Eternal Flame escrita por bandolinz


Capítulo 10
Cinema






Sonhei que estava numa floresta correndo atrás de um lobo castanho avermelhado. Jacob. Estava tudo muito escuro e o lobo facilmente sumia do meu campo de visão enquanto eu me esforçava para alcançá-lo. Eu me sentia pesada, lenta, frágil, humana demais. Uma angústia crescia em mim, não era como se o lobo estivesse brincando de se esconder, era como se ele de fato quisesse me deixar para trás. Forcei minhas pernas a correrem me sentindo ridiculamente limitada. Eu gritava para que ele voltasse, mas era em vão. Segui seu rastro até a beira de uma cachoeira, a mesma que pulamos juntos no Brasil. Mergulhei sem pensar duas vezes.


– Não! – despertei sufocada.


Concentrei-me em normalizar minha respiração. Foi só um sonho ruim, está tudo bem, repeti para mim mesma, ainda aflita com a lembrança nítida do sonho. O céu estava cinza-escuro, perto do amanhecer. Saí da cama sabendo que não conseguiria mais dormir. Desci as escadas e me deparei com Alice ajeitando alguns arranjos enquanto dançava pela sala, cantarolando em sua voz perfeita.


– Nessie! – ela parou se virando para mim e sorrindo incrivelmente animada. – Acordou cedo.


– Tive um pesadelo. Porque está tão animada? – murmurei sentando no sofá.


Ela saltou de trás do sofá graciosamente sentando ao meu lado com o sorriso cravado em seu rosto de fada.


– Tive uma visão. Edward e Bella decidiram antecipar a volta da viagem.


– Que maravilha, Alice! – abracei minha tia não contendo a felicidade, não vejo meus pais há quase um mês, a saudade estava falando alto o suficiente.


Se eu não tivesse o restante da minha família ao meu lado e principalmente Jacob não sei o que teria feito durante todo esse mês. Apesar disso eu sabia que eles mereciam aquela segunda lua de mel, já que eu sabotei a primeira.


– Não posso ver para quando porque ainda não compraram as passagens, mas aposto que será logo. – ela sorriu de novo.


– Que bom. – assenti um pouco emocionada.


Ela fez uma careta para mim.


– Deveria voltar a dormir, Nessie.


– Não sei se consigo. – confessei.


– Vem. – ela me puxou para seu colo, me acomodei aceitando o carinho. – O dia vai parecer muito longo para você se não voltar a dormir. Além do mais, Jacob vai demorar a aparecer.


Senti uma tranqüilidade me dominando e conclui que Jasper estava por perto, não me dei ao trabalho de conferir, apenas aceitei sua interferência abrigando a sensação de paz, voltei a dormir. Dessa vez sem sonhos.


Eu ainda estava desfrutando do meu sono quando ouvi murmúrios ao meu redor. Sussurros quase inaudíveis, porém repletos de tensão.


– O que foi Alice? O que você está vendo? –Jasper perguntou com veemência.


– Alguns vampiros. Está indistinto... – Alice respondeu sem vida, um tanto contrariada.


– São conhecidos? – Jasper continuou metodicamente.


– Representam algum perigo? – pressionou Carlisle.


– Quantos? – Emmett quis saber não disfarçando o entusiasmo.


– Ei, assim vão acordá-la. – Jacob censurou, em um tom mais baixo que os outros.


Jacob estava aqui?


– Por que não dá o fora, cachorro? – Rosalie rosnou.


Abri os olhos de repente.


– Jake?


– Estou aqui meu amor. – ele sorriu completamente alheio ao clima pesado que pairava na sala.


Jacob estava ajoelhado na beira do sofá, como Jasper, a diferença era que meu tio e o restante da família que se reunia em torno de nós tinham a atenção voltada para Alice.


– Saia daqui, Jacob. Eu preciso ver. – ela ordenou.


Ele bufou, lançando um rápido olhar insolente para Alice. Antes que Jacob começasse a discutir puxei sua mão o levando para o canto da sala. Ele não ofereceu resistência.


– O que houve?


– A nanica teve alguma visão, mas até agora não disse nada de útil.


– E não vai dizer se você não mantiver o focinho longe daqui! – Rose retrucou.


– São dois vampiros. Estão se aproximando... – Alice recomeçou com os olhos opacos fitando o vazio.


– De Forks? – engasguei.


– Não. – respondeu Alice, a voz fria como o gelo. – Eles vão ficar na cidade. Estão decidindo entre Olympia e Seattle. Não precisamos nos preocupar, eles querem um lugar com uma quantidade significativa de humanos para caçar depois vão para o Norte.


Jacob soltou um rosnado baixo, porém repleto de fúria. Seu maxilar estava rígido.


– Isso é... Repulsivo.


– Não podemos fazer nada, Jacob. Isso não é da nossa conta. – Carlisle alertou em um tom conformado.


Qualquer um podia ver que aquilo o chateava profundamente. Meu avô sempre prezou a vida dos humanos em primeiro lugar. Aliás, notei que ele não ia trabalhar há alguns dias. Isso me deixou intrigada, Carlisle nunca foi de tirar férias, licença ou algo do tipo.


Todos se dispersaram voltando à normalidade. Jacob ainda segurava minha mão com firmeza.


– Vamos sair daqui. – ele disse rápido.


– Espera. Preciso me trocar. – não resisti aos apelos da vaidade e passei a mão no cabelo me perguntando se eu estava muito mal.


– Você está linda. – ele sacudiu a cabeça como se aquilo fosse algo óbvio – Um pouco assanhada, é verdade, mas eu até gosto. – brincou, entretanto o ângulo tenso de suas sobrancelhas não se desfez.


Fiz um biquinho.


– Viu? Você confessou. Estou assanhada. Vou me arrumar.


Girei nos calcanhares, mas ele não soltou minha mão, pelo contrário, me puxou de volta e fui de encontro ao peito dele. Senti minhas bochechas formigarem enquanto Jacob me olhava com ar de idolatria. Eu gostava daquilo, embora nunca conseguisse me acostumar, me manter sob controle, as ações de Jacob sempre me causavam reações frenéticas.


– Vê se não demora. Não tem sentido algum ficar aqui sem você. – ele me disse e então pressionou os lábios nos meus.


– Nossa, – dei um meio sorriso em completo êxtase – acabei de me apaixonar por você. De novo.


Jacob sorriu completamente ensolarado, parecendo ter esquecido de vez a história dos vampiros que caçariam humanos inocentes algumas milhas daqui. Uma parte de mim suspirou aliviada, apesar de ser lamentável, não queria que ele se chateasse com algo que estava fora do nosso alcance.


– Poxa... Que meloso. Esses casais de hoje em dia são muito doces. – ouvi Emmett comentar não de muito longe.


– Olha só quem fala! Você e a Rose quase não se desgrudam, mesmo depois de séculos. – Alice respondeu. Valeu Alice!


Eu ainda estava imersa no olhar de Jacob, não prestava muita atenção à conversa dos dois, nem teria considerado o comentário inicial se não fosse de Emmett. Eu andava muito atenta a qualquer movimento dele, meu titio já aprontou demais.


Afaguei o rosto de Jake.


“Eu volto logo. Te amo mais do que tudo.”


Ele sussurrou um eu também, depois disparei para meu quarto. Tomei banho, troquei de roupa e me arrumei o mais rápido possível para ir ao encontro dele.


– Pelo menos meu cérebro não foi contaminado com água oxigenada. – ouvi Jacob falar em um tom divertido.


Ele e Rose estavam discutindo. Mais uma vez. Suspirei pesado. Será possível que eles não conseguiam ficar cinco minutos num mesmo ambiente sem soltar faíscas?


– Um dia você vai se engasgar com a própria saliva de cachorro e Carlisle não vai estar aqui para prestar os primeiros socorros.


Desci as escadas pulando dois em dois degraus.


– Vamos Jake!


– Pra onde? – Emmett quis saber.


– Vamos dar uma volta na floresta, algum problema?


Ele pensou por um segundo.


– Não. Podem ir. – ele disse soberano.


Emmett estava adorando aquela palhaçada toda.


– Vai chover. – Alice avisou com a voz tediosa.


– Sempre chove. – acenei para eles saindo com Jacob.


– Desculpa por isso, Jake. Não sei como você não desistiu de toda essa loucura ainda...


– Ei! – ele me interrompeu levantando a mão – Esqueça isso. Nunca vou desistir se essa loucura me traz você.


Caminhamos até uma clareira próxima ao chalé dos meus pais, onde Jacob construiu um balanço para mim, muitos anos atrás. Corri para o balanço e Jacob me seguiu.


– Então, o que quer fazer? – Jake perguntou.


– Não sei. – me balancei um pouco, pensativa. – O que os casais normais fazem?


– Os normais. – ele repetiu rindo de leve e sentou na grama de frente para mim. – Sei lá, praia, jantar, cinema, shopping... Você escolhe. Tudo que os “casais normais” – ele fez as aspas com os dedos – fazem nós podemos fazer melhor.


Um calor subiu pela minha espinha ao ouvir aquela declaração. Claro que tudo que fizéssemos juntos seria maravilhoso e incomparável a qualquer experiência humana. Eu tinha Jacob, o lobisomem mais lindo e atencioso do mundo, melhor amigo, melhor parceiro. Até o mais perfeito dos homens ficaria vergonhosamente abaixo dele. Jacob piscou e deu um sorriso malicioso. Era tentação demais para mim. Atirei-me como uma flecha do balanço para os braços dele. Jake me pegou de forma certeira, segurando firmemente minha cintura quando eu ainda estava no ar, depois me envolveu em um abraço. Rolamos algumas vezes na grama, meus olhos não conseguiam desviar daquele sorriso exuberante até que ele parou ficando por cima de mim, mas sustentou-se com cuidado para eu não sentir seu peso.


Jacob me beijou e eu segurei seus ombros largos com força o atraindo para mim. Nossos lábios se moviam urgentes, eles já haviam assimilado que eram raros aqueles momentos de liberdade. Ele desceu em beijos pelo meu pescoço e eu aproveitei para recuperar o fôlego. O céu estava cinza escuro acima de nós e no momento que a chuva começou, veio feroz. Jacob voltou aos meus lábios parecendo nem perceber o temporal que despencava sobre nós. O corpo dele confortavelmente quente se moldava ao meu como se fossemos feitos um para o outro.


– Começou a chover. – arfei entre os beijos.


– Eu não me importo. – ele respondeu, as mãos percorrendo deliberadamente minha cintura e acompanhando a curva do meu quadril até a perna, então ele puxou-a para um encaixe em seu quadril.


Empurrei Jacob para o lado sem que nossos corpos se afastassem um centímetro e montei em cima dele segurando seu rosto entre minhas mãos. Nem eu, pensei satisfeita e lhe dei outro beijo. Seus dedos deslizaram pelas minhas costas, depois se agarraram à pele de minha cintura. Percorri os músculos de seus braços até ir de encontro às suas mãos. Nossos dedos se entrelaçaram e eu levei as mãos dele de encontro à grama, empregando um pouco de força na tarefa. Jacob me encarou com um sorriso torto. Meu coração batia rápido e forte, minhas emoções pareciam estar a caminho de uma explosão.


– Antes que eu perca o foco de vez, cinema está ótimo para mim.


Ele sorriu arrebatadoramente e eu fiquei na dúvida se o beijava de novo ou se continuava ali, apenas admirando aquele Adônis bem diante de mim. O impulso da carne foi maior e eu avancei em seus lábios outra vez. Tateei seu corpo procurando a barra da camisa molhada e a atirei para longe.


– Port Angeles? – ele sugeriu com a voz rouca em meu ouvido.


– Qualquer lugar. Desde que fiquemos longe de Olympia e Seattle. – espalmei minhas mãos no peitoral dele, gostando do que encontrei.


– Foi o que eu pensei. – com um ofegar intenso ele voltou a colar a boca na minha.




Estendi três opções de roupas sobre a cama, cruzei os braços e lancei um olhar suplicante para Alice.


– Qual delas você acha melhor?


– Como posso saber se não me diz para onde vai? – ela respondeu com a expressão frustrada.


– Alice – gemi me compadecendo dela – sabe que eu não posso dizer, se não o Emmett irá nos sabotar. Ainda não sei como ele permitiu que eu e Jake saíssemos a sós.


– Ele ainda tem um pouco de senso do ridículo. – ela franziu o lábio e voltou a atenção para os modelos expostos. – Se tratando de Jacob vocês não devem ir a nenhum lugar refinado...


– Alice! – censurei.


– O que foi? Estou errada? – ela ergueu uma sobrancelha.


Revirei os olhos.


– Você fica absurdamente igual ao Edward quando faz isso. Posso continuar?


Gesticulei para que ela continuasse.


– Eu apostaria no básico. O jeans, camisa de algodão e o casaquinho. Desde que você use as botas Chanel. – Alice correu para o closet e voltou quicando de animação com as botas nas mãos e os olhos dourados brilhando. – Você vai ficar linda nelas!


Sorri em agradecimento e peguei as botas.


– Te ajudar a escolher a roupa que vai usar torna um pouco menos frustrante o fato de eu não ter a menor idéia de para onde você vai. Sabe que isso acaba comigo! – ela fez um muxoxo.


Claro que era uma tortura para Alice, ela que sempre sabia de tudo antes de todos, nunca poder ver nada a meu respeito, também não ajudava eu andar com um lobisomem para cima e para baixo enchendo o dia da família de pontos cegos.


– Obrigada, Alice. – abracei a pequenina.


– Nem sonhe em dizer que ela é sua tia preferida. – Rosalie encostou-se na soleira da porta do meu quarto.


Sorri para ela. Claro que não ia dizer uma coisa dessas, Rosalie era como uma segunda mãe para mim.


– Nessie, não volte muito tarde, está bem?


– Pode deixar Rose.


– A casa fica sem vida quando você não está. – ela estendeu os braços para mim e eu abracei minha tia loira.


– Essa família me mima muito.


– Você tem passado tempo demais com Jacob, o cheiro dele está impregnado em você. – Rose comentou com repulsa.


– Ah, não é pra tanto. – me libertei de seu abraço ressentida.


– Não fique chateada comigo, só estou dizendo a verdade.


Alice saiu do closet e segurou a mão de Rosalie puxando-a para fora.


– Você só está com ciúmes por que ela agora passa mais tempo com ele do que com você.


– Estou mesmo. – Rose admitiu com um dar de ombros leve enquanto saía do quarto.


– Nós sabíamos que isso ia acontecer um dia, então não se faça de rogada. – ouvi Alice sussurrar no corredor com tom de sermão.


Corri para a porta tentando entender aquela frase.


– O que quer dizer com ‘sabíamos que isso ia acontecer um dia’, Alice?


Rosalie lançou um olhar furioso para Alice, esta me olhou com indiferença. Se eu a peguei de surpresa, ela não demonstrou isso.


– Palpite. Eu sempre achei que ele seria o cara certo para você.


– Aham. – balbuciei, ainda com uma pulga atrás da orelha.


– Melhor se apressar, Nessie! Vai esperar que Emmett mude de idéia? – ela lembrou.


– Não, não. – soprei beijos para as duas e fui me arrumar.


Jacob ainda não havia chegado quando terminei de me arrumar, desci para esperar.


– Nessie, você está tão linda. – Esme elogiou em júbilo.


– Obrigada vovó.


– Dá um abraço no seu velho tio aqui! – Emmett me pegou do segundo degrau e me girou pela sala em um abraço apertado.


– Vai amassar a roupa dela! – Alice trinou.


– Isso, mesmo tio. Já pode me soltar agora.


Ele riu, um riso alto e grave, então me soltou.


– Vai nessa. O gatinho tá lá fora.


Acenei para todos e fui para a garagem, refletindo sobre a palavra gatinho. Ela não combinava com Jake, tanto pelo diminutivo quanto pela escolha do animal.


Jacob esperava na garagem, escorado em sua moto preta de braços cruzados, com uma calça jeans, tênis e camisa preta. Estava lindo, é claro, mas eu não pude deixar de fazer um lembrete mental a mim mesma, de convencê-lo a aceitar um banho de loja qualquer dia desses.


– Nossa! Quanta produção. – ele me olhou da cabeça aos pés e sorriu. – Acho que vou deixar muitos caras morrendo de inveja.


Corei e escondi meu rosto em seu abraço.


– Você está com o cheiro do Emmett. – o rosto dele se enrugou em uma careta.


– É. Ele não vem, mas seu cheiro nos acompanha. – uni as sobrancelhas imaginando se foi só por isso que Emmett me abraçara daquele jeito agora a pouco.


Jacob riu e pressionou os lábios nos meus.


– Vamos, já está escurecendo.


– Você dirige?


– Claro, claro. – ele passou o braço pela minha cintura me acompanhando até o carro.


A viagem para Port Angeles foi rápida e confortável. Já era noite quando chegamos. E Jacob estava certo. Atraímos mais olhares do que eu esperava, alguns para mim, outros para ele, mas a maioria nos olhava como um casal absurdo, como se algo estivesse contrastando demais entre nós. Procurei não pensar no por que disso.


Compramos ingressos para um filme de suspense, sem escolher muito, não havia nenhum que nos despertasse um interesse especial.


– Eu não acredito nisso. – Jacob deu um sorriso debochado quando estávamos na fila para entrar na sessão.


– O que foi?


– Aquele cara ali – ele cochichou indicando com um sutil movimento de cabeça um homem loiro, acompanhado por uma garota pálida de cabelos escuros, comprando pipocas um pouco adiante.


Olhei com atenção e quando ele se virou, o reconheci. Mike Newton. Ele foi à nossa casa no casamento de Emmett e Rosalie, cerca de cinco anos atrás.


– Ah. Meu pai não gosta dele. – comentei.


– Nem eu. Esse é o problema de sair por aqui, corremos o risco de esbarrar com patetas como aquele. – Jacob encarou Mike e o garoto se empertigou quando seu olhar nos focalizou.


Certamente ele reconheceu Jacob, mas tenho certeza que não a mim. Afinal, quando fomos apresentados eu era a garotinha órfã de quatro anos adotada por Edward e Bella. Não havia como ele fazer associação ao que eu era agora.


Apoiei as mãos no ombro de Jacob e beijei seu rosto.


– Edward uma vez me contou que esse tal Mike era afim da mamãe. – sussurrei.


Jacob beijou meus lábios de leve, abraçou minha cintura e me girou dando as costas para o outro casal.


– Ele parece estar mais interessado em você agora. – Jacob resmungou com a voz ríspida.


Olhei para Jacob que fitava a parede, os lábios apertados numa linha reta. Quando voltei o olhar para Mike com certeza minha expressão não era das mais amistosas, ainda assim ele teve a audácia de piscar para mim.


– Que cretino! Ele está acompanhado. – cochichei indignada.


– Deve ser o charme irresistível das Swan. – Jacob ergueu as sobrancelhas quando fez analogia ao sobrenome de solteira de minha mãe e agarrou minha mão indo para a escura sala de cinema.


– Eca! Tem coisa mais bizarra do que ficar com um cara que já saiu com a sua mãe? – argumentei sem disfarçar a repulsa que esse Mike me causava. Talvez meu pai tivesse me influenciado desde cedo, talvez não. De todo modo eu rejeitava a imagem daquele frangote ao lado da minha mãe e pior ainda, ao meu lado.


– Tem sim. – Jacob respondeu rápido, sem me olhar, a voz tão séria e sombria que chegou a me assustar.


– Tipo o quê? – disfarcei e exigi de forma quase insolente, o que deu em Jacob para defender Mike Newton?


Jake sentou e sem aviso prévio me puxou para si, dei um meio giro caindo em seu colo. Ele aproximou o rosto do meu com a expressão fechada e misteriosa, vi que a intenção era me assustar, mas não estava funcionando por aí.


– Tipo sair com um lobo e voltar para uma casa de sanguessugas. – senti o hálito quente dele soprar em meu rosto, distraindo meus sentidos, retardando minha resposta. Apenas mantive os olhos fixos nos dele, fascinada. – Isso sim é bizarro. Se você lida bem com isso, sair com alguém que já gostou da sua mãe não é nada demais.


Franzi o rosto sem entender aonde ele queria chegar.


– Está me dizendo para sair com Mike Newton?


Jacob arregalou os olhos, pasmo por um segundo, depois piscou duas vezes.


– Não! – ele quase gritou o que atraiu alguns olhares.


Reparei que o filme já havia começado.


– Não. – repetiu como se eu acabasse de proferir uma blasfêmia. Quem estava enlouquecendo aqui era ele. – Você é minha, – seu nariz roçou em meu queixo e seguiu caminho até minha orelha, estremeci com a profundidade de sua voz rouca – de mais ninguém.


Tive o ímpeto de perguntar que diabos ele estava tentando dizer, mas logo sucumbi ao carinho. Mike que voltasse para as profundezas do esquecimento, de onde nunca devia ter saído.


– Gostei disso. – afaguei o rosto dele e repeti a cena que acabara de acontecer, dando ênfase à parte do “Você é minha, de mais ninguém.


Ele sorriu e me beijou com ternura. Minhas mãos deslizaram pelo rosto dele pousando em seu pescoço. Aprofundei o beijo, desfrutando o momento. Nossos lábios movendo-se em sincronia perfeita.


Ouvi murmúrios incomodados, mas só quando algumas pipocas nos atingiram – com força suficiente para me fazer senti-las – foi que eu realmente me dei conta de que eu ainda estava no colo de Jacob e da imagem que nós estávamos passando. Interrompi nosso beijo e me joguei na cadeira ao lado constrangida.


– Qual o problema? – Jacob questionou alarmado.


Bem, talvez elas não tivessem força suficiente para fazer com que ele sentisse. Toquei o pescoço dele e expliquei.


– Realmente te incomoda? Se você não tivesse pulado como quem leva um choque eu nem teria notado.


– Não gosto. Fica parecendo que nós somos dois desesperados. – fiz um biquinho.


– Mas eu sou – ele disse bem humorado, o rosto próximo do meu – desesperado por você.


Tentei conter o sorriso, em vão. Quando virei o rosto para encará-lo, Jacob avançou outra vez em meus lábios. Retribui já não me importando com o resto, para falar a verdade não havia nada em minha mente além de Jake e seu beijo, sua língua quente e macia encontrando a minha.


– Esses jovens de hoje são muito desavergonhados! – gritou uma voz de velhinha, daquelas bem ranzinzas.


Escondi o rosto no ombro de Jacob. Eu também poderia ter aberto um buraco no chão e enterrado minha cabeça.


– Estranho. – Jacob murmurou.


Eu não queria perguntar, não queria dar nem mais um pio naquela sala, contudo a curiosidade foi maior.


– O quê? – perguntei num fio de voz.


– Não tem ninguém lá atrás.


– Isso não é possível, eu tenho certeza que... – desisti da frase quando meus olhos percorreram as duas fileiras vazias atrás de nós, haviam apenas duas garotas sentadas nas cadeiras do canto, completamente alheias a nós, e o mais importante, sem pipoca.


Num surto de perspicácia percebi o que estava acontecendo, de onde vinham a voz e as pipocas. Claro. Como eu não pensei nisso antes?


– Emmett. – balbuciei.


Uma risada grave foi aumentando aos poucos, na mesma proporção em que Emmett aparecia em uma das poltronas que até então aparentava estar vazia. Senti meu rosto queimando de raiva, mordi o lábio inferior com força imaginando se seria agora que eu começaria a chorar. Jacob xingou baixo. A gargalhada de Emmett ocupava toda a sala e agora sim as pessoas começavam a protestar, afinal, o filme não era uma comédia.


– Vamos lá, baby! Foi divertido! – Emmett ficou de pé abrindo os braços.


– Não foi não! – grunhi entredentes, tão baixo que apenas ele e Jacob poderiam ouvir.


Jacob apertou minha mão.


– Nessie, você está bem? – perguntou angustiado, com a mão livre ele puxou meu rosto para que eu o olhasse.


Tudo estava turvo, meio embaçado, pisquei algumas vezes e senti as lágrimas rolarem.


– Ah não... Não precisa chorar, Ness – Jake disse de modo delicado. – Vem, vamos sair daqui.


Não vi o corredor largo por onde entramos, a porta de saída ou se havia alguém em nosso caminho, apenas senti as luzes fortes quando chegamos ao saguão, Jacob praticamente me carregava. Eu não sei o que deu em mim para reagir daquela maneira, talvez tivesse chegado ao meu limite emocional. Em um mês de perseguição, minha pior reação foi quando atirei o vaso italiano de Esme na cabeça de Emmett, e ainda assim, acabamos rindo disso depois. Jacob me colocou em um sofá, fiquei entre ele e Emmett. Poderia até me causar um choque térmico, o frio que emanava de um e o calor que irradiava do outro.


– Viu o que você fez? Parabéns, idiota! – a irritação na voz de Jacob era quase palpável.


– Poxa, Ness... Me desculpa, nunca imaginei que você reagiria desse jeito. Fiz algo tão mau assim? – Emmett praticamente choramingou com a cara mais inocente e angelical que eu já vira em minha vida, pior era saber que ele era bobo o suficiente para estar sendo sincero.


Enxuguei as lágrimas e respirei fundo antes de responder. Senti a mão de Jacob movendo-se em círculos em minhas costas, tentando me acalmar, estava funcionando.


– Não, você não fez nada de mais, Emmett. Só estava sendo você. – dei um meio sorriso. – Eu é que tive uma reação exagerada.


– Você me perdoa então? – ele perguntou com os olhos brilhantes.


– Claro, eu sempre perdôo, não é?


Emmett se levantou me puxando em seus braços para um abraço de urso.


– Por isso você é a minha sobrinha preferida! – a voz dele vibrava de animação outra vez.


Revirei os olhos.


– Sou sua única sobrinha.


– Mas eu gosto de dizer isso. – Emmett me colocou no chão. – Pode não contar sobre o que aconteceu à Rose? Ela vai me deixar uma semana sem os braços se souber que te fiz chorar!


Eu ri.


– Bem que merecia. – Jacob deu um soco no ombro dele.


– Eu posso recompensar. Quer que eu compre ingressos pra próxima sessão? – Emm propôs.


– Não precisa, vamos para casa. – decidi.


– Você quem manda! – Emmett sacudiu os ombros.


– Tudo bem, Jake?


– Claro, claro. – ele beijou minha testa.


– Onde vocês deixaram o carro? – meu tio perguntou enquanto saímos.


– Em um estacionamento na outra rua.


– Vou com vocês. Corri até o fim da floresta e depois peguei um táxi. – ele sorriu como se esperasse que alguém lhe desse os parabéns por isso, apenas assenti.


Caminhamos em silêncio. Eu e Jacob de mãos dadas e Emmett acompanhando nosso ritmo a alguns centímetros de mim. A rua estava vazia, com algumas poças formadas pela chuva de hoje à tarde. O cenário perfeito para um filme de terror, observei distraída.


– A propósito, Edward e Bella voltam amanhã. – Emmett anunciou de repente. – Alice viu assim que vocês saíram. Por isso eu vim, minha despedida de babá!


Sorri, não pela piadinha sem graça dele, mas porque meus pais finalmente estariam de volta. Bem, quando Alice avisou que seria para breve, ela quis dizer breve mesmo.


Jacob parou de andar. Seu corpo enrijeceu ao meu lado, a mão apertou a minha com mais força do que o normal. Olhei para ele, os pelos de sua nuca estavam eriçados. Seus olhos percorreram com pressa os prédios à nossa volta, as narinas infladas como se estivesse farejando algo.


– Jake! – chamei ansiosa – O que está acontecendo?


Não houve resposta. Em vez disso ele olhou para Emmett e meu tio assentiu repentinamente concentrado.


– Droga. – Jacob resmungou com ele mesmo.


– Jake, está me assustando. Por favor. – gemi segurando seus braços.


Com certa relutância, ele se virou para mim. O rosto retorcido em uma careta estranha, seu semblante era tenso, com uma mistura de angústia e lamento. Ele se limitou a me olhar, como se tentasse resolver mentalmente um cálculo muito complicado. Quem respondeu foi Emmett.


– Estão nos seguindo. – ele disse impaciente então seu tom adquiriu uma empolgação que reconheci. – Vai comigo nessa, lobo?


Foi o que bastou. Meus dedos se apertaram ao redor dos braços de Jacob. Senti um arrepio gelado percorrer minha coluna e meu estômago se revirou de forma nauseante. Puxei uma quantidade boa de ar para os pulmões, tentando me manter sob controle. Os vampiros da visão de Alice. Maldita sorte, na dúvida entre Seattle e Olympia vieram parar aqui. Se estiverem nos seguindo com certeza perceberam o cheiro completamente diferente que Jacob tem. Pior se tiverem instinto competitivo – coisa que a maioria deles tem – vão se sentir ameaçados pela presença de outro vampiro, Emmett.


– Não façam isso. – implorei engasgada. – Vamos embora.


– E levá-los até Forks? Acho que não. – Jacob sorriu sarcástico.


– Vamos acabar logo com isso! – Emmett vibrou em antecipação.


O sorriso se esticou no rosto de Jacob, agora de forma ameaçadora e verdadeiramente empolgado.


– Já faz algum tempo que eu não tenho uma oportunidade como essa pra me divertir. – Jacob pareceu enfim notar a preocupação em meu rosto. – Ei, não se preocupe, Ness. Estamos dois a dois, vai ser moleza!


– É, vai ser tão fácil que quase perde a graça. – Emmett completou.


– Você quis dizer três a dois. – corrigi automaticamente.


– Não, você espera no carro. – Jacob ordenou colocando a chave em minhas mãos.


– Isso não é justo... – comecei, então Jacob me pegou em um abraço esmagador.


– Voltaremos logo. – ele sussurrou em meu ouvido.


– Jake, se alguma coisa acontecer com você eu juro que eu...


– Shiii, vai ficar tudo bem. – ele me interrompeu de novo. – Eu prometo.


– Vai ser pra hoje ou só pro mês que vem? – Emmett chamou.


Jacob me soltou e pressionou os lábios nos meus. Fiquei grata por ter chorado alguns minutos atrás ou eu estaria fazendo isso agora. Jake me observou por um segundo que pareceu uma hora. Minha mão ainda estava agarrada a dele, recusando-se a largá-lo. Ele se afastou devagar, Emmett piscou para mim e correu para um beco estreito. Jake o seguiu. Vi os dois desaparecerem enquanto eu continuava imóvel com as chaves na mão.