coração bater aceleradamente, quase saltando de meu peito.

Era um deles. Uma das bestantes do primeiro jogos vorazes. Um tipo transmutado de lobo que anda sobre as patas traseiras. Um frio horripilante percorreu toda a minha espinha, deixando-me imóvel e totalmente a mercê do monstro a minha frente.

Minhas mãos tremiam levemente, quando um grave rugido escapou de seus lábios.

Uma secura sobrenatural instaurou-se em minha garganta, impedindo-me de bradar o grito de pavor que se encontrava preso ali. Sentia-me nos jogos outra vez. Fechei meus olhos, na tentativa de afastar aquilo que só podia ser um devaneio insano. Mais uma de minhas crises.

Isso não é real.

Isso não é real.

Isso não é real.

Minha mente repercutia essa frase diversas vezes, querendo por fim, reafirmar aquilo a mim mesmo. Abri meus olhos lentamente e decepcionei-me com o que vi: Ele ainda estava ali.

Aquela bestante nojenta continuava ali, a me encarar, com seus olhos transbordando um ódio lancinante.

Por um instante, meus olhos encontraram-se diretamente com os seus e, um pavor apoderou-se de mim, pior do que qualquer outra vez. Aqueles olhos. Eu os conhecia; e como os conhecia. Olhos cinzentos. Da cor do céu, em dias chuvosos. Os olhos que tanto amava. Eram os olhos dela.

Agora, com essa sinistra asserção, comecei a examinar a bestante que estava a minha frente. Seu pelo castanho escuro, seus olhos cinzentos e, um único detalhe assustador, que não havia reparado antes.

Em sua coleira estava cravado um número. Doze.

O arrepio voltou a percorrer minha espinha, agora deixando um rastro de dor por onde passava. Katniss. Ela era um monstro. Uma bestante.

Fechei os olhos como na primeira vez.

Isso não é real.

Isso não é real.

Reiterava aquela frase diversas vezes. E de novo. E de novo. E de novo. Minhas unhas comprimiam, num aperto, as palmas das minhas mãos, tão fortemente, que já sentia o calor e a textura do sangue que escorria entre meus dedos.

Katniss. A transformaram em uma bestante. A bestante que assombrava meus pesadelos e matava todos da minha família. Mas isso não era real, ou era?

Não, não era real. Não podia ser real. Eu havia deixado Katniss adormecida na cama antes de sair e, a meu ver, ela parecia completamente humana e, sem resquícios nenhum de ódio ou maldade.

Abri meus olhos e a bestante continuava ali, parada observando-me. Real demais para minha mente conseguir negar. De repente, imagens aleatórias começaram a invadir meus pensamentos, embaralhando-os e deixando-me confuso e inerte do ambiente que me encontrava, alienado, em um mundo obscuro e desconhecido.

Sabia o que estava acontecendo. Mais um de meus surtos. Meu corpo tendia para o lado, em busca de algum amparo, ou algo que possa apertar; o fato era que minhas mãos já estavam feridas demais pelo aperto de agora a pouco, e precisava, urgentemente, buscar um novo objeto para descontar minhas frustrações.

Com sorte, bati em uma árvore, onde recostei meu corpo e cravei minhas unhas em seu longo caule. Tentava controlar o monstro que insistia em surgir dentro de mim.

As imagens atingiam-me abruptamente agora, causando-me uma dor de cabeça tremenda.

A primeira arena. A caverna. Katniss cuidando de mim. Seus beijos. Tudo tão real...

Então por que a bestante que estava na minha frente parecia tão real quanto essas lembranças? Por que as imagens dela matando meus pais e meus irmãos insistiam em voltar?

Aquilo não fazia sentido algum. Distinguir qualquer coisa aquela altura era difícil demais. Só pude notar que chorava quando as lágrimas salgadas infiltravam-se nas brechas deixadas pela pequena abertura de minha boca.

Só Deus sabia o quão horrível era aquela situação. Não saber o que era verdade. Não saber se todas as minhas lembranças realmente aconteceram.

Aquilo fazia-me sentir tão impotente, que a qualquer momento, sentia que iria desabar. Já estive em algumas lutas; contudo, tenho para mim, que esta é a pior que eu poderia enfrentar.

Travar uma batalha com pessoas é uma coisa. Agora guerrear consigo mesmo está em outro patamar. Não há parâmetros para comparar essa sensação. Ter sua própria mente como seu inimigo, ver você mesmo se sabotar... É um fardo pesado demais para qualquer um.

Uma luta contra a minha própria mente, só seria possível com o auxílio de uma coisa: O meu coração.

E, no momento, o meu ansiava por uma coisa em particular.

Katniss.

O batucar frenético em meu peito, por apenas pensar nela, fez-me contemplar a realidade e finalmente abandonar o universo tumultuado em minha mente.

Como não distingui isso antes? Katniss não era nenhuma bestante afinal. Era apenas ela. Katniss. A garota por quem eu sou apaixonado desde sempre. A garota que quando canta, até os pássaros param para ouvir. A garota em chamas. A minha garota.

Com aquele pensamento, abri meus olhos lentamente, percebendo a ausência de qualquer barulho, rugido, ou qualquer outro tipo de som que aquele monstro emitia.

Meu olhar varria o local atentamente, desta vez, sem deixar nada passar despercebido. Estava sozinho. A bestante havia desaparecido, juntamente com todos meus pensamentos ruins a respeito de Katniss.

Sorri com isso. Havia conseguido superar uma crise sozinho, e isto era um bom sinal. Na realidade ótimo. Doutor Aurélius falava-me que sempre que conseguisse distinguir sozinho o real do não real, meu estado estaria avançando significativamente.

E isso contentava-me de uma maneira imensurável, não só por, aos poucos, possuir o total controle de minha mente, mas também por Katniss.

Sabia que quando tinha essas crises ela não lidava muito bem com a situação. Podia notar o medo tomar conta de seus olhos acinzentados quase que automaticamente; entretanto, ela nunca saia do meu lado. Nunca me deixava ir. E eu a admirava muito por aquilo.

Qualquer outra pessoa não suportaria se estivesse em seu lugar, mas não ela. Katniss não desistia facilmente.

Abandonei meus devaneios e voltei a minha caminhada para casa, agora sem mais interrupções. As ruas pareciam mais iluminadas pela luz da lua, que aparecia tímida entre diversas nuvens.

O caminho foi mais rápido dessa vez. Em menos de minutos já estava na porta de casa.

Adentrei pela sala, cuidando para não sujar o local. Retirei minha jaqueta, sacolejando-a, na tentativa de eliminar o resquício de neve que se acumulou sobre ela. Deixei-a pendurada em uma cadeira, perto da mesa.

— Droga. — sussurrei ao tropeçar na cadeira; porém fui mais rápido e consegui intervir em sua queda de encontro ao chão; todavia, faço mais barulho do que o necessário e acabo amaldiçoando-me por isso. Katniss ainda deve estar dormindo e, não pretendo que ela fique sabendo da minha “escapada” na madrugada.

É nesse momento que percebo que ela tem razão quando reclama da minha incapacidade de ser silencioso. Infelizmente meus passos nunca foram muito graciosos — ainda mais agora com a perna mecânica. Graças a isso, ela nunca me leva em suas caçadas.

Ignorei meus pensamentos e fui até a cozinha pegar um copo d’água. Notei uma pequena movimentação com o canto dos olhos e virei-me imediatamente, sentindo a tensão apossar-se de meu corpo, temendo mais uma crise. Ouço um silvo e meus olhos se encontram diretamente com os dele. Buttercup estava acocorado em um canto qualquer da cozinha.

Abaixei-me e acariciei sua cabeça peluda, enquanto este miava em satisfação.

Às vezes achava-o estranho. Quando encaro seus olhos felinos posso, por alguns instantes, notar um brilho de dor e saudade se resignar ali. Parece que Buttercup sente a ausência de Prim tanto quanto Katniss.

Hoje em dia ela não costuma tocar mais nesse assunto; mesmo assim, sei o quão doloroso isso é para Katniss. Não ter mais sua irmãzinha. Vejo em seu olhar a dor da saudade todos os dias, mas de uma maneira mais branda do que algum dia fora.

Prim permaneceria sempre viva em seus pensamentos e em seu coração; e, por pior e mais doloroso que fosse, ás vezes também em seus pesadelos.

Assim como Prim, Rue, Cinna, Finnick e até mesmo Gale, que desde nossa volta para o doze não dera noticias, estariam sempre presentes na vida de Katniss.

Um choro fraco fez-me despertar de meus pensamentos. Abandonei Buttercup e deixei a garrafa com água em cima da pia, correndo até a origem desse som. Sabia que era Katniss e aquilo estava preocupando-me.

Abri a porta lentamente e a visão que tive foi no mínimo, confortante. Ela não estava ferida, mas apenas assustada. Talvez por conta de algum pesadelo. Senti-me imensamente culpado por não estar ao seu lado naquele momento, era minha função acalma-la quando algo afligia-lhe.

Ela ainda não havia notado minha presença, pois mantinha os braços apertados envolta de suas pernas, com um pouco de dificuldade, graças ao volume extra em sua barriga, enquanto soluços balançavam seu corpo levemente.

— Kat? — chamei, finalmente roubando sua atenção para mim.

Ela levantou os seus olhos, vermelhos e inchados, enquanto uma mecha grossa de cabelo caia sobre seu rosto.

— Peeta! — exclamou com uma expressão surpresa. Os soluços aumentaram e as lágrimas banhavam seu rosto benevolentemente.

— Ei! Calma! — pedi aproximando-me da cama e sentando-me na ponta, ao seu lado. Ela agarrou automaticamente meu pescoço, apertando-me o máximo possível, como se aquilo a garantisse que eu estava realmente ali. — Esta tudo bem. Já passou. — sussurrava em seu ouvido, acariciando de leve suas costas. Aos poucos, os soluços foram cedendo e as lágrimas cessando. — Quer me contar o que houve? —questionei afastando-me dela, para encarar seu rosto. Retirei a mexa de cabelo que caia displicente sobre seu rosto e afaguei sua bochecha rosada.

— Eu tive um pesadelo. — balbuciou fungando.

— Com Prim? — inquiri num tom ameno. Ela negou com a cabeça.

— Com você.

— Comigo? — perguntei um tanto surpreso. A maioria dos pesadelos de Katniss ou envolviam Prim ou os jogos, mas raramente eu era o protagonista.

— Sim. — assentiu balançando a cabeça. — Eu sonhei que eles levaram você Peeta. Sonhei que levaram você de mim e quando acordei... Você simplesmente não estava aqui. Você sabe as coisas que se passaram pela minha cabeça? — ela indagava com o olhar perplexo. — Eu pensei que nunca mais veria você Peeta. Pensei que ficaríamos separados para sempre e que eu ficaria sozinha com ele. — continuou, com os olhos marejados, passando a mão sobre sua barriga protuberante. — O que seria de mim? O que seria dele? Sem você eu não conseguiria Peeta. Eu não consigo. Eu não estou pronta pra isso, não estou! — Katniss falou, soluçando novamente e afundando seu rosto em suas mãos. — Deus, onde eu estava com a cabeça quando aceitei isso? Eu não deveria ter cedido à pressão. Isso é tão errado. — ela murmurava mais para si mesma. — Não vai dar certo. Eu não vou conseguir.

— Ei? — chamei elevando seu rosto para que ela olhasse em meus olhos. — Katniss, me perdoe. Deveria ter te avisado quando sai.

— Aonde você foi Peeta? Meu Deus eu quase morri de preocupação! Ainda mais depois do pesadelo...

— Eu também tive um pesadelo esta noite. — a interrompi, trazendo sua atenção para meu rosto. Ela estava boquiaberta. Katniss ainda não aceitava o fato de nunca notar quando tinha algum pesadelo. — Acabei perdendo o sono e, como você estava dormindo tão bem não quis interromper. Saí para espairecer um pouco e acabei tendo mais uma de minhas crises. — expliquei e Katniss arregalou os olhos.

— O que? — perguntou surpresa.

— Está tudo bem agora. Eu consegui me controlar. Estou a cada dia melhor Kat... — comentei sorrindo e ela abriu um pequeno sorriso de lado, realmente feliz com o que acabara de lhe confessar; todavia a tristeza em seus olhos fez-me atentar para o assunto delicado que trataria em seguida. — Katniss... — comecei meio incerto.

Sabia que aquele assunto era complicado demais. A gravidez de Katniss era algo que a incomodava tremendamente. Foram necessários cinco, dez, quase quinze anos para eu conseguir convencê-la a termos filhos.  Katniss sabia que eu os queria muito e, por fim, acatou a minha vontade.

A cada dia, nós tínhamos uma nova experiência. Às vezes boa. Outras nem tanto. Mas aos poucos, Katniss foi aceitando melhor aquela sua nova realidade.

Ela nunca quisera realmente ter filhos, mas aquela sua decisão decorria-se graças ao mundo terrível em que vivíamos. Agora que ele não existia mais nada nos impedia de formar uma família. Este sempre fora o meu sonho. Mas Katniss, ainda assim, teme.

Teme que algum dia tudo volte a ser como era antes. Teme que nosso bebê nos seja tirado, como era feito antigamente, com os jogos. Teme por mim.

Confesso que às vezes esse temor, consome-me tanto quanto a Katniss.

Porém, sempre que isso acontece, lembro-me das crianças brincando e da senhora com seu marido; e por fim, o sorriso, em meio a lágrimas, de Katniss, após a primeira vez em que o bebê se agitava dentro dela. Um pavor, maior do que qualquer outro a acometeu naquele dia, trazendo todas suas dúvidas e receios sobre aquela situação à tona, mas, foi logo substituído por uma alegria enorme. Os pequenos movimentos do nosso filho em seu ventre arrancaram-me inúmeras lágrimas. Aquilo fez-me despertar e ter noção do quanto a vida era valiosa e bela, independentemente das cicatrizes que nós carregávamos e o quão dolorosas eram. No fim, a vida sempre nos dá um motivo para seguir em frente.

— Eu sei que você está com medo. — continuei — Estaria mentindo pra você dizendo que não estou. Mas eu sei Kat, que não importa o que aconteça, nós vamos conseguir. Você vai ser uma ótima mãe. Melhor do que qualquer outra. Você é uma mulher forte e vai ter muito o que ensinar pro nosso bebê. — falei passando a mão por seu ventre. — Eu vi você passar por coisas que qualquer pessoa se quer sonhou passar na vida, e, agora, você está aqui. Comigo. Sã e salva. E você ainda acha que não vai conseguir? — indaguei arqueando a sobrancelha. — Você não faz ideia do que é capaz. Se dê uma chance Katniss, e você verá que pode muito mais do que jamais imaginou. — sussurrei acariciando sua face. — E lembre-se, não importa o motivo, ou quanto tempo passe, eu sempre estarei aqui, ao seu lado. Pra tudo o que precisar. Sempre cuidando de você. Nós estamos juntos nessa Kat...

— Juntos? — ela questionou, finalmente se pronunciando, como eu havia feito com ela na primeira arena. Sorri e acariciei seu rosto.

— Juntos. — confirmei e ela sorriu. Envolvi meus braços ao redor de Katniss, enquanto sua cabeça recostava-se em meu peito.

Ela cantarolava uma música e eu apreciava sua voz harmoniosa de olhos fechados. Até que de repente ela parou, fazendo com que uma ruga de desentendimento invadisse minha testa.

— Peeta? — chamou por mim e eu acenei. —Você me ama. Verdadeiro ou falso?

— Espere um pouco. Não era eu que deveria lhe fazer essa pergunta? — brinquei e Katniss soltou uma risada melodiosa. Havia feito aquela pergunta tantas vezes a ela que perdi a conta há séculos. — Eu estou em dúvida. Pode ser um talvez? — questionei brincando e ela riu.

— Ei! — reclamou, fingindo estar ofendida.

— É brincadeira. — respondi rindo juntamente com Katniss. — Você sabe a resposta.

— Eu sei. Mas quero ouvi-la de novo. — fez manha e eu ri.

Era estranho não fazer essa pergunta e sim respondê-la. Mas sabia que o que responderia, a seguir, era obviamente verdadeiro. Provavelmente foi verdadeiro a minha vida inteira, desde o primeiro momento em que a vi.

Katniss mantinha um sorriso satisfeito nos lábios, quando aproximei minha boca de sua orelha, depositando um beijo de leve ali e sussurrei:

— Verdadeiro. — finalmente disse e seu sorriso aumentou­, não resisti e juntei nossos lábios, num beijo calmo e totalmente cândido.

[...]

Eles estão brincando na campina. A menina com cabelos escuros e olhos azuis dança. O menino com cachos loiros e olhos cinzentos se esforça para manter o ritmo dela com suas perninhas gorduchas de bebê.

Eu os observava, sentado em uma rocha. Era inicio da primavera, época favorita de Katniss.

Ela estava ao meu lado, aparentemente, alienada em seus pensamentos. Aproveitei o momento de distração e permiti-me observá-la por um tempo.

Mesmo com o passar dos anos, Katniss mantinha aquela beleza natural de sempre.

Seus cabelos escuros emolduravam seu rosto, conforme a brisa fresca de fim de tarde, afagava-lhe a face. Seus olhos cinzentos mantinham uma intensidade indecifrável. Definitivamente eu não fazia menção do que se passava em sua mente.

Seus lábios se contorceram em um pequeno sorriso de lado. Sorri com aquilo. Independentemente do que ela esteja pensando, é algo, relativamente, bom para tirar-lhe um sorriso.

Abandonei o mundo real e me perdi em meus devaneios, como de costume. No fim, eu tinha razão. Katniss realmente era uma boa mãe. Atenciosa, cuidadosa e sempre ensinando a nossos filhos a serem corajosos e desejarem o bem. Como pensava, ela realmente tinha muito para ensiná-los.

Uma das coisas que mais amava era quando Katniss cantava uma canção de ninar. Eu ficava espreitando na porta, com os olhos fechados e a cabeça recostada na parede. Amava escutar a voz por quem me apaixonei. Aquela voz que fez até mesmo os pássaros, que cantavam na janela, resignar-se ao silêncio para apenas ouvi-la.

Com o tempo, as coisas realmente voltaram aos seus eixos. O distrito 12 havia sido totalmente restaurado. Novas famílias habitavam ali. Escolas haviam sido construídas, inclusive minha filha estudava em uma delas.

Nas escolas os professores dão aulas sobre os jogos e a menina sabe o papel que desempenhamos nesses eventos. O menino saberá daqui a alguns anos.

Katniss tem medo de apavorá-los com aquelas histórias, mas eu a conforto sempre, dizendo que temos um ao outro e podemos contar aquelas coisas de uma forma que os torne pessoas corajosas e não amedrontadas.

Mais uma vez, olho para ela; porém, agora noto que esta também me observava.

Katniss abre um sorriso sem jeito e cora em seguida. Eu rio e ela me acompanha. Amava o fato de sua ingenuidade de pureza ter perdurado no tempo. Adorava isso nela e seria lastimável que se perdesse com o passar dos anos.

Por um momento me perco em seu rosto. Acho que finalmente consigo enxergar além de seu sorriso; o sorriso que eu lutei tanto para ressurgir. Katniss estava feliz.

Ela e eu nos recuperamos com o tempo. Restauramos nossos corações e construímos uma vida juntos. Como havia a prometido, sempre ajudando um ao outro.

E até hoje isso vem dando certo. Desde aquela última vez, não tive nenhuma crise relacionada à Katniss. Havia aprendido a me controlar. Às vezes, algumas lembranças tumultuadas tentavam se infiltrar em minha mente; todavia, não eram o bastante para fazer-me duvidar da realidade que vivia.

Katniss ainda tinha seus pesadelos. Sempre os teria, sabia disso. E quando a madrugada de Katniss é tomada por pesadelos, suas manhãs são inevitavelmente desagradáveis; pois ela teme. Teme que tudo que conseguiu lhe seja tirado. Teme da mesma forma quando estava grávida da nossa garotinha. Teme por mim. E são nesses momentos que eu me apresento firme e forte ao seu lado. Para ampará-la e mostrar-lhe, mais uma vez, que temos um ao outro. Para sempre.

Tenho meus próprios temores. Minhas próprias perguntas, mas são nesses momentos que olho para Katniss, buscando refúgio no meu porto seguro. Seus olhos cinzentos.

Olho mais uma vez em seus olhos e, desta vez, enxergo o reflexo dos meus sonhos, e o que vejo em seguida, traz-me um acalento indescritível ao coração. Quando olho em seus olhos, eu enxergo o amor.

E é nesse momento, que encontro todas as respostar para minhas perguntas. Não importa o que aconteça, ou quanto tempo passe, Katniss e eu estamos a salvo. Juntos.

E no fim, era realmente isso que importava pra mim.

Meus devaneios são interrompidos pelo alarido de meus filhos. Eles estão puxando Katniss, chamando-a para os levarem ao lago.

Assim como Katniss, eles simplesmente eram fascinados por aquele lugar. Ele era recheado de boas lembranças de Katniss e seu pai, e, agora, também, está enchendo-se de histórias de nossos filhos.

E então, depois quando ela me pede sorrindo:

— Vem comigo?

Retribuo seu sorriso, como sempre fazia e disse logo em seguida:

— Sempre.



Notas finais do capítulo

E ai, oque acharam? PEETA É UM FOOOOOOFO!
QUERO UM PRA MIM D; KKK
COMENTEEEM!
BEIJOOS!